Aqui temos uma história oculta sobre o relacionamento entre pessoas provocado justamente pelo destino e que as fazem aprenderem lições conjuntas que enriquecem a vida aqui e ajudam a evoluir espiritualmente nessa vida.
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Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta
Por um Estudante
Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
Avenida Francisco Glicério, 1326 – conj. 82
Centro – 13012-100 – Campinas – SP – Brasil
Traduzido, Compilado e Revisado de acordo com:
Links of Destiny
1ª Edição em Inglês, 1916 a 1917, in The Rays from The Rose Cross – The Rosicrucian Fellowship
pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz – Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
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CAPÍTULO I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS
Os tons amarelados de um pôr do sol dourado iluminavam o céu do oeste e banhavam, em um esplendor momentâneo, a modesta rua da vila. As pequenas e humildes moradias resplandeciam na glória da transformação, enquanto o suave brilho âmbar repousava sobre elas. Ao passar, lançou um raio trêmulo de luz sobre as janelas da velha escola de tijolos vermelhos, na estrada principal — e então desapareceu lentamente sobre as colinas cobertas de faias e bordos que coroavam o horizonte.
O desgastado estrado de madeira captou o último lampejo de esplendor, e Ralph Remington, sentado à sua mesa, ergueu os olhos cansados para encontrar o brilho dourado. Um halo de luz repousava sobre sua cabeça, trazendo certa paz ao seu espírito solitário. Ao ouvir a música crepuscular da natureza, em seu fim pianíssimo [muito suave], ele quase se esqueceu dos fardos que carregava e que, poucos momentos antes, pareciam tão pesados.
O bálsamo aromático dos pinheiros entrava pelas janelas abertas, misturando-se suavemente ao perfume da rosa silvestre e da roseira-brava. Com o murmúrio do riacho límpido, que corria sobre as pedras brancas e lisas, vinham aromas deliciosos do vale dos fetos, onde a Natureza revelava alguns de seus segredos maravilhosos a quem quisesse ouvir.
O mestre-escola inspirou longas e profundas respirações do ar perfumado e sentiu-se momentaneamente revigorado. Então voltou-se novamente para os papéis sobre sua mesa e concentrou a consciência nos problemas de seus alunos. Continuou trabalhando, indiferente ao que o cercava, enquanto o longo dia de verão chegava ao fim. As aves deixaram de esvoaçar e o laborioso zumbido das abelhas se dissolveu num indistinto e sonolento murmúrio.
As inúmeras formas de vida trêmula da floresta cessaram instintivamente sua agitação inquieta. A paz pairava sobre a paisagem: o dia chegara ao fim. Formas estranhas e fantásticas surgiam gradualmente do crepúsculo que se adensava, acumulando-se nos cantos e entre os rudes bancos de madeira.
Mesmo assim, Ralph Remington permanecia sentado à sua mesa, de cabeça baixa, aparentemente alheio à escuridão que se adensava. Em retrospecção, revivia os anos passados — exteriormente sereno, discreto, convencional, mas, por dentro, movendo-se entre tempestades e conflitos até o desfecho. Suas provações começavam a assumir forma concreta e uma crise parecia aproximar-se.
De repente, a sombra de uma figura apareceu na porta e uma voz metálica enviou vibrações discordantes através da quietude da noite.
— Ainda aqui, é? Fui até a Villa para te ver! Sonhando, Ralph? Bem, sonhos não levam ninguém a lugar algum! Uh — este é um lugar fantasmagórico!
Repentinamente despertado do seu devaneio, Ralph Remington levantou-se e aproximou-se do intruso com a mão estendida: “Boa noite, Horace!”.
Por um momento, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Então, Horace Rathburn perguntou, com um tom que irritava os ouvidos do homem de coração gentil à sua frente: “Então, você já considerou a minha proposta?”.
— Isso teria sido um gasto desnecessário de força mental, Horace! Minha resposta para você naquela noite foi definitiva.
