Aprendemos nos Estudos Bíblicos Rosacruzes que “a cada dia basta o seu cuidado”[1]. Devemos compreender isso como: “não fazer planos e mais planos”?
Sim, devemos! Contudo, devemos interpretar devidamente os Ensinamentos Cristãos. Se eles não servissem para imediata aplicação na vida prática, seriam inúteis. Não é possível que os princípios tenham podido subsistir através de mais de vinte séculos, se não portassem bom senso e sabedoria aplicáveis à vida de todos os dias.
Ninguém colhe antes de plantar. E plantando, ninguém pode abreviar a colheita, além das possibilidades naturais. E dentro dos recursos naturais a terra nos dará os frutos correspondentes à sementeira e aos cuidados no cultivo. Se houver geada, ou seca ou chuva demasiada, será isso por circunstância imprevista e independente dos cuidados atuais, mas não injusta. Terá uma ligação com o passado.
Igualmente se passa na seara interna e social. Devemos cuidar do “aqui e agora”. O ontem já passou. O amanhã ainda não chegou. Pensar no passado é perder o presente; pensar no futuro é querer vivê-lo duas vezes: uma, antecipada e hipoteticamente; outra, quando o vivermos realmente. A primeira vez foi inútil.
Se vivermos realmente bem o dia de hoje, estamos de acordo com a Bíblia e vida prática. Seguramente virão os frutos correspondentemente bons. Mas não basta plantar; é preciso cultivar, cuidar, proteger, para que a semente atinja o objetivo. Isso se aplica a qualquer campo de atividades: moral, artístico, técnico, intelectual, sentimental. A negligência do cultivo é que originou o brocardo: “a felicidade é fácil de ser conquistada, mas difícil de ser conservada”.
Se, apesar de nossos esforços presentes, a adversidade nos fustiga e dificulta, há uma explicação lógica: ou representam consequências de ações erradas do passado, ou de erros presentes, por ignorância. Nesse caso deve o agricultor estudar, aqui e agora, como melhorar. Como consequência de causas passadas, pode a terra estar cansada; pode estar cheia de formigueiros que não foram erradicados; pode não servir para a planta que ali está e sim a outra, a menos que a preparemos quimicamente, havendo vantagem; pode haver falhas presentes ou então como a chuva, seca, de imprevistos fatores, pode ser o que chamamos “má sorte”, “azar”, “desgraça”, mas que realmente tem sua explicação: efeito inevitável de causas erradas, que devemos pagar sem murmúrio e nem desânimo quanto ao futuro.
Afinal, sempre e sempre nos lembremos: “Não penseis no que haveis de comer ou vestir; olhai os lírios dos campos. Nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles; olhai os passarinhos dos céus: não fiam, não entesouram, mas o Pai celestial os alimenta. E se Deus não deixa faltar à erva do campo e aos pássaros, quanto mais a vós, homens, que sois muito mais do que eles?” (Mt 6:25-34).
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1970-Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Mt 6:34
No nome de Cristo Jesus mora a Suprema força do Iniciado. Eis o motivo pelo qual S. Pedro nos ensina: “Pedro lhes disse: ‘arrependei-vos e batize-se cada um de vós, em nome de Cristo Jesus, para o perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.’” (At 2:38).
Complementado pelo que S. Paulo nos ensina: “Ao seu nome todo joelho se dobrará.” (Fp 2:10).
A palavra “amém” está composta de duas letras masculinas e duas femininas, correlacionadas com os quatro Elementos do: Fogo, Ar, Água e Terra. Quem pode entoar adequadamente esse nome, controlará todos os habitantes e as forças dos elementos. Poder adquirido pelos Discípulos no transcendental evento conhecido como Pentecostes.
Aprendemos nos Estudos Bíblicos Rosacruzes que há uma descrição da vida das primeiras comunidades Cristãs que nada mais é do que um ideal. Ei-la: “E perseveraram na doutrina dos Apóstolos, em comunhão uns com os outros, compartilhando o pão e orando. E sobreveio temor a todos; e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos Apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam a todos segundo a necessidade de cada um. E perseverando unânimes cada dia no Templo, repartiam o pão nas casas, comiam juntos com alegria e simplicidade de coração.” (At 2:42-46). Fácil compreender que ali se encontra o ideal da Nova Era – a Era de Aquário –, onde a amizade e a fraternidade serão demonstradas e praticadas cotidianamente. É somente pela prática, na vida diária da fraternidade, que se abrirão as portas do Templo da Sabedoria. Jamais encontraremos a luz até que aprendamos a manifestar o espírito de irmandade. O estudo dos livros fornece somente um conceito intelectual dessas verdades, porém aquele que se capacita a recebê-las na fonte é quem vive os princípios sobre os quais elas estão fundamentadas. É o famoso pensar com o Coração.
A formosa vida desses primeiros Cristãos foi um poderoso imã de atração. Ali, onde não existiam distinções de casta ou clã, nem patrícios nem plebeus, nem ricos nem pobres. Os neófitos conviviam e cada um era tratado e aceito como um irmão e como uma irmã. Suas comunidades eram centros de amor e de serviço, nas quais ninguém era excluído. Eles observavam extrema simplicidade em todas as coisas, redimindo pessoas que eram presas à imoralidade e práticas dissolutas, remanescentes da passada Era de Touro.
Admiráveis forças espirituais foram desenvolvidas e manifestadas no meio dessa gente. O grupo íntimo formava uma reunião com seu único Mestre, Cristo, que estava frequentemente entre eles, fortalecendo-os, estimulando-os e inspirando-os. Eles haviam aprendido também a segui-lo nos Mundos espirituais, dos quais Ele lhes havia dito: “Não podeis seguir-me agora, porém, o fareis depois” (Jo 13:36).
Apesar das frequentes perseguições e martírios a que eram expostos, esses primeiros Cristãos alcançaram uma sublime consciência, experimentando um profundo êxtase espiritual que ultrapassa toda compreensão humana e não pode ser comparado a coisa alguma. Cada noite, em alegre reverência, reuniam-se para uma frugal refeição, chamada na Grécia “ágape”, ou festa de amor Crístico. Seguia-se a isto, um período de estudo e celebração da Eucaristia. Depois, dava-se sequência a uma classe limitada àqueles avançados e maduros espiritualmente. Prosseguindo essas normas, novas e extensas forças de cura, profecia e visão foram desenvolvidas no meio deles, juntamente com a habilidade de comunicação com seu dileto Mestre. E isso porque vivenciavam tal Ensinamento de Cristo: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8:31-32). Simples assim!
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross e traduzido e publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro-fevereiro/1987 – Fraternidade Rosacruz-SP)
De acordo com Max Heindel, sabemos que Maria e José foram elevados Iniciados nos Mistérios (Iniciações) Cristãos. Estavam imbuídos plenamente da missão que lhes tocava, assim como Jesus. Quando Jesus Cristo falava com Maria e lhe dava aquelas respostas[1], era o Cristo e não o homem Jesus que falava. Podemos alcançar uma maior compreensão quando Cristo Jesus, em Seu último alento, deixou Sua mãe aos cuidados de S. João evangelista, Seu Discípulo, segundo lemos no Evangelho Segundo São João 19:26[2], demonstrando o laço profundo entre a mãe e o filho. Quase Seu último pensamento e pedido foram nela e para ela.
Nos tempos presentes, vemos a mulher ocupando os postos que até pouco tempo eram ocupados somente por homens, em alguns casos. Porém se ouvimos a conversa delas nos distintos aspectos da vida, podemos verificar seus fortes desejos de poder dar mais atenção ao lar e viver ao lado de seus familiares. Sabemos que renascemos umas vezes homem e outras mulher e é necessário que aprendamos tudo o que nos seja possível em cada Corpo Denso masculino e feminino. Maria cumpriu seu trabalho familiar muito bem. Trabalhou com José, porém não encontramos nenhum indício de que ele tivesse exercido domínio sobre ela. Sem dúvida, encontramos muitos relatos do trabalho de Maria no lar. Sabemos que a túnica de uma só peça que Cristo usava quando foi crucificado havia sido tecida por ela.
