Desde o momento em que suas pálpebras de bebê se abriram pela primeira vez para este mundo maravilhoso de beleza ao seu redor, ela foi o ídolo de corações amorosos — pais afetuosos, irmãos dedicados, amigos leais. Ela parecia ter sido criada para a felicidade — para amar e ser amada.
Seu corpo fora moldado pela mão de um artista, bela de rosto e forma, acompanhada de uma natureza profunda, ardente, verdadeira e, acima de tudo, aquele poder misterioso, o magnetismo pessoal, que inconscientemente atrai e mantém cativos todos os corações dentro do alcance do seu círculo. Apesar de tudo isso, ela viveu sua vida, no verdadeiro sentido, sozinha — contudo, não totalmente sozinha; ela vivia em um reino ideal feito por ela própria, pois ela nasceu já uma artista e musicista nata — uma idealista.
Em grande parte do tempo ela habitava a “Solidão da Alma” e quando em companhia, embora fosse muito sociável, sua conversa raramente dava qualquer indício do jardim encantado no qual vivia e construía seus castelos de ar.
Em um dia de verão, tendo a Mãe Terra coberta de verde como seu leito, sombreada pelos ramos pendentes do seu carvalho gigante e favorito, lar de um pássaro zombeteiro que derramava sua melodia fluida, ela permanecia deitada e sonhadora, observando as grandes nuvens ondulantes, brancas e felpudas como bancos de neve flutuando através do espaço azul, ilimitado e impenetrável, enquanto sua alma se esforçava intensamente para penetrar nos mistérios além dele.
No silêncio do crepúsculo místico, quando o grilo entoava seu canto melancólico e as miríades de estrelas cintilantes surgiam sobre o escuro dossel púrpura lá em cima, como diamantes espalhados por uma mão invisível, todo o seu ser se lançava em anseio por aquele “Algo” — indefinível, porém insistente, que ela soube intuitivamente ser sua herança divina.
As vibrações harmoniosas de som da Natureza eram para ela como uma música das esferas celestiais: o tamborilar das gotas prateadas de chuva, o tilintar do riacho murmurante, o vento suspirante, o mar com seu som, o rugido da catarata, as reverberações profundas do trovão… Tudo isso era, para ela, notas da Orquestra Eterna.
O mundo inteiro era, para ela, a Galeria de Arte de Deus. Toda a beleza da Natureza, suas montanhas enevoadas e veladas de púrpura, suas poderosas florestas com sua estranha melodia sussurrante, o mar entrelaçado com os raios cintilantes do luar, o glorioso pôr do Sol com o céu em chamas carmesins, douradas e púrpuras, desvanecendo-se nos tons opalinos de rosa, âmbar e lavanda — ah, tudo falava à sua alma do Infinito, do Desconhecido, pois “é da nebulosa terra de sombras do desconhecido que os Anjos vêm trazendo alimento às almas dos seres humanos”.
Da riqueza de sua natureza interior ela deu ao mundo incontáveis obras-primas de grandeza, beleza e emoção intensa, ajudando muitos a trazer à expressão seus poderes artísticos latentes; mediante seu toque mágico, vibrante com a melodia, ela encantava seus ouvintes, que eram balançados como juncos pela brisa de verão.
Assim, sua donzelice e jovem feminilidade terminaram com uma nota ocasional de tristeza e desapontamento mesclada ao seu “Salmo da Vida”[1]. Mas à medida que o tempo avançava, um a um ela via cada sonho e ideal da sua brilhante manhã acabar, cada castelo no ar se desfez, cada esperança acalentada ela viu murchar sob o sol escaldante do Saara e, por fim, as nuvens e sombras da aflição a envolveram até que não restasse sequer o mais tênue filete prateado; — como um mergulhador humano, ela havia sondado as mais íntimas profundezas da amargura mental e da angústia; havia sorvido “o cálice de absinto e fel” até as suas borras mais amargas… Um desespero negro se instalou nela como um sudário; verdadeiramente, ela se tornara uma mulher “de dores e familiarizada com a angústia e o sofrimento profundos”[2]. Seu sofrimento físico, muitas vezes, quase rompeu o Cordão Prateado e a alma, atormentada e aprisionada, ansiava e rezava pelo “Mensageiro Sombrio” que lhe concederia libertação. Mas tal fim não estava destinado a ela. As Leis de Deus operam perfeitamente. O que uma alma aprende, nada no Universo pode extrair dela.
Por meio da orientação de poderes invisíveis, ela foi conduzida a um Curador Auxiliar Invisível onde, tanto sua cura espiritual quanto a etérica foram realizadas (de modo que a parte física ela conseguiu restaurar) — uma foi chamada de “cura milagrosa”, pois essa alma havia sido uma errante afastada da Casa do Pai, tateando cegamente na escuridão em busca do Caminho que a levaria aos portais do seu Lar Celestial, ansiando por se reunir com o grande Espírito Divino do qual é uma Centelha, desejando o amor do Pai como “a agulha magnética anseia pela pedra-ímã que a atrai”; e quando o Portal fechado se abriu de par em par, uma torrente de luz brilhante e dourada irrompeu, envolvendo-a com sua glória sobrenatural — “a Luz reivindicou o que Lhe pertencia”, marcando um momento de profunda transcendência espiritual. A intensidade dessa iluminadora Luz de Amor era tão avassaladora que o próprio ar vibrava com ela, seu cérebro e nervos, seu sangue e músculos, todo o seu ser estremecia em uníssono com ela. Então se seguiu o êxtase devoto, o voo ascendente do Espírito aos Reinos espirituais, “vendo e comungando com o indizível”, onde veio a ela a plena percepção de que era um Ego (ou seja, um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) —, que ela era parte de Deus, que não poderia haver morte e que ela havia alcançado a unidade com essa Fonte Divina de todo ser, onde lhe foram revelados os mistérios da Vida e do Ser, o propósito da dor e do sofrimento. Com esse conhecimento vieram a exaltação moral, a elevação intelectual e um sentimento indescritível de júbilo.
Após o desvanecer dessa maravilhosa visão, ao retornar ao mundo objetivo, permaneceu aquele raio de Luz, firme, raro e inefável, “além de todos os sinais, descrição ou linguagem”. Uma paz e alegria infinitas encheram o seu coração; ambições mundanas, cuidados e ansiedades morreram à luz da gloriosa verdade que lhe fora revelada e em seu lugar nasceu o desejo constante e o poder dinâmico de conduzir outros ao Caminho da Vida que ela encontrou: “ir adiante e levar sua paz consigo” para que também pudessem conhecer a alegria e a “paz que excede todo entendimento”[3] — para cumprir aquilo “para o qual ela fora enviada”.