— Posso então inferir que você não usará sequer a influência que possui para garantir o objetivo proposto? É um pedido pequeno — e mesmo assim traria resultados altamente benéficos para todas as partes!
— Isso não é algo para nós decidirmos. Os principais envolvidos no caso são os únicos que têm interesse.
— Uma posição tola para assumir, Ralph Remington! Você influencia sua filha em tudo e a natureza dela é uma réplica da sua: você é seu modelo, em resumo; mas quando chega o momento mais importante da vida dela, também da sua, você se afasta e a deixa à deriva, entregue a um simples capricho, um devaneio! É melhor você reconsiderar o assunto!
— O tempo em que os pais decidiam os destinos dos filhos já passou. Marozia possui, de maneira incomum, as finas e aguçadas intuições femininas. O julgamento dela será a voz decisiva neste assunto, assim como em outras questões que a envolvem!
Havia uma firmeza silenciosa na voz de Ralph Remington que Horace Rathburn compreendia bem. No entanto, a persistência era sua característica mais marcante.
— Marque bem isto, Ralph! Não estou com disposição para continuar sendo enganado! A felicidade do meu filho está em jogo e agora será guerra até a morte, a menos que você ceda! Ralph Remington permaneceu em silêncio.
O estalar da brita sob seus pés, enquanto caminhavam entre pinheiros e cicutas, o canto dos grilos e o coaxar dos sapos no pântano distante eram os únicos sons que quebravam a quietude da noite. Horace Rathburn não suportava o silêncio. Era um homem de ação, e algo precisava ser dito ou feito a cada momento de vigília, não importando a natureza do que fosse dito ou feito. Sonhos, como ele chamava os silêncios da alma — eram totalmente supérfluos.
— Você ouviu, Ralph? Guerra até a morte! A menos que você ceda.
— Você já me viu ceder quando um princípio estava em jogo?
Horace Rathburn lembrou-se imediatamente de várias ocasiões no passado em que a vontade inflexível de Ralph Remington, empregada em favor do que era certo, havia frustrado seus planos perversos — e a lembrança não era nada agradável. Ele se contraiu e se remexeu levemente sob o olhar direto e penetrante que lhe era lançado na penumbra. Então, mudou seu método de ataque.
— Um belo subterfúgio esse: mandar sua filha para a escola em Utica, tendo uma escola preparatória aqui em Unadilla, da qual o meu ilustre colega, Ralph Remington, é o… ah… hm… diretor!
— Poupe seu sarcasmo, Horace Rathburn! A ocasião não justifica seu esforço.
— Mais uma vez, então, você recusa o meu pedido? Tem coragem de recusá-lo, sabendo o que isso significa para sua filha em termos de um futuro brilhante?
— Eu me recuso a interferir, de qualquer forma, nos direitos e prerrogativas da minha filha. Além disso, não quero que ela seja incomodada, sequer minimamente, por quaisquer sugestões ao retornar para casa. Esse é um assunto sagrado demais para ser invadido de forma tão impiedosa, especialmente depois do tom mercenário que você acabou de adotar.
— Então, entendo que você está dizendo que permitirá que ela faça o que quiser, mesmo que isso leve à miséria?
— Sua linguagem é exagerada, Horace. Pessoas de inteligência e instrução raramente se tornam miseráveis! Elas podem ganhar o próprio sustento.
— Então modifique, se quiser. O que pensará, quando ver a bela Marozia Remington trabalhando para ganhar o próprio sustento?
Uma súbita e bela luz irradiou do expressivo rosto de Ralph Remington, enquanto ele erguia a mão no gesto solene e forense que o caracterizava quando sua alma estava na arena, lutando pelo certo contra forças visíveis ou invisíveis.
— Isso não seria o pior dos males! Mil vezes melhor que ela fosse até mesmo uma miserável do que uma noiva infeliz. Nenhum jugo é tão opressor quanto o jugo matrimonial, quando une duas pessoas que vivem em planos diferentes. Seu filho é materialista, minha filha é idealista. Seria apenas mais um caso de união malformada e é sempre o idealista quem sofre. Claude não perceberia a disparidade, mas isso destruiria Marozia. Somente a verdadeira união de almas pode trazer felicidade a um casamento assim.