A grande influência que as mulheres exercem sobre os homens está indicada no conhecido dito: “A mão que embala o berço governa o mundo”. O êxito do homem é amiúde devido à influência de sua esposa, mãe ou noiva. Temos muitos exemplos disso e todos os grandes homens dão muito crédito aos conselhos maternais. Lincoln disse que tudo o que ele era e esperava ser devia-o a sua mãe. Em todas as grandes crises encontramos uma mulher atrás da cena. Nem todas as mulheres, em sua capacidade, têm sido boas, e é então quando se têm provocado muitos distúrbios ao mundo; porém o fato é que sempre existe uma mulher por detrás dos bastidores.
De acordo com a Bíblia, José era muito mais velho do que geralmente se supõe. Quando lemos sobre sua participação no plano, notamos, sobretudo, seu cuidado com Maria e Jesus, e sua devoção e completa obediência à vontade de Deus. Todos os seus pensamentos convergiam à ternura pela mãe e o filho. José deu por cumprida sua missão quando Jesus estava preparado para entregar seu corpo ao Cristo. Somente Maria esteve com Jesus, com seu amor e devoção, até que Ele expirou.
Durante os trinta anos da vida de homem, Jesus obedeceu a todas as Leis vigentes da Terra. Porém, quando Cristo tomou posse de seu corpo, no Batismo, começou a mudar as Leis e dar novos ímpetos ao mundo. Tão logo o Cristo começou Seu ministério, as mudanças foram maiores e nos três curtos anos cumpriu Sua missão para a qual havia vindo, ou seja, a de Salvador do Mundo.
Não nos esqueçamos das outras Marias que tomaram parte nas vidas de Maria e Jesus. Não é estranho que as três tivessem o nome de Maria? Cada uma delas ilumina alguma das fases da vida da mulher. A história de Maria e Martha é uma das quais estamos familiarizados. Por que Maria ficou com Jesus enquanto Martha trabalhava na cozinha? Por que Maria Madalena ungiu os pés de Nazareno com azeite perfumado? Porque elas tinham parte na missão de Jesus. Maria Madalena é uma das Marias que mais nos intriga. Ela tomou parte na redenção. Trabalhou seu destino por meio da superação de sua Mente e de sua alma. Todos nós sabemos que Maria Madalena havia quebrado muitas das leis, porém, com a ajuda de Jesus Cristo se redimiu e começou vida nova.
Aproximava-se a hora em que Cristo Jesus tinha de se apresentar aos judeus como seu Rei e Messias prometido. Quantas alegrias sentiria o coração de Maria, ao observar seu filho fazendo os primeiros milagres de cura! Quanto teria sofrido ao saber que seu filho bem-amado teria que caminhar sozinho os anos restantes de Sua vida! Aqui vai uma lição para todas as mães: quantas há que, ao chegar a hora em que seus pequeninos tenham que provar suas próprias asas e começar a viver suas próprias vidas, estão dispostas a dar-lhes a liberdade de que necessitam?
Diz-se no Novo Testamento que quando Cristo falava às multidões, Maria e Seus irmãos vieram e desejaram falar-Lhe, e sua resposta foi: “Quem é minha mãe, e quem são os meus irmãos? (…) Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12:46-49). Maria compreendeu isto porque sabia que já não havia o mesmo laço familiar com Cristo como o tinha com Jesus. Sabemos que durante os últimos dias e noites de provas, Maria falava com Deus e teve que receber muitas bênçãos porque continuou a missão d’Ele até o final.
Como a alegria que Maria teve ao ter o menino entre seus braços, também teve a dor de sustentar o Corpo sem vida de Cristo Jesus, enquanto José de Arimatéia ia procurar um pano para envolvê-Lo. Depois que corpo d’Ele foi levado, Maria foi com João evangelista, pois sabemos que João a levou para sua casa e dela cuidou. Maria viveu o suficiente para saber que a missão para a qual ela e Jesus haviam nascido havia se cumprido, e que tudo se havia feito de acordo com a vontade e orientação Divinas.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz novembro/1977 -Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Por exemplo no evento as Núpcias de Canã (Jo 2:2): “Então Maria lhe disse: ‘Eles não têm mais vinho’. Respondeu-lhe Cristo Jesus: ‘Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou’”.
[2] N.R.: “Cristo Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’”.
Todo o Cristão ora. A Oração é um ato generalizado em toda a coletividade Cristã e em toda a coletividade que crê em Deus. Orar é agir com a Mente e com o Coração ao mesmo tempo, em comunhão com as coisas superiores: é elevar a alma aos planos superiores, num movimento de aproximação.
Todo o Cristão ora, mas nem todos sabem orar e pode-se dizer que tanto mais eficaz é a oração, quanto mais sereno estivermos nessa hora, ou nesse momento. A aflição, a impaciência, um movimento forte de emoção neutralizam a intensidade da oração, por isso se aconselha que por mais forte que seja a necessidade ou a vontade de orar, quando se está em desespero, é melhor esperar a calma para depois fazer uma oração como se deve. A oração é um trabalho interno, de grande valor, porque é a concentração de forças espirituais no sentido de um entendimento com os Mundos das causas, os Mundos espirituais.
Se não houver uma harmonia perfeita do pensamento que dita a expressão de uma oração e dos sentimentos que traduzem essa expressão, a oração não tem intensidade, portanto perde muito de seu valor. Ela é tanto mais perfeita, quanto mais consciente e mais sentida for.
Muita gente tem as suas orações decoradas. Se elas forem compreendidas no seu verdadeiro sentido e levarem a força do sentimento, essas orações levam o efeito da sua repetição, que é um efeito infalível e a correspondência de seus sentimentos, mas, é preciso dizer que as orações que estão apenas no domínio da memória são vazias, sem consistência e, portanto, sem resultado. O que não é consciente é inconsequente. Essas orações decoradas têm, geralmente, palavras muito bonitas e de uma força de expressão, mas, de nada valem essas expressões, se não levarem um pouco da alma, se não produzirem um contato dentro de nós com o Espírito de Deus, num entendimento mútuo, num reconhecimento.
Deus está em nós e nós sentimos profundamente a Sua presença quando oramos com consciência e sentimento, com calma e confiança. E as orações conscientes, plenamente esclarecidas, são as orações espontâneas, criadas no momento, num esforço de elevação da alma, em confissão, clara e sincera, numa comunhão dos sentimentos mais elevados com o que realmente somos, o Deus Interno. Essas são as orações do verdadeiro Cristão e devem ser adotadas pelos Estudantes Rosacruzes. “Esoterismo”, no seu sentido gramatical, quer dizer “íntimo” de “dentro”.
No sentido espiritual, “Esoterismo” quer dizer desenvolvimento das faculdades mais íntimas, mais profundas que possuímos, latentes. Então, para que uma oração seja esotérica, é preciso que ela venha do íntimo de nossa consciência, numa força natural e pura, numa exposição clara de nossos pensamentos. E é assim que falamos nessas ocasiões, por meio da nossa consciência, e muitíssimas vezes, em meio de uma meditação profunda, em forma de oração, nós sentimos a nossa ignorância, os enganos da nossa conduta, dos nossos modos de agir, e percebemos o caminho mais certo.
É fato comum entre os Estudantes Rosacruzes perceber, intuitivamente, os enganos existentes numa questão já começada e decidida, e então fazer as modificações adequadas. Isso porque nós, quando em comunhão com Cristo, os Irmãos Maiores e até os Auxiliares Invisíveis conscientes, nos sintonizamos e nos harmonizamos para que possamos agir, atuar na nossa vida, desde que sinceramente procuramos.
É pensando, refletindo, com a consciência aberta que nós atinamos com os nossos próprios defeitos e com os erros de nossas ações e, é orando, pedindo a Deus (o nosso Deus Interno) que nos ilumine, que a nossa consciência se torna clara.