Ao lançar um olhar retrospectivo sobre as tristezas e angústias profundas, decepções e experiências terríveis da sua vida passada, ela as reconheceu como degraus, apenas um meio para um fim: prepará-la e conduzir a uma vida ainda mais elevada – inspirá-la a algo ainda mais nobre e melhor em sua obra futura, melhor do que tudo em seu passado. Ela é capaz de considerar aquilo que parecia sofrimento interminável e intolerável como algo de curta duração, quando visto à luz de uma eternidade sem fim; ela se regozija na gloriosa vitória que finalmente foi sua ao atravessar o mar de amargura — sendo a vitória não apenas para esta vida, mas para toda a eternidade. Esse olhar retrospectivo que analisa o passado sombrio também serve para inspirá-la com a mais suprema reverência e amor pelo Ser Onipotente que tornou possível a uma alma alcançar as alturas às quais ela chegou e saber que, apesar da sublimidade presente nisso, é apenas uma seção da glória que virá.
Sua alma de artista compreende plenamente que o fascínio reside não na beleza do pôr do Sol, mas na beleza invisível que ele desperta interiormente; não nas harmonias ouvidas, mas nos sobretons inaudíveis; que por trás de todas as belas e grandiosas “ilusões” da Natureza encontramos os fatos mais profundos e mais doces que somente o amor e a inspiração podem apreender. Eles são as Mãos que acenam e a Voz que suplica que todos devam ver e ouvir antes de sentir, de conhecer o Amor plenamente satisfatório que desejam — antes que a União Eterna seja consumada.
À medida que o tempo passava, ela chegou à compreensão de que estivera sob um dos “Sete Espíritos diante do Trono” — uma das grandes e exaltadas Inteligências Espirituais que são Ministros de Deus e Se esforçam para cumprir a vontade d’Ele, sempre visando ao mais elevado e último bem — Saturno, “o Espírito da Negação: o Poder que ainda opera para o bem, embora planeje o mal”. Ele é, primeiro, “o provador” que retarda, dificulta, obstrui, prende, restringe, castiga e exige ao máximo paciência, tolerância, resistência, autocontrole e submissão, sem outro propósito senão a obtenção da perfeição por todos os seres humanos e todas as coisas.
Ele é o Executor do mandamento do Mestre: “Sede perfeitos como vosso Pai no Céu é perfeito”[4]. Portanto, na realidade, sua missão é a mais elevada de todos os “Anjos Estelares” ligados ao Mundo Físico, pois Ele finalmente conduz toda alma humana à verdadeira humildade e ao estado no qual tudo o que é material é removido para que os poderes latentes do “Eu Superior” (Individualidade) possam atravessar a ponte feita por Ele mesmo (Saturno) e caminhar em direção à Personalidade — aquele estado em que a vontade pessoal se rende à Vontade Divina —, reconhecendo a Vontade do Pai como o Amor supremo que tudo abrange e atrai todos os seres humanos para Si, dizendo: “Seja feita a Tua vontade”[5].
Ele então se torna o “Iniciador.” Ele é o Deus que nos faz ter o controle de tudo (especialmente o autocontrole), pois é o Regente de Capricórnio, o Signo do bode, e “estar no controle” implica Iniciação, consiste na tentação até o limite de tudo o que podemos suportar, provas que exigem o máximo da nossa resistência e, naturalmente, a superação, a sublimação.
Ele dissipou as névoas que a faziam “ver como por um espelho, obscuramente”[6]; as ilusões e desilusões deste mundo desapareceram como se tocadas por um dedo mágico; ela é capacitada a olhar além das falhas e limitações da Personalidade de cada ser humano e a ver o “Ser Perfeito” interior — o Espírito em sua beleza e perfeição divinas; a sentir aquela simpatia amorosa e compaixão semelhante à de Cristo, que sente as dores, angústias e os sofrimentos de toda criatura vivente; ao errante ela desejaria proteger e resguardar “como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas”[7], — sentindo aquele amor universal que irradia espontaneamente tanto para o santo quanto para o pecador, príncipe ou camponês; dando livremente, de bom grado, “sem dinheiro e sem preço”[8] da sua abundância — pois “dai, e dar-se-vos-á: uma boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, vos darão; porque com a medida que usardes, vos medirão a vós.”[9].
As experiências pelas quais ela passou manifestaram para ela a Inteligência Cósmica, fazendo dela a mensageira do Deus de Sabedoria e Luz, uma reveladora dotada de grandes poderes espirituais e discernimento, uma líder no grande coro do mundo, sempre pronta a ajudar os outros a encontrar a harmonia e a beleza da canção de suas próprias vidas — e ajudá-los a cantá-la.
Ela é, agora e verdadeiramente, “uma serva de todos”[10]: investindo sua vida em “dar um copo de água fresca”[11], uma palavra de consolo, uma mão que eleva, uma mensagem útil em serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) à Humanidade.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – setembro/1920, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil
[1] N.T.: Poema Salmo da Vida de Henry Wadsworth Longfellow
Não me digas em tristes versos
Que a vida é apenas um sonho vazio!
Pois a alma que adormece está morta,
E as coisas não são o que parecem.
A vida é real! A vida é sincera!
E a sepultura não é o seu alvo;
“Pó és e ao pó voltarás”
Não foi dito a respeito da alma.
Nem alegria nem tristeza
É o nosso destino ou fim traçado;
Mas agir para que cada amanhã
Nos encontre mais longe do que hoje.
A arte é longa, e o tempo é passageiro,
E os nossos corações, embora fortes e valentes,
Ainda, como tambores abafados, batem
Marchas fúnebres rumo ao túmulo.
No amplo campo de batalha do mundo,
No acampamento da vida,
Não sejas como o gado mudo e conduzido!
Sê um herói na luta!
Não confies no Futuro, por mais agradável que seja!
Deixa o Passado morto enterrar os seus mortos!
Age — age no Presente vivo!
Com o coração no peito e Deus no alto!
A vida dos grandes homens nos lembra
Que podemos tornar nossas vidas sublimes,
E, ao partir, deixar para trás
Pegadas nas areias do tempo;
Pegadas que talvez um outro,
Navegando pelo solene mar da vida,
Um irmão náufrago e desolado,
Ao ver, recobre o ânimo.
Vamos, então, agir e lutar,
Com o coração preparado para qualquer destino;
Sempre alcançando, sempre perseguindo,
Aprender a trabalhar e a esperar.
[2] N.T: Is 53:3
[3] N.T.: Fp4:7
[4] N.T.: Mt 5:48
[5] N.T.: Mt 6:10 e Lc 22:42
[6] N.T.: ICor 13:12
[7] N.T.: Mt 23:37 e Lc 13:34
[8] N.T.: Is 55:1
[9] N.T.: Lc 6:38
[10] N.T.: Mc 9:35
[11] N.T.: Mt 10:42 e Mc 9:41
Um Estudante Preliminar na Fraternidade Rosacruz é qualquer irmão ou irmã que não seja hipnotizador, ou que não seja por profissão: médium, vidente, quiromante ou astrólogo e que começa a fazer o Curso Preliminar de Filosofia Rosacruz, que o capacitará nos conceitos básicos dos Ensinamentos Rosacruzes.
