Com que frequência repetimos estas palavras, mas quão pouco refletimos sobre elas ou as compreendemos. No atual estágio de evolução, é muito mais fácil conceber “Meu Pai” e sentir a união entre “meu Pai e eu”. Mas dizer “Nosso Pai” de forma verdadeira é algo tão imensa que se treme só de pensar.
“Nosso”, sendo o plural de “meu”, significa que o “meu” se funde no “nosso”; que a minha Personalidade já não existe como uma unidade isolada das demais, mas que cada um e todos nós estamos abrangidos pela palavra “nosso”. Portanto, ao nos dirigirmos ao Autor do nosso ser — n’Ele em quem literalmente vivemos e nos movemos — como “Nosso Pai”, expressamos tacitamente a nossa crença de que Ele é o Pai de todos nós, como uma Humanidade unida; Pai também daqueles a quem, infelizmente e com demasiada frequência, detestamos ou desprezamos, demonstrando assim que somos todos irmãos.
Neste tempo de guerras, em que as paixões se desenfrearam, paremos para recordar que, na expressão “Nosso Pai”, estão incluídos os nossos supostos inimigos; que eles são tão preciosos para Ele quanto nós, e que são Seus filhos tanto quanto nós. Embora denunciemos e repudiemos atos de crueldade e opressão, venham de quem vierem, saibamos distinguir entre o Ego e a Personalidade. É esta última que peca, por ter assumido o controle. Quando ela for superada, o Ego brilhará em todo o seu esplendor e poderemos, então, dizer do fundo do coração, tal como fez o Cristo: “Nosso Pai”.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de dezembro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)
Uma pequena menina estava diante da sua mãe quando bateu o pé no chão e sacudiu seus cachos dourados. Seu rostinho infantil estava retorcido, expressando o mais terrível mau humor. A mãe pegou aquele pequeno e animado feixe de temperamento no colo e a colocou diante de um espelho.
— Olhe só essa boca, minha filha. Veja como os cantos ficam voltados para baixo, tão feios e zangados. Agora vire os cantinhos para cima e os faça apontar para o Céu, onde vivem as crianças boas e felizes.
A menina esqueceu sua raiva; sua curiosidade foi despertada. Seus olhos se arregalaram de admiração ao ver um pequeno sorriso surgir, formar covinhas e se espalhar até terminar em uma alegre gargalhada.
— Mas, mamãe, que engraçado! Eu tenho que sorrir para fazer os cantinhos da boca virarem para cima! — exclamou, maravilhada — Claro, minha querida. E quando você está alegre sua boca aponta para o feliz Reino dos Céus — respondeu a mãe.
A pequena era uma menina esperta, pois frequentava a escola dominical. Ela sabia que o Céu, com suas ruas de ouro e seus Anjos brilhantes que cantavam, ficava em algum lugar no azul do firmamento, junto de Deus. Também aprendera sobre a região de fogo e enxofre, situada nas profundezas da Terra. Esse lugar era governado por uma terrível criatura chamada Satanás, que frequentemente a encarava com um sorriso malicioso das páginas de um grande livro chamado O Peregrino.
Ela ficou pensando por um momento…
— Mamãe, quando eu fico zangada, para onde a minha boca aponta? — perguntou.
— Para onde você imagina que ela aponte, minha querida? — respondeu a mãe, sabiamente deixando que a própria filha encontrasse a resposta.
Então começou uma divertida brincadeira na qual a menina investiu muito tempo diante do espelho. Por mais que tentasse, ela nunca conseguia fazer cara feia e, ao mesmo tempo, fazer aqueles teimosos cantinhos da boca apontarem para cima. Por fim, desistiu da tentativa, concluindo que, de qualquer forma, era muito mais fácil sorrir. Além disso, a menina do espelho ficava muito mais bonita quando sorria.
À medida que os meses e os anos passaram, a criança aprendeu a se divertir observando as pessoas. Ela as dividia em duas categorias: aquelas cujas bocas se curvavam para cima e aquelas cujos cantos se voltavam para baixo. Embora suas ideias sobre Céu e Inferno tenham mudado com o tempo, ela sempre se alegrava ao ver o Céu que algumas pessoas haviam criado para si mesmas refletido em seus rostos e sentia pena da infelicidade das outras.
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Uma menina de oito anos subia lentamente a escada… Seus olhos estavam fixos na escuridão do corredor lá em cima. Quem poderia saber que coisas terríveis estariam escondidas nas sombras ou atrás das portas, prontas para atacar qualquer pessoa desprevenida? Talvez houvesse um urso, um ladrão ou até mesmo um fantasma. O que seria aquele ponto de luz naquela escuridão? Um reflexo de alguma luz do lado de fora ou o olho brilhante de algum monstro assustador?
Por fim, sua subida hesitante parou completamente. Ela se inclinou sobre o corrimão para verificar se a luz acolhedora e o calor alegre do andar de baixo ainda eram reais.
— Papai! — suplicou. — Por favor, venha acender uma lâmpada.
(Eram os tempos da iluminação a gás, quando meninas pequenas precisavam subir em cadeiras para alcançar os interruptores ou registros das lâmpadas).
Lá de baixo surgiu uma voz forte, alegre e bem-humorada. Só de ouvi-la, pelo menos metade dos terrores imaginários desapareceu.
— Continue subindo e faça você mesma a sua própria luz, minha filha. Você não encontrará aí em cima algo mais assustador do que você mesma.
Naquela época, isso lhe pareceu um consolo muito pequeno. Mas quantas vezes ao longo da vida a lembrança daquele episódio ajudou aquela menina a criar sua própria luz nos lugares escuros da existência e a vencer a única coisa que realmente encontrou para temer: ela própria.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de agosto de 1920 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)
Este assunto interessa a toda pessoa que tenha experimentado a dor esmagadora de perder uma pessoa amada. Tais pessoas, eu espero, poderão derivar algum conforto das linhas seguintes, dadas por alguém que passou pelo Véu ainda jovem, deixando um marido devotado e seis filhos pequenos, lamentando sua perda. Talvez lhes interesse descrever meus próprios sentimentos e minhas próprias experiências em tal ocasião.
