Uma história oculta que nos mostra como ocorrem as relações provocadas pelo destino entre pessoas. Como as discórdias da vida realmente se resolveram na harmonia do grande contraponto da vida. Suas tristezas e angústias profundas vão sendo glorificadas, pois o amor – o amor verdadeiro, o amor superior e maior, o amor Crístico – glorifica todas as coisas.
Quer saber mais sobre o assunto? Leia aqui: Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas – Uma História Oculta-C.II-Conexões do Destino
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Aqui temos uma história oculta sobre o relacionamento entre pessoas provocado justamente pelo destino e que as fazem aprenderem lições conjuntas que enriquecem a vida aqui e ajudam a evoluir espiritualmente nessa vida.
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Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta
Por um Estudante
Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
Avenida Francisco Glicério, 1326 – conj. 82
Centro – 13012-100 – Campinas – SP – Brasil
Traduzido, Compilado e Revisado de acordo com:
Links of Destiny
1ª Edição em Inglês, 1916 a 1917, in The Rays from The Rose Cross – The Rosicrucian Fellowship
pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz – Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
contato@fraternidaderosacruz.com
fraternidade@fraternidaderosacruz.com
CAPÍTULO I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS
Os tons amarelados de um pôr do sol dourado iluminavam o céu do oeste e banhavam, em um esplendor momentâneo, a modesta rua da vila. As pequenas e humildes moradias resplandeciam na glória da transformação, enquanto o suave brilho âmbar repousava sobre elas. Ao passar, lançou um raio trêmulo de luz sobre as janelas da velha escola de tijolos vermelhos, na estrada principal — e então desapareceu lentamente sobre as colinas cobertas de faias e bordos que coroavam o horizonte.
O desgastado estrado de madeira captou o último lampejo de esplendor, e Ralph Remington, sentado à sua mesa, ergueu os olhos cansados para encontrar o brilho dourado. Um halo de luz repousava sobre sua cabeça, trazendo certa paz ao seu espírito solitário. Ao ouvir a música crepuscular da natureza, em seu fim pianíssimo [muito suave], ele quase se esqueceu dos fardos que carregava e que, poucos momentos antes, pareciam tão pesados.
O bálsamo aromático dos pinheiros entrava pelas janelas abertas, misturando-se suavemente ao perfume da rosa silvestre e da roseira-brava. Com o murmúrio do riacho límpido, que corria sobre as pedras brancas e lisas, vinham aromas deliciosos do vale dos fetos, onde a Natureza revelava alguns de seus segredos maravilhosos a quem quisesse ouvir.
O mestre-escola inspirou longas e profundas respirações do ar perfumado e sentiu-se momentaneamente revigorado. Então voltou-se novamente para os papéis sobre sua mesa e concentrou a consciência nos problemas de seus alunos. Continuou trabalhando, indiferente ao que o cercava, enquanto o longo dia de verão chegava ao fim. As aves deixaram de esvoaçar e o laborioso zumbido das abelhas se dissolveu num indistinto e sonolento murmúrio.
As inúmeras formas de vida trêmula da floresta cessaram instintivamente sua agitação inquieta. A paz pairava sobre a paisagem: o dia chegara ao fim. Formas estranhas e fantásticas surgiam gradualmente do crepúsculo que se adensava, acumulando-se nos cantos e entre os rudes bancos de madeira.
Mesmo assim, Ralph Remington permanecia sentado à sua mesa, de cabeça baixa, aparentemente alheio à escuridão que se adensava. Em retrospecção, revivia os anos passados — exteriormente sereno, discreto, convencional, mas, por dentro, movendo-se entre tempestades e conflitos até o desfecho. Suas provações começavam a assumir forma concreta e uma crise parecia aproximar-se.
De repente, a sombra de uma figura apareceu na porta e uma voz metálica enviou vibrações discordantes através da quietude da noite.
— Ainda aqui, é? Fui até a Villa para te ver! Sonhando, Ralph? Bem, sonhos não levam ninguém a lugar algum! Uh — este é um lugar fantasmagórico!
Repentinamente despertado do seu devaneio, Ralph Remington levantou-se e aproximou-se do intruso com a mão estendida: “Boa noite, Horace!”.
Por um momento, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Então, Horace Rathburn perguntou, com um tom que irritava os ouvidos do homem de coração gentil à sua frente: “Então, você já considerou a minha proposta?”.
— Isso teria sido um gasto desnecessário de força mental, Horace! Minha resposta para você naquela noite foi definitiva.
— Posso então inferir que você não usará sequer a influência que possui para garantir o objetivo proposto? É um pedido pequeno — e mesmo assim traria resultados altamente benéficos para todas as partes!
— Isso não é algo para nós decidirmos. Os principais envolvidos no caso são os únicos que têm interesse.
— Uma posição tola para assumir, Ralph Remington! Você influencia sua filha em tudo e a natureza dela é uma réplica da sua: você é seu modelo, em resumo; mas quando chega o momento mais importante da vida dela, também da sua, você se afasta e a deixa à deriva, entregue a um simples capricho, um devaneio! É melhor você reconsiderar o assunto!
— O tempo em que os pais decidiam os destinos dos filhos já passou. Marozia possui, de maneira incomum, as finas e aguçadas intuições femininas. O julgamento dela será a voz decisiva neste assunto, assim como em outras questões que a envolvem!
Havia uma firmeza silenciosa na voz de Ralph Remington que Horace Rathburn compreendia bem. No entanto, a persistência era sua característica mais marcante.
— Marque bem isto, Ralph! Não estou com disposição para continuar sendo enganado! A felicidade do meu filho está em jogo e agora será guerra até a morte, a menos que você ceda! Ralph Remington permaneceu em silêncio.
O estalar da brita sob seus pés, enquanto caminhavam entre pinheiros e cicutas, o canto dos grilos e o coaxar dos sapos no pântano distante eram os únicos sons que quebravam a quietude da noite. Horace Rathburn não suportava o silêncio. Era um homem de ação, e algo precisava ser dito ou feito a cada momento de vigília, não importando a natureza do que fosse dito ou feito. Sonhos, como ele chamava os silêncios da alma — eram totalmente supérfluos.
— Você ouviu, Ralph? Guerra até a morte! A menos que você ceda.
— Você já me viu ceder quando um princípio estava em jogo?
Horace Rathburn lembrou-se imediatamente de várias ocasiões no passado em que a vontade inflexível de Ralph Remington, empregada em favor do que era certo, havia frustrado seus planos perversos — e a lembrança não era nada agradável. Ele se contraiu e se remexeu levemente sob o olhar direto e penetrante que lhe era lançado na penumbra. Então, mudou seu método de ataque.
— Um belo subterfúgio esse: mandar sua filha para a escola em Utica, tendo uma escola preparatória aqui em Unadilla, da qual o meu ilustre colega, Ralph Remington, é o… ah… hm… diretor!
— Poupe seu sarcasmo, Horace Rathburn! A ocasião não justifica seu esforço.
— Mais uma vez, então, você recusa o meu pedido? Tem coragem de recusá-lo, sabendo o que isso significa para sua filha em termos de um futuro brilhante?
— Eu me recuso a interferir, de qualquer forma, nos direitos e prerrogativas da minha filha. Além disso, não quero que ela seja incomodada, sequer minimamente, por quaisquer sugestões ao retornar para casa. Esse é um assunto sagrado demais para ser invadido de forma tão impiedosa, especialmente depois do tom mercenário que você acabou de adotar.
— Então, entendo que você está dizendo que permitirá que ela faça o que quiser, mesmo que isso leve à miséria?
— Sua linguagem é exagerada, Horace. Pessoas de inteligência e instrução raramente se tornam miseráveis! Elas podem ganhar o próprio sustento.
— Então modifique, se quiser. O que pensará, quando ver a bela Marozia Remington trabalhando para ganhar o próprio sustento?
