Não se revolte contra as adversidades nem se alquebre diante delas.
Busca isto sim, o bem que nelas existe. Diz-se que elas são injustas, dolorosas: sinal de que ainda não está maduro e não compreende as Leis de Deus. Não que seja um castigo dos céus. Deus é um “Pai” perfeito e não castiga. Sua voz, dentro de nós, está constantemente a nos chamar, como o magnetismo do norte a uma agulha de bússola. Estamos aprendendo a nos orientar e temos o direito de experimentar todas as direções. Mas, verificamos que quanto mais nos afastamos para o sul, tanto mais sentimos o vazio que os prazeres do mundo não podem preencher.
As causas são seus desvios. A Lei de Consequência é automática: para cada causa, um efeito correspondente. Não pode dizer que suas vicissitudes sejam um mal. Elas o estão advertindo!
Não as escuta?
Acaso a repulsão é um mal, quando age nos planos inferiores buscando nos alertar contra os enganos?
Acaso é mau um fogo se nos queima os dedos que inadvertida ou propositadamente colocamos nele?
A lei é lei. Quanto mais nos afastamos tanto mais fortemente age, na tentativa de nos mostrar o verdadeiro sentido. Como um mero impulso, não dói. O que dói é o nosso desejo egoísta de continuar errando, de não “voltar ao norte”, de não nos conformarmos em deixarmos velhos hábitos, vícios e apegos.
Analisa sua vida. Acha ela boa? O que é o bem? E do que gosta? Ou é o que é realmente bem, independentemente de seus gostos?
O bom, o belo e o verdadeiro são objetivos, independentes de nós, míseros mortais. Quem somos nós para ditar as leis de harmonia? Estamos apenas aprendendo e quanto mais sabemos, tanto melhor vamos percebendo esses atributos, porque sendo eles eternos e perfeitos como Deus, eterna também deve ser a nossa busca.
Seja em primeiro lugar sincero contigo mesmo. Medite, e o seu Cristo Interno o iluminará. Ao perceber suas falhas terás dado o primeiro passo. Depois, se arme de coragem para se reformar, expulsando de seu templo interno, os ladrões de seu sossego.
Devemos ser Cristãos verdadeiros, intrínsecos, embora não seja fácil compreender e aplicar as Leis do Amor a Deus e ao próximo.
Não pense em si. A revolta, a incompreensão, as mágoas só existem quando julgamos estar sendo injustiçados. Mentira. Tudo aparente. Tudo egoísmo. O que nos parecem males e inimigos são instrumentos de nossas correções. O semelhante atrai o semelhante. Despoja-se do egoísmo e vive o bem, com discernimento. Difícil? Quanto mais difícil lhe parece, mais perto está da realização, porque mostra que começa a compreender a luta interna de suas naturezas opostas. Nossa natureza animal só luta quando ameaçada de extermínio. A lei de preservação existe em todos os planos.
Não desanime. Nossa vida atual é de alternâncias: noite e dia, verão e inverno, tristeza e alegria, tudo transitório, até que o eixo de nossa vida coincida com a trilha eterna da evolução. É a época decisiva! Temos de resolver; ou servimos a Deus ou ao mundo. Não podemos servir a dois senhores!
Desconfie das facilidades e comodidades da descida, porque, se continuada, poderão lhe levar aos “portais do inferno”. Alegre-se com as asperezas e dificuldades da subida, porque elas lhe levam certamente a maiores alturas. E à medida que sobe, as névoas dos vales pecaminosos vão se desanuviando e enxergará melhor, percebendo que o aparente bem era um mal e que o aparente mal lhe era um bem. Quanto mais subir, mais vastos horizontes se descortinarão ante seus olhos, lhe dando forças para prosseguir.
Além disso, não estamos sozinhos. A seu lado estão seres compassivos e sábios, deixando que aprende a andar com suas próprias pernas, porque é um Deus em formação e seu destino é glorioso. Tenha fé! “O Senhor é o Bom Pastor, não nos faltará!”.
Esqueça a si mesmo e se dê aos demais, com discernimento. Olha a seu redor, mais vale a “terra fértil do que a pedra”; mais “a árvore frutífera do que a estéril”; o grau evolutivo se mede sempre pelo serviço amoroso e desinteressado (assim, o mais anônimo possível) ao irmão e à irmã ao seu lado, focado na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade. A árvore dá simplesmente. Não se queixa das podas, porque não tem uma Mente enganosa como nós. E, contudo, também nós somos podados por jardineiros sábios, para que fortaleçamos em todos os pontos e possamos dar melhores frutos. Sejamos humildes! Quem somos nós para julgar?
Deus e Sua Sabedoria estão manifestos claramente. Basta que os saibamos ver. Alegre-se de suas quedas porque elas lhe ensinam mais do que os outros meios.
Leve, orgulhosamente, seus arranhões como medalhas. E quando cair outra vez, se levante sem lamúrias. Só os fortes recebem provas maiores.
O “único fracasso é deixar de lutar”! O tempo de que dispomos os recursos financeiros, sentimentais, intelectuais, físicos, tudo enfim, que temos e não nos pertencem em realidade, porque somos simples administradores e aprendizes neste mundo, todos esses valores devem ser postos conscienciosamente a serviço de nosso próximo, a começar por nossa família, prevenindo os perigos do egoísmo, da vaidade, que amiúde deturpam seu emprego. Seja, pois, compreensivo e amoroso servidor!
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro/1981 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Quem quer que esteja acostumado a conviver com Estudantes Rosacruzes certamente já deve ter ouvido esta pergunta:
“Como devo servir?”. E, pela frequência com que essa pergunta é feita, poder-se-ia concluir que todas as oportunidades foram avidamente aproveitadas; mas confesso, com pesar, que não é bem assim.
Você se lembra daquela música Cristã muito apreciada, “Guia-me, Luz Bendita”[1], que contém o verso: “Eu amava escolher o meu próprio caminho”? É assim que agimos, a maioria de nós. Há apenas certas coisas que gostamos de fazer, e aquele velho clamor infantil — “Eu não quero” — nos vem aos lábios ou ao coração quando nos sugerem uma forma de serviço que não nos agrada.
Ou, às vezes, o grito nasce do medo: “Ah, eu não consigo fazer isso”, esquecendo-nos do nosso lema: “se andarmos na Luz, como Ele na Luz está, seremos fraternais uns com os outros”. Temos um poder muito maior do que se trabalhássemos sozinhos; e, por trás de tudo, está a força de Nosso Deus-Pai.
Se quisermos seguir a ordem do nosso Mestre, Cristo, devemos ser servos — ou aqueles que servem — de todos. Observe bem: servos, não escravos. O escravo é impelido ao trabalho pelo açoite; o verdadeiro servo serve por amor, como uma honra e um privilégio. Às vezes, ansiamos pela oportunidade de servir a uma grande personalidade, a um instrutor ou a um escritor; contudo, a alma do ser mais humilde da Terra é tão preciosa para Nosso Deus-Pai quanto qualquer outra, e a honra de servi-Lo é igualmente grande — e as oportunidades para isso surgem aos montes, todos os dias.
Mas voltemos à pergunta: “Como devo servir?” A Parábola dos Talentos[2], no capítulo 25 do Evangelho Segundo S. Mateus, ensina-nos que o serviço deve ser realizado com todos os talentos que Nosso Mestre, Cristo, nos concedeu. Nenhum talento ou dom pode ficar guardado; todos devem ser utilizados. Lemos no Livro do Gênesis que Deus nos deu Corpos — o “Primeiro Dom”. Depois, soprou neles o fôlego da Vida — o “Segundo Dom”. E, em seguida, o dom do movimento, da audição, da visão, do olfato, do paladar, do tato e muitos, muitos outros dons ou talentos para serem usados a serviço do próximo. Mas a maior de todas as dádivas é a Vida Eterna, por meio de Seu Filho, Cristo. Se aceitarmos esses dons — ou talentos — um a um e os utilizarmos em sua plenitude a serviço de Cristo, não teremos motivo para fazer a pergunta com a qual começamos. As oportunidades surgirão em tal abundância que as horas, os dias e até mesmo a própria vida parecerão curtos demais.