Quando eu estava morrendo após uma enfermidade de mais de dois anos, que agora sei ter sido preparação e início para o trabalho que eu estava prestes a iniciar nos planos invisíveis, não senti dor, apenas uma sensação de repouso bem-aventurado. De tempos em tempos rostos angelicais apareciam para mim e palavras encorajadoras eram dirigidas à minha audição interior: “coragem, querida, você está prestes a entrar em uma vida de grande felicidade e utilidade. Será seu trabalho especial cuidar espiritualmente de seus entes queridos, você que, por tanto tempo, esteve incapaz de fazer qualquer coisa por eles no plano físico”.
Meu querido bebê, ah!… Abandoná-lo foi uma dor e uma angústia que apenas as mães sabem o que é. Eu o vi como ele é agora, um amado trabalhador no campo das almas preparadas para a colheita. Também tive visões das vidas futuras dos meus outros e amados filhos. Tão misericordiosa é a boa Lei que os momentos finais de todos são suavizados e abençoados por ministradores, obra da qual agora tenho o privilégio de participar, sendo frequentemente enviada ao leito de uma mãe moribunda para tornar a transição aquilo que ela deveria ser: uma passagem alegre.
Continuando, a transição real para o outro mundo foi comparativamente fácil para alguém cujo corpo estava enfraquecido por longa enfermidade. Mas não é sempre assim; por exemplo, quando o corpo está em pleno vigor isso não acontece. O rompimento do Cordão Prateado que conecta os dois estados de consciência se torna, nesse caso, mais difícil.
Eu tive a sensação de estar afundando, caindo através do espaço; mas não de forma desagradável, não; foi uma sensação de pessoa muito cansada que busca algo sobre o qual repousar; então, subitamente, toda a fadiga desapareceu e eu estava jovem mais uma vez, cheia de vitalidade.
Ao abrir os olhos, eu vi meu querido marido curvado em tristeza ao lado do meu Corpo morto, que jazia sobre a cama. Coloquei meus braços ao redor dele e tentei de todas as maneiras fazê-lo sentir a minha presença, mas sem sucesso. Ele estava inconsciente de todos os meus esforços… Ah! Como desejei tê-lo comigo nesta nova e bela condição. Então ouvi uma voz: “Seja paciente, querida, ele estará com você muito em breve”.
Então tomei consciência de uma forma em pé ao nosso lado, que gentilmente me conduziu para uma vida gloriosa onde encontrei muitos entes queridos e dei boas-vindas às intimidades mais próximas e queridas que haviam sido inconscientemente desfrutadas ainda na vida terrena, durante as horas de sono.
Do que se seguiu não me é permitido falar; de fato, palavras não poderiam descrever nossa vida aqui com suas atividades complexas, amizades divinas e alegrias que apelam a muitos sentidos aos quais a audição e a visão terrenas estão fechadas.
Aqueles que amamos na Terra estão constantemente conosco e é nosso privilégio servi-los de muitas maneiras, enquanto eles permanecem totalmente inconscientes de estarem sendo ajudados. Tempo e espaço não existem aqui. Nossos Corpos-Alma são praticamente indestrutíveis, de modo que entramos à vontade em lugares que na vida terrena teriam destruído completamente o invólucro carnal: casas em chamas, locais onde haja terremotos, em naufrágios… Em qualquer lugar onde exista calamidades, muitos mensageiros correm à cena para preparar os moribundos e tornar seus últimos momentos pacíficos e felizes em meio à terrível confusão.
Algumas dessas cenas são fechadas para nós, como quando a paixão humana envolve dois seres em combate mortal. As formas de ira e ódio lançadas durante o conflito impedem nossa aproximação. E lugares de licenciosidade e luxúria geralmente nos são proibidos pela mesma razão. Seus terríveis pensamento-formas criam uma parede intransponível ao redor daqueles que gostaríamos de alcançar.
Na antiga Sodoma e Gomorra, as emanações justas de dez homens corretos poderiam ter criado um canal para o influxo do Divino, mas infelizmente não havia sequer dez para conter a maré da paixão humana em sua forma mais terrível. Agora, tendo descrito o que acontece na hora da morte aqui, no reino material, gostaria de indicar qual deveria ser a sua atitude e como você pode ajudar a pessoa querida que partiu, de modo que ela se alegre com a felicidade recém-descoberta.
O abandono prolongado à tristeza é prejudicial para todos e a alma desperta que percebe seu destino e o trabalho espiritual diante de si, após a primeira expressão natural do pesar, repousará na esperança que o conhecimento lhe proporciona. Seu pensamento sobre o falecido ou a falecida será constante. Não uma vez, mas muitas no dia os seus pensamentos se tornarão canais para amor e encorajamento vindos de outras esferas, pensamentos aos quais sua alma responderá, por mais inconsciente que o cérebro físico possa estar.
À noite, quando a pessoa querida que ficou aqui adormecer, seu último pensamento será sobre a pessoa amada que se foi, que estenderá sua mão do Além e tomará a mão da pessoa querida que ficou aqui pela sua para vagar entre cenas de beleza tremenda, em comunhão mais doce e querida do que jamais desfrutaram antes; e a pessoa querida que ficou aqui despertará profundamente confortada e talvez um pouco envergonhada de ter sido consolada tão cedo, completamente inconsciente da deliciosa companhia que desfrutou tão recentemente.