Uma súbita e bela luz irradiou do expressivo rosto de Ralph Remington, enquanto ele erguia a mão no gesto solene e forense que o caracterizava quando sua alma estava na arena, lutando pelo certo contra forças visíveis ou invisíveis.
— Isso não seria o pior dos males! Mil vezes melhor que ela fosse até mesmo uma miserável do que uma noiva infeliz. Nenhum jugo é tão opressor quanto o jugo matrimonial, quando une duas pessoas que vivem em planos diferentes. Seu filho é materialista, minha filha é idealista. Seria apenas mais um caso de união malformada e é sempre o idealista quem sofre. Claude não perceberia a disparidade, mas isso destruiria Marozia. Somente a verdadeira união de almas pode trazer felicidade a um casamento assim.
— Humm! Um sentimento um tanto esfarrapado e gasto, parece-me! Muito mais adequado à era da cavalaria do que a esta! Eu lhe digo, Ralph — seu tom mudou rapidamente para o de um promotor quase solícito, cuja simpatia se expande de forma diretamente proporcional ao desinteresse crescente da vítima em potencial — você e eu já estamos na ladeira descendente da colina e para nós isso não importa tanto, mas eu posso ver as marcas de dedo na parede!
— Deixe-me dizer algo como um velho amigo. O dinheiro será o poder dominante. Em menos de uma década, você verá que ele será o deus supremo. Inteligência não terá mérito; na verdade, será um obstáculo! Cultura, educação, linhagem: tudo estará em desvalorização. O amor será confirmado como aquilo que todas as pessoas sensatas já consideram, mera loucura ou tolice sentimental, adequada apenas para jovens imaturos e garotas tolas. Marozia é sensata demais para desperdiçar todas as suas chances de progresso em troca de um sentimento tolo como o que você expressou. Eu conheço algo do seu calibre mental e ambição de se destacar por meio de esforços intelectuais. Você sabe que isso não pode ser feito sem dinheiro… ou o seu equivalente, a influência!
— Horace, eu me recuso a continuar discutindo sobre esse nobre sentimento e não vejo razão para prolongar esta conversa.
— Bem, pode ser que haja uma ou duas razões do meu lado!
Tirou de um bolso interno um embrulho. O caminho de cascalho sob as cicutas fundia-se, naquele ponto, à rua da aldeia e, na penumbra, Ralph Remington viu o brilho malévolo nos olhos que estavam fixos nele. Um sapo preencheu a pausa com seu coaxar gutural. Ralph estremeceu ao erguer o olhar para a beleza serena dos céus. A voz metálica soou áspera em seus ouvidos sensíveis. As palavras seguintes ecoaram com a precisão cortante de quem está seguro de sua posição.
— Com base nos dados que tenho, sei que o estado de suas finanças está longe de ser satisfatório, para dizer o mínimo. Eu lhe ofereci a oportunidade de recuperar sua fortuna arruinada e colocar sua filha em uma posição condizente com seu caráter e conquistas. Você desprezou minhas propostas. Está vendo estas notas? Estão vencidas!
À luz que se projetava do correio da aldeia, Horace Rathburn pôde ver o efeito desse último golpe. Sua vítima pareceu atordoada por um momento. Ele não imaginara que as coisas tivessem chegado a tal crise.
— O que significa isso, Horace?
— Ah, eu as comprei, simplesmente.
— Isso é um jogo de extorsão… ou o quê?
— Dê o nome que você quiser. Tenho certeza da minha posição legal nesse assunto. Além disso, não me importo sequer um pouco. Agora você vai aceitar minhas condições!
Seu modo havia se tornado, de repente, intolerável. Havia nele uma insolência fria e arrogante que representava um insulto imensurável para o homem de grande alma que caminhava ao seu lado. Um apito estridente lhes feriu os ouvidos, quando o trem da noite contornou uma curva das colinas.
— Vou dar um tempo razoável para você pensar, mas você sabe qual é a alternativa. Boa noite.
CAPÍTULO II – Conexões do Destino
A velha carruagem, que levara Marozia Remington da sua casa até Utica, fora agora substituída pela ferrovia. A aldeia primitiva, colocada assim em comunicação direta com a cidade de Nova York, recebera da grande metrópole certas importações não totalmente condizentes com seu caráter rural. Seu antigo encanto residia em sua simplicidade rústica. Habitantes cansados da cidade fugiam para lá durante os quentes meses de verão a fim de descansar e recuperar as forças entre as colinas azuladas. Desde que a ferrovia estendera seus ramais da linha principal para todos os ricos assentamentos agrícolas e povoados vizinhos, chalés e vilas começaram a brotar às margens dos lagos límpidos de águas azuis. Ricos nova-iorquinos haviam previsto as vantagens desse local como estância de veraneio. Ainda estava em sua fase embrionária. Até então, era pouco mais do que um sonho na Mente de Horace Rathburn e de um ou dois outros empreendedores e capitalistas. Esses homens olhavam para o futuro e viam possibilidades nesse lugar.
Nessa fase de transição, a aldeia começava a crescer desajeitada, como uma camponesa que se enfeita com bugigangas e joias de vidro e finge sofisticação. Havia perdido o antigo encanto e ainda não adquirira o mais refinado, o da verdadeira cultura. Para Marozia, que estava repleta do entusiasmo infantil de uma viajante que retorna, a vulgaridade meio oculta ainda não se tornara aparente. Ela prendeu a respiração com um arrepio de deleite quando o trem, que a levava de volta para casa, contornou uma curva e visões cintilantes de azul e verde desfilaram diante dos seus olhos. Ora margeava um lago azul, ora atravessava uma muralha de rocha — então, outra abertura na cadeia de bosques ondulantes revelava sua aldeia natal, em sua pitoresca simplicidade, aos pés das colinas. No crepúsculo que se adensava, ela pôde distinguir ao longe a Farmington Villa, erguida no cume de uma das colinas de Beachwood, e estremeceu de emoção diante daquela visão. Enfim, ela estava em casa — e ali estava seu pai, na estação, à sua espera. Com a ansiedade de uma criança ela se lançou para encontrá-lo, mas recuou de súbito quando viu o seu rosto.
— Oh, por que eu o deixei, pai? — ela exclamou com algo na voz que parecia um soluço contido. — Por que eu o deixei?
Ele sorriu ternamente ao pousar a mão sobre os cabelos dela com seu antigo toque carinhoso.
— Isso não lhe fez mal, querida? — disse ele, em tom de pergunta e afirmação, enquanto seus olhos gentis repousavam sobre o rosto dela.
— Não, mas você… você, pai! Você sofreu e eu posso ver isso. Emagreceu muito também! Oh, pai, por que eu fui embora?
— Por que você não deveria ter ido? — ele perguntou com um sorriso terno, meio curioso.
— Porque você precisava de mim aqui.
— De fato, querida, não sou um tirano ridículo o suficiente para mantê-la em casa, afastada da escola, apenas para atender às minhas necessidades imaginárias.
Ela percebeu que ele tremia, como de fraqueza, quando ela segurou seu braço. Ela procurou a carruagem e o velho cavalo da família. Ele leu em seu olhar a pergunta silenciosa e disse em tom mais baixo.
— Vendi o cavalo e a carruagem no mês passado. Você se sente capaz de caminhar, minha filha?
Ele virou o rosto para que ela não percebesse a emoção estampada ali.
— Você sabe que costumávamos caminhar muitas vezes, você e eu, minha menina, e será como nos velhos tempos outra vez. Mas tem certeza de que não está cansada demais? — acrescentou ele, com profunda solicitude na voz.
— Só estou cansada de ficar sentada. Estou ansiosa para caminhar!
Mesmo assim, ela se perguntava por que motivo ele vendeu o velho cavalo da família.