A oração é, como se diz comumente, um ato de Fé e de Confiança em Deus. Por isso mesmo, é preciso que leve um pouco de nós mesmos, num sentimento maior ainda, que é o de amor à Deus. Não basta a confiança, é preciso amá-lo.
Qualquer pessoa tem direito de orar, de pedir a Deus, de se socorrer na grandeza e na bondade Divina, mas o direito é, em grande parte, a consequência do dever cumprido. É preciso que sejamos dignos dos pedidos que fazemos, mesmo porque, nada que não seja justo, não pode ser concedido, por efeito das Leis de Deus.
Diante das Leis de Deus muita coisa nos pode ser proporcionado, mas fora das Leis de Deus, nada pode ser fornecido e tem que ser assim para que haja equilíbrio e para que haja o desenvolvimento da nossa consciência, o aperfeiçoamento das nossas faculdades, o nosso progresso, enfim.
Esse progresso é tão certo, é tão infalível, que os Ensinamentos Rosacruzes, ao contrário de outros ensinamentos conhecidos, não aconselham a resignação total, a passividade em relação aos sucessos da nossa vida, sucessos que nós chamamos de fatalidade. A resignação deve ser relativa. Sabemos que muitas coisas de nosso destino são imutáveis (chamado de Destino Maduro que temos que passar por meio de adversidades, restrições e que requer muita paciência e muita fé); que nós mesmos as criamos e que temos de suportá-las. Sabemos que o nosso destino é como uma casa que construímos para nossa moradia. Se ela tem defeitos, nós mesmos somos culpados e temos de suportar, porque para corrigir os defeitos dela, ou para remover as portas, janelas, o teto, etc., seria preciso desfazê-la toda, pedra por pedra, para não promover mais desordem ainda, e construí-la de novo, pedra por pedra, outra vez. No entanto, pode-se suportar os defeitos dela, arrumando-a com jeito, enfeitando-a, ajeitando o seu interior de acordo com nossas necessidades presentes. Além disso, justamente por conhecermos e não nos resignarmos com os nossos defeitos maiores, irremediáveis, nós vamos, nela mesmo, trabalhando para a construção de uma casa melhor, mais aperfeiçoada, mais a gosto. Vamos reunindo o necessário e construindo devagar, uma casa mais cômoda e mais fácil, de modo que não devemos rebelar-nos com a nossa situação na vida, mas também não devemos nos resignar completamente e deixarmos que as coisas corram por si só. O que é preciso é nos acomodarmos na situação atual e trabalharmos para criar uma melhor. Isso tanto no sentido material como no espiritual. Vivemos sempre a pedir a Deus e, de nossos pedidos quase todos são de ordem material, por isso mesmo é que muitas vezes ficamos desapontados e tristes. Peçamos somente em favor do nosso entendimento, da nossa luz espiritual, em favor de nossos semelhantes, e nossa vida terrena correrá mais suavemente, sem tantos solavancos. É que o nosso, o Ego, progresso traz progresso material, na sua justa proporção, na sua medida adequada às nossas verdadeiras necessidades. “Buscai primeiro o Reino de Deus e o demais lhe será dado por acréscimo”[1], nos ensinou o próprio Cristo.
Saber “querer” é uma das condições mais importantes da nossa vida e do nosso progresso. “Querer” o que é justo é meio caminho andado para se obter. Querer dentro dos limites do nosso merecimento é obter naturalmente, mas, acontece que não sabemos ser justos nos nossos deveres. Estamos sempre falhando com eles ou deixando-os incompletos, já pensando em receber o pagamento. Somos como as crianças de escola, que com a pressa de ver a nota no caderno, entregam a lição sem terminar.
Se pensássemos mais, procuraríamos, em primeiro lugar, corrigir os nossos próprios defeitos, porque então faríamos tudo mais bem feito, e pela Lei de Causa e Efeito ou Lei da Consequência teríamos também recompensas mais completas. Se somos imperfeitos, como queremos ter causas perfeitas?
De outro lado, quanto melhor somos, maior é o nosso centro de atração simpática e mais facilidades encontramos na vida, como aconteceu, por exemplo, com S. Francisco de Paula, que sendo uma criatura humílima, conquistou toda a simpatia de uma aristocracia orgulhosa e privilegiada ao ponto de ser convidado para assumir um cargo na Corte. Ele recusou esse cargo, mas aproveitou a simpatia daquela gente rica e de prestígio para aumentar a sua caridade, para intensificar a prática do bem.
A oração é, pois, um dos nossos maiores auxiliares, não resta a menor dúvida. É um esforço, um trabalho da alma, numa elevação da Mente e do Coração às esferas mais elevadas, onde as forças espirituais são concentradas, mas é preciso que sejamos dignos, profundamente dignos em pensamentos, sentimentos, desejos, emoções, palavras, atos, obras e ações nas palavras que elevamos a Deus.
Examinando a nossa consciência notamos que em nossas orações poucas vezes nos lembramos dos outros e, no entanto, se quisermos, elas podem ser um veículo do nosso altruísmo. Se se faz orações coletivas em benefício de todos, porque é que a sós, não podemos repartir com eles o que de bem desejamos a nós.
Orar pedindo para os outros também aquilo que desejamos para nós é orar com Amor e Fraternidade.
Max Heindel aconselha-nos ainda mais: tudo o que pedimos a Deus, que seja para servir aos outros também. Tudo o que recebermos, que não seja guardado unicamente para o nosso próprio bem; que tenha utilidade para os que também precisam.
Tudo o que de “graça se recebe, de graça deve-se dar”, nos ensina os Evangelhos, e tudo que se consegue a custo de esforço e trabalho, também não deve servir ao nosso egoísmo e sim ao nosso altruísmo, porque então, além da boa vontade, leva também um pouco de nós, da nossa energia e da nossa capacidade.
Dar a sobra, não quer dizer nada, repartir o pouco que se tem, isto sim é caridade!
A oração, pois, elevada com amor a Deus e com amor aos nossos semelhantes, no silêncio, no recolhimento da nossa consciência, pode-se dizer que é mais um ato de fé; é um ato de reconhecimento de Deus em nós mesmos; no íntimo de nosso ser, no âmago de nossa Natureza. E Max Heindel aconselha-nos também, com insistência, a meditação: voltar nossos pensamentos para dentro de nós mesmos. Perguntar à nossa consciência o que temos feito. Ela com certeza responderá: pouco ou nada; sentir dentro de nós essa união com Deus é o principal objetivo de uma meditação, é fazermos à nossa consciência o compromisso de uma conduta louvável e útil à coletividade.
Cristo legou-nos a Oração do Senhor ou “O Pai Nosso”, uma oração completa, que pronunciada com convicção e sentimento, atende a todas as nossas necessidades, espirituais, materiais e sentimentais, que tem, em cada uma de suas partes, vibrações apropriadas a cada um dos nossos veículos externos e internos.
Essa oração interpreta as nossas necessidades de subsistência para prosseguirmos na luta de todos os dias, o desejo de redimir os nossos erros e compreender os erros dos outros, o pretexto de confiança, de fé e reconhecimento da vontade divina, infalível e sábia nos seus desígnios; a preservação do erro e das fraquezas, que são sempre provocados pelo Corpo de Desejos; a claridade da Mente para discernir o bem do mal e assim por diante.
Ao pronunciarmos o Pai Nosso, meditando e analisando cada uma de suas expressões, com intensidade de sentimento, com calma e clareza de ideia, podemos dizer que estamos sentindo em nós o Espírito de Deus. Max Heindel proporcionou-nos um presente dos Céus, um bem inefável, ensinando-nos a interpretação dessa Oração nos fornecida diretamente por Cristo[2].
Ela fala a todo o nosso mundo interno e coloca-nos junto a Deus, como um filho que procura a mão protetora do Pai. Essa oração deve nos servir de guia para todas as outras que fizermos, por nossas próprias palavras, de acordo com o estado de alma do momento. Ela nos ensina a falar com a consciência aberta, diretamente ao nosso Cristo Interno, na mais plena e absoluta confiança.