Verdadeiramente, seus entes queridos que morreram podem ser verdadeiros “tesouros no Céu”. Você não perdeu, mas ganhou com sua transição. Seu querido ente pode estar com você a qualquer momento do dia. À noite, se desejar, você pode discutir problemas terrenos e ser ajudado para ganhar mais desenvolvimento de alma e poder espiritual pela comunhão com as grandes almas daqui; cuja alegria é ainda servir à Humanidade com poderes ampliados e realização mais seguras.
Toda faculdade desenvolvida na Terra é intensificada e fortalecida nos Céus. Você é músico ou artista? Seus talentos são cem vezes mais agradáveis aqui do que na Terra. Ou talvez tais talentos sejam limitados em seu caso, mas você possui a flor mais rara de um coração amoroso. Cada fio de amor que o liga na Terra aos entes próximos e queridos é um poderoso cabo ao nosso lado, um meio de cura e bênção do qual será sua alegria constante fazer uso.
Quando vemos uma pessoa que está muito próxima da morte, tendo se aproximado do fim da sua experiência terrena, tentamos prepará-la para a transição através da sugestão de pensamentos sobre a nova vida na qual está prestes a entrar. Às vezes, isso é muito difícil porque não podemos dominar a sua Mente, embora pudéssemos, naturalmente, fazê-lo com facilidade; mas isso não afetaria seu verdadeiro “eu”, o Eu Superior ou Ego. Simplesmente lhe dizemos o que está na iminência de acontecer e o deixamos usar a sugestão.
Os numerosos e variados casos de premonições são derivados de esforços de mensageiros que estão nos Céus para impressionar a pessoa que está próxima a começar mais uma vida celeste, seja por visão, sonho ou qualquer meio disponível ao Auxiliar Invisível (invisível à visão física, mas não à etérica!), de modo que ela não fique totalmente despreparada. Às vezes alguém na vida terrena é inconscientemente empregado. Ele vai até a pessoa e, enquanto estão juntos, o Auxiliar Invisível a usa como elo de ligação e “alma fala com alma”.
Para os totalmente despreparados, os primeiros estágios da vida pós-morte são uma experiência terrível, porque a vida celeste é muito diferente da que temos aqui, no plano material. Quando uma pessoa não teve pensamentos além das coisas materiais (ou seja: da Região Química do Mundo Físico), é necessário muito tempo para se acostumar com a novas condições; ela frequentemente se sente desconfortável, infeliz.
Felizmente, existem grupos de Egos cuja província especial é cuidar dessas almas e gradualmente despertar seus sentidos para as alegrias que as aguardam, apenas temporariamente afastadas delas por sua própria atitude. Também existem muitas mulheres bondosas que se deleitam em cuidar dos pequeninos que chegam às vezes ainda na infância. Bebês e crianças pequenas respondem rapidamente ao novo ambiente, tendo deixado tão recentemente os Céus para ir ao Mundo material, e entram na antiga vida com renovado entusiasmo.
Naturalmente, cada alma faz seu próprio céu pelo poder do amor e poucos são aqueles que não construíram aqui uma morada através dos laços de amor da Terra. Frequentemente os criminosos mais terríveis são maridos e pais afetuosos. Todos nós somos capazes de fazer muito pela pessoa na proximidade da morte. Podemos encontrar seus parentes deste lado, que frequentemente desconhecem sua condição; eles então o recebem na última hora.
A visão espiritual se torna muito aguçada quando a chama da vida física arde fracamente e é muito fácil impressionar a pessoa moribunda nesses momentos. Alguns de nós podem permanecem, por algum tempo, para fazer o possível pelos aflitos deixados para trás. Não é permitido erguer o véu plenamente, pois conhecer totalmente aquilo que os aguarda seria um triste prejuízo para sua vida atual, devido às experiências necessárias das quais são construídas a fé, o amor e a confiança como faculdades a serem trazidas para cá.
Agradeçam a Deus por suas tristezas, decepções ou tragédias: são construtoras de caráter! As aspirações em direção ao nosso mundo, resultantes de tais experiências, moldam a morada da alma e a felicidade do futuro.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – setembro/1920, traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
Anita Long estava parada, olhando pela janela com olhos pensativos e sombrios. Era uma jovem frágil e sensível sobre quem as vibrações do Mundo material pesavam intensamente. Durante toda a noite ela havia viajado, como mais gostava de fazer, entre as, assim chamadas, coisas vagas, intangíveis ou transcendentes. Sempre que refletia muito sobre esses assuntos, a aparente lentidão do progresso humano na Terra a assustava e a desanimava.
Afastando-se da janela com um suspiro perplexo, seu olhar caiu sobre o editorial de um jornal vespertino: “A cruzada contra a vivissecção”. Ela nunca havia pensado muito sobre o assunto, apenas sabia que a ideia talvez fosse horrível, repulsiva. Naquele mesmo dia, várias de suas amigas haviam insistido para que ela as ajudasse a trabalhar nas ruas, despertando o interesse do público pela causa; no entanto, sempre avessa às multidões apressadas das ruas da cidade, ela recusara.
Sentia-se muito solitária desde a morte do seu companheiro, um belo cão, da raça bull terrier, chamado Dash, ocorrida poucas semanas antes. Sua coleira ainda estava pendurada ao lado da cama, pois ele costumava acordá-la de manhã colocando-a sobre o travesseiro; então ficava ansiosamente esperando o passeio matinal enquanto ela se vestia. Rapidamente ela conteve as lágrimas enquanto acariciava a coleira.
— Querido Dash, como sinto sua falta! — murmurou, deixando-se afundar sonolenta entre os travesseiros. De repente, ergueu-se parcialmente. Estava acordada ou sonhando?
Dash estava novamente em seu lugar habitual, ao lado da cama, e seus olhos suplicavam ansiosamente como costumavam fazer. Mas desta vez ele não prestava atenção à coleira. Parecia apenas impaciente para que ela o acompanhasse. Já não havia brincadeira em seu comportamento, apenas um apelo sério. Agora, ele deveria conduzir e ela deveria seguir.