Uma multidão curiosa os observava enquanto se afastavam e passavam pela agência dos correios da vila. “Agência dos correios” era o nome que ostentava, mas como muitos exemplares da espécie humana, exibia uma aparência que não conseguia sustentar. Uma vez lá dentro, suas limitações eram dolorosamente aparentes. Ocupava apenas um pequeno canto de uma loja, que ostentava uma placa que dizia “Mercearia e Miudezas Yankee” em grandes letras pretas na frente outrora imaculada. Agora, cinza com as tempestades de muitos anos.
A multidão heterogênea de desocupados naquela hora utilizava barris de melaço e açúcar, além de caixas de sabão, como assentos, enquanto se sentava para entalhar pedaços de madeira e se entregava às costumeiras fofocas da aldeia. Diferia apenas, em relação àquelas espalhadas durante os chás dos círculos de costura das mulheres, nos adjetivos e nas exclamações.
O respeito pela nossa frequentemente mutilada língua inglesa e pelas leis do esteticismo impedem um relato literal da discussão que surgiu naquela noite sobre o retorno de Marozia Remington de Utica. O consenso geral parecia ser de que a educação para as mulheres fosse inteiramente supérflua e, nesse caso, pouco menos do que criminosa, considerando a arruinada situação financeira dos Remingtons. Rube Slater parecia ser o presidente do conclave de desocupados e seu discurso de abertura à assembleia começou da seguinte forma.
— Bem, eu acho que a Marozia Remington carrega a cabeça um tiquinho alto demais, considerando as coisas!
Enquanto falava, dois filetes amarronzados escorriam pelos cantos de sua boca grande, seguiam caminho tortuoso pelo queixo enrugado e, por fim, perdiam-se entre a barba rala e avermelhada que o adornava.
Zeke Ketchum tinha de fonte bastante confiável que “ela” havia retornado justamente nesse momento para entrar em competição com as irmãs Watson e outras moças do condado a fim de conquistar o prêmio matrimonial da temporada — Claude Rathburn, filho do promotor e capitalista.
Havia uma ligeira diferença na formulação entre os membros do “conselho da aldeia”, mas todos concordavam em um ponto, a saber: que os Remingtons eram excessivamente aristocráticos e precisavam ser rebaixados alguns “graus”.
Marozia e seu pai, completamente inconsciente aos comentários que despertavam, subiram pela longa rua da aldeia e desapareceram de vista. A antiga “casa de reuniões” erguia-se diante de seu semicírculo de abrigos para carroças, rígida, cinzenta e sóbria — em marcado contraste com a pequena igreja gótica do outro lado do caminho.
Mais adiante, passaram pela antiga escola vermelha, aninhada entre os abetos e pinheiros, depois pelo moinho semiarruinado com sua enorme roda d’água que se erguia negra e espectral na luz que se desvanecia. Seguiram pela “estrada da colina”. Marozia notou que tudo lhe parecesse ainda mais primitivo do que antes, depois do seu ano de vida na cidade — e, no entanto, amava mais. O amor tem o dom de idealizar todos os defeitos.
Houve um tempo em que ela sentia apenas um desprezo intolerável por seu ambiente na aldeia. Agora, idealizava sua simplicidade arcadiana. Sentia-se feliz ao caminhar de braço dado com o pai pela estrada pedregosa. O mesmo e velho sapo que havia tomado posse do seu tronco no pântano anunciou sua presença. Sua voz era patriarcal e ele praticamente bramia. Marozia soltou uma risadinha divertida e lançou um olhar furtivo ao pai. A expressão em seu rosto a surpreendeu. Suas próximas palavras foram ditas em tom menor.
— Essas criaturas não têm a menor noção de que seus esforços de expressão soam como uma nota dissonante na música do Universo. Eu me pergunto se a nossa música afeta do mesmo jeito as Inteligências superiores de outros mundos! Os sapos têm seus noturnos e nós, nossas sinfonias; lá em cima, nos mundos tonais, toda a nossa música pode parecer rudimentar! Nossa própria vida, com todas as suas elevadas aspirações, pode ser uma dissonância na harmonia universal.
O sapo respondeu em seu baixo profundo e ambos sorriram.
— Que angustiante! — ele disse, e ela instintivamente soube que seu pai estivesse sofrendo.
Sua simpatia intuitiva nunca precisou de detalhes verbais.
Ela tentou, em meio a uma brincadeira meiga e bem-humorada, dissipar a melancolia, mas depois insistiria em sua determinação de conhecer a causa.
Sua Mente analítica jamais descansava e obedecia ao indício do sexto sentido adivinhatório para compreender a causa subjacente dos eventos.
Agora, era necessário mudar o curso dos pensamentos dele com o seu brilho mágico.
— Não foi meu pai quem falou. Ele teria falado da seguinte forma: se nossos sentidos fossem suficientemente aguçados, poderíamos perceber a harmonia subjacente até mesmo no coaxar de um sapo!
Sua alma emergiu de repente das trevas. O sorriso terno dela e o leve tremor em sua voz revelaram sua simpatia abrangente. As palavras eram apenas uma brincadeira. Um sorriso sereno, luminoso como a luz, pairava sobre as marcas do cansaço.
— Ah, perdoe o meu pequeno deslize filosófico, Marozia, minha filha! Na verdade, nossa vida é grandiosa e bela, mesmo com seu canto fúnebre de dor. Todos os tons são necessários, até mesmo aquilo que chamamos de dissonâncias, para compor a música das esferas. É apenas uma questão de ajuste, combinação. Mesmo assim, a nossa Terra, com sua multiplicidade de tons, toca apenas um acorde na poderosa harmonia do Universo.
— Falou como meu querido pai! — exclamou a jovem com terna paixão. — Ele podia ver o brilho delicado de seu sorriso na penumbra, que lutava por atravessar a densa folhagem.
— Não existe lado sombrio quando vemos de forma abrangente, com clareza suficiente; ainda assim… — Ele se interrompeu de repente e a velha sombra voltou a se insinuar em seu rosto. — É o agora e o aqui que mais nos afeta, apesar de toda a nossa bela filosofia. Por uma pequena nota falsa, ou um gesto em falso, todo o ritmo se desfaz: ao menos nesta vida. É preciso haver unidade de objetivo e propósito, harmonia: uma união verdadeira!
Uma alma menos intuitiva que a de Marozia teria questionado, ou em silêncio se espantado com a transição abrupta. Ela compreendia o hábito de seu pai de devanear em tom rítmico. Sabia que sua Mente tivesse mudado rapidamente de opinião e estivesse contemplando outra fase do seu problema. Sabia que ele tivesse problemas a resolver e que, com sua ampla e abrangente simpatia, pudesse compreender muitas coisas que não lhe haviam ocorrido de fato pela via da experiência. Seus devaneios continuaram…
— Podemos teorizar sobre a beleza abstrata, mas são as simples experiências humanas do dia a dia que determinam a ventura ou a desventura. A felicidade ou a miséria doméstica talvez não dependam tanto de condições ideais, mas sim do enlace. Viver em planos diferentes, ter interesses muito distantes é uma tortura inconcebível para aquele que aspira mais alto — e se torna ainda mais intolerável com o passar dos anos! — Ainda assim, ela permaneceu em silêncio.
— Marozia! — Sua voz estava tão vibrante de profunda tristeza que ela se voltou e olhou para ele.
Não podia distinguir-lhe os traços, pois a luz que se filtrava pela mata já era demasiado tênue para revelar mais do que contornos indistintos. — Marozia!
— Sim, querido pai. — Um arrepio percorreu o seu coração.
Ele hesitou. Através da multiplicidade de emoções conflitantes e do esforço multidimensional que o consumia, não conseguia trazer à tona para ela o tema que desejava abordar. Só pôde vacilar fracamente, percebendo, ao pronunciá-las, a fútil inadequação das palavras.