Retomando a Parábola: aquele que usou todos os seus dez talentos recebeu mais — e assim acontecerá conosco; a visão, a audição e todas as outras faculdades serão ampliadas além da nossa compreensão. Além disso, novos dons nos serão concedidos. Mas não nos esqueçamos de como utilizar esses talentos: o serviço deve ser prestado ao próximo, amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) e focado na Divina Essência oculta em cada um de nós que é a base da Fraternidade. Afinal, perdemos aquilo que gastamos apenas conosco!
Imagine que, na próxima semana, cada um de nós se empenhe em utilizar, a cada dia, um talento em sua plenitude a serviço dos outros. Pode ser o nosso canto ou a nossa música; pode ser a costura ou o trabalho da terra; a agudeza da visão, a precisão da audição, o talento para a organização, para o amor Crístico ou para promover a harmonia no lar. Cada um deles certamente proporcionará um serviço repleto de alegria.
A resposta para a pergunta “Como devo servir?” só pode ser dada por você mesmo. Somente você sabe o que é capaz de fazer e até que ponto pode levar o seu “Templo Vivo” a corresponder aos seus reais anseios, a do Ego, o que realmente somos. Outros podem lhe oferecer sugestões, mas apenas você poderá dizer, ao final do dia, ao seu Corpo cansado: “Muito bem, servo bom e fiel“[3]. Sirvamos com todas as partes do templo: o cérebro, a voz, as mãos e os pés. O serviço realizado fora do Templo não tem tanto valor quanto a entrega de si mesmo. Podemos adaptar as palavras de Lowell[4], em “Visão de Sir Launfal” e dizer: “O serviço sem aquele que serve é vazio”. Talvez você pergunte: a quem devemos prestar serviço? Encontramos a resposta no Ritual Rosacruz do Serviço Devocional do Templo: “Serviço amoroso e desinteressado para com os outros” — isto é, para a Humanidade; mas a Humanidade tem duas faces: a física e a espiritual. A qual delas devemos servir? Prestamos muitos serviços no plano físico da vida, provendo alimento, vestuário, abrigo, lazer e assim por diante. Lemos que devemos “procurar servir a Divina Essência oculta em cada um de nós” do Templo físico; mas só podemos servir por meio do Templo físico porque a Divina Essência — o nosso aspecto espiritual— está oculta em nosso interior. Portanto, devemos alcançá-la por meio de nossos pensamentos, ou seja, do motivo subjacente ao ato de servir.
Se nossas vidas forem consagradas ao serviço deve ser prestado ao próximo, amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) e focado na Divina Essência oculta em cada um de nós que é a base da Fraternidade, atrairemos oportunidades da mesma forma que um ímã atrai limalha de ferro.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de dezembro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Guia-me, Luz Bendita, em meio à treva que me cerca,
Guia-me Tu!
A noite é escura e estou longe do lar,
Guia-me Tu!
Guarda os meus passos; não peço ver
O horizonte distante; um passo me basta.
Nem sempre fui assim, nem pedi que Tu
Me guiasses;
Eu amava escolher e ver o meu caminho; mas agora
Guia-me Tu!
Eu amava o dia resplandecente e, apesar dos medos,
O orgulho regia a minha vontade. Não te lembres dos anos passados!
Por tanto tempo o Teu poder me abençoou; certamente ainda
Me guiará.
Por charcos e pântanos, por rochedos e torrentes, até que
A noite se vá,
E com a manhã sorriam aqueles rostos de anjos,
Que amei há muito tempo e perdi por um breve instante!
[2] N.T.: 14Pois será como um homem que, viajando para o estrangeiro, chamou os seus próprios servos e entregou-lhes os seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um. A cada um de acordo com a sua capacidade. E partiu. Imediatamente, 16o que recebera cinco talentos saiu a trabalhar com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma maneira, o que recebera dois ganhou outros dois. 18Mas aquele que recebera um só o tomou e foi abrir uma cova no chão. E enterrou o dinheiro do seu senhor. 19Depois de muito tempo, o senhor daqueles servos voltou e pôs-se a ajustar contas com eles. 20Chegando aquele que recebera cinco talentos, entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me confiaste cinco talentos. Aqui estão outros cinco que ganhei’. 21Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’” 22Chegando também o dos dois talentos, disse: ‘Senhor, tu me confiaste dois talentos. Aqui estão outros dois talentos que ganhei’. 23Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’ 24Por fim, chegando o que recebera um talento, disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. 25Assim, amedrontado, fui enterrar o teu talento no chão. Aqui tens o que é teu’. 26A isso respondeu-lhe o senhor: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei e que ajunto onde não espalhei? 27Pois então devias ter depositado o meu dinheiro com os banqueiros e, ao voltar, eu receberia com juros o que é meu. 28Tirai-lhe o talento que tem e dai-o àquele que tem dez, 29porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem será tirado. 30Quanto ao servo inútil, lançai-o fora nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes!’
[3] N.T.: Mt 25:21
[4] N.T.: James Russell Lowell (1819-1891) – poeta romântico, crítico, satírico, escritor, diplomata e abolicionista americano.
A atual onda de violência e terrorismo que vem se propagando através do globo em proporções crescentes deve constituir tema de meditação para todas as pessoas de boa vontade, em particular, para o Estudante Rosacruz.
A paz tem sido uma aspiração maior entre os seres humanos. Foram criados instituições e mecanismos para preservá-la ou fazê-la reinar onde o conflito só espalhou miséria e desolação. Entretanto, as guerras entre classes ou grupos étnicos se sucedem a intervalos cada vez menores.
Necessária se torna a união de todos para fazer frente a essa avalanche de violência. Que fiquem de lado todas as diferenças e os ideais de paz se sobreponham a quaisquer outros interesses.
A questão a considerar é, pois: como conter a violência sem lançar mão da violência? Certamente uma atitude passiva diante da crise atual só contribuirá para agravamento da situação. Muitos movimentos respondem a esta pergunta afirmando que a violência externa é um reflexo do estado de conflito interno em que vive a maioria das pessoas. E vai além; para contê-la faz-se necessária uma transformação interior no ser humano, uma nova atitude de respeito e amor para com todos as seres vivos.
O único antídoto para a violência é a não violência. Somente a ação altruísta e desinteressada, ação fruto do amor por todos os seres será capaz de promover uma transformação para melhor. Temos vários exemplos na vida de vários seres humanos de como é possível lutar pelos ideais de amor, paz e harmonia sem precisar lançar mão da violência. Todos esses exemplos de vida pregavam a não violência, não como uma condição física, mas, uma atitude mental de amor, a ausência total de pensamentos desarmoniosos. A não violência, em sua forma ativa, é a boa vontade para com tudo que vive: é perfeito amor Crístico!
É muito cômodo criticar o terrorismo e a violência. Contudo, se ficamos apenas nessa atitude, pouco ou nada realizaremos em prol da paz. Cabe a cada um se questionar para saber até que ponto não é, também, responsável pelo atual estado de violência. De nada adianta nos declararmos pacifistas e continuarmos a educar nossos filhos dentro de um espírito competitivo, inculcando-lhes toda sorte de preconceitos ideológicos e religiosos. As nossas crianças têm sido educadas para vencer na vida a qualquer preço, sem considerar os direitos e as necessidades dos demais.
