Os importantes passos da vida de nosso Salvador, Cristo, conforme narrados pelos Evangelhos, compõem o esquema geral de Iniciação para nós, enquanto desenvolvemos gradualmente o Espírito do Cristo em nosso interior, o Cristo Interno.
Os Evangelhos descrevem dramaticamente e em símbolos os incidentes que serão encontrados no Caminho da Santidade.
Havia três seres dentre os Discípulos mais íntimos do Cristo que haviam alcançado o pináculo da Iniciação. E os Evangelhos contêm um maravilhoso relato de seu elevado contato com a Memória da Natureza. Os três Discípulos eram: João, o bem-amado, ou, em outras palavras, o mais avançado; Tiago, o primeiro a sacrificar sua vida pelos preceitos da nova Religião instituída pelo seu Mestre, e Pedro, a Rocha, simbolizando o poder da fé e das obras, sobre as quais a Religião Cristã foi estabelecida. Estudamos nos Evangelhos que “Cristo Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou, em particular, a um alto monte” (Mt 17:1). Aprendemos na Filosofia Rosacruz que esse é um termo místico significando a Iniciação.
Já, na Fraternidade Rosacruz aprendemos que podemos colher todas essas informações mencionadas através da visão espiritual e contato pessoal com a Região do Pensamento Concreto, na qual o Iniciado pode examinar as verdadeiras gravações feitas na Memória da Natureza.
Um dos mais importantes pontos desse relato é que os Discípulos averiguaram, durante a sua Iniciação, a realidade do Renascimento, uma vez que Moisés e Elias eram expressões de um mesmo espírito. Esse fato ilustrava o que o Cristo havia lhes dito a respeito de S. João Batista: “Esse é Elias, que devia vir” (Mt 17:10).
Dessa forma, fica mais e mais aparente que o Cristo ensinava reservadamente aos seus Discípulos o fato do Renascimento. Porém, essa doutrina deveria constituir um ensinamento esotérico por muito tempo, conhecido somente de alguns pioneiros. É da maior significação que o trabalho real de Cristo Jesus começou após a Transfiguração, quando preparou setenta e duas pessoas como mensageiras e as enviou em grupos de dois para cada lugar aonde Ele pretendia ir.
Nos lugares onde essas pessoas eram bem recebidas, deviam ficar, curar os enfermos e pregar as boas novas. Quando não as recebiam, deveriam “sacudir o próprio pó das suas sandálias” (Mt 10:14 e Lc 9:5). O Evangelho Segundo S. Lucas relata que as pessoas retornaram contando com muita alegria: “Senhor, até os demônios se sujeitaram a nós por causa de Teu Nome” (Lc 10:17).
O poder de ordenar aos demônios constituía o ponto central do ministério de Cristo Jesus. O Novo Testamento encontra-se repleto de narrativas alusivas ao demônio, a força do mal. Há frases nas quais são mencionados os termos: mensageiros de Satanás, o pai da mentira, o Anticristo, o iníquo, o adversário e o destruidor. Toda essa nomenclatura mostrando a existência cósmica do poder do mal. Podemos ter certeza, dessa forma, que o mal existe na realidade e que é de natureza pessoal, tendo, naturalmente, efeitos sobre nós como indivíduos.
Um dos aspectos mais impressionantes relativo ao enorme interesse por temas do pseudo-ocultismo é que pessoas que firmemente negam a existência de Deus, acreditam e parecem profundamente impressionadas com o demônio. Devemos completar essa ideia mencionando o fato de que o demônio não é, em absoluto, uma invenção da Religião Cristã. Uma das formas mais persistentemente em evidência, um ser portador de chifres, asas e garras – data pelo menos de épocas tão remotas como a antiga Mesopotâmia.
Pode-se observar, em nossos tempos, uma onda de fascinação exercida pelas forças invisíveis. O nosso mundo e a nossa arte sentem o impacto de cultos mais ou menos satânicos, sessões envolvendo bruxas e bruxaria e, como é de conhecimento de todos, drogas.
Parece de pouca consistência em nosso mundo supercientífico e supertecnológico, o exame, e reexame, tanto pelo público, como pelas elites intelectuais, das forças malignas invisíveis e suas manifestações.
Esse interesse também se reflete em nossos veículos de comunicação. A publicação de obras literárias e filmes como “O Exorcista” servem de indicadores seguros do grau de interesse pela atuação dos espíritos malignos.
Assim sendo, pode não ser coincidência o fato dos autores dos Evangelhos terem distinguido a obsessão dos outros tipos de doenças curadas. Como se sabe, grande parte das curas efetuadas por Cristo Jesus foram desse tipo. Entre as curas individuais realizadas, conforme o Novo Testamento, sete envolviam pessoas obsidiadas por demônios: cinco homens, um menino e uma menina. Em cada um desses casos, o Cristo usava de métodos específicos e diferentes para a obtenção da cura, ponto merecedor de estudo detalhado do aspirante aplicado.
Em primeiro lugar, é de se notar que todas as entidades obsessoras reconheciam o Cristo, avaliavam seu poder sobre elas e se lhe declararam sujeitas sem opor resistência (Mc 1:23-26).
Esse primeiro relato de exorcismo refere-se a um incidente ocorrida num domingo em Cafarnaum, na Galileia, no interior da Sinagoga, enquanto o Cristo ensinava.
Relata o Evangelho: “E estava na sinagoga um homem com um espírito imundo, o qual exclamou dizendo: Ah! Que temos contigo Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és, o Santo de Deus. E repreendeu-o Jesus dizendo: Cala-te e sai dele. Então o espírito imundo convulsionando-o, e clamando, com grande voz, saiu dele.” (Lc 4:34-35 e Mc 1:24-26). Essa cura foi espontânea e, sem dúvida, surpreendente para a multidão da sinagoga. O demônio não suportou as altas vibrações da Santa Presença e foi obrigado a se revelar, encontrando assim o destino relatado.
No Evangelho Segundo S. Mateus, Capítulo 9 e versículos de 32 a 34[1] há o caso do endemoninhado surdo e mudo, cujos órgãos vocais e auditivos estavam sendo controlados por uma entidade. Imediatamente após o afastamento dela, o indivíduo recuperou a sua fala, voltando ao normal. Porém, isso agradava aos fariseus! Dizem eles: “Ele ordena aos demônios, pelo poder do Príncipe dos demônios” (Mt 12:34, Mc 3:22 e Lc 11:15).
O livro e o subsequente filme “O Exorcista” mereceram primeiras páginas na imprensa por um longo tempo, e muitas pessoas ficaram horrorizadas por saber que se tratava de um caso autêntico de obsessão na vida real.
Existe, porém, uma narrativa de um ato de exorcismo extraordinário contido nos Evangelhos e é de se admirar que tal incidente não consiga horrorizar ninguém não havendo até hoje um escritor bastante interessado em tecer um amplo comentário a respeito, o que traria à realidade, para os seres humanos de hoje, o tremendo poder à disposição do Cristo.
E o mais impressionante ato de exorcismo relatado na Bíblia é o do homem de Gadera – também escrito como Geraseno ou Gadareno –, cujos obsessores identificaram-se a si mesmos como “legião”. Essa cura deve ter particular importância, uma vez que três dos evangelistas, S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas escreveram a respeito, ainda com pequenas diferenças nas ênfases dos relatos[2].
O incidente ocorreu num dia em que o Cristo e os Discípulos decidiram atravessar para a costa Oeste do Lago de Tiberíades. A área se compunha, em sua maioria, de pedras calcárias dispostas em penhascos pontilhados de cavernas, lugar em que se costumava sepultar os mortos.
Quando o pobre homem obsedado avistou Cristo Jesus, veio correndo e se prostrou diante d’Ele gritando “O que temos a haver contigo Filho do Altíssimo? Não nos atormente”. Cristo Jesus reconheceu de imediato o grande mal que havia naquele homem e ordenou: “Saia desse homem espírito imundo”. Em seguida formulou uma pergunta que poderia parecer até irrelevante: “Qual é o seu nome?”. A resposta foi: “É legião, porque somos muitos”.