— Espero que, quando chegar o momento, minha filha escolha o verdadeiro companheiro.
— Mas por que preciso escolher, pai? Só preciso de você!
Seu olhar era tão claro e direto quanto o de uma criança.
Ele leu seu coração e soube que ainda estivesse intacto.
Chegaram à Villa e a Sra. Remington estava na varanda para cumprimentar Marozia. Sua cordialidade era tão forçada que se aproximava da efusividade artificial. O semblante do Sr. Remington se carregou de nuvens e ele entendeu o rosto fascinante e sombrio que sorriu por cima do ombro da esposa; Claude Rathburn avançou com graça despreocupada para cumprimentar Marozia.
Muitos Estudantes Rosacruzes, após um pequeno estudo de Astrologia Rosacruz, têm a impressão de que tudo está predestinado. Passam a acreditar que a vida, com seus muitos eventos e experiências, é planejada do berço ao túmulo, e que somos levados irresistivelmente por ela, seja uma vida “boa ou ruim”. Essa é uma ideia equivocada. É verdade que a maioria de nós tem uma certa dose de Destino Maduro do qual não podemos escapar, mas não podemos dizer que toda a nossa vida esteja predeterminada. Os principais acontecimentos, conforme nos chegam do Mundo Físico, são planejados antes de nascermos, mas isso é feito por nós mesmos, auxiliados pelos grandes Senhores do Destino. Há muitas lacunas que preenchemos à medida que avançamos.
A maneira como encaramos essas experiências, as assimilamos e construímos suas lições em nós mesmos em forma de caráter não está predeterminada. Não está predestinado, por exemplo, que um ser humano acabe na sarjeta como resultado de uma prova para superar sua tendência a tomar bebidas alcoólicas. Certamente, ele nasceu com essa tendência de uma vida passada porque não a superou naquela vida; no entanto, isso não o condenou a terminar seus dias no caminho descendente. Ele poderia ter acabado no caminho ascendente, se tivesse usado a força de vontade dele e lutado para superar a fraqueza. Dependia dele o fracasso ou a conquista.
Certos traços e certas características acompanhados por diversas experiências são definitivamente mostrados no horóscopo: contudo, o resultado final é determinado pelo “eu” interior – o que realmente somos – e não pode ser conhecido exatamente de antemão. Podemos julgar se o progresso de uma vida será desenvolvido ao longo de linhas espirituais ou materiais, observando qual destes se move mais rápido: o Meio do Céu ou o Ascendente. Se o Meio do Céu se mover mais rápido, o progresso da pessoa será realizado por meio de esforços espirituais; se o Ascendente se mover mais rápido, o trabalho da vida tenderá a ser realizado por meio de esforços materiais. Um progresso quase igual dos dois significa um desenvolvimento equilibrado. A vida física de um indivíduo pode terminar na prisão ou na pobreza e, ainda assim, essa pessoa pode ganhar uma riqueza de experiência que lhe beneficiaria espiritualmente e desenvolveria muito crescimento de caráter. O mundo exterior diria: “Que pena, terminar seus dias na prisão”. Entretanto, o Estudante Rosacruz, sabendo que uma vida é apenas um curto espaço de tempo no intervalo de muitas vidas, consideraria aquela em particular como uma experiência passageira a ser vivida — mais uma no Caminho de Evolução.
As Triplicidades dos Signos do Zodíaco mostram que tipo de destino está reservado para o indivíduo, ou que destino ele reservou para si mesmo ao longo de muitas vidas. A palavra destino aqui é usada de maneira muito geral, abrangendo não apenas as experiências de vida, mas também o caráter. As experiências a serem enfrentadas, que são indicadas por Astros em Signos Cardinais — Áries, Câncer, Libra e Capricórnio — são Dívidas do Destino que concordamos em pagar nesta vida. O Ego, antes de nascer, vê o Panorama de Vida que será a sua vida futura com seus vários principais eventos. No caso dos Signos Cardinais, o Ego concordou, voluntariamente, em aceitar as experiências que são delineadas. Mesmo que pense que elas trazem infelicidade e dor, ele sabe que ajudou a selecioná-las no Terceiro Céu, onde tudo estava claro – devido a sua consciência estar expandida, de modo que ele sabia exatamente qual é o objetivo de renascer aqui – e ele não estava cego pela matéria. Portanto, ele aceita voluntariamente esse destino.
As experiências a serem enfrentadas e que são provenientes de Signos Fixos — Touro, Leão, Aquário e Escorpião — são, como o próprio nome indica, fixas. Isso significa que sejam algo que não pode ser contornado pelo esforço do indivíduo. As aflições vindas de Signos Fixos devem ser e serão enfrentadas em algum momento durante cada vida particular. Características de Signos Fixos são aquelas que foram expressas durante um período de vidas e se tornaram muito fortes. Naturalmente, qualquer característica prejudicial proveniente de um Signo Fixo é muito mais difícil de superar do que uma proveniente de um Signo Cardinal ou Comum. Por exemplo, Netuno rege as drogas: portanto, um viciado em drogas com um Netuno sob tensão no Signo Fixo de Touro certamente vai considerar o hábito mais difícil de superar do que um viciado com Netuno no Signo Cardinal de Áries ou no Signo Comum de Gêmeos. Com o conhecimento do renascimento para nos guiar, podemos facilmente ver que o indivíduo Netuno-Touro evidentemente se entregou ao vício das drogas por um período de várias vidas e será muito difícil abandonar o hábito. Naturalmente, muitas coisas podem se enquadrar nessa categoria, como bebida alcoólica, mau humor, dissipação de todos os tipos, comer demais etc. Aflições de Signos Fixos indicam tendências prejudiciais que são muito fortes; mas os Aspectos benéficos dos Signos Fixos dão a estabilidade necessária ao caráter para revelar suas melhores qualidades.
Sob os Signos Comuns — Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes — qualquer qualidade negativa indicada pode ser facilmente superada, em geral. Qualquer característica de Signo Comum está realmente em formação, seja ela boa ou ruim. No entanto, se falharmos em corrigir um hábito ruim de um Signo Comum em uma vida, na próxima vida ele pode se vincular a um Signo Cardinal e se tornar um pouco mais difícil de corrigir. Contudo, se continuarmos sem fazer esforço para mudar, depois de várias vidas ele passará para um Signo Fixo, e a mais difícil de todas as batalhas começará.
Das Triplicidades, os Aspectos dos Signos Comuns são os mais fáceis de se lidar. Depende de nós, se colheremos ou não toda a aflição desses Signos. Nos Signos Comuns, temos alguma margem para mitigar muito do destino indicado, se vencermos o mal dentro de nós. É claro que, se seguirmos o caminho mais fácil e sem resistência, certamente colheremos um destino infeliz. Esse é o principal problema com as pessoas que possuem Signos Comuns fortalecidos no seu horóscopo. Elas tendem a ser mutáveis e podem não ter a determinação ou o desejo de tentar conter as tendências ou características negativas que vêm de Signos Fixos e Cardinais.
Deve-se perceber que um horóscopo não é inquebrável: geralmente é flexível. Não importa quantas Dívidas de Destino um horóscopo indique, quão alto seus obstáculos pareçam assomar, pois sempre há pontos positivos em algum lugar. Ninguém é enviado a este mundo de mãos e pés atados, figurativamente falando. Nos horóscopos mais afligidos há sempre algum Aspecto ou combinação que seja útil à pessoa. É aí que entra o dever do Astrólogo Rosacruz: apontar tal (is) característica (s) positiva (s), mostrando ao nativo como ele pode se basear nela (s) ou até mesmo usá-la para dominar suas aflições. O Astrólogo Rosacruz deve estudar cuidadosamente o horóscopo, analisando e ponderando cada fator em relação aos demais. Um indivíduo pode superar todas as aflições ou infortúnios que a experiência terrena contém, mas deve ser um Espírito forte — aquele que esteja disposto a morrer lutando.