— Humm! Um sentimento um tanto esfarrapado e gasto, parece-me! Muito mais adequado à era da cavalaria do que a esta! Eu lhe digo, Ralph — seu tom mudou rapidamente para o de um promotor quase solícito, cuja simpatia se expande de forma diretamente proporcional ao desinteresse crescente da vítima em potencial — você e eu já estamos na ladeira descendente da colina e para nós isso não importa tanto, mas eu posso ver as marcas de dedo na parede!
— Deixe-me dizer algo como um velho amigo. O dinheiro será o poder dominante. Em menos de uma década, você verá que ele será o deus supremo. Inteligência não terá mérito; na verdade, será um obstáculo! Cultura, educação, linhagem: tudo estará em desvalorização. O amor será confirmado como aquilo que todas as pessoas sensatas já consideram, mera loucura ou tolice sentimental, adequada apenas para jovens imaturos e garotas tolas. Marozia é sensata demais para desperdiçar todas as suas chances de progresso em troca de um sentimento tolo como o que você expressou. Eu conheço algo do seu calibre mental e ambição de se destacar por meio de esforços intelectuais. Você sabe que isso não pode ser feito sem dinheiro… ou o seu equivalente, a influência!
— Horace, eu me recuso a continuar discutindo sobre esse nobre sentimento e não vejo razão para prolongar esta conversa.
— Bem, pode ser que haja uma ou duas razões do meu lado!
Tirou de um bolso interno um embrulho. O caminho de cascalho sob as cicutas fundia-se, naquele ponto, à rua da aldeia e, na penumbra, Ralph Remington viu o brilho malévolo nos olhos que estavam fixos nele. Um sapo preencheu a pausa com seu coaxar gutural. Ralph estremeceu ao erguer o olhar para a beleza serena dos céus. A voz metálica soou áspera em seus ouvidos sensíveis. As palavras seguintes ecoaram com a precisão cortante de quem está seguro de sua posição.
— Com base nos dados que tenho, sei que o estado de suas finanças está longe de ser satisfatório, para dizer o mínimo. Eu lhe ofereci a oportunidade de recuperar sua fortuna arruinada e colocar sua filha em uma posição condizente com seu caráter e conquistas. Você desprezou minhas propostas. Está vendo estas notas? Estão vencidas!
À luz que se projetava do correio da aldeia, Horace Rathburn pôde ver o efeito desse último golpe. Sua vítima pareceu atordoada por um momento. Ele não imaginara que as coisas tivessem chegado a tal crise.
— O que significa isso, Horace?
— Ah, eu as comprei, simplesmente.
— Isso é um jogo de extorsão… ou o quê?
— Dê o nome que você quiser. Tenho certeza da minha posição legal nesse assunto. Além disso, não me importo sequer um pouco. Agora você vai aceitar minhas condições!
Seu modo havia se tornado, de repente, intolerável. Havia nele uma insolência fria e arrogante que representava um insulto imensurável para o homem de grande alma que caminhava ao seu lado. Um apito estridente lhes feriu os ouvidos, quando o trem da noite contornou uma curva das colinas.
— Vou dar um tempo razoável para você pensar, mas você sabe qual é a alternativa. Boa noite.
CAPÍTULO II – Conexões do Destino
A velha carruagem, que levara Marozia Remington da sua casa até Utica, fora agora substituída pela ferrovia. A aldeia primitiva, colocada assim em comunicação direta com a cidade de Nova York, recebera da grande metrópole certas importações não totalmente condizentes com seu caráter rural. Seu antigo encanto residia em sua simplicidade rústica. Habitantes cansados da cidade fugiam para lá durante os quentes meses de verão a fim de descansar e recuperar as forças entre as colinas azuladas. Desde que a ferrovia estendera seus ramais da linha principal para todos os ricos assentamentos agrícolas e povoados vizinhos, chalés e vilas começaram a brotar às margens dos lagos límpidos de águas azuis. Ricos nova-iorquinos haviam previsto as vantagens desse local como estância de veraneio. Ainda estava em sua fase embrionária. Até então, era pouco mais do que um sonho na Mente de Horace Rathburn e de um ou dois outros empreendedores e capitalistas. Esses homens olhavam para o futuro e viam possibilidades nesse lugar.