Incapaz de resistir ao olhar suplicante, Anita colocou a mão sobre sua cabeça e, meio adormecida, meio desperta, viu-se muito longe, na cidade, diante das paredes de um grande edifício de pedra.
Assim que entrou no prédio, seu coração pareceu parar ao ouvir os terríveis gemidos de agonia vindos de uma sala adjacente. Dash, com o mesmo olhar mudo e implorante, conduziu-a até uma porta, onde ela ficou paralisada de espanto. Sua respiração quase cessou de terror.
Em uma grande jaula estavam cães de todos os tipos e tamanhos, gemendo e arfando em dolorosa agonia. Alguns tinham enormes feridas na garganta, das quais o sangue escorria em pequenos filetes enquanto respiravam; outros tinham aberturas cortadas em seus flancos, que, em seu sofrimento, mordiam e rasgavam, deixando pedaços de carne dilacerada espalhados pelo chão da jaula. Um enorme mastim, com os olhos lacrimejantes e os lábios cobertos de espuma, agarrava as barras de ferro da jaula com os dentes e, em um frenesi de dor, tentava arrancá-las.
Incapaz de suportar por mais tempo aquela visão abominável, Anita se afastou estremecida. Mas Dash, erguendo-se, segurou sua mão com a boca e a conduziu mais adiante pela sala. Ela viu gaiolas cheias de coelhos, todos mutilados e manchados de sangue com olhos suaves, mas repletos de medo diante da sua aproximação. Havia inúmeros ratos brancos e encolhidos, juntos; alguns haviam morrido por crueldade ou negligência; outros aguardavam, indefesos, sem proteção, os horrores que o dia seguinte poderia trazer.
Soluçando de puro terror e compaixão, Anita continuou. Dash, com seus grandes olhos escuros e cheios de lágrimas, observava cada um de seus movimentos de forma suplicante.
Em um canto da sala ela viu um pequeno bezerro olhando para ela com seus belos olhos marcados pela agonia. Perguntando-se qual seria a causa, aproximou-se e descobriu um grande corte em seu flanco, através do qual podia ver o movimento dos intestinos enquanto ele respirava. O animal recuou, tremendo, quando ela se aproximou e estendeu uma mão trêmula para acariciá-lo.
— Deus tenha piedade da Humanidade! — lamentou ela. — Quando nossos irmãos mais jovens, que deveriam buscar em nós orientação e auxílio em sua evolução, são levados pela crueldade humana a recuar com medo diante de um rosto humano. Não é de admirar que a evolução da Humanidade esteja retardada. Somente quando esses crimes atrozes forem esgotados e o ser humano se tornar o protetor e defensor dos seus irmãos mais jovens na evolução, somente então poderá encontrar seu próprio lugar no Plano de Deus.
— Ah, Dash! — exclamou ela, abraçando pelo pescoço. — Como sou grata a você por me ter ensinado essa lição! Agora compreendo que sua pequena vida na Terra terminou para que você pudesse prestar esse auxílio aos da sua própria espécie. Farei a minha parte, querido Dash, para que todos saibam e compreendam.
Dash, em um esforço frenético para demonstrar sua alegria diante dessas palavras, latiu e saltou ao redor dela, lambendo suas mãos com entusiasmo. Então, de repente, Anita despertou completamente em sua cama.
No início estava atordoada. Tudo parecera tão real! Ainda conseguia sentir o calor da língua de Dash em suas mãos. Ficou imóvel por muito tempo, refletindo… De vez em quando, um arrepio de terror percorria seu corpo ao recordar a experiência da noite.
Logo pela manhã Anita já estava vestida, a caminho da cidade. Desde então, todos os dias o seu rosto alegre e luminoso pode ser visto na esquina mais movimentada, enquanto sua voz suave ecoa a cada transeunte: — Você não gostaria de assinar minha petição para abolir a horrível tortura contra os animais?
Muitas pessoas assinam por causa do seu rosto gentil e da emoção em sua voz; outras ficam tão tocadas por sua sinceridade que resolvem investigar o assunto imediatamente. Dia após dia sua petição cresce e, ao ver o número de assinaturas aumentar rapidamente, lágrimas frequentemente enchem seus olhos. — Querido, querido Dash — murmura ela —, nós vamos vencer, vamos vencer!
Que Deus abençoe nossos esforços e apresse o dia em que a vivissecção seja contada entre os horrores das eras de trevas. Por vezes, ela ouve um latido distante atravessando o silêncio e sente uma língua quente encostando suavemente em suas mãos.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de agosto de 1920 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)
Não importa quão pequeno ou pouco importante que sejamos, alguém tem necessidade de nossa ajuda. Não importa quão ignorante possamos ser, ou o pouco talento que tenhamos, ali, muito perto de nós, há um serviço que só nós podemos prestar. A cada um de nós foi dado oportunidades para servir; não as percamos por nosso descuido ou indiferença. Não as percamos por esperar grandes oportunidades a realizar. O serviço que achamos pequeno e sem importância, pode produzir o maior bem. Basta um instante para estender a mão que pode ajudar a alguém a encontrar seu caminho ou uma estrela a qual seguir. Uma só palavra de alento ou de compreensão pode levantar a uma alma do mais profundo desespero e ajudá-lo a começar uma vida nova.
Quando se nos dá a oportunidade de servir, não desperdicemos tão preciosa ocasião em perguntarmos: “Me trará alguma benção?”; “que proveito terá nisso?”; “meu prazer antecipado diminuirá seu valor?”; “requererá muito esforço?”; “por que não deixar para que outra pessoa o faça?”; “poderei deixar para amanhã?”, e outras mil e uma desculpas. É muito melhor, sem perder tempo, dirigirmos a palavra ou estendermos a mão a quem necessita, com alegria e gratidão pela oportunidade que se nos apresenta de fazer um serviço, e esse é um de nossos privilégios, o de Servir.
