Segundo o dito popular, “o coração tem razões que a própria razão desconhece” (do filósofo e matemático francês Blaise Pascal). Essa expressão encontra sua origem no fato de algumas pessoas agirem intuitivamente, de maneira até a contrariar as diretrizes do raciocínio lógico. Essa maneira pouco convencional de tomar decisões ou reagir a determinadas circunstâncias causa perplexidade e estranheza a muitos.
De um modo geral, somos condicionados, desde tenra idade, a viver consoante regras de um raciocínio linear. Quando alguém foge a esse padrão de conduta, não raro recebe a pecha de excêntrico, quando não de paranormal.
A luz dos Ensinamentos Rosacruzes encontramos explicações para esse aparente “fenômeno”. Em primeiro lugar é necessário analisar esses chamados “impulsos intuitivos”, verificando qual a sua natureza. Nem tudo é intuição. Muitas vezes trata-se de meros impulsos emocionais ou baixo psiquismo, com resultados até funestos. Porém, todo ato motivado por “intuição pura” raramente deixa de produzir resultados benéficos.
A intuição é uma faculdade latente em todos nós, entretanto, manifesta em poucos. Sua expressão, em maior escala, será uma das características da Era de Aquário. Vejamos, agora, qual a relação entre o coração e certas manifestações intuitivas. O sangue, ao passar pelo coração, ciclo após ciclo, durante a vida, grava todas as imagens no Átomo-semente do Corpo Denso. Elabora um arquivo fidelíssimo, que na existência após a morte se imprimirá indelevelmente no Átomo-semente do Corpo de Desejos, base para a nossa estada no Purgatório e Primeiro Céu. O coração encontra-se em estreito e permanente contato com o Espírito de Vida, o Espírito do Amor, fonte do sentimento de unidade. Dessa forma torna-se o centro do amor altruísta, o amor Crístico.
Depois das imagens passarem ao Mundo do Espírito de Vida, no qual se encontra a verdadeira Memória da Natureza, não retornam através dos lentos sentidos físicos, mas por meio do quarto Éter, o Éter Refletor, contido no ar que respiramos.
O Espírito de Vida percebe muito mais nitidamente no seu Mundo do que nos planos mais densos da Natureza. Na elevada região, que lhe é própria, vive em íntima relação com a Sabedoria Cósmica. Isto lhe faculta, em qualquer circunstância, sabendo de imediato o que há de fazer, a enviar mensagens de orientação e iniciativa ao coração. Este logo a retransmite ao cérebro, por meio do nervo pneumogástrico ou nervo vago. As chamadas “primeiras impressões” formam-se dessa maneira. Nada mais são que impulsos intuitivos emanados diretamente da fonte da Sabedoria e do Amor Cósmico.
É um processo rapidíssimo. O coração o elabora antes da razão poder considerar a situação. Não sendo assim, predominará o raciocínio lógico, válido até certo ponto, porquanto suas limitações esbarram no transcendente.
Quando a nossa Mente esgota seus recursos para resolver determinado problema só restará uma saída: a intuição. E mesmo assim, poucos se tornaram sensíveis ao seu processo.
Embora não se constituindo em regra geral é válido afirmar que nas pessoas mais devotas as mensagens intuitivas se fazem mais presentes. Eis uma das razões por que o Método Rosacruz de Desenvolvimento Espiritual Cristão Esotérico procura estabelecer um equilíbrio entre razão e coração, intelecto e devoção, oculto e místico.
O que o ser humano pensa em seu coração é certo (Pb 23:2), porque assim ele é. Não é raro ouvirmos esta expressão: “as pessoas espiritualizadas têm um coração inteligente”. Aprendemos na Filosofia Rosacruz que se pudéssemos agir segundo os impulsos do coração, o primeiro pensamento, a Fraternidade Universal, seria realizado agora mesmo!
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – setembro/1980 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Em nosso formoso “Ritual do Serviço Devocional do Templo” repetimos essa alegação muito definida: “O serviço amoroso e desinteressado para com os outros é o caminho mais curto, mais seguro e mais agradável que conduz a Deus”.
Sim, ouvimos este ensinamento todas as vezes que oficiamos tal Ritual, frequentemente em nossos lares, gostando de pensar em nós como quem serve todos os dias.
Contudo, quantas vezes paramos para considerar o que também aprendemos nos Ensinamentos Rosacruzes: que não é somente o serviço que é necessitado? Estudamos em palavras que não deixam dúvidas: a qualidade especial do serviço que nos conduz adiante nesse Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz.
Consideremos os meios variáveis de serviço. Há o que poderíamos chamar de “serviço comercial” ou trabalho prestado com o propósito de colher uma vantagem correspondente. Tudo muito bem e valioso na sua maneira, mas, lamentavelmente, insuficiente na exigência espiritual.
Depois, há o serviço prestado não tanto para obter recompensa, porém, como um senso de dever ou necessidade, o cumprimento de uma obrigação àqueles que servíamos talvez. Ainda que isto seja muito estimável, não significando que diminui o mérito, contudo, ainda não preenche totalmente o requisito da exigência espiritual.
E, depois, aí há o mais elevado espécie de serviço, o “amoroso, desinteressado (portanto, o mais anônimo possível), ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade” exemplar, além do qual exige muita persistência, perseverança e disciplina para pode chegar a essa condição de desenvolvimento.
Repare, pois, o significado dos dois adjetivos. Primeiro, o mais elevado serviço, o “amoroso”. Na nossa ansiedade de servir, e talvez na nossa ansiedade de alcançar o nosso próprio desenvolvimento, tantas vezes passamos por cima do “amoroso” e, contudo, isso é a palavra-chave do nosso “Ritual do Serviço Devocional do Templo”.
Temos, às vezes, curiosidade, o que significa a palavra exatamente? A palavra “amor” é tão abusada que é difícil impedir que se torne confuso.
O conceito comum, como tendo algo que ver somente com o sexo, naturalmente não necessita consideração.
Outra opinião errada do amor, como algo impotente, débil e ingênuo se aproxima do inexato! Infelizmente está nesta conexão que tantas imagens tentando retratar o Mestre, Cristo Jesus, mostram-No como débil e ineficaz, ao passo que exatamente o contrário é o caso. Ele era forte e vigoroso (poderoso), sensível e benévolo, sim, mas estas últimas características são realmente sinônimas de poder e coragem. É por isso que quando designamos a palavra “amor” nos Ensinamentos Rosacruzes, fixamos no adjetivo que reforça o real significado dessa palavra: o amor Crístico!
O poeta Tennyson, no “In Memoriam”[1] demonstra isso claramente na seguinte parte:
Amor imortal
A quem nós, que não cheguemos a ver Sua Face
Pela fé e unicamente pela fé, concebemos.
Crendo aonde não podemos provar”.
Sim, o amor Crístico é o cume de poder benévolo. Se nos detemos a considerar, acharemos que mesmo nos mecanismos que dizemos brandura segue de mãos dadas com força. Pense na onda de poder num motor de alta potência, tão macio, tão silencioso, todavia, tão irresistível.
Nós, que desejamos nos expressar apropriadamente, esquecemos às vezes isto, dando assim, a impressão de afirmação própria, quando estamos meramente tentando expressar o poder do amor Crístico?