Há vários pontos a serem considerados nesse relato de exorcismo. O mais importante é que imediatamente após o afastamento das entidades obsessoras, o ser voltava de imediato à condição de ser humano normal. Do ser bestial, demente, cuja presença afastava a todos, surgia o ser humano absolutamente normal e comum, que só rogava a Ele e a seus Discípulos que ficassem com ele. O Cristo disse, porém, que era mais útil levar o conhecimento dessa cura para o seu círculo de amigos como testemunho da dádiva recebida por ele de Deus. Tarefa não muito fácil, de fato, pois a família e os amigos representam, às vezes, a maior dificuldade a ser enfrentada por aquele que foi purificado pelo amor de Cristo, e quer segui-lo.
O Cristo instruía Seus Discípulos num método muito avançado de exorcismo. Mostrava-lhes que tão logo o exorcista estivesse de posse do nome da entidade, ela se encontrava debaixo de Seu poder. Nesse tipo de exorcismo os Discípulos recebiam instruções reservadas sobre o poder das vibrações contidas em nomes e como ele deveria ser usado nas curas comuns ou no exorcismo, bem como para finalidades superiores a outros.
O relato bíblico envolvendo o demônio chamado “Legião” acaba por evidenciar que as entidades receberam “a permissão de Cristo para entrar numa manada de porcos levada a um abismo”.
Com referência a esse ato de destruição, é interessante voltar à antiga simbologia egípcia. Naqueles tempos, os porcos eram simbolicamente identificados com o Planeta Marte, ou seja, a natureza inferior e passional do ser humano.
Há, aqui, indicação simbólica do poder de Cristo em purificar os seres, enviando as entidades inferiores para o seu próprio elemento inferior, simbolizado na narrativa pela manada de porcos.
Parece quase certo que a cura de obsessões por intermédio de entidades desencarnadas será o ministério de maior importância no setor de cura durante a Nova Era.
S. Paulo aconselha que oremos sem cessar, cobrindo-nos assim da aura protetora da oração. Isso é assaz importante para o aspirante à vida espiritual, uma vez que a legião de pensamentos, palavras e atos negativos, constantemente gerados em nosso Planeta, fica incorporada no plano mais inferior do Mundo do Desejo, podendo perfeitamente obsedar qualquer indivíduo que não foi treinado a controlar ou destruir o seu impacto. Assim, “legião” passa a ser um espelho da luta que se trava no interior de cada ser humano e que só pode ser acalmada pelo poder do espírito unificador e purificador de Cristo-Jesus. A abordagem intelectual dessa situação só poderá frustrar os esforços de melhorar o estado do paciente.
A Filosofia Rosacruz foi dedicada ao mundo ocidental por causa do monopólio exercido pelo intelectualismo sobre os indivíduos dessa parte do globo. Aprendemos na Fraternidade Rosacruz que é uma dura tarefa para intelectuais cultivar a compaixão, que deve temperar o seu conhecimento e ser o guia, realmente, no uso desse conhecimento.
É isso que o Método Rosacruz de Desenvolvimento pelo Conhecimento Direto almeja por realizar, levando o candidato à compaixão, por meio do conhecimento. Esse método procura cultivar dentro do Aspirante à vida superior as faculdades latentes de visão e audição espirituais, já desde o começo de sua carreira como Aspirante à vida superior. Ensina-o a conhecer os mistérios ocultos do ser e da Natureza e a perceber intelectualmente a unidade de cada um com todos, para que, finalmente, mediante o conhecimento, possa desabrochar dentro dele o sentimento que o que faz um com o Infinito.
Há três passos importantes nesse caminho: o primeiro, quando o Estudante Rosacruz dá o primeiro passo, por meio do estudo persistente, diligente, disciplinado e obediente; o segundo, quando é admitido para o Probacionismo e assume a solene obrigação de servir a Humanidade por meio do sacrifício de sua natureza inferior ao “Eu superior”, ocasião em que a sua aura se mescla com a do Mestre. O próximo passo é o Discipulado: não poderá mais voltar atrás. O caminho do Discipulado foi comparado com a torre de uma igreja – estreita-se gradativamente até o topo, encontrando a solitária cruz.
Aí é o ponto máximo de provação do Aspirante à vida superior e os grandes problemas de disciplina espiritual são dificílimos. No entanto ele deve continuar a trabalhar consciente e inconscientemente “para frente e para cima”, para o grande clímax que na história do mais nobre de todos que tenham percorrido o Caminho do Cristão Místico, foi chamado de Transfiguração.
A Transfiguração representa uma ocorrência, durante a qual um processo de transfiguração se efetua no Corpo do Iniciado. A essência das experiências vividas e a união com o Coração, produzem uma luz radiante que penetra todo o seu Corpo.
Temos agora uma melhor compreensão a respeito da Transfiguração, conforme narrada nos Evangelhos. Devemos lembrar que foram os veículos de Jesus que ficaram temporariamente afetados pelo Espírito de Cristo na Transfiguração. Por isso é que aprendemos na Filosofia Rosacruz que a Transfiguração, de acordo como é revelada na Memória da Natureza, mostra o Corpo do Cristo de um branco deslumbrante, assim evidenciando Sua ligação com o Deus-Pai, o Espírito Universal. Não há nada no mundo tão raro e precioso como aquele extrato do ser humano: o Cristo Interno. E quando cresce ele brilha através do corpo transparente como a Luz do Mundo.
O estudo cuidadoso da vida de Cristo Jesus, conforme relatada pelos Seus Discípulos, S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João, mostrará que Ele deixou a Sua orientação para qualquer tipo de problema que nós, como Aspirantes à vida superior, finalmente encontraremos no Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz. Derramando a Sua enorme força espiritual sobre nós, Ele acalma as tempestades do excesso emocional, cura a grande enfermidade que é a ignorância, devolve a visão aos cegos pelo materialismo, expulsa os demônios do ódio e do egoísmo, derrotando o último grande adversário: o medo da morte. Aqui temos o verdadeiro sentido da redenção: a vitória sobre a alienação do ser humano dele mesmo, dos outros e de Deus!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ de outubro/1975 – Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.T.: 32Logo que saíram, eis que lhe trouxeram um endemoninhado mudo. 33Expulso o demônio, o mudo falou. A multidão ficou admirada e pôs-se a dizer: “Nunca se viu coisa semelhante em Israel!”. 34Os fariseus, porém, diziam: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”.
[2] N.T.: 28Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. 29E eis que se puseram a gritar: “Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”30Ora, a certa distância deles havia uma manada de porcos que estava pastando. 31Os demônios lhe imploravam, dizendo: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32Cristo Jesus lhes disse: “Ide”. Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas. 33Os que os apascentavam fugiram e, dirigindo-se à cidade, contaram tudo o que acontecera, inclusive o caso dos endemoninhados. 34Diante disso, a cidade inteira saiu ao encontro de Cristo Jesus. Ao vê-lo, rogaram-lhe que se retirasse do seu território. (Mt 8:28-34)
1Chegaram do outro lado do mar, à região dos gerasenos. 2Logo que Cristo Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro: 3habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. 4Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo. 5E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedra. 6Ao ver Cristo Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante d’Ele, 7clamando em alta voz: “Que queres de mim, Jesus, Filho de Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! 8“Com efeito, Cristo Jesus lhe disse: “Sai deste homem, espírito impuro! 9 “E perguntando-lhe: “Qual é o teu nome?” Respondeu: “Legião é o meu nome, porque, somos muitos”. 10E rogava-lhe insistentemente que não os mandasse para fora daquela região. 11Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. 12Rogava-lhe, então, dizendo: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. 13Ele o permitiu. E os espíritos impuros saíram, entraram nos porcos e a manada — cerca de dois mil — se arrojou no mar, precipício abaixo, e eles se afogavam no mar. (Mc 5:1-13)
26Navegaram em direção à região dos gerasenos, que está do lado contrário da Galileia. 27Ao pisarem terra firme, veio ao seu encontro um homem da cidade, possesso de demônios. Havia muito que andava sem roupas e não habitava em casa alguma, mas em sepulturas.28Logo que viu a Cristo Jesus começou a gritar, caiu-lhe aos pés e disse em alta voz: “Que queres de mim, Cristo Jesus, filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes”. 29Cristo Jesus, com efeito, ordenava ao espírito impuro que saísse do homem, pois se apossava dele com frequência. Para guardá-lo, prendiam-no com grilhões e algemas, mas ele arrebentava as correntes e era impelido pelo demônio para os lugares desertos. 30Cristo Jesus perguntou-lhe: “Qual é o teu nome?”. — “Legião”, respondeu, porque muitos demônios haviam entrado nele. 31E rogavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.32Ora, havia ali, pastando na montanha, uma numerosa manada de porcos. Os demônios rogavam que Cristo Jesus lhes permitisse entrar nos porcos. E ele o permitiu. 33Os demônios então saíram do homem, entraram nos porcos e a manada se arrojou pelo precipício, dentro do lago, e se afogou. (Lc 8: 26-33)
Quando, passeando Cristo Jesus e seus Discípulos passaram por um cão morto, em estado de putrefação, houve quem se preocupasse com o mau cheiro, e, não se contendo, comentou-o. Prontamente Cristo Jesus chamou a atenção dos Discípulos para a alvura dos dentes daquele animalzinho, fazendo com que vissem apenas o que nele havia de bom.
