“Há alguns anos, uma senhora idosa, velha conhecida da autora, passou para o Reino dos Céus. Tinha alcançado uma idade avançada e sua vida havia sido pura e altruísta; por causa de um corpo frágil, tinha passado muitos anos sentada tranquilamente em meditação.
Quando veio a falecer poderia ser comparada a um fruto muito maduro, que não pode mais manter-se preso à árvore; portanto, o rompimento do Cordão Prateado, que comumente leva três dias e meio, no seu caso, levou menos de três horas.
Durante sua última doença e no seu delírio, ela pedia uma bengala que tinha pertencido a seu marido, o qual já havia passado a uma vida mais elevada vinte anos antes; ela habituou-se a usar essa bengala, desde então. Morreu com a bengala, segurando-a firmemente com ambas as mãos e os parentes ficaram relutantes em separá-la de algo que tanto tinha amado em vida, de tal modo que a bengala foi cremada com seu corpo. Pouco tempo após seu desaparecimento, ela voltou para uma visita a autora; vê-la, foi, na verdade, uma visão magnífica.
Seu Corpo de Desejos consistia somente dos braços, mãos e a cabeça e ela segurava a bengala (que tinha o aspecto tão natural como qualquer bengala de madeira poderia ter) com ambas as mãos. Ela parecia uma leve pena branca tentando levantar voo, porém, presa por uma pedra. Era tão etérea que, se não fosse pela bengala que segurava firme com as duas mãos e que era como um peso a retê-la, teria passado pelo Purgatório no Mundo do Desejo em poucos dias.
Quando pedimos a ela que largasse a bengala, segurou-a com força, dizendo: “Não, eu preciso ficar mais um pouco”. A tristeza de uma de suas filhas mantinha-a presa à Terra.
Ela queria muito consolar a filha, mas depois de cerca de seis semanas tornou-se impossível para ela continuar.
A bengala etérica foi vista depois na sua casa, em seu lugar favorito, quebrada em três pedaços, onde ela a havia deixado antes de passar para os planos superiores”.
(Livreto Apegados à Terra – de Augusta Foss Heindel – Traduzido pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)
Como sabemos, cada um de nós tem uma “vida exterior”, geralmente conhecida e analisada pelos que nos rodeiam e, também temos uma “vida íntima”, da qual somente nós próprios podemos fornecer testemunho.
É, indiscutivelmente, o “mundo interior” a fonte de todos os princípios bons ou maus, nos quais todas as expressões exteriores guardam seus fundamentos.
Em geral, todos somos portadores de graves deficiências íntimas, que necessitam de laboriosa retificação. Porém não é tão simples o trabalho de purificar.
Fácil será aceitarmos as verdades religiosas, aderirmos a esta ou àquela ideologia, entretanto, coisa bem diversa é realizarmos a Obra da Evolução de nós mesmos, por meio da autodisciplina, da compreensão fraternal e do espírito de sacrifício.
Entendia o apóstolo S. Tiago quando proferiu “Limpai as mãos, pecadores; e vós de duplo ânimo, purificai os corações” (Tg 4:8), e conhecia suficientemente a gravidade do assunto, tanto assim que aconselhava os Cristãos no sentido de que “limpassem as mãos”, quer dizer, retificassem as atividades do plano exterior, renovassem suas ações ao olhar de todos e, apelava, ainda, que efetuassem, igualmente, a purificação do sentimento e do desejo, no recinto sagrado da consciência, conhecido unicamente pelo aprendiz, na profundidade indevassável de seus pensamentos. Procurar, com entusiasmo, a purificação dos nossos pensamentos, sentimentos, desejos, nossas emoções, palavras, obras, ações e dos nossos atos é, sem dúvida, tarefa que compete a cada um de nós. Muito ajuda para tal realização, a prática dos Exercícios Esotéricos Rosacruzes: noturno de Retrospecção e matutino de Concentração, que se encontram na obra básica dos Ensinamentos Rosacruzes, denominada Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz.
O apóstolo S. Tiago, companheiro valoroso do Cristo, contudo, não se esqueceu de afirmar que isto é trabalho para os de duplo ânimo, porque semelhante renovação jamais se fará tão somente à custa de palavras brilhantes.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – novembro/1964 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Quando nós, o Ego, entramos pela primeira vez na posse de nossos veículos, na Época Lemúrica, não possuíamos cérebro, nem laringe. Para suprir essa deficiência, metade da força sexual criadora, anteriormente empregada na propagação, foi dirigida para cima, a fim de construirmos aqueles órgãos. Pelo primeiro, se poderiam produzir a manifestação do pensamento e da razão aqui e, pelo segundo, comunicar aos outros tal pensamento. Desse modo, vemos que o pensamento é criador, por derivar da força sexual criadora.
Igualmente, é criadora a voz, isto é, a palavra falada, pela mesma razão, tem o poder de criar, porque tem sua origem na força sexual criadora. Daí deduzimos que, ao conservarmos a força sexual criadora teremos maior quantidade de poder aproveitável no processo de raciocínio e, do mesmo modo, nossas Mentes serão muito mais poderosas do que as das pessoas que malbaratam a força sexual criadora. Essa força, não obstante, deve ser empregada em trabalho construtivo, mental ou físico, ou transmutada ao serviço amoroso e desinteressado aos outros. De outro modo causaria perturbação. Se permanecer meramente recalcada, produzirá, com o tempo, desordens e padecimentos mentais, emocionais e nervosos.
O ato de pensar é um processo muito complicado. Envolve, não somente o emprego do cérebro físico, mas, também, o do cérebro etérico, o Corpo de Desejos e a Mente. O processo é o seguinte: como Egos, funcionamos diretamente na Região do Pensamento Abstrato, dentro das nossas auras. Daqui, observamos as impressões lançadas pelo Mundo exterior sobre o Corpo Vital, por meio da cadeia de veículos e suas faculdades, chamados os cinco sentidos físicos.
Essas impressões, junto com os sentimentos, desejos e emoções por elas gerados no Corpo de Desejos, são imaginadas na Mente. Dessas imagens mentais, formamos nossas conclusões acerca das coisas observadas. Tais conclusões são as Ideias.