A palavra é uma força, e toda a palavra pronunciada com convicção, mesmo que fique solta no ar, é uma semente a germinar e um dia dará frutos. Nada se perde no Universo, nem mesmo um som qualquer, isolado perdido no espaço. Esses, conduzidos pelas ondas hertzianas, são conduzidos até onde podem ser reproduzidos.
Assim são as palavras. Uma vez pronunciadas com sentimento, provocam, infalivelmente, o efeito, como a resposta, muito embora demore um pouco. Boas ou más, elas vão e voltam trazendo a consequência, por isso devemos ter muito cuidado com as expressões, principalmente com aquelas que se diz em momentos de emoção, e com as que se pronuncia em forma de pedido às forças superiores.
Por grande que seja a nossa necessidade, por premente que seja a situação do momento, é melhor não a fazer se não se conseguir um pouco de calma. Quando a angústia alvoroça o nosso coração, é melhor, num pensamento único e confiante, entregar a Deus a questão. Confiar absolutamente, porque muitas vezes, o tumulto das emoções nos leva a pensamentos e palavras disparatadas, que sentidas e ditas com intensidade, podem provocar reação equivalente. O nosso Corpo de Desejos é impaciente e, na maioria das vezes, perturba a nossa Mente, mormente em casos difíceis, e nos leva a perturbar também as ideias, a palavra, o que nos leva a reações indesejáveis. O melhor meio de se aguentar um vendaval é parar junto a um apoio seguro, como fazem as pessoas que, durante os temporais de areia, se agasalham junto às muralhas e ficam imóveis enquanto o vendaval lhes passa por cima das cabeças. Do mesmo modo, um revés, uma dessas borrascas na vida que acontece a toda gente, deve ser suportado com a concentração das forças e com o pensamento firme em Deus.
Voltando à oração, há trabalhos na vida, trabalhos altruísticos, que valem por uma oração profunda. Há trabalhos, mesmo na nossa vida diária, em nossas profissões, que feitos com honestidade e interesse pela coletividade, também são orações oferecidas a Deus. A oração comum, a prece é um trabalho da Mente e dos sentimentos elevados a Deus, diretamente, mas há ainda outros meios de nos elevar, de estimular as nossas faculdades superiores e orar: é amar os nossos semelhantes e respeitá-los, proceder em tudo o que fizermos, com boa fé, com amizade, com vontade de ser útil. Essa é a melhor maneira de se orar, servir amorosa e desinteressadamente ao próximo, e servir a Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de dezembro/1980 Fraternidade Rosacruz São Paulo-SP)
[1] N.T.: Mt 6:33
[2] N.T.: Podemos comparar a Oração do Senhor (Pai Nosso – Mt 6: 9-13) como uma fórmula abstrata ao melhoramento e purificação de todos os veículos do ser humano.
O cuidado a prestar ao Corpo Denso está expresso nas palavras: “o pão nosso de cada dia dai-nos hoje”.
A oração que se refere às necessidades do Corpo Vital é: “perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.
O Corpo Vital é a sede da memória. Nele estão arquivadas subconscientemente as lembranças de todos os acontecimentos passados, bons ou maus, isto é, tanto a injúria como os benefícios feitos ou recebidos. Lembremos que, ao morrer, as recordações da vida são tomadas desses arquivos imediatamente depois de se abandonar o Corpo Denso e que todos os sofrimentos da existência pós-morte são resultado dos acontecimentos aí registrados como imagens.
Se pela oração contínua obtemos o perdão ou esquecimento das injúrias que tenhamos praticado e procuramos prestar toda compensação possível, purificamos nossos Corpos Vitais. Esquecer e perdoar àqueles que agiram mal contra nós elimina todos os maus sentimentos e nos salva dos sofrimentos pós-morte. Além disso, prepara o caminho para a Fraternidade Universal, que depende mui especialmente da vitória do Corpo Vital sobre o Corpo de Desejos. As ideias de vingança são impressas pelo Corpo de Desejos, em forma de memória, sobre o Corpo Vital. A vitória sobre isso é indicada por um temperamento equânime em meio dos incômodos e sofrimentos da vida. O Aspirante deve cultivar o domínio próprio, porque tem ação benéfica sobre os dois Corpos. A Oração do Senhor exerce o mesmo efeito porque ao fazer-nos ver que estamos injuriando os outros voltamo-nos para nós mesmos e resolvemo-nos a descobrir as causas. Uma dessas causas é a perda do domínio próprio, originada no Corpo de Desejos.
Ao desencarnar, a maioria dos seres humanos deixa a vida física com o mesmo temperamento que trouxe ao nascer. O Aspirante deve conquistar, sistematicamente, todos os arrebatamentos do Corpo de Desejos e assumir o próprio domínio. Isto se efetua pela concentração sobre elevados ideais, que vigoriza o Corpo Vital. É um meio muito mais eficaz do que as orações da igreja. O ocultista cientista prefere empregar a concentração à oração porque a primeira se realiza com o auxílio da Mente, que é fria e insensível, enquanto a oração, geralmente, é ditada pela emoção. Feita com devoção pura e impessoal, dirigida a elevados ideais, a oração é muito superior à fria concentração. Aliás, nunca poderá ser fria, porque voa para Divindade sobre as asas do Amor, a exaltação do místico.
A oração para o Corpo de Desejos é: “Não nos deixeis cair em tentação”. O desejo, o grande tentador da Humanidade, é o grande incentivo para a ação. É bom quando cumpre os propósitos do espírito, mas quando se inclina para algo degradante, para algo que rebaixa a Natureza, certamente devemos rogar para não cair em tentação.
O Amor, a Fortuna, o Poder, a Fama! Eis os quatro grandes motivos de toda ação humana. O desejo de alguma ou várias destas coisas é o motivo por que o ser humano faz ou deixa de fazer algo. Os grandes Líderes da Humanidade agiram sabiamente quando lhe deram tais incentivos para a ação, a fim de obter experiências e aprender. O Aspirante deve continuar usando-os como motivos de ação, firmemente, mas deve transmutá-los em algo superior. Por meio de nobres aspirações, deve saber transcender o amor egoísta que busca a posse de outro Corpo, e todos os desejos de fortuna, poder e fama fundamentados em razões pessoais egoísticas.
O Amor pelo qual se deve aspirar é unicamente o da Alma; que abarca todos os seres, elevados e inferiores e que aumenta em proporção direta às necessidades daquele que recebe.
A Fortuna pela qual se deve lutar é somente a abundância de oportunidades para servir os semelhantes.
O Poder que se deve desejar é o que atua melhorando a Humanidade.
A Fama pela qual se deve aspirar é a que possa aumentar nossa capacidade de transmitir a boa-nova, a fim de os sofredores poderem encontrar o descanso para a dor do seu coração.
A oração para a Mente é: “Livrai-nos do mal”. Como vimos, a Mente é a ligação entre as naturezas superiores e inferiores. Admite-se que os animais sigam os seus desejos sem nenhuma restrição. Nisso nada há de bom nem de mau porque lhes falta a Mente, a faculdade de discernir. Os meios de proteção empregados para com os animais que roubam e matam são muito diferentes do empregado em relação aos seres humanos que fazem tais coisas. Mesmo quando um ser humano de Mente anormal faz isso não se considera da mesma forma que ao animal. Agiu mal, mas porque não sabia o que fazia é isolado.
O ser humano conheceu o bem e o mal quando seus olhos mentais se abriram. Aquele que realiza a ligação da Mente ao “Eu superior” permanentemente, é uma pessoa de elevado entendimento. Se, pelo contrário, a Mente está ligada à natureza emocional inferior, a pessoa tem mentalidade inferior.
Por tais razões, a oração para a Mente traduz a aspiração de nos libertarmos das experiências resultantes da aliança da Mente com o Corpo de Desejos e de tudo quanto tal aliança origina.
No Aspirante à vida superior, a união entre as naturezas superior e inferior é realizada pela Meditação sobre assuntos elevados, pela Contemplação que consolida essa união e, depois, pela Adoração que, transcendendo os estados anteriores, eleva o espírito ao Trono.