Sem falarmos dos maus hábitos de pais, responsáveis, homens e mulheres que alimentam desejos, emoções e sentimentos de violência ao praticarem ou torcerem em todas as espécies de lutas (seja lá o nome que as dê), justificando em vários casos como “terapia”, “descarregar o estresse”, “autodefesa”, “desenvolver a disciplina”, “manter a força de vontade”, “orientação médica” e tantos outros, onde podemos refutar a todos com uma única questão: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
E muitos, quando não partem para agir por meio daquele tipo, adoram ficar horas e horas em jogos eletrônicos que estimulam inúmeros tipos de violência. E aqui a justificativa é pior ainda: “mas não se mata ninguém”, “não se fere ninguém”, “desenvolve-se a rapidez de raciocínio” e outros afins. São irmãos e irmãs que ainda não entenderam que as emoções, os sentimentos, desejos e pensamentos-formas que eles alimentam são até piores do que os maus hábitos de luta corporal! Novamente: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
E o que dizer de irmãos e irmãs que acham que andarem armados (com arma de fogo ou as chamadas armas brancas) é para “ter mais segurança nesse mundo violento”. Novamente aqui tais irmãos e irmãs estão alimentando a violência cada vez mais. Novamente: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
Assim, nossa civilização, dos quais muitos se dizem Cristãos, tem sido um exemplo deplorável de conflitos, contrastando com os ensinamentos do meigo nazareno, Cristo Jesus.
Também, é lamentável serem investidos muitos milhões em trabalhos missionários visando a cristianizar os chamados povos pagãos, quando entre nós medra o anticristo nas mais variadas formas de sectarismo.
Se quisermos paz devemos rever nossas atitudes na vida cotidiana, buscando introduzir mais amor, tolerância e compreensão no nosso relacionamento, adotando a postura da não violência. Pode não parecer tarefa fácil. Pode parecer distante, uma impraticável utopia, mas não é inviável, desde que comecemos a agir, aqui e agora.
Afinal, não tem como ser um Estudante Rosacruz ativo, trilhando o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz, mantendo tais hábitos acima detalhados, onde a violência é o centro deles.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – outubro/1981 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Para começarmos a compreender o real valor de dar e receber, é necessário nos esforçarmos para não cair na tentação de produzirmos “pensamentos negativos” que nada mais é do que nossos pensamentos contaminados por desejos e/ou emoções inferiores (esses formados de material das três Regiões inferiores do Mundo do Desejo).
Afinal, nem sempre é fácil nos livrarmos desses “pensamentos negativos”. Sabemos que não devemos combatê-los diretamente, pois tanto a antipatia quanto a simpatia tendem a atrair um pensamento ou ideia para nós; a força mental adicional que projetamos para combater “pensamentos negativos” acaba por mantê-los vivos e trazê-los à nossa Mente com mais frequência — da mesma forma que uma discussão pode levar alguém de quem não gostamos a nos abordar por puro despeito. Em vez de lutar, portanto, adotemos a tática da Indiferença (um dos dois sentimentos que usamos quando trabalhamos com a quarta Região do Mundo do Desejo), retirando o nosso Interesse (o outro sentimento que usamos quando trabalhamos com a quarta Região do Mundo do Desejo). Se deixarmos de reforçar uma reação negativa a uma pessoa ou situação, ela acabará por se dissipar. Da mesma forma se, ao surgirem “pensamentos negativos” em nossa Mente, invocarmos a indiferença e voltarmos nossa atenção para algo bom e ideal, perceberemos em pouco tempo que nos livramos desses “pensamentos negativos”, restando apenas os bons pensamentos que desejamos cultivar.
Para evitar “pensamentos negativos” e mantê-los fora de nossa Mente, praticamos a substituição de pensamentos. É uma lei da física que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. De modo semelhante, dois pensamentos não podem ocupar a Mente simultaneamente. Quando somos perturbados por “pensamentos negativos” de qualquer espécie, é aconselhável substituí-los por outro pensamento e concentrar-nos nele de forma tão positiva que o “pensamento negativo” não encontre espaço mental. Essa é uma estratégia simples e eficaz; basta praticá-la para obter os resultados desejados. Ou seja: “pensamentos negativos” são eliminados da Mente pelo mesmo processo; pois ao substituir o “pensamento negativo” por um pensamento construtivo o respectivo desejo e/ou emoção inferior é eficazmente excluído.
A substituição de pensamentos deve estar em sintonia com o que realmente somos: um Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui por meio de Corpos e Veículos, que são somente nossas ferramentas), que envia constantemente mensagens à nossa Mente consciente. Florescemos quando cultivamos a crença e a confiança na nossa capacidade interna de transformar a nossa vida. E podemos ampliar essa influência benéfica se ouvirmos e obedecermos às sugestões e orientações nascidas dentro de nós. Isso chamamos de Cristo Interno, que nos ajuda, de “dentro para fora” a reger os nossos Corpos e Veículos! Podemos conversar com o nosso Cristo Interno e manter diálogos íntimos e sinceros com Ele. Ao orar, criamos um destino novo e positivo, ajudando a neutralizar e compensar algumas das dívidas de anos e vidas anteriores. À medida que criamos pensamentos-formas construtivos, eles serão materializados por nós, da maneira e na medida que nós julgarmos sábios. Podemos expressar interiormente nossos ideais e ambições e, então, deixar sua materialização a cargo do nosso Cristo Interno. No entanto, não devemos cometer o erro de exigir isto ou aquilo, nem nutrir desejos que interfiram na vontade alheia. Sempre que tentamos mudar o outro por razões puramente pessoais e buscamos impor nossa vontade à dele, estamos agindo de forma egoísta — o que constitui uma forma incipiente de magia negra.
A vontade própria é amor-próprio, e o amor-próprio é uma forma de ódio ao próximo. Isso não significa que devamos atender à vontade de outra pessoa se isso implicar injustiça para conosco ou para com outrem; contudo, devemos procurar sacrificar inclinações e vantagens pessoais para acolher as ideias dos outros, satisfazendo assim o senso de equidade deles, estabelecendo uma cooperação amistosa e cumprindo nossos ideais Cristãos.
À medida que centramos nossa vida no desenvolvimento do nosso Cristo Interno — afirmando a crença e a fé de que o Cristo produzirá um resultado perfeito em nossa existência —, todo medo e ansiedade em relação ao futuro desaparecerão gradualmente, e nos tornaremos confiantes, serenos e tranquilos. Prosperaremos ao agir com base no conhecimento da Lei Cósmica do Dar e Receber. E, quando quisermos transformar ações equivocadas, praticamos a confissão ao Eu Superior que chamamos de Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção.
Essas práticas dos Ensinamentos Rosacruzes detalhadas acima, nos leva a conclusão sábia de que é um engano muito difundido que diz que dar é “desistir” de alguma coisa, é ficar despojado de algo, é sacrificar-se. Aqueles que não têm uma orientação neste sentido, os que não produzem para os outros, sentem o dar como um empobrecimento – porque é doloroso dar, precisa-se dar, a virtude de “dar”, para eles, é um ato de sacrifício, são os “não produtivos”.
Para uma pessoa de caráter “produtivo”, o “dar” tem um significado totalmente diferente; “dar” é uma expressão de força maior. No ato de dar experimentamos a nossa verdadeira força, a nossa verdadeira riqueza, o nosso verdadeiro poder. Esta experiência de elevada espiritualidade e vitalidade nos enche de alegria, regozijo e estímulo.
Dar é mais agradável do que receber, não por orgulho, mas porque no ato de dar está a expressão da nossa vida.