Talvez a palavra melhor que podemos usar é “compaixão”, nas ocasiões quando Cristo Jesus se dedicou para curar os doentes ou enfermos e os sofredores, quando Ele derramou o poder do Seu amor, Ele “tinha compaixão deles” (ou seja: Ele sentia a união entre o sentimento de empatia pela dor do outro e a vontade ativa de ajudar a diminuir esse sofrimento).
E depois esta outra palavra: abnegação. E aqui queremos dizer: a renúncia voluntária e completa dos nossos próprios interesses, desejos ou nossas vontades em favor de outra pessoa. É o oposto exato do egoísmo, pois representa uma forma profunda de altruísmo e desprendimento pessoal.
Não, não é fácil esquecer-se completamente de si mesmo (que é a prática da abnegação). Gostamo-nos de se sentir virtuosos, tirar pouco mérito pelo que fazemos.
Bem, podemos de bom grado entendê-lo, desde que nós somos ainda humanos. Mas, precisamos eventualmente elevar-nos acima mesmo disso até o ponto aonde o nosso serviço é prestado, sem pensarmos conscientemente em nós, sem mesmo o sentimento que estamos fazendo “algo bom”.
Quando vimos que tem algo que ser feito, fazemo-lo! É quase uma tragédia que o esquecimento próprio é confundível tão frequentemente com “desinteresse”. Desinteresse é bom, muito bom – mas tantas vezes participa do sentimento de sacrifício próprio ou glorificação de si mesmo – não é mesmo?
Nós todos já sofremos nas mãos de pessoas realmente boas que se tornaram tão agressivamente desinteressadas ou considerarmo-las tão “interessadamente desinteressadas”, boas pessoas que talvez ainda não se elevaram até o ponto onde possa esquecer-se de si mesmo nas suas boas ações.
Sejamos pacientes com elas; elas têm as melhores intenções e, não há dúvida, elas fazem um total considerável de benefícios. Todavia, se nós colocamos os nossos pés no “mais curto, mais seguro e mais agradável caminho que nos conduz a Deus” precisamos caminhar mais um pouco, mais alto e nos esforçar para se esquecer de nós mesmo totalmente no nosso servir.
Reconhecemos que a Oração, a oficiação dos Rituais dos Serviços Devocionais Rosacruzes e a prática dos Exercícios Esotéricos Rosacruzes são todos extremamente valiosos, mas também reconhecemos que por si mesmos não são suficientes sem o “serviço amoroso esquecendo-se de si próprio”. E nunca esquecemos que por ser o “amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível), ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade, o caminho mais curto e mais seguro que nos conduz a Deus, contudo, ao mesmo tempo seja lembrado a nosso encorajamento também, que é o caminho “mais agradável” que nos leva diretamente à Deus.
Oxalá aprendamos segui-lo mais amorosamente, mais desinteressadamente e, sobretudo, mais alegremente! Afinal, o “único fracasso é deixar de tentar”.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – maio/1982 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: In Memoriam A.H.H. é um longo poema escrito pelo poeta inglês Alfred Tennyson, terminado em 1849. Escrito ao longo de 17 anos, é considerado como um reflexo da sociedade vitoriana da época, discutindo muitos dos temas polêmicos da altura, que começavam então a ser questionados. Trata-se da obra em que Tennyson atinge o auge da musicalidade dos seus versos, e em que a sua experiência poética se completa, sendo considerada uma das grandes obras poéticas da Grã-Bretanha do século XIX.
Um dos traços de união entre os Estudantes Rosacruzes é o desejo comum de ajudar o próximo. Um dos principais motivos de nossas Reuniões de Estudos é orar pelos necessitados e tentarmos, seriamente, seguir a advertência de Cristo para orarmos uns pelos outros. Os Rituais dos Serviços Devocionais que oficiamos têm esse conteúdo!
Há pessoas, porém, que sentem que suas preces não estão “produzindo resultados”; que não podem ajudar um ente querido necessitado, que compreendem o problema alheio, mas estão incapacitados de ajudar a resolvê-lo. Podem sentir também que existem condições além de sua capacidade, chegam a pensar que são dignos de pedir, quanto mais de receber a resposta tão esperada às suas preces. Percebem que suas preces não estão sendo respondidas como esperavam. Se alguém já passou por alguma destas experiências há sugestões que podem ser úteis.
Primeiro, vamos tentar definir a palavra “prece”. Basicamente prece é:
A oração mais conhecida no mundo Cristão é a Oração do Senhor (Pai-Nosso). Aprendemos na Fraternidade Rosacruz a mais sublime explicação para essas santas palavras. Esta prece foi ensinada por Cristo Jesus aos Apóstolos, para ser usada em benefício deles próprios, mas é usada por todos e, também, pelos Estudantes Rosacruzes como uma fórmula científica (porque é uma oração científica!) para a elevação e purificação dos Corpos e veículos que possuímos.
Usando o capítulo 17 do Evangelho Segundo de S. João[1] como base para fazer com que nossas preces se tornem mais eficientes, devemos ressaltar dez pontos:
1) Algumas pessoas que rezam fracassam porque são egoístas. Os 26 versículos deste capítulo podem ser divididos em 3 partes: os primeiros oito versículos constituem a prece de Cristo Jesus para Ele mesmo; os versículos 9 a19 são a Sua prece para Seus Discípulos; e os versículos 20 a 26 são para aqueles que irão acreditar n’Ele mais tarde – o que nos inclui.
Na primeira parte, Cristo Jesus estava rezando não só para Ele próprio, como também para a glorificação de Deus-Pai. “glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique”. “Eu te glorifiquei na Terra e terminando a obra que me deste para fazer”. Ele não procurou glória para Si, mas apenas que o Pai pudesse ser glorificado e Sua verdadeira essência revelada.
Ao orar pelos outros devemos ficar atentos para não glorificarmos a nós mesmos e a nossos desejos. Ocasionalmente podemos não nos aperceber de que nos tornamos ditadores ao procurar impor nossa vontade pessoal ou ao tentar forçar alguém a aceitar modelos pré-concebidos. Talvez estejamos rezando: “Faça-o enxergar as coisas do meu modo”, ao invés de: “Ajuda-me a encontrar a melhor solução”, ou: “Faze com que a luz da verdade ilumine sua Mente”, ou simplesmente: “Tuas vontades serão feitas, Pai”.
É fácil desviar as preces que fazemos para os outros, de modo a satisfazer o que nós queremos para eles ou pensamos que eles deveriam querer ou ter. É uma cilada contra a qual precisamos estar sempre de prontidão, especialmente quando se trata de pessoas muito chegadas a nós. Pode não ser difícil parecer que estamos conformados quando pedimos por aqueles que estão longe e não são tão íntimos, mas para aqueles com quem temos uma relação mais chegada, é muito difícil nos desvencilharmos do nosso Ego e tentarmos rezar para o bem dessa pessoa entregando-a a Deus, mesmo que seja contra o que gostaríamos que acontecesse. Portanto, se nossas preces parecem não produzir resultados, vamos examinar nossos motivos e talvez aí encontremos a razão para o fracasso.
2)Devemos sempre reconhecer a qualidade da liberdade no amor Crístico, mesmo quando vemos que alguém está cometendo o que consideramos um grande erro. Devemos dar liberdade a esta pessoa para que se desenvolva a sua maneira. Talvez vejamos alguém muito querido ou querida deixando-se levar para uma situação que sabemos irá causar-lhe sofrimento e queremos evitar que isto aconteça e que a pessoa sofra.