“Tudo o que fizerdes em favor do menor de meus irmãos, a Mim o haveis feito” (Mt 25:40), ensinou-nos Cristo. Demonstraremos nosso amor por Ele, amando nossos irmãos e nossas irmãs. Servimo-Lo melhor, servindo nossos irmãos e nossas irmãs. Adoramo-Lo melhor quando oferecemos em Seu nome, nosso serviço desinteressado.
Foi-nos ensinado que “o serviço amoroso e desinteressado é o caminho mais curto, mais seguro e o mais agradável que nos conduz a Deus“. Isto se refere ao serviço que não se executa com fim de se obter lucros.
O serviço desinteressado tem sua fonte de Amor, o amor a nosso Pai e aos nossos irmãos e as nossas irmãs.
O progresso espiritual nos vem pelo serviço, porém este serviço nunca será realizado se ficarmos parados na metade do caminho. Esqueçamos nossas limitações e as nossas faltas.
Há sempre um serviço que podemos fazer melhor do que qualquer outro do mundo. Façamo-lo em nome de Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – maio/1981, Fraternidade Rosacruz – SP)
O Mestre, pela boca da solidão, fala muitas vezes à alma cansada da fatuidade do mundo e ansiosa por nova vida. E diz-lhe: “Não escutes as vozes enganosas que vem de fora. Vem para mim no retiro do teu coração e terás o verdadeiro conhecimento. Não penses deste modo: se eu tivesse num ermo, num vale profundo, numa paragem solitária, poderia realmente encontrar-me, poderia conhecer minha verdadeira vocação”.
“Não é preciso que te afaste para me encontrar. Também habito na tua consciência tranquila, na tua mente sossegada, na tua alma desprendida, nos teus sentidos sabiamente dominados. Eu, a perfeita solidão.
Se me buscas, podes encontrar-me em tua casa, no teu lugar de trabalho, entre o ruído da cidade, entre a confusão dos indivíduos. E, então, quando recolhida em ti, atingires tua íntima cela ouvirá a Voz Divina. Saberás que teu primeiro dever é transformar-te e esquecer o passado, bom ou mau, deleitoso ou amargurado, seus triunfos e fracassos”.
A alma, ao receber as sugestões destes belos pensamentos, acende-se em entusiasmo. Faz promessas fáceis e precipitadas. A doçura desses momentos já lhe parece o fim do Caminho, quando não é mais que mínima prenda da promessa divina.
No seu encanto, clama, suspira, geme e canta. E diz: “Conduze-me, Senhor, por este brilhante caminho de luz. Abre meus olhos para que veja a Tua beleza. Não te ocultes jamais da minha vista. Transforma a minha vida para que me concentre na única vida, a Tua, Senhor. Que se queime este corpo antigo, para vestir um traje de glória. Tenho trocado tantas vezes de bandeira! Quero, agora, esta nova bandeira, a que é feita de castidade, de renúncias e de sacrifícios. Senhor, por Ti desejaria sofrer todas as provas, todas as dores, padecer mil mortes, passar por mil suplícios, conhecer o martírio por que passaram os Teus servidores mais fiéis, só para ser digno do Teu amor!
Que se acenda já a chama da minha alma e, quando estiver em flama, que abarque todo o meu ser. Senhor não me deixe agora. Não posso estar só e nem a minha vida é vida sem Ti. Não vês, Sumo Bem, que tenho fome e sede de Ti, cada vez mais ardentes? Já comecei a buscar-Te e não posso mais deter-me, como a flecha que foi arremessada. Fala Senhor. Que queres que eu faça? Que queres de mim? Dize-me, para cumprir somente a Tua vontade”.
Pobre alma! Quanto pede e quanto promete! Não sabe como são duros os espinhos e cortantes as pedras que há de encontrar no Caminho!
O Divino Mestre, que a observa com suma ternura, cobre os olhos com as santas mãos, compadecidamente, ao ver, no porvir, todas as suas quedas. Quantas vezes terá que levantá-la; quantas vezes terão de curar-lhe as feridas e afastar de sua mente as nuvens de desencanto e do desespero!
Então, o Mestre lhe fala: “Não te levantes, ainda, oh alma, em grandes voos. Não prometas maravilhas nem aspires aos altos cumes da santidade. Contenta-te em viver bem o teu dia e em santificar as pequenas obras diárias. Segue-Me com submissão e simplicidade. Modifica a tua vida sem que nada ou ninguém o note e mantém-te exatamente como antes ainda que teu íntimo esteja completamente transformado.
Comece a procurar-Me por toda a parte, todo o dia e sempre. Que teus olhos Me vejam no rosto de todos os seres humanos e, como um véu, suspenso ante todas as coisas. Vê-Me no rico e no pobre, na criança e no ancião, no santo e no pecador, na flor e no céu, no dia e na noite, no trabalho que te desgosta e na festa que te alegra. Todas as coisas têm alguma formosura quando são miradas com olhos serenos, desapaixonados, vistas lá do fundo da solidão interior, da secreta morada.
Depois, oh alma, quando a compaixão vibrar em ti e te faça doce e mansa, sossegada e discreta, compreensiva e prudente; quando a dor alheia arder em tua própria carne – então, Me verás. Une-te com a dor, une-te ao Amor, une-te ao saber e à ação – e Me encontrarás. Porém, mais uma vez te recomendo: enquanto esperas, simplifica a tua existência, dia a dia, hora a hora; torna-a cada vez mais suave e mais humilde. Nunca digas: ‘dai-me!’. Que a tua palavra de ordem seja sempre: ‘Tome!’. Compreendes meu filho? Compreendes minha filha?”.