(Traduzido da Revista “Rays from the Rose Cross” novembro-dezembro/2001 pelos irmãos e irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)
Pergunta: Para onde vamos após permanecermos temporariamente no Purgatório, depois de morrermos aqui?
Resposta: Quando a existência purgatorial chega ao fim, nós, já purificados de todo o mal que fizemos durante a vida, adentramos ao Primeiro Céu, localizado nas três Regiões superiores do Mundo do Desejo.
Pergunta: Que transformação ocorre?
Resposta: Ali, os efeitos de nossos sofrimentos são incorporados ao Átomo-semente do Corpo de Desejos, abrindo nosso coração ao sentimento de ternura.
Isto constitui um impulso à prática do bem e a erradicação do mal no futuro.
Pergunta: Revemos novamente o nosso Panorama da Vida pretérita?
Resposta: Sim. O Panorama da Vida se desenrola em ordem inversa, porém, agora são somente os bons atos, as boas obras e ações praticados que servem de base ao sentimento.
Pergunta: Qual é o seu efeito sobre nós?
Resposta: Quando passam as cenas em que ajudamos a outras pessoas – direta ou indiretamente –, sentimos um certo alívio como se nós fôssemos ajudados. E como acréscimo, envolvemo-nos com o sentimento de gratidão do recebedor de nossa ajuda.
Pergunta: A amorosidade dos outros beneficia-nos também?
Resposta: Sim. Ao contemplarmos cenas em que fomos auxiliados, sentimos a gratidão dirigida ao nosso benfeitor.
Pergunta: Que lição podemos extrair desses fatos?
Resposta: Aprendemos a valorizar o altruísmo, a compaixão, a simpatia e principalmente os favores que outros nos prestaram, porque a gratidão é fator de crescimento anímico. Nossa felicidade nas Regiões superiores dos planos internos depende do bem proporcionado às outras pessoas e da sincera apreciação, ou seja, gratidão do que elas fizeram por nós.
Pergunta: Nossa possibilidade de dar encontra-se limitada as nossas posses?
Resposta: Não. O poder de dar não é privilégio da pessoa abastada. Dar dinheiro indiscriminadamente pode converter-se em um mal. É justo dar dinheiro para uma finalidade reconhecidamente digna.
Pergunta: O Primeiro Céu é um lugar de felicidade?
Resposta: Sim. É um lugar isento de qualquer resquício de maldade ou amargura. Encontramo-nos além da influência material implícita às condições terrestres e assimilamos todo o bem contido na vida passada.
Pergunta: Auferimos algum proveito adicional?
Resposta: Ali, todas as nobres aspirações são realizadas na maior amplitude. É um lugar de paz. Por mais sofrida que tenha sido nossa vida terrestre, tanto mais encontraremos paz. Enfermidades, doenças, tristezas, angústias inexistem no Primeiro Céu. É o lugar dos espiritualistas. Ali, a imaginação dos devotos Cristãos constrói a Nova Jerusalém, formada de material das Regiões superiores do Mundo do Desejo.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1973 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Saibamos ou não, concordemos ou não, mas somos Espíritos, partes integrantes de Deus, que é Espírito também, Fonte de todo o Amor e de todo o Bem. N’Ele não existe um só vestígio de mal. Por essa razão, não podemos atribuir-Lhe nossos sofrimentos, como tantas pessoas o fazem.
Desde que completamos nossa instrumentação com a Mente, com a razão, começamos a nos dirigir sozinhos. O livre-arbítrio e a experiência passaram a ser os dois fatores para a nossa evolução e elevação. É bom pensar muito bem nisso!
Se existe qualquer dificuldade ou sofrimento em nossa vida, não atribuamos a Deus. Antes, devemos encará-los como desafios à perfeição que um dia deveremos alcançar, segundo nos ensinado por Cristo: “Sede perfeitos como vosso Pai Celestial” (Mt 5:48). Se o leitor é pai, não deseja que seu (sua) filho (a) se torne maior ainda que você? E para isso não deve ele aprender a fazer as coisas sozinho?
“Mas devemos ter assistência, como a que damos a nossos filhos” – poderá responder.
Sim, recebemos, desde que as desejemos. Quem procura, encontra.
Temos inúmeras provas disso. Um dia encontramos, como por acaso, a Fraternidade Rosacruz, e nela nos ofereceram um manancial de razões que nos transformaram o viver e nos tornaram possível suportar muita coisa que nada tem a ver com Deus, senão com nossas próprias falhas. Desde então as fomos corrigindo. Consideramos essa uma correta orientação, uma perfeita assistência. Dá-nos meios para que nós mesmos nos corrijamos.
Uma causa única existe para nossos males: é o desvio às Leis de Deus, mantenedoras da harmonia do Universo. Muita gente, presa de sofrimento e dificuldades por esse mundo afora, já ouviu falar nisso, porém, de uma forma insatisfatória. Suas dúvidas continuaram e as perguntas surgem naturalmente: se somos partes de Deus, que é o Supremo Amor e Bem, em Quem não há sequer o menor vestígio de mal, por que sofremos, então? Por que tantas dificuldades em nossa vida? Que Pai é esse que se compraz com nossos sofrimentos?
Quando alguém procura a causa de seus sofrimentos já é um importante passo para encontrar sua solução.
No íntimo de seu ser reconhece que deve haver uma causa. E há mesmo. Poderíamos desfiar uma série delas, as mais importantes e prováveis a cada caso. Mas cada indivíduo é um mundo à parte. Suas condições internas são singulares. O modo como recebe as coisas, também. Por isso o conhecer isso por meio dos Ensinamentos Rosacruzes e a maravilhosa Filosofia Rosacruz se consegue chegar a “sua” causa.
Tudo ali se faz no sincero intuito de elevar a Humanidade, por meios Cristãos e seguros e sem objetivos comerciais.
Importante frisar que na Fraternidade Rosacruz não há esforço de proselitismo. Mas tudo que se aprender é para que o Estudante Rosacruz encontre por si mesmo o que precisa. Para isso há os cursos gratuitos (inclusive todo o material) para se capacitar (sem estudos constantes é impossível evoluir em uma Escola, como o é a Fraternidade Rosacruz). Com certeza, o Estudante Rosacruz encontra respostas a todas as perguntas que lhe suscite o íntimo, sejam de ordem material ou espiritual. Nela você encontrará tudo o que deseja saber a respeito de Deus, da criação e de sua própria evolução.
Afinal, como nos ensinou S. Tiago: “se sua vida carece ainda de esclarecimento, procure-o” (Tg 1:5).
Afinal, a Filosofia Rosacruz ensina que Deus está em todo lugar e principalmente no coração de quem esteja sinceramente pondo em prática os princípios Cristãos.
E conforme esses princípios mesmos é que tudo que a Fraternidade Rosacruz oferece é de graça, pois de graça recebemos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz –outubro/1966-Fraternidade Rosacruz-SP)
Como sabemos, cada um de nós tem uma “vida exterior”, geralmente conhecida e analisada pelos que nos rodeiam e, também temos uma “vida íntima”, da qual somente nós próprios podemos fornecer testemunho.
É, indiscutivelmente, o “mundo interior” a fonte de todos os princípios bons ou maus, nos quais todas as expressões exteriores guardam seus fundamentos.
Em geral, todos somos portadores de graves deficiências íntimas, que necessitam de laboriosa retificação. Porém não é tão simples o trabalho de purificar.
Fácil será aceitarmos as verdades religiosas, aderirmos a esta ou àquela ideologia, entretanto, coisa bem diversa é realizarmos a Obra da Evolução de nós mesmos, por meio da autodisciplina, da compreensão fraternal e do espírito de sacrifício.