Alguns de nós, seja por fraqueza de caráter ou por hábito, aprendemos lentamente as nossas lições. Pagamos uma penalidade por um erro ou transgressão e, deliberadamente, o cometemos de novo. Cada vez que caímos ou cedemos a essas coisas, recebemos uma lição mais difícil; a tarefa se torna maior. Se pudermos reconhecer nossos pontos fracos e as nossas tendências adversas e trabalhar para corrigi-los, será muito mais fácil para nós do que esperar o futuro começar. Entre o agora e o futuro, nossas falhas podem se tornar tão fixas que será necessário muito mais esforço para superá-las. A energia que teríamos de usar para corrigir essas falhas no futuro, nós podemos usar agora para construir um caráter novo e melhor.
A natureza humana é fraca. O ditado “o Espírito está pronto, mas a carne é fraca”[1] é muito verdadeiro. Vamos tentar esquecer “a carne” e nos concentrar no Espírito, para que ele se eleve e domine todo o resto.
Não culpe os Astros pela infelicidade ou pelo infortúnio que chegam até você, ou pelo “mal” que pode estar dentro de você. É fácil dizer: “Bem, eu tenho o Sol em Quadratura com Marte; é por isso que tenho um temperamento horrível”. Esqueça seus Astros, olhe para dentro de si mesmo e perceba que a fraqueza é algo dentro de você — algo a ser dominado. Pense nos Astros, não como portadores de boa ou má fortuna, mas como os Corpos Celestes de grandes Seres espirituais que o estão, voluntariamente, ajudando você em sua evolução. Pense neles com a reverência que lhes é devida. Então, à luz desse conhecimento mais amplo, você será grato pelo destino que seu horóscopo prenuncia. Saiba que toda experiência, provação ou infortúnio o esteja ajudando a fortalecer seu caráter. Medite nas palavras do grande filósofo Confúcio, que disse: “A gema não pode ser polida sem fricção, nem o ser humano aperfeiçoado sem provações”.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de janeiro/1984 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)
[1] N.T.: Mt 26:41
Apesar de ter sido considerada como ciência maldita, na antiguidade, com o decorrer dos séculos, a Astrologia acabou tomando seu lugar no tempo e no espaço, não se podendo mesmo negar o grande interesse que vem despertando, atualmente, no mundo inteiro. Embora, para a maioria das pessoas, esse interesse se apoie mais no conhecimento antecipado dos fatos futuros calcados, na maioria das vezes, nesses horóscopos de almanaque, a compreensão da finalidade real e grandiosa desta maravilhosa ciência dos Astros, já começa a manifestar-se entre pessoas de mentalidade mais aberta.
Para o Estudante Rosacruz, por exemplo, a Astrologia Rosacruz é basicamente uma ciência espiritual, uma ciência divina, que, além de revelar o ser humano a si mesmo, vem estabelecer sua relação com Deus. O Estudante Rosacruz sabe que debaixo da ordem de Deus nada acontece arbitrariamente, que cada criatura tem o destino que merece, que nasceu no ambiente exato em que deveria nascer, entre familiares com quem deverá realmente conviver, e que enfrentará aqueles acontecimentos que lhe cabem por herança de seu próprio mérito, quer sejam afortunados, quer sejam adversos.
Só mesmo a Astrologia Rosacruz pode explicar a razão das aparentes disparidades entre pessoas que nascem com um destino privilegiado, daquelas que parecem ter vindo ao mundo só para sofrer. Se existe mesmo uma lei da natureza que esteja além de qualquer dúvida, essa será, seguramente, a Lei de Causa e Efeito. Ela nos esclarece que tudo o que nos acontece são causas que nós próprios devemos ter produzido numa existência anterior, causas essas que foram as responsáveis por nosso nascimento ter ocorrido ou não, sob uma “boa estrela”.
A Astrologia Rosacruz nos conscientiza de que o propósito da vida não é conquistar a felicidade, mas adquirir experiência e formar caráter. Daí aquela expressão ocultista de que “caráter é destino”. E de onde se depreende, também, que destino é resultado do merecimento de cada um, sendo, o merecimento, por sua vez, a decorrência de um bom caráter.
Assim sendo, está claro que se quisermos melhorar as nossas condições futuras para uma vida mais sadia e equilibrada, nessa mesma vida ou nas próximas, nosso primeiro passo deverá ser o aprimoramento de nosso caráter. Podemos dizer então que, por indução, convicção na Astrologia Rosacruz requer a crença numa existência prévia, bem assim como em vidas futuras, mostrando-nos que, ao mesmo tempo em que colhemos, através do nosso horóscopo, os frutos de uma vida passada, vamos produzindo, por nossos atos atuais, as bases para um novo horóscopo, que irão, por sua vez, manifestar-se numa nova vida.
A utilidade da Astrologia Rosacruz está, realmente, no fato de nos indicar, através das posições astrais (Sol, Lua e Planetas) de nosso tema natal, os pontos vulneráveis do nosso caráter e, também, aqueles em que podemos nos apoiar para a regeneração de nossos negativismos. Isso para que, regenerados no bem, possamos elevar-nos acima de nossos sofrimentos, compreendendo também que, quando as coisas não podem ser de maneira diferente do que gostaríamos que fossem, quando não se pode tirar do caminho um pesadelo, sempre haverá um jeito de apreendermos a conviver até com a própria dor, se soubermos sobrepujar-nos a ela, por meio de uma atitude paciente abnegada. Estaremos, assim, atingindo uma nova concepção de vida, um maior equilíbrio, baseados em valores mais novos e reais, podendo também chegar à nossa própria realização espiritual que nada mais será do que o esforço consciente no sentido do certo, do bem e da verdade. Qualquer gesto, então, de real utilidade para o contexto, especialmente em favor de outrem, sem esperarmos retribuição, estará nos aproximando de nosso destino espiritual, purificando nossas vidas e, conseguintemente, dando uma força viva às configurações positivas de nossos horóscopos, em detrimento dos negativismos.
Ficará então, bem claro para nós, porque “os Astros predispõem, mas não impõem” ou porque “os Astros impelem, mas não compelem”. Saberemos, também, que na medida crescente em que a pessoa avança na evolução, menos ensejará ser dominado por seus Astros, que é marca de alma evoluída, o fato de permanecer equilibrada ante as vibrações astrais de seus temas natais, que “mesmo o barco da vida nos arrojando, muitas vezes, contra o rochedo da dor e do sofrimento” será sempre na intenção de ensinar-nos a desenvolver dentro de nós mesmos, a força da vontade, capaz de libertar-nos do domínio dos nossos Astros regentes, conduzindo-nos ao porto seguro de nosso próprio autodomínio, como já disse Goethe, o grande místico: “De todos os poderes que encadeiam o mundo, a pessoa se liberta quando adquire o domínio de si mesmo”.
Verdade que esse autodomínio não se consegue apenas num piscar de olhos. O crescimento anímico dele resultante, é, sem dúvida, um processo interno, lento, exigindo paciente persistência no bem, na ação reta. Um ou dois atos, mesmo, de serviço, de abnegação, de autossacrifício terão relativamente pouco efeito se o Ego – que é o que realmente somos – continuar dedicando a maior parte de sua vida ao serviço dos próprios interesses egoístas.
É mister nos conscientizarmos de que até o modo como agimos em nossas atividades diárias tem mais importância para a alma do que se procedermos de forma correta apenas uma ou outra vez, em tempo de maiores dificuldades. A nossa atitude sincera e desprendida enquanto fazemos nossos trabalhos de rotina, o modo como dirigimos nosso lar e nos relacionamos com nossos familiares e com nossos amigos é tão ou mais importante do que o motivo que poderá levar-nos a um ou outro gesto abnegado, feito só por obrigação.