A alma ficou serena e tranquila. Aos arranques do entusiasmo, sucederam, em seu coração, a serenidade e a paz profunda. Tendo atingido o umbral da solidão e ouvido a voz do Mestre, começa o seu Caminho. Reina o silêncio em volta. Esta é a hora eterna.
E o Mestre? É o Cristo Interno que temos dentro de cada um de nós e que despertamos quando decidimos trilhar o Caminho da Santidade ou o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – agosto/1982, Fraternidade Rosacruz – SP)
A Ordem Rosacruz é uma Irmandade dedicada ao desenvolvimento das faculdades humanas, à exploração das leis mais profundas da Natureza e ao estabelecimento de uma Comunidade Cristã na Terra. Ela se encontra na Região Etérica do Mundo Físico onde tem o seu Templo: o Templo Rosacruz.
A Ordem Rosacruz tem o objetivo de lançar uma luz oculta sobre a mal-entendida Religião Cristã, e para explicar o mistério da Vida e do Ser do ponto de vista científico, em harmonia com a Religião.
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz são seres humanos que passaram pelas nove Iniciações Menores e pelas quatro Iniciações Maiores ou Iniciações Cristãs.
A Ordem Rosacruz constitui uma Ordem Sagrada, mas atua externamente por meio de indivíduos e grupos. A Fraternidade Rosacruz é uma dessas Associações. Ela se encontra aqui na Região Química do Mundo Físico. Ela foi criada para tornar os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental acessíveis a todos que buscam respostas lógicas e científicas para os Mistérios da vida e do ser.
A Fraternidade Rosacruz é uma escola e visa emancipar o indivíduo da dependência de fatores externos e alcançar, em vez disso, uma plena confiança no Deus interior.
A Fraternidade Rosacruz, como uma escola, existe com o propósito de informar os inquisidores e instruir os Estudantes Rosacruzes no trabalho preparatório para ingressar na Ordem Rosacruz.
A Ordem Rosacruz trabalha especificamente com os povos do Ocidente, e seus métodos de desenvolvimento espiritual são especialmente concebidos para atender às necessidades intelectuais e religiosas dessas pessoas.
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz trabalham para promover um desenvolvimento equilibrado entre a Mente e o Coração – a razão e a intuição. Eles trabalham para restabelecer a unidade dos três campos do esforço humano: Arte, Religião e Ciência.
A Ordem Rosacruz foi fundada no século XIV por Christian Rosenkreuz, um mensageiro da Grande Fraternidade Branca dos Divinos Hierarcas que guiam a Humanidade no caminho da evolução.
A Ordem Rosacruz é uma das sete Escolas Menores de Mistérios do mundo. Seus doze Irmãos Maiores, juntamente com seu décimo terceiro membro, o Líder, não possuem organização material, de modo que seu trabalho é desconhecido para todos, exceto os Iniciados de vários graus, desde o primeiro da Iniciação Menor até o quarto da Iniciação Maior.
Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz
Vamos ver a situação de um irmão ou uma irmã que passa pelas seguintes experiências em sequência:
1) O irmão ou a irmã que teve diagnósticos de órgãos vitais do seu Corpo Denso por pararem totalmente de funcionar e que, assim, começaram a rever e gravar o Panorama da Vida recém-finda presente no Átomo-semente do seu Corpo Denso para o Átomo-semente do seu Corpo de Desejos.
2) O irmão ou a irmã que depois de terminar a revisão e a gravação do Panorama da Vida recém-finda (e se for interrompida) ter o seu Cordão Prateado rompido “entre os dois seis”, no seguimento entre o Átomo-semente do Corpo Denso e o Átomo-semente do Corpo Vital.
3) O irmão ou a irmã que depois de terminar a revisão e a gravação do Panorama da Vida recém-finda e o Cordão Prateado rompido continuar apegado à Terra, funcionando a partir das Regiões inferiores no Mundo do Desejo onde procura influenciar os irmãos e as irmãs que estão aqui, renascidos, com o objetivo de satisfazer seus desejos inferiores (vícios, vingança, cobiça, apegos e afins).
4) O irmão ou a irmã que depois: de terminar a revisão e a gravação do Panorama da Vida recém-finda e do Cordão Prateado rompido começa a sua “vida celeste” entrando, por livre e espontânea vontade, no Purgatório – que se localiza nas três Regiões inferiores do Mundo do Desejo – e, depois, no Primeiro Céu – que se localiza nas três Regiões superiores do Mundo do Desejo – (se tiver alguma coisa para sublimar, purgar ou assimilar nesses lugares) e lá vivendo em torno de, no mínimo, um terço de tempo terrestre da última vida.
5) O irmão ou a irmã que depois: de terminar a revisão e a gravação do Panorama da Vida recém-finda, do Cordão Prateado rompido, de passar pelo Purgatório e pelo Primeiro Céu, começar a sua vida no Segundo Céu – que está localizado nas três Regiões inferiores do Mundo do Pensamento (ou Região Concreta do Mundo do Pensamento) –, onde ele ou ela está em sua pátria, seu lar. Aqui começa uma etapa da mais intensa e importante atividade. Aqui ele ou ela permanece durante séculos, assimilando o fruto da última vida e preparando as condições terrenas mais apropriadas para o seu próximo passo no progresso. Trabalha sobre os modelos da Terra: alterando as formas físicas e produzindo-lhe mudanças graduais no aspecto (tais como clima, a flora e a fauna). Ocupa-se também, ativamente, em aprender como construir um Corpo que tenha os melhores meios de expressão. Aprende a construir toda classe de Corpos, inclusive o humano, seu e dos outros irmãos e irmãs que estão prestes a renascer. O irmão ou irmã aqui são os que ajudam a viver os que estão prestes a renascer aqui. Por sua vez eles são ajudados pelos chamados “Espíritos da Natureza” aos quais governam.