No “Pai Nosso”, geralmente utilizado na Igreja, a adoração está colocada em primeiro lugar, o que tem por fim alcançar a exaltação espiritual necessária para proferir uma petição que represente as necessidades dos veículos inferiores.
Cada aspecto do Tríplice Espírito, começando pelo inferior, expressa adoração ao aspecto correspondente da Divindade. Quando os três aspectos do espírito estão colocados ante o Trono da Graça, cada um emite uma oração apropriada às necessidades da sua contraparte material. No fim os três se unem para proferir a oração da Mente.
O Espírito Humano se eleva à sua contraparte, o Espírito Santo (Jeová), dizendo: “Santificado seja o Vosso Nome”. O Espírito de Vida se reverencia ante sua contraparte, o Filho (Cristo), dizendo: “Venha a nós o Vosso Reino”.
O Espírito Divino se ajoelha ante sua contraparte, o Pai, e diz: “Seja feita a Vossa Vontade…”.
Então, o mais elevado, o Espírito Divino, pede ao mais elevado aspecto da Divindade, o Pai, para a sua contraparte, o Corpo Denso: “O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje”.
O próximo aspecto, em elevação, o Espírito de Vida, roga ao Filho, pela sua contraparte em natureza inferior, o Corpo Vital: “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.
O aspecto inferior do espírito, o Espírito-Humano, dirige o seu pedido ao aspecto mais inferior da Divindade para o mais elevado do Tríplice Corpo, o de Desejos: “Não nos deixeis cair em tentação”.
Por último, os três aspectos do Tríplice Espírito se juntam para a mais importante das orações, o pedido pela Mente, dizendo em uníssono: “Livrai-nos do mal”.
A introdução, “Pai nosso que estais no Céus” é somente um indicativo de direção. A adição: “Porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre, Amém” não foi dada por Cristo, mas é muito apropriada como adoração final do Tríplice Espírito por encerrar a diretriz correta para a Divindade.
Para muita gente ainda continua um mistério o significado real de a mulher de Lot ter-se convertido em estátua de sal, após contemplar a destruição de Sodoma e Gomorra. É bom recordar que isso aconteceu porque ela olhou para trás, saudosa.
Segundo o Antigo Testamento, as duas cidades celebrizaram-se como verdadeiros núcleos de licenciosidade. Eram, portanto, um centro de degeneração.
Encontramos aí um interessante simbolismo ou alegoria. Não se trata apenas de um relato bíblico. É algo muito mais profundo. Mais uma vez deparamos com a nossa própria história, sempre às voltas com os desafios inerentes ao caminho do progresso espiritual.
Sodoma e Gomorra simbolizam o elemento que, por se corromper, perdeu a sua utilidade, e o seu lugar, dentro do processo evolutivo. A mulher de Lot representa aquele tipo de irmão ou de irmã incapaz de libertar-se de hábitos nocivos e ideias ultrapassadas. Insensível a estágios ou vivências mais elevadas, apega-se a estruturas bolorentas e enferrujadas, embora só possa sofrer prejuízos com essa resistência. Olhando para trás, demonstrou sua ligação com aqueles restos que se consumiam, ao invés de encetar uma nova busca.
É uma perfeita alegoria à cristalização.
A grande maioria de nós, é bom ressaltar, traz consigo uma tendência à acomodação. Se, do ponto de vista material, a vida que leva é relativamente “boa”, se oporá, tenazmente, a qualquer tipo de mudança, mesmo salutar à sua formação espiritual.
A acomodação, diante de qualquer análise, surge como algo pernicioso. No Universo tudo se encontra em constante movimento, sempre em direção a degraus superiores. A inércia, por ser contrária às Leis da Natureza, gera reações às vezes violentas. Nós, por sermos elemento integrante do contexto cósmico, não deixamos de estar sujeito às Leis da Natureza, que são as Leis de Deus.
As transformações constituem uma necessidade evolutiva. São uma manifestação da Luz de Deus, sempre objetivando abrir mais amplos horizontes para a Humanidade. Sofremos porque resistimos às transformações, insistindo em permanecer impenetrável aos raios da Luz Divina. Às vezes, contemplamos a estrutura em que vivemos durante muito tempo ruir fragorosamente. Mesmo assim, cedemos à tentação de olhar para trás, observando demorada e nostalgicamente os escombros. É um indicador de nossa cristalização. O curso da própria vida acabará por nos reintegrar ao progresso. Isso, ocorre, quase sempre, às custas de muito sofrimento, dor e tristeza.
É importante “tomar do arado e não olhar para trás” (Lc 9:62), como exortou o próprio Cristo.
Conta-se que o conquistador romano Júlio César, quando aportou nas ilhas britânicas, ordenou a seus soldados que queimassem os navios. Assim, ninguém pensaria em voltar, recuando diante de um inimigo até então desconhecido. Lutariam ou sucumbiriam.
A vida costuma encaminhar-nos a situações complexas, em que o recuo se afigura impossível. Segurança interior, autoconfiança, fé, coragem, capacidade de adaptação, são testadas nessas ocasiões.
Temos que estar alertas e preparados para as mudanças. Elas acontecem quando menos esperamos.
Todos nós somos dotados de talentos, em maior ou menor grau de desenvolvimento. O uso desses talentos determina nosso crescimento. Há ocasiões em que Deus requisita nossos préstimos em Sua Seara. Essa convocação divina pode implicar em mudanças, talvez até radicais, em nossas vidas. Atenderemos ao chamamento de nosso Divino Pai, ou continuaremos com a nossa já viciada rotina?
Não importa se somos inconscientes disso ou se nos encontramos acomodados, indiferentes ao sofrimento do mundo, cedo ou tarde seremos chamados a servir. No início talvez até resistamos. Mas chegará o momento da decisão, em que nossas existências tomarão outro rumo. Saulo era um ferrenho perseguidor dos Cristãos. Na estrada de Damasco transformou-se: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.” (At 26:14). Saulo transformou-se em Paulo, assumindo uma nova realidade. Abandonou o invejável “status” de doutor da Lei. Teve a coragem de deixar os de seu credo.
Renunciou suas amizades e suas posses, para abraçar as ideias do nazareno, um misto de blasfemo e impostor no entender dos fariseus.
É preciso, entretanto, uma férrea disposição para atravessar as agruras dessa fase de transição. Incompreendido, injustiçado, vilipendiado até o Aspirante à vida superior há de perseverar. Terá muita luta pela frente, sem dúvida. Mas a crueza da porfia não deve abatê-lo. É duramente provado. Cai. Ergue-se. Fracassa novamente. Anima-se de esperança. Aflige-se mortalmente com a decepção. Ascende mais uma vez. Na experiência, renova-se. O mundo dele necessita. O Cristo necessita dele. Deus nele habita. Não há razão para temores. Vive na fonte do eterno Bem.
O Caminho de Preparação e Iniciação é assim mesmo. Exige mudanças, crucifica o “eu inferior”. É como o campanário de uma igreja: largo na base, estreitando-se à medida que sobe. No cume, só resta a cruz. Não se pode olhar para baixo, para trás. Só resta subir, subir sempre…
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1978 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Encontramo-nos de passagem sobre a Terra. Somos apenas peregrinos aqui. E justamente essa peregrinação, com suas lições e experiências, constitui o fator de nossa libertação, o meio através do qual um dia não mais renasceremos no plano físico.
O nosso verdadeiro lar atualmente é nos Mundo celestiais. Nossos esforços devem ser dirigidos a um retorno as esses Mundos, tão rápido quanto seja possível, pois o propósito da vida é a experiência e a finalidade desta é o crescimento anímico.
A vida aqui nos ensina lições definidas e quanto mais rapidamente as aprendermos, mais rápido será nosso crescimento anímico, apressando assim a chegada do dia da libertação.
A nossa liberdade determina também a libertação final do Cristo de sua “prisão terrestre”. Nesta época do ano são relembrados os sofrimentos do Calvário, e o sacrifício do Cordeiro de Deus em benefício de cada um de nós. Há uma convergência para estudarmos o tema da “Paixão de Cristo”, revestindo-o da atmosfera intensamente emocional.