Pelo poder da vontade, nós, como Egos, projetamos uma ideia através da Mente. Aí, toma forma concreta, como pensamento-forma, ao atrair ao seu redor matéria mental da Região do Pensamento Concreto. O pensamento é o poder que usamos para fazer imagens e pensamentos-formas, de acordo com as ideias interiores. O pensamento-forma, em geral, envolve-se em matéria de desejo, obtida do Corpo de Desejos, recebendo um influxo de vida. Este pensamento-forma composto fica, então, capaz de agir sobre o cérebro etérico, impulsionando a força vital através dos centros cerebrais e dos nervos, levando-a até aos músculos voluntários, para gerar a ação. Por conseguinte, o pensamento é a mola real de toda a atividade humana.
Os efeitos do temor e de inquietação sobre o Corpo de Desejos são muito prejudiciais para nosso desenvolvimento anímico. Na inquietação, as correntes de desejo não se desenvolvem em grandes linhas curvas, tal como se realiza em condições normais, mas enchem o Corpo de Desejos de redemoinhos, e só redemoinhos, em casos extremos. Esta última condição impede a pessoa de tomar uma resolução que poderia corrigir a causa de seu temor e de sua inquietude. Tal estado pode se comparar ao da água a ponto de congelar-se, sob a ação de uma temperatura muito baixa. O temor, que se expressa em ceticismo, cinismo e pessimismo, pode comparar-se à água, quando congelada, porque os Corpo de Desejos das pessoas, que habitualmente abrigam esses pensamentos, estão imóveis e nada pode alguém fazer, ou dizer, que possa alterar essa condição.
Cada vez que alguém abriga um desses pensamentos, ajuda a congelar as correntes do Corpo de Desejos e a formar uma armadura azul-acinzentada, em que se encerra, privando-se, muitas vezes, do amor e da simpatia de todo mundo.
Daí, vem a necessidade de nos esforçarmos para sermos alegres e otimistas, mesmo em circunstâncias adversas, sob pena de criarmos severas condições no futuro.
A Mente Subconsciente é fator muito importante no nosso desenvolvimento. Em cada respiração, o ar que inspiramos leva consigo um exato e detalhado quadro do que nos rodeia. O mais ligeiro sentimento, ou emoção, é transmitido aos pulmões, donde passa ao sangue. O sangue é o mais elevado produto do Corpo Vital. Os quadros nele contidos imprimem-se nos átomos negativos do Corpo Vital, para servirem como árbitros do nosso destino, no estado post-mortem. Quando uma pessoa cria um pensamento-forma, de natureza construtiva ou destrutiva, e projeta-o no mundo, efetua o seu trabalho, de acordo com a sua natureza, ou, então, gasta inutilmente sua energia em vã tentativa. Em qualquer dos casos, retorna ao seu criador, trazendo consigo a indelével recordação da viagem. Seu êxito, ou fracasso, imprime-se nos átomos do Éter Refletor e forma parte do arquivo da vida e ação do pensador, arquivo que, por vezes, chamamos Mente Subconsciente.
O pensamento destrói tecidos no Corpo Denso. É bem sabido, pela Ciência, que os pensamentos negativos, destrutivos, tais como medo, angústia, sexualidade e sensualidade, destroem o poder de resistência do Corpo Denso, expondo-o a doenças e enfermidades. Uma pessoa de natureza boa e jovial, ou devotadamente religiosa, que tem fé e confia na providência divina, não cria, com frequência, pensamentos negativos. Como resultado, possui uma vitalidade maior e melhor saúde do que as sujeitas à inquietude. Por meio de pensamentos de amor, benevolência e bondade, despertando qualidades semelhantes nos outros, atraímos pessoas que possuem as ditas qualidades.
Esse sutil e potente poder do pensamento pode ser empregado, também, para curar as doenças e enfermidades. Por outra parte, por meio do pensamento abstrato, estamos capacitados a nos elevar do Mundo material e a entrar em contato com Deus.
Se emitimos pensamentos de otimismo, de bondade, de benevolência, de utilidade e de serviço, esses pensamentos, gradualmente, colorirão a nossa atmosfera, de tal modo que chegará a expressar fielmente essas qualidades e virtudes. E, como nossos Corpos são constituídos por nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui), eles se tornam a expressão da nossa atitude mental.
Nossos pensamentos reagem sobre o nosso Corpo Denso e sobre o nosso meio ambiente, trazendo-nos saúde e bem-estar material.
Isso ilustra o poder criador do pensamento. É um meio de provar a verdade proferida por Cristo: “Se procuramos o Reino de Deus e sua justiça, todas as demais coisas serão acrescentadas” (Mt 6:33).
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1975-Fraternidade Rosacruz-SP)
A autoridade, a firmeza suave, é indispensável na condução dos veículos humanos por nós, o Ego. Afinal aprendemos que o nosso Tríplice Espírito (nossos veículos espirituais) são contrapartes do nosso Tríplice Corpo.
As antigas tendências muitas vezes buscam levar a falsos caminhos, à fraude; procuram habilmente justificar certos atos errôneos. Mas o “Eu superior” – o que somos: Individualidade – atento, vigilante, cheio de discernimento, imparcial, não pode consentir que a Personalidade transforme o Templo do Corpo num “covil de salteadores” (“Não sabeis que sois templos do Altíssimo que habita em vós? O Reino de Deus está dentro de vós” (ICor 3:16)).
Não devemos permitir que em nosso íntimo se aceitem vícios e enganos, hipocrisia e “venda” de coisas que devem servir para o sacrifício ao Cristo interno; não podemos vender nosso Cristo por favores, prestígios e confortos.
Há muitas formas de cobrar. . . E quantas vezes permitimos que nossos veículos se tornem vendilhões e exploradores de coisas sagradas, comprando prazeres, vendendo emoções animalescas, em detrimento de nossas potencialidades sacrossantas? Por isso não devemos permitir que a Personalidade nos atravesse o Templo de leste a oeste (percorra a coluna de baixo para a cabeça) conduzindo os “animais dos instintos” à cabeça, como imaginações eróticas, sensuais ou egoístas. Só os Sacerdotes devem entrar (que nada mais são do que a sublimação de forças que se elevam para servir a Deus).