6) O irmão ou a irmã que depois: de terminar a revisão e a gravação do Panorama da vida recém-finda, do Cordão Prateado rompido, de passar pelo Purgatório e pelo Primeiro Céu, de viver por séculos trabalhando ativamente no Segundo Céu entra no Terceiro Céu dissolvendo a Mente e, assim, se manifestando como um Ego (agora não é mais somente o irmão ou irmã, mas sim um Ego humano com os quatro Átomos-sementes que lhe garantem a possibilidade de construções de novos veículos), um Tríplice Espírito. Aqui, pela harmonia inefável desse mundo superior, fortifica-se para a próxima imersão na matéria. Tem a consciência mais expandida que pode ter, o que lhe garante a certeza do que está fazendo e precisa ainda fazer nesse Esquema de Evolução.
7) O irmão ou a irmã que depois: de terminar a revisão e a gravação do Panorama da Vida recém-finda, do Cordão Prateado rompido, de passar pelo Purgatório e pelo Primeiro Céu, de viver por séculos trabalhando ativamente no Segundo Céu, depois de viver no Terceiro Céu se manifestando como um Ego, um Tríplice Espírito, vem a vontade de novas experiências e a contemplação de um novo nascimento (pois sabe o que tem a aprender e o que tem a reparar, devido a erros em vidas passadas). E, por isso, começa todo um trabalho para renascer, mais uma vez, aqui.
Ué? Onde está o irmão ou a irmã que achamos que está morto ou morta? Simplesmente continua vivo ou viva, sempre!
Então o conceito de “morte” aqui podemos redefinir como: um estado do irmão ou da irmã, que por incompetência da pessoa que chama o irmão ou a irmã de morto (ou morta), não tem a visão específica para funcionar na Região Etérica do Mundo Físico e/ou no Mundo do Desejo e/ou no Mundo do Pensamento.
Assim, ao invés de acharmos que “acabou”, regozijemos pelos irmãos ou pelas irmãs que partindo daqui trabalham assiduamente e mais ativamente nos Mundos suprafísicos e oremos por eles – com saudades sim – mas com a certeza de “a morte não existe”!
Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz
É um erro pensar que, ao dar à luz um filho, os pais criam uma nova Alma ou um novo ser. O Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui), que se apresenta externamente como um bebê, é uma Centelha Divina, divinamente criada. É blasfêmia supor que meros seres humanos pudessem fazer algo tão maravilhoso. Tudo que os pais podem fazer é produzir o Corpo Denso da criança – e, mesmo assim, não em sua totalidade –, sua morada física durante esta específica vida terrena. Mesmo este Corpo Denso, os pais seriam incapazes de fornecer, se não fosse pelo Átomo-semente do Corpo Denso fornecido pelo Ego que inicia mais uma vida terrestre. Na verdade, os pais fornecem o solo no qual, ou a partir do qual, o Átomo-semente do Corpo Denso cresce até se tornar uma forma física e humana. Este Átomo-semente do Corpo Denso é propriedade do Ego, que vemos como um embrião ou feto então, que está por vir e é totalmente independente dos pais. E mais ainda, assim como o feto é resguardado dos impactos do Mundo visível pelo útero protetor da mãe durante o período de gestação, do mesmo modo os veículos mais sutis são resguardados por um envoltório de Éter e de matéria de desejos que os protegem até que estejam suficientemente amadurecidos e aptos para suportarem as condições do Mundo externo.
Mas antes que a criança possa começar uma vida terrena, o Átomo-semente do seu Corpo Denso deve criar raízes e crescer no Corpo de uma mãe. A mãe, portanto, é o portal pelo qual o Ego entra em uma nova vida na Terra.
E aqui devemos detalhar bem esse ponto para termos claro o assunto sobre filhos e filhas.
Aprendemos na Fraternidade Rosacruz que no nosso estado atual desse Esquema de Evolução a função sexual é o meio pelo qual são formados os nossos Corpos Densos usados por nós para obter experiência aqui, no Mundo Físico, que é o baluarte da nossa evolução.
Infelizmente, muitas pessoas que têm todas as condições de ajudar a um Ego que precisa renascer aqui se negam a isso! Dessa maneira anormal, muitos exercitam a prerrogativa divina de produzir a desordem na Natureza. Os Egos a ponto de renascer têm de se aproveitar das oportunidades que se apresentam e tais oportunidades, muitas veze, não são as condições favoráveis a eles. Outros que não podem renascer nessas circunstâncias, esperam até se apresentar ocasião mais favorável. Ou seja, muitos de nós, através dos nossos atos nos afetamos uns aos outros e, desse modo, “os pecados dos pais caem sobre os filhos”, porque assim como o Espírito Santo é a energia criadora da Natureza, a energia sexual é seu reflexo em cada um de nós. O mau uso ou abuso da força sexual criadora é um pecado que não se pode perdoar; deve ser expiado, com prejuízo da eficiência dos veículos, a fim de aprendermos que a força sexual criadora é sagrada.
Muitas outras pessoas, ansiosas por viver uma nobre vida espiritual, muitas vezes, até consideram a função sexual um horror, por causa das misérias que o seu abuso tem trazido a nós todos. Assim, nem querem ver o que consideram uma impureza! Só que se esquecem de que são elas, as quais deram boas condições aos seus veículos por meio de alimentação apropriada e saudável, de elevados e bondosos pensamentos e de vida espiritual, precisamente, as que estão em melhores condições para gerar Corpos Densos apropriados às necessidades de desenvolvimento de irmãos e irmãs que esperam para renascer!
Quando renascemos aqui com o sexo feminino e nos recusamos a ajudar a construir um Corpo para um Ego, que precisa e merece entrar em uma vida terrena por meio do nosso Corpo, estamos privando esse Ego da nossa assistência nesse assunto. Se temos condições física, emocional, moral, financeira e espiritual suficientes adequadas, por que não?