Entendia o apóstolo S. Tiago quando proferiu “Limpai as mãos, pecadores; e vós de duplo ânimo, purificai os corações” (Tg 4:8), e conhecia suficientemente a gravidade do assunto, tanto assim que aconselhava os Cristãos no sentido de que “limpassem as mãos”, quer dizer, retificassem as atividades do plano exterior, renovassem suas ações ao olhar de todos e, apelava, ainda, que efetuassem, igualmente, a purificação do sentimento e do desejo, no recinto sagrado da consciência, conhecido unicamente pelo aprendiz, na profundidade indevassável de seus pensamentos. Procurar, com entusiasmo, a purificação dos nossos pensamentos, sentimentos, desejos, nossas emoções, palavras, obras, ações e dos nossos atos é, sem dúvida, tarefa que compete a cada um de nós. Muito ajuda para tal realização, a prática dos Exercícios Esotéricos Rosacruzes: noturno de Retrospecção e matutino de Concentração, que se encontram na obra básica dos Ensinamentos Rosacruzes, denominada Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz.
O apóstolo S. Tiago, companheiro valoroso do Cristo, contudo, não se esqueceu de afirmar que isto é trabalho para os de duplo ânimo, porque semelhante renovação jamais se fará tão somente à custa de palavras brilhantes.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – novembro/1964 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Frequentemente ouvimos Cristãos devotos se queixarem dos períodos de depressão. Às vezes, eles estão quase no sétimo céu de exaltação espiritual; quase veem o rosto de Cristo e sentem como se Ele estivesse guiando cada passo que dão. Então, sem qualquer aviso ou qualquer causa que consigam identificar, as nuvens se acumulam, o Salvador esconde o Seu rosto e o mundo se tornam sombrio por um período. Eles não conseguem trabalhar nem orar; o mundo não tem atrativo algum e o portão do céu parece fechado para eles; assim, a vida lhes parece sem valor enquanto a depressão espiritual perdura.
Naturalmente, a razão é que essas pessoas vivem sob suas emoções e, segundo a imutável Lei das Alternâncias, o pêndulo está destinado a oscilar tanto para um lado do ponto neutro quanto para o outro. Quanto mais brilhante a luz, mais profunda a sombra; quanto maior a exaltação, mais profunda é a depressão espiritual que a sucede.
Somente aqueles que, pela razão fria, refreiam suas emoções escapam dos períodos de depressão — mas também nunca experimentam a bem-aventurança celestial da exaltação. É justamente esse derramar de si mesmo em fervorosa devoção que fornece ao Cristão Místico a energia dinâmica para se projetar nos Mundos invisíveis, onde ele se torna um com o ideal espiritual que o tem chamado e despertado em sua alma o poder de se elevar até Ele — assim como o Sol formou o olho com o qual o percebemos.
O filhote cai muito antes de aprender a usar suas asas com segurança e o Aspirante no caminho do Misticismo Cristão pode se elevar até o próprio trono de Deus inúmeras vezes e cair no mais profundo abismo do desespero infernal. Contudo, em algum momento, ele vencerá o mundo, desafiará a Lei das Alternâncias e se elevará pelo poder do Espírito ao “Pai dos Espíritos”, livre das armadilhas da emoção, pleno de uma Paz que excede todo entendimento.
Mas esse é o fim alcançado somente após o Gólgota; o Batismo Místico é apenas o início da carreira ativa do Cristão Místico, quando ele se torna profundamente impregnado do tremendo fato da unidade de toda a Vida e imbuído de um sentimento de fraternidade por todas as criaturas, de modo que, doravante, ele pode não apenas enunciar, mas praticar os Ensinamentos que o próprio Cristo nos deu que conhecemos como Sermão da Montanha.
Se as experiências espirituais do Cristão Místico não o levassem além disso, ainda assim seriam a mais maravilhosa aventura do mundo e a magnitude do acontecimento está além das palavras, com consequências apenas vagamente imagináveis. A maioria dos estudantes das filosofias superiores acredita na Fraternidade da Humanidade por uma convicção mental de que todos emanamos da mesma Fonte divina, como os raios emanam do Sol; mas há um abismo de profundidade e largura inconcebíveis entre essa fria concepção intelectual e a saturação batismal do Cristão Místico, que a sente no coração e em cada fibra do seu ser com tamanha intensidade impensável. Isso o enche de um amor ansioso e ardente, como o expresso nas palavras do Cristo: Ó, Jerusalém; ó, Jerusalém, quantas vezes quis eu te reunir debaixo das minhas asas[1] — um amor protetor, cheio de anseio e cuidado que nada pede para si, exceto o privilégio de nutrir, proteger, guardar.
Se ao menos um tênue reflexo de tal sentimento universal de fraternidade estivesse difundido entre a Humanidade nestes dias sombrios, que paraíso seria a Terra! E não este inferno onde os homens e mulheres levantam a mão contra seu irmão ou sua irmã para matá-lo ou matá-la com a espada, por meio da rivalidade ou competição objetivando destruir sua moral e degradá-lo e degradá-la sob as marcas do cativeiro industrial ou do açoite da necessidade. Não teríamos guerreiros nem prisioneiros, mas um mundo feliz e satisfeito, vivendo em paz e harmonia, aprendendo as lições que nosso Pai Celestial tenta nos ensinar nesta condição material. O motivo de toda a miséria no mundo pode ser explicado porque acreditamos na Bíblia com o intelecto, mas não com o Coração.
Quando emergimos das águas do Batismo — o Dilúvio Atlante — para a “Era do Arco-íris”, das estações alternadas, também nos tornamos presa das emoções mutáveis que nos lançam para cá e para lá no mar da vida… A fé fria, contida pela razão e sustentada pela maioria dos Cristãos autodeclarados, pode conceder alguma medida de paciência e equilíbrio mental que sustenta durante as provações da vida; mas quando a maioria alcançar a fé viva do Cristão Místico — que ri da razão por que é sentida pelo Coração — então a “Era das Alternâncias” terá passado. O arco-íris cairá com as nuvens e o ar que agora compõe a atmosfera; haverá então um novo céu de puro Éter onde receberemos o Batismo do Espírito e haverá Paz (Jerusalém).
Ainda estamos na “Era do Arco-íris” e sujeitos as suas Leis; assim, podemos compreender que, como o “Batismo” do Cristão Místico ocorre em um momento de exaltação espiritual, ele deve necessariamente ser seguido de uma reação. A tremenda magnitude da revelação o domina, ele não consegue assimilá-la nem conter em seu veículo carnal e por isso foge dos lugares frequentados pelos seres humanos: retira-se para a solidão, alegoricamente representada pelo deserto.
Tão envolvido ele está em sua sublime descoberta que, por algum tempo, em seu êxtase, contempla o tear da Vida, no qual os Corpos de tudo o que vive são tecidos — do menor ao maior, o rato e o ser humano, o caçador e a presa, o guerreiro e sua vítima… No entanto, para ele não estão separados nem apartados, pois também enxerga o único Fio divino de luz dourada da vida que a tudo permeia e tudo une[2]; mais ainda, ele ouve em cada ser a Nota chave flamejante, soando suas aspirações, dando voz a suas esperanças e temores, percebe que essa cor-sonora seja composta em forma do hino universal do Deus que se fez carne.
Mas o Cristão Místico que acaba de emergir do seu Batismo na Fonte da Vida recua imediatamente, horrorizado, diante da sugestão de usar seu poder recém-descoberto para um propósito egoísta. Foi precisamente a qualidade de alma da abnegação que o conduziu às águas de consagração na Fonte da Vida e ele sacrificaria tudo — até mesmo a própria vida — antes de usar seu novo poder para fugir de uma dor ou de um sofrimento. Acaso ele não viu a aflição do Mundo? Não a sente em seu grande Coração com tamanha intensidade que a fome imediatamente desaparece e é esquecida? Ele pode, quer e de fato usa esse maravilhoso poder livremente para alimentar os milhares que se reúnem para ouvi-lo — mas nunca para fins egoístas porque, assim, perturbaria o equilíbrio do mundo.
