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porFraternidade Rosacruz de Campinas

A Natureza e o Simbolismo da Alma — de acordo com Ideias Antigas

Era um ditado de Aristóteles[1] que, na infância, a alma do ser humano não difere em qualquer coisa da alma dos brutos; mas então ele admite que apenas um animal, o ser humano, pode refletir e deliberar; a última afirmação encontrou grande apoio entre os filósofos modernos.

Assim, agora somos informados de que o bruto é sensível, mas não autoconsciente, e poderes e faculdades são continuamente apontados no ser humano, os quais, afirma-se positivamente, não podem ser encontrados em alguém inferior a ele. As pessoas que fazem tais declarações já visitaram a câmara de pensamento dos animais inferiores, nós nos perguntamos e, se não, como podem falar do mistério da mente com tanta certeza?

Platão[2] usou esta classificação: alma das paixões e alma das faculdades cognitivas; cada uma tendo sua própria sede no Corpo e movimentos peculiares; até mesmo Aristóteles, seu oponente materialista, tem suas almas vegetais, almas sensíveis e almas racionais. Em toda a fisiologia e psicologia gregas estava o pressuposto de que tudo o que se movia sozinho tinha vida ou alma.

A matéria foi admitida como essencialmente inativa e, portanto, tornou-se necessário supor um agente vital no qual (ou através do qual) a atividade se manifestasse; o mesmo era válido no caso da função física, da senciência e do intelecto, sendo essa a suposição sobre a qual repousava também os três tipos de alma de Platão e as três almas de Aristóteles, pois inclusive a teoria deste parece estar, e talvez literalmente, quase no mesmo nível.

Galeno[3] limitou o termo alma ao agente das funções sencientes e inteligentes, fazendo da Natureza um simples operador físico; contudo, Aristóteles reinou sobre as escolas e sua doutrina das almas vegetais, almas sencientes e almas racionais, modificada de várias maneiras, pode ser localizada em muitas teorias fisiológicas e médicas até mesmo em nossos tempos. Era substancialmente um com o Archaeus[4], o princípio governante da filosofia de Paracelso[5], e o princípio animador, organizador de Harvey[6]. Ainda mais tarde, Müller[7] transformou a concepção em uma força orgânica que existe até mesmo no germe e cria nele a parte essencial do futuro animal, enquanto Haeckel[8] e outros que tentam se afastar inteiramente do princípio das almas são ainda forçados a reconhecer, com ele, um princípio vital que subjaz a todas as manifestações físicas.

A alma cristã e imortal foi representada tanto pelo pavão quanto pela pomba e, mais frequentemente, pela última. Podemos ver os Discípulos de Cristo representados como pombas na cruz absidal em S. Clemente[9]. As almas Cristãs das pombas são encontradas em tabuletas murais tanto em fontes batismais quanto sarcófagos. Com menos frequência, elas aparecem como pavões e raramente em sarcófagos; no entanto, mesmo em tempos pré-cristãos, elas eram assim representadas nas paredes de câmaras sepulcrais e cenas do Paraíso de Osíris[10], em alguns sarcófagos. No museu do Vaticano estão duas pombas em uma cruz, rodeadas pelo monograma de Cristo em uma coroa de flores. Esse objeto pode ser visto com frequência.

No único tabernáculo de marfim preservado na sacristia da Catedral de Sens, vemos uma pinha tomando o lugar da cruz ou do diagrama de Cristo e, de cada lado dela, um pavão, representando não apenas as almas dos Cristãos, mas as dos mártires, pois cada pavão tem um pequeno ramo de palmeira preso no pescoço.

O símbolo egípcio convencional para a alma era, como todo arqueólogo sabe, um gavião com cabeça humana. Nos últimos tempos e entre os romanos, as almas dos que partiram para o Paraíso de Osíris eram representadas como pombas e pavões.

Em uma pintura afresco que existiu em Pompéia, uma cópia da qual foi gravada em Nápoles em 1833, almas simbolizadas como pombas e pavões são representadas empoleiradas em árvores sagradas — a palmeira e o pessegueiro, no Paraíso de Osíris e Isis. Nesse afresco estava também representada a garça, símbolo, segundo o Visconde de Ronge, da primeira transformação da alma neste misterioso Paraíso.