No fato que acabamos de descrever percebe-se com clareza, a profunda lição que Cristo dera aos Discípulos de todos os tempos e à Humanidade.
Feliz, portanto, de quem procura se compenetrar da sublime lição dada por Cristo Jesus. Vai gradativamente enxergando em seu próximo tão somente as qualidades. Com isto, a sua felicidade avulta, tendo em vista a possibilidade que alcança de fazer, em maior proporção, a felicidade dos outros. Esta realização é, sem dúvida, o que há de mais importante, não apenas no Mundo Físico.
Aprendemos na Fraternidade Rosacruz, em perfeita consonância com Cristo-Jesus, que devemos ver o bem em tudo. Aliás, entre os Estudantes Rosacruzes, felizmente, alguns só se compenetraram bem da lição conscientemente. Outros, atingiram certo ponto e continuam se esforçando. E, há ainda aqueles que estão iniciando a maravilhosa jornada.
Caminhando, pois, como ensinara Cristo, verificaremos, no correr dos dias, que Ele tinha e tem toda razão desaparecendo por completo, o “mau cheiro” que antes sentia, porventura nos fatos e pessoas.
Lembremo-nos, finalmente, de que a Bíblia Sagrada diz o seguinte: “Deus criou tudo e viu que tudo era bom”. É conveniente, portanto, meditar diariamente sobre isto.
(Publicado pela Revista Serviço Rosacruz – julho de 1966 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Resposta: O autor nunca defendeu as opiniões que lhe foram atribuídas pelo consulente que, evidentemente, não estudou a questão em si. Há uma doutrina entre algumas das tribos mais ignorantes do Oriente que ensina a teoria da transmigração, segundo a qual o Espírito humano pode encarnar nos corpos de animais, mas isso é muito diferente da doutrina do Renascimento, que sustenta que o ser humano é um ser em evolução, progredindo na Escola da Vida por meio de repetidos renascimentos em Corpos de textura gradualmente aprimorada. Cristo disse aos seus Discípulos: “Sede, portanto, perfeitos como o Pai que está nos céus é perfeito”[1]. Esse foi um mandamento definitivo, e Cristo jamais o teria dado se fosse inatingível; mas todos sabemos que não podemos alcançar esse objetivo em uma vida terrestre tão curta. Com o tempo necessário e as oportunidades proporcionadas por repetidas experiências e ambientes em constante mudança, conseguiremos realizar, em algum momento, o trabalho de nos aperfeiçoarmos.
Não existe, em nenhum dos escritos sagrados do Oriente, qualquer respaldo para uma crença como a transmigração. A única semelhança com tal ideia se encontra no “Kathopanishad”[2], Capítulo 5, Versículo 9, que diz que algumas almas, de acordo com as suas ações, retornam ao útero para renascer, enquanto outras entram na imobilidade. Significando, na opinião de alguns, que eles podem reencarnar até mesmo em níveis tão baixos quanto o Reino mineral. A palavra sânscrita usada para isso é “sthanu”, que também significa pilar, e lida dessa forma transmite a mesma ideia da passagem do Livro do Apocalipse: “Ao que vencer, fá-lo-ei um pilar no templo do meu Deus, e dele jamais sairá”[3]. Quando a Humanidade alcançar a perfeição, chegará o momento em que não estará mais presa à roda dos nascimentos e mortes, mas permanecerá nos Mundos invisíveis para trabalhar em prol da elevação espiritual de outros seres. Além disso, a transmigração é uma impossibilidade na Natureza, porque há em cada Corpo Denso humano um Espírito (um Ego, que é um Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui) interno individual, enquanto cada espécie de animal é governada por um espírito comum, o Espírito-Grupo[4], do qual todos esses animais da espécie fazem parte, e nenhum Ego consciente de si mesmo pode entrar em um Corpo governado por outro. O consulente pergunta “se não é mais gratificante acreditar na doutrina Cristã, segundo a qual vamos para o paraíso com Deus e os Anjos”? Talvez seja, mas não estamos tão preocupados com o que pode agradar ao nosso capricho passageiro quanto em encontrar a Verdade e embora a doutrina do Renascimento seja, às vezes, ridicularizada pelos eruditos como impossível e uma doutrina pagã, na verdade não se trata de saber se é pagã ou não. Quando lidamos com um problema matemático, não nos importa quem o resolveu primeiro; o que nos interessa não é se ele foi resolvido corretamente? Da mesma maneira com essa doutrina, não importa quem a ensinou primeiro, mas é a única que resolverá todos os problemas da Vida de uma forma racional, enquanto a teoria segundo a qual uma pessoa, que talvez jamais tenha demonstrado interesse pela música e nunca teve noção dos fundamentos da harmonia, desenvolverá imediatamente, após a sua morte, uma insaciável paixão por essa arte e ficará feliz em tocar uma trombeta ou de dedilhar uma harpa por toda a eternidade, é um tanto ridícula.
(Pergunta nº 72 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: MT 5:48
[2] N.T.: O Kathopanishad (ou Katha Upanishad) é uma escritura hindu fundamental, parte do Krishna Yajurveda, que apresenta um famoso diálogo entre o jovem Nachiketa e Yama, o Senhor da Morte. Explora a natureza do Atman (Eu), a imortalidade e a libertação (moksha), enfatizando que o verdadeiro “Eu” é eterno, imutável e distinto do corpo.
[3] N.T.: Apo 3:12
[4] N.T.: Um ser da Onda de Vida dos Arcanjos
“Vós sois meus amigos” (Jo 15:14-16). Frase simples, que se dilui no contexto grandioso dos Evangelhos. Não raro, passa despercebida a profundidade de seu significado.
O fato de o Cristo nos considerar amigos transcende qualquer possibilidade do conhecimento humano. Mas, a transcendentalidade do fato não nos impede de meditar e de lhe extrair lições.
O Cristo, quanto à evolução, encontra-se muito acima da nossa Onda de Vida. Não obstante a distância evolutiva que nos separa, Ele desceu ao nosso plano, isto é, Ele habitou entre nós e nos considera amigos. Se esse glorioso Ser pode assim nos considerar, seguramente não poderemos ser menos que amigos entre nós mesmos.
Na Bíblia, à frase “Vós sois meus amigos” segue-se: “se fizerdes as coisas que Eu mando”. O que Ele mandou fazer, por suposto, é praticar Seus Ensinamentos, os Ensinamentos Cristãos, na vida diária, para o despertamento do Cristo Interno. É a única maneira de chegarmos a ser como Ele, fazendo o que Ele fez e coisas maiores ainda. Se nos empenharmos em assim proceder, seremos Seus Discípulos e mais do que isso, Seus amigos.
Nesse particular, o conceito de amizade transcende a ideia geralmente aceita de estima e afeto entre um grupo de indivíduos intimamente relacionados e ascende a um nível indiscutivelmente superior, ao plano da amizade universal, na qual todos se incluem.
Se fizermos o que Ele nos mandou seremos Seus amigos no sentido mais elevado do termo. Também alcançaremos o nível de amizade ideal com nossos semelhantes, não só com aqueles que estão buscando a iluminação espiritual ao longo do caminho que estamos trilhando, mas com todos os viajores de outras rotas.
Quando chegamos a ser amigos de Cristo, certamente inspiraremos amizade aos indivíduos por força de nossa conduta profundamente compassiva.
O melhor que pudermos fazer por cada um, seja individual seja coletivamente, como membros da Fraternidade Rosacruz, será realizado por meio da amizade. Podemos ajudar uma pessoa porque a consciência nos obriga a fazê-lo; ou porque nos apiedarmos dele; ou porque isso pode nos trazer alguma vantagem pessoal. Sob quaisquer dessas circunstâncias poderemos ser úteis. Porém, somente quando nos consideramos seus amigos, ligados por sentimentos de estima e compreensão, sobrepondo-nos aos nossos interesses pessoais, é que lhe seremos verdadeiramente úteis.