Mas ele não raciocina sobre isso; como já foi dito, ele não se guia pela razão, mas por uma diretriz muito mais segura: a voz interior que sempre orienta nos momentos em que uma decisão precisa ser tomada. O indivíduo “não vive só de pão, mas de toda palavra que procede de Deus”[3]. Eis outro Mistério: não há necessidade de participar desse pão terreno para aquele que tem acesso à Fonte da Vida.
Quanto mais nossos pensamentos estiverem centrados em Deus, menos nos importaremos com os chamados prazeres da mesa; ao alimentar nossos Corpos Densos de modo frugal, com alimentos simples e selecionados, obteremos uma iluminação do Espírito impossível para aquele que se entrega a uma dieta excessiva de alimentos grosseiros, que nutrem a natureza inferior, o “eu inferior”. Alguns santos utilizaram o jejum e a mortificação como meio de crescimento da alma, mas esse é um método equivocado por razões apresentadas em no artigo sobre O Jejum como um Fator para o Crescimento Anímico[4].
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, que compreendem a Lei e vivem de acordo com ela, usam alimento apenas em intervalos medidos em anos; para eles, a palavra de Deus é um pão vivo.
Ela também o é para o Cristão Místico e a tentação, em vez de provocar sua queda, conduz a alturas ainda maiores. Isso, a princípio, está inteiramente além da sua compreensão; a tremenda magnitude da descoberta o deslumbra e encobre, por isso ele não consegue imaginar o que é que vê e sente, pois não há palavras que o descrevam nem conceito que o abarque. Mas, pouco a pouco, começa a clarear em sua consciência que ele esteja na própria Fonte da Vida, contemplando — ou melhor, sentindo — cada pulsação dela; com essa compreensão ele atinge o clímax do seu êxtase.
Tão absorto esteve o Cristão Místico em sua bela aventura que as necessidades do Corpo foram completamente esquecidas até que o êxtase terminou; é, portanto, natural que a sensação de fome seja a primeira necessidade consciente ao retornar ao estado normal de consciência. Surge também, de forma natural, a voz da tentação: peça que estas pedras se transformem em pão[5].
Poucas passagens das Sagradas Escrituras são mais obscuras do que os versículos iniciais do Evangelho Segundo S. João: “No princípio era o Verbo […] e sem Ele nada do que foi feito se fez”. Mas um breve estudo da ciência do som logo nos familiariza com o fato de que som é vibração e diferentes sons moldam areia ou outros materiais leves em figuras de formas variadas.
O Cristão Místico pode ser completamente ignorante desse fato do ponto de vista científico, mas aprendeu na própria Fonte da Vida a entoar o Canto do Ser, que embala à existência tudo aquilo que um mestre músico assim deseje. Há uma tonalidade fundamental correspondente à pedra mineral e indigesta; porém uma modificação pode transformá-la no ouro com o qual podemos adquirir nossos meios para o sustento; outra Nota chave, peculiar ao Reino vegetal, pode convertê-la em alimento — fato conhecido por todos os Cristãos Ocultistas avançados que praticam encantamentos legitimamente para fins espirituais, mas nunca para proveito material.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – novembro/1916, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Mt 23:37 e Lc 13:34
[2] N.T.: Ecl 3:1-8
[3] N.T.: Mt 4:4 e Dt 8:3
[4] N.T.: O Jejum como um Fator para o Crescimento Anímico
Frequentemente o autor recebe perguntas em relação ao benefício ou desvantagem do jejum e, portanto, pode ser bom elucidar a origem e o fundamento dessa prática para que possamos determinar qual efeito, se houver, é exercido sobre o crescimento espiritual.
Nas Antigas Dispensações era exigido que os sacrifícios de bovinos e caprinos fossem feitos como expiação ao pecado praticado, pois o ser humano valorizava, então, seus bens materiais, muito mais do que nos dias de hoje, sentindo profundamente sua perda, quando forçado a abrir mão deles para tal finalidade.
Mesmo nos dias modernos, as indulgências são compradas e o Perdão dos Pecados anunciado a qualquer pessoa que doe uma quantia em dinheiro a algumas Igrejas Católicas e Protestantes, para a compra de todo os tipos de acessórios necessários ao serviço.
Mas, sempre houve um ensinamento esotérico, que está sendo promulgado exotericamente hoje, e esse ensinamento não aceita o sacrifício de um animal, dinheiro ou outras posses; contudo, exige que cada um faça um sacrifício de si mesmo. Isso foi ensinado aos Aspirantes na antiga Escola de Mistérios, quando eles eram preparados para o Ritual Místico de Iniciação. A eles foram explicados os mistérios do Corpo Vital – composto pelos quatro Éteres e funções de cada Éter: o Éter Químico, que é necessário para a assimilação; o Éter de Vida, que promove o crescimento e a propagação; o Éter de Luz ou Luminoso, que é o veículo da percepção sensorial; e o Éter Refletor, em que se armazena a memória.
Eles foram, cuidadosamente, instruídos nas funções dos dois Éteres inferiores em comparação com os dois Éteres superiores. Eles sabiam que as funções puramente animais do Corpo dependiam da densidade dos Éteres inferiores, e que os dois Éteres superiores, por sua vez, formavam o Corpo-Alma, o veículo do serviço e, naturalmente, eles aspiravam cultivar essa gloriosa vestimenta, pela renúncia e refreando as propensões das naturezas inferiores, assim como fazemos hoje.
Esses fatos eram mantidos em segredo das pessoas que não estavam no Caminho da Iniciação ou, melhor dizendo, assim deveriam ter permanecido. Mas, alguns neófitos, mesmo sendo excessivamente zelosos em alcançar a Iniciação, não importando os meios, esqueceram que é somente pelo serviço e altruísmo que a veste nupcial dourada é cultivada pelos dois Éteres superiores. Eles pensaram que a máxima oculta, “ouro no cadinho, impureza no fogo; ligeiro como o vento, alçar-se cada vez mais alto”, apenas significava que, enquanto a natureza inferior, a escória, tinha sido expulsa, e não importava a maneira, mas se tivessem encontrado um método fácil, eles teriam retido apenas o “ouro” composto pelos dois Éteres superiores, o Corpo-Alma, no qual eles poderiam, com certeza, acessar os Mundos invisíveis sem obstáculo ou embaraço. Eles concluíram que, como o Éter Químico é o agente de assimilação, poderia ser eliminado do Corpo Vital, privando o veículo físico da fome.
Eles também pensaram que, como o Éter da Vida é a via de propagação, poderiam privá-lo com uma vida celibatária. Seguindo esse método, concluíram, assim, que reteriam apenas os dois Éteres superiores e, portanto, praticavam todas as austeridades que se podia pensar, entre outras práticas, o jejum. Por esse processo o Corpo Denso perdia a saúde e a sua natureza passional ficava debilitada, pois, buscava a gratificação pelo exercício da função propagativa, sendo silenciado com a punição.
Dessa maneira, horrível, é verdade que a natureza inferior parecia estar submetida e, também, é verdade que, quando as funções corporais eram reduzidas a níveis bem baixos, as visões, ou melhor dizendo, as alucinações eram frequentemente a recompensa dessas pessoas equivocadas. Outros que ouviram falar de sua suposta santidade estavam ansiosos para imitá-los; assim, seu exemplo desviou milhares de almas da busca do verdadeiro Caminho.