O crescimento anímico não se consegue da noite para o dia. É uma constante no bem-proceder. Mesmo que não conheçamos a Astrologia Rosacruz e a importância que possa ter em nossas vidas, se cada um de nós criar hábitos corretos no sentido permanente do bem e da bondade, estará, mesmo sem saber, regenerando seus Astros e aproximando-se cada vez mais de sua herança divina.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de dezembro de 1977-Fraternidade Rosacruz-SP)
“É o destino” — frase do fraco coração humano; desculpa sombria para cada erro. O forte e o virtuoso não admitem destino. Na terra, orienta a consciência; no céu, Deus observa. E o destino é apenas o fantasma que invocamos para silenciar um ou para destronar o outro.
— Bulwer-Lytton
Os Astros, quando colocados em uma Casa, ativam fortemente o departamento da vida indicado por essa Casa. Os assuntos denotados por aquela Casa e Astro aparecem como importantes na vida da pessoa.
O Sol, na décima segunda Casa, é limitado e não tão proeminente como seria em outras Casas. Aspectos benéficos proporcionam o amor ao isolamento, a disposição e até mesmo o desejo de trabalhar sozinho ou ser excluído do contato com as outras pessoas e o mundo. Essa reclusão é observada na vida das pessoas que trabalham em hospitais ou laboratórios. Na vida carcerária não só os reclusos sentem isso, mas também os oficiais e os guardas; também todos os que trabalham em uma instituição desse tipo. Pessoas que investem longas horas em pesquisa e invenção, trabalhando sozinhas e noite adentro, estão sob a influência da décima segunda Casa. No entanto, geralmente não se reconhece que seja uma posição favorável para as qualidades positivas, ativas e expansivas do Sol. Quando o Sol, na décima segunda Casa, encontra Aspectos adversos, ele proporciona grande tristeza e sofrimento para o nativo, nesse departamento da vida.
Vênus nunca pode atingir sua expressão plena na décima segunda Casa, podendo aí indicar uma repressão da natureza afetiva. Pessoas com o Planeta do amor nessa posição devem aprender a expressar o lado mais amável de Vênus. Casos de amores secretos são denotados ou, talvez, o sacrifício do amor pessoal por meio da devoção a um ideal ou serviço a outra pessoa. Os Aspectos adversos são indicativos de tristeza e sofrimento por meio de apegos emocionais.
Mercúrio na décima segunda Casa é outra indicação de quem adora estudar sozinho e por muitas horas. Com Aspectos benéficos é propício para mergulhar nos segredos da natureza ou pesquisar. Existe um amor pelo misterioso, pelo oculto. Com Aspectos adversos, o nativo é alvo de fofocas e conversas que tendem a minar seu bom nome. Muitos pequenos aborrecimentos podem perturbar a paz de espírito. Os Aspectos benéficos a Mercúrio levam ao desvendamento de mistérios ou tornam provável que a informação procurada chegue ou seja alcançada.
A Lua governa a personalidade, a parte externa da nossa natureza. Quando na décima segunda Casa, sua tendência enclausura a personalidade e as emoções. Às mulheres, sendo governadas pela Lua feminina, pode causar tristeza secreta ou trazer alguns problemas desse tipo. Há uma volta da consciência para dentro que ajuda a trazer uma compreensão das questões mais profundas da vida e o que elas significam para o indivíduo, pessoalmente. Mulheres com a Lua aqui acharão o Signo que ela ocupa e seus Aspectos extremamente importantes em sua vida pessoal.
Saturno na décima segunda Casa é, geralmente, a assinatura da tristeza. Se prevalecem os Aspectos adversos, Saturno, dentre todos os Astros, denota verdadeiramente as dívidas do destino. Ele representa grande cristalização construída durante vidas passadas. A autoridade foi mal utilizada ou outras pessoas foram limitadas de alguma maneira pelo nativo. No passado, pensamentos e ações errados eram condescendidos, exercendo seu efeito sobre o corpo no momento atual. Na saúde, Saturno tende à cristalização e à deterioração, muitas vezes levando a pessoa a ser hospitalizada. É uma indicação da liquidação, nessa vida, de muitas dívidas pesadas do destino, trazidas de vidas passadas. Sob o domínio severo de Saturno, aprendemos a “abençoar a vara que nos fere”. Somos o diamante no torno do lapidário divino e, embora gritemos de dor na moagem e no polimento, quando o processo termina, refletimos Deus em cada faceta brilhante.
Júpiter na décima segunda Casa está em uma posição excelente para esse que é o Planeta da benevolência e expansão. Com Aspectos benéficos, ele indica que o nativo expressou os raios de Júpiter ao máximo no passado e agora eles vêm para abençoar. Boas obras trazem uma colheita abundante. Com a décima segunda Casa como pano de fundo, Júpiter é o Anjo da Guarda, pronto para proteger silenciosamente todos os que estão sob seu governo. Os benefícios vêm por meio de canais secretos, a caridade é feita de maneira silenciosa. Excelente posição para trabalhos hospitalares e institucionais onde se exprime a alegria, o otimismo de Júpiter. Também é favorável para o trabalho religioso de natureza isolada e permite a adesão a sociedades ocultistas. Quando com Aspectos adversos, sua palavra-chave é indulgência, o que resulta em problemas de saúde.
A palavra-chave de Marte é ação, mas sua capacidade também é limitada quando na décima segunda Casa. Por causa do seu amor pela ação e liberdade, ele não está em Casa, aqui. Os resultados de suas ações não são facilmente vistos e apreciados pelo mundo. Haverá certa liberdade de ação em relação ao destino passado, se seus Aspectos adversos não forem muito. No entanto, é preciso ter cuidado com a precipitação e impulsividade marciana para não gerar novas dívidas do destino que terão de ser saldadas no futuro. Tendência a ocorrerem acidentes que geralmente exigem hospitalização e pode haver ação dissimulada e secreta contra o nativo. Quando com Aspectos adversos, Marte colhe rapidamente o que a pessoa semeou e o pagamento das dívidas pode ser doloroso para o corpo e o Espírito. Como Escorpião, seu verdadeiro trabalho é regenerar, elevar.
Urano na décima segunda Casa indica que as causas de uma natureza intemperante e frequentemente excêntrica foram geradas e seus efeitos devem ser experimentados. Às vezes, há uma verdadeira avalanche de destino na vida, precipitada pelo raio de Urano, que é semelhante a um relâmpago. Os sonhos e planos acalentados em segredo perdem o valor sob seu raio destruidor. A liberação das dívidas do destino é repentina e muitas vezes pega o nativo desprevenido. Seu raio de humanitarismo é muito poderoso sob Aspectos benéficos e muitos serviços aos outros podem ser prestados de maneira silenciosa e despretensiosa. A conexão com as ordens ocultas é indicada e o benefício pode ser esperado, caso os Aspectos benéficos prevaleçam.
Netuno, na décima segunda Casa, está repleto de mistérios. É o governante lógico do décimo segundo Signo do Zodíaco natural dessa Casa, Peixes. Netuno é como uma ressaca do oceano — forte, implacável, invisível. Com Aspectos adversos pode envolver a pessoa em um labirinto de dissimulação e intriga. Se no passado o indivíduo era enganador, agora é sua vez de ser enganado. As correntes e contracorrentes desse Planeta são difíceis de entender. Netuno é sutil e pode criar tanto caos e confusão em torno de uma pessoa que ela fica totalmente perplexa.
Netuno é um dos Astros misteriosos e suas maiores influências promovem um grande avanço espiritual. Posto na décima segunda Casa, pode trazer ajuda e orientação das forças divinas — seja no pagamento de dívidas pessoais do destino ou ajudando outros a liquidar as suas. Essa é uma bela posição para trabalhar como Auxiliar Invisível nos planos internos, onde o serviço de natureza espiritual é prestado. Mesmo os Aspectos adversos podem ser degraus no esforço espiritual, pois qualquer Aspecto dos Astros misteriosos indica que estamos nos elevando e que estamos trabalhando o nosso lado espiritual. Enquanto Netuno rege a ilusão, ele também rege a iluminação, pois quando as escamas da ilusão caem de nossos olhos, então vemos verdadeiramente. Assim, a clara luz da verdade nos ilumina.