Quando trabalharem juntos, unidos e inspirados pelos laços de amizade, poderemos realizar algo realmente duradouro.
Lembremo-nos sempre que os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, cujos belos ensinamentos nos uniram nesse Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz, honram os seus Discípulos da mesma maneira que Cristo honrou os Seus Apóstolos chamando a cada Discípulo de Amigo!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – novembro/dezembro/1987 – Fraternidade Rosacruz-SP)
No nome de Cristo Jesus mora a Suprema força do Iniciado. Eis o motivo pelo qual S. Pedro nos ensina: “Pedro lhes disse: ‘arrependei-vos e batize-se cada um de vós, em nome de Cristo Jesus, para o perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.’” (At 2:38).
Complementado pelo que S. Paulo nos ensina: “Ao seu nome todo joelho se dobrará.” (Fp 2:10).
A palavra “amém” está composta de duas letras masculinas e duas femininas, correlacionadas com os quatro Elementos do: Fogo, Ar, Água e Terra. Quem pode entoar adequadamente esse nome, controlará todos os habitantes e as forças dos elementos. Poder adquirido pelos Discípulos no transcendental evento conhecido como Pentecostes.
Aprendemos nos Estudos Bíblicos Rosacruzes que há uma descrição da vida das primeiras comunidades Cristãs que nada mais é do que um ideal. Ei-la: “E perseveraram na doutrina dos Apóstolos, em comunhão uns com os outros, compartilhando o pão e orando. E sobreveio temor a todos; e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos Apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam a todos segundo a necessidade de cada um. E perseverando unânimes cada dia no Templo, repartiam o pão nas casas, comiam juntos com alegria e simplicidade de coração.” (At 2:42-46). Fácil compreender que ali se encontra o ideal da Nova Era – a Era de Aquário –, onde a amizade e a fraternidade serão demonstradas e praticadas cotidianamente. É somente pela prática, na vida diária da fraternidade, que se abrirão as portas do Templo da Sabedoria. Jamais encontraremos a luz até que aprendamos a manifestar o espírito de irmandade. O estudo dos livros fornece somente um conceito intelectual dessas verdades, porém aquele que se capacita a recebê-las na fonte é quem vive os princípios sobre os quais elas estão fundamentadas. É o famoso pensar com o Coração.
A formosa vida desses primeiros Cristãos foi um poderoso imã de atração. Ali, onde não existiam distinções de casta ou clã, nem patrícios nem plebeus, nem ricos nem pobres. Os neófitos conviviam e cada um era tratado e aceito como um irmão e como uma irmã. Suas comunidades eram centros de amor e de serviço, nas quais ninguém era excluído. Eles observavam extrema simplicidade em todas as coisas, redimindo pessoas que eram presas à imoralidade e práticas dissolutas, remanescentes da passada Era de Touro.
Admiráveis forças espirituais foram desenvolvidas e manifestadas no meio dessa gente. O grupo íntimo formava uma reunião com seu único Mestre, Cristo, que estava frequentemente entre eles, fortalecendo-os, estimulando-os e inspirando-os. Eles haviam aprendido também a segui-lo nos Mundos espirituais, dos quais Ele lhes havia dito: “Não podeis seguir-me agora, porém, o fareis depois” (Jo 13:36).
Apesar das frequentes perseguições e martírios a que eram expostos, esses primeiros Cristãos alcançaram uma sublime consciência, experimentando um profundo êxtase espiritual que ultrapassa toda compreensão humana e não pode ser comparado a coisa alguma. Cada noite, em alegre reverência, reuniam-se para uma frugal refeição, chamada na Grécia “ágape”, ou festa de amor Crístico. Seguia-se a isto, um período de estudo e celebração da Eucaristia. Depois, dava-se sequência a uma classe limitada àqueles avançados e maduros espiritualmente. Prosseguindo essas normas, novas e extensas forças de cura, profecia e visão foram desenvolvidas no meio deles, juntamente com a habilidade de comunicação com seu dileto Mestre. E isso porque vivenciavam tal Ensinamento de Cristo: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8:31-32). Simples assim!
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross e traduzido e publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro-fevereiro/1987 – Fraternidade Rosacruz-SP)
“A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, assim Eu também vos envio” (Jo 20:21). Na noite da Ressurreição, a primeira coisa a ser considerada por Cristo foi mandar os seus Discípulos ao mundo para testemunhar a fé. A nós, também Ele diz: “Assim como o Pai Me enviou, eu também vos envio”. Por que devemos ser enviados? O que temos nós, Cristãos que somos – Estudantes assíduos do Cristianismo Esotérico –, que nosso Senhor deseja que o mundo receba de nossa parte? Temos inúmeras coisas, a começar pela fé.
Nós somos testemunhas de Cristo – o fermento de Cristo na Sociedade. O mundo de hoje necessita da nossa fé. Não nos enganam como Estudantes Rosacruzes ou Aspirantes à vida superior, nos consideram religiosos! As pessoas esperam de nós a bondade e as demonstrações da nossa fé. Mesmo quando contestam nossos argumentos, dependem da calma e serena expressão da nossa fé nesta Era, a de Peixes, de vertiginosa confusão para muitos (especialmente, porque estamos na “Órbita de Influência” de Aquário, onde já temos mais lições à disposição para aprender. Só que se nem as lições da Era de Peixes muitos nem sequer tentaram aprender – além de muitas da Era de Touro e da Era de Áries também não – aí está uma das causas da ilusória confusão, aflição, dissimulação, falta de confiança). Cada um de nós é uma testemunha de Cristo. Cada um de nós pode fortalecer ou enfraquecer a fé daqueles que nos rodeiam.
O mundo atualmente é, na verdade, um paradoxo. Porque em nossa sociedade afluente – rica e tecnologicamente sofisticada – muitos de nós se sente deprimido. A despeito dos aparatos que poupam nosso trabalho, modelos que nos seduzem, medicação que nos sustentam, ainda assim muitos continuam na depressão urbana na forma de pobreza, preconceito, falsa propaganda e miríades de outras depressões sociais que levam ao uso de álcool, das drogas e à negação psicodélica da realidade. Somos testemunhas da injustiça, da violência, áspera competição, do impersonalismo, um terrível período que ocorre em nosso mundo.
O paradoxo induz a maioria de nós à ansiedade. Essa ansiedade com o sentimento de culpa, insegurança e frustração não está confinada apenas nas pessoas neuróticas e infelizes! Essa ansiedade no mundo em que vivemos também se encontra no lar e no coração de muita mais gente do que pensamos. Todos nós, mesmo nossas crianças, são contaminados pelo senso de insegurança, num mundo cuja vastidão os aniquila. O conhecimento se expandindo cada ano, conhecimento assinalado com citações sábias marcadas por aspas, deixa muitas pessoas confusas em relação aos seus valores pessoais e duvidando do seu relacionamento com Deus e com a eternidade. O firme apoio que Deus nos permite descobrir, no espaço e no tempo, a sua complexidade, entra em colapso, em confusão para o indivíduo. Mesmo que muitos insistam em manter a sua liberdade pessoal por razões egoístas, não se isolam da situação; embora mudem de status, ora de um ora de outro, permanece o medo de observar as necessidades em suas almas.
A palavra de ordem nesta época parece ser ”hostilidade”. Nossa idade é hostil à Humanidade; muitos são hostis uns com outros, sendo mesmo hostis consigo mesmo. Nessa condição, a fé é a única esperança que nos resta para um mundo melhor. Mantenhamos nossa fé; ela nos mantém ligados a Deus. A fé é confiança, crença e conhecimento. Identicamente, como qualquer outro poder, a fé, a menos que não seja posta em prática – “A fé sem obras é morta” (Tg 2:17) –, se atrofia, tal como acontece com o músculo que não é exercitado. Devemos viver a nossa fé, testemunhá-la e nos esforçarmos por aprofundá-la.
Hoje, mais do que nunca, as pessoas discutem sobre Religião. Mesmo os que são hostis a ela admiram os que a cultuam, muitas vezes procurando o seu apoio, uma vez que uma pessoa de fé tem coragem, visão e paz – isso é justamente o que as pessoas procuram!