Havia, então, para esse propósito, certo significado idêntico e ligado ao símbolo do pavão e da pomba. A pomba de Vênus foi crucificada em uma roda de quatro raios ou cruz solar[11]; a pomba, também chamada de Inyx[12], apresenta relação com esses símbolos e ocorre na história de Semiramis, sendo descrita como tendo fugido e transformando-se em pomba, quando foi conquistada por Esturobates[13], que havia ameaçado pregá-la na cruz, que é identificada com a roda de quatro raios na crucificação eterna de Ixion, ou a roda da execução descrita por Píndaro.

A pomba crucificada em uma cruz-de-roda ou cruz solar; basicamente, uma cruz dentro de uma circunferência é curiosa como um antigo símbolo pré-cristão, mas nos símbolos Cristãos duas pombas na cruz são frequentemente vistas. No entanto, é mais do que provável que haja outro significado para o símbolo da pomba e não apenas o de representar a alma.

O batismo de Jesus no Jordão foi um batismo da Água e do Espírito, porque, quando Jesus saiu da água, o Cristo Universal desceu sobre ele como uma pomba, mas não em forma de pomba e, a partir de então, foi animado por um Espírito diferente, imbuído de sabedoria cósmica.

Da mesma forma, quando o Espírito Santo desceu sobre os Discípulos na Celebração Pentecostal, eles também foram dotados de poderes espirituais não anteriormente possuídos por eles e apenas aqueles que têm tais faculdades evoluídas podem realmente entrar na classificação que lhes dá o direito ao símbolo da pomba, tal como foi depois dado aos Discípulos de Cristo.

Portanto, é razoável supor que esse símbolo só tenha sido oferecido a Iniciados cujos poderes espirituais foram desenvolvidos para serem usados a serviço da Humanidade.

Porém, se pudermos aplicar o Mito de Argus[14] como um índice para o significado do símbolo do pavão, isso nos mostrará a alma desperta que usa seus poderes para um propósito mais básico. Argus, de acordo com a mitologia, tinha cem olhos, era dotado de um poder de observação maravilhoso e penetrante; Clarividência, na verdade. Mas ao invés de usar este poder da alma para o benéfico serviço à Humanidade, ele prostituiu sua visão espiritual para aprisionar um semelhante e, por isso, Mercúrio, o deus da sabedoria, decapitou-o e colocou seus olhos nas plumas do pavão. Em outras palavras, o uso indevido de seus poderes espirituais para um propósito vil fez com que ele fosse privado deles e se tornasse uma criatura indefesa, arrogante e vaidosa como um pavão, algo lamentável, apesar de toda sua linda plumagem.

Conhecimento é bom, se for do tipo certo e usado corretamente para propósitos altruístas e úteis; contudo, é extremamente perigoso “ser sábio como uma serpente” (Mt 10:16), se não for “simples como uma pomba” (Mt 10:16).

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de janeiro de 1918 e traduzido pela Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)


[1] N.R.: (384–322 a.C.) foi um filósofo e polímata da Grécia Antiga. Seus escritos abrangem as ciências naturais, a filosofia, a linguística, a economia, a política, a psicologia e as artes. Fundou a escola peripatética no Liceu de Atenas, dando início à tradição do aristotelismo, que esteve na origem de parte do desenvolvimento posterior das ciências.

[2] N.R.: nasceu em 428 ou 427 a.C. em Atenas e morreu em 348 ou 347 a.C. Foi um filósofo da Grécia Clássica, contemporâneo da democracia ateniense e dos sofistas, cujas posições frequentemente criticou. Retomou o pensamento de predecessores, sobretudo de Sócrates, de quem foi aluno, mas também de Parmênides, Heráclito e Pitágoras, para elaborar sua própria filosofia. Seu pensamento percorre campos como a metafísica, a ética, a estética e a política. Fundou uma Academia em Atenas, onde Aristóteles foi aluno e depois professor durante cerca de vinte anos. Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental e, também, tem sido frequentemente citado como um dos fundadores da religião ocidental, da ciência e da espiritualidade.