Em certas ordens religiosas usavam chicotes de cordéis para martirizar o Corpo Denso quando apareciam os impulsos instintivos. Mas o Corpo Denso não tem culpa!
Ao contrário, ele deve ser preservado como instrumento útil, sadio, saudável a serviço de nós, o Ego, que foi quem o construiu. O azorrague deve descer sobre os instintos do Corpo de Desejos. Não sugerimos violência geradora de recalques, ainda mais prejudiciais que os atos cometidos. Repetimos: firmeza suave, autoridade, disciplinando a pouco e pouco os maus hábitos passados e construindo, paciente e firmemente, novos e melhores hábitos. Daí a importância que o Cristo nos ensinou sobre a intenção, a ideia inicial. Nessa causa primeira é que deve estar nossa vigilância, nosso azorrague.
Reconhecer o que é errado é o primeiro passo. Desejar corrigir é o segundo; decidir expulsar os “vendilhões” é o terceiro e grande passo para a realização interna.
Condescendência própria é ignorância, quando não sabemos discernir; é fraqueza, quando desejamos permanecer no vício. Mas para assumirmos a direção de nossa vida, como Melquisedeque (Rei e Sacerdote de nosso Templo corporal) em Jerusalém (Paz Interna), é indispensável o discernimento, a decisão e a firmeza.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – outubro/1977-Fraternidade Rosacruz-SP)
Natura
O globo terráqueo, é fácil distinguir,
Está envolto no mistério de nove capas.
Ainda que os videntes incapacitados não possam
Desvendar o segredo do seu coração,
Deus palpita no peito vibrante
Da Natureza e, desde o leste ao poente
Tudo é claridade e beleza.
O Espírito que ronda em cada forma
Atrai os espíritos de sua classe;
Os átomos brilham na sua luz
E lhe sugerem o prescrito futuro.
Ralph Waldo Emerson
Da prolífica pena e do iluminado coração do grande vidente Max Heindel saíram volumosos escritos, cheios de inspiração, relativos a Deus, à nós e ao mundo.
A Ciência, e bem assim a Religião, pouco a pouco, estão confirmando muitos dos sublimes trabalhos dessa pessoa excepcional. O Estudante Rosacruz que procura se manter a par dos acontecimentos do mundo pelos meios de comunicação, revistas científicas e outros meios ficarão maravilhado ao verificar, em cada momento que passa, que as revelações ou descobertas científicas eram por ele conhecidas e até descritas muito tempo atrás.
Para quem escreveu sobre tão diversos tópicos, que abarcam virtualmente todas as fases da vida, há um ponto interessante: em nenhum escrito de Max Heindel encontramos nada de apocalíptico, sombrio ou dramático. Todavia, quanto às poucas predições de importância que ele fez, poderia se demonstrar quanto têm sido exatas e como se têm cumprido no transcurso dos últimos tempos.
O presente artigo reporta-se unicamente a uma das suas muitas observações de importância mundial.
Como Iniciado, Max Heindel tinha a mística faculdade de funcionar conscientemente nos Mundos internos e a capacidade de trazer ao plano físico as suas observações daqueles Mundos.
Um dos fatos que mais chamou a sua atenção e durante muito tempo lhe despertou o maior interesse foi a forma de moldar, no Mundo do Pensamento, a substância mental do Arquétipo ou matriz de uma Nova Terra; nós, tal como é dito no Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, no post-mortem, trabalhamos sobre a flora e a fauna e ajudamos a construir um desenho ou molde espiritual, de matéria mental, para a Nova Terra, aquela que substituirá a presente. Então, esgotado o Arquétipo da Terra atual, o Grande Arquiteto infundirá Sua vida naquela matriz e a Nova Terra irá surgindo na forma correspondente ao novo Arquétipo.
Há muitos séculos que se está processando a construção dessa forma mental. Tal como nós, afirma a Filosofia Rosacruz, a Terra é um Ser evolucionante. Seu Corpo Denso está destinado a perder densidade, tornando-se mais leve, cada vez mais etérico. A nova conformação da Terra, por outro lado, facilitará a nós, no nosso Ciclo de Nascimentos e Mortes aqui, maior variedade de experiências, quando voltarmos de novo a esta Escola de Vida.
Tudo que existe no mundo, incluindo a própria Terra, tem um Arquétipo exato, espiritual, que moldou esse Mundo Físico átomo por átomo, molécula por molécula. Esses Arquétipos ou moldes são, todavia, coisas vivas; são a causa invisível de tudo que vive e tem forma na Terra. Tais Arquétipos recebem certa natureza de Vida e são destinados a necessárias etapas dela. Quando um Arquétipo particular deixa de emitir o seu canto de Vida, a Forma morre. No caso particular da Terra, seu Arquétipo deve ser alterado antes da Terra ser modificada. O que Max Heindel viu foi o Arquétipo da futura Terra.
A propósito das profecias de Mother Shipton[1], feitas cinquenta anos antes da descoberta da América e agora recolhidas no livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas, Max Heindel, a respeito de uma pergunta sobre as possibilidades de concretização dessas profecias, disse que ocorreriam cataclismos na crosta terrestre e que terremotos e crateras vulcânicas surgiram durante largos períodos de tempo.
Recentemente, as pessoas que se dedicam à Ciência, no campo da geologia, têm feito espantosas predições relativas a terremotos que podem irromper ao longo das grandes linhas de fratura da Terra. Também têm sido reportados como muito abundantes a atividade vulcânica e os terremotos.
Contudo, a mais alarmante revelação jamais ouvida no mundo proveio de uma tese cientifica, que afirma que a Terra está se fendendo gradualmente. Há cinco anos, uma jovem cartógrafa, Maria Tharp, notou que se estava formando uma série de terremotos perto de grandes fendas submarinas. Explorações feitas durante a maré alta localizaram essas trincheiras e uma grande linha de enormes fendas se descobriu por todo o globo. Tais fendas ou trincheiras submarinas têm uma profundidade de cerca de 3.500 metros e a largura de 46 quilômetros, ladeadas por montanhas de 2.000 metros de altura. Esses dados foram reportados pelos geólogos na Universidade americana de Columbia.
