Uma pessoa quando se predispõe a estudar os Ensinamentos Rosacruzes por meio da Fraternidade Rosacruz já desenvolveu a sua consciência ao ponto de, pelo livre arbítrio, escolher um rumo para suas ideias, portanto, para o seu modo de pensar e agir.
Nesse ponto de transição, em que a consciência insatisfeita com o que aprendeu até ali, necessita de esclarecimentos mais amplos, ele entra num mar de dúvidas porque aquilo que já aprendeu ficou gravado atrapalhando o novo aprendizado até que, depois, por si mesmo, ele perceba a lógica nas novas lições e acomode nelas a corrente de suas ideias.
Acontece que, desde séculos passados, o ambiente religioso é o mesmo nestes lados ocidentais. Durante anos e anos duas Religiões exotéricas que não se unem, mas graças a Deus não se perseguem mais, vem prevalecendo no continente europeu e no continente americano, sujeitando a sociedade e embaraçando a expansão de ideias livres, ideias individuais.
Dessa maneira a pessoa que chega ao ponto de libertar a sua Mente e conduzi-la pelo seu livre arbítrio, fica receosa como um pássaro que, engaiolado por muito tempo, no momento de sua liberdade, tem medo do espaço infinito. Quando vê aberta a portinha da gaiola, não tem coragem de arriscar um voo.
O hábito é uma segunda natureza e milhares e milhares de pessoas vem se habituando, desde criança, no ambiente familiar e ambiente geral de uma só ordem de ideias, até que sua Mente desenvolvida em outros assuntos, por força das necessidades da vida, chega a um ponto de curiosidade e descontentamento e se põe a procurar novas diretrizes, novos horizontes. Chega a hora, então, de procurar outras Religiões, outras Filosofias Cristãs, de ler livros, até ali desconhecidos, de procurar lugares de ensinamentos até então ignorados, e considerados absurdos, mudar de pontos de vista, de adquirir novos conhecimentos.
Nessa altura, muitas pessoas temerosas de abandonar tradições, de mudar de corrente, sempre igual de ideias que influiu durante tantos anos na própria vida, compreendendo ao mesmo tempo, que essas ideias já não satisfazem mais, vacila tanto para dar novo rumo a sua mentalidade que acabam estacionando no seu modo de pensar, sem concordar plenamente com a que já aprendeu e sem vontade de aprender novas razões. Quantas pessoas deixam de progredir na vida, moral ou material, pela força do hábito!
Essa preguiça de natureza mental deve ser afastada desde logo, porque geralmente ela dura bastante e, muitas