Anita Long estava parada, olhando pela janela com olhos pensativos e sombrios. Era uma jovem frágil e sensível sobre quem as vibrações do Mundo material pesavam intensamente. Durante toda a noite ela havia viajado, como mais gostava de fazer, entre as, assim chamadas, coisas vagas, intangíveis ou transcendentes. Sempre que refletia muito sobre esses assuntos, a aparente lentidão do progresso humano na Terra a assustava e a desanimava.
Afastando-se da janela com um suspiro perplexo, seu olhar caiu sobre o editorial de um jornal vespertino: “A cruzada contra a vivissecção”. Ela nunca havia pensado muito sobre o assunto, apenas sabia que a ideia talvez fosse horrível, repulsiva. Naquele mesmo dia, várias de suas amigas haviam insistido para que ela as ajudasse a trabalhar nas ruas, despertando o interesse do público pela causa; no entanto, sempre avessa às multidões apressadas das ruas da cidade, ela recusara.
Sentia-se muito solitária desde a morte do seu companheiro, um belo cão, da raça bull terrier, chamado Dash, ocorrida poucas semanas antes. Sua coleira ainda estava pendurada ao lado da cama, pois ele costumava acordá-la de manhã colocando-a sobre o travesseiro; então ficava ansiosamente esperando o passeio matinal enquanto ela se vestia. Rapidamente ela conteve as lágrimas enquanto acariciava a coleira.
— Querido Dash, como sinto sua falta! — murmurou, deixando-se afundar sonolenta entre os travesseiros. De repente, ergueu-se parcialmente. Estava acordada ou sonhando?
Dash estava novamente em seu lugar habitual, ao lado da cama, e seus olhos suplicavam ansiosamente como costumavam fazer. Mas desta vez ele não prestava atenção à coleira. Parecia apenas impaciente para que ela o acompanhasse. Já não havia brincadeira em seu comportamento, apenas um apelo sério. Agora, ele deveria conduzir e ela deveria seguir.
Incapaz de resistir ao olhar suplicante, Anita colocou a mão sobre sua cabeça e, meio adormecida, meio desperta, viu-se muito longe, na cidade, diante das paredes de um grande edifício de pedra.
Assim que entrou no prédio, seu coração pareceu parar ao ouvir os terríveis gemidos de agonia vindos de uma sala adjacente. Dash, com o mesmo olhar mudo e implorante, conduziu-a até uma porta, onde ela ficou paralisada de espanto. Sua respiração quase cessou de terror.
Em uma grande jaula estavam cães de todos os tipos e tamanhos, gemendo e arfando em dolorosa agonia. Alguns tinham enormes feridas na garganta, das quais o sangue escorria em pequenos filetes enquanto respiravam; outros tinham aberturas cortadas em seus flancos, que, em seu sofrimento, mordiam e rasgavam, deixando pedaços de carne dilacerada espalhados pelo chão da jaula. Um enorme mastim, com os olhos lacrimejantes e os lábios cobertos de espuma, agarrava as barras de ferro da jaula com os dentes e, em um frenesi de dor, tentava arrancá-las.
Incapaz de suportar por mais tempo aquela visão abominável, Anita se afastou estremecida. Mas Dash, erguendo-se, segurou sua mão com a boca e a conduziu mais adiante pela sala. Ela viu gaiolas cheias de coelhos, todos mutilados e manchados de sangue com olhos suaves, mas repletos de medo diante da sua aproximação. Havia inúmeros ratos brancos e encolhidos, juntos; alguns haviam morrido por crueldade ou negligência; outros aguardavam, indefesos, sem proteção, os horrores que o dia seguinte poderia trazer.
Soluçando de puro terror e compaixão, Anita continuou. Dash, com seus grandes olhos escuros e cheios de lágrimas, observava cada um de seus movimentos de forma suplicante.
Em um canto da sala ela viu um pequeno bezerro olhando para ela com seus belos olhos marcados pela agonia. Perguntando-se qual seria a causa, aproximou-se e descobriu um grande corte em seu flanco, através do qual podia ver o movimento dos intestinos enquanto ele respirava. O animal recuou, tremendo, quando ela se aproximou e estendeu uma mão trêmula para acariciá-lo.
— Deus tenha piedade da Humanidade! — lamentou ela. — Quando nossos irmãos mais jovens, que deveriam buscar em nós orientação e auxílio em sua evolução, são levados pela crueldade humana a recuar com medo diante de um rosto humano. Não é de admirar que a evolução da Humanidade esteja retardada. Somente quando esses crimes atrozes forem esgotados e o ser humano se tornar o protetor e defensor dos seus irmãos mais jovens na evolução, somente então poderá encontrar seu próprio lugar no Plano de Deus.
— Ah, Dash! — exclamou ela, abraçando pelo pescoço. — Como sou grata a você por me ter ensinado essa lição! Agora compreendo que sua pequena vida na Terra terminou para que você pudesse prestar esse auxílio aos da sua própria espécie. Farei a minha parte, querido Dash, para que todos saibam e compreendam.
Dash, em um esforço frenético para demonstrar sua alegria diante dessas palavras, latiu e saltou ao redor dela, lambendo suas mãos com entusiasmo. Então, de repente, Anita despertou completamente em sua cama.
No início estava atordoada. Tudo parecera tão real! Ainda conseguia sentir o calor da língua de Dash em suas mãos. Ficou imóvel por muito tempo, refletindo… De vez em quando, um arrepio de terror percorria seu corpo ao recordar a experiência da noite.
Logo pela manhã Anita já estava vestida, a caminho da cidade. Desde então, todos os dias o seu rosto alegre e luminoso pode ser visto na esquina mais movimentada, enquanto sua voz suave ecoa a cada transeunte: — Você não gostaria de assinar minha petição para abolir a horrível tortura contra os animais?
Muitas pessoas assinam por causa do seu rosto gentil e da emoção em sua voz; outras ficam tão tocadas por sua sinceridade que resolvem investigar o assunto imediatamente. Dia após dia sua petição cresce e, ao ver o número de assinaturas aumentar rapidamente, lágrimas frequentemente enchem seus olhos. — Querido, querido Dash — murmura ela —, nós vamos vencer, vamos vencer!
Que Deus abençoe nossos esforços e apresse o dia em que a vivissecção seja contada entre os horrores das eras de trevas. Por vezes, ela ouve um latido distante atravessando o silêncio e sente uma língua quente encostando suavemente em suas mãos.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de agosto de 1920 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)