Já de início, um Aspirante à vida superior, que escolheu a Fraternidade Rosacruz para se desenvolver espiritualmente por meio do Método Rosacruz Cristão de Conhecimento Direto dos Mundos espirituais, procura esquecer de tudo o que aprendeu ao começar a fazer o Curso Preliminar de Filosofia Rosacruz.
E por que isso é necessário para ele? Para que não predomine o juízo antecipado nem o da preferência, mas para que mantenha a sua Mente em estado de calma e de digna expectativa. Assim como o ceticismo efetivamente nos cega para a verdade, assim também essa calma atitude confiante da Mente permitirá à intuição ou “sabedoria interna” se apoderar da verdade contida na proposição. Essa é a única maneira de cultivar uma percepção absolutamente certa da verdade!
Obviamente, há uma lógica ao sugerir esse tipo de comportamento ao Estudante Preliminar. O efeito desse esforço inicial resulta no cultivo de uma atitude mental suscetível de “admitir todas as coisas” como possíveis. Isto lhe permitirá pôr de lado, momentaneamente, até mesmo aquilo que geralmente se considera um “fato estabelecido”, e investigar se existe algum outro ponto de vista até então não notado sob o qual o objeto em referência possa parecer negro.
Certamente ele nada considerará como fato estabelecido, porque compreenderá perfeitamente quanto é importante manter a sua Mente no estado fluídico de adaptabilidade que caracteriza uma criança, ou seja: a criança não está imbuída do sentimento dominador de superioridade, nem inclinada a tomar aparência de sábio ou ocultar, sob um sorriso ou um gracejo, sua ignorância em qualquer assunto. É ignorante com franqueza, não tem opiniões preconcebidas nem julga antecipadamente, portanto é eminentemente ensinável. Encara todas as coisas com essa formosa atitude de confiança a que denominamos “fé infantil”, na qual não existe sombra de dúvida, conservando os ensinamentos que recebe até comprovar para si mesmo a certeza ou o erro.
Em outras palavras: aceitar como “verdade provável” para que possa estudar e pesquisar até que tenha a benção de descobrir, por si só, o fato como “verdade provada”!
A grande vantagem dessa atitude mental quando se investiga determinado assunto, ideia ou objeto, é evidente. Afirmações que parecem positivas e inequivocamente contraditórias, e que causam intermináveis discussões entre os respectivos partidários, podem, se conciliar.
Só a Mente aberta descobre o vínculo da concordância. Aos poucos, o Estudante Preliminar dedicado, persistente e que já entendeu que o caminho é “para frente e para cima” chega à conclusão e pratica o seguinte conceito: a única opinião digna de ser levada em conta precisa se basear no conhecimento.
O Curso Preliminar de Filosofia Rosacruz consta de 12 lições que se ministram por correspondência (e-mail ou carta).
Serve de texto o livro: Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, obra básica da Filosofia Rosacruz. Esse livro apresenta um esboço completo dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental – os Ensinamentos Rosacruzes –, na medida em que podem ser tornados públicos atualmente. Contém um esboço abrangente dos nossos processos evolutivos e dos processos evolutivos do universo, correlacionando Ciência e Religião.
Os conceitos básicos dos Ensinamentos Rosacruzes, que são fornecidos por meio do Curso Preliminar de Filosofia Rosacruz, estão nas 12 Lições e cobrem os seguintes assuntos:
Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz
Aquele que deseja servir como Auxiliar Invisível deve, durante o dia, cultivar uma atitude benevolente e, à noite, ao se deitar, depois de feito o Exercício Esotérico Rosacruz noturno de Retrospecção, rogar ao Adorável Espírito de Cristo, que enquanto o seu Corpo Denso repousar dormindo, lhe seja concedida a graça de cooperar na seara espiritual em benefício dos seus semelhantes.
Agora, para isso, é importantíssimo compreender os termos Rosacruzes: Alma e Corpo-Alma e como desenvolvê-los. Assim:
Vemos, pois, que a Alma se atrofia quando deixamos de alimentá-la, e que as ações bondosas, pensamentos de amor Crístico e serviço aos irmãos e às irmãs são o alimento para o crescimento dela. A ação tem três principais campos de operação, ainda que ela derivasse seu poder do que realmente somos, o Ego, por raios de energia. A ação no plano mental é o pensamento abstrato, a ação na natureza emocional é o sentimento, a emoção e o desejo, a ação na natureza física é movimento e a ação com o propósito de alcançar todas as relações da vida. O propósito de cada ato, seja mental, emocional ou físico, é induzido pelos pares de opostos como o amor e o ódio, altruísmo e egoísmo, generosidade e avareza, atividade e indolência etc., e seu fruto é incorporado na Alma, como consciência, que nos avisa em tempo de tentação ou nos provê do dinamismo para tudo quanta é Bom, Reto e Altruísta.
Há em todos nós duas naturezas inteligentes e distintas, chamadas o “Eu Superior” e o “eu inferior”, ou Individualidade e Personalidade, respectivamente. O “Eu Superior” ou Individualidade é o que realmente somos, um Ego que nos manifestamos de forma tríplice: um Tríplice Espírito – Espírito Divino, Espírito de Vida e Espírito Humano, alimentado pela Tríplice Alma – Alma Consciente, Alma Intelectual e Alma Emocional, respectivamente. Enquanto a Personalidade, ou “eu inferior” é o que achamos que somos realmente – mas não somos –, é composta dos três Corpos: Corpo Denso, Corpo Vital, Corpo de Desejos. O Elo entre a Individualidade e a Personalidade é o veículo Mente. Quando respondemos ao impulso do “Eu Superior”, renunciamos ao que nos é cômodo e útil a favor do que é proveitoso a muitos. Antepomos o Serviço de Deus a todos os valores materiais. Buscamos em todas as coisas e em tudo os valores eternos. Porém, respondemos ao impulso do “eu inferior”, a renúncia nos é desagradável, preferimos mais receber ao que dar, cuidar mais dos bens materiais e transitórios do que dos espirituais, e o resultado é um grande obstáculo ao nosso desenvolvimento espiritual.
Sim, é algo bastante deplorável se encontrar com algum irmão ou alguma irmã, fracassado ou fracassada – que perdeu todos os seus Átomos-sementes – em um estado de inércia durante inconcebíveis milhões de anos, até que, em um novo Esquema, Obra e Caminho de Evolução chegue ao estado de se unir ao ciclo evolutivo e prosseguir em sua tarefa.