Oremos para que tenhamos sempre a mesma convicção e o entusiasmo que levou S. Tomé a exclamar: “Meu Senhor e Meu Deus.” (Jo 20:19).
(Publicada na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1986-Fraternidade Rosacruz-SP)
Resposta: Essa pergunta é uma daquelas que ocorrem com muita frequência. Já foi respondida anteriormente, mas como tantas pessoas a repetem sempre, parece que é melhor elucidá-la novamente. Como o autor nunca se refere a números anteriores, ele abordará essa questão de um ângulo diferente a cada vez, o que pode fornecer novos aspectos e peculiaridade até mesmo para aqueles que já obtiveram uma resposta antes e, portanto, acrescentará a todos algum benefício.
Nossas últimas investigações mais recentes indicam que quando um ser humano espiritualiza os seus veículos, a constituição do Corpo Vital, composto de Éter, muda bastante, do ponto de vista material. No ser humano comum, há sempre uma preponderância dos dois Éteres inferiores – o Éter Químico e Éter de Vida – que se relacionam com o desenvolvimento e a reprodução do Corpo Denso, e uma quantidade mínima dos Éteres Superiores – o Éter Luminoso e Éter Refletor – que se relacionam com a percepção sensorial e as qualidades espirituais mais elevadas. Após a morte, o Corpo Denso do ser humano comum é sepultado e o Corpo Vital paira no a uns sessenta centímetros acima do túmulo, desintegrando-se gradualmente. O Corpo Denso se desintegra simultaneamente. No entanto, quando dizemos que ele se decompõe, o que realmente queremos dizer é que ele se torna muito mais vivo do que quando o ser humano o habitava, pois, cada pequena molécula agora é controlada por uma vida separada e individual. Ela começa a se associar com as suas vizinhas; a unidade de uma vida individual é substituída por uma comunidade de muitas vidas. Por isso, dizemos que tais cadáveres em decomposição como se estivessem cheios de vermes. Quanto mais denso e cristalizado for esse veículo, maior será o tempo para se desintegrar, pois o Corpo Vital, pairando acima do túmulo, possui um forte magnetismo que mantém as moléculas densas sob controle. Os dois Éteres superiores vibram a uma frequência (ou taxa vibratória) muito mais rápida que os Éteres inferiores, e quando um ser humano, por meio de pensamentos espirituais, acumula em volta de si grande quantidade desses Éteres superiores, que então compõe o seu Corpo Vital, as vibrações do Corpo Denso também se tornam mais intensas. Consequentemente, quando esse ser humano abandona o seu Corpo Denso na hora da morte, há muito pouco ou quase nada do Corpo Vital para manter os componentes do Corpo Denso sob controle. A desintegração é, portanto, muito rápida. Isto não podemos provar facilmente, pois há pouquíssimas pessoas suficientemente espiritualizadas para tornar a diferença perceptível, mas você se lembrará de que na Bíblia se diz que certos personagens que foram transladados. Também, que o Corpo de Moisés vibrava tanto que resplandecia, e que seu Corpo nunca foi encontrado e outros casos afins.
Esses eram casos em que o Corpo retornou rapidamente aos Elementos, e quando o Corpo de Cristo foi colocado na sepultura, a desintegração desse Corpo ocorreu quase instantaneamente.
Entretanto, enquanto o Arquétipo do Corpo Denso persiste, ele se empenha em atrair para si matéria física, as quais molda de acordo com a forma do Corpo Vital. Por esse motivo, é difícil para o Auxiliar Invisível, que sai do seu Corpo, deixar de se materializar. A partir do momento em que diminui sua vontade de se conservar livre de todos os empecilhos físicos, materiais da atmosfera circundante aderem a ele, tal como limalhas de ferro são atraídas por um imã, e ele se torna tão visível e tangível quanto o desejar. Assim, o Auxiliar Invisível é capaz de realizar um trabalho físico efetivo onde quer que seja necessário, mesmo que se encontre a milhares de quilômetros distante de seu Corpo. Por outro lado, o que realmente causa a morte é o colapso do Arquétipo do Corpo Denso. Portanto, os Espíritos que deixam essa vida terrena são incapazes de se materializar, a menos que o façam através de um Clarividente involuntário (como, por exemplo, um médium), de onde extraem o Corpo Vital vivo desse com o qual se revestirão e, assim, atraem substâncias físicas necessárias para se tornarem visíveis aos presentes.
Há uma terceira classe, a saber, os Auxiliares Invisíveis Iniciados que já partiram dessa mais uma vida terrestre. Eles aprendem a atrair ou repelir a matéria física por meio da vontade deles, como já foi mencionado anteriormente e, portanto, são capazes de se materializar, apesar do Arquétipo do Corpo já ter entrado em colapso.
O Cristo, naturalmente, liderava essa classe e, consequentemente, era capaz de atravessar uma parede em Seu Corpo Vital, pois, da mesma forma que o Éter interpenetra cada molécula física, também o Corpo Vital, composto de Éter, pode atravessar obstáculos físicos. Uma vez dentro do recinto com Seus Discípulos, Ele atraiu para Si, pelo poder da vontade, matéria física suficiente para Se revestir em um Corpo Denso. Por essa razão, foi possível a Seus Discípulos tocá-Lo e apalpá-Lo, como consta nos Evangelhos.
Quanto à ingestão de peixe e mel, há nisso um significado místico que será explicado mais tarde, quando tratarmos de Raios Astrais. Você notará que o “peixe” tem um lugar de destaque em todos os Evangelhos. Os Discípulos eram pescadores e efetuavam pescas milagrosas. Há várias parábolas a esse respeito, onde as pessoas foram alimentadas com pães e peixes. A história de Jonas e da baleia e tantas outras narrações semelhantes têm um significado esotérico e astrológico que será apresentado nos artigos referentes ao assunto, portanto, não entraremos nessa parte da questão nesse momento. Responderemos apenas à última parte da pergunta: “É possível a um Espírito, sem um Corpo Denso, comer, beber e ser tocado?”. Nas Regiões inferiores do Mundo do Desejo, que interpenetram a Região Etérica do Mundo Físico, há classes de Espíritos dos quais muito se fala na literatura espiritualista. Eles vivem em casas, comem e bebem. Eles têm, de fato, um modo de vida semelhante ao nosso, e continuam a viver, até certo ponto, como quando estavam entre nós no Mundo visível. Também é possível para um Espírito materializado ou para um Iniciado, que se materializa, comer e beber, mas, nesse caso, seria necessário dispor dos materiais introduzidos ao Corpo por um método diferente do processo comum de assimilação.
(Pergunta número 105 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. II – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
(*) Pintura: São Tomé-Thomas- c. 1601-1602 Michelangelo Merisi, Caravaggio
O Evangelho de S. Lucas relata que os homens retornaram contando com muita alegria: “Senhor, até os demônios se sujeitaram a nós por causa de Teu Nome” (Lc 10:17).
O poder de “ordenar aos demônios” constituía um dos pontos importantes do ministério de Cristo-Jesus. O Novo Testamento encontra-se repleto de narrativas alusivas ao demônio, a “força do mal”. Há frases nas quais são mencionados os termos: “mensageiros de Satanás”, “o pai da mentira”, o iníquo, o adversário e o destruidor. Toda essa nomenclatura mostrando a existência cósmica do “poder do mal”. Podemos ter certeza, dessa forma, que o mal existe na realidade e que é de natureza pessoal, tendo, naturalmente, efeitos sobre nós como indivíduos.
Um dos aspectos mais impressionantes relativos ao enorme interesse por temas do pseudo-ocultismo é que: pessoas que firmemente negam a existência de Deus acreditam e parecem profundamente impressionadas com o demônio. Devemos completar essa ideia mencionando o fato de que o demônio não é, em absoluto, uma invenção da Religião Cristã. Uma das formas mais persistentemente em evidência, um ser portador de chifres, asas e garras data, pelo menos, de épocas tão remotas como a antiga Mesopotâmia.
Pode-se observar, em nossos tempos, uma onda de fascinação exercida pelas “forças invisíveis”. O nosso mundo e a nossa arte sentem o impacto de cultos mais ou menos satânicos, sessões envolvendo bruxas e bruxaria e, como é de conhecimento de todos, drogas.