Nessa fase de transição, a aldeia começava a crescer desajeitada, como uma camponesa que se enfeita com bugigangas e joias de vidro e finge sofisticação. Havia perdido o antigo encanto e ainda não adquirira o mais refinado, o da verdadeira cultura. Para Marozia, que estava repleta do entusiasmo infantil de uma viajante que retorna, a vulgaridade meio oculta ainda não se tornara aparente. Ela prendeu a respiração com um arrepio de deleite quando o trem, que a levava de volta para casa, contornou uma curva e visões cintilantes de azul e verde desfilaram diante dos seus olhos. Ora margeava um lago azul, ora atravessava uma muralha de rocha — então, outra abertura na cadeia de bosques ondulantes revelava sua aldeia natal, em sua pitoresca simplicidade, aos pés das colinas. No crepúsculo que se adensava, ela pôde distinguir ao longe a Farmington Villa, erguida no cume de uma das colinas de Beachwood, e estremeceu de emoção diante daquela visão. Enfim, ela estava em casa — e ali estava seu pai, na estação, à sua espera. Com a ansiedade de uma criança ela se lançou para encontrá-lo, mas recuou de súbito quando viu o seu rosto.
— Oh, por que eu o deixei, pai? — ela exclamou com algo na voz que parecia um soluço contido. — Por que eu o deixei?
Ele sorriu ternamente ao pousar a mão sobre os cabelos dela com seu antigo toque carinhoso.
— Isso não lhe fez mal, querida? — disse ele, em tom de pergunta e afirmação, enquanto seus olhos gentis repousavam sobre o rosto dela.
— Não, mas você… você, pai! Você sofreu e eu posso ver isso. Emagreceu muito também! Oh, pai, por que eu fui embora?
— Por que você não deveria ter ido? — ele perguntou com um sorriso terno, meio curioso.
— Porque você precisava de mim aqui.
— De fato, querida, não sou um tirano ridículo o suficiente para mantê-la em casa, afastada da escola, apenas para atender às minhas necessidades imaginárias.
Ela percebeu que ele tremia, como de fraqueza, quando ela segurou seu braço. Ela procurou a carruagem e o velho cavalo da família. Ele leu em seu olhar a pergunta silenciosa e disse em tom mais baixo.
— Vendi o cavalo e a carruagem no mês passado. Você se sente capaz de caminhar, minha filha?
Ele virou o rosto para que ela não percebesse a emoção estampada ali.
— Você sabe que costumávamos caminhar muitas vezes, você e eu, minha menina, e será como nos velhos tempos outra vez. Mas tem certeza de que não está cansada demais? — acrescentou ele, com profunda solicitude na voz.
— Só estou cansada de ficar sentada. Estou ansiosa para caminhar!
Mesmo assim, ela se perguntava por que motivo ele vendeu o velho cavalo da família.
Uma multidão curiosa os observava enquanto se afastavam e passavam pela agência dos correios da vila. “Agência dos correios” era o nome que ostentava, mas como muitos exemplares da espécie humana, exibia uma aparência que não conseguia sustentar. Uma vez lá dentro, suas limitações eram dolorosamente aparentes. Ocupava apenas um pequeno canto de uma loja, que ostentava uma placa que dizia “Mercearia e Miudezas Yankee” em grandes letras pretas na frente outrora imaculada. Agora, cinza com as tempestades de muitos anos.