Conforme aprendemos na Filosofia Rosacruz por meio do Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, unicamente três quintas partes do número total de Espíritos Virginais que começaram a evolução no Período de Saturno passarão o ponto crítico da próxima Revolução e continuarão até ao fim. Por fim, sempre nos lembremos: a finalidade da Fraternidade Rosacruz é nos mostrar o caminho da iluminação para nos ajudar a construirmos nosso Corpo-Alma e desenvolvermos as potências de nossa Alma que nos permitirão entrar conscientemente no Reino de Deus por meio do Conhecimento Direto. É uma longa tarefa, porém se continuarmos com fé e persistente perseverança alcançaremos o nosso Divino Objetivo.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – abril/1983 – Fraternidade Rosacruz– SP)
Para qualquer um de nós é um hábito muito salutar fazer um balanço anual das atividades, do que foi feito, do que não se cumpriu e dos planos para o ano vindouro, ou seja: fazer uma retrospectiva, a mais isenta possível de emoção pessoal, mas com a maior consciência que podemos ter, não só para discernir bem, mas também para aprendermos e quiçá colhermos a quintessência das lições que aprendemos (afinal, sempre estamos aprendendo!).
E aqui está um dos melhores momentos do ano para você aplicar o que aprendeu dos Ensinamentos Rosacruzes. Logicamente se você se dedicou, estudando, fazendo os Exercícios Esotéricos Rosacruzes, oficiando os Rituais do Serviço Devocional e colocando tais Ensinamentos no seu dia a dia.
Poucos avaliam como muitos problemas de saúde são decorrentes da falta desse levantamento, pois a ausência de uma perspectiva, da avaliação das nossas possibilidades reais pode gerar frustrações, depressões e angústias que fatalmente repercutirão sobre o funcionamento dos órgãos, tecidos, sistemas e todas as partes do nosso Corpo Denso.
Vamos a um exemplo: um homem de entorno de 60 anos, cabelos brancos, saúde abalada, em relativa dificuldade financeira, não se dispunha a vender um lote de terreno que resolveria seus problemas e lhe daria tranquilidade e meios para seus projetos, porque aguardava maior valorização depois que certa estrada projetada fosse construída. Jamais usufruirá desse bem e certamente morrerá infeliz e derrotado, sonhando com um futuro problemático.
Neste final de ano, cada um deve parar, olhar para trás e encarar os fatos. Se eu morresse agora, perguntará o sexagenário, terei realizado o que planejei? Terei deixado aos meus, à minha obra, à minha coletividade algo a que me propus? Terei me empenhado a fundo nessa missão, ou, ao contrário, estarei dando voltas em torno de atividades supérfluas, desperdiçando inteligência e tempo em coisas sem nenhum valor para meus objetivos primordiais?
É preciso coragem para nos desligarmos de tudo o que sinceramente consideramos desperdício e desvio da missão principal a que nos propomos neste mundo. Pouca gente avalia como somos diariamente despojados da mais preciosa de nossas riquezas: nosso cérebro e nossa atenção, pelos “batedores de carteiras” do nosso tempo. Eles nos minam a resistência, nos desviam do nosso trabalho e nada ficam devendo.
Ao jovem, o balanço servirá para avaliar quanto enriqueceu seu patrimônio cultural, quais foram as conquistas realizadas. Melhorou seu nível de aprendizado? Aprendeu línguas? Adquiriu o hábito de boas leituras? Desenvolveu algum trabalho de pesquisa nessa Região Química ou nos planos espirituais? Aperfeiçoou seu português, aumentou seu vocabulário? Aprofundou-se nos conhecimentos de sua futura profissão? Estabeleceu novas e valiosas relações sociais, fazendo conhecimentos com pessoas ricas de conhecimento, sabedoria e de vida?
Não se esquecer de traçar a meta para o ano seguinte e procurar cumpri-la à risca. Jovem! O bem mais valioso que possui é o tempo! Não o desperdice! Cada minuto deve ser plenamente preenchido. Não só trabalho. Há hora para prazer e hora para pensar. Bem dividido, seu dia dará para tudo, até para ficar alguns momentos deitado, de papo para o ar, olhar distante e sonhador, para um futuro brilhante que nosso grande e inigualável país oferece aos que se preparam para vencer.
Quem aplica sua Mente a fundo em algum mister, quem mobiliza cérebro e pensamentos num objetivo determinado, disposto a superar e a vencer, terá mobilizado, sem saber, cada célula do seu corpo: jamais adoecerá. Grande parte das doenças físicas inicia-se com a “ferrugem do espírito”. Está aqui a solução para esse grande problema: se desenvolver espiritualmente pelo método do Conhecimento Direto, preconizado pela Fraternidade Rosacruz!
E para isso há só um que precisa querer: você! Afinal, para quem não sabe viver consigo mesmo, distrair-se é frequentemente mudar de tédio.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1978-Fraternidade Rosacruz-SP)
A Fraternidade Rosacruz representa uma oportunidade de importância muito grande na vida de um Aspirante à vida superior, um aceno para uma vida mais ampla e feliz, somente alcançada por aqueles que atingem o conhecimento de si mesmos e do mundo, de forma superior e espiritualizada e aplicam esses conhecimentos em uma nova maneira de viver.
Em tudo e para tudo, na nossa vida existe uma hora e, quando menos esperamos ela chega. O Senhor é o agricultor e Ele sabe quando os frutos se acham maduros para se desprender, para trabalhar por si mesmos, para alimentar os outros daquilo que Ele nos deu e depois deixarmos as sementes que germinarão árvores da mesma qualidade, num mesmo mundo profuso de teorias e carente de exemplos.
A Filosofia Rosacruz, em sua simplicidade cristalina, é algo tão extraordinário e revolucionador na nossa vida interna que se entendida mesmo e praticada nos transforma radicalmente o nosso caráter e, no dizer de S. Paulo, o apóstolo, nos transmuta “de um homem velho num homem novo, em novidade de espírito” (Rm 7:21). Mas nós complicamos de tal modo nossa vida e nossas necessidades, e nos achamos tão escravizados em nossas obrigações, que não encontramos tempo para aquilo que poderia curar nossos males e a nossa infelicidade. Ademais, muitos de nós dá tanto valor as apresentações complexas e empoladas que, muitas vezes, menospreza as obras simples, sem pensar que a solução da vida não está nos textos misteriosos, mas na prática pura e simples das virtudes Cristãs. De que vale saber definir brilhantemente o amor se não o sentimos em nosso coração e na relação com nossos semelhantes?
Assim, a Filosofia Rosacruz é a oportunidade para você obter o conhecimento de maneira clara e lógica, “de onde você veio, porque está aqui no mundo e para onde vai depois da chamada morte”. Fornece o conhecimento da Obra de Evolução para os diversos Reinos de Vida de modo a, racionalmente, levá-lo a compreender a Obra de Deus no Mundo e uma vez satisfeita sua Mente, possa começar a fazer seu Coração se manifestar numa fé ativa e exemplar. De fato, só o conhecimento superior, aliado ao sentimento, faz o Cristão completo. Só a fé não basta; geralmente se desvirtua em fanatismo. Por outro lado, o conhecimento sem o amor mais facilmente ainda degenera em pretensão intelectual.