A influência de Plutão é poderosa tanto para o bem quanto para o mal. Através da sua influência, o nativo pode estar conectado com as forças mais sombrias do submundo ou do Mundo do Desejo. Sua ação é drástica, não há meio-termo. Dívidas extremamente pesadas do destino são manifestadas sob seu governo. Ação criminal pode ser tomada contra o indivíduo que tem Plutão sob tensão na décima segunda Casa. Como oitava superior de Marte, ele é considerado o grande destruidor, uma vez que, após certo grau de cristalização, Plutão entra em cena e destrói aquela forma particular ou molde de coisas. Então, o renascimento e a transformação podem ocorrer em um nível superior. Plutão também governa grupos que se unem por um propósito definido: criminosos, sob sua influência negativa, e movimentos religiosos ou ocultistas, sob a influência positiva. De todos os Astros, Plutão detém a faixa mais ampla. Ele pode manifestar as forças mais sombrias e perversas do universo. Mas, também pode emitir enormes potências de natureza exaltada para a realização do bem.
Não precisamos temer nosso destino, por mais difícil que pareça. Seja o que for, devemos reivindicá-lo e abençoá-lo para nós. Cada dívida paga hoje, nessa vida, torna nosso débito menor. E quando passamos pelos episódios mais dolorosos da vida, certamente ganhamos alguma medida de sabedoria. Esse é o benefício da dor e da tristeza — elas nos ensinam a viver em harmonia com as Leis de Deus e a avançar no caminho da evolução.
O salmista diz: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos”. Sim, e os céus, junto a seus Corpos Celestes de luz brilhantes, mostram o caminho divino de cada Ego, revelando as armadilhas e obstáculos nesse caminho, se pudermos ler a mensagem mística. Então, devemos aprender a viver de acordo com o bem maior que está indicado em nosso horóscopo.
Shakespeare escreveu verdadeiramente:
“Às vezes, os homens são donos de seus destinos.
A culpa, querido Brutus, não está em nossas estrelas,
Mas em nós mesmos, que somos subordinados”.
(Publicado na revista Rays from the Rose Cross de novembro-dezembro/1995 e traduzido pela Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)
Pergunta: Será errado interferir no karma ou devemos sustentar a nossa divindade e nos elevar acima das circunstâncias pela afirmação da nossa natureza divina?
Resposta: Uma pergunta semelhante foi formulada ao Sr. Heindel, em uma de suas recentes conferências em Los Angeles. Ele respondeu da forma abaixo.
“Embora todas as grandes religiões tenham sido dadas por Deus, há uma religião ocidental para os povos do ocidente da mesma forma que o hinduísmo existe para o povo da Índia e não vejo razão válida que nos faça copiar a terminologia deles e forçar as pessoas daqui a aprender o sânscrito, quando temos nossa própria e excelente linguagem com termos apropriados para ser usados em tudo aquilo que desejarmos transmitir. Para deixar a questão mais clara, vamos nos referir a um caso ocorrido alguns anos atrás. Havia então uma controvérsia em determinada sociedade, que cometeu o erro de promover os ensinamentos orientais usando seus próprios termos, mas aqui, no ocidente. A discussão surgiu a respeito da palavra ‘AVYAKTAM’.
“Nem os próprios hindus têm certeza a respeito do significado da sua terminologia. Toneladas de papel e barris de tinta foram consumidos para chegarem a um acordo e parecem ter resolvido a disputa, adotando a seguinte definição: Avyaktam é Parabramah revestido de Mulaprakiti, do qual são feitos seus UPAHHIS durante a Manvantara e no qual são novamente transformados, quando da chegada do Arolaya”.
O Sr. Heindel disse em seguida que esperava que a plateia tivesse entendido o significado de Avyaktam. Quando a plateia começou a rir e movimentou suas cabeças, o orador expressou seu pesar pela falta de compreensão de uma explicação tão elevada e resolveu tentar a variação comum do inglês para ver se essa explicaria. “Avyaktam é a Deidade revestida da Substância Essencial Cósmica da qual são feitos os seus veículos durante o Dia da Manifestação e que se transformam novamente, quando da chegada da Noite Cósmica”.
Quando os ouvintes declararam ter entendido a explicação, o Sr. Heindel disse que o mesmo era válido no que se referia à palavra karma. Todos na América e grande parte das pessoas no mundo sabem o que é “dívida de destino”, sem a necessidade de qualquer explicação, e há várias outras palavras comuns que podem ser usadas com maior eficácia do que a expressão hindu karma, que não tem sentido para a maioria dos ocidentais. O orador afirmou também que palavras como astral e encarnação ficassem deslocadas por terem sido ideadas para significar algo que não foi justificado. Ele lamentava que a palavra encarnação tivesse sido usada em nossa literatura mais recente, notavelmente no Conceito Rosacruz do Cosmos. Os Irmãos Maiores que lhe ministraram os ensinamentos na língua alemã sempre usaram a palavra Wiedergeburt, que significa renascimento, e há muita diferença entre os dois termos, diferença que não notamos à primeira vista.
É possível para um Espírito encarnar em um corpo adulto, expulsando o dono do seu veículo, possuindo esse corpo. No entanto, quando dizemos renascimento, só há um significado. Por essa razão, ele insiste para que os Estudantes nunca usem o termo encarnação, mas sempre a palavra renascimento. Em seguida, continuou.
“Responderemos agora à primeira parte da pergunta; isso é, será errado interferir no destino? Para chegarmos a uma conclusão, verifiquemos primeiramente quem criou o destino! Nós mesmos o criamos. Nós movimentamos a força que se transformou agora em destino e, por isso, temos indubitavelmente o direito de transformá-lo, na medida da nossa capacidade. Na realidade, essa é a marca autêntica da Divindade: governar-nos a nós mesmos. A maior parte da humanidade é regida pelos Astros, que podem ser chamados de ‘Relógio do Destino’. Os doze Signos do Zodíaco marcam as doze horas do dia e da noite, sendo que os Astros podem ser comparados aos ponteiros do relógio, indicando o ano em que certa dívida do destino amadureceu para poder expressar-se em nossas vidas. A Lua indica o mês e atrai determinadas influências que sentimos sem ter a consciência de que estejam sendo exercidas ou sem notarmos sua finalidade.
“Contudo, essas influências permitirão alinhar nossas ações ao destino que criamos nos anos ou vidas anteriores e, invariavelmente, o acontecimento pressagiado ocorre.
“Isso está marcado, a menos que nos esforcemos para mudar. Graças a Deus, há um a menos que, porque se não houvesse a possibilidade de alterar o destino, a única coisa a fazer seria sentar-se e dizer: ‘Vamos comer, beber e gozar a vida, já que amanhã morreremos’. Estaríamos, então, nas mãos de um destino inexorável e seríamos incapazes de nos ajudar. Pela bondade de Deus há um fator que não está indicado pelo horóscopo. É a VONTADE humana, que tem condições de afirmar-se e frustrar o Destino. Recordemos aquele lindo poema transcrito no Conceito Rosacruz do Cosmos.
“Um barco sai para Leste e para Oeste outro sai,
Com o mesmo vento que sopra em uma única direção;
É a posição certa das velas e não o sopro do vento
Que determina por certo o caminho em que eles vão.”
É da máxima importância que estabeleçamos o rumo do barco das nossas vidas, conforme o desejarmos. Nunca tenhamos escrúpulos em interferir no destino.