Mas, o resultado obtido por essas pessoas desencaminhadas e seus seguidores está longe de ser o que se pretendia pelo treinamento na Escola de Mistérios. Antes de mais nada, ao Aspirante à vida superior foi ensinado que o Corpo Denso é o “Templo de Deus” e que profaná-lo, destruí-lo ou mutilá-lo de qualquer maneira é um grande pecado. A indulgência com o apetite é um pecado, uma prática contaminadora que traz consigo certa retaliação, mas não deve ter maior repreensão do que a prática de jejuar para o crescimento da alma.
Viver corretamente não é banquetear e nem jejuar, mas dar ao Corpo os elementos necessários para mantê-lo na forma adequada de saúde, força e eficiência como um instrumento do Espírito. Portanto, jejuar para o crescimento anímico é um pseudométodo que tem o efeito, exatamente o oposto daquilo que foi projetado para ser realizado, devido à falta de visão de seus criadores. “Eu sou a porta”, disse o Cristo, “se alguém não entra pela porta, esse é ladrão e salteador” (Jo 10:1).
Da mesma forma, com a prática do celibato para o crescimento anímico, ou da alma, a máxima enunciada no início desse parágrafo se aplica de forma idêntica. É repreensível quando homens e mulheres, feitos à imagem de Deus, se degradam pela indulgência da natureza passional a um estado inferior ao dos animais, porém, é igualmente repreensível quando aqueles que vivem de outra forma, tendo vidas boas e sagradas, se recusam a sacrificar suas aspirações para dar a uma alma que está à espera daquele Corpo e daquele ambiente que lhe atendam, e que tenha todo aquele tempo para o próprio desenvolvimento. Eles podem, pelo jejum, atenuar o Éter Químico, e, por suas vidas fanáticas e egoístas de celibatário, podem também eliminar o Éter da Vida em grande proporção, mas essas medidas nunca irão construir a “vestimenta dourada de casamento”, que é o ‘abre-te sésamo’ para a festa do “casamento místico”; na falta desse traje, alguns que conseguirem entrar sorrateiramente, por métodos ilegítimos como jejum, castigo e celibato, serão lançados nas trevas exteriores.
(Publicado na revista Rays from the Rose Cross em dezembro/1915 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[5] N.T.: Mt 4:3 e Lc 4:3
Os Evangelhos foram escritos há quase dois mil anos. No entanto, estão bem atuais e o estarão ainda por muito tempo, porque, se atentarmos bem, a história de Cristo-Jesus e dos Apóstolos é nossa própria história.
Em que sentido? – perguntarão alguns.
E vos respondo: buscando “o espírito das palavras” e não “a letra que mata”. Nele veremos qual o nosso papel e não um mero relato histórico, um piedoso memorial, uma peregrinação sentimental; nele veremos a revelação que nos alarga a concepção de Deus e nos revela a nós mesmos, autenticamente. Por esse ângulo, os Evangelhos nos anunciam, nos visam e nos profetizam.
S. Tiago nos diz que os Evangelhos são um espelho. Cada um de nós pode se ver refletido nele, mas “o pior cego é o que não quer ver”; geralmente vislumbramos a imagem dos outros e nos indignamos com sua maldade, cegueira e insensatez.
Max Heindel, utilizando-se da Lei de Refração espiritual, nos informa que, via de regra, costumamos ver os outros através de nossa própria aura, matizando os semelhantes com nossas próprias faltas, fantasias e extravagâncias.
Citando, por exemplo, o nascimento de Jesus: “Estando eles ali, completaram-se os dias de dar à luz; e teve seu filho primogênito e o enfaixou e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para Ele nas hospedarias” (Lc 11:7). Comenta Max Heindel: “Com que eloquência podemos ampliar o sentido dessa frase: “Não houve lugar para Ele…”! Na família, na sociedade, na escola, no fundo das almas pecadoras, em nossas próprias almas, haverá digna morada para “Cristo nascente” – o nosso Cristo Interno? Não será também o nosso coração, ainda hoje, um lugar onde não haja lugar para Cristo?
Há boa intenção, sem dúvida. Procuramos, muitas vezes, agir nobremente, ajudar nossos semelhantes, renunciar a vícios e hábitos danosos, etc. Assim nasce em nós o Cristo. Mas logo depois nossa natureza inferior, personalizada em egoísmo – simbolizado muito bem por Herodes –, receoso de perder seu poder em nosso reino interno, “manda degolar todas as criancinhas”: nossos esforços nobres, sentimentos puros, na tentativa de eliminar o futuro Rei.
Quando O aceitamos, passando a admitir que somos os “Seus”, para junto dos quais Ele veio, então os Evangelhos nos alumiam. Sabemos por que Ele foi mal recebido, como o seria ainda hoje por muitos que amam as sombras mais que a luz. Sabemos por que lhe recusaram a doutrina, por que se encontrou tão “pobre” ante a oposição e dureza de coração. É a nossa dureza. Sua Vida, Paixão e Morte se repetem como ecos nos indivíduos.
Cristo se hospeda na casa de Marta e de sua irmã Maria. “Maria, sentada aos pés do Senhor, bebia-lhe os ensinos. Marta, porém, andava preocupada com o seu serviço.” (Lc 10:30-40). Qual das duas representamos? Maria, que escolhia o melhor, que estava sempre em comunhão com o Senhor (não se disse que ela negligenciasse os deveres) ou Marta, que se afundava tanto nos afazeres do mundo e não tinha tempo de estar com Ele?
Infelizmente há mais “Martas” que “Marias”! Muito mais. Dizendo-se religiosa, a maior parte da Humanidade empenha a vida inteira em acumular fortuna, conquistar fama e glória material e se recreando com banalidades, muitas vezes, prejudiciais. Não tem tempo. Não se compraz na presença d’Ele. Embora Ele esteja tão próximo, se distancia. Precisa de imagens e cerimoniais simbólicos, não lhe alcança a essência, tão facilmente despertada em cada um dessa maioria.
Quando chega a noite tal maior parte da Humanidade está cansada. Não se encontra com o Senhor de dia, não conversa com Ele, como prazerosamente fazemos com um amigo ou com uma amiga que estimamos. À noite, esgotada, mais por seus desequilíbrios que propriamente pelo trabalho, tal maioria busca se distrair em frente a uma televisão, a um boteco, roda de bate papo “furado”, num cinema ou outros divertimentos quaisquer. Afinal, uma reunião sobre Estudo de Filosofia Rosacruz é algo cansativo, um “descer penoso” em que podemos adormecer.
Somam-se, assim o dispêndio de um esforço ambicioso e egoísta, desequilíbrios emocionais oriundos de concorrência mundana, o acúmulo de sensações levianas e tolas, e tardes da noite tal maioria se deixa adormecer. Não pensa no “Cristo menino”, dentro de si – o Cristo Interno –, que precisa de alimento; não pensa no esforço dos Irmãos Maiores, todas as noites; não pensa, sequer, no privilégio de servir como Auxiliares Invisíveis, para ajudar os que, tolerantemente, aguardam as almas abnegadas e altruístas que desejam trabalhar com Eles na seara. Não tem tempo. Verdadeira “Marta”.
Cristo nos ensinou claramente que devemos “orar e vigiar”[1], incessantemente. Não significa que devamos ficar o tempo todo a orar, desleixando nossos deveres. Ele mesmo obedeceu às leis da sociedade em que vivia, sem, contudo, se apegar. Orar sem cessar quer dizer: pensar, sentir e agir sempre em consonância com o Senhor Cristo. Não importa a natureza de nosso trabalho. Todos são dignos, desde que os façamos em nome do Senhor. Então somos “Maria”.