Segundo os Ensinamentos Rosacruzes, a Terra tem nove Estratos e um coração ou Núcleo Central.
Sob o Estrato Mineral, aquele sobre o qual vivemos, encontra-se o Estrato Fluídico, menos sólido que a crosta terrestre, não líquido, antes, uma pasta compacta. Tal Estrato tem grande poder de expansão, tal como um gás altamente explosivo. É mantido no seu lugar pela enorme pressão e solidez da camada externa. Se esta camada externa se quebrasse, o Estrato Fluídico se lançaria no espaço, produzindo uma catastrófica explosão. Ora, se as fendas da Terra se aprofundarem, é lógico supor que se produzam violentas reações pela libertação do Estrato Fluídico. Aliás, sabemos que, no passado, a Terra suportou muitos cataclismos e modificações e terá que sofrer muitos outros no futuro.
Tudo isto nos revela que nada mais somos que hóspedes temporários na superfície da Mãe Terra e que devemos ter regozijo em que o Espírito da Terra se esteja aliviando, pouco a pouco das suas cadeias físicas. É o mesmo que está sucedendo conosco, ao subirmos progressivamente, de condições materiais para estados mais espirituais. Temos, portanto, o dever de nos mantermos ao nível dos tempos que passam e nos preparar, em todos os sentidos, para qualquer eventualidade da vida.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de abril/1971- Fraternidade Rosacruz– SP)
[1] N.R.: Ursula Southeil (c. 1488 – 1561) (também grafada como Ursula Southill, Ursula Soothtell ou Ursula Sontheil), popularmente conhecida como Mother Shipton, é considerada uma adivinha e profetisa inglesa.
Frequentemente ouvimos Cristãos devotos se queixarem dos períodos de depressão. Às vezes, eles estão quase no sétimo céu de exaltação espiritual; quase veem o rosto de Cristo e sentem como se Ele estivesse guiando cada passo que dão. Então, sem qualquer aviso ou qualquer causa que consigam identificar, as nuvens se acumulam, o Salvador esconde o Seu rosto e o mundo se tornam sombrio por um período. Eles não conseguem trabalhar nem orar; o mundo não tem atrativo algum e o portão do céu parece fechado para eles; assim, a vida lhes parece sem valor enquanto a depressão espiritual perdura.
Naturalmente, a razão é que essas pessoas vivem sob suas emoções e, segundo a imutável Lei das Alternâncias, o pêndulo está destinado a oscilar tanto para um lado do ponto neutro quanto para o outro. Quanto mais brilhante a luz, mais profunda a sombra; quanto maior a exaltação, mais profunda é a depressão espiritual que a sucede.
Somente aqueles que, pela razão fria, refreiam suas emoções escapam dos períodos de depressão — mas também nunca experimentam a bem-aventurança celestial da exaltação. É justamente esse derramar de si mesmo em fervorosa devoção que fornece ao Cristão Místico a energia dinâmica para se projetar nos Mundos invisíveis, onde ele se torna um com o ideal espiritual que o tem chamado e despertado em sua alma o poder de se elevar até Ele — assim como o Sol formou o olho com o qual o percebemos.
O filhote cai muito antes de aprender a usar suas asas com segurança e o Aspirante no caminho do Misticismo Cristão pode se elevar até o próprio trono de Deus inúmeras vezes e cair no mais profundo abismo do desespero infernal. Contudo, em algum momento, ele vencerá o mundo, desafiará a Lei das Alternâncias e se elevará pelo poder do Espírito ao “Pai dos Espíritos”, livre das armadilhas da emoção, pleno de uma Paz que excede todo entendimento.
Mas esse é o fim alcançado somente após o Gólgota; o Batismo Místico é apenas o início da carreira ativa do Cristão Místico, quando ele se torna profundamente impregnado do tremendo fato da unidade de toda a Vida e imbuído de um sentimento de fraternidade por todas as criaturas, de modo que, doravante, ele pode não apenas enunciar, mas praticar os Ensinamentos que o próprio Cristo nos deu que conhecemos como Sermão da Montanha.
Se as experiências espirituais do Cristão Místico não o levassem além disso, ainda assim seriam a mais maravilhosa aventura do mundo e a magnitude do acontecimento está além das palavras, com consequências apenas vagamente imagináveis. A maioria dos estudantes das filosofias superiores acredita na Fraternidade da Humanidade por uma convicção mental de que todos emanamos da mesma Fonte divina, como os raios emanam do Sol; mas há um abismo de profundidade e largura inconcebíveis entre essa fria concepção intelectual e a saturação batismal do Cristão Místico, que a sente no coração e em cada fibra do seu ser com tamanha intensidade impensável. Isso o enche de um amor ansioso e ardente, como o expresso nas palavras do Cristo: Ó, Jerusalém; ó, Jerusalém, quantas vezes quis eu te reunir debaixo das minhas asas[1] — um amor protetor, cheio de anseio e cuidado que nada pede para si, exceto o privilégio de nutrir, proteger, guardar.
Se ao menos um tênue reflexo de tal sentimento universal de fraternidade estivesse difundido entre a Humanidade nestes dias sombrios, que paraíso seria a Terra! E não este inferno onde os homens e mulheres levantam a mão contra seu irmão ou sua irmã para matá-lo ou matá-la com a espada, por meio da rivalidade ou competição objetivando destruir sua moral e degradá-lo e degradá-la sob as marcas do cativeiro industrial ou do açoite da necessidade. Não teríamos guerreiros nem prisioneiros, mas um mundo feliz e satisfeito, vivendo em paz e harmonia, aprendendo as lições que nosso Pai Celestial tenta nos ensinar nesta condição material. O motivo de toda a miséria no mundo pode ser explicado porque acreditamos na Bíblia com o intelecto, mas não com o Coração.