O amor é uma poderosa força que deve ser orientada pela razão. O frio intelecto deve se orientar pelo calor do sentimento para que atinja seu objetivo de iluminação exterior. São dois instrumentos que se completam; dois caminhos que se encurtam numa reta de realização, quando harmonizados dentro de nós.
O livro “Conceito Rosacruz do Cosmos”, obra básica da Filosofia Rosacruz exposta por Max Heindel sob a orientação de elevadíssimos Seres que chamamos de os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, encerra uma valiosíssima mensagem místico ocultista. Nele você encontrará orientação para desenvolver, mediante a prática sincera, as potencialidades que Deus guardou na Arca Sagrada de seu ser, em sentimentos e intelectualidade. Ele, o Senhor, vem e bate à porta de seu coração. Mas como naquela pintura de Warner Sallman – (1892-1968), pintor americano –, Ele bate, mas não abre, porque o ferrolho está por dentro. Nós, com o sagrado livre arbítrio é que devemos decidir se abrimos ou não ao Senhor que vem nos convidar para unir ombros com aqueles que já levam a vida a sério.
A Filosofia Rosacruz é uma mensageira Aquariana, uma nova ordem de ideias que predominará na futura Era de Aquário, a iniciar-se aproximadamente daqui a 600 anos. E como tudo no plano de Deus é preparado, esta mensagem é lançada ao ar. Cada um de nós é comparado a um rádio transmissor e receptor. Se estivermos afinados com a onda do futuro sentiremos um mágico “toque” nas “válvulas” do nosso Coração e de nossa Mente e abrirá nossas portas e virá juntar-se a nós na sementeira.
A mensagem continua no ar para que possa ser captada a qualquer instante por qualquer pessoa. A liberdade é sagrada. Ademais, num mundo cheio de materialismo são poucos os preparados. Aí está o mérito. Se a pessoa sente que gostaria de se desenvolver espiritualmente por meio do Conhecimento Direto promovido pela Fraternidade Rosacruz, venha e veja, sem compromisso nenhum. A obra Rosacruz é impessoal. Ela objetiva formar caracteres, novos seres humanos que definam o destino do mundo, segundo o plano de amor e sabedoria do Criador. Pratica a máxima Cristã: “dar de graça o que se recebeu de graça”, assim não há cobrança financeira de nada: mensalidades, taxas, cursos, seminários, congressos e materiais necessários. Na Fraternidade Rosacruz não se dão Iniciações, ainda que se queira pagar bem, porque, honestamente, ali se mostra que elas resultam do preparo interno e dependem quase exclusivamente do esforço individual, além do que temos que ser Iniciados nos Mundos invisíveis e não aqui, no Mundo visível aos sentidos físicos.
A participação da Fraternidade Rosacruz é orientar cada Aspirante à vida superior para que alcance a realização interior com segurança, sem perigo, risco e no menor tempo possível. Tais preceitos não se guardam como segredos, mas são expostos claramente nas obras da Fraternidade Rosacruz, para que cada um tenha o direito de segui-los. Não nos iludamos com os mistérios. Não julgamos honesto estabelecer atmosfera de mistério, apenas para satisfazer a tendência humana de valorizar o difícil e proibido. Difícil é o que não sabemos, mas todos têm o direito de alcançá-lo. Proibido deve ser apenas o imoral, o que vai contra as Leis da Natureza que são as Leis de Deus, mas nossa consciência é que deve repudiá-lo.
Note que a Filosofia Rosacruz procura fazer de cada ser humano uma lei em si mesmo, não discordante, senão, uníssona a Lei universal. Uma vontade, uma inteligência, um coração, próprios em sua maneira de expressão, mais coerente com o propósito do Grande Arquiteto. Uma célula de consciência própria no Corpo de Deus. Um detalhe precioso e expressivo do Quadro da Natureza.
Aqui, na Fraternidade Rosacruz, está a chave com que uma pessoa tem acesso aos mistérios, segredos ou conhecimentos oculto de seu ser. Uma vez que se desvende, conhecerá seus semelhantes e o Grande Corpo de que todos fazem parte, a cuja imagem e semelhança fomos feitos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – março/1966 – Fraternidade Rosacruz – SP)
O domínio de nós mesmos, também conhecido como autocontrole, muitas vezes fracassa porque desconhecemos nossas falhas. O que não conhecemos, não podemos dominar. Sentimo-nos virtuosos, cheios de razão simplesmente por não poder enxergar o outro lado da medalha. O Exercício Esotérico noturno de Retrospecção tem o papel de despertar a consciência de nossa verdadeira Personalidade, descobrindo as sombras. Se pudéssemos ver a nós mesmos como os outros nos veem, e pudermos acrescentar com lucidez percebendo as falhas profundamente encerradas no nosso ser, seria mais fácil o trabalho, um trabalho honesto e digno de extirpar “o joio do nosso trigal”.
A chispa divina, a “água viva” está aprisionada fundo no nosso íntimo, não podendo jorrar livremente, purificando os canais que servem para receber mais luz, mais capacidade de elevação, agindo acertadamente. Quantas vezes queremos ajudar, amparar os outros e não achamos meios, nem palavras de fazê-lo. Andamos desorientados, separados da nossa fonte, da nossa intuição, que poderia tão bem nos guiar. Falta o elo com o nosso “Eu Superior”, a Individualidade. A alma chora e a Personalidade não percebe. O seu julgamento é superficial, é indulgente, marcando passos, passos vagarosos que não elevam, suas asas são frágeis.
“Conheça a ti mesmo”, talvez por este conhecer ser tão doloroso, os olhos se fecham. Estamos sozinhos nas tempestades, abalados, sofridos, mas estes sofrimentos, saibamos ou não, serão a nossa libertação e talvez um dia recobramos a visão para ver o nosso interior, recobremos a capacidade de ouvir aquilo que nós mesmos falamos no nosso inteiro, podendo começar a trilhar o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz a passos largos, rumo a verdadeira luz – que não é desse mundo material –, para o Conhecimento Direto e próprio, alcançando o autodomínio.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz” – janeiro/1986 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Resposta: Embora existam várias maneiras de demonstrar que a morte não seja o fim de tudo, tememos que nenhum argumento seja capaz de convencer alguém que não esteja disposto a aceitar a verdade. Você se lembra da parábola de Cristo sobre o homem rico e Lázaro, que morreram e, quando o homem rico desejou que Lázaro fosse autorizado a voltar dos mortos para avisar seus irmãos, Cristo disse: “Se não ouvem Moisés e os profetas, não acreditarão ainda que alguém ressuscite entre os mortos”[1]?