Esse proceder também refuta a ideia de “afirmações” como sendo um fator na vida, pois isso, em si mesmo, é uma tolice. É de trabalho e ação que precisamos na vida, como tentarei explicar por meio de uma ilustração. Suponhamos que uma pequena semente de lindos cravos pudesse falar e viesse a nós, dizendo: “Sou um cravo”. Por certo, nós responderíamos: “Não, você não é um cravo. Você tem a potencialidade interna para ser um cravo, mas terá que ir ao jardim e ficar enterrada durante algum tempo para crescer. Somente assim poderá tornar-se um cravo, nunca pela afirmação”. Da mesma forma sucede conosco. Todas as “afirmações” da Divindade serão em vão, a menos que sejam acompanhadas por ações de caráter divino. Os atos provarão a nossa Divindade de uma forma que nunca as palavras possam fazê-lo.
(Pergunta nº 31 – “Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas” – Vol. 2)
Caráter é destino. Nunca será demais repetir essa verdade. Afinal, ela diz respeito aos nossos interesses mais íntimos.
Todo ser humano alimenta o desejo de construir para si um destino harmonioso e equilibrado. Não vamos falar em “destino feliz”, porque o conceito de felicidade é muito relativo, variando até, sem exagero nenhum, de pessoa para pessoa. Cremos, portanto, na harmonia e no equilíbrio como o binômio ideal na constituição de um destino.
Esse binômio é atingível? Afirmamos que sim, embora poucos o tenham conseguido.
Todo ser humano anseia por um porvir agradável, sem, contudo, imaginar que ele se condiciona a um caráter bem formado. Ora, somente pelo manejamento adequado das causas, pode-se alterar os efeitos. Todo destino é, em última análise, uma gama de efeitos. Daí ser fácil concluir-se: se almejamos um futuro equilibrado, cuidemos, antes de mais nada, do nosso caráter.
Mas como fazê-lo? Em primeiro lugar, analisando-o.
E como analisá-lo? Max Heindel indica-nos um meio seguro de fazê-lo: o exercício noturno de Retrospecção. É uma forma prática de autoconhecimento.
Conhecidos nossos traços de caráter, em suas profundezas, é bom ressaltar, cabe-nos o segundo e mais importante passo: a reforma.
Não se julgue, todavia, que a correção requer luta tenaz contra o mal. Nada disso.
Resistindo-se-lhe só lograremos, para nosso desespero, reforçá-lo ainda mais. É um erro lamentável julgar que todo malefício provém do exterior. Se não há mal em nosso interior, não atrairemos males de fora.
Tudo, portanto, encontra-se em nosso mundo interno: o bem ou o mal. E o que se pode fazer no sentido de vencer o mal interno, sem luta?
A Filosofia Rosacruz enseja-nos a resposta: através do Corpo Vital, o veículo dos hábitos. Estes se formam pela repetição. O hábito reclama, insistentemente, a repetição.
Ela é o seu alimento, a chave para a gestação de um destino harmonioso ou perturbador.
Eis porque a reforma interna é de suma importância.
Muitos podem objetar essa argumentação alegando ser essa tarefa muito difícil, quase impossível.
Concordamos em que não seja fácil levá-la adiante. Mas não a reputamos impossível, não a configuramos como utópica. É uma questão de esforço e de vontade.
Ocorre que nosso caráter constitui na mescla de tendências antigas e influências novas desta existência. E como o ser humano não se dispõe com facilidade a mudanças radicais em sua vida, qualquer reforma interna encontra muitos obstáculos à sua frente.
A transmutação do “homem velho em homem novo” requer muita dedicação e coragem. Não se deve objetivar outra meta a não ser a realização do BEM. A única recompensa digna é a paz nascida do dever cumprido. O desinteresse deve revelar-se como uma norma fundamental. Fazer concessões ao interesse próprio é compactuar com as antigas e retardatárias mazelas.
Em Atenas, prometiam-se belas estátuas de mármore branco de Paros. Em Roma, belas coroas de oliveira. Maomé oferecia doces carícias de fadas amorosas. Odin, os encantos das louras Valquírias.
Em toda parte e em todos os tempos, se ofereceram recompensas a quem praticasse ou vivesse no Bem. Entretanto, uma cidade nada oferecia aos seus heróis. Era Esparta. Os defensores das Termópilas receberam apenas uma simples inscrição:
“Cumpriram o seu dever”.
O espiritualista sincero conscientiza-se de que promovendo a reforma de seu caráter está apenas cumprindo um dever. Nada reivindica para si mesmo.
Certamente terá de enfrentar momentos difíceis. Em algumas circunstâncias poderá até amargar a tentação de desistir. Fará, no entanto, da coragem a sua bandeira, não se deixando envolver pelos reclamos da personalidade. Esses heróis da alma serão as pilastras da Casa do Pai.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 11/1978)
“Por Seus Frutos os Conhecereis”
Nem sempre a criatura humana é realmente aquilo que pensa ser ou que deseja ser.
Há muito de engano ou de ingenuidade entre a verdade e as supostas verdades, com as quais nos revestimos.
Muitas vezes não é por maldade que uma pessoa procura aparentar o que não é, mas pelo desejo de parecer melhor aos olhos dos outros, porém isso não deixa já de ser um princípio de virtude, pelo menos uma tentativa de virtude, consciente ou não. Porque até o falso, aquele que finge e engana os incautos, ele está tangendo o bem ao procurar parecer um ser humano bom. Verdade que se o fizer em prejuízo alheio, a dívida que fará diante da verdade será bem grande e em encarnações futuras terá que resgatá-la, respondendo dolorosamente pelo seu procedimento de agora.
Entretanto, o fato de fingir-se melhor, se o indivíduo não é um degenerado, este fato vai estabelecer um contato da criatura de má-fé com a verdade, dando-lhe alguma possibilidade para o bem. Acontece, porém, que se aquela alma começa a perceber a luz, sua obrigação muda para com a vida. Uma vez compreendendo ou sentindo já seus erros, sua obrigação é deixar de errar. O destino do reincidente é muito doloroso quando erra conscientemente.
Quem persiste no erro, já tendo vislumbrado a verdade, quem se acomoda às circunstâncias porque já está acostumado a elas, quem não se «esforça para progredir quando já compreende um pouco o progresso, essa pessoa tira de si a oportunidade de progredir, cristalizando suas próprias possibilidades. Para quem já viu um pouco da Luz, é dever voltar-se para ela e esforçar-se para disciplinar seus negativismos, tornando-os em virtude.
E isso não é difícil. Muitas vezes mesmo, forçando um sorriso num momento amargo, o gesto de flexionar os lábios para disfarçar a mágoa, pode acabar exercendo influência na própria mágoa, desfazendo-a. Obrigue-se a sorrir que você acabará esquecendo seus dissabores e todos lhe sorrirão. No fim, acabamos sendo sinceros em nossa alegria e as tristezas se dissiparão.
O essencial em tudo é a sinceridade. Sinceridade de propósitos e de ações. Pode-se cair muitas vezes, mas se formos sinceros em nosso desejo de melhorar, levantaremos cada vez na certeza de que poderemos acertar sempre mais e mais. Principalmente se formos perseverantes. De nada nos adiantará nos enganarmos, porque cedo ou tarde cairemos em contradição e nossos atos falarão por si. Cristo Jesus disse: “Por seus frutos os conhecereis”. Se formos sinceros conosco mesmos, se nos dedicarmos a uma vida Superior, apesar de o nosso corpo de desejos muitas vezes tentar trair-nos, com o tempo aprenderemos a andar no mundo e a não ser mais do mundo. Assim, seremos conhecidos pelos nossos frutos, podendo ajudar aos nossos irmãos com mais eficiência e sabedoria. Pois só nos elevando poderemos ajudar a elevar os outros.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – 5/72 – Fraternidade Rosacruz – SP)