Analisando o fato ocorrido há mais de dois mil anos à luz dos Ensinamentos Rosacruzes, chega-se à conclusão de que aquelas horas de intenso sofrimento nada foram, se comparadas com o que o Cristo suporta presentemente, ano após ano.
Carregar aquela cruz de madeira na agitada Jerusalém há mais de vinte séculos atrás, sob a chacota judaica e o chicote romano, poderia ser até suportável para um ser humano. Pior é carregar a cruz da Humanidade, esse madeiro gigantesco, impregnado de todas as nossas mazelas, o mal que produzimos dia a dia (em pensamentos, sentimentos, desejos, emoções, palavras, atos, obras e ações). Muito mais torturante para um Ser da estatura do Cristo é permanecer ligado a um Planeta como o nosso, de vibrações baixíssimas, uma somatória do que realmente somos.
O grande Arcanjo Cristo, Deus-Filho, só bradará o “Consumatum est” definitivo quando um grande número de seres humanos suficiente para manter esse Campo de Evolução que chamamos de Terra e, assim, O liberarmos de sua missão terrestre. Na qualidade de Aspirantes à vida superior, nossa responsabilidade é imensa. Cumpre-nos viver nossas vidas tão altruisticamente quanto seja possível, evitando qualquer pensamento, sentimento, desejo, emoção, palavra, ato, obra ou ação capaz de tornar a Terra um local mais insuportável do que é atualmente. Difícil? Difícil, mas longe de ser impossível. Eis porque somos Aspirantes à vida superior. Eis porque estamos em uma Escola Preparatória para as Iniciações, que nos capacitará para executar tal tarefa!
É verdade que estamos sujeitos a quedas. Mas nosso dever é evitá-las, mantendo diuturna autovigilância. Se cairmos, que não nos falte forças para o reerguimento e ajustamento a apropriados canais de conduta.
Se a ocasião é propícia para meditarmos como aliviar os sofrimentos de Cristo, também é justo participarmos das alegrias da Páscoa. Regozijemo-nos não só pela ajuda recebida, mas principalmente por estarmos conscientes de que, preciosas oportunidades de serviço (sempre amoroso e desinteressado, focado na divina essência oculta em cada um de nós – que é a base da Fraternidade – ao nosso irmão e a nossa irmã que estão no nosso entorno) nos serão oferecidas na medida do nosso merecimento. Alegremo-nos por não sermos meros expectadores, mas partícipes de todo esse processo de libertação.
A Páscoa assinala a vitória da vida sobre a morte, do Espírito sobre a matéria, e essa ideia inspirou Max Heindel a escrever estas formosas linhas: “Para os iluminados a Páscoa simboliza o amanhecer de um alegre dia, em que toda a Humanidade e o Cristo se libertarão permanentemente das limitações da materialidade, e ascenderão aos Reinos celestiais para se converter em colunas do templo de Deus e dali nunca mais sairão”.
(Publicada na Revista Serviço Rosacruz de março e abril/1987-Fraternidade Rosacruz-SP)
Páscoa significa renovação. É a estação do novo crescimento e o impulso para nos purificar é universal. Agora, novamente consagramos nossas vidas, decidindo ser mais conscientes em nossos esforços diários. Somos estimulados a novos esforços e a novas aspirações conforme sentimos a Natureza responder às forças da vida que ascende, liberada por meio da crucificação. Essa “ascensão” é de natureza cíclica e ocorre anualmente, entre a Páscoa e o Domingo de Pentecostes.
A máxima “como é em cima é embaixo” nos sugere o princípio unificante fundamental de toda a vida, e as mudanças cósmicas de natureza cíclica inevitavelmente encontram sua expressão na existência humana. Assim como o Ego, ou Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui, procura renascer, igualmente as Leis da Natureza ou princípios cósmicos buscam sua manifestação externa ou personificação por meio da Forma, secundária expressão da Vida. O nascimento e a ressurreição de Cristo-Jesus são expressões externas das mudanças das Estações.
Ambos, o Natal e a Páscoa, são pontos alternantes marcando o fluxo e o refluxo de um impulso de vida cósmica sem o qual a vida na Terra seria uma impossibilidade. Na época em que o Sol transita pelo Signo celestial da Virgem ocorre a Imaculada Concepção. Uma onda da luz solar de Cristo se concentra na Terra. Gradualmente essa luz penetra mais fundo até alcançar o ponto máximo na noite “mais longa do ano”, que chamamos Natal. Esse é o nascimento místico de um impulso de vida cósmica que impregna e fertiliza o Planeta e constitui a base da vida terrestre. Sem ele não germinaria semente alguma, não existiriam a Humanidade e os animais ou forma alguma de vida. Desde o Solstício de Dezembro até o Equinócio de Março esse impulso segue seu caminho até a superfície da Terra, infundindo nova Vida a todas as Formas em evolução.
O conhecimento do fluxo e refluxo dessas forças cósmicas será muito útil para nós, porquanto nos enseja poder “agarrar o tempo pelos cabelos”.
Durante esta estação, da Páscoa até o Domingo de Pentecostes, quando a natureza abunda em nova vida, devemos empreender todo esforço para nos sintonizar com esse impulso universal, para expressar uma vida mais harmoniosa. Este é o momento para despendermos os maiores esforços no sentido de alcançarmos níveis superiores de consciência. Devemos ter em conta, também, que não há tons menores neste “canto”. Sua palavra-chave é alegria. O evento da Ascensão de Cristo é cantado com grande regozijo nos planos espirituais. E nós também, se nos alinharmos com a Lei Cósmica, nos sentiremos felizes e alegres nesta época do ano.
A Lei de Analogia se mantém pura em todos os departamentos da vida. Os alegres cantos são ecos, tons harmônicos de uma ressurgente harmonia cósmica. Se penetrarmos no espírito da estação poderemos, também, receber o estímulo resultante do rápido florescimento de todas as formas da Natureza.
A ajuda que estamos recebendo para a aquisição do Conhecimento Direto dos Mundos espirituais deveria merecer especial atenção nesta ocasião. Esse auxílio, como ensina o Livro Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, resume-se em: Observação, Discernimento, Concentração, Meditação, Contemplação e Adoração. A Observação e o Discernimento são disciplinas a serem exercitadas durante todas as nossas horas de vigília. A Concentração, a Meditação, a Contemplação e a Adoração são graus progressivos de Exercícios Esotéricos especiais para o desenvolvimento da Clarividência.
O pensamento é o meio mais poderoso para a obtenção do conhecimento. Se não dominarmos a necessária força mental nada existirá além da humana compreensão. Por meio da Concentração no poder mental podemos solucionar problemas que de outra maneira não chegaríamos a entender.
Nossos primeiros esforços de Concentração são, frequentemente, insatisfatórios. Mesmo assim poderemos obter algum êxito em concentrar nossos pensamentos antes de que estejamos preparados para graus superiores de Meditação e Contemplação. O objeto da Concentração pode bem ser qualquer coisa, uma simples figura geométrica ou, de preferência, algum ideal. Qualquer que seja nossa escolha, é necessário mantermos firmes nossos pensamentos na figura mental criada, sem permitir desvios.
O pensamento é o poder que utilizamos para construir imagens mentais ou pensamentos-forma e como é nossa força primordial devemos dominá-lo.
Quando o Aspirante à vida superior, por intermédio da Concentração, obtiver êxito para construir o pensamento-forma vivente de um ideal, então já estará preparado para o passo seguinte, ou seja, a Meditação. Através dela, ele aprende tudo referente ao objeto criado em sua Mente. Terá acesso a conhecimentos jamais sonhados, pois através da Meditação suas criações mentais podem falar-lhe, por assim dizer.
Os graus superiores — a Contemplação e a Adoração — geralmente não se alcançam até que estejamos bem treinados na Observação e no Discernimento, disciplinas mentais que deveríamos praticar continuamente. É importante tudo vermos com clareza, com contornos bem delineados e riquezas de detalhes.