Parece de pouca consistência em nosso mundo supercientífico e supertecnológico, o exame, e reexame, tanto pelo público, como pelas elites intelectuais, das forças malignas invisíveis e suas manifestações.
Esse interesse também se reflete em nossos veículos de comunicação. A publicação de obras literárias e filmes servem de indicadores seguros do grau de interesse pela atuação dos “espíritos malignos”.
Assim sendo, pode não ser coincidência o fato dos autores dos Evangelhos terem distinguido a obsessão dos outros tipos de moléstias curadas. Como se sabe, grande parte das curas efetuadas por Cristo-Jesus foram desse tipo. Entre as curas individuais realizadas, conforme o Novo Testamento, sete envolviam pessoas obsidiadas por demônios: cinco homens, um menino e uma menina. Em cada um desses casos, Cristo-Jesus usava de métodos específicos e diferentes para a obtenção da cura, ponto merecedor de estudo detalhado do Aspirante à vida superior aplicado.
Em primeiro lugar, é de se notar que todas as entidades obsessoras reconheciam o Cristo, avaliavam seu poder sobre elas e se lhe declararam sujeitas sem opor resistência (Mc 1:23-26). Esse primeiro relato de exorcismo refere-se a um incidente ocorrida num domingo em Cafarnaum, na Galileia, no interior da Sinagoga, enquanto o Cristo ensinava. Relata o Evangelho: “E estava na sinagoga um homem com um espírito imundo, o qual exclamou dizendo: Ah! Que temos contigo Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és, o Santo de Deus. E repreendeu-o Jesus dizendo: Cala-te e sai dele. Então o espírito imundo convulsionando-o, e clamando, com grande voz, saiu dele.”. Essa cura foi espontânea e, sem dúvida, surpreendente para a multidão da sinagoga. O demônio não suportou as altas vibrações de Santa Presença e foi obrigado a se revelar, encontrando assim o destino relatado.
No Evangelho segundo S. Mateus (9:32-33) – “Logo que saíram, eis que lhe trouxeram um endemoninhado mudo. Expulso o demônio, o mudo falou. A multidão ficou admirada e pôs-se a dizer: “Nunca se viu coisa semelhante em Israel!”. Note que é um caso do endemoninhado surdo e mudo, cujos órgãos vocais e auditivos estavam sendo controlados por uma entidade. Imediatamente após o afastamento dela, o indivíduo recuperou a sua fala, voltando ao normal. Porém, isso não agradava aos fariseus! Dizem eles: “Os fariseus, porém, diziam: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mt 9:34).
Existe, porém, uma narrativa de um ato de exorcismo extraordinário contido nos Evangelhos e é de se admirar que tal incidente não consiga horrorizar ninguém não havendo, até hoje, um escritor bastante interessado em tecer um amplo comentário a respeito, o que traria à realidade, para os seres humanos de hoje, o tremendo poder à disposição do Cristo.
E o mais impressionante ato de exorcismo relatado na Bíblia é o do homem geraseno ou gadareno, cujos obsessores identificaram-se a si mesmos como “legião”. Essa cura deve ter particular importância, uma vez que três dos evangelistas, S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas escreveram a respeito[1].
O incidente ocorreu num dia em que o Cristo e os Discípulos decidiram atravessar para a costa Oeste do Lago de Tiberíades. A área se compunha, em sua maioria, de pedras calcárias dispostas em penhascos pontilhados de cavernas, lugar em que se costumava sepultar os mortos.
Quando o pobre homem obsidiado avistou o Cristo, veio correndo e se prostrou diante d’Ele gritando “O que temos a haver contigo Filho do Altíssimo? Não nos atormente”. O Cristo reconheceu de imediato o grande mal que havia naquele homem e ordenou: “Saia desse homem espírito imundo”. Em seguida formulou uma pergunta que poderia parecer até irrelevante: “Qual é o seu nome?”. A resposta foi: “É legião, porque somos muitos”.
Há vários pontos a serem considerados nesse relato de exorcismo. O mais importante é que imediatamente após o afastamento das entidades obsessoras, o ser voltava de imediato à condição de ser humano normal. Do ser bestial, demente, cuja presença afastava a todos, surgia o ser humano absolutamente normal e comum, que só rogava aos santos homens que ficassem com ele. O Cristo disse, porém, que era mais útil levar o conhecimento dessa cura para o seu círculo de amigos como testemunho da dádiva recebida por ele de Deus. Tarefa não muito fácil, de fato, pois a família e os amigos representam, às vezes, a maior dificuldade a ser enfrentada por aquele que foi purificado pelo amor de Cristo, e quer segui-lo.
O Cristo instruía Seus Discípulos num método muito avançado de exorcismo. Mostrava-lhes que tão logo o exorcista estivesse de posse do nome da entidade, ela se encontrava debaixo de Seu poder. Nesse tipo de exorcismo os Discípulos recebiam instruções reservadas sobre o poder das vibrações contidas em nomes e como ele deveria ser usado nas curas comuns ou no exorcismo, bem como para finalidades superiores a outros.
O relato bíblico envolvendo o demônio chamado “legião” acaba por evidenciar que as entidades receberam a permissão de Cristo para entrar numa manada de porcos levada a um abismo.
Com referência a esse ato de destruição, é interessante voltar à antiga simbologia egípcia. Naqueles tempos, os porcos eram simbolicamente identificados com o Planeta Marte, ou seja, a natureza inferior e passional do ser humano.
Há aqui uma indicação simbólica do poder de Cristo em purificar os seres, enviando as entidades inferiores para o seu próprio elemento inferior, simbolizado na narrativa pela manada de porcos.
Parece quase certo que a cura de obsessões por intermédio de entidades desencarnadas será o ministério de maior importância no setor de cura durante a Nova Era.
S. Paulo aconselha que “oremos sem cessar”, cobrindo-nos assim da Aura Protetora da oração. Isso é assaz importante para o Aspirante à vida superior, uma vez que a quantidade de pensamentos, desejos, emoções, sentimentos, palavras, ações, obras e atos negativos, constantemente gerados em nosso Planeta, fica incorporada nas três Regiões inferiores do Mundo do Desejo, podendo perfeitamente obsidiar qualquer indivíduo que não foi treinado a controlar ou destruir o seu impacto. Assim, “legião” passa a ser um espelho da luta que se trava no interior de cada ser humano e que só pode ser acalmada pelo Poder do Espírito unificador e purificador de Cristo-Jesus. A abordagem intelectual dessa situação só poderá frustrar os esforços de melhorar o estado do paciente.
A Filosofia Rosacruz foi dedicada ao mundo ocidental por causa do monopólio exercido pelo intelectualismo sobre os indivíduos dessa parte do globo. Max Heindel afirmou que é uma dura tarefa para intelectuais cultivar a compaixão, que deve temperar o seu conhecimento e ser o guia, realmente, no uso desse conhecimento.
É isso que o Método Rosacruz de desenvolvimento almeja por realizar, levando o candidato à compaixão, por meio do conhecimento. Esse método procura cultivar dentro do Aspirante à vida superior as faculdades latentes de visão e audição espirituais, já desde o começo de sua carreira como Aspirante à vida superior. Ensina-o a conhecer os mistérios ocultos do ser e da natureza e a perceber racionalmente a unidade de cada um com todos – onde desperta a compaixão por meio do misticismo – para que, finalmente, mediante o conhecimento, possa desabrochar dentro dele o sentimento que o que faz um com o Infinito.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/75 – Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: “Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que se puseram a gritar: “Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. Ora, a certa distância deles havia uma manada de porcos que estava pastando. Os demônios lhe imploravam, dizendo: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. Jesus lhes disse: “Ide”. Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas. Os que os apascentavam fugiram e, dirigindo-se à cidade, contaram tudo o que acontecera, inclusive o caso dos endemoninhados. (Mt 8:28-33).