Porém, talvez, seja preciso, para que a pessoa aprenda experimentar certas provações e aflições, a fim de receber uma lição necessária. Talvez o engrandecimento da alma venha através desta experiência porque, infelizmente, aprendemos muito mais com nossas próprias experiências do que com conselhos.
Quando bebês, ao aprendermos a andar, tivemos muitas quedas. Se nossas mães nos tivessem carregado sempre em seus braços, certamente não teríamos tido tantas quedas, manchas roxas e choros, mas também não teríamos aprendido a andar. A mãe carinhosa, certamente quer proteger seu filho de quedas físicas, emocionais e espirituais, mas somente experimentando algumas dessas quedas e por meio da liberdade do poder tentar, acertar e fracassar sozinhos é que aprendemos a andar retos, tanto fisicamente como de outras maneiras.
Cristo Jesus nos ensinou: “Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno“[2]. Ele não rezou para que Seus queridos Apóstolos fossem tirados do mundo, mundo este cheio de desafios, provocações, frustrações e conflitos, mas que eles fossem protegidos do mal. Devemos deixar nossos entes queridos livres para encontrar o bem supremo, da maneira que for melhor para eles. Podemos rezar para que Cristo os conduza nos caminhos da honradez e probidade. O Cristo Interno deve reconhecer o Cristo daquele por quem rezamos e dar-lhe liberdade individual para fazer sua própria escolha.
3)Não devemos jamais implorar ou suplicar. Implorar supõe que estamos tentando superar uma relutância por parte de Deus. Não há necessidade de se implorar a Deus em nome de outra pessoa, uma vez que o seu bem-estar já é muito conhecido no coração de Deus-Pai.
Muitas referências nas Escrituras Sagradas afirmam esta verdade. “Nosso Pai conhece as coisas de que necessitamos, antes de as pedirmos” (Mt 6:8). “Não é da vontade do Pai que nós devamos morrer” (Mt 18:14). “É prazer do Pai dar-nos o Reino” (Lc 12:32). Podemos estar certos de que a vontade de Deus para nós é perfeição.
A prece de Cristo Jesus era: “Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim“. Nossas preces não mudam o que Deus pensa sobre nós. Ele já nos determinou perfeição. Não temos que negociar com Deus. A prece não muda Deus e não O impele a fazer o que Ele não almeja para nós. A prece nos coloca num estado de receptividade do bem que Deus já planejou para nós. Portanto, ao invés de implorar e suplicar, vamos reivindicar o que há de bom, já estabelecido em espírito. Cristo Jesus corajosamente rezou para o Pai: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo, para que contemplem minha glória, que me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo.” (Jo 17:24).
4)Devemos confirmar a verdade na fé, confiança e na gratidão. Quando Cristo Jesus ressuscitou Lázaro, Ele disse com plena fé e confiança: “Pai, Eu Vos agradeço por me teres ouvido e sei que sempre me ouvis” (Jo 11:41).
Nas duas ocasiões quando alimentou as multidões, Ele primeiro agradeceu pela dádiva que foi dada, muito embora ainda não tivesse sido manifestada no plano exterior. Agradecendo desta maneira, demonstra fé, confiança e desperta estas qualidades em outros, que, por sua vez, se tornam melhores canais pelos quais Deus pode fazer Sua obra.
5)Não volte atrás em suas preces! É de pouca valia orar com palavras positivas se, continuamente, estamos projetando um quadro negativo na tela da nossa Mente. Se visualizarmos e, deste modo, enfatizamos a parte negativa ou condição que precisa ser eliminada, estamos desfazendo todo nosso trabalho de orar. Você se lembra da Parábola da Casa Vazia (ou dos maus espíritos)[3]? Depois de estar completamente limpa, ela permaneceu vazia; os maus espíritos voltaram e trouxeram sete vezes piores espíritos com eles. Ideias sombrias e pessimistas sobre quem oramos devem ser eliminadas de nossa casa de pensamentos. Inclinações duvidosas, temores e ansiedade devem ser varridos com fortaleza e na nossa Mente só devemos colocar pensamentos firmes e positivos.
6)Devemos imaginar os perfeitos resultados da oração. Nossa faculdade de imaginar desempenha um importante papel no que diz respeito a “chamar” as condições desejadas.
Se rezamos pela saúde de alguém, vamos imaginá-lo sempre com boa saúde. Se rezamos pela paz de espírito, harmonia ou qualquer outra condição desejada, vamos imaginá-lo já gozando deste estado de espírito. “Está decidido: tu manterás a paz, sim, a paz, porque a ti foi ela confiada.” (Is 26:3). Fixando nossa atenção em Deus e na sua bondade, fortalecemos Sua presença e atividade.
Ao visualizarmos alguém circundado pela Luz de Cristo, estamos protegendo-o do mal e ajudando a antecipar a cura, seja de doenças ou enfermidades física, emocionais ou mentais. Desta maneira nos tornamos co-criadores com Deus e ajudamos a estabelecer o Reino dos Céus na Terra.
7)Não devemos colocar limites nas nossas preces ou orações. Com Deus nada é impossível; não há limitações em Deus. “Se me pedirdes algo em meu nome, eu o farei.” (Jo 14:14).
Cristo Jesus nos ensinou: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino!” (Lc 12:32). O desejo do Pai para conosco é o bem, nada a não ser o bem, de maneira que devemos ficar receptivos e abertos para todo o bem que o Pai tem reservado para nós. Poderá vir em bênçãos como um aguaceiro derramado das janelas do Céu.
8)A qualidade sentida, presente, de agora é eficiente na oração. A manifestação da resposta perfeita de Deus é possível agora mesmo, se houver fé e compreensão suficientes para chamá-la. “Acontecerá então que antes de me invocarem, eu já lhes terei respondido” (Is 65:24).
Deus está aqui, agora, e basta invocar Seu Amor e Poder de maneira correta, para recebermos respostas completas e perfeitas.
9)Devemos dar à oração um profundo sentido de alegria. “Agora, porém, vou para junto de ti e digo isso no mundo, a fim de que tenham em si minha plena alegria.” (Jo 17:13).
Se estamos cientes da presença e poder de Deus, como Cristo Jesus estava, não deixaremos de ser agraciados com a felicidade.
A oração verdadeira é alegre, porque reflete a convicção que Deus está no comando de Seu mundo e que tudo está na ordem divina, apesar de toda a aparência em contrário.
10)Nossas Mentes e nossos Corpos devem estar limpos e puros. No Ritual do Serviço Devocional de Cura da Fraternidade Rosacruz encontramos estas palavras: “Se desejamos ser verdadeiros auxiliares no trabalho iniciado pelos Irmãos Maiores devemos converter nossos Corpos em instrumentos adequados e purificá-los por meio de uma vida pura, pois num vaso sujo não pode haver água pura e saudável, nem pode uma lente manchada dar uma imagem nítida. Também, não é possível irradiarmos uma força curadora pura e forte, se não mantivermos limpos e puros os nossos Corpos e as nossas Mentes.”.
Nem o puro e forte Poder de Cura pode ser emanado daqui a não ser que mantenhamos nossas Mentes e nossos Corpos limpos e puros. Quando Cristo Jesus subiu o Monte da Transfiguração, Ele levou consigo três de Seus Discípulos: S. Pedro, S. Tiago e S. João.
Enquanto estavam com Ele, os demais Discípulos foram abordados por um homem que pedia a cura de seu filho, possuído pelos maus espíritos. Eles tentaram, mas não conseguiram a cura. Quando Cristo Jesus, acompanhado de S. Pedro, S. Tiago e S. João retomou e curou o menino imediatamente.