A multidão heterogênea de desocupados naquela hora utilizava barris de melaço e açúcar, além de caixas de sabão, como assentos, enquanto se sentava para entalhar pedaços de madeira e se entregava às costumeiras fofocas da aldeia. Diferia apenas, em relação àquelas espalhadas durante os chás dos círculos de costura das mulheres, nos adjetivos e nas exclamações.
O respeito pela nossa frequentemente mutilada língua inglesa e pelas leis do esteticismo impedem um relato literal da discussão que surgiu naquela noite sobre o retorno de Marozia Remington de Utica. O consenso geral parecia ser de que a educação para as mulheres fosse inteiramente supérflua e, nesse caso, pouco menos do que criminosa, considerando a arruinada situação financeira dos Remingtons. Rube Slater parecia ser o presidente do conclave de desocupados e seu discurso de abertura à assembleia começou da seguinte forma.
— Bem, eu acho que a Marozia Remington carrega a cabeça um tiquinho alto demais, considerando as coisas!
Enquanto falava, dois filetes amarronzados escorriam pelos cantos de sua boca grande, seguiam caminho tortuoso pelo queixo enrugado e, por fim, perdiam-se entre a barba rala e avermelhada que o adornava.
Zeke Ketchum tinha de fonte bastante confiável que “ela” havia retornado justamente nesse momento para entrar em competição com as irmãs Watson e outras moças do condado a fim de conquistar o prêmio matrimonial da temporada — Claude Rathburn, filho do promotor e capitalista.
Havia uma ligeira diferença na formulação entre os membros do “conselho da aldeia”, mas todos concordavam em um ponto, a saber: que os Remingtons eram excessivamente aristocráticos e precisavam ser rebaixados alguns “graus”.
Marozia e seu pai, completamente inconsciente aos comentários que despertavam, subiram pela longa rua da aldeia e desapareceram de vista. A antiga “casa de reuniões” erguia-se diante de seu semicírculo de abrigos para carroças, rígida, cinzenta e sóbria — em marcado contraste com a pequena igreja gótica do outro lado do caminho.
Mais adiante, passaram pela antiga escola vermelha, aninhada entre os abetos e pinheiros, depois pelo moinho semiarruinado com sua enorme roda d’água que se erguia negra e espectral na luz que se desvanecia. Seguiram pela “estrada da colina”. Marozia notou que tudo lhe parecesse ainda mais primitivo do que antes, depois do seu ano de vida na cidade — e, no entanto, amava mais. O amor tem o dom de idealizar todos os defeitos.
Houve um tempo em que ela sentia apenas um desprezo intolerável por seu ambiente na aldeia. Agora, idealizava sua simplicidade arcadiana. Sentia-se feliz ao caminhar de braço dado com o pai pela estrada pedregosa. O mesmo e velho sapo que havia tomado posse do seu tronco no pântano anunciou sua presença. Sua voz era patriarcal e ele praticamente bramia. Marozia soltou uma risadinha divertida e lançou um olhar furtivo ao pai. A expressão em seu rosto a surpreendeu. Suas próximas palavras foram ditas em tom menor.
— Essas criaturas não têm a menor noção de que seus esforços de expressão soam como uma nota dissonante na música do Universo. Eu me pergunto se a nossa música afeta do mesmo jeito as Inteligências superiores de outros mundos! Os sapos têm seus noturnos e nós, nossas sinfonias; lá em cima, nos mundos tonais, toda a nossa música pode parecer rudimentar! Nossa própria vida, com todas as suas elevadas aspirações, pode ser uma dissonância na harmonia universal.
O sapo respondeu em seu baixo profundo e ambos sorriram.
— Que angustiante! — ele disse, e ela instintivamente soube que seu pai estivesse sofrendo.
Sua simpatia intuitiva nunca precisou de detalhes verbais.
Ela tentou, em meio a uma brincadeira meiga e bem-humorada, dissipar a melancolia, mas depois insistiria em sua determinação de conhecer a causa.
Sua Mente analítica jamais descansava e obedecia ao indício do sexto sentido adivinhatório para compreender a causa subjacente dos eventos.