“Chegaram do outro lado do mar, à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro: habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo. E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedra. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante d’Ele, clamando em alta voz: “Que queres de mim, Jesus, Filho de Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! “Com efeito, Jesus lhe disse: “Sai deste homem, espírito impuro! “E perguntando-lhe: “Qual é o teu nome?” Respondeu: “Legião é o meu nome, porque, somos muitos”. E rogava-lhe insistentemente que não os mandasse para fora daquela região. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Rogava-lhe, então, dizendo: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. Ele o permitiu. E os espíritos impuros saíram, entraram nos porcos e a manada — cerca de dois mil — se arrojou no mar, precipício abaixo, e eles se afogavam no mar. Os que os apascentavam fugiram e contaram o fato na cidade e nos campos. E correram a ver o que havia acontecido. Foram até Jesus e viram o endemoninhado sentado, vestido e em são juízo, aquele mesmo que tivera a Legião. E ficaram com medo. As testemunhas contaram-lhes o que acontecera com o endemoninhado e o que houve com os porcos. Começaram então a rogar-lhe que se afastasse do seu território. Quando entrou no barco, aquele que fora endemoninhado rogo-lhe que o deixasse ficar com Ele. Ele não deixou, e disse-lhe: “Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia”. Então partiu e começou a proclamar na Decápole o quanto Jesus fizera por ele. E todos ficaram espantados.” (Mc 5:1-20).
“Navegaram em direção à região dos gerasenos, que está do lado contrário da Galileia. Ao pisarem terra firme, veio ao seu encontro um homem da cidade, possesso de demônios. Havia muito que andava sem roupas e não habitava em casa alguma, mas em sepulturas. Logo que viu a Jesus começou a gritar, caiu-lhe aos pés e disse em alta voz: “Que queres de mim, Jesus, filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes”. Jesus, com efeito, ordenava ao espírito impuro que saísse do homem, pois se apossava dele com frequência. Para guardá-lo, prendiam-no com grilhões e algemas, mas ele arrebentava as correntes e era impelido pelo demônio para os lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: “Qual é o teu nome?”. — “Legião”, respondeu, porque muitos demônios haviam entrado nele. E rogavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma numerosa manada de porcos. Os demônios rogavam que Jesus lhes permitisse entrar nos porcos. E ele o permitiu. Os demônios então saíram do homem, entraram nos porcos e a manada se arrojou pelo precipício, dentro do lago, e se afogou. Vendo o acontecido, os que apascentavam os porcos fugiram, contando o fato na cidade e pelos campos. As pessoas então saíram para ver o que acontecera. Foram até Jesus e encontraram o homem, do qual haviam saído os demônios, sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo. E ficaram com medo. As testemunhas então contaram-lhes como fora salvo o endemoninhado.” (Lc 8:26-36)
Resposta: No capítulo 10 do Evangelho Segundo S. Mateus, Cristo disse a seus Discípulos que fossem “às ovelhas perdidas de Israel” e lhes pregassem o Evangelho e curassem os enfermos. Porém, Ele também lhes ordenou “não levar ouro, nem prata, nem cobre em suas bolsas”, “nem alforja para o caminho”. No capítulo 10 da primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, S. Paulo também mantém esta ideia: “pregar o Evangelho de graça”.
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz têm seguido essa prática desde o princípio e nunca cobraram, nem cobram, nem cobrarão pelos Ensinamentos Rosacruzes. Nenhum verdadeiro crente nesse elevado Ensinamento cobrará pelas lições, nem solicitará tipo algum de retribuição financeira.
Quem quer que seja capaz de promulgar os Ensinamentos Rosacruzes nunca cobrará nada, nem sequer por uma só lição. Os que pedem ou recebem dinheiro para exercer essa faculdade ou dar lições sobre ela, nada possuem que valha a pena pagar. A regra mencionada é guia seguríssimo e pode ser seguida com absoluta confiança.
Se o fizer, esse ato simplesmente o denuncia como um impostor. Se temos fé e trabalhamos sem egoísmo, Deus terá cuidado sempre conosco e as manifestações de amor serão suficientes para satisfazer o Aspirante à vida superior em suas necessidades.
Podia ser alegado que tal atitude animaria alguns a tomar tudo e não dar nada ou estimularia o egoísmo em outros, afinal, continuando o argumento, há uma Lei da Natureza de que não podemos obter nada de graça.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – fevereiro/1978 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Querido amigo e querida amiga:
Eu, Augusta Foss Heindel, estando no ano oitenta e quatro de minha vida e, tendo em conta que, de acordo com as leis físicas, deverei, a qualquer momento, deixar o plano terreno, estou profundamente interessada e preocupada com o bom andamento desta obra, cuja continuidade nos foi confiada pelo meu esposo, inspirado pelo Mestre. Sinto-me no dever de escrever a cada um pessoalmente sobre assuntos de capital importância, relacionados com os ensinamentos Rosacruzes.
Como você já sabe, em 1898 eu me encontrei pela primeira vez com Max Heindel. Isso se deu em uma conferencia teosófica na cidade de Los Angeles. Atendi solicitação dele, emprestando-lhe e facilitando-lhe livros que o ajudaram muito em sua busca de um maior conhecimento das verdades espirituais. Fui sua companheira infatigável, e todos os dias ele ia à casa de minha mãe para que eu lhe ministrasse aulas de astrologia.
Anelando verdades mais profundas, Max Heindel esteve, em 1907, na Alemanha, onde esperava encontrar a ajuda de um mestre. Desiludido com o que encontrou, decidiu providenciar seu regresso aos Estados Unidos. Enquanto aguardava a partida do navio, recebeu a visita de um ser misterioso, que mais tarde reconheceu como sendo o “Mestre” (da Ordem Rosacruz) oferecendo-lhe conhecimentos de grande elevação.
Tais conhecimentos ser-lhe-iam ministrados sob a condição de não os divulgar a outrem. Deveriam permanecer em segredo. Como Max Heindel desejava compartilhá-los com outros buscadores da verdade, não aceitou a proposta. O “Mestre” se foi deixando-o só.
Novamente deparou com o “Mestre” em seus aposentos. O misterioso ser afirmou tê-lo submetido a uma prova, por sinal, vencida com muita segurança. Se tivesse aceitado à proposta de manter em sigilo aqueles ensinamentos, o Irmão Maior não mais teria voltado. Os Ensinamentos Rosacruzes deveriam ser condensados em um livro (“CONCEITO ROSACRUZ DO COSMOS”) e levados a público antes do encerramento da primeira década do século, isto é, até dezembro de 1909.
O primeiro bosquejo do livro foi feito no Templo, na Europa. Posteriormente, foi ampliado e enriquecido na atmosfera elétrica dos Estados Unidos, para onde Max Heindel voltou na primavera de 1908. O “Conceito” foi novamente revisado no verão de 1908 e completado em setembro do mesmo ano.
Logo em seguida iniciou-se a luta, renhida, diga-se de passagem, para editá-lo. Não se logrou êxito até o final do ano de 1909. Ao findar-se o outono de 1908, Max Heindel proferia conferências em Columbus, Ohio, fundando ali o primeiro Centro da Fraternidade. Dirigiu-se depois a Seattle e em agosto de 1909 organizou o primeiro Centro naquela cidade.
Em 10 de agosto de 1910, Max Heindel e Augusta contraíram matrimônio na cidade de Santa Ana, Califórnia. No dia seguinte ele encetou viagem a diversas cidades como Seattle, Portland e outras, com o intuito de realizar uma série de conferências. Durante essa viagem ele escreveu para a Sra. Augusta: “14 de agosto de 1910… Eu sempre lhe desejei falar sobre a orientação espiritual dos Irmãos Maiores. Devemos agir sempre segundo os ditames do nosso ‘Ser Interno’, até onde seja possível, independentemente dos conselhos dos demais, não importando quanto os admiremos e respeitemos. Somos responsáveis pelos nossos atos, ainda que outros nos induzam a praticá-los. Por isso temos de analisar os conselhos e sugestões recebidos para verificar se coincidem com nossa apreciação do reto e do justo. Uma noite você defendia o justo ainda que isso pudesse custar a sua felicidade. Eu não posso nem lhe contar como senti profundamente quando você me revelou. Esteja sempre firme em defesa da justiça e da retidão tal como as compreende, ainda que contra mim mesmo ou o Mestre quando encontrá-lo, ou contra as leis que você julga emanarem de Deus, porque o justo é o justo, não importa quem diga o contrário. É preferível cometer um erro por iniciativa própria do que por deferência a alguém. Temos de desenvolver a capacidade de manejar nossos veículos, mas, simultaneamente, devemos fazer o mesmo com nossa autoconfiança, guiando-a por meio do conhecimento do Eu Superior”.
“21 de agosto de 1910… O Mestre felicitou-me, dizendo ter esperança de algum dia poder recebê-la no Templo como uma filha e chamou-me de ‘filho’, coisa que não havia feito até então. Ademais eu o notei mais afetuoso do que nunca”.
