Categoria Filosofia

porFraternidade Rosacruz de Campinas

A Verdadeira Fraternidade na Prática do Nosso Dia a Dia

Fraternidade é: harmonia, amizade, irmandade e parentesco entre irmãos e irmãs.

É a identificação de seres oriundos de um Pai comum, Divino ou humano.

Os “filhos da carne” são “irmãos de carne”; os “filhos de Deus” são irmãos em Espírito.

Os Anjos, hábeis manipuladores de Éter, conseguem por meio do sangue, que é o mais elevado meio de expressão do Corpo Vital, a ligação entre irmãos e irmãs. Muitos de nós renascemos sob tais circunstâncias para harmonização de desentendimentos passados. Porém, muitas vezes nem a ligação do sangue é capaz de promover em nós a harmonia que uma Fraternidade mais elevada, a espiritual, reclama.

Mesmo sem causa remota de destino, ocorre amiúde a desavença entre irmãos e/ou irmãs por motivos egoístas, como por exemplo, em partilhas de herança.

Bem se disse que a “carne e o sangue não podem herdar o Reino dos Céus” (ICor 15:50), e que “o nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito” (Jo 3:6). Importa-nos em verdade nascer de novo, nos regenerar, nos despirmos do “homem velho e revestirmo-nos do homem novo” (Ef 4:22), em novidade de Espírito, transcendermos os limites da carne, se desejamos sinceramente estabelecer uma verdadeira Fraternidade.

Ninguém tem autoridade, se esta não lhe for dada pelos céus. As verdades cósmicas são eternas e essencialmente as mesmas através dos tempos. A Humanidade é que, segundo os seus conhecimentos, recobrem-nas com sua Epigênese, dão-lhe nome e roupagens diferentes.

Recorro novamente a Cristo para dizer: “qualquer que fizer a vontade do Pai celestial, esse é meu irmão e irmã.” (Mt 12:50), ou ainda: “Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.” (Lc 8:21).

Quem pode contestar-lhe? Os sábios materialistas? A que nos tem levado suas descobertas? Guerras mercenárias! Guerras fraticidas! Escravização de povos! Angústias e temores!

Repouso na confiança de Deus. Ele nos guia. Ele é Amor, Ele é Luz. Por mais que nossos potentes telescópios devassem a imensidão do espaço, até milhões de anos-luz encontrarão sempre para amesquinhar a pretensão intelectual dos seres humanos, a Luz, a Harmonia e a Sabedoria a reger as esferas em sua matemática procissão. Que é a Terra diante dessa grandiosidade inteira? E quem somos nós, senão poeirinhas pretenciosas?

Entretanto, Deus-Pai nos ama e com simpatia nos acompanha os esforços, ajudando-nos em tudo, mesmo que pensemos ser o mérito apenas nosso. E toma também suas medidas quando seus filhinhos infantis estão em vias de se machucar com suas “invenções”.

Partamos da convicção do que realmente somos. Isso é humildade!

Tenhamos confiança incondicional no Pai Celeste. Essa é a maneira de nos sintonizarmos com Sua Luz, com Seu Amor, com Sua Verdade, a fim de que nos ajude a sobrepor-nos a nós mesmos e tenhamos a possibilidade de sermos verdadeiros irmãos e irmãs.

Nossa Natureza inferior divide, critica, ambiciona, disputa e prejudica. Nossa Natureza superior não. Ela é Atração, é Amor, é Luz, é Vida e Poder Anímico. Ela nos guinda sobre nós mesmos e nos impele a amar o próximo, acima de todos os preconceitos, das barreiras de sangue, de raça, de credo, na vivência de um verdadeiro Cristianismo (aquele que Cristo trouxe e que ainda não se realizou na sua plenitude).

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – agosto/1966 – Fraternidade Rosacruz – SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Nossa Valorização Individual: uma das Grandes Contribuições Proporcionadas pelo Cristianismo

A grande contribuição proporcionada pelo Cristianismo a todos nós foi a nossa libertação. Essa libertação, se bem esteja claramente exposta nos Evangelhos, não é bem compreendida pelo Cristianismo Popular. Em muitos casos até há intenção de ocultar a verdade e submeter o ser humano a poderes temporais, a que ele gosta de se sujeitar. Infelizmente, muitos ainda permanecem num estado semelhante a um canário que ficou muito tempo na gaiola; quando lhe abrem a porta, não quer partir para a amplidão dos céus ou, se vai, dá uma voltinha e regressa à sua cadeia, onde lhe dão comida e água. É cômodo e não lhe exige esforço. Por isso, muitos “pastores” de alma, seja nas igrejas ou em entidades espiritualistas, não gostam de tocar nesse ponto da libertação. Gostam mesmo de mostrar a necessidade de dependência. Nas escolas orientais a submissão ao mesmo é taxativa.

A Fraternidade Rosacruz, fundada por Max Heindel, como expositora dos Ensinamentos elementares da Ordem Rosacruz, cujos Irmãos Maiores são auxiliares diretos de Cristo na obra de redenção da Humanidade, se distingue de tudo o que atualmente conhecemos, por seu esforço na libertação do indivíduo. A Fraternidade Rosacruz ensina como o Cristianismo nos liberta pelo conhecimento de seus valores internos (E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8:32)), pela identificação com sua natureza divina, subjacente e ignorada (Da mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que n’Ele crer tenha a vida eterna. (Jo 3:14)).

Na Parábola do “Filho Pródigo”[1] vemos a nossa história, como Espírito Virginal da Onda de Vida humana diferenciado em Deus para obter experiência em nossa peregrinação Involutiva, à custa de nossa herança espiritual, que ficaria enterrada e esquecida em virtude do Corpo Denso, Corpo Vital, Corpo de Desejos e da Mente que fomos construindo. Iniciamos a Evolução com a ajuda das Religiões primitivas (Primeira Dispensação). Depois veio Moisés e nos deu a Lei geradora do pecado, pois passaria a nos ensinar o que era a Transgressão da Lei e como deveríamos repará-la.

Contudo, devido ao nosso egoísmo e à falta de compreensão, reparávamos os pecados pelo sacrifício de animais. Depois veio Cristo e não revogou a Lei antiga. Antes, confirmou-a, mas nos deu a libertação do enlaço da matéria, o que, ao tempo de Moisés, seria tarefa extremamente difícil para boa parte de nós. Essa situação fora criada por nossa queda (o evento conhecido como a “Queda do Homem”), quando os marcianos Espíritos Lucíferos, os Anjos decaídos ou Anjos caídos, não podendo alcançar a evolução angélica, buscaram nosso cérebro e a nossa força sexual criadora que o sustenta, para, através de sua atividade, obter experiência e, em consequência, evoluir. Custou-nos alto preço “ouvi-los e seguir o que nos propôs”. É verdade que pelo embrutecimento sensorial decorrente obtivemos a vantagem da consciência atual, a capacidade de discernir, que os Anjos não têm. Por isso se disse que fomos feitos um pouco abaixo dos Anjos. Após a “Queda do Homem”, as Religiões de Raça nos incutiram o sentido egoístico de separação e chegamos a tal estado de cristalização que nossa Evolução ficou ameaçada. Não poderíamos, por nós mesmos, retomar a senda ascendente evolutiva que nos estava destinada, como Filhos de Deus, de retorno à casa paterna.

Comíamos a “escória” dada como alimento aos “porcos”, nas duras experiências de nossa vida. Veio, então, o Libertador, o Cristo. Limpou o Corpo cósmico de Desejos da Terra (o Mundo do Desejo), formado por todas as nossas antigas Transgressões à Lei. Sacrificou-se como o “Cordeiro de Deus que limpou os pecados do mundo.” (Jo 1:29), em lugar do cordeiro do Tabernáculo no Deserto. Foi quando se rasgou o Véu do Templo, isto é, quando se abriram a nós, em geral, as possibilidades de libertação, Iniciação e acesso ao “Sanctum Sanctorum” – Santo dos Santos –, aos segredos e possibilidades de nossa própria natureza egóica, através da qual entrará, concomitantemente, nos Estratos da Terra e da Humanidade, para mais elevados serviços.

Não sem razão, pois, a citação de S. Paulo, um Iniciado consciente dessa realidade: “Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.” (ICor 6:20), e “por preço fostes comprados, não vos torneis escravos de homens.” (ICor 7:23).