A visão etérica é uma extensão ou refinamento da visão física e facilitamos seu desenvolvimento através da prática sistemática de observar cuidadosamente todas as coisas.
Enquanto praticamos o Exercício Esotérico da Observação, devemos aprender a discernir e a tirar conclusões do que vemos. Pela Observação e Discernimento cultivamos a faculdade de raciocinar logicamente. E a lógica, segundo nos foi ensinado, é o melhor guia em qualquer Mundo. Pelo desenvolvimento do Discernimento e da Observação nos preparamos para os dois passos seguintes: a Contemplação e a Adoração. Através da Meditação aprendemos tudo a respeito da forma das nossas criações mentais. Porém, na Contemplação, a parte que concerne à vida revela seus segredos. Na verdade, a unidade da vida nos põe de manifesto pela Contemplação e nos impressionamos com a verdade suprema de que não existe senão uma vida: a Vida Universal de Deus. Quando alcançamos esse estágio, através da Contemplação, ainda resta um passo a dar, ou seja, a Adoração. Por meio dessa, o Aspirante à vida superior se unifica com a Fonte Universal de todas as coisas.
Nesta época do ano que estamos passando, quando a vida fecunda toda a Natureza, deveríamos, todos, tratar de fazer grandes progressos pela renovação dos nossos esforços para dominar esses seis graus ou disciplinas. Assim, nos sintonizando com as forças vitais que ressurgem na Terra e culminam no Domingo de Pentecostes, evoluiremos de modo tal como não seria possível de outra maneira.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de março e abril/1987-Fraternidade Rosacruz-SP)
“A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, assim Eu também vos envio” (Jo 20:21). Na noite da Ressurreição, a primeira coisa a ser considerada por Cristo foi mandar os seus Discípulos ao mundo para testemunhar a fé. A nós, também Ele diz: “Assim como o Pai Me enviou, eu também vos envio”. Por que devemos ser enviados? O que temos nós, Cristãos que somos – Estudantes assíduos do Cristianismo Esotérico –, que nosso Senhor deseja que o mundo receba de nossa parte? Temos inúmeras coisas, a começar pela fé.
Nós somos testemunhas de Cristo – o fermento de Cristo na Sociedade. O mundo de hoje necessita da nossa fé. Não nos enganam como Estudantes Rosacruzes ou Aspirantes à vida superior, nos consideram religiosos! As pessoas esperam de nós a bondade e as demonstrações da nossa fé. Mesmo quando contestam nossos argumentos, dependem da calma e serena expressão da nossa fé nesta Era, a de Peixes, de vertiginosa confusão para muitos (especialmente, porque estamos na “Órbita de Influência” de Aquário, onde já temos mais lições à disposição para aprender. Só que se nem as lições da Era de Peixes muitos nem sequer tentaram aprender – além de muitas da Era de Touro e da Era de Áries também não – aí está uma das causas da ilusória confusão, aflição, dissimulação, falta de confiança). Cada um de nós é uma testemunha de Cristo. Cada um de nós pode fortalecer ou enfraquecer a fé daqueles que nos rodeiam.
O mundo atualmente é, na verdade, um paradoxo. Porque em nossa sociedade afluente – rica e tecnologicamente sofisticada – muitos de nós se sente deprimido. A despeito dos aparatos que poupam nosso trabalho, modelos que nos seduzem, medicação que nos sustentam, ainda assim muitos continuam na depressão urbana na forma de pobreza, preconceito, falsa propaganda e miríades de outras depressões sociais que levam ao uso de álcool, das drogas e à negação psicodélica da realidade. Somos testemunhas da injustiça, da violência, áspera competição, do impersonalismo, um terrível período que ocorre em nosso mundo.
O paradoxo induz a maioria de nós à ansiedade. Essa ansiedade com o sentimento de culpa, insegurança e frustração não está confinada apenas nas pessoas neuróticas e infelizes! Essa ansiedade no mundo em que vivemos também se encontra no lar e no coração de muita mais gente do que pensamos. Todos nós, mesmo nossas crianças, são contaminados pelo senso de insegurança, num mundo cuja vastidão os aniquila. O conhecimento se expandindo cada ano, conhecimento assinalado com citações sábias marcadas por aspas, deixa muitas pessoas confusas em relação aos seus valores pessoais e duvidando do seu relacionamento com Deus e com a eternidade. O firme apoio que Deus nos permite descobrir, no espaço e no tempo, a sua complexidade, entra em colapso, em confusão para o indivíduo. Mesmo que muitos insistam em manter a sua liberdade pessoal por razões egoístas, não se isolam da situação; embora mudem de status, ora de um ora de outro, permanece o medo de observar as necessidades em suas almas.
A palavra de ordem nesta época parece ser ”hostilidade”. Nossa idade é hostil à Humanidade; muitos são hostis uns com outros, sendo mesmo hostis consigo mesmo. Nessa condição, a fé é a única esperança que nos resta para um mundo melhor. Mantenhamos nossa fé; ela nos mantém ligados a Deus. A fé é confiança, crença e conhecimento. Identicamente, como qualquer outro poder, a fé, a menos que não seja posta em prática – “A fé sem obras é morta” (Tg 2:17) –, se atrofia, tal como acontece com o músculo que não é exercitado. Devemos viver a nossa fé, testemunhá-la e nos esforçarmos por aprofundá-la.
Hoje, mais do que nunca, as pessoas discutem sobre Religião. Mesmo os que são hostis a ela admiram os que a cultuam, muitas vezes procurando o seu apoio, uma vez que uma pessoa de fé tem coragem, visão e paz – isso é justamente o que as pessoas procuram!
Oremos para que tenhamos sempre a mesma convicção e o entusiasmo que levou S. Tomé a exclamar: “Meu Senhor e Meu Deus.” (Jo 20:19).
(Publicada na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1986-Fraternidade Rosacruz-SP)
Vamos refletir sobre o poder de “Orar e Vigiar” e para que isso se aplica no nosso desenvolvimento espiritual.
A Bíblia é, ao mesmo tempo, um livro aberto e fechado, isto é, guarda em cada citação, no mínimo sete gradações de verdade igualmente válidas, segundo o nível de consciência da pessoa que a estuda. Conduz, por assim dizer, o Estudante Rosacruz, de porta em porta, à compreensão cada vez mais profunda do trecho em exame. E esse despertar nos vem de diversos modos, ora como um lampejo iluminador, ora numa percepção de outro ângulo por algo que lemos ou ouvimos. De toda a maneira é sempre um despertar interno, um abrir de consciência que nos leva, dali adiante, a perceber todas as outras coisas um pouco mais profundamente. Mas esse despertar não nos vem da Mente, senão do pensador: a Mente é um veículo nosso, um Ego ou Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui, que através dela reflete as nossas conclusões.
Quanto mais nos abrimos como Espíritos Virginais manifestados aqui como Egos humanos que somos, mais fielmente escutamos internamente. Quanto mais abrimos mão de “nossas ideias, de nossos pontos de vista”, tanto mais ouvimos a novidade que vem de dentro de nós, que nos renova a percepção e nos liberta do círculo vicioso dos conceitos pessoais.
Meditemos, por exemplo, sobre a exortação “Orai e Vigiai” (Mt 26:41). O alcance da compreensão de cada um de nós está limitado pelo que se entende por orar e por vigiar. Uns acham que orar é recitar fórmulas pré-estabelecidas e que tais palavras têm um poder mágico, independentemente do nível de consciência de quem pronuncia essas palavras. Outros usam afirmações e negações de verdades fixadas por outrem ou redigidas mentalmente por eles. Outros, ainda, “conversam” honesta e sentidamente com Deus. E ainda outros nada pensam, nada dizem; simplesmente buscam Deus em seu íntimo, na convicção de que isso basta para preencher o verdadeiro sentido de oração.