E isso é exatamente o que acontece. Já ouvimos alguns, assim chamados, cientistas dizerem que não se convenceriam da vida após a morte, mesmo que realmente vissem um fantasma, pois, tendo concluído pela razão e pela lógica, de forma completamente satisfatória para si mesmos, que fantasmas não existem, concluiriam que estivessem sofrendo de alucinação, caso se de fato vissem um fantasma.
Também não é possível apresentar declarações da Bíblia. A palavra “imortal” não aparece de forma alguma no Antigo Testamento. Naquela época, dizia-se: “morrendo, morrerás”[2] e uma vida longa era oferecida como recompensa pela obediência. Tampouco essa palavra é encontrada nos quatro Evangelhos, mas nas Epístolas de S. Paulo[3], onde ela aparece seis vezes. Na primeira passagem, fala-se de Cristo, que trouxe à luz a imortalidade por meio do Evangelho. Em outra, ele nos diz que “este corpo mortal precisa revestir-se da imortalidade”[4]. Na terceira ele deixa claro que essa imortalidade é concedida àqueles que a buscam. Na quarta, fala sobre nosso estado, “quando este corpo mortal se revestir da imortalidade”[5]. Na quinta, declara que “Somente Deus possui a imortalidade”[6] e a sexta passagem é uma adoração ao Rei eterno, imortal e invisível. Assim, a Bíblia de forma nenhuma ensina que a Alma seja imortal; no entanto e ao contrário, afirma enfaticamente: “A Alma que pecar, essa morrerá”[7]. Se a Alma fosse inerente e intrinsecamente imperecível, isso seria uma impossibilidade.
Também não podemos provar a imortalidade da Alma pela Bíblia, usando passagens como a do Evangelho Segundo S. João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Se confiarmos nessa passagem para provar que a Alma seja sem fim, dotada de vida interminável, devemos também aceitar as passagens que afirmam que as Almas estejam condenadas ao tormento eterno, como defendem algumas das seitas ortodoxas.
Mas, na verdade, essas passagens não provam uma vida de bem-aventurança ou tormento sem fim. Se você consultar o dicionário grego de Liddell e Scott[8], verá que o termo traduzido como “eterno” ou “para sempre”, na Bíblia, é a palavra grega aionian, que significa “por um curto período”, “uma era”, “um tempo limitado”, “um tempo de vida”. Então você perceberá isso com facilidade no caso do escravo Onésimo, sobre quem S. Paulo escreve a Filemom: “Porque provavelmente ele se separou de ti por algum tempo para que o mantivesse para sempre”[9]. Esse “para sempre” (aionian) só poderia significar os poucos anos da vida de Onésimo na Terra, e não uma duração infinita.
Então, qual é a solução? A imortalidade é apenas um produto da imaginação, e é incapaz de ser provada? De forma nenhuma, mas é necessário diferenciar claramente entre Alma e Espírito. Essas duas palavras são frequentemente tomadas como sinônimos, mas não são. Na Bíblia, temos a palavra hebraica ruach e a palavra grega pneuma, ambas significando Espírito, enquanto a palavra hebraica neshamah e a palavra grega psique significam Alma. Além dessas, temos a palavra hebraica nephesh, que significa sopro, mas foi traduzida como vida em alguns lugares, e como alma em outros, para a conveniência dos tradutores da Bíblia.
É isso que gera confusão. Por exemplo, é dito no Livro do Gênesis que Javé ou Jeová formou “o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego”[10] (nephesh), então “o homem se tornou (nephesh chayim) um ser que respira”, mas não uma Alma vivente. A respeito da morte, lemos no Livro do Eclesiastes 3,19-20, e em outros trechos, que não há diferença entre o homem e o animal: “assim como morre um, morre o outro, pois todos têm um mesmo fôlego (nephesh novamente), de modo que o homem não tem superioridade sobre o animal”. “Todos vão para o mesmo lugar”. Mas há uma distinção muito clara feita entre o Espírito e o Corpo, pois é dito que “quando o Cordão de Prata se rompe, então o Corpo retorna ao pó de onde foi tirado e o Espírito volta a Deus, Que o deu”[11]. A palavra “morte” nunca está associada ao Espírito e a doutrina da imortalidade do Espírito é ensinada de modo flagrante pelo menos uma vez na Bíblia; em no Evangelho Segundo S. Mateus 11:14, onde o Cristo disse a respeito de João Batista: “Este é Elias”. O Espírito que animou o Corpo de Elias renasceu como João Batista; portanto, ele necessariamente sobreviveu à morte física e foi capaz de continuar sua existência.
Para os ensinamentos mais profundos e definitivos sobre este assunto, devemos, no entanto, recorrer ao ensinamento místico; aprendemos no Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, que os Espíritos Virginais foram enviados para o deserto do Mundo como Raios de Luz da Chama Divina, que é o Nosso Pai Celestial, e primeiro passaram por um processo de Involução na matéria, cada Raio cristalizando-se em um Tríplice Corpo.
Então a Mente foi dada e se tornou o ponto de apoio sobre o qual a Involução se transforma em Evolução e a Epigênese, a habilidade criativa, divina e inerente ao Espírito interior, na alavanca pela qual o Tríplice Corpo é espiritualizado na Tríplice Alma e amalgamado com o Tríplice Espírito, sendo a Alma o extrato da experiência que nutre o Espírito, que vai da ignorância à onisciência, da impotência à onipotência e assim, finalmente, torna-se semelhante ao seu Pai Celestial.
É impossível para nós, com nossas capacidades atualmente limitadas, conceber a magnitude dessa tarefa, mas podemos compreender que estamos muito, muito longe da onisciência e da onipotência, de modo que isso necessariamente exija muitas vidas; portanto, vamos para a Escola da Vida como a criança vai para a escola. Assim como há noites de descanso entre os dias de aula das crianças, também há noites de morte entre nossos dias na Escola da Vida. A criança retoma seus estudos a cada dia exatamente de onde parou no dia anterior; da mesma forma, nós, ao renascer, retomamos as lições da vida exatamente de onde paramos em nossa existência anterior.
Se for feita a pergunta: “por que não lembramos nossas existências anteriores, se de fato as tivemos?”, a resposta é simples. Atualmente, não lembramos sequer o que fizemos há um mês, um ano ou alguns anos, como poderíamos lembrar algo muito mais distante no tempo? Tínhamos um cérebro diferente que estava sintonizado com a consciência da vida anterior. No entanto, existem pessoas que se lembram de suas existências passadas, e cada vez mais estão mostrando essa faculdade, pois ela está latente dentro de cada ser humano.