Realmente, este mundo é uma escola em que somos apenas peregrinos (At 7:6, Hb 11:13 e IPd 2:11). E como somos destinados, quais sementes da árvore de Deus, a tornamo-nos iguais a Ele (Jo 10:34), a fazer obras maiores do que as realizadas por Cristo na Terra (Jo 14:12), deduz-se, logicamente, que o Renascimento é um fato natural, pois nenhum de nós pode realizar numa vida o que nos está prometido nos Evangelhos. Pela evolução, nós iremos sublimando doravante todos os nossos veículos e deles levando a quintessência, que nos fornecerá a capacidade criadora. Realmente, os Corpos são os meios de obtenção do alimento anímico que nos enriquece, a nós o Tríplice Espírito. No conjunto, o Corpo é um precioso Templo do Espírito (Jo 2: 21, ICor 3:17 e 6:19) que não deve ser desprezado como vil e inferior, segundo a concepção oriental, senão tratado com carinho, como ferramenta bem cuidada para que através dele nós possamos criar e crescer, pela Epigênese. Contudo, também aprendemos a não nos identificarmos com os nossos Corpos, senão governá-los, para que não nos suceda ficarmos escravizados a eles. Quem sabe que é de fato um Ego, um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado, ama o Espírito e a ele serve e nesse ponto não adora imagens nem em templos de pedra, senão em “Espírito e em Verdade” (Jo 4: 24) porque em verdade nada restará de nossos Corpos, ao fim dos atuais períodos evolutivos (Mt 24:2; Jo 2:19 e 21).

De todo o exposto, reconduzindo a nossa consciência ao seu real valor, como Filhos de Deus, livre dos temores do inferno, porque sabemos que nenhuma parte de Deus não se pode perder, comecemos a trabalhar diligentemente por nossa própria evolução, a fim de se tornar um novo ser humano (Ef 4:24; Col 3:10), sabendo discernir entre o real e o falso (ICor 6:12 e 19) e buscando se desvincular de todos os antigos hábitos errôneos (IPd 1:14 a 17) sem acender “uma vela para Deus e outra para o diabo”, como fazem os incoerentes de nossos dias (Mt 9:16 e 17). É preciso decisão, perseverança e humildade para limpar o templo interno (Jo 2:15 e 16) e ver nascer a estrela d’alva no coração (IIPd 2:19).

De toda nossa procura e experiência podemos, hoje, dizer aos novos companheiros: a Fraternidade Rosacruz é a Escola Aquariana que ensina e ajuda o indivíduo a se libertar de suas próprias limitações e o leva a uma concepção muito mais elevada e a possibilidades ilimitadas no campo das realizações internas, onde se encontra o Graal e sua Lança (o Espírito e o seu poder). Contudo, para chegar a ele deve ser um autêntico e moderno cavaleiro, o novo e consciente Parsifal. O vivido Sir Launfal de retorno ao “seu castelo”.

Que nos eleve nas asas da aspiração; que nos armemos da couraça do valor e da persistência; que nos imbuamos de propósitos altruísticos, e que o Deus da paz será conosco!

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – fevereiro/1964-Fraternidade Rosacruz-SP)


[1] N.R.: (Lc 15:11-32) – Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se. Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu. Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Pergunta: Qual o princípio da Filosofia Rosacruz considerado de maior valia para ajudar a Humanidade a solucionar os problemas da vida?

Resposta: Os dois principais ensinamentos para auxiliar a Humanidade e solucionar seus problemas de vida encontram-se na compreensão da Lei de Causa e Efeito e no conhecimento da Doutrina do Renascimento.

Essas duas Leis contêm os princípios vitais que são da mais alta importância para todos. A Lei de Causa e Efeito nos ensina que estamos onde estamos por causa das nossas ações passadas e não porque alguém seja o responsável. Se não gostamos de nosso ambiente de então, podemos, certamente, mudá-lo tão cedo tenhamos aprendido as lições que ele contém. A vida não é algo sem esperança. Tão cedo estejamos aptos para um novo ambiente, ele se apresentará. A vida é um processo ativo. Devemos estar amplamente despertos e alertas, prontos a tirar a vantagem em cada oportunidade apresentada e sempre ávidos em aprender as lições nela contidas.

O conhecimento da Doutrina do Renascimento nos revela a justiça perfeita do grande plano cósmico. Os nossos “hoje” são os resultados dos nossos “ontem” (ou vidas passadas), os nossos “amanhã” (vidas futuras) dependem dos nossos “hoje”. Sempre existem oportunidades à nossa frente. Fizemos de nós aquilo que somos e podemos, no devido tempo, fazer de nós mesmos aquilo que gostaríamos de ser.

Podemos, sozinhos, desenvolver as potencialidades do Deus interno. Outros poderão indicar o método, porém, devemos fazer o trabalho, uma vez que o renascimento nos oferece repetidas oportunidades. Aqueles que amamos em uma vida não somente encontraremos entre as vidas nos Mundos celestes, mas, também quando retornamos a Terra. Ao crescermos na graça, cessaremos de ter inimigos, em virtude de nos tornarmos demasiados grandes para abrigar a inimizade. Amaremos sempre, sejamos retribuídos ou não. Basicamente esse amor atrai os outros nos laços de saúde e confiança.

Com o conhecimento dessas duas grandes Leis (de Causa e Efeito e de Renascimento) vamos, gradualmente, aprendendo a solucionar todos os problemas que se nos deparam e a vida se torna uma alegria.

(Publicado na Revista: Serviço Rosacruz – novembro/1967 – Fraternidade Rosacruz – SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Eterno Agora: o momento mais importante das nossas Vidas Aqui

Um grande fato a se lembrar no autoaperfeiçoamento de um Estudante Rosacruz é que a nossa vida passada está, em grande medida, encerrada. Um hábito comum consiste em reviver essa vida, ou partes dela, em pensamento, mas não com o desejo de aprender uma lição real, pois tais lições geralmente foram aprendidas naquela vida, mas apenas para gastar tempo com retrospectivas inúteis, sem propósito, revivendo momentos passados e se entregando a uma censurável autopiedade.

No momento presente em que vivemos, sentimos os resultados de nossas vidas anteriores. Por mais desagradáveis que sejam, é evidente que nós mesmos, em algum momento, colocamos em movimento as forças que agora produzem esses resultados, aparentemente injustos.

Sem dúvida é necessário e suficiente acreditar na Teoria do Renascimento para se alcançar uma explicação completa e realista. Entretanto, uma explicação detalhada exigiria que o Estudante desenvolvesse o poder espiritual necessário para examinar os fatos históricos na chamada Memória da Natureza. Isso já foi feito e é um fato no ocultismo!

É óbvio, então, que o momento mais importante de nossas vidas é o presente — o Eterno Agora — no qual todo o trabalho é realizado. Os efeitos de nossos pensamentos e das nossas ações presentes nos influenciarão em algum momento posterior. Decidimos hoje viajar para uma terra distante; ativamos forças que, eventualmente, criam o resultado desejado e, assim, descemos do navio nas margens da terra que decidimos visitar. Outras ações, espirituais ou materiais, podem demorar anos para atingir seus resultados ou podem continuar ao longo desta vida e produzir o resultado final em uma vida futura. Mas, uma vez que essas forças são ativadas, o dado foi lançado. Daí em diante, do molde desse dado surgirão certas formas e lágrimas, protestos ou ameaças não poderão alterá-las minimamente.

De fato, nós somos o mestre do nosso próprio destino e essa verdade é maior do que normalmente se imagina. Isso é verdadeiro na vida cotidiana e igualmente efetivo na vida eterna do que realmente somos, um Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui), tão diferente da nossa Personalidade superficial, efêmera, egoísta e exterior que, com frequência, é a única expressão de nós mesmos mostrada ao mundo.

Não é permitido repousar sobre os benefícios das ações passadas sobre os louros das vitórias anteriores. Toda vida é progressiva e ativa. Devemos estar em constante ação, cultivando nossos talentos, usando nossas forças para fins maiores — aquelas mesmas forças tão arduamente conquistadas e, por fim, alcançadas em vidas que se foram.

O Estudante Rosacruz que busca ajuda e conhecimento espiritual deve ser um lutador: tão perspicaz quanto nossos magnatas comerciais, ávido por novas atividades em todas as esferas; aguçado e determinado — mas com o desejo de tomar parte em batalhas mais nobres; impiedoso na guerra contra o preconceito, a superstição e a falsidade.

O “agora” é o grande momento. Atividade incessante em fazer o bem, no estudo, no autocontrole, na rotina comum da vida diária — aparentemente tão monótona e cinzenta —, mas na verdade tão eficaz quanto os golpes repetitivos de um martelo a vapor sobre o ferro duro. Seu mérito está no efeito cumulativo, não em cada golpe individual.