Uma mulher e um homem, cujos pensamentos sejam puros e nobres, e cuja vida aqui seja dedicada à elevação da Humanidade dedicada à espiritualidade, pela Lei da Atração, atrairá para si um Ego com inclinações semelhantes. A atitude mental da mãe, imediatamente antes da recepção do Átomo-semente do Corpo Denso, é fundamental para determinar que Ego ela ajudará a construir um novo Corpo Denso aqui. Já uma mulher e um homem cujos pensamentos sejam impuros e inferiores, e cuja vida aqui seja dedicada à orgia, prazeres sensuais ou ao ódio, raiva e demais emoções inferiores, pela Lei da Atração, atrairá para si um Ego com inclinações semelhantes. Quando renascemos aqui com o sexo feminino, carregamos uma responsabilidade tremenda, e quanto mais cedo aprendemos tudo que há sobre isso, tanto melhor será para a próxima geração.
Sabemos, pelos Ensinamentos Rosacruzes, que antes de renascermos aqui, em mais uma vida terrena, no Panorama da Vida escolhido ainda no Terceiro Céu há a indicação dos que serão o nosso pai e a nossa mãe. Mas ninguém pode escolher um ambiente que não seja merecido ou não tenha conquistado em outra vida.
A futura mãe, cumprindo seu dever sagrado, protegerá cada pensamento, palavra e ação antes de receber o Átomo-semente sagrado que se desenvolverá, tornando-se o Corpo Denso do seu filho ou da sua filha. Por meio da oração, ela se esforçará para tornar sua dádiva à Humanidade um presente abençoado. De boa vontade, com alegria e o amor protetor de mãe, ela ajudará o bebê a se formar e crescer. É assim que a maternidade realiza os mais elevados ideais de moralidade.
Quando habitamos Corpos em civilizações passadas, quando renascíamos sob o sexo feminino, éramos árbitros dos destinos do Mundo. Depois, em civilizações mais recentes quando renascíamos – e até agora, quando renascemos – sob o sexo masculino somos os árbitros dos destinos do Mundo. Agora estamos às vésperas da transição para a Nova Era – a de Aquário – e nessa Era quando renascermos sob o sexo feminino, novamente, seremos árbitros dos destinos do Mundo. Em consequência, quando renascermos sob o sexo masculino teremos que se submeter aos seus ditames, mas antes que isso aconteça, uma era de igualdade virá.
Essa é chamada de Era de Aquário pelos ocultistas, e já começamos a sentir seus efeitos desde meados do século passado, quando o Sol, por Precessão dos Equinócios, entrou na Órbita de Influência de Aquário. No lento ritmo desse movimento, Precessão dos Equinócios, o Sol não atingirá o zero grau de Peixes antes de, aproximadamente, 600 anos. Mas durante esse período haverá, é claro, tantas mudanças maravilhosas em nosso estado físico, moral e mental, que somos agora incapazes de conceber.
Nós, agora no Corpo Denso, seremos seguidos por Espíritos ainda mais evoluídos que trarão grandes reformas. Quando as pessoas que atualmente vivem na Terra, e estão atrasadas espiritualmente, renascerem naquela atmosfera de grande realização intelectual, quando o Mundo estiver bem encaminhado na linha de desenvolvimento peculiar àquele momento nesse Esquema de Evolução, elas ganharão uma imensa elevação de consciência pela Lei da Atração que garante, por exemplo, que um condutor elétrico que é aproximado de um fio altamente carregado, receba automaticamente uma carga de voltagem mais baixa.
Assim, cada classe ou grupo que ascende, ajuda também a elevar aqueles que estão abaixo dele na escala evolutiva. O assunto populacional, portanto, não é inteiramente governado por indivíduos ou leis criadas pelo ser humano; são as Hierarquias Criadoras que guiam nossa evolução, e quem organizam isso, conforme necessário para o bem maior de todos os envolvidos; assim, o número da população está em suas mãos, não nas nossas.
Eis o motivo de que devemos sempre ajudar as pessoas onde elas estão e não onde deveriam estar. Os Ensinamentos Rosacruzes sempre enfatizaram o fato de que “semelhante atrai semelhante” e, portanto, é dever daqueles que sejam bem desenvolvidos física, moral e mentalmente, proporcionarem um ambiente para tantos Espíritos quanto suas circunstâncias físicas e financeiras permitirem.
Esse dever é ainda mais contundente para aqueles que também são espiritualmente desenvolvidos, pois uma entidade espiritual elevada não pode entrar na existência física através de uma ascendência vil. Mas quando um casal atinge o ponto em que é considerado perigoso para a saúde da mãe gerar mais filhos, ou se o fardo financeiro estiver acima de suas possibilidades, então ele deve viver uma vida de continência. Isso naturalmente requer considerável avanço espiritual e autocontrole.
Poucos são capazes de viver tal vida e seria o mesmo que aconselhar a continência a um muro de pedra, fazê-lo a um espécime médio da Humanidade. Ele não consegue entender que isso seja necessário; acredita até mesmo que interfira em sua saúde, pois falsas declarações sobre a necessidade de exercer essa função levaram a muitos resultados deploráveis. Mesmo que pudesse ser persuadido a negar a si mesmo pelo bem da sua companheira e dos filhos que já trouxe ao mundo, provavelmente seria totalmente incapaz de se conter.
Nesse ponto, nunca esqueçamos que os ensinamentos espirituais devem ser transmitidos repetidamente para que, à medida que a gota constante desgasta a pedra, assim também, e com o passar do tempo, as gerações futuras aprenderão a depender da sua própria força de vontade para realizar o objetivo de manter sua natureza inferior sob controle. Sem esse aspecto educacional dirigido para a emancipação espiritual, fica muito difícil a pessoa evoluir espiritualmente.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – fevereiro /1918 – Traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)