A Filosofia Rosacruz é, como autêntica Escola Cristã Esotérica, uma mensagem de libertação humana. Ela parte da realidade presente, que somos nós com nossas virtudes e limitações. Mostra-nos o que foi o nosso passado evolutivo, relacionando-o com o dos demais seres e o Cosmos e fundamenta, racionalmente, porque somos essa realidade atual.
Finalmente, mostra nossa meta futura, em concordância com os mais altos postulados do Cristianismo Esotérico.
Ensina-nos sobre a nossa constituição corporal e mental: um Corpo Denso, um Corpo Vital, um Corpo de Desejos e a Mente. Uma Mente, essa formada por metade de nossa força criadora sexual, que partiu de suas primitivas manifestações onde criamos e praticamos a astúcia (causa de muito sofrimento e dor) e como hoje exercitamos a razão (com o objetivo de fazer o bem pelo prazer de fazer o bem), mas que ainda temos a nossa Mente escravizada ao nosso Corpo de Desejos.
Um Corpo de Desejos que nos permite criar desejos e sentir emoções e sentimentos, que sofreu uma divisão em parte inferior e superior, nos fins da longínqua Época Lemúrica, mas que hoje atende muito ainda aos nossos vícios de origem, maus hábitos, egoísmo e afins retardando a transubstanciação em desejos e emoções de puro altruísmo, como Cristo nos ensinou. Um Corpo Vital, cujos Éteres inferiores, o Químico e Vital, estão muito fortes, devido aos vícios de origem citados, pois se relacionam com o metabolismo e a procriação e se fortificam pelo hábito; os dois Éteres superiores, Luminoso e Refletor, ligados aos sentidos, ao calor e circulação do sangue e a mentalidade e memória, restringidos pela ação predominante dos Éteres inferiores.
Esse é o ser humano atual. E seu Corpo Denso, visível, tem as possibilidades que os veículos mais sutis lhe conferem. Nada mais, nada menos.
Hereditariedade, sorte, azar, para a Filosofia Rosacruz, são apenas manifestações sábias da Lei de Causa e Efeito. Colhemos o que semeamos, desta e de outras vidas passadas. Não importa que cerebralmente não nos lembremos do plantio e possamos, em nossa cegueira, nos revoltar contra a aparente injustiça de Deus. Nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui), embora estejamos impossibilitados de nos manifestar como devemos claramente hoje, a nossa consciência, nós sabemos, nós recebemos sem revolta as reações da Força de Repulsão, que nos alerta todos os desvios. Mesmo em Corpos de irmãos ou irmãs insanos, com debilidade intelectual, onde o Ego está aprisionado, inteiramente impossibilitado de se expressar como se deve, embora sofrendo, sabe por que está assim e pode se lembrar de outras vidas passadas, em que talvez tenha malgastado de forma animalística sua forca sexual criadora, em prazeres e orgias sexuais. Ou pode ter sido outra a causa: o abuso de sua força mental em formas diversas de magia negra ou a tentativa de fugir ao renascimento (nessa vida atual), quando anteviu as provas que o aguardavam e tentou se desligar do Corpo Denso, provocando rupturas na conexão de seus veículos. Mas sempre, como Ego, lá dentro sabemos por que é, tanto é assim que nós mesmos escolhemos as circunstâncias de nossas vidas futuras, para corrigir nossos defeitos: lar, pais, cônjuge e todos os demais pontos principais de nossa existência. Claro que nem tudo é previsto porque nossa vida, então, seria totalmente “destino”. E na Fraternidade Rosacruz aprendemos que não é assim; há a Epigênese.
Ou seja, há margem para exercício de nosso Livre-arbítrio e essa margem é tanto maior quanto mais liberto estejamos dos erros passados. No caso do irmão ou irmã com debilidade intelectual se não chega um dia a melhorar, podemos dizer que sua atual existência é quase inteiramente “destino”. De toda forma, há Sabedoria em tudo (e com “S” em maiúsculo!).
É por isso que a eutanásia não se justifica jamais, nem a pena de morte! Há uma lição que precisamos aprender, quer a nossa percepção material o reconheça, quer não.
A verdade não depende de nossas opiniões; o Sol, desde a diferenciação dos Planetas, foi o centro do Sistema Solar, independentemente da opinião dos que julgaram Giordano Bruno e fizeram calar, a força, o sábio Galileu.
Na verdade, quando um condenado é sacrificado pela pena de morte, livramo-nos aparentemente dele, mas, em seu Corpo de Desejos ele passará, desde então, muito mais perigosamente a agir livremente, com a velocidade do pensamento, dando vazão a sua revolta contra os seres humanos e a sociedade, estimulando os caracteres iguais ao seu e levando-os ao crime. Daí vemos que a realidade mesma não é a que presenciamos e decorre de nossa vida material, mas a causa de tudo que existe aqui.