É somente por meio de algum estímulo mental que muitos, naturalmente inativos, conseguem despertar para o “agir e fazer”. “Belas palavras”, dizem eles, “mas eu sou diferente — não fui feito assim. Pode o leopardo mudar suas manchas ou uma pessoa, a cor de sua pele?”.

Uma das maiores surpresas da vida é a incrível quantidade de trabalho que um Estudante Rosacruz pode realizar quando decide fazer um esforço. Isso não é apenas surpreendente, mas grandioso. Um riso alegre diante dos erros e uma coragem indomável para perseverar são grandes qualidades. Se o riso se recusar a aparecer ou a coragem desaparecer, ainda assim algo foi conquistado, pois quando tentamos rir ou demonstrar coragem, criamos uma base tão sólida quanto o alicerce de concreto, base sobre a qual, com o tempo, o verdadeiro riso alegre e a efetiva coragem poderão ser construídos.

É difícil dizer qual é o espetáculo mais admirável: o do Estudante Rosacruz poderoso que atravessa a vida superando obstáculos pela pura força ou do Estudante Rosacruz que persiste lutando, sendo constantemente golpeado, abalado e avançando pouco, mas com o maxilar firme e a cabeça baixa — sempre lutando sem pensar em desistir, disposto a batalhar até o fim!

A derrota não é um acontecimento tão desesperador como pensamos muitas vezes. Ela significa apenas que o objetivo desejado não foi alcançado. No entanto, pelo simples ato de lutar nós adquirimos uma força maior — o que, em si, já é uma vitória efetiva, de valor imenso.

(De Max Heindel, publicado na Revista Rays from the Rose Cross de fevereiro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Uma Renovada Disposição sempre Planejando para o Próximo Ano

Já sopraram os ventos desse ano terrestre que se findou. O ano que já passou, com tudo que pôde oferecer de positivo ou negativo, considerando-se a relatividade desses dois termos, faz parte do passado. Deixou, dependendo da maneira como esse problema é encarado individualmente, um saldo determinado.

Para alguns restaram indeléveis traços de sofrimentos e decepções, amarguras e contrariedades. Outros não conseguiram apagar o estigma de tragédias que os envolveram e atingiram. Há aqueles perseguidos pela frustração de aspirações irrealizadas, de metas inatingidas. Mas alguns, talvez poucos, sentiram-se bafejados pelo êxito em suas vidas profissionais e particulares. Afinal, dizem, das crises, por crônicas que sejam, sempre alguém escapa ileso.

Uns e outros tendem a encarar o ano que se inicia sob uma ótica oriunda, nascida, dos percalços e sucessos do ano que se findou. Não atinam quão irreais e enganadoras são as chamadas “vitórias” e “derrotas”. Os “derrotados desse ano” observam a quadra atual com certa dose de pessimismo. Na melhor das hipóteses, animam-se com tênues esperanças de que o presente seja menos malfazejo que o pretérito. Imaturos espiritualmente, não se libertaram de traumas passados. Tudo se lhes afigura difícil, impossível e sombrio.

Para aqueles a quem o “êxito foi obtido”, as coisas, nesta nova fase, na pior das hipóteses, fluirão num mesmo nível. Permitem-se até dormir sobre os louros de suas realizações, como se o amanhã não fosse outro dia.

Observa-se, aí, como o irmão e a irmã que não se dedicam e colocam em prática a espiritualidade cristã são dominados por uma preocupação obsessiva de tudo rotular — bem/mal, bom/mau, triunfo/fracasso — à luz de seus superficiais conhecimentos.

Tanto para os “deserdados” como para os “afortunados” desse ano que se findou houve apenas sepultamento. O “corpo encontra-se enterrado, mas o defunto permanece fresco”, podendo ser exumado a qualquer hora. Sua lembrança persegue-o tenazmente, com sua carga desestimulante ou ilusória.

Felizmente, há quem logre se sobrepor-se a esse estado de espírito. São as chamadas “almas velhas”, irmãos e irmãs que se dedicam, estudam e praticam a espiritualidade cristã nas suas vidas – especialmente por meio dos Ensinamentos Rosacruzes, que fornecem os Ensinamentos do Cristianismo Esotérico – têmperas forjadas na crueza e nas experiências de vidas passadas. Dotados de natureza intimorata, hoje, imperturbáveis, sabem como enfrentar os desafios do mundo.

Não se amedrontam, desconhecem a inibição diante de circunstâncias adversas, mas ninguém os vê exibir arrogante autossuficiência. A modéstia é seu apanágio. São equilibrados, justos e sensatos.

Cônscios de seu progresso, nem por isso deixam de reconhecer que o caminho para alcançar a perfeição é infinito. Conservam a Mente aberta e o Coração radiante, dispostos a haurir os mais valiosos Ensinamentos Rosacruzes do cotidiano. Sabem que ainda muito têm a aprender e crescer, num futuro suscetível de se desdobrar em mil caminhos diferentes.

Esses não sepultaram o ano que já passou. Cremaram-no! Não buscam desenterrá-lo constantemente, reabrindo velhas feridas. Não! Reduziram-no a cinzas. Basta-lhes apenas ter assimilado o valor educativo das experiências pelas quais passaram. É o suficiente para lhes servi de orientação e inspiração no ano recém-iniciado.

Aos acontecimentos passados, só lhes atribuem valor como lições de vida. O novo ano, afirmam, deve ser bem recebido. Merece ser visto com bons olhos. Afinal, quantas oportunidades de crescimento anímico e mesmo de progresso material ele poderá nos oferecer!

Nessa abençoada seara, que é o mundo, a cada momento se nos surgem valiosas ocasiões de empregarmos nossas faculdades epigenéticas. Assim, cabe-nos tentar, sempre que possível, criar algo novo ou melhorar o já existente. Todas as coisas clamam por um toque de aperfeiçoamento, de inovação, de originalidade. Em tudo há sempre uma beleza recôndita, esperando por ser desvelada.

No limiar de um novo ciclo, o melhor que cada um pode fazer é arregaçar as mangas e renovar sua disposição para o trabalho. Há muito por construir. Nada de lamentar o mal acontecido, nem de deslumbramentos com conquistas já ultrapassadas. Não se pode viver do passado. O que “está feito, está feito”. As lições, sim, servem para alguma coisa.

Assim, resta a pergunta à você: “o que você fez até aqui, nesse ano? Enterrou? Cremou?”

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro/1978-Fraternidade Rosacruz-SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Pausa para Meditar, Pensar e Fazer nesse Importante Momento do Ano

Para qualquer um de nós é um hábito muito salutar fazer um balanço anual das atividades, do que foi feito, do que não se cumpriu e dos planos para o ano vindouro, ou seja: fazer uma retrospectiva, a mais isenta possível de emoção pessoal, mas com a maior consciência que podemos ter, não só para discernir bem, mas também para aprendermos e quiçá colhermos a quintessência das lições que aprendemos (afinal, sempre estamos aprendendo!).

E aqui está um dos melhores momentos do ano para você aplicar o que aprendeu dos Ensinamentos Rosacruzes. Logicamente se você se dedicou, estudando, fazendo os Exercícios Esotéricos Rosacruzes, oficiando os Rituais do Serviço Devocional e colocando tais Ensinamentos no seu dia a dia.

Poucos avaliam como muitos problemas de saúde são decorrentes da falta desse levantamento, pois a ausência de uma perspectiva, da avaliação das nossas possibilidades reais pode gerar frustrações, depressões e angústias que fatalmente repercutirão sobre o funcionamento dos órgãos, tecidos, sistemas e todas as partes do nosso Corpo Denso.

Vamos a um exemplo: um homem de entorno de 60 anos, cabelos brancos, saúde abalada, em relativa dificuldade financeira, não se dispunha a vender um lote de terreno que resolveria seus problemas e lhe daria tranquilidade e meios para seus projetos, porque aguardava maior valorização depois que certa estrada projetada fosse construída. Jamais usufruirá desse bem e certamente morrerá infeliz e derrotado, sonhando com um futuro problemático.

Neste final de ano, cada um deve parar, olhar para trás e encarar os fatos. Se eu morresse agora, perguntará o sexagenário, terei realizado o que planejei? Terei deixado aos meus, à minha obra, à minha coletividade algo a que me propus? Terei me empenhado a fundo nessa missão, ou, ao contrário, estarei dando voltas em torno de atividades supérfluas, desperdiçando inteligência e tempo em coisas sem nenhum valor para meus objetivos primordiais?