São degraus, eles todos respeitáveis. Uns mais eficientes que outros. No entanto, muitos pedem e não recebem, porque não sabem pedir. Não é que Deus faça distinções e exija normas. É que muitos de nós não se endereça a Deus, não sai de si mesmo ao encontro de Deus. Não é que devemos vencer a relutância de Deus. A verdade é que devemos vencer a nossa própria relutância. Relutamos e não saímos de nós mesmos: quando oramos para ser visto pelos outros como um devoto; quando falamos muito e bonito, para satisfazer a nossa própria vaidade intelectual. Mas Deus não vê a embalagem, senão o conteúdo… a intenção.
A nosso ver, a mais alta forma de oração é o contato com o Cristo Interno. E até que o consigamos, é a busca, em nosso íntimo, de nossa centelha divina: fechamos “nosso aposento” e O buscamos, dizendo simplesmente: “Senhor, aqui está o teu servo (a natureza humana); fala que eu escuto; enche meu vaso” (ISm 3:10).
Isto pode ser feito em qualquer lugar. Quando temos de esperar alguma coisa, aproveitemos um minuto e façamo-lo. Porém, na tranquilidade e com tempo é melhor. Então podemos nos relaxar, meditar sobre algo elevado, edificante, e depois, naquela atitude de escuta, de calma expectativa, com a Mente e as emoções esvaziadas, esperamos que Deus se comunique conosco.
Quem já recebeu uma centelha que seja dessa mensagem divina, pode comprovar que a verdadeira direção humana vem de sua Fonte Divina. E passa a buscá-la em todas as oportunidades e circunstâncias, quer como um namorado saudoso que não vê a hora de reencontrar a amada, quer como uma namorada saudosa que não vê a hora de reencontrar o amado, quer como um esposo preocupado que se vai desabafar e aconselhar com a esposa ou um amigo (ou amiga) prudente, quer como uma esposa preocupada que se vai desabafar e aconselhar com o esposo ou um amigo (ou amiga) prudente.
Vigiar é se manter num estado de consciência em que seja possível ser dirigido por Deus. É uma questão de sintonia, como uma “chave de onda” de rádio, que nos liga com a faixa de onda correspondente. É claro, pois, que para Deus conversar conosco devemos ter equilíbrio emocional, emoções e pensamentos construtivos. As águas revoltas, como que despedaçam a imagem do céu; só no espelho tranquilo de um lago podemos ver refletidas as estrelas do firmamento. Assim também Deus se mira e fala em nós. A falta de controle emocional, os pensamentos negativos, as piadas maliciosas e mentiras com as quais condescendemos, no que chamamos “interesses e imposições comerciais”, debilitam e acabam por destruir o que de bom temos em nós.
“Vigiar e orar” é isto. Não pense que pelo simples fato de se ingressar numa Escola esotérica como a Fraternidade Rosacruz, por honesta e eficiente que seja, em estudando, ouvindo, respondendo-lhe às lições dos Cursos de Filosofia, Bíblico e/ou Astrologia de formação, conseguimos grande avanço. Por esse engano é que muitos antigos Estudantes Rosacruzes chegam a desanimar e até desistem de trilhar o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz. O estímulo e a orientação vêm de fora, por amor de quem nos deseja elevar. Mas o proveito vem de dentro, de nossa assimilação e prática da verdade. Não é a verdade objetiva que nos liberta, mas a compreensão, a vivência da verdade, a apropriação da verdade e sua expressão prática na vida cotidiana.
Podem objetar que isto seja impossível. Não é fácil realmente, mas é possível. Disse o Cristo aos apóstolos, que os lançaria ao encontro das pessoas comuns, como ovelhas no meio de lobos e, por isso, que “fossem mansos como as pombas, porém prudentes como as serpentes” (Mt 10:16).
O valor e o progresso nos advêm desses pequenos méritos diários. Herói não é o que realiza num gesto denodado um ato grandioso; é o que vence as pequenas provas de todos os dias e persiste no bem, até chegar, degrau e degrau, àquele objetivo de todo Estudante Rosacruz a espiritualidade: o encontro consigo mesmo, a entrega de sua vida ao “Eu superior”, a cujos pés deporemos os despojos de nossas batalhas, como o fez Abrahão e Melquisedeque, porque então, o Cristo interior será nosso “Rei e Sumo Sacerdote” (Hb 7:2-4 e 7:10).
(Publicada na Revista Serviço Rosacruz de setembro/1971-Fraternidade Rosacruz-SP)
Quando aprendermos a abandonar o Mundo material e tudo a que ele está ligado, centralizando nosso interesse sobre assuntos espirituais, aprenderemos a lição com a qual todos os Aspirantes à vida superior têm que se defrontar no Caminho do Cristianismo Esotérico.
E a isso que se refere esse Ensinamento nos fornecido direto por Cristo:
“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros nos céus, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração. A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas! Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e a Mamon.” (Mt 6:19-24).
Sob a segunda Dispensação (a Jeovística) fomos estimulados a adquirir posses materiais, sepultá-las na terra ou escondê-las nas paredes, o que foi praticado por nós desde tempos remotos, pois até a metade dessa quarta Revolução do Período Terrestre o nosso objetivo era conquistar a Região Química do Mundo Físico, ou seja, ser um Iniciado nessa Região do Mundo Físico. Isso, quem renasce no lado ocidental do Planeta já alcançou desde a terceira metade da Época Atlante – hoje já estamos na Época Ária. Para quem já alcançou essa “Iniciação”, Cristo – que inaugurou a terceira Dispensação (a primeira Cristã) trouxe um ideal superior: o acúmulo de Tesouros nos céus, baseado na aprendizagem e prática do amor Crístico, com a prática das qualidades interiores de bondade, ajuda e altruísmo, que não podem ser afetadas pela “ferrugem nem por traças nem os ladrões podem roubá-las”. E isso faz parte de alcançarmos o nosso próximo objetivo nesse Esquema de Evolução: conquistar a Região Etérica do Mundo Físico. Pois, quem continua tendo interesses por acúmulo de bens, terras, casas, posse, joias e tudo que o dinheiro pode comprar continua centralizado seus desejos, objetivos e ideias nessas coisas, ou seja, vivendo na segunda Dispensação (a Jeovística).
Reminiscências fortes que trazemos do final da Época Lemúrica e da Época Atlante – que nada mais são de lições que insistimos em não aprender, para podermos passar para um próximo nível – nos prendem a esses falsos valores ou ilusões e mantém muitos de nós ancorado em tudo que provém do “Eu inferior”, ligado aos desejos, emoções e sentimentos inferiores (posse, ciúmes, inveja, raiva, cólera, fama, poder e afins). Não existe nada errado nas posses materiais, contanto que sejam usadas para bons propósitos; desinteressadamente, e contanto que nossos Corações não se centralizem neles. Na verdade, os olhos são a luz do corpo e a ‘porta da alma’. Se o olho for sincero, do ponto de vista espiritual, então o corpo se inunda de luz, interpenetrado pelos dois Éteres superiores, despertando a vontade de servir amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível), focando na divina essência oculta em cada um de nós – que é a base da Fraternidade – ao irmão e à irmã que está em nosso entorno. Se os olhos são maus ou adoentados pela vida mal vivida, o Corpo estará cheio de sombras ou doenças. Tais “olhos” indicam quem está cheio de cobiça e inveja, e a envoltura áurica estará cheia de pontos escuros de fermentações. Aliás, a Aura de fato revela os interesses pelos bens materiais ou espirituais predominantes na vida de uma pessoa.
Eis porque surge a dificuldade em “servir a Deus e a Mamon”, sendo os dois de natureza oposta. Quem se interessa em se envolver no Mundo material, não tem tempo de conhecer ou servir a Deus. O Aspirante à vida superior, que se esforça para servir a Deus pela vida que vive de acordo com suas leis, fica livre da tentação da matéria ou da sua natureza inferior – Mamon. A boa qualidade de discernimento o capacita a perceber que a realidade é unicamente nós, o Ego, o Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui e que tem somente um ideal: seguir a Cristo e se preparar para quando Ele voltar, estar trabalhando e funcionando conscientemente na Região Etérica do Mundo Físico, com o seu Corpo-Alma completamente desenvolvido.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – janeiro/1986 – Fraternidade Rosacruz-SP
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