Vejamos outro dos muitos personagens que podem nos refletir: o pequeno Zaqueu. “Era chefe dos publicanos e rico. Procurou ver quem era Cristo, porém não o conseguia por causa da multidão e porque era de pequena estatura. E correndo se adiantou e subiu em uma árvore para vê-Lo passar”[2]. Enquanto estamos envolvidos nas coisas do mundo somos pequenos. Mas se desejamos algo mais elevado, podemos nos adiantar, esforçando-nos mais que o comum dos seres humanos e subindo com a ajuda de uma Filosofia esotérica iluminadora, a fim de sentir a presença e ouvir a voz que nos diz: “hoje ficarei em tua casa”. E passaremos a empregar parte de nossos recursos na elevação da Humanidade carente, em vez de conservá-los egoisticamente em nosso único proveito (física, emocional, mental e financeiramente).
Os Evangelhos terminam com a morte e paixão de Cristo-Jesus. E S. João acrescenta que muitas outras coisas poderiam dizer, mas que por ora não as suportaríamos.
A Paixão recomeça todos os dias. A Humanidade, os novos autores, ensaiam seus papéis. Milhões e milhões de indiferentes, dos covardes, dos que “lavam as mãos”; depois os milhões que face aos problemas, e momentos difíceis, negam seus ideais superiores, como os “S. Pedros”; os “Judas Iscariotes” que traem a consciência d’Ele com um “beijo” falso, os milhares de carrascos que se comprazem em explorar o fraco, espezinhar o débil, os brutos com seus açoites diversos, o funcionário com seu frio regulamento diante da mesma face dolorosa, infinitamente paciente, infinitamente amorosa que se cala e nos dirige aquele olhar que despedaçou o coração de S. Pedro e fê-lo branquear os cabelos numa noite. Aquele olhar de ternura, de interrogação e de espera.
E mais do que nunca há vítimas que sofrem perseguições injustas. Em nossa casa, junto de nós, há alguém que chora, alguém que sofre, alguém sequioso de orientação e conforto, alguém com fome e frio, alguém doente, alguém de luto, alguém na solidão. Estão esperando por nós. Quem é Verônica? Quem é Simão Cirineu? Quem é João, o discípulo amado? Quem é Pedro? Quem é Judas Iscariotes? Quem é José de Arimatea? Quem é Pôncio Pilatos? Quem é sua esposa?
Que oportunidade a nossa! Eternamente presente, Cristo-Jesus nos olha e nos espera: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste.” (Mt 25:40). Ele vive em nós, sofre em nós. Acompanhamos o drama. Queiramos ou não, somos levados a fazer parte d’Ele. Mas temos a liberdade de escolher o papel, embora seja uma liberdade relativa. Podemos esclarecer e converter alguns da multidão indiferente para que O amem; dos que O odeiam, para que O conheçam pelo menos, porque só a ignorância gera o ódio. Podemos conseguir alguns servos vigilantes, alguns corações amorosos, para que nos ajudem a continuar-lhe a obra de redenção dos que “não sabem o que fazem”[3].
O teatro está sempre aberto. Uma parte sai e a outra entra em cena. Vivemos repetindo a peça. Variações sobre o mesmo tema. Sabemos nosso papel de cor. Julgamos conhecer o Evangelho. “Estamos prontos” – dizemos ao Grande Diretor.
Mas ficamos ofuscados quando entramos em cena neste mundo, ansiosos de glória, desejosos de aplausos, preocupados demais com os trajes, com os efeitos. Distraímo-nos. Não vivemos o papel despretensiosamente. E perdemos a oportunidade.
Em dado momento cai o pano para a nossa parte no mundo e o Diretor irrompe em nosso camarim: que houve com você? Por que não representou? E o ator confuso e envergonhado, responde: perdi a noção de meu papel, deixei-me levar pela assistência e pelo que podiam pensar de mim, não julguei que fosse assim antes de entrar.
De que valem as escusas? Sim há o infinito pela frente, mas o tempo perdido não volta mais. Temos que enfrentar novamente as mesmas falhas até vencê-las. Repetir a cena. Como há mais de dois mil anos, hoje a mesma coisa. Feliz o servidor que o Mestre, à sua chegada, encontra vigilante. “Minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me conhecem e seguem.” (Jo 10:27).
Felizes dos que ouvem essa voz e a seguem. “Pois assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam mais para lá, mas embebem a terra, fecundando-a e fazendo-a germinar para que dê semente ao que semeia e pão ao que come, assim será a minha palavra: saída da boca não tornará a Mim vazia, mas fará tudo quanto quero e prosperará onde eu a enviar.” (Is 55:10-11).
A Palavra de Deus é eficaz, é viva. É Água Viva da qual, alguém bebendo, jamais terá sede, conforme disse Cristo à mulher samaritana. Só podemos oferecer dessa Água se primeiramente a tivermos bebido. Não podemos dar a ninguém o que não temos. Não podemos comunicar senão o que temos vivido. Não podemos atrair os outros senão para aquilo que conhecemos.
É a palavra de Deus que deve determinar nosso apostolado, nossa ação.
Saibamos escolher e bem representar nossos papéis no mundo. Sejamos autênticos Cristãos, candeias que iluminam pelo exemplo, sais que não deixam a massa corromper e dão sabor à Humanidade, sal cuja presença é sentida sem se evidenciar.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1966 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: Mt 26:41
[2] N.R: E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe dos publicanos. Ele procurava ver quem era Cristo Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que iria passar por ali. Quando Cristo Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!”. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, eis que eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo”. Cristo Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele, também, é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (Lc 19:1-10)
[3] N.R.: Lc 23:34
Resposta: O termo “oculto” refere-se em geral, a tudo o que é secreto, ou considerado “sobrenatural”, do ponto de vista puramente físico. O ocultismo, como qualquer outro estudo, tem os seus aspectos positivos e negativos. Infelizmente, devido a grande ênfase dada aos seus aspectos menos superiores a ciência oculta criou “má reputação” em certos círculos.
Parece-nos, contudo, que a Filosofia Rosacruz, ou melhor, dizendo, os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental, indicam para a Humanidade ideias e ensinamentos sobre tudo o que há de mais superior e positivo, quanto à natureza de Deus e a nossa. De acordo com esses ensinamentos, nós somos inerentemente semelhantes à Deus, possuindo, em estado latente, todos os atributos da Divindade. A meta final da evolução é nos transformar do ser inocente e estático que somos hoje, num ser dinâmico como o Deus solar que adotamos.
A nossa evolução vem se processando desde os tempos imemoriais. O presente estágio é caracterizado por repetidos renascimentos na Terra, a fim de aprendermos certas lições no plano físico, antes da passagem para Mundos superiores. Passarão eons incontáveis, até que as qualidades que nos tornarão em um ser divino desenvolverem.
O conhecimento adquirido em nossa jornada evolutiva deve ser usado a serviço de nossos semelhantes. E para evoluir devemos adquirir conhecimentos, tanto dos Mundos espirituais como do Mundo Físico. E não há nada de maligno no conhecimento. O desejo de aprimoramento, o esforço em aprender algo relativo tanto aos Mundos espirituais como ao Mundo Físico, numa escola qualquer, merece louvor. O importante é o uso que será feito desses conhecimentos.
Devemos nos esforçar ao máximo em resistir à tentação de usar esses acontecimentos para engrandecimento próprio, para fins egoístas ou para prejudicar nossos semelhantes.
A Filosofia Rosacruz é uma filosofia Cristã. Oferece a mais ampla interpretação dos Ensinamentos Cristãos básicos, do que as Igrejas cristãs. Proporciona grande ênfase a doutrina do Amor Universal, conforme foi legada a todos nós por Cristo-Jesus.
(Publicada na Revista Rays From the Rose Cross – 09/15 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)