É preciso coragem para nos desligarmos de tudo o que sinceramente consideramos desperdício e desvio da missão principal a que nos propomos neste mundo. Pouca gente avalia como somos diariamente despojados da mais preciosa de nossas riquezas: nosso cérebro e nossa atenção, pelos “batedores de carteiras” do nosso tempo. Eles nos minam a resistência, nos desviam do nosso trabalho e nada ficam devendo.

Ao jovem, o balanço servirá para avaliar quanto enriqueceu seu patrimônio cultural, quais foram as conquistas realizadas. Melhorou seu nível de aprendizado? Aprendeu línguas? Adquiriu o hábito de boas leituras? Desenvolveu algum trabalho de pesquisa nessa Região Química ou nos planos espirituais? Aperfeiçoou seu português, aumentou seu vocabulário? Aprofundou-se nos conhecimentos de sua futura profissão? Estabeleceu novas e valiosas relações sociais, fazendo conhecimentos com pessoas ricas de conhecimento, sabedoria e de vida?

Não se esquecer de traçar a meta para o ano seguinte e procurar cumpri-la à risca. Jovem! O bem mais valioso que possui é o tempo! Não o desperdice! Cada minuto deve ser plenamente preenchido. Não só trabalho. Há hora para prazer e hora para pensar. Bem dividido, seu dia dará para tudo, até para ficar alguns momentos deitado, de papo para o ar, olhar distante e sonhador, para um futuro brilhante que nosso grande e inigualável país oferece aos que se preparam para vencer.

Quem aplica sua Mente a fundo em algum mister, quem mobiliza cérebro e pensamentos num objetivo determinado, disposto a superar e a vencer, terá mobilizado, sem saber, cada célula do seu corpo: jamais adoecerá. Grande parte das doenças físicas inicia-se com a “ferrugem do espírito”. Está aqui a solução para esse grande problema: se desenvolver espiritualmente pelo método do Conhecimento Direto, preconizado pela Fraternidade Rosacruz!

E para isso há só um que precisa querer: você! Afinal, para quem não sabe viver consigo mesmo, distrair-se é frequentemente mudar de tédio.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1978-Fraternidade Rosacruz-SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Um Exemplo Notável: “por que não eu?”

Max Heindel costumava dizer: “Se há alguma coisa a ser feita, por que não eu?”.

Nós, com nosso egoísmo e nossa ignorância, viemos cometendo muitos erros, comprometendo, não raro, os nossos semelhantes. Mas isso, no curso da evolução, é compreensível: estamos aprendendo a usar as faculdades. Temos uma margem de livre arbítrio para isso. Pelas consequências vamos aprendendo a conhecer e a corrigir as causas.

A moderna ciência da ecologia vem demonstrando como nós estamos provocando desequilíbrio na Natureza (que é a manifestação visível de Deus), em nosso próprio prejuízo. Isto é sinal de que já estamos voltando os olhos às Leis da Natureza e reconhecendo uma sabedoria superior a dirigir as coisas.

A respeito, queremos resumir um belo relato de Jean Giono – um escritor francês – , uma história verídica acerca de um homem que plantou esperança e criou felicidade.

“Há cerca de 40 anos fiz uma longa caminhada através de serras desconhecidas dos turistas, naquela antiga região onde os Alpes caem em direção à Provença no sul da França. Naquela época, tudo ali era terra estéril e incolor. Nenhuma vegetação, além da lavanda silvestre. Eu atravessei a região em sua parte mais ampla e, após caminhar três dias, encontrei-me em meio à mais completa desolação. Acampei perto dos vestígios de uma aldeia abandonada. A água que levava acabara na véspera, e precisava encontrar alguma. Aquelas casas agrupadas, apesar de serem apenas ruínas, semelhantes a um velho ninho de marimbondos, sugeriam que deveria haver ali uma fonte, ou um chafariz. Havia, de fato, uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas, destelhadas, roídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela com sua torre desmoronada, se situavam como casas e capelas de uma aldeia abandonada.

Era um lindo dia de junho: brilhava o sol, mas sobre essa paisagem desprotegida, o vento soprava feroz, insuportável, rugindo entre as ruínas como um leão perturbado. Tive que mudar o acampamento.

Após cinco horas de marcha ainda não encontrara água nem sinal algum que me fizesse esperar encontrá-la. A meu redor tudo era seca; por todo lado, o mesmo capim grosseiro. Pareceu-me ver ao longe uma pequena silhueta escura, ereta; tomei-a por um tronco de árvore isolada. De qualquer maneira me dirigi em sua direção. Era um pastor. Trinta ovelhas estavam deitadas ao seu redor, sobre a terra quente e seca.

Ofereceu-me um gole de seu cantil e, mais tarde, levou-me ao seu abrigo. Ele tirava sua água — excelente água — de um poço natural muito profundo, por cima do qual havia construído uma primitiva manivela.

O homem falava pouco. É o hábito dos que vivem sós. Sentia-se que ele estava seguro de si, e confiante em sua segurança. Isto era surpreendente naquela terra estéril. Ele não vivia em um barraco, mas em uma verdadeira casa de pedras, que revelava claramente os esforços que empenhara em recuperar a ruína que ali havia encontrado. O telhado era forte e sólido. O vento, soprando sobre as telhas, imitava o ruído do mar quebrando na praia.

O lugar estava arrumado, a louça lavada, o chão varrido; a sopa fervia no caldeirão da lareira. Percebi, então, que ele estava de barba feita, que sua roupa tinha os botões bem presos e que estava remendada meticulosamente, a ponto de serem quase invisíveis os remendos. Repartiu comigo sua sopa e, quando lhe ofereci minha bolsa de fumo, respondeu que não fumava. Seu cão, silencioso como o dono, era amistoso sem ser, no entanto, servil.

Ficou desde logo subentendido que eu pousaria ali naquela noite; a aldeia mais próxima ficava a mais de um dia e meio de viagem. Aliás, eu estava perfeitamente familiarizado com o tipo das raras aldeias daquela região. Eram quatro ou cinco aldeias bem afastadas entre si, nas encostas das montanhas, em meio a bosques de árvores, no final de estradas de carroças. As famílias, aglomeradas, vivendo em um clima excessivamente rude, tanto no inverno quanto no verão, não conseguiam escapar de constantes brigas entre si. Uma ambição irracional atingia proporções desordenadas sob o constante desejo de fuga. Os homens levavam à cidade suas cargas de carvão e regressavam. Mesmo os de mais firme caráter sucumbiam sob a rotina amordaçante. As mulheres cultivavam seus desgostos. Reinava rivalidade a qualquer propósito, sobre o preço do carvão, sobre o banco reservado na igreja, etc. E sobre tudo isso soprava o vento, incessante, a desgastar os nervos. Ocorriam epidemias de suicídio, e eram frequentes os casos de insanidade mental, geralmente levando a homicídios.

O pastor foi buscar um pequeno saco e derramou sobre a mesa um punhado de sementes de carvalho. Começou a examiná-las, uma por uma, muito concentrado, separando as boas das más. Eu fumava meu cachimbo. Ofereci-lhe minha ajuda. Ele disse que era tarefa sua. E, realmente, vendo o cuidado que ele dedicava ao que fazia, não insisti.

Nossa conversa limitou-se a isso. Após ter separado um monte de sementes aprovadas, ele as dividiu em montinhos de dez, eliminando ainda algumas pequenas ou ligeiramente machucadas, pois agora as examinava mais de perto.

Tendo selecionado, assim, cem sementes perfeitas, parou sua tarefa e fomos dormir.

Reinava a paz ao redor desse homem. No dia seguinte, lhe perguntei se poderia descansar ali mais um dia. Ele achou o pedido natural, ou melhor, deu-me impressão de que nada poderia surpreendê-lo. Eu não precisava tanto de repouso, mas estava interessado, e desejava saber mais sobre ele. Ele abriu o cercado e levou suas ovelhas ao pasto. Antes de partir, mergulhou as sementes, cuidadosamente selecionadas e contadas, em um balde com água.

Notei que o bastão que levava era uma vara de ferro de espessura de um polegar e de um metro e pouco de comprimento. Eu descansava, caminhando por um trilho paralelo ao dele. O pasto ficava e vale. Ele deixou o pequeno rebanho aos cuidados do cão e subiu em direção ao lugar onde eu estava. Pensei que queria censurar minha indiscrição, mas estava enganado: era o caminho que ele queria trilhar e convidou-me a acompanhá-lo, caso não tivesse outra coisa a fazer. Galgou o topo da elevação, a cerca de 100 metros.