Agora, era necessário mudar o curso dos pensamentos dele com o seu brilho mágico.
— Não foi meu pai quem falou. Ele teria falado da seguinte forma: se nossos sentidos fossem suficientemente aguçados, poderíamos perceber a harmonia subjacente até mesmo no coaxar de um sapo!
Sua alma emergiu de repente das trevas. O sorriso terno dela e o leve tremor em sua voz revelaram sua simpatia abrangente. As palavras eram apenas uma brincadeira. Um sorriso sereno, luminoso como a luz, pairava sobre as marcas do cansaço.
— Ah, perdoe o meu pequeno deslize filosófico, Marozia, minha filha! Na verdade, nossa vida é grandiosa e bela, mesmo com seu canto fúnebre de dor. Todos os tons são necessários, até mesmo aquilo que chamamos de dissonâncias, para compor a música das esferas. É apenas uma questão de ajuste, combinação. Mesmo assim, a nossa Terra, com sua multiplicidade de tons, toca apenas um acorde na poderosa harmonia do Universo.
— Falou como meu querido pai! — exclamou a jovem com terna paixão. — Ele podia ver o brilho delicado de seu sorriso na penumbra, que lutava por atravessar a densa folhagem.
— Não existe lado sombrio quando vemos de forma abrangente, com clareza suficiente; ainda assim… — Ele se interrompeu de repente e a velha sombra voltou a se insinuar em seu rosto. — É o agora e o aqui que mais nos afeta, apesar de toda a nossa bela filosofia. Por uma pequena nota falsa, ou um gesto em falso, todo o ritmo se desfaz: ao menos nesta vida. É preciso haver unidade de objetivo e propósito, harmonia: uma união verdadeira!
Uma alma menos intuitiva que a de Marozia teria questionado, ou em silêncio se espantado com a transição abrupta. Ela compreendia o hábito de seu pai de devanear em tom rítmico. Sabia que sua Mente tivesse mudado rapidamente de opinião e estivesse contemplando outra fase do seu problema. Sabia que ele tivesse problemas a resolver e que, com sua ampla e abrangente simpatia, pudesse compreender muitas coisas que não lhe haviam ocorrido de fato pela via da experiência. Seus devaneios continuaram…
— Podemos teorizar sobre a beleza abstrata, mas são as simples experiências humanas do dia a dia que determinam a ventura ou a desventura. A felicidade ou a miséria doméstica talvez não dependam tanto de condições ideais, mas sim do enlace. Viver em planos diferentes, ter interesses muito distantes é uma tortura inconcebível para aquele que aspira mais alto — e se torna ainda mais intolerável com o passar dos anos! — Ainda assim, ela permaneceu em silêncio.
— Marozia! — Sua voz estava tão vibrante de profunda tristeza que ela se voltou e olhou para ele.
Não podia distinguir-lhe os traços, pois a luz que se filtrava pela mata já era demasiado tênue para revelar mais do que contornos indistintos. — Marozia!
— Sim, querido pai. — Um arrepio percorreu o seu coração.
Ele hesitou. Através da multiplicidade de emoções conflitantes e do esforço multidimensional que o consumia, não conseguia trazer à tona para ela o tema que desejava abordar. Só pôde vacilar fracamente, percebendo, ao pronunciá-las, a fútil inadequação das palavras.
— Espero que, quando chegar o momento, minha filha escolha o verdadeiro companheiro.
— Mas por que preciso escolher, pai? Só preciso de você!
Seu olhar era tão claro e direto quanto o de uma criança.
Ele leu seu coração e soube que ainda estivesse intacto.
Chegaram à Villa e a Sra. Remington estava na varanda para cumprimentar Marozia. Sua cordialidade era tão forçada que se aproximava da efusividade artificial. O semblante do Sr. Remington se carregou de nuvens e ele entendeu o rosto fascinante e sombrio que sorriu por cima do ombro da esposa; Claude Rathburn avançou com graça despreocupada para cumprimentar Marozia.