Mas, como S. Paulo diz muito apropriadamente no capítulo quinze da Primeira Carta aos Coríntios: “Se os mortos não ressuscitam, então nossa fé é vã e somos, de todos os homens, os mais miseráveis”. Portanto, o neófito que passou pela porta da Iniciação é levado ao leito de uma criança que está morrendo. Ele vê o Espírito se desprender do Corpo Denso material e é instruído a observá-lo nos Mundos invisíveis até que busque um novo Corpo Denso para renascer.
Com esse propósito, geralmente é escolhida uma criança que esteja destinada a renascer dentro de um ou dois anos; assim, em um tempo relativamente curto, o neófito pode ver por si mesmo como um espírito atravessa o portal da morte e entra novamente na vida física através do útero. Então ele tem a prova. A Razão e a Fé devem ser suficientes para aqueles que não estejam preparados para pagar o preço pelo Conhecimento Direto — preço, esse, que não pode ser comprado com ouro; o pagamento é feito com o sangue da vida.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – maio /1916 – Traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Lc 16:19-31
[2] N.T.: Gn 2:17
[3] N.T.: 1Tm 6:16; 1Tm 1:17; 1Cor 15:53; 1Cor 15:54; 2Cor 4:16; Rm 6:23
[4] N.T.: 1Cor 15:53
[5] N.T.: 1Cor 15:54
[6] N.T.: 1Tm 6:16
[7] N.T.: Ez 18:20
[8] N.T.: A Greek–English Lexicon, muitas vezes referida como Liddell & Scott, Liddell-Scott-Jones, ou LSJ, é uma obra lexicográfica padrão da língua grega antiga.
[9] N.T.: Fm 1:15
[10] N.T.: Gn 2:7
[11] N.T.: Ecl 12:6-7
Resposta: Infelizmente, tal como é comumente praticada, é muitas vezes um pedido a Deus para interferir a favor do suplicante e lhe permitir alcançar um objetivo egoísta. É certamente uma vergonha que pessoas empenhadas em violar os mandamentos de Deus, como “Não matarás”, rezem pela vitória sobre os seus inimigos; se medirmos a maioria das orações oferecidas hoje, pelo padrão estabelecido por Cristo na Oração do Senhor, elas certamente não merecerão o nome de oração. São blasfêmias e seria mil vezes melhor que nunca tivessem sido proferidas.
A Oração do Pai-Nosso nos foi dado como modelo e faremos bem em analisá-la, se quisermos chegar a uma conclusão adequada. Se o fizermos, verificaremos que três das sete orações que o compõem dizem respeito à adoração do Divino: “Santificado seja o Vosso nome; venha a nós o Seu Reino; seja feita a Sua vontade”. Depois vem a petição do pão diário e necessário para manter o nosso Corpo Denso vivo; as três orações restantes são para a libertação do mal e o perdão das nossas dívidas. A partir desses fatos, é evidente que toda oração digna deve conter uma medida esmagadora de adoração, louvor e reconhecimento da nossa indignidade, junto de uma firme resolução de nos esforçarmos para sermos mais agradáveis ao nosso Pai Celestial. O objetivo principal da oração é, portanto, entrar em comunhão com Deus o mais rápido possível objetivando que a Vida e a Luz divinas possam fluir para dentro de nós e nos iluminar para que possamos crescer à Sua imagem e semelhança.
Trata-se de um ponto de vista diametralmente oposto à ideia comum de oração, que considera que, sendo Deus o nosso Pai, podemos nos dirigir a Ele em oração e Ele é obrigado a realizar o desejo do nosso coração. Se não conseguirmos na primeira tentativa, basta continuar rezando e, devido à nossa importunação, o nosso desejo será satisfeito. Tal visão é repelente para o Místico iluminado e, se trouxermos o assunto para uma base prática, é evidente que um pai sábio, tendo um filho capaz de se sustentar, naturalmente se ressentiria se esse filho aparecesse diante dele várias vezes por dia com pedidos importunos para ganhar isso, aquilo ou outra coisa que ele possa facilmente obter pelo trabalho, ganhando os meios para isso.
A oração, por mais séria e sincera que seja, nunca pode tomar o lugar do trabalho. Se trabalharmos para realizar um bom objetivo com todo o nosso coração, a nossa alma, o nosso corpo e, ao mesmo tempo, pedirmos a Deus que abençoe o nosso trabalho, não há dúvida de que o pedido será sempre atendido; mas se não pusermos a mão na massa, não teremos o direito de pedir ajuda à Divindade.
Como foi dito anteriormente, o peso das nossas orações deve ser o louvor a Deus, de Quem todas as bênçãos fluem, porque os nossos Corpos de Desejos são formados de materiais de todas as sete Regiões do Mundo do Desejo na proporção das nossas necessidades, conforme determinado pela natureza dos nossos pensamentos. Cada pensamento se reveste de material de desejo congruente com a sua natureza. Isso também se aplica aos pensamentos formados e expressos na oração. Se forem egoístas, atraem para si um invólucro composto pelas Regiões inferiores do Mundo do Desejo; mas se forem nobres, altruístas e generosos, vibram no tom mais elevado das Regiões da Luz Anímica, da Vida Anímica e do Poder Anímico. Eles, então, se vestem com esse material, dando mais vida e luz à nossa natureza espiritual.
Mesmo quando rezamos pelos outros é prejudicial pedir qualquer coisa material ou mundana; é permitido pedir saúde, mas não prosperidade econômica. “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”[1] é o mandamento. Quando cumprimos esse mandamento, podemos ter a certeza de que “todas essas coisas”[2] também nos serão dadas. Portanto, quando orarmos por um amigo, coloquemos todo o nosso coração e toda a nossa alma na petição para que ele possa buscar permanentemente o caminho, a verdade e a vida, pois uma vez encontrado o maior de todos os tesouros, nenhuma necessidade real será negada. Isso também não é teoria. Milhares de pessoas, incluindo o escritor, descobriram que o “Pai nosso que estais no Céus” cuidará de nossas necessidades materiais, quando nos esforçarmos para viver a vida espiritual. No entanto, em última análise, não é a oração falada que ajuda. Há pessoas que podem conduzir uma congregação em oração que é, ambas, perfeita em linguagem e sentimento poético. Elas podem até adequar suas orações aos princípios estabelecidos pelo Senhor, tal como enunciado nos nossos parágrafos iniciais e, no entanto, essa oração pode ser uma abominação porque lhe falta um requisito essencial. Se toda a nossa vida não for uma oração, não poderemos ser agradáveis a Deus, por mais belas que sejam as nossas petições. Por outro lado, se nos esforçarmos no dia-a-dia para viver de acordo com a Sua vontade, então, mesmo que nós próprios saibamos que estejamos muito aquém do nosso ideal e mesmo que, tal como o publicano no Templo[3], sejamos de fala hesitante e só consigamos bater no peito e dizer “Deus, tem piedade de mim, sou pecador”, mesmo assim descobriremos que o Espírito, conhecendo nossas necessidades, intercede por nós com gemidos indizíveis e que nossa modesta súplica diante do trono da Graça valerá mais que todos os discursos floridos que possamos fazer.