Ali começou a furar a terra com seu bastão de ferro, abrindo um buraco no qual plantou uma semente; em seguida cobriu o buraco com terra.

Estava plantando carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Quem era o proprietário? Ele não sabia. Supunha que fosse propriedade do governo ou talvez pertencesse a pessoas desinteressadas. Ele não se preocupava em saber de quem era a terra. Plantou suas cem sementes com extremo cuidado. Depois do almoço, recomeçou a plantar. Acho que insisti bastante em minhas perguntas, pois ele me respondeu.

Havia três anos que ele estava plantando árvores naquele deserto. Já plantara 100.000. Destas, 20.000 haviam brotado. Das 20.000, ele calculava que ainda perderia a metade por causa de animais roedores ou das intenções imprevisíveis do destino. Restariam 10.000 árvores a crescer onde nada crescera antes.

Foi então que comecei a pensar sobre a idade que podia ter esse homem. Tinha mais que cinquenta e cinco, disse-me ele. Seu nome era Elzéard Bouffier. Possuíra uma fazenda na planície. Ali vivera sua vida. Perdera o filho único e depois, também a mulher. Retirara-se então para essa solidão, acompanhado de seu cão e de suas ovelhas. Achava que essa terra estava morrendo por falta de árvores. E, não tendo nada de urgente a fazer para si mesmo, resolvera remediar esta situação.

Eu, naquela época e apesar de jovem, levava uma vida solitária, e sabia por isso lidar com gente solitária. Mas o fato mesmo de ser jovem, fazia-me encarar o futuro em relação a mim mesmo, e com uma certa procura da felicidade. Disse-lhe que seus 10.000 carvalhos estariam magníficos após trinta anos. Ele respondeu simplesmente, que, se Deus lhe concedesse vida, dentro de trinta anos ele teria plantado tantos carvalhos que esses 10.000 seriam como uma gota de água no oceano.

Além disso, ele estava estudando a reprodução das faias (outro tipo de árvore daquela região) e já tinha um canteiro com mudas de faia ao lado de sua cabana. Essas mudas, protegidas das ovelhas por uma cerca de arame, estavam muito bonitas. Ele pensava ainda em plantar bétulas (outra árvore) nos vales onde, conforme disse, havia uma certa umidade, alguns metros abaixo do solo.

No dia seguinte nos despedimos. Anos mais tarde tive desejo de rever o solitário pastor. Admirei-me com a transformação. As faias já estavam crescendo no vale, muito viçosas. Como supusera Bouffier, ali havia umidade quase à superfície do solo. As bétulas, delicadas como as mocinhas, estavam bem desenvolvidas.

Parecia ter sido desencadeada uma criação em série. Ele não se importava; simplesmente prosseguia sua tarefa, com perseverança e determinação. Ao voltarmos em direção à aldeia, vi água correndo nos leitos de riachos secos desde tempos imemoriais. Foi esse o mais impressionante resultado de reação em série que eu já havia visto. Os riachos ressecados haviam carregado água, há muito tempo. Algumas das tristes aldeias que mencionei haviam sido construídas no local de antigos acampamentos romanos cujos vestígios ainda existiam; e os arqueólogos, pesquisando na região, tinham encontrado anzóis, em um lugar onde, no século XX, era preciso cavar poços para obter um pouco de água.

O vento também espalhava sementes. À medida que a água reaparecia, ressurgiam também salgueiros, junco, prados, jardins e flores e um certo sentido para a vida. Mas a transformação ocorria aos poucos, modificando o ambiente sem causar surpresa. É verdade que os caçadores, escalando os penhascos desertos à procura de lebres ou javalis, notavam o crescimento súbito de pequenas árvores, mas o atribuíram a algum capricho da terra. Eis porque ninguém interferiu no trabalho de Elzéard Bouffier. Se tivesse despertado a atenção, logo teria surgido uma oposição. Não o descobriram. Ninguém, nas aldeias ou na administração, poderia ter sonhado com tal perseverança nascida de tão magnífica generosidade.

Para formar-se uma ideia aproximada daquele caráter excepcional, não deve ser esquecido o fato de ter ele trabalhado em solidão absoluta: tão absoluta que, na velhice, perdeu o hábito da fala. Ou talvez, não mais a achasse necessária.

Em 1933, recebeu a visita de um guarda florestal que lhe transmitiu uma ordem: proibição de acender fogo ao ar livre, para proteger o crescimento daquela floresta “natural”. O homem disse ao guarda, inocentemente, que pela primeira vez ouvia falar em uma floresta que crescia por conta própria. Nessa época, Bouffier se estava preparando para plantar faias a cerca de 12 quilômetros de sua cabana. Para evitar constantes caminhadas — pois ele já contava 75 anos — planejou a construção de um abrigo de pedra no sítio da plantação. No ano seguinte, realizou esse plano.

Em 1935, toda uma delegação do governo chegou para examinar a “floresta natural”. Havia um alto funcionário do Serviço Florestal, um deputado e técnicos. Houve muitas conversas ineficientes. Decidiu-se que algo tinha que ser feito e, felizmente, nada se fez além da única medida útil: toda a floresta foi colocada sob a proteção do governo e proibiu-se a carvoagem, pois era impossível não se ficar cativado pela beleza dessas jovens árvores em pleno desenvolvimento, cujo encanto envolveu até mesmo o deputado.

Um amigo meu fazia parte daquela delegação. Expliquei-lhe o mistério. Um dia, na semana seguinte, fomos ambos visitar Elzéard Bouffier. Encontramo-lo arduamente trabalhando, a cerca de dez quilômetros do local onde havia sido feita a inspeção.

Esse funcionário do Serviço Florestal sabia perceber a valor das coisas. E sabia manter silêncio. Entreguei a Bouffier os ovos que trouxera como presente. Almoçamos juntos, os três, e passamos várias horas a contemplar, em silêncio, a paisagem.

Na direção de onde viéramos, as encostas estavam cobertas de árvores que mediam entre seis e oito metros. Lembrei-me do que ali havia em 1913: Um deserto… O trabalho regular e tranquilo, o vigoroso ar da montanha, a frugalidade e, sobretudo, o espírito sereno haviam dotado aquele velho com uma saúde que inspirava respeito. Ele era um dos atletas de Deus. Fiquei imaginando quantos acres ele ainda iria cobrir de árvores.

Antes de partir, meu amigo simplesmente fez alguma sugestão quanto a certas espécies de árvores para as quais o solo parecia apropriado. Não insistiu. “Pela simples razão” disse-me ele mais tarde, “que Bouffier entende mais disto do que eu”. Após caminharmos mais de uma hora — e tendo meditado sobre aquilo — disse ainda: “Ele sabe muito mais do que qualquer outro. Ele descobriu um modo maravilhoso de ser feliz”.

Foi graças a esse funcionário que a floresta ficou protegida. Designou para aquela região três guardas florestais nos quais incutiu tanto medo, que eles ficaram insubornáveis, por mais litros de vinho que lhes oferecessem os carvoeiros.

A única vez em que o trabalho de Bouffier ficou seriamente ameaçado foi durante a guerra de 1939. Os carros eram movidos por gasogênio (geradores alimentados por lenha) e sempre faltava lenha. Começaram a derrubar os carvalhos de 1910, mas como a região era muito afastada de qualquer via férrea, o empreendimento se revelou financeiramente insustentável e foi abandonado. O pastor nada tinha visto. Estava a 30 quilômetros dali, trabalhando em paz, sem tomar conhecimento da guerra de 1939, como fizera também em 1914.

Vi Elzéard Bouffier pela última vez, em junho de 1945. Ele completara 87 anos. Eu resolvera atravessar novamente o caminho daquelas terras áridas; mas, apesar da desordem deixada pela guerra, havia agora um ônibus que passava entre o vale da Durance e a montanha. Atribuí à relativa velocidade do transporte o fato de não reconhecer as paisagens de minhas viagens anteriores. Foi somente ao ver o nome de uma aldeia que me convenci de estar realmente naquela região, que fora só de ruínas e desolação.

O ônibus me deixou em Vergons. Em 1913, essa aldeia, de dez ou doze casas, tinha três habitantes. Eram criaturas selvagens, odiavam-se mutuamente, viviam de caça por armadilhas e pouco se distanciavam, física e moralmente, das condições do homem pré-histórico. Os restos das casas abandonadas estavam cobertos de urtigas. A condição daquela gente não admitia qualquer esperança. Nada mais lhes restava senão esperar pela morte — situação que dificilmente podia predispô-los à virtude.

