Em nosso formoso “Ritual do Serviço Devocional do Templo” repetimos essa alegação muito definida: “O serviço amoroso e desinteressado para com os outros é o caminho mais curto, mais seguro e mais agradável que conduz a Deus”.
Sim, ouvimos este ensinamento todas as vezes que oficiamos tal Ritual, frequentemente em nossos lares, gostando de pensar em nós como quem serve todos os dias.
Contudo, quantas vezes paramos para considerar o que também aprendemos nos Ensinamentos Rosacruzes: que não é somente o serviço que é necessitado? Estudamos em palavras que não deixam dúvidas: a qualidade especial do serviço que nos conduz adiante nesse Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz.
Consideremos os meios variáveis de serviço. Há o que poderíamos chamar de “serviço comercial” ou trabalho prestado com o propósito de colher uma vantagem correspondente. Tudo muito bem e valioso na sua maneira, mas, lamentavelmente, insuficiente na exigência espiritual.
Depois, há o serviço prestado não tanto para obter recompensa, porém, como um senso de dever ou necessidade, o cumprimento de uma obrigação àqueles que servíamos talvez. Ainda que isto seja muito estimável, não significando que diminui o mérito, contudo, ainda não preenche totalmente o requisito da exigência espiritual.
E, depois, aí há o mais elevado espécie de serviço, o “amoroso, desinteressado (portanto, o mais anônimo possível), ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade” exemplar, além do qual exige muita persistência, perseverança e disciplina para pode chegar a essa condição de desenvolvimento.
Repare, pois, o significado dos dois adjetivos. Primeiro, o mais elevado serviço, o “amoroso”. Na nossa ansiedade de servir, e talvez na nossa ansiedade de alcançar o nosso próprio desenvolvimento, tantas vezes passamos por cima do “amoroso” e, contudo, isso é a palavra-chave do nosso “Ritual do Serviço Devocional do Templo”.
Temos, às vezes, curiosidade, o que significa a palavra exatamente? A palavra “amor” é tão abusada que é difícil impedir que se torne confuso.
O conceito comum, como tendo algo que ver somente com o sexo, naturalmente não necessita consideração.
Outra opinião errada do amor, como algo impotente, débil e ingênuo se aproxima do inexato! Infelizmente está nesta conexão que tantas imagens tentando retratar o Mestre, Cristo Jesus, mostram-No como débil e ineficaz, ao passo que exatamente o contrário é o caso. Ele era forte e vigoroso (poderoso), sensível e benévolo, sim, mas estas últimas características são realmente sinônimas de poder e coragem. É por isso que quando designamos a palavra “amor” nos Ensinamentos Rosacruzes, fixamos no adjetivo que reforça o real significado dessa palavra: o amor Crístico!
O poeta Tennyson, no “In Memoriam”[1] demonstra isso claramente na seguinte parte:
Amor imortal
A quem nós, que não cheguemos a ver Sua Face
Pela fé e unicamente pela fé, concebemos.
Crendo aonde não podemos provar”.
Sim, o amor Crístico é o cume de poder benévolo. Se nos detemos a considerar, acharemos que mesmo nos mecanismos que dizemos brandura segue de mãos dadas com força. Pense na onda de poder num motor de alta potência, tão macio, tão silencioso, todavia, tão irresistível.
Nós, que desejamos nos expressar apropriadamente, esquecemos às vezes isto, dando assim, a impressão de afirmação própria, quando estamos meramente tentando expressar o poder do amor Crístico?
Talvez a palavra melhor que podemos usar é “compaixão”, nas ocasiões quando Cristo Jesus se dedicou para curar os doentes ou enfermos e os sofredores, quando Ele derramou o poder do Seu amor, Ele “tinha compaixão deles” (ou seja: Ele sentia a união entre o sentimento de empatia pela dor do outro e a vontade ativa de ajudar a diminuir esse sofrimento).
E depois esta outra palavra: abnegação. E aqui queremos dizer: a renúncia voluntária e completa dos nossos próprios interesses, desejos ou nossas vontades em favor de outra pessoa. É o oposto exato do egoísmo, pois representa uma forma profunda de altruísmo e desprendimento pessoal.
Não, não é fácil esquecer-se completamente de si mesmo (que é a prática da abnegação). Gostamo-nos de se sentir virtuosos, tirar pouco mérito pelo que fazemos.
Bem, podemos de bom grado entendê-lo, desde que nós somos ainda humanos. Mas, precisamos eventualmente elevar-nos acima mesmo disso até o ponto aonde o nosso serviço é prestado, sem pensarmos conscientemente em nós, sem mesmo o sentimento que estamos fazendo “algo bom”.
Quando vimos que tem algo que ser feito, fazemo-lo! É quase uma tragédia que o esquecimento próprio é confundível tão frequentemente com “desinteresse”. Desinteresse é bom, muito bom – mas tantas vezes participa do sentimento de sacrifício próprio ou glorificação de si mesmo – não é mesmo?
Nós todos já sofremos nas mãos de pessoas realmente boas que se tornaram tão agressivamente desinteressadas ou considerarmo-las tão “interessadamente desinteressadas”, boas pessoas que talvez ainda não se elevaram até o ponto onde possa esquecer-se de si mesmo nas suas boas ações.
Sejamos pacientes com elas; elas têm as melhores intenções e, não há dúvida, elas fazem um total considerável de benefícios. Todavia, se nós colocamos os nossos pés no “mais curto, mais seguro e mais agradável caminho que nos conduz a Deus” precisamos caminhar mais um pouco, mais alto e nos esforçar para se esquecer de nós mesmo totalmente no nosso servir.
Reconhecemos que a Oração, a oficiação dos Rituais dos Serviços Devocionais Rosacruzes e a prática dos Exercícios Esotéricos Rosacruzes são todos extremamente valiosos, mas também reconhecemos que por si mesmos não são suficientes sem o “serviço amoroso esquecendo-se de si próprio”. E nunca esquecemos que por ser o “amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível), ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade, o caminho mais curto e mais seguro que nos conduz a Deus, contudo, ao mesmo tempo seja lembrado a nosso encorajamento também, que é o caminho “mais agradável” que nos leva diretamente à Deus.
Oxalá aprendamos segui-lo mais amorosamente, mais desinteressadamente e, sobretudo, mais alegremente! Afinal, o “único fracasso é deixar de tentar”.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – maio/1982 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: In Memoriam A.H.H. é um longo poema escrito pelo poeta inglês Alfred Tennyson, terminado em 1849. Escrito ao longo de 17 anos, é considerado como um reflexo da sociedade vitoriana da época, discutindo muitos dos temas polêmicos da altura, que começavam então a ser questionados. Trata-se da obra em que Tennyson atinge o auge da musicalidade dos seus versos, e em que a sua experiência poética se completa, sendo considerada uma das grandes obras poéticas da Grã-Bretanha do século XIX.