Você também pergunta: “a oração é equivalente à concentração e à meditação?”.
Concentração consiste em focalizar o pensamento em um único ponto, tal como os raios do Sol são focalizados por meio de um vidro. Quando difundidos sobre a superfície de toda a Terra, eles fornecem apenas um calor moderado, mas mesmo alguns raios de Sol, quando focalizados por uma lente comum de óculos, incendeiam o material inflamável no qual são focalizados. Da mesma forma, o pensamento que se move doce e iluminadamente através do cérebro, como a água escorre através de uma peneira, não tem valor, mas quando concentrado em um determinado objeto, ele ganha intensidade e atingirá o objetivo, seja para o bem ou para o mal. Os membros de uma ordem praticaram a concentração contra seus inimigos durante séculos e foi verificado que o infortúnio ou a morte atingiam sempre o objeto do seu desfavor. Nós ouvimos falar, entre certos grupos, atualmente de “magnetismo malicioso” aplicado pela concentração do pensamento. Por outro lado, a concentração do poder do pensamento também pode, também, ser usada para curar e ajudar; não faltam exemplos para fundamentar essa afirmação. Podemos, assim, dizer que a concentração seja a aplicação direta do poder do pensamento para alcançar um determinado objeto, que pode ser bom ou mau de acordo com o carácter da pessoa que o pratica e o propósito para o qual deseja usá-lo.
A oração é semelhante à concentração em certos pontos, mas difere radicalmente em outros. Enquanto a eficácia da oração depende da intensidade da concentração alcançada pelo devoto, ela é acompanhada por sentimentos de amor e devoção de igual intensidade à profundidade da concentração, o que torna a oração muito mais eficaz do que a concentração fria pode ser. Além disso, é extremamente difícil, para a grande maioria das pessoas, concentrar os seus pensamentos de forma fria, calma e sem a menor emoção e, ainda, excluir todas as outras considerações da sua consciência. A atitude devocional é mais facilmente cultivada, pois a Mente é, então, centrada na Divindade.
A meditação é o método de, pelo poder espiritual, obter conhecimento de coisas com as quais não estamos normalmente familiarizados.
No livro Conceito Rosacruz do Cosmos há um capítulo que apresenta minuciosamente o método de aquisição de Conhecimento Direto, o qual elucida longamente esses pontos, e nós aconselhamos um estudo minucioso daquela parte detalhada nesse livro.
(Pergunta 135 do Livro Filosofia Rosacruz por Perguntas e Respostas vol. II, de Max Heindel-Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: Mt 6:33
[2] N.T.: Mt 6:33
[3] N.T.: O fariseu e o publicano: Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!’ Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” (Lc 18:9-14).
Nos quatro Evangelhos se fazem referências dos Discípulos como pescadores, porém, é um erro tomar isto como se fossem homens ordinários. Ao contrário, eles eram Egos altamente evoluídos e sua associação com a “pesca” deve ser considerada como uma expressão simbólica. “Pescadores”, como está mencionado nos Evangelhos, indica aquele que está conscientemente no caminho espiritual. Vamos ver um exemplo nesse trecho:
“Certa vez em que a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus, à margem do lago de Genesaré, viu dois pequenos barcos parados à margem do lago; os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo num dos barcos, o de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; depois, sentando-se ensinava do barco às multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo; lançai vossas redes para a pesca’. Simão respondeu: ‘Mestre, trabalhamos a noite inteira sem nada apanhar; mas, porque mandas, lançarei as redes’. Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam.” (Lc 5:1-6).
Esotericamente, o “pescado” se refere à Iniciação ou o processo de aprender a fazer uso dos poderes espirituais que foi gerado dentro de nós. Na época dos “três anos” de ministério de Cristo-Jesus, o Sol pelo movimento de Precessão dos Equinócios estava deixando o Signo de Áries, o cordeiro, e estava entrando no Signo de Peixes, o pescado ou os peixes. Assim, a antiga escola de Iniciação ou de desenvolvimento pelo Conhecimento Direto foi o da Dispensação de Áries, enquanto a Nova Dispensação tinha que ver com os “pescadores de homens”, a Dispensação de Peixes.
Afinal, já sabemos que cada vida neste plano terrestre não é mais que um dia na grande escola da existência e a experiência é o meio pelo qual progredimos.
No grande mar da vida usamos vários veículos para adquirir experiências de onde vem o crescimento da nossa alma, o crescimento anímico. Na medida em que usamos nossa sabedoria ou “redes” é para armazenar “pescados” ou “peixes” ou alimento para nós, o Ego – o Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui –, assim progredimos no caminho espiritual para frente e para cima. Em nossa falta de sabedoria amiúde lançamos nossas “redes e não tiramos pescados”.
Por meio do desenvolvimento da nossa percepção espiritual por meio do amor e do serviço amoroso e desinteressado (e, portanto, o mais anônimo possível) ao irmão ou à irmã no seu entorno, procurando esquecer os defeitos deles e focando na divina essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade, nos capacitamos para dirigir nossas atividades sabiamente e, assim, traremos uma pesada “rede” de recompensa espiritual ou crescimento anímico.
À medida que imitemos a Cristo, amando e servindo aos nossos semelhantes, obtemos a habilidade de fazer o melhor de nossas experiências. Aprendemos onde temos que servir e como devemos servir o melhor que possamos.
Dentro das “profundidades” das realidades da vida lançamos nossas “redes” e enchendo-as até que se rebentem. Talvez nossas “redes” se rompam devido a que nossa sabedoria aumenta, às vezes, devido ao demasiado esforço que fazemos para servir.
Novamente, o mar simboliza esse reino espiritual que chamamos de Mundo do Desejo. S. Pedro disse a Cristo-Jesus: “Estivemos pescando toda a noite e não apanhamos nada“. Isto se refere aos esforços nos planos internos que não foram frutíferos devido à falta de conhecimento.
Não havia alcançado o ponto onde poderiam funcionar sozinhos, vantajosamente, nos planos invisíveis e, consequentemente, seus esforços obtiveram fracos resultados.
O poder de Cristo foi tal que Ele pode funcionar perfeitamente nos planos invisíveis, sendo o único que possuía todos os veículos para alcançar desde o Mundo Físico até o Mundo de Deus (doze veículos!). Ele ensinou aos Seus Discípulos como usar seus poderes espirituais e em certas ocasiões os elevava a estados de consciência espiritual muito mais elevada do que nas que ordinariamente funcionavam. Sob sua direção podiam assegurar “uma grande quantidade de peixes“.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – maio/1982 – Fraternidade Rosacruz – SP)