Tudo agora estava mudado. Até mesmo o ar. Ao invés do vento seco e áspero que me atacara, soprava uma brisa suave carregada de perfume. Da montanha descia um som semelhante ao da água; era o vento na floresta; e, surpresa ainda maior, ouvi um ruído de água, de fato, caindo em um tanque; vi que havia sido construído um chafariz, onde a água corria livremente e o que mais me emocionou — que alguém plantara, ao lado do chafariz, uma tília; a tília que devia ter uns quatro anos, coberta de folhas, era o símbolo incontestável da ressurreição.

Além disso, a cidadezinha Vergons apresentava os sinais evidentes de trabalho que só empreende quem tem esperança. A esperança, portanto, havia voltado. As ruínas tinham sido afastadas e cinco casas estavam restauradas. Eram agora vinte e oito os habitantes, entre os quais quatro jovens casais. As casas novas, recém-rebocadas, estavam cercadas de jardins onde cresciam, em conjunto, verduras e flores, repolhos e rosas, alho-poró, funcho e anêmonas. Era agora uma aldeia onde se gostaria de viver.

Desde então, em apenas oito anos, toda a região passou a irradiar saúde e prosperidade. No local das ruínas que eu vira em 1913 existem, agora, casas de lavradores, limpas e rebocadas, atestando uma vida feliz e confortável. Nos antigos leitos, alimentados pelas chuvas e pela neve que a floresta conserva, correm novamente os riachos. Águas foram canalizadas. Em cada propriedade rural, entre pequenos bosques, há fontes cujas águas transbordam sobre tapetes de hortelã. Aos poucos, as aldeias foram reconstruídas.

Gente da planície, onde o terreno é caro, viera estabelecer-se aqui, trazendo juventude, movimento, evolução. Ao longo das estradas, encontram-se homens e mulheres sadios, meninos e meninas que sabem rir, e que redescobriram o sabor dos convescotes. Incluindo a população anterior, irreconhecível agora, a viver confortavelmente, mais de 10.000 pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier (sem o saber).

Quando penso que um homem, munido unicamente de seus próprios recursos físicos e morais, foi capaz de fazer nascer desse deserto uma tal Canaã, sinto a convicção de que, apesar de tudo, a humanidade é digna de admiração. Mas quando calculo a infalível grandeza de espírito e a tenacidade da benevolência necessária para alcançar esse resultado, sinto um respeito imenso pelo velho camponês sem instrução, que foi capaz de completar uma obra digna para Deus.

Elzéard Bouffier morreu em paz, em 1947, no asilo de Banon”.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1976-Fraternidade Rosacruz-SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Qual o nosso papel no mundo: sejamos candeias que iluminam pelo exemplo

Os Evangelhos foram escritos há quase dois mil anos. No entanto, estão bem atuais e o estarão ainda por muito tempo, porque, se atentarmos bem, a história de Cristo-Jesus e dos Apóstolos é nossa própria história.

Em que sentido? – perguntarão alguns.

E vos respondo: buscando “o espírito das palavras” e não “a letra que mata”. Nele veremos qual o nosso papel e não um mero relato histórico, um piedoso memorial, uma peregrinação sentimental; nele veremos a revelação que nos alarga a concepção de Deus e nos revela a nós mesmos, autenticamente. Por esse ângulo, os Evangelhos nos anunciam, nos visam e nos profetizam.

S. Tiago nos diz que os Evangelhos são um espelho. Cada um de nós pode se ver refletido nele, mas “o pior cego é o que não quer ver”; geralmente vislumbramos a imagem dos outros e nos indignamos com sua maldade, cegueira e insensatez.

Max Heindel, utilizando-se da Lei de Refração espiritual, nos informa que, via de regra, costumamos ver os outros através de nossa própria aura, matizando os semelhantes com nossas próprias faltas, fantasias e extravagâncias.

Citando, por exemplo, o nascimento de Jesus: “Estando eles ali, completaram-se os dias de dar à luz; e teve seu filho primogênito e o enfaixou e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para Ele nas hospedarias” (Lc 11:7). Comenta Max Heindel: “Com que eloquência podemos ampliar o sentido dessa frase: “Não houve lugar para Ele…”! Na família, na sociedade, na escola, no fundo das almas pecadoras, em nossas próprias almas, haverá digna morada para “Cristo nascente” – o nosso Cristo Interno? Não será também o nosso coração, ainda hoje, um lugar onde não haja lugar para Cristo?

Há boa intenção, sem dúvida. Procuramos, muitas vezes, agir nobremente, ajudar nossos semelhantes, renunciar a vícios e hábitos danosos, etc. Assim nasce em nós o Cristo. Mas logo depois nossa natureza inferior, personalizada em egoísmo – simbolizado muito bem por Herodes –, receoso de perder seu poder em nosso reino interno, “manda degolar todas as criancinhas”: nossos esforços nobres, sentimentos puros, na tentativa de eliminar o futuro Rei.

Quando O aceitamos, passando a admitir que somos os “Seus”, para junto dos quais Ele veio, então os Evangelhos nos alumiam. Sabemos por que Ele foi mal recebido, como o seria ainda hoje por muitos que amam as sombras mais que a luz. Sabemos por que lhe recusaram a doutrina, por que se encontrou tão “pobre” ante a oposição e dureza de coração. É a nossa dureza. Sua Vida, Paixão e Morte se repetem como ecos nos indivíduos.

Cristo se hospeda na casa de Marta e de sua irmã Maria. “Maria, sentada aos pés do Senhor, bebia-lhe os ensinos. Marta, porém, andava preocupada com o seu serviço.” (Lc 10:30-40). Qual das duas representamos? Maria, que escolhia o melhor, que estava sempre em comunhão com o Senhor (não se disse que ela negligenciasse os deveres) ou Marta, que se afundava tanto nos afazeres do mundo e não tinha tempo de estar com Ele?

Infelizmente há mais “Martas” que “Marias”! Muito mais. Dizendo-se religiosa, a maior parte da Humanidade empenha a vida inteira em acumular fortuna, conquistar fama e glória material e se recreando com banalidades, muitas vezes, prejudiciais. Não tem tempo. Não se compraz na presença d’Ele. Embora Ele esteja tão próximo, se distancia. Precisa de imagens e cerimoniais simbólicos, não lhe alcança a essência, tão facilmente despertada em cada um dessa maioria.

Quando chega a noite tal maior parte da Humanidade está cansada. Não se encontra com o Senhor de dia, não conversa com Ele, como prazerosamente fazemos com um amigo ou com uma amiga que estimamos. À noite, esgotada, mais por seus desequilíbrios que propriamente pelo trabalho, tal maioria busca se distrair em frente a uma televisão, a um boteco, roda de bate papo “furado”, num cinema ou outros divertimentos quaisquer. Afinal, uma reunião sobre Estudo de Filosofia Rosacruz é algo cansativo, um “descer penoso” em que podemos adormecer.

Somam-se, assim o dispêndio de um esforço ambicioso e egoísta, desequilíbrios emocionais oriundos de concorrência mundana, o acúmulo de sensações levianas e tolas, e tardes da noite tal maioria se deixa adormecer. Não pensa no “Cristo menino”, dentro de si – o Cristo Interno –, que precisa de alimento; não pensa no esforço dos Irmãos Maiores, todas as noites; não pensa, sequer, no privilégio de servir como Auxiliares Invisíveis, para ajudar os que, tolerantemente, aguardam as almas abnegadas e altruístas que desejam trabalhar com Eles na seara. Não tem tempo. Verdadeira “Marta”.

Cristo nos ensinou claramente que devemos “orar e vigiar[1], incessantemente. Não significa que devamos ficar o tempo todo a orar, desleixando nossos deveres. Ele mesmo obedeceu às leis da sociedade em que vivia, sem, contudo, se apegar. Orar sem cessar quer dizer: pensar, sentir e agir sempre em consonância com o Senhor Cristo. Não importa a natureza de nosso trabalho. Todos são dignos, desde que os façamos em nome do Senhor. Então somos “Maria”.

Vejamos outro dos muitos personagens que podem nos refletir: o pequeno Zaqueu. “Era chefe dos publicanos e rico. Procurou ver quem era Cristo, porém não o conseguia por causa da multidão e porque era de pequena estatura. E correndo se adiantou e subiu em uma árvore para vê-Lo passar”[2]. Enquanto estamos envolvidos nas coisas do mundo somos pequenos. Mas se desejamos algo mais elevado, podemos nos adiantar, esforçando-nos mais que o comum dos seres humanos e subindo com a ajuda de uma Filosofia esotérica iluminadora, a fim de sentir a presença e ouvir a voz que nos diz: “hoje ficarei em tua casa”. E passaremos a empregar parte de nossos recursos na elevação da Humanidade carente, em vez de conservá-los egoisticamente em nosso único proveito (física, emocional, mental e financeiramente).