Mais real é o pensamento de um arquiteto que idealizou uma casa do que a própria casa construída segundo aquela ideia. A casa pode ser destruída, mas o pensamento, não.
Então, o que é liberdade? E o oposto do erro. O erro ou pecado, como quer que o chamemos, é a transgressão as Leis de Deus (IJo 3:4 – “Todo aquele que pratica o pecado transgride a lei; de fato, o pecado é a transgressão da lei”), ou, como aprendemos na Fraternidade Rosacruz: “o único pecado que existe é a ignorância e a única virtude e salvação é o conhecimento aplicado”.
Enquanto agimos por: pensamento, desejo, sentimento, emoção, palavra, ato, obra ou ação contrariamente às Leis de Deus, que rege toda a Criação, estamos provocando a Força de Repulsão que nos adverte desse desvio.
O Estudante Rosacruz ativo, ao assumir a responsabilidade de seu destino, deixa de culpar os demais por suas provas e começa nelas buscar a lição que encerra, a fim de se corrigir. Ele aquieta seu íntimo buscando pensar em seu Coração e sentir em sua Mente, no mais perfeito equilíbrio que puder, entre a Mente e o Coração, passa a se sentir como um Ego – que sabe que realmente é! – que olha para fora de si através seus veículos, como alguém contemplando uma paisagem através de uma vidraça. Ele sabe que as vidraças de seus veículos têm cores ilusórias e manchas de seus defeitos e terá cuidado para não julgar a paisagem que vê como inteira realidade. Sabe que seus temores podem dar um colorido plúmbeo ou a fantasia conferir tonalidades róseas. Mesmo seus defeitos podem pôr numa paisagem uma mancha que ela nada tem. E por isso que diz o ditado: “quem usa, cuida”.
Já compreendeu que o defeito que ele vê nos outros, são os seus (efeito “espelho”). Que é bom ver o bem e isso não exclui a prudência, porque esta resulta, não da desconfiança, mas do conhecimento da natureza humana e ele sempre procurará exercitá-la racionalmente, sem emoção e nem parcialidade.
Diante de todo o exposto, concluímos que todo o trabalho de regeneração está dentro de nós. Desde então já não sentimos vontade de criticar os demais, nem perder tempo com inúteis solicitações exteriores. Há muito que fazer dentro de nós. Mas temos o cuidado de, também não nos preocuparmos demasiado com nossos defeitos, a fim de não gerarmos complexos.
Qual a solução? É o Método de Conhecimento Direto oferecido pela Fraternidade Rosacruz.
Ao mostrar-nos a real natureza humana estabelece um ponto de partida, não para que nos preocupemos com os defeitos e os lamentemos, senão para adotarmos uma condição consciente de verdadeira humildade, oriunda do reconhecimento do que somos e que deveremos ser, pois o futuro depende do que fizermos agora.
Então, aprendemos na Filosofia Rosacruz “vejamos o bem em todas as coisas, mesmo onde não pareça ele existir”. Se não somos capazes de vê-lo, ainda estamos cegos. Há sempre uma razão amorosa. As maiores trevas são projetadas pelas mais fortes luzes.
Daí ela preconiza o Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção, para despertar a memória, o senso de observação e de discernimento, em que o Estudante Rosacruz ativo separa, todos os dias, “o joio do trigo” e busca incorporar a sua consciência anímica o bem e queima, pelo arrependimento sincero, o erro, o joio. É um acerto cotidiano, uma atualização constante de quem, serenamente, está reparado sempre para dar o pulo ao “além”, temido dos que têm a alma intranquila.
Este Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção é a base de nosso desenvolvimento interno e regeneração, pois agudiza nossa consciência, esta voz interna que nos diz quando estamos certos ou errados, apesar de todos os protestos de nosso amor-próprio e egoísmo. E mais alto e claramente ela se fará ouvir, quanto mais serenos e limpos estivermos. E esse processo depurativo irá nos tornando a consciência receptiva, como a superfície de um lago sereno que reflete o céu. E chegará o tempo em que brotará em nosso coração um conhecimento, chamado intuição. E o fluir do conhecimento do Cristo Interno, o acesso consciente ao manancial de sabedoria que acumulamos em vidas anteriores, a supraconsciência, do Mundo do Espírito de Vida, especializado em nossa Aura. É quando o infante menino Jesus maravilha no templo de nosso Corpo, os “doutores” de nosso conhecimento material, com suas respostas extraordinariamente elevadas.
O Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção é amplamente ensinado no livro Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz juntamente com o outro Exercício Esotérico básico, o Exercício Esotérico matutino Rosacruz de Concentração. Esses dois pontos constituem o método mais eficiente na iluminação interna e libertação do ser humano ocidental! Dizemos ocidental, porque, segundo seu desenvolvimento atual, o ser humano do ocidente atingiu o ponto em que os meios de elevação têm de, necessariamente, diferir dos orientais. O nosso irmão e a nossa irmã oriental ainda dependem de um mestre externo. Já o nosso irmão e a nossa irmã ocidental, ao contrário, são instruídos a não depender de ninguém e efetuar o trabalho de renovação interna, sem ajuda.
Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz preparam o Estudante Rosacruz a não depender nem mesmo deles. Estudando o livro Cartas aos Estudantes – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, ele mesmo conta que quando defrontava com uma dúvida e os procurava, eles indicavam o caminho e mandavam-no chegar ao resultado, sozinho. Conosco, igualmente, fornecem o método, o caminho, para nos poupar perda de tempo e de esforços. É a contribuição de quem já conhece a trajetória e voltam para nos advertir contra desvios enganosos.
Portanto, não nos encantamos com aqueles que proclamam poderes, porque na verdade o que estes buscam é uma forma diferente de pagamento: o endeusamento de sua Personalidade. Quem realmente tem a competência de conhecer o caminho e o método, porque o seguiu, liberta. A modéstia e retidão desses Irmãos Maiores são incomuns. Fogem de pagas materiais ou sutis, dispensam títulos e postos, incentivam e esclarecem com um grande respeito a liberdade e Epigênese do Estudante Rosacruz ativo. Passam despercebidos até que possamos reconhecê-los.
Na Fraternidade Rosacruz não nos preocupamos com os Irmãos Maiores! O trabalho é nosso e não deles. Se é assim, dando confiantemente nossa parte é que podemos merecer a simpatia e o apoio deles, até que estejamos suficientemente fortes para caminhar sozinhos, com toda segurança.
Como aprendemos na Fraternidade Rosacruz: “o método Rosacruz difere dos outros métodos num ponto especial: procura, desde o início, emancipar o Aspirante à vida superior de toda influência externa, de modo a poder ficar só em todas as circunstâncias, pois só assim poderá se converter num verdadeiro auxiliar da Humanidade”.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1976 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Aprendemos nos Estudos Bíblicos Rosacruzes que “a cada dia basta o seu cuidado”[1]. Devemos compreender isso como: “não fazer planos e mais planos”?
Sim, devemos! Contudo, devemos interpretar devidamente os Ensinamentos Cristãos. Se eles não servissem para imediata aplicação na vida prática, seriam inúteis. Não é possível que os princípios tenham podido subsistir através de mais de vinte séculos, se não portassem bom senso e sabedoria aplicáveis à vida de todos os dias.
Ninguém colhe antes de plantar. E plantando, ninguém pode abreviar a colheita, além das possibilidades naturais. E dentro dos recursos naturais a terra nos dará os frutos correspondentes à sementeira e aos cuidados no cultivo. Se houver geada, ou seca ou chuva demasiada, será isso por circunstância imprevista e independente dos cuidados atuais, mas não injusta. Terá uma ligação com o passado.
Igualmente se passa na seara interna e social. Devemos cuidar do “aqui e agora”. O ontem já passou. O amanhã ainda não chegou. Pensar no passado é perder o presente; pensar no futuro é querer vivê-lo duas vezes: uma, antecipada e hipoteticamente; outra, quando o vivermos realmente. A primeira vez foi inútil.
Se vivermos realmente bem o dia de hoje, estamos de acordo com a Bíblia e vida prática. Seguramente virão os frutos correspondentemente bons. Mas não basta plantar; é preciso cultivar, cuidar, proteger, para que a semente atinja o objetivo. Isso se aplica a qualquer campo de atividades: moral, artístico, técnico, intelectual, sentimental. A negligência do cultivo é que originou o brocardo: “a felicidade é fácil de ser conquistada, mas difícil de ser conservada”.
Se, apesar de nossos esforços presentes, a adversidade nos fustiga e dificulta, há uma explicação lógica: ou representam consequências de ações erradas do passado, ou de erros presentes, por ignorância. Nesse caso deve o agricultor estudar, aqui e agora, como melhorar. Como consequência de causas passadas, pode a terra estar cansada; pode estar cheia de formigueiros que não foram erradicados; pode não servir para a planta que ali está e sim a outra, a menos que a preparemos quimicamente, havendo vantagem; pode haver falhas presentes ou então como a chuva, seca, de imprevistos fatores, pode ser o que chamamos “má sorte”, “azar”, “desgraça”, mas que realmente tem sua explicação: efeito inevitável de causas erradas, que devemos pagar sem murmúrio e nem desânimo quanto ao futuro.
Afinal, sempre e sempre nos lembremos: “Não penseis no que haveis de comer ou vestir; olhai os lírios dos campos. Nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles; olhai os passarinhos dos céus: não fiam, não entesouram, mas o Pai celestial os alimenta. E se Deus não deixa faltar à erva do campo e aos pássaros, quanto mais a vós, homens, que sois muito mais do que eles?” (Mt 6:25-34).
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1970-Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Mt 6:34