“setembro de 1910… Senti-me feliz quando o Mestre anunciou esperar algum dia dar-lhe as boas-vindas como filha no Templo. Este é meu grande e sincero desejo: ver o dia em que juntos entraremos para receber a benção dos IRMÃOS”.
“12 de novembro de 1910… Meus amigos disseram às autoridades eclesiásticas que sou um verdadeiro e devoto cristão. Eu não teci comentários a respeito, mas sustento minhas palavras, fazendo referências sobre passagens bíblicas, coisa a que me habituei, ainda que em outras ocasiões eu o faça com maior frequência, porque nossos ensinamentos são cristãos por excelência”.
Algum tempo antes do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos, Max Heindel regressou a Los Angeles, chegando em casa muito enfermo, pois sofria de uma debilidade cardíaca. Vivíamos em uma pequena moradia em Ocean Park, Califórnia, onde mesmo acamado escreveu sua carta aos Probacionistas. A Sra. Heindel imprimiu-a em uma antiga impressora manual, remetendo-a em envelopes personalizados. Isso aconteceu em dezembro de 1910. A elaboração das cartas aos Probacionistas prosseguiu à custa de ingentes esforços, ao longo dos doze meses subsequentes. Naquela época a Fraternidade foi denominada “ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE CRISTÃOS MÍSTICOS”, estabelecendo-se o lema: “UMA MENTE PURA, UM CORAÇÃO NOBRE E UM CORPO SÃO”.
Muitas vezes, tanto verbalmente como por escrito, Max Heindel referia-se a Sra. Augusta como “sua querida companheira na obra”. Consideravam-se insignificantes demais para executar uma tarefa de tamanha envergadura como a de difundir a Filosofia Rosacruz: “Nós temos orado muito, pedindo ajuda, contudo, quando olhamos para trás, constatamos quão benéficas tem sido as lições aprendidas em meio às lutas”.
“O que o ser humano aprende isso ele pode fazer. Eu e Augusta temos obtido conhecimento à custa de muito esforço. E outros que também estão trabalhando amorosa e tenazmente pelos mesmos ideais, ajudando e tratando de elevar a humanidade, também encontram uma ILUMINAÇÃO inaccessível àqueles que buscam somente vantagens materiais.”
Em 1911, Max Heindel e Augusta Foss Heindel adquiriram a área onde hoje encontra-se instalada a Sede Mundial e que ela chamava de “Mount Ecclesia”. Augusta vendeu propriedades e valores recebidos por herança e prazerosamente aplicou-os na ereção dos prédios de Mount Ecclesia.
Em janeiro de 1913, foram elaborados os estatutos conforme a lei, constituindo-se legalmente um órgão depositário das propriedades e administrador de Mount Ecclesia. Os estatutos foram registrados pelo Sr. e Sra. Heindel, os únicos conectados com a Fraternidade, e outros três desconhecidos, amigos do advogado contratado para tal fim.
Do livro “ENSINAMENTOS DE UM INICIADO”, no capítulo intitulado “Nosso Trabalho no Mundo”, extraímos o seguinte: “Quando adentramos ao Templo, bom espaço de tempo foi empregado em uma entrevista com meu Instrutor e nela foi delineado o trabalho da Fraternidade, tal como os Irmãos queriam que se levasse a cabo. A característica principal da ação era a de evitar até onde fosse possível uma organização excessivamente formal ou ao menos torná-la mais aberta, porque segundo as palavras de meu interlocutor, por boas que sejam as intenções, enquanto se institua cargos e consequente poder capaz de despertar a vaidade humana, a tentação surge muito atrativa para a maioria, anulando o nobre objetivo de fomentar a individualidade e autoconfiança a serviço de ideais superiores. As leis e regulamentos implicam limitações e por essa razão devem ser instituídas o menos que se puder. O Mestre ainda julgava possível permanecer a Fraternidade livre de toda a regulamentação,
Depois de 6 de janeiro de 1919, quando Max Heindel passou para o além, a Sra. Heindel, com o auxílio de alguns poucos e leais Probacionistas, continuou a dirigir todas as atividades esotéricas da Fraternidade Rosacruz sob a denominação de THE ROSICRUCIAN FELLOWSHIP, estabelecida por seu fundador em 1908.
Desafortunadamente, em 1943, alguns Probacionistas mal orientados, débeis ante a tentação do poder pessoal, fizeram menção de dominar e tomar em suas mãos os trabalhos esotéricos da Fraternidade, reivindicando todo o patrimônio em nome de sua organização temporal.
Os acontecimentos tomaram tal rumo a ponto de obrigar a Sra. Heindel, apoiada por um grupo de leais Probacionistas, a estruturar a entidade sob a égide das leis que protegem as igrejas e organizações religiosas no Estado da Califórnia. Isso tanto para assegurar o direito de todos como membros, como para usar as propriedades no serviço esotérico. Estabeleceu-se, então, uma forma democrática de governo eclesiástico.
Em nossa revista “ECOS” de 10 de outubro de 1913, destacamos o seguinte trecho da mensagem de M. Heindel: “Por nada, o Sr. e a Sra. Heindel devem ser colocados em um pedestal, pois não lhes compete tal lugar e nem alimentam pretensões dessa natureza. Todos têm a mesma oportunidade de servir e o serviço é o único caminho conducente à elevação. Não importa quão eficientes sejamos em servir, se nos vangloriamos de nossas obras, o único galardão será nossa efêmera glória pessoal. Não devemos reconhecer outra direção que a de Cristo, nem sequer a direção dos Irmãos Maiores, porque eles não determinam, mas aconselham como amigos. Devemos trabalhar incansavelmente para remover os blocos de pedra, obstrutores do caminho da humanidade. Isso pode ser feito da melhor maneira, seguindo a obra iniciada pelos Irmãos Maiores”.
No livro “ENSINAMENTOS DE UM INICIADO” lemos: “… e a Sra. Heindel está comigo nisto, como nos demais trabalhos”.
Na lição de julho de 1912, destacamos o seguinte trecho: “… mesmo com as facilidades atuais, não podemos fazer muito mais do que estamos fazendo no serviço de Cura. Eu e a Sra. Heindel temos somente quatro mãos e essas já se encontram ocupadíssimas. Uma poderosa plêiade de ajudantes espirituais nos fornece cobertura, todavia, somos o foco através do qual se dá o contato físico, e a verdadeira ajuda física constitui necessidade premente ao prosseguimento da obra”.
O futuro desta obra está em sua própria maneira de manter-se firme. E, somente pelos seus esforços e sacrifícios pessoais você poderá colaborar na consolidação da “ASSOCIAÇÃO DE CRISTÃOS MÍSTICOS”, a verdadeira Fraternidade Rosacruz. A força tremenda assim gerada levará nossos ensinamentos ao mundo inteiro.
Meu querido amigo e minha querida amiga: Agora você entenderá por que eu, sobrecarregada com tanta responsabilidade, necessito de assegurar-me por meio desta mensagem que depois de minha passagem, está grande obra cumprirá o destino previsto pelo Mestre, o Irmão Maior e Max Heindel.
Ponderei e concluí que a continuidade e a segurança de todas as atividades esotéricas devem ser confiadas somente aos Probacionistas e Discípulos que, eleitos pela Assembleia, possam efetuar o trabalho essencial na Sede Mundial e nos Centros localizados nas diferentes partes do mundo.
Para colaborar de acordo com sua eleição sob um sistema democrático, conduzindo o trabalho desta Sede, objetivando a divulgação desta Filosofia como tem sido feito até agora, tenho que designar desde este momento a Jorge Schwenk, Srta. Joyce Junsfor, Sra. Helena de Cash, Sr. Frank Bowman e o magistrado James R. Armstrong. Desejo que você continue a trabalhar leal e desinteressadamente com nossos representantes eleitos, os quais, ajudados por Deus, continuarão o trabalho da Fraternidade Rosacruz.
Desejo ansiosamente que todos os Estudantes Rosacruzes continuem seus estudos esotéricos e devocionais sob a orientação dos acima mencionados representantes, dos Probacionistas e que esses mesmos Estudantes possam, no devido tempo, tomar parte no trabalho e responsabilidade de difundir os Ensinamentos Rosacruzes.
AUGUSTA FOSS HEINDEL
Oceanside, 23 de janeiro de 1948
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1972-Fraternidade Rosacruz-SP)