Os Evangelhos terminam com a morte e paixão de Cristo-Jesus. E S. João acrescenta que muitas outras coisas poderiam dizer, mas que por ora não as suportaríamos.

A Paixão recomeça todos os dias. A Humanidade, os novos autores, ensaiam seus papéis. Milhões e milhões de indiferentes, dos covardes, dos que “lavam as mãos”; depois os milhões que face aos problemas, e momentos difíceis, negam seus ideais superiores, como os “S. Pedros”; os “Judas Iscariotes” que traem a consciência d’Ele com um “beijo” falso, os milhares de carrascos que se comprazem em explorar o fraco, espezinhar o débil, os brutos com seus açoites diversos, o funcionário com seu frio regulamento diante da mesma face dolorosa, infinitamente paciente, infinitamente amorosa que se cala e nos dirige aquele olhar que despedaçou o coração de S. Pedro e fê-lo branquear os cabelos numa noite. Aquele olhar de ternura, de interrogação e de espera.

E mais do que nunca há vítimas que sofrem perseguições injustas. Em nossa casa, junto de nós, há alguém que chora, alguém que sofre, alguém sequioso de orientação e conforto, alguém com fome e frio, alguém doente, alguém de luto, alguém na solidão. Estão esperando por nós. Quem é Verônica? Quem é Simão Cirineu? Quem é João, o discípulo amado? Quem é Pedro? Quem é Judas Iscariotes? Quem é José de Arimatea? Quem é Pôncio Pilatos? Quem é sua esposa?

Que oportunidade a nossa! Eternamente presente, Cristo-Jesus nos olha e nos espera: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste.” (Mt 25:40). Ele vive em nós, sofre em nós. Acompanhamos o drama. Queiramos ou não, somos levados a fazer parte d’Ele. Mas temos a liberdade de escolher o papel, embora seja uma liberdade relativa. Podemos esclarecer e converter alguns da multidão indiferente para que O amem; dos que O odeiam, para que O conheçam pelo menos, porque só a ignorância gera o ódio. Podemos conseguir alguns servos vigilantes, alguns corações amorosos, para que nos ajudem a continuar-lhe a obra de redenção dos que “não sabem o que fazem[3].

O teatro está sempre aberto. Uma parte sai e a outra entra em cena. Vivemos repetindo a peça. Variações sobre o mesmo tema. Sabemos nosso papel de cor. Julgamos conhecer o Evangelho. “Estamos prontos” – dizemos ao Grande Diretor.

Mas ficamos ofuscados quando entramos em cena neste mundo, ansiosos de glória, desejosos de aplausos, preocupados demais com os trajes, com os efeitos. Distraímo-nos. Não vivemos o papel despretensiosamente. E perdemos a oportunidade.

Em dado momento cai o pano para a nossa parte no mundo e o Diretor irrompe em nosso camarim: que houve com você? Por que não representou? E o ator confuso e envergonhado, responde: perdi a noção de meu papel, deixei-me levar pela assistência e pelo que podiam pensar de mim, não julguei que fosse assim antes de entrar.

De que valem as escusas? Sim há o infinito pela frente, mas o tempo perdido não volta mais. Temos que enfrentar novamente as mesmas falhas até vencê-las. Repetir a cena. Como há mais de dois mil anos, hoje a mesma coisa. Feliz o servidor que o Mestre, à sua chegada, encontra vigilante. “Minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me conhecem e seguem.” (Jo 10:27).

Felizes dos que ouvem essa voz e a seguem. “Pois assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam mais para lá, mas embebem a terra, fecundando-a e fazendo-a germinar para que dê semente ao que semeia e pão ao que come, assim será a minha palavra: saída da boca não tornará a Mim vazia, mas fará tudo quanto quero e prosperará onde eu a enviar.” (Is 55:10-11).

A Palavra de Deus é eficaz, é viva. É Água Viva da qual, alguém bebendo, jamais terá sede, conforme disse Cristo à mulher samaritana. Só podemos oferecer dessa Água se primeiramente a tivermos bebido. Não podemos dar a ninguém o que não temos. Não podemos comunicar senão o que temos vivido. Não podemos atrair os outros senão para aquilo que conhecemos.

É a palavra de Deus que deve determinar nosso apostolado, nossa ação.

Saibamos escolher e bem representar nossos papéis no mundo. Sejamos autênticos Cristãos, candeias que iluminam pelo exemplo, sais que não deixam a massa corromper e dão sabor à Humanidade, sal cuja presença é sentida sem se evidenciar.

 (Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1966 – Fraternidade Rosacruz – SP)


[1] N.R.: Mt 26:41

[2] N.R: E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe dos publicanos. Ele procurava ver quem era Cristo Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que iria passar por ali. Quando Cristo Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!”. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, eis que eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo”. Cristo Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele, também, é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (Lc 19:1-10)

[3] N.R.: Lc 23:34

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Um Pouco sobre a Simbologia do Natal em Nós

Estamos nos aproximando do Natal, época de grande significado para nós, Estudantes Rosacruzes. Façamos um pequeno histórico da nossa vida e de nossa relação com o acontecimento ocorrido há mais de dois mil anos, a fim de entendermos a ligação entre Deus, nós e as outras coisas.

Por certo, já devemos ter pensado no significado mais profundo do Natal e na sua importante ligação com a nossa vida. De fato, existe algo de profundamente grande nesse elo entre o Natal e nós.

Falam os Evangelhos de um ser de elevada evolução, Jesus de Nazaré, nascido em Belém, cidade da Palestina. Ele nasceu, por falta de estalagem, em lugar humilde, uma manjedoura onde se dava alimento aos animais.

Pensemos no que isso representa em nossa vida. Não é só um fato ocorrido há mais de dois mil anos, encarado apenas historicamente e sem relação alguma com a atualidade. Nada disso. Pensemos bem nessas coisas e não nos será difícil descobrir que elas dizem respeito a nós mesmos.

Em primeiro lugar, o nascimento de Jesus em uma manjedoura simboliza a profunda humildade que nós devemos considerar em nossa vida. Jesus foi o perfeito exemplo e Cristo demarcou, com os fatos do Seu ministério, os passos que todos nós, ao nosso tempo, deveremos percorrer conscientemente para voltar ao Deus-Pai.

Desde o Período de Saturno, nós, os Espíritos Virginais da Onda de Vida humana (ou a Hierarquia Zodiacal de Peixes) temos, vida após vida, desenvolvido e aperfeiçoado nossos veículos, inclusive a Mente, que nos proporcionará cada vez mais a consciência de nós mesmos como um indivíduo. Através da Mente e do desenvolvimento da razão, chave dessa Época, a Ária, iremos descobrir dentro de nós uma réplica da história de Jesus e mais profundamente sentiremos a relação que existe entre nossas vidas e a daquele amado Irmão Maior da Humanidade.

A meditação sobre o Natal vai nos levar a reconhecer algo muito sério que a grande maioria dos irmãos e das irmãs não alcançou ainda e o Cristianismo popular, por isso (em parte), não explica.

Bethlehem (Belém) significa “casa de carne” em hebraico (“casa do pão” em grego antigo) e é o símbolo do corpo material – o Corpo Denso –, que é composto de elementos químicos. Mesmo já domesticados, dentro desse Corpo existem os “animais dos nossos instintos”, porque a manjedoura do nosso coração não abriga apenas sentimentos elevados. Ali, sob o influxo divino evolutivo, destinado um dia a abrigar um “Cristo adulto”, nasce “Jesus”, o Espírito interno que surge mais definidamente dentro de nós, após tantos anos de escravidão (e que se tornará o Cristo Interno), filho de José, a Vontade educada, e de Maria, a Imaginação pura. Desses dois atributos primeiros da Divindade surge o Verbo que se fez carne.