Os Discípulos, desanimados pela inabilidade em demonstrar o poder da cura que Cristo Jesus havia ensinado, perguntaram o porquê. Sua resposta foi: “Este tipo de cura só acontece com prece e abstinência”. Que outra manifestação mais clara precisamos ter para nos certificarmos da necessidade de purificar os nossos Corpos e as nossas Mentes?
Devemos nos alimentar com pensamentos saudáveis e puros. Não podemos deixar nossas Mentes se fortalecerem com pensamentos negativos, nem permitir que sentimentos desta natureza nos guiem.
Assim como seguimos instruções de nossos Irmãos Maiores para um regime vegetariano, a fim de conservarmos nossos Corpos puros, vamos prestar atenção no que S. Paulo nos ensinou sobre a purificação da Mente: “Quanto aos mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna de louvor da disciplina, seja isto objeto dos vossos pensamentos” (Fp 4:8).
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – fevereiro/1981 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.T.: 1Assim falou Cristo Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: “Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique, 2e que, pelo poder que lhe deste sobre toda carne, ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste! 3Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Cristo Jesus. 4Eu te glorifiquei na terra, concluí a obra que me encarregaste de realizar. 5E agora, glorifica-me, Pai, junto de ti, com a glória que eu tinha junto de Ti antes que o mundo existisse. 6Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus e os deste a mim e eles guardaram a tua palavra. 7Agora reconheceram que tudo quanto me deste vem de ti, 8porque as palavras que me deste eu as dei a eles, e eles as acolheram e reconheceram verdadeiramente que saí de junto de ti e creram que me enviaste. 9Por eles eu rogo; não rogo pelo mundo, mas pelos que me deste, porque são teus, 10e tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu, e neles sou glorificado. 11Já não estou no mundo; mas eles permanecem no mundo e eu volto a ti. Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que sejam um como nós. 12Quando eu estava com eles, eu os guardava em teu nome que me deste; guardei-os e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para cumprir-se a Escritura. 13Agora, porém, vou para junto de ti e digo isso no mundo, a fim de que tenham em si minha plena alegria. 14Eu lhes dei a tua palavra, mas o mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. 16Eles não são do mundo como eu não sou do mundo. 17Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade. 18Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. 19E, por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade. 20Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim:21a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. 22Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: 23Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim. 24Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo, para que contemplem minha glória, que me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo. 25Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci e estes reconheceram que tu me enviaste. 26Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles”.
[2] N.T.: Jo 17:15
[3] N.T.: 43Quando o espírito impuro sai do homem, perambula por lugares áridos, procurando repouso, mas não o encontra. 44Então diz: ‘Voltarei para a minha casa, de onde saí’. Chegando lá, encontra-a desocupada, varrida e arrumada. 45Diante disso, vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e vêm habitar aí. E, com isso, a condição final daquele homem torna-se pior do que antes. Eis o que vai acontecer a esta geração má.” (Mt 12:43-45). 24Quando o espírito impuro sai do homem, perambula em lugares áridos, procurando repouso, mas não o encontrando, diz: ‘Voltarei para minha casa, de onde saí’. 25Chegando lá, encontra-a varrida e arrumada. 26Diante disso, vai e toma outros sete espíritos piores do que ele, os quais vêm habitar aí. E com isso a condição final daquele homem torna-se pior do que antes”. (Lc 11-24-26)
A Ordem Rosacruz foi fundada especialmente para aqueles que possuidores de um alto grau de desenvolvimento intelectual, deixam de lado os reclamos (as queixas) do coração. Todo homem ou mulher que tenha sido abençoado com uma Mente investigadora, é de suprema importância receber toda informação que queira. Dessa forma aquietando a cabeça, o coração poderá falar.
Aprendemos na Fraternidade Rosacruz que “o conhecimento intelectual é apenas um meio, não um fim em si mesmo. Daí o propósito da Ordem Rosacruz, antes de mais nada, satisfazer o Aspirante por meio do conhecimento de que tudo no Universo é razoável, o que poderá resultar num controle sobre o rebelde intelecto“.
E, também, aprendemos como se deve comportar o Estudante Rosacruz, nesse caso, ou seja, “quando, dessa forma, o Aspirante cesse de criticar e admita, embora provisoriamente, como verdadeiras as afirmações que não podem ser de imediato comprovadas, somente então o seu Treinamento Esotérico Rosacruz poderá ser efetivo para o desenvolvimento das faculdades superiores”.
Cremos que essas advertências dos Ensinamentos Rosacruzes, algumas vezes, são passadas por alto, pois os Estudantes Rosacruzes se fascinam de tal modo com o método de desenvolvimento por meio do Conhecimento Direto, que se esquecem do “Magno Mistério” que a Fraternidade Rosacruz advoga: “Cristo não disse: ‘Bem fizeste, tu, grande e erudito filósofo que conheces a Bíblia, a Cabala, toda Filosofia Rosacruz e toda a literatura misteriosa que revela as intrincadas operações da Natureza’; mas Ele disse sim: ‘Bem fizestes tu bom e fiel servo, entra no gozo de Teu Senhor… Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber’ (Mt 25:35). Perceba: não notamos uma só palavra acerca de conhecimentos.
Em várias outras ocasiões somos advertidos que não devemos olhar o próximo “por cima dos ombros”, já que aquele que, devido ao seu pouco preparo intelectual serve, simples e humildemente, ou seja, pode compensar com amor àquela carência. Esses irmãos e irmãs são ativos servindo.
São os atos, as ações e obras de amor Crístico e bondade verdadeira que constroem o Corpo-Alma. O conhecimento é bom quando usado e compartilhado para benefício do próximo, pois quando conservamos para nós mesmos, nos colocamos novamente em tonalidade com o egoísmo, fomentado pelos Espíritos Lucíferos que instigam toda a classe de atividade mental concreta (contaminada pelo Corpo de Desejos), com a finalidade de obterem conhecimento, à medida que o obtemos. Entretanto, canalizando todo conhecimento que obtivermos para edificação de nossos irmãos e das nossas irmãs, transformamos uma armadilha mortal em uma sublime benção.
Aqueles que trabalham e servem aos demais do modo como ensinado pela Fraternidade Rosacruz: amorosa e desinteressadamente, o mais anônimo que puder, esquecendo os defeitos do irmão e da irmã que está servindo, focando toda a sua atenção na Divina Essência que está oculta em cada um de nós e que, portanto, é a base da Fraternidade, então não necessitam que sejam impulsionados para a prática de boas ações, obras e bons atos. Necessitando-se de um estímulo extra se têm maior responsabilidade! Assim, se pergunte sempre: você está vivenciando esses Ensinamentos Rosacruzes?
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro/1980 – Fraternidade Rosacruz – SP)
O amor Crístico é uma força ativa em nós; uma força que irrompe pelas paredes que nos separam dos nossos semelhantes, que nos une aos outros; o amor Crístico nos leva a superar o sentimento de isolamento e de separação nos permitindo, porém, ser nós mesmos e retermos a nossa integridade. No amor Crístico, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois.
Ao dizermos que o amor Crístico é uma atividade, enfrentamos uma dificuldade que reside na significação ambígua desta palavra. Por “atividade”, no emprego moderno do termo, queremos, normalmente, nos referir a uma ação que produz mudança numa situação existente, por meio de gasto de energia. Assim, somos considerados em atividade quando fazemos negócios, estudamos, trabalhamos ou nos dedicamos a esportes. Todas estas atividades têm isto em comum; dirigem-se para um alvo exterior a ser alcançado. O que não se leva em conta é a motivação da atividade.
Vejamos, por exemplo, uma pessoa impelida a incessante trabalho por um sentimento de profunda insegurança e solidão; ou por outra, impulsionada pela ambição ou pela avidez por dinheiro. Em todos esses casos a pessoa é escrava de uma paixão, e sua atividade é de fato uma “passividade” porque ela é impelida; é a paciente e não o “sujeito”.
De outro lado, uma pessoa que se assente calma e contemplativa sem outro alvo que não o de se experimentar e a sua unidade com o mundo, é considerada como “passiva”, porque não está “fazendo” coisa alguma.
No entanto, esta atitude de meditação concentrada é a mais alta atividade que existe, uma atividade da alma; só possível sob condições de independência e liberdade interiores.
Um conceito moderno de atividade se refere ao uso de energia para consecução de metas externas, o outro conceito também moderno de atividade se refere ao uso dos poderes inerentes em nós, sem que importe a produção de qualquer mudança exterior. Note aqui os afetos ativos e passivos, “ações” e “disposições”. No exercício de um afeto ativo, somos livres, somos “senhores” do nosso afeto; no exercício de um afeto passivo, somos impelidos, e objetos de motivações de que nós próprios não temos consciência. Assim, virtude e poder são uma só e a mesma coisa. A inveja, o ciúme, a ambição, qualquer espécie de cobiça são paixões, criadas por nós quando usamos materiais das três Regiões inferiores do Mundo do Desejo. Já o amor Crístico é uma ação, a uma prática nossa, que pode ser exercida com liberdade e nunca como resultado de uma compulsão!
O amor Crístico é uma atividade, e não um afeto passivo; é um “erguimento” e não uma “queda”. De modo mais geral o caráter ativo do amor Crístico pode ser descrito afirmando-se que o amor Crístico, antes de tudo, consiste em “dar, e não em receber”.
Que é “dar”? Embora pareça simples a resposta a esta pergunta, ela, em verdade, é cheia de ambiguidades e complexidades. O equívoco mais vastamente espalhado é o que entende que dar é “abandonar” alguma coisa, ser privado de algo, sacrificar. A pessoa cujo caráter não se desenvolveu além da etapa da orientação receptiva, explorativa ou amealhadora, experimenta o ato de dar dessa maneira. O caráter mercantil deseja dar, mas, só em troca de receber; dar sem receber, para ele, é ser defraudado. Aqueles cuja principal orientação é não produtiva sentem que dar é um empobrecimento. A maioria dos indivíduos desse tipo, portanto, recusa dar.
Alguns fazem do ato de dar uma virtude, para eles, reside no próprio ato de aceitação do sacrifício. Para eles, a norma de que é melhor dar do que receber significa que é melhor sofrer privação do que experimentar alegria.
Para o caráter produtivo dar tem um sentido inteiramente diverso. Dar é a mais alta expressão da potência. No próprio ato de dar, nós pomos a prova nossa força, nossa riqueza, nosso poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência nos enche de regozijo. Provamo-nos com superabundante pródigo, cheio de vida e, portanto, como regozijante.
Não é difícil reconhecer a validez desse princípio aplicando-o a vários fenômenos específicos. Na esfera das coisas materiais, dar significa ser rico. “Não é rico quem muito tem, mas quem muito dá”. O avaro que ansiosamente receia perder alguma coisa é, psicologicamente falando, uma pessoa pobre, a empobrecida, não importa quanto possua.
Quem é capaz de dar de si, este sim é rico. Põe-se à prova como quem pode conceder de si aos outros. Só quem for privado de tudo quanto vá além das mais simples necessidades da existência será incapaz de gozar o ato de dar coisas materiais. Mas a experiência diária mostra que aquilo que alguém considera como necessidade mínima depende tanto de seu caráter quanto de suas posses efetivas. É bem sabido que os pobres são mais inclinados a dar do que os ricos. Não obstante a pobreza além de certo ponto pode tornar impossível dar, e assim é degradante, não só pelo sofrimento que causa diretamente, mas pelo fato deprivar o pobre da alegria de dar.
A mais importante esfera de dar, entretanto, não é das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa à outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá se sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas, que lhe dê aquilo que em si tem vivo: dê-lhe de seu regozijo, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza – de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si.
Dando assim de sua vida, enriquece a outra pessoa; valoriza na pessoa que recebe o sentimento da vitalidade ao valorizar o seu próprio sentimento de vitalidade.
Não dá a fim de receber; dar é, em si mesmo, requintada alegria. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado a vida se reflete de volta ao doador; ao dar verdadeiramente não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno.
Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo à vida. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas são gratas pela vida que para ambas nasceu.
Com relação especificamente ao amor Crístico, isso significa: o amor é uma força que produz amor. Só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança. Se queremos nos regozijar com a arte, devemos ser uma pessoa de sensibilidade e preparo artístico; se queremos ter influência sobre outras pessoas, deveremos ser uma pessoa que tenha sobre outras pessoas influência realmente estimuladora e promotora.
Cada uma de nossas relações com o semelhante e com a natureza deve ser uma expressão definida de nossa vida real, individual, correspondente ao objeto de nossa vontade. Se amamos sem atrair amor Crístico, isto é, se nosso amor Crístico é tal que não produz amor Crístico, se através de uma expressão de vida como pessoa amante não fazemos de nós mesmos uma pessoa amada, então nosso amor Crístico é impotente, é um infortúnio.
Mas não é só no amor Crístico que dar significa receber. O professor é ensinado por seus alunos; o ator é estimulado por sua audiência; o psicanalista é curado por seu cliente – contando que não se tratem uns aos outros como objetos, mas se relacionam uns com os outros produtiva e genuinamente.
Quase não é necessário acentuar o fato de que a capacidade de dar depende do desenvolvimento do caráter da pessoa. Pressupõe o alcançamento de uma orientação predominantemente produtiva; nessa orientação a pessoa superou a dependência, a onipotência narcisista, o desejo de explorar os outros, ou de amealhar, e adquiriu fé em seus próprios poderes humanos; coragem de confiar em suas forças para atingir seus alvos. No mesmo grau em que faltem essas qualidades é ela temerosa de se dar e, portanto, de amar como Cristo: o amor Crístico!
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – agosto/1967 – Fraternidade Rosacruz – SP)
No Caminho da Espiritualidade os Ensinamentos Rosacruzes são como um farol, uma luz que ilumina os nossos passos, dando-nos segurança, firmeza e coragem para enfrentar as tentações que nos impedem de se desenvolver espiritualmente fornecidas pelo Mundo material em que nascemos e vivemos aqui.
Porém ao iniciar esse caminho é fundamental que o Estudante Rosacruz atenda ao chamado bíblico: “transformar o ‘velho homem’ em um ‘novo homem’”. O que representa essa transformação? Deixar de lado todos os hábitos mesquinhos, egoístas, ambiciosos, corrigir todos os grandes e pequenos defeitos de nossa Personalidade e cultivar sentimentos de bondade, tolerância e uma permanente disposição de servir amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) o irmão e a irmã ao nosso lado, focando esse serviço na Divina Essência oculta em cada um de nós (que é a base da Fraternidade).
Enfim, aprender a cultivar a autoanálise e o domínio próprio, interrogando a própria consciência. Tudo nessa vida é transitório, e só um caráter íntegro, uma consciência tranquila e um coração cheio de amor são a verdadeira felicidade.
Sem essa transformação, sem este cultivo maravilhoso do amor Crístico, os mais profundos conhecimentos filosóficos perdem o valor essencial da objetividade.
O grande chamado que, pessoalmente, sentimos para trilhar o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz foi precisamente esse objetivo na simples e profunda pergunta de Max Heindel: “de que servirá uma filosofia que não nos torne melhores homens e mulheres?”.
É de valor básico que nos tornemos melhores seres humanos, para bem assimilar e difundir fundamentalmente pelo exemplo de nossas vidas, os valiosos Ensinamentos Rosacruzes.
Não se iludam os Estudantes Rosacruzes pensando que se aprofundando no estudo da Filosofia Rosacruz, sem que ao mesmo tempo reformem seus sentimentos, emoções, desejos e hábitos negativos, alcancem aquela firmeza, segurança e coragem de pessoa iluminada pela luz dos Ensinamentos Rosacruzes — esse farol de valor inestimável.
Sem isso, de pouco ou nada lhes servirão os melhores conhecimentos filosóficos, nas primeiras provas que a vida lhes traga. Ao contrário, com esse cultivo do bem e do amor Crístico alicerçados nos Ensinamentos Rosacruzes prova alguma os abaterá.
Cultivemos em nós a sinceridade, a humildade, a bondade e o desejo de que nossas vidas sejam vidas úteis no meio em que vivamos. Como bem colocar Max Heindel: “O único remédio para os males do mundo são o amor e a compaixão”.
Ajudemos a melhorar os “males do mundo” melhorando a nós próprios, aprendendo a amar e a dar graças a Deus pelo Caminho encontrado.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – outubro/1986 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Ninguém pode se sentir feliz vivendo somente para si. Quem assim encaminha sua existência mal pode prever os desditosos resultados de tão triste semeadura. Não nos espanta saber que a sociedade moderna é um imenso agrupamento de pessoas acometidas de diversas formas de neurose. A neurose é uma doença; é um mal provocado por uma vivência centrada no egoísmo. O neurótico, além de egoísta, tende a ser egocêntrico (eu+centro). Isto é, a se colocar no centro de todas as coisas, como se fosse a pessoa mais importante do mundo. Isso, obviamente, gera conflitos e lhe traz sérios aborrecimentos. O indivíduo acaba por se sentir isolado, solitário, incompreendido. Na verdade, ele se tornou incapaz de praticar o amor Crístico.
Os três grandes males ou pecados da nossa época: o egoísmo, a impaciência ante as restrições e o orgulho intelectual nada mais são que expressões neuróticas. A vida moderna, se a pessoa não orar e vigiar, tende a atirá-la na turbulenta correnteza da competição e do hedonismo. São muitas as ciladas e sutis suas aparências. Para quem se deixou envolver pelos condicionamentos sociais, ou se há muito se acomodou ao ritmo e embalo da nossa colorida civilização, tudo isso parece normal. A anomalia consiste em não agir conforme esses parâmetros.
Como proceder, então, diante desse quadro pouco edificante?
Os Ensinamentos Rosacruzes preconizam uma vivência equilibrada: “Viver no mundo, mas não ser do mundo.” (Jo 17:15-16), é uma boa filosofia de vida. O Estudante Rosacruz entende que não deve se isolar só porque as condições do meio onde vive são incompatíveis com seus princípios. Alienar-se é um erro grave. A reparação deverá ser feita no devido tempo. Fugir às responsabilidades é passar ao longo de experiências valiosíssimas. Evitar pessoas incapazes de falar a sua linguagem espiritual ou impotente para se libertar de uma mentalidade materialista não lhe trará benefício algum. Saber se relacionar sem perder sua identidade ou autenticidade é um indício de crescimento espiritual.
Ao Estudante Rosacruz cabe cultivar algumas habilidades. Deve ser flexível e tolerante para com os defeitos alheios, mas vigilante para consigo mesmo. Em suma, é bom aceitar as pessoas como elas são, sem, entretanto, se deixar abalar em suas convicções.
No convívio espiritual cabe-lhe fazer valer suas qualidades e competência isento, porém, de qualquer intenção de competir. Sem pretensões descabidas, trabalha honestamente, confiando na justiça de Deus (não na “justiça dos homens”) que fornece a cada um segundo seu merecimento. Se a ascensão profissional sobrevier como fruto de seus esforços, saberá entendê-la como um meio de fazer o bem e não um fim em si mesmo. Infelizmente as pessoas, em sua maioria, subverteram o sentido das coisas.
O Estudante Rosacruz se esforça por ser um exemplo no meio em que vive. Cuida, entretanto, de que isso não o torne vaidoso. À medida que avança no Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz as armadilhas se revestem de sutilezas; as falhas de caráter assumem ares de virtude, e o tombo acaba por se tornar perigosíssimo.
O Estudante Rosacruz está sempre atento em viver no Mundo material, mas cultiva seu mundo interior, tendo sempre presente que o “Reino de Deus está dentro de si mesmo.” (Lc 17:21) governa todos os seus passos. Por falar em passos, ele evita viver apressadamente, como aqueles que correm desesperadamente atrás de algo que nem sabem definir o que seja. Trabalha para viver e não para morrer. A serenidade nunca está com pressa, jamais é impaciente e com falta de tempo. Segundo Goethe, “a felicidade não é um prazer transitório, mas a longevidade de um poder secreto”.
Se o mundo adora a sofisticação, o Estudante Rosacruz ruma em sentido contrário: prefere a simplicidade. É mister redescobrir a simplicidade – simplicidade no viver, simplicidade nas atitudes com relação ao mundo e a outras pessoas. Os prazeres simples trazem mais duradouros benefícios. As simples qualidades Cristãs de amor e bondade, embora nem sempre apreciadas em nossa avançada sociedade tecnológica, são ainda as melhores fontes de felicidade.
Tudo isso é muito importante, mas a suprema meta do Estudante Rosacruz é a consagração de sua vida a servir a Humanidade. Os elevados e compassivos seres, que regem nossa evolução, dentre os quais se destacam os Irmãos Maiores, necessitam, em sua missão benfeitora de obreiros, de Auxiliares Visíveis conscientes aqui na Região Química do Mundo Físico. Quanto mais o Estudante Rosacruz se conscientiza do alcance dessa necessidade, mais disposto estará a servir. Compreende que é um privilégio participar desse plano de redenção, mormente dedicando seus esforços a Obra Rosacruz. Os Irmãos Maiores se regozijam quando o Aspirante à vida superior, superando as limitações do egoísmo, expressa o Amor Crístico, cultivando um sentimento impessoal e universal de solidariedade.
O Estudante Rosacruz, assim, terá dado o primeiro passo ao assumir a condição de Auxiliar Visível e, posteriormente, Auxiliar Invisível inconsciente. Com o decorrer do tempo as faculdades internas dele florescerão a níveis sequer imagináveis, ensejando-lhe se converter em um Auxiliar Invisível consciente. Terá, então, o passo além do véu.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de junho de 1981 – Fraternidade Rosacruz – SP)
A atual onda de violência e terrorismo que vem se propagando através do globo em proporções crescentes deve constituir tema de meditação para todas as pessoas de boa vontade, em particular, para o Estudante Rosacruz.
A paz tem sido uma aspiração maior entre os seres humanos. Foram criados instituições e mecanismos para preservá-la ou fazê-la reinar onde o conflito só espalhou miséria e desolação. Entretanto, as guerras entre classes ou grupos étnicos se sucedem a intervalos cada vez menores.
Necessária se torna a união de todos para fazer frente a essa avalanche de violência. Que fiquem de lado todas as diferenças e os ideais de paz se sobreponham a quaisquer outros interesses.
A questão a considerar é, pois: como conter a violência sem lançar mão da violência? Certamente uma atitude passiva diante da crise atual só contribuirá para agravamento da situação. Muitos movimentos respondem a esta pergunta afirmando que a violência externa é um reflexo do estado de conflito interno em que vive a maioria das pessoas. E vai além; para contê-la faz-se necessária uma transformação interior no ser humano, uma nova atitude de respeito e amor para com todos as seres vivos.
O único antídoto para a violência é a não violência. Somente a ação altruísta e desinteressada, ação fruto do amor por todos os seres será capaz de promover uma transformação para melhor. Temos vários exemplos na vida de vários seres humanos de como é possível lutar pelos ideais de amor, paz e harmonia sem precisar lançar mão da violência. Todos esses exemplos de vida pregavam a não violência, não como uma condição física, mas, uma atitude mental de amor, a ausência total de pensamentos desarmoniosos. A não violência, em sua forma ativa, é a boa vontade para com tudo que vive: é perfeito amor Crístico!
É muito cômodo criticar o terrorismo e a violência. Contudo, se ficamos apenas nessa atitude, pouco ou nada realizaremos em prol da paz. Cabe a cada um se questionar para saber até que ponto não é, também, responsável pelo atual estado de violência. De nada adianta nos declararmos pacifistas e continuarmos a educar nossos filhos dentro de um espírito competitivo, inculcando-lhes toda sorte de preconceitos ideológicos e religiosos. As nossas crianças têm sido educadas para vencer na vida a qualquer preço, sem considerar os direitos e as necessidades dos demais.
Sem falarmos dos maus hábitos de pais, responsáveis, homens e mulheres que alimentam desejos, emoções e sentimentos de violência ao praticarem ou torcerem em todas as espécies de lutas (seja lá o nome que as dê), justificando em vários casos como “terapia”, “descarregar o estresse”, “autodefesa”, “desenvolver a disciplina”, “manter a força de vontade”, “orientação médica” e tantos outros, onde podemos refutar a todos com uma única questão: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
E muitos, quando não partem para agir por meio daquele tipo, adoram ficar horas e horas em jogos eletrônicos que estimulam inúmeros tipos de violência. E aqui a justificativa é pior ainda: “mas não se mata ninguém”, “não se fere ninguém”, “desenvolve-se a rapidez de raciocínio” e outros afins. São irmãos e irmãs que ainda não entenderam que as emoções, os sentimentos, desejos e pensamentos-formas que eles alimentam são até piores do que os maus hábitos de luta corporal! Novamente: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
E o que dizer de irmãos e irmãs que acham que andarem armados (com arma de fogo ou as chamadas armas brancas) é para “ter mais segurança nesse mundo violento”. Novamente aqui tais irmãos e irmãs estão alimentando a violência cada vez mais. Novamente: onde Cristo, nos seus ensinamentos, sugeriu ou indicou isso?
Assim, nossa civilização, dos quais muitos se dizem Cristãos, tem sido um exemplo deplorável de conflitos, contrastando com os ensinamentos do meigo nazareno, Cristo Jesus.
Também, é lamentável serem investidos muitos milhões em trabalhos missionários visando a cristianizar os chamados povos pagãos, quando entre nós medra o anticristo nas mais variadas formas de sectarismo.
Se quisermos paz devemos rever nossas atitudes na vida cotidiana, buscando introduzir mais amor, tolerância e compreensão no nosso relacionamento, adotando a postura da não violência. Pode não parecer tarefa fácil. Pode parecer distante, uma impraticável utopia, mas não é inviável, desde que comecemos a agir, aqui e agora.
Afinal, não tem como ser um Estudante Rosacruz ativo, trilhando o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz, mantendo tais hábitos acima detalhados, onde a violência é o centro deles.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – outubro/1981 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Embora sejamos em realidade Espíritos, nossa atual condição humana de seres separados pela insensibilidade de corpos cristalizados pelas transgressões as Leis de Deus não nos permitem manter contato consciente e direto com nossa real natureza, enquanto estamos renascidos aqui. Sentimos uma profunda necessidade de superar essa separação e anular a angústia que ela nos provoca.
A solução é o amor, o verdadeiro amor – que nos une aos semelhantes, à Criação e a Deus – que é o amor Crístico!
As almas amadurecidas buscam o amor e não o encontram no exterior. É quando a Religião não se satisfaz mais com as fórmulas simples das Religiões que preconizam o Cristianismo Exotérico ou Popular.
Para dar mais amplo e racional entendimento do amor e da fé surgiu a Fraternidade Rosacruz. Ela preconiza o desenvolvimento paralelo da Mente e do Coração e mostra como isto é possível. O estudo da Filosofia Rosacruz nos previne contra os perigos do intelectualismo frio e pretencioso e nos revela, igualmente, as inconveniências do amor cego. Ela nos ensina o Cristianismo Esotérico.
Em realidade, o amor Crístico é algo que deve ser cultivado. Um estudo dos aspectos teóricos e práticos do amor Crístico iluminará, em muitos de nós, pontos obscuros e dúbios e ressaltará erros na maneira de pensar e agir, acerca desse fundamental problema.
O amor Crístico é uma arte. Porém, a maioria das pessoas tem a convicção de que é uma sensação agradável que se experimenta por acaso, algo em que se “cai” quando se tem sorte.
Vemos que todos o perseguem. Está sempre em voga. Mas quase ninguém pensa haver alguma coisa, a respeito do amor Crístico, que deva ser aprendida. Por que o povo pensa assim? Se atentarmos bem, há três premissas com que, consciente ou inconscientemente, isoladas ou combinadas buscam sustentar esse sofisma, origem de tantas desilusões.
A primeira premissa é esta: a maioria das pessoas pensa que o amor Crístico é mais uma questão de reunirmos recursos pessoais de atração, isto é, sermos requisitados, amáveis, admirados e não propriamente que devamos amar.
Na busca desse alvo, os seres humanos procuram o poder, a fama, a riqueza como meios de atração exterior e transitório. Muitos até advogam que “Deus nos criou para sermos ricos aqui”; portanto se somos ricos aqui sabemos amar, porque alcançamos o objetivo! Ambos os sexos cultivam maneiras agradáveis, conversações interessantes, prestativas, modéstia, inofensiva. Bem analisados, tais meios são os mesmos que hoje se empregam para “conquistar amigos e influenciar pessoas”. Isso que a maioria de nossa cultura considera ser amável é, essencialmente, uma mistura de ser popular e despertar atração física. Nada mais. Longe, bem longe, do amor Crístico.
A segunda premissa, por trás dessa atitude de que nada há a aprender a respeito do amor Crístico, é a ideia de que o amor Crístico é mais uma questão de termos sorte de achar uma pessoa que nos ame e pela qual sejamos amados. Não é, pois, uma faculdade que devamos desenvolver em nós. Tal atitude tem muitas razões enraizadas no desenvolvimento da sociedade moderna. Uma dessas razões é a grande mudança ocorrida com relação à escolha do “objeto do amor” (uma pessoa, uma família ou no máximo, um grupo escolhido). Muitos acham que o amor Crístico é o que se chama de amor romântico, que atualmente se confunde com atração sexual e que leva a paixão. Inclusive, nesse caso, nem se usa “Crístico” e, ainda bem”
Grande número de pessoas anda a procura desse dito “amor romântico”, da experiência pessoal de amor que acabe levando ao casamento ou a “viver juntos”. Mas esse novo conceito de liberdade no amor, na verdade, acentua a importância do “objeto do amor” em detrimento da importância da função, ou seja, da faculdade do verdadeiro amor que se deve cultivar, o amor Crístico. Os divórcios e separações aí estão a atestá-lo. Ainda neste parágrafo convém ressaltar outro aspecto da cultura contemporânea: a ideia de um contrato em que se faz uma troca mutuamente favorável. Cada um, em vez de amar, procura tirar um “lucro” na transação matrimonial, ou seja, uma boa soma de qualidades que sejam populares e muito procuradas no mercado da Personalidade. O que torna especificamente uma pessoa atraente depende da moda da época, quer física, quer mentalmente. Numa cultura em que prevalece a orientação mercantil, e em que o êxito material é o valor predominante, pouca razão há para surpresa no fato de seguirem as relações de amor humano os mesmos padrões de troca que governam os mercados de utilidades e de trabalho.
A terceira e última premissa que leva a ideia de nada haver para ser aprendido a respeito do amor Crístico, consiste na confusão entre a experiência inicial de cair “enamorado” ou “enamorada” e o permanecer no amor. Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos somos, subitamente derrubam os muros que as separam e se sentem próximas, se sentem uma só, esse momento de unidade é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida, para quem tem estado isolado, fechado em si, sem amor. Mas raramente é duradoura. As duas pessoas se tornam bem conhecidas, sua intimidade perde cada vez mais o caráter miraculoso e seu antagonismo, suas decepções, seu mútuo fastio acabam por matar tudo quanto restava da excitação inicial. Ou seja, longe do amor Crístico!
O amor Crístico é exatamente o amor que Cristo nos ensinou, na Sua primeira vinda aqui entre nós e nos deixou todo um ensinamento de como devemos praticá-lo. O amor Crístico é aquele que nos faz se converter a nós mesmos em um canal mais perfeito para a recepção e disseminação desse sentimento e junto com a harmonia em todas as variadíssimas experiências da vida, sejam alegres ou tristes, exaltadas ou deprimentes. É um sentimento que faz com que cada pensamento nosso irradia o amor Crístico; cada palavra que proferimos vibra com amor Crístico; cada ato que fazemos é embelezado pelo amor Crístico.
Nós alcançamos o ápice de prática desse amor quando a Personalidade se torna subordinada a nós, o Ego (o Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui); quando a nossa natureza inferior – relacionada completamente com a vida pessoal que é efêmera – é subjugada e substituída por esse amor Crístico, de natureza superior, como, inclusive evidenciou S. João em seu Evangelho.
Afinal, é pelo amor Crístico (por cada um e por todos) que se baseia o serviço do sacrifício. Pois, ao contrário do que algumas correntes populares de ensinamentos indicam, o caminho do verdadeiro desenvolvimento espiritual não consiste em atrair para si mesmo o máximo de bens materiais, mas na realização da verdade de que “o serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) ao próximo – focado na Divina Essência oculta de cada um (que é a base da Fraternidade) – é o caminho mais curto, mais seguro e o mais agradável que nos conduz a Deus”.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – março/1967 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Aquele que deseja servir como Auxiliar Invisível deve, durante o dia, cultivar uma atitude benevolente e, à noite, ao se deitar, depois de feito o Exercício Esotérico Rosacruz noturno de Retrospecção, rogar ao Adorável Espírito de Cristo, que enquanto o seu Corpo Denso repousar dormindo, lhe seja concedida a graça de cooperar na seara espiritual em benefício dos seus semelhantes.
Agora, para isso, é importantíssimo compreender os termos Rosacruzes: Alma e Corpo-Alma e como desenvolvê-los. Assim:
Vemos, pois, que a Alma se atrofia quando deixamos de alimentá-la, e que as ações bondosas, pensamentos de amor Crístico e serviço aos irmãos e às irmãs são o alimento para o crescimento dela. A ação tem três principais campos de operação, ainda que ela derivasse seu poder do que realmente somos, o Ego, por raios de energia. A ação no plano mental é o pensamento abstrato, a ação na natureza emocional é o sentimento, a emoção e o desejo, a ação na natureza física é movimento e a ação com o propósito de alcançar todas as relações da vida. O propósito de cada ato, seja mental, emocional ou físico, é induzido pelos pares de opostos como o amor e o ódio, altruísmo e egoísmo, generosidade e avareza, atividade e indolência etc., e seu fruto é incorporado na Alma, como consciência, que nos avisa em tempo de tentação ou nos provê do dinamismo para tudo quanta é Bom, Reto e Altruísta.
Há em todos nós duas naturezas inteligentes e distintas, chamadas o “Eu Superior” e o “eu inferior”, ou Individualidade e Personalidade, respectivamente. O “Eu Superior” ou Individualidade é o que realmente somos, um Ego que nos manifestamos de forma tríplice: um Tríplice Espírito – Espírito Divino, Espírito de Vida e Espírito Humano, alimentado pela Tríplice Alma – Alma Consciente, Alma Intelectual e Alma Emocional, respectivamente. Enquanto a Personalidade, ou “eu inferior” é o que achamos que somos realmente – mas não somos –, é composta dos três Corpos: Corpo Denso, Corpo Vital, Corpo de Desejos. O Elo entre a Individualidade e a Personalidade é o veículo Mente. Quando respondemos ao impulso do “Eu Superior”, renunciamos ao que nos é cômodo e útil a favor do que é proveitoso a muitos. Antepomos o Serviço de Deus a todos os valores materiais. Buscamos em todas as coisas e em tudo os valores eternos. Porém, respondemos ao impulso do “eu inferior”, a renúncia nos é desagradável, preferimos mais receber ao que dar, cuidar mais dos bens materiais e transitórios do que dos espirituais, e o resultado é um grande obstáculo ao nosso desenvolvimento espiritual.
Sim, é algo bastante deplorável se encontrar com algum irmão ou alguma irmã, fracassado ou fracassada – que perdeu todos os seus Átomos-sementes – em um estado de inércia durante inconcebíveis milhões de anos, até que, em um novo Esquema, Obra e Caminho de Evolução chegue ao estado de se unir ao ciclo evolutivo e prosseguir em sua tarefa.
Conforme aprendemos na Filosofia Rosacruz por meio do Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, unicamente três quintas partes do número total de Espíritos Virginais que começaram a evolução no Período de Saturno passarão o ponto crítico da próxima Revolução e continuarão até ao fim. Por fim, sempre nos lembremos: a finalidade da Fraternidade Rosacruz é nos mostrar o caminho da iluminação para nos ajudar a construirmos nosso Corpo-Alma e desenvolvermos as potências de nossa Alma que nos permitirão entrar conscientemente no Reino de Deus por meio do Conhecimento Direto. É uma longa tarefa, porém se continuarmos com fé e persistente perseverança alcançaremos o nosso Divino Objetivo.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – abril/1983 – Fraternidade Rosacruz– SP)