[3] N.R.: Cláudio Galeno ou Élio Galeno (129 – c. 216), mais conhecido como Galeno ou Galeno de Pérgamo, foi um médico, cirurgião e filósofo greco-romano. Sua atividade de investigação médica na Antiguidade abrangeu anatomia, fisiologia, patologia, farmacologia e neurologia, além de filosofia e lógica.

[4] N.R.: Na alquimia e no esoterismo, representa uma força vital, um espírito imaterial e animador que rege os fenômenos da vida, o crescimento e a transmutação da matéria em energia espiritual.

[5] N.R.: Paracelso, pseudônimo de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493 – 1541) foi um médico suíço, alquimista, teólogo leigo e filósofo da Renascença alemã. Ele foi um pioneiro em vários aspectos da “revolução médica” do Renascimento, enfatizando o valor da observação em combinação com a sabedoria recebida. Ele é considerado o “pai da toxicologia”. Paracelso também teve um impacto substancial como profeta ou adivinho, seus “prognósticos” sendo estudados por Rosacruzes em 1600. Paracelso autenticou o primeiro movimento médico moderno inspirado no estudo de suas obras.

[6] N.R.: William Harvey (1578 —1657) foi um médico britânico que, pela primeira vez, descreveu corretamente os detalhes do sistema circulatório do sangue ao ser bombeado, por todo o corpo, pelo coração.

[7] N.R.: Johannes Peter Müller (1801 — 1858) foi um fisiologista alemão, anatomista comparativo, ictiologista e herpetologista, conhecido não apenas por suas descobertas, mas também por sua capacidade de sintetizar conhecimento. O ducto paramesonéfrico (ducto de Müller) foi nomeado em sua homenagem.

[8] N.R.: Ernst Heinrich Philipp August Haeckel (1834 –1919) foi um biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista alemão.

[9] N.R.: A cruz absidal na Basílica de São Clemente, em Roma, é o elemento central do célebre mosaico do século XII (cerca de 1120) intitulado “O Triunfo da Cruz”. Localizado na basílica superior, este mosaico é considerado uma das maiores obras-primas da arte medieval romana e destaca-se pela sua profunda e densa carga teológica e simbólica. As Doze Pombas Brancas: Pousadas sobre os braços da cruz, doze pombas brancas representam os doze apóstolos, que encontram a sua força na ressurreição e espalham a paz e o Espírito Santo pelo mundo.

[10] N.R.: O Paraíso de Osíris, conhecido na mitologia egípcia como Aaru (os “Campos de Juncos”), é o reino celestial governado pelo deus Osíris onde as almas justas vivem em paz eterna . A expressão “Paraíso de Osíris” e a figura do pavão cruzam-se no estudo da transição da iconografia religiosa da Antiguidade para o Cristianismo Primitivo. Historicamente, o pavão era visto como um símbolo de imortalidade e ressurreição.

[11] N.R.: A cruz solar (um círculo dividido por quatro raios formando uma cruz) é um dos símbolos espirituais mais antigos da humanidade, remontando à Idade do Bronze.

[12] N.R.: Na mitologia grega, Iynx era uma ninfa (filha de Eco ou de Peito com Pã) que tentou enfeitiçar Zeus com poções de amor. Como punição, a deusa Hera a transformou em um pássaro peculiar, o torcicolo (Iynx torquilla). Afrodite (Vênus) posteriormente tomou esse pássaro e o amarrou a uma roda de quatro raios que girava continuamente, criando o primeiro feitiço ou amuleto de amor da história (frequentemente usado por Jasão para conquistar Medeia). Na literatura esotérica e rosacruz posterior, a Iynx passou a ser poetizada ou sincretizada como a própria “pomba de Vênus”.

[13] N.R.: Na história mítica da rainha Semíramis (uma versão lendária baseada na rainha assíria Sammu-ramat), o nome Esturobates (grafado originalmente na tradição clássica grega como Stabrobates ou Staurobates) refere-se ao rei da Índia que se tornou o seu maior rival militar. O confronto entre os dois marca o clímax e o declínio do império lendário de Semíramis,

[14] N.R.: Refere-se a um gigante da mitologia grega conhecido por ter o corpo coberto por cem olhos.

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