Quanto mais não podemos deduzir de tão sublimes ensinamentos à luz da Filosofia Rosacruz, que tudo nos alumia? Em tão curto espaço não poderíamos nos estender.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de dezembro/1966-Fraternidade Rosacruz-SP)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Sol Místico da Meia Noite no Natal

Mais uma vez, a dança circular mística revelada do Sol vai sendo executada em sua órbita e, novamente, ficamos aguardando com um regozijo antecipado o nascimento de um novo Sol para nos levar ao próximo ano. Não obstante a Grande Guerra[1], o Espírito do Natal está no ar, o Espírito da expectativa, o sentimento de que algo novo está entrando em nossas vidas e que o futuro será mais brilhante do que o passado e isso tudo será para todos. Embora todas as calamidades e sofrimentos contidos na Caixa de Pandora[2] pareçam estar no lado de fora nesse momento, a Esperança, o presente celestial dos Deuses, sorri nos encorajando, enquanto ela aponta para o revestimento prateado da grande nuvem da guerra e, nos diz que, por trás dessa nuvem, o Sol da paz e alegria será mais luminoso do que nunca, e que atualmente iluminará a Terra com um esplendor tal que nunca foi apreciado por nós.

Contudo, existem alguns que são fisicamente cegos e, embora o Sol nunca brilhe tão intensamente, eles não o percebem. Também, existem aqueles que são espiritualmente cegos e, consequentemente, incapazes de ver a grande onda espiritual que desce anualmente sobre a Terra. Devemos ter dentro de nós esse órgão de percepção, pois, como diz Angelus Silesius:

“Embora Cristo nasça mil vezes em Belém,

Se não nascer dentro de ti, tua alma seguirá extraviada.

Olharás em vão a cruz do Gólgota,

Enquanto ela, também, não se erguer em teu coração”.

Ano após ano, o Místico iluminado vê esse grande Drama Cósmico, da descida do Espírito na matéria, ocorrendo ante sua visão espiritual. Não é uma visão vaga e indefinida e dependente de certos sentimentos, mas é uma apresentação clara e precisa nos mínimos detalhes. Não é necessário que o Espírito nos Mundos invisíveis assuma uma determinada forma definida, exatamente como fazemos no Mundo Físico, pois, qualquer forma que tenha um certo contorno nítido implica em limitação.

Um Espírito pode permitir que sua forma se misture com às formas de outros Espíritos, podendo permear até os Corpos Densos de outros e ainda reter sua própria Individualidade, porque ele vibra em um certo tom ou Nota chave diferente daquela de todos os outros. Assim, em setembro, o Clarividente Voluntário treinado e iluminado percebe o Espírito Crístico Cósmico como uma poderosa Onda de Luz de supremo esplendor, descendo sobre a Terra que Ele permeia.

Em torno do dia 21 de dezembro, essa luz celestial alcança o centro de nossa esfera terrestre. Então os dias são mais curtos, as noites são mais longas e mais escuras, “mas a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a apreenderam[3]. Os impulsos vibratórios motrizes fornecidos à Terra, durante os primeiros meses de cada ano, quase se esgotaram; no Natal, a Terra está cristalizada, morta e fria, e se essa nova vida do Espírito de Cristo não fosse derramada na Terra para renovar suas energias por mais um ano, toda a vida em nosso Planeta pereceria.

Sempre houve muita especulação sobre a natureza da “estrela” que brilhou em Belém à meia-noite. A opinião ortodoxa[4] sustenta que a Imaculada Concepção e o Nascimento de Jesus são os únicos na história da Onda de Vida humana; ela supõe que a “Estrela de Cristo” foi vista no firmamento apenas naquela ocasião; mas os Sábios que, pela alquimia do crescimento anímico, estão se esforçando para construir dentro de si a pedra angular que foi rejeitada pelos construtores, mas que é valorizada por todos os filósofos, sabem que a Luz de Cristo não pode ser encontrada fora de nós.

Eles sabem que o axioma hermético que expressa a lei da analogia “como acima é embaixo” também se aplica nesse caso, e que o Cristo formado dentro deles deve procurar a Estrela do Cristo dentro da Terra, pois, novamente citando Angelus Silesius, “seria impossível para um Cristo salvar o Mundo, estando fora da Terra, como é para um Cristo no Gólgota nos salvar”. Até que o Cristo nasça dentro de nós, e até que o Cristo nasça dentro da Terra, Ele não pode realizar Sua missão.

Portanto, na noite mais longa e mais escura de cada ano o Místico se ajoelha em silenciosa adoração, olhando internamente por meio da visão espiritual. Cultivada por ele, em direção ao centro da Terra, onde a maior e mais elevada Luz que já brilhou na terra ou no mar, ilumina o mundo inteiro com resplendor e luminosidade que são avassaladores.

E então, o ser humano sábio traz seus dons e os oferece aos pés do recém-nascido Salvador. Ele pode ser pobre diante dos bens materiais do mundo; pode até não ter um lugar para descansar a cabeça, no entanto, seus dons são mais preciosos do que qualquer quantia extremamente grande de dinheiro que se possa imaginar. Durante sua vida de Aspiração, ele cultivou bens preciosos e o primeiro a ser oferecido no Altar do Sacrifício é o Amor.

 “O amor não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconveniente, não busca os seus interesses, (…) não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; (…) se houver profecias, falharão, e se houver ciência desaparecerá, porque agora permanecem a , a Esperança e Amor, mas, a maior das virtudes é o amor[5]. “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna[6]. E esse grande presente não foi dado para sempre, mas, a cada ano o Filho de Deus renasce, novamente na Terra, para vivificar esse Planeta com Suas vibrações superiores, para que possamos ter vida e vida em abundância.

Assim como o Espírito Humano morre no plano espiritual quando nasce no Mundo Físico, também o Espírito de Cristo morre na Esfera Solar quando, por nossa causa, nasce na Terra na época do Natal. É confinado pelo ambiente de cristalização que criamos. Verdadeiramente, “ninguém tem maior amor do que dar a vida por seus amigos”[7], e Cristo disse: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu mando, (…) e esse é o meu mandamento: amar uns aos outros[8].

Portanto, o amor do Místico, oferecido sobre o Altar do Sacrifício no grande festival da Noite Santa, não é abstrato, mas se expressa em atos concretos para com todos com quem ele entra em contato durante o ano seguinte. Seu segundo presente para o recém-nascido Salvador é a devoção. O fogo do entusiasmo deve arder no peito de todo Aspirante à vida superior, pois nenhuma observância fria dos ritos religiosos, nenhuma entrega de presentes sem esse sentimento intensamente devocional pode ter qualquer valor na luz espiritual. Foi dito que um dos antigos Reis Israelitas praticou o mal com ambas as mãos avidamente; assim também o Aspirante à vida superior deve praticar o bem com ambas as mãos avidamente: todo o seu coração, toda a sua alma e toda a sua Mente devem ser oferecidos sobre o Altar do Sacrifício, e como se diz: do mesmo modo que o incenso dos sábios, mencionados na Bíblia, encheu o lugar da natividade com perfume, assim também, deve esse fogo de entusiasmo acender nossa devoção, para que o “incenso” possa penetrar em todo o ambiente com a devoção para a causa dos Irmãos Maiores.

Contudo, o amor, a devoção e o entusiasmo oferecidos pelo Místico sobre o altar do recém-nascido Cristo não são separados e afastados de d’Ele mesmo. Ele não pode dar sem incluir o maior e melhor de todos os presentes, o único presente valioso; ou seja, Ele mesmo. Não importa qual seja sua posição na vida, elevada ou baixa, rica ou pobre, essa não é uma preocupação de Cristo. O Espírito falando com ele sempre lhe diz: “Filho, eu não desejo aquilo que é teu, pois isso já é Meu; a Terra e a sua plenitude, o gado nas mil colinas, todos foram feitos por Mim e através de Mim[9], contudo, o que eu desejo é você mesmo, o seu coração. Dá-me o teu coração, Filho, e eu te darei o que é mais do que tudo, a Paz que supera todo o entendimento[10]. E possa a “Pomba da Paz”, o Amor de Cristo, logo encontrar um novo apoio em nosso mundo desgastado por essa guerra.

(De Max Heindel, publicado na Revista Rays from the Rose Cross de janeiro de 1916 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)


[1] N.T.: Refere-se à Primeira Guerra Mundial

[2] N.T.: Caixa de Pandora é um artefato da mitologia grega, tirada do mito da criação de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus. A “caixa” era na verdade um grande jarro dado a Pandora, que continha todos os males do mundo.

[3] N.T.: Jo 1:5

[4] N.T.: ou exotérica

[5] N.T.: ICor 13:4-13

[6] N.T.: Jo 3:16

[7] N.T.: Jo 15:13

[8] N.T.: Jo 15:14-17

[9] N.T.: Sl 50:10

[10] N.T.: Pb 23:26 e Fp 4:7

Idiomas