Quando emergimos das águas do Batismo — o Dilúvio Atlante — para a “Era do Arco-íris”, das estações alternadas, também nos tornamos presa das emoções mutáveis que nos lançam para cá e para lá no mar da vida… A fé fria, contida pela razão e sustentada pela maioria dos Cristãos autodeclarados, pode conceder alguma medida de paciência e equilíbrio mental que sustenta durante as provações da vida; mas quando a maioria alcançar a fé viva do Cristão Místico — que ri da razão por que é sentida pelo Coração — então a “Era das Alternâncias” terá passado. O arco-íris cairá com as nuvens e o ar que agora compõe a atmosfera; haverá então um novo céu de puro Éter onde receberemos o Batismo do Espírito e haverá Paz (Jerusalém).
Ainda estamos na “Era do Arco-íris” e sujeitos as suas Leis; assim, podemos compreender que, como o “Batismo” do Cristão Místico ocorre em um momento de exaltação espiritual, ele deve necessariamente ser seguido de uma reação. A tremenda magnitude da revelação o domina, ele não consegue assimilá-la nem conter em seu veículo carnal e por isso foge dos lugares frequentados pelos seres humanos: retira-se para a solidão, alegoricamente representada pelo deserto.
Tão envolvido ele está em sua sublime descoberta que, por algum tempo, em seu êxtase, contempla o tear da Vida, no qual os Corpos de tudo o que vive são tecidos — do menor ao maior, o rato e o ser humano, o caçador e a presa, o guerreiro e sua vítima… No entanto, para ele não estão separados nem apartados, pois também enxerga o único Fio divino de luz dourada da vida que a tudo permeia e tudo une[2]; mais ainda, ele ouve em cada ser a nota-chave flamejante, soando suas aspirações, dando voz a suas esperanças e temores, percebe que essa cor-sonora seja composta em forma do hino universal do Deus que se fez carne.
Mas o Cristão Místico que acaba de emergir do seu Batismo na Fonte da Vida recua imediatamente, horrorizado, diante da sugestão de usar seu poder recém-descoberto para um propósito egoísta. Foi precisamente a qualidade de alma da abnegação que o conduziu às águas de consagração na Fonte da Vida e ele sacrificaria tudo — até mesmo a própria vida — antes de usar seu novo poder para fugir de uma dor ou de um sofrimento. Acaso ele não viu a aflição do Mundo? Não a sente em seu grande Coração com tamanha intensidade que a fome imediatamente desaparece e é esquecida? Ele pode, quer e de fato usa esse maravilhoso poder livremente para alimentar os milhares que se reúnem para ouvi-lo — mas nunca para fins egoístas porque, assim, perturbaria o equilíbrio do mundo.
Mas ele não raciocina sobre isso; como já foi dito, ele não se guia pela razão, mas por uma diretriz muito mais segura: a voz interior que sempre orienta nos momentos em que uma decisão precisa ser tomada. O indivíduo “não vive só de pão, mas de toda palavra que procede de Deus”[3]. Eis outro Mistério: não há necessidade de participar desse pão terreno para aquele que tem acesso à Fonte da Vida.
Quanto mais nossos pensamentos estiverem centrados em Deus, menos nos importaremos com os chamados prazeres da mesa; ao alimentar nossos Corpos Densos de modo frugal, com alimentos simples e selecionados, obteremos uma iluminação do Espírito impossível para aquele que se entrega a uma dieta excessiva de alimentos grosseiros, que nutrem a natureza inferior, o “eu inferior”. Alguns santos utilizaram o jejum e a mortificação como meio de crescimento da alma, mas esse é um método equivocado por razões apresentadas em no artigo sobre O Jejum como um Fator para o Crescimento Anímico[4].
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, que compreendem a Lei e vivem de acordo com ela, usam alimento apenas em intervalos medidos em anos; para eles, a palavra de Deus é um pão vivo.
Ela também o é para o Cristão Místico e a tentação, em vez de provocar sua queda, conduz a alturas ainda maiores. Isso, a princípio, está inteiramente além da sua compreensão; a tremenda magnitude da descoberta o deslumbra e encobre, por isso ele não consegue imaginar o que é que vê e sente, pois não há palavras que o descrevam nem conceito que o abarque. Mas, pouco a pouco, começa a clarear em sua consciência que ele esteja na própria Fonte da Vida, contemplando — ou melhor, sentindo — cada pulsação dela; com essa compreensão ele atinge o clímax do seu êxtase.
Tão absorto esteve o Cristão Místico em sua bela aventura que as necessidades do Corpo foram completamente esquecidas até que o êxtase terminou; é, portanto, natural que a sensação de fome seja a primeira necessidade consciente ao retornar ao estado normal de consciência. Surge também, de forma natural, a voz da tentação: peça que estas pedras se transformem em pão[5].
Poucas passagens das Sagradas Escrituras são mais obscuras do que os versículos iniciais do Evangelho Segundo S. João: “No princípio era o Verbo […] e sem Ele nada do que foi feito se fez”. Mas um breve estudo da ciência do som logo nos familiariza com o fato de que som é vibração e diferentes sons moldam areia ou outros materiais leves em figuras de formas variadas.
O Cristão Místico pode ser completamente ignorante desse fato do ponto de vista científico, mas aprendeu na própria Fonte da Vida a entoar o Canto do Ser, que embala à existência tudo aquilo que um mestre músico assim deseje. Há uma tonalidade fundamental correspondente à pedra mineral e indigesta; porém uma modificação pode transformá-la no ouro com o qual podemos adquirir nossos meios para o sustento; outra nota-chave, peculiar ao Reino vegetal, pode convertê-la em alimento — fato conhecido por todos os Cristãos Ocultistas avançados que praticam encantamentos legitimamente para fins espirituais, mas nunca para proveito material.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – novembro/1916, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Mt 23:37 e Lc 13:34
[2] N.T.: Ecl 3:1-8
[3] N.T.: Mt 4:4 e Dt 8:3
[4] N.T.: O Jejum como um Fator para o Crescimento Anímico
Frequentemente o autor recebe perguntas em relação ao benefício ou desvantagem do jejum e, portanto, pode ser bom elucidar a origem e o fundamento dessa prática para que possamos determinar qual efeito, se houver, é exercido sobre o crescimento espiritual.
Nas Antigas Dispensações era exigido que os sacrifícios de bovinos e caprinos fossem feitos como expiação ao pecado praticado, pois o ser humano valorizava, então, seus bens materiais, muito mais do que nos dias de hoje, sentindo profundamente sua perda, quando forçado a abrir mão deles para tal finalidade.
Mesmo nos dias modernos, as indulgências são compradas e o Perdão dos Pecados anunciado a qualquer pessoa que doe uma quantia em dinheiro a algumas Igrejas Católicas e Protestantes, para a compra de todo os tipos de acessórios necessários ao serviço.
Mas, sempre houve um ensinamento esotérico, que está sendo promulgado exotericamente hoje, e esse ensinamento não aceita o sacrifício de um animal, dinheiro ou outras posses; contudo, exige que cada um faça um sacrifício de si mesmo. Isso foi ensinado aos Aspirantes na antiga Escola de Mistérios, quando eles eram preparados para o Ritual Místico de Iniciação. A eles foram explicados os mistérios do Corpo Vital – composto pelos quatro Éteres e funções de cada Éter: o Éter Químico, que é necessário para a assimilação; o Éter de Vida, que promove o crescimento e a propagação; o Éter de Luz ou Luminoso, que é o veículo da percepção sensorial; e o Éter Refletor, em que se armazena a memória.
Eles foram, cuidadosamente, instruídos nas funções dos dois Éteres inferiores em comparação com os dois Éteres superiores. Eles sabiam que as funções puramente animais do Corpo dependiam da densidade dos Éteres inferiores, e que os dois Éteres superiores, por sua vez, formavam o Corpo-Alma, o veículo do serviço e, naturalmente, eles aspiravam cultivar essa gloriosa vestimenta, pela renúncia e refreando as propensões das naturezas inferiores, assim como fazemos hoje.
Esses fatos eram mantidos em segredo das pessoas que não estavam no Caminho da Iniciação ou, melhor dizendo, assim deveriam ter permanecido. Mas, alguns neófitos, mesmo sendo excessivamente zelosos em alcançar a Iniciação, não importando os meios, esqueceram que é somente pelo serviço e altruísmo que a veste nupcial dourada é cultivada pelos dois Éteres superiores. Eles pensaram que a máxima oculta, “ouro no cadinho, impureza no fogo; ligeiro como o vento, alçar-se cada vez mais alto”, apenas significava que, enquanto a natureza inferior, a escória, tinha sido expulsa, e não importava a maneira, mas se tivessem encontrado um método fácil, eles teriam retido apenas o “ouro” composto pelos dois Éteres superiores, o Corpo-Alma, no qual eles poderiam, com certeza, acessar os Mundos invisíveis sem obstáculo ou embaraço. Eles concluíram que, como o Éter Químico é o agente de assimilação, poderia ser eliminado do Corpo Vital, privando o veículo físico da fome.
Eles também pensaram que, como o Éter da Vida é a via de propagação, poderiam privá-lo com uma vida celibatária. Seguindo esse método, concluíram, assim, que reteriam apenas os dois Éteres superiores e, portanto, praticavam todas as austeridades que se podia pensar, entre outras práticas, o jejum. Por esse processo o Corpo Denso perdia a saúde e a sua natureza passional ficava debilitada, pois, buscava a gratificação pelo exercício da função propagativa, sendo silenciado com a punição.
Dessa maneira, horrível, é verdade que a natureza inferior parecia estar submetida e, também, é verdade que, quando as funções corporais eram reduzidas a níveis bem baixos, as visões, ou melhor dizendo, as alucinações eram frequentemente a recompensa dessas pessoas equivocadas. Outros que ouviram falar de sua suposta santidade estavam ansiosos para imitá-los; assim, seu exemplo desviou milhares de almas da busca do verdadeiro Caminho.
Mas, o resultado obtido por essas pessoas desencaminhadas e seus seguidores está longe de ser o que se pretendia pelo treinamento na Escola de Mistérios. Antes de mais nada, ao Aspirante à vida superior foi ensinado que o Corpo Denso é o “Templo de Deus” e que profaná-lo, destruí-lo ou mutilá-lo de qualquer maneira é um grande pecado. A indulgência com o apetite é um pecado, uma prática contaminadora que traz consigo certa retaliação, mas não deve ter maior repreensão do que a prática de jejuar para o crescimento da alma.
Viver corretamente não é banquetear e nem jejuar, mas dar ao Corpo os elementos necessários para mantê-lo na forma adequada de saúde, força e eficiência como um instrumento do Espírito. Portanto, jejuar para o crescimento anímico é um pseudométodo que tem o efeito, exatamente o oposto daquilo que foi projetado para ser realizado, devido à falta de visão de seus criadores. “Eu sou a porta”, disse o Cristo, “se alguém não entra pela porta, esse é ladrão e salteador” (Jo 10:1).
Da mesma forma, com a prática do celibato para o crescimento anímico, ou da alma, a máxima enunciada no início desse parágrafo se aplica de forma idêntica. É repreensível quando homens e mulheres, feitos à imagem de Deus, se degradam pela indulgência da natureza passional a um estado inferior ao dos animais, porém, é igualmente repreensível quando aqueles que vivem de outra forma, tendo vidas boas e sagradas, se recusam a sacrificar suas aspirações para dar a uma alma que está à espera daquele Corpo e daquele ambiente que lhe atendam, e que tenha todo aquele tempo para o próprio desenvolvimento. Eles podem, pelo jejum, atenuar o Éter Químico, e, por suas vidas fanáticas e egoístas de celibatário, podem também eliminar o Éter da Vida em grande proporção, mas essas medidas nunca irão construir a “vestimenta dourada de casamento”, que é o ‘abre-te sésamo’ para a festa do “casamento místico”; na falta desse traje, alguns que conseguirem entrar sorrateiramente, por métodos ilegítimos como jejum, castigo e celibato, serão lançados nas trevas exteriores.
(Publicado na revista Rays from the Rose Cross em dezembro/1915 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[5] N.T.: Mt 4:3 e Lc 4:3
Um deus pode amar sem cessar:
Mas, sob as leis da alternância, nós, mortais, desejamos em medida mutável
Nossa parte de dor assim como de prazer.
— Tannhauser
Quando Tannhauser, impelido por sua paixão profana pela nobre, pura e virtuosa Elizabeth, vagou pelas montanhas e foi atraído para a caverna de Vênus como o aço por um ímã, não apenas lhe foi permitido, mas também incentivado a satisfazer seus desejos sensuais até o limite; naturalmente, sua alma logo se saciou da paixão e ele rezou para ser libertado da deusa Vênus e autorizado a retornar à Terra. No curso da sua súplica, ele profere a verdade expressa no início do nosso artigo: que, em seu estágio atual de desenvolvimento, o ser humano necessita tanto da alegria quanto da tristeza para sua evolução adequada.
Na Mente filosófica esse sentimento desperta assentimento imediato, porque, embora todos sejamos humanos o bastante para ansiar pela alegria e temer a tristeza, não podemos, após reflexão adequada, deixar de perceber que uma vida de alegria constante, sem a menor tristeza, seria absolutamente insípida e sem cor. É a justa combinação de luz e sombra que confere beleza a um quadro ou paisagem e um arranjo semelhante de tristeza e alegria é necessário para dar vigor à vida e torná-la digna de ser vivida.
Do ponto de vista astrológico, a luz e a sombra da vida são fornecidas pela posição e pelos Aspectos de Júpiter e Saturno no momento do nascimento, juntamente a suas Progressões e Trânsitos em relação ao horóscopo de qualquer pessoa.
O regozijo vem de Júpiter, o Planeta da benevolência e do otimismo, que nos concede os favores dos deuses na medida em que tenhamos merecido suas dádivas. Por outro lado, Saturno, o Planeta do pessimismo e da obstrução, é o dispensador dos desfavores em incorremos por meio daquelas ações que são desarmônicas com as Leis de Deus; como ainda somos ignorantes no agir em harmonia com o grande Plano divino do Universo, não é de se admirar que o açoite de Saturno seja necessário para nos trazer de volta à linha, quando nos afastamos do caminho da virtude.
Mas é um sinal profundamente significativo do amor do nosso Pai o fato de Júpiter percorrer três vezes o horóscopo, formando Aspectos e trazendo oportunidades para o bem, para cada revolução de Saturno, o que nos traz as experiências ofertadas pelos Aspectos adversos por aqueles que carecem de compreensão.
Que bênção maravilhosa é a Astrologia Rosacruz espiritual, que nos oferece uma visão do Esquema, Caminho e Obra de Evolução, pelo qual todos nós estamos sendo lentamente educados da ignorância à onisciência!
Saturno é um dos principais fatores nesse processo de iluminação. Para aqueles que não conhecem a Astrologia Rosacruz espiritual pode parecer que a tristeza e a angústia profundas lhes sobrevenham sem qualquer razão ou motivo que possa ser descoberto; assim, muitas vezes invejam aqueles que são, aparentemente, mais afortunados; contudo, uma vez que aprendem a buscar a luz por meio da Astrologia Rosacruz espiritual, toda a perspectiva da vida se transforma.
Torna-se então evidente que estamos aqui não para o prazer, mas para a experiência; por mais tristes ou desastrosas que essas experiências possam ser, o verdadeiro Estudante Rosacruz de Astrologia as acolhe e procura descobrir a razão sob o ponto de vista astrológico, bem como as lições a serem aprendidas.
Além disso, ele extrai consolo do conhecimento de que os Aspectos adversos, que produzem os efeitos desastrosos, são apenas transitórios e que, no tempo devido — que ele pode calcular com precisão — o açoite de Saturno desaparecerá e o raio benéfico de Júpiter voltará a dissipar a melancolia saturnina e a curar a dor. Esse conhecimento naturalmente lhe proporciona coragem para perseverar nos dias de provação e o mantém em uma atitude mental esperançosa, aguardando o momento em que a tribulação terminará.
Quando vivemos na ignorância do grande Plano de Deus e não temos concepção das ministrações cíclicas de tristeza e angústia profundas e alegria trazidas à nossa vida por Saturno e Júpiter, respectivamente, para o nosso bem, tendemos a ficar excessivamente exaltados ou eufóricos quando Júpiter derrama sobre nós os bons dons dos deuses — saúde, riqueza, amigos, sucesso, prosperidade — e a ficar indevidamente abatidos quando, sob o açoite de Saturno, somos privados de tudo o que torna a vida digna de ser vivida; mas, quando o Livro da Vida nos é aberto pela ciência sagrada da Astrologia Rosacruz e nele reconhecemos o propósito benevolente de Deus e Seus ministros, gradualmente aprendemos a manter o equilíbrio, de modo que, quando os regozijos de Júpiter chegam ao nosso caminho, não ficamos excessivamente alegres, mas as recebemos com espírito moderado e aprendemos a nos considerar administradores de todas as coisas boas que assim são colocadas em nossas mãos.
Aprendemos que devemos utilizá-las, não para nossos próprios interesses ou propósitos egoístas, mas para o bem de todos, e que um dia nos será exigida uma prestação de contas, onde teremos que demonstrar como usamos os bens do nosso Senhor. Por outro lado, o chicote de Saturno não será aplicado por muito tempo, nem com frequência, àquele que se dedica ao autoexame – por meio da prática constante do Exercício Esotérico Rosacruz noturno de Retrospecção – para notar no que está falhando e encontrar o erro que causa tribulação e sofrimento.
Essa lição certamente será encontrada pelo buscador sincero e, quando for descoberta, o regozijo por ter encontrado uma valiosa pérola de conhecimento superará amplamente a dor envolvida em aprender a lição; ao longo dos anos será desenvolvida a mais preciosa de todas as posses da alma: a equanimidade que eleva o ser humano que a possui acima do mar revolto das emoções, conduzindo ao reino da paz eterna que excede todo entendimento. Quando chega a esse ponto em seu desenvolvimento, Saturno não terá o poder de movê-lo, nem Júpiter ou quaisquer outros Espíritos Planetários, porque ele terá aprendido a governar seus Astros e regular seu destino de acordo com sua própria vontade divina
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – janeiro/1917, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
Frequentemente o autor recebe perguntas em relação ao benefício ou desvantagem do jejum e, portanto, pode ser bom elucidar a origem e o fundamento dessa prática para que possamos determinar qual efeito, se houver, é exercido sobre o crescimento espiritual.
Nas Antigas Dispensações era exigido que os sacrifícios de bovinos e caprinos fossem feitos como expiação ao pecado praticado, pois o ser humano valorizava, então, seus bens materiais, muito mais do que nos dias de hoje, sentindo profundamente sua perda, quando forçado a abrir mão deles para tal finalidade.
Mesmo nos dias modernos, as indulgências são compradas e o Perdão dos Pecados anunciado a qualquer pessoa que doe uma quantia em dinheiro a algumas Igrejas Católicas e Protestantes, para a compra de todo os tipos de acessórios necessários ao serviço.
Mas, sempre houve um ensinamento esotérico, que está sendo promulgado exotericamente hoje, e esse ensinamento não aceita o sacrifício de um animal, dinheiro ou outras posses; contudo, exige que cada um faça um sacrifício de si mesmo. Isso foi ensinado aos Aspirantes na antiga Escola de Mistérios, quando eles eram preparados para o Ritual Místico de Iniciação. A eles foram explicados os mistérios do Corpo Vital – composto pelos quatro Éteres e funções de cada Éter: o Éter Químico, que é necessário para a assimilação; o Éter de Vida, que promove o crescimento e a propagação; o Éter de Luz ou Luminoso, que é o veículo da percepção sensorial; e o Éter Refletor, em que se armazena a memória.
Eles foram, cuidadosamente, instruídos nas funções dos dois Éteres inferiores em comparação com os dois Éteres superiores. Eles sabiam que as funções puramente animais do Corpo dependiam da densidade dos Éteres inferiores, e que os dois Éteres superiores, por sua vez, formavam o Corpo-Alma, o veículo do serviço e, naturalmente, eles aspiravam cultivar essa gloriosa vestimenta, pela renúncia e refreando as propensões das naturezas inferiores, assim como fazemos hoje.
Esses fatos eram mantidos em segredo das pessoas que não estavam no Caminho da Iniciação ou, melhor dizendo, assim deveriam ter permanecido. Mas, alguns neófitos, mesmo sendo excessivamente zelosos em alcançar a Iniciação, não importando os meios, esqueceram que é somente pelo serviço e altruísmo que a veste nupcial dourada é cultivada pelos dois Éteres superiores. Eles pensaram que a máxima oculta, “ouro no cadinho, impureza no fogo; ligeiro como o vento, alçar-se cada vez mais alto”, apenas significava que, enquanto a natureza inferior, a escória, tinha sido expulsa, e não importava a maneira, mas se tivessem encontrado um método fácil, eles teriam retido apenas o “ouro” composto pelos dois Éteres superiores, o Corpo-Alma, no qual eles poderiam, com certeza, acessar os Mundos invisíveis sem obstáculo ou embaraço. Eles concluíram que, como o Éter Químico é o agente de assimilação, poderia ser eliminado do Corpo Vital, privando o veículo físico da fome.
Eles também pensaram que, como o Éter da Vida é a via de propagação, poderiam privá-lo com uma vida celibatária. Seguindo esse método, concluíram, assim, que reteriam apenas os dois Éteres superiores e, portanto, praticavam todas as austeridades que se podia pensar, entre outras práticas, o jejum. Por esse processo o Corpo Denso perdia a saúde e a sua natureza passional ficava debilitada, pois, buscava a gratificação pelo exercício da função propagativa, sendo silenciado com a punição.
Dessa maneira, horrível, é verdade que a natureza inferior parecia estar submetida e, também, é verdade que, quando as funções corporais eram reduzidas a níveis bem baixos, as visões, ou melhor dizendo, as alucinações eram frequentemente a recompensa dessas pessoas equivocadas. Outros que ouviram falar de sua suposta santidade estavam ansiosos para imitá-los; assim, seu exemplo desviou milhares de almas da busca do verdadeiro Caminho.
Mas, o resultado obtido por essas pessoas desencaminhadas e seus seguidores está longe de ser o que se pretendia pelo treinamento na Escola de Mistérios. Antes de mais nada, ao Aspirante à vida superior foi ensinado que o Corpo Denso é o “Templo de Deus” e que profaná-lo, destruí-lo ou mutilá-lo de qualquer maneira é um grande pecado. A indulgência com o apetite é um pecado, uma prática contaminadora que traz consigo certa retaliação, mas não deve ter maior repreensão do que a prática de jejuar para o crescimento da alma.
Viver corretamente não é banquetear e nem jejuar, mas dar ao Corpo os elementos necessários para mantê-lo na forma adequada de saúde, força e eficiência como um instrumento do Espírito. Portanto, jejuar para o crescimento anímico é um pseudométodo que tem o efeito, exatamente o oposto daquilo que foi projetado para ser realizado, devido à falta de visão de seus criadores. “Eu sou a porta”, disse o Cristo, “se alguém não entra pela porta, esse é ladrão e salteador”[1].
Da mesma forma, com a prática do celibato para o crescimento anímico, ou da alma, a máxima enunciada no início desse parágrafo se aplica de forma idêntica. É repreensível quando homens e mulheres, feitos à imagem de Deus, se degradam pela indulgência da natureza passional a um estado inferior ao dos animais, porém, é igualmente repreensível quando aqueles que vivem de outra forma, tendo vidas boas e sagradas, se recusam a sacrificar suas aspirações para dar a uma alma que está à espera daquele Corpo e daquele ambiente que lhe atendam, e que tenha todo aquele tempo para o próprio desenvolvimento. Eles podem, pelo jejum, atenuar o Éter Químico, e, por suas vidas fanáticas e egoístas de celibatário, podem também eliminar o Éter da Vida em grande proporção, mas essas medidas nunca irão construir a “vestimenta dourada de casamento”, que é o ‘abre-te sésamo’ para a festa do “casamento místico”; na falta desse traje, alguns que conseguirem entrar sorrateiramente, por métodos ilegítimos como jejum, castigo e celibato, serão lançados nas trevas exteriores.
(Publicado na revista Rays from the Rose Cross em dezembro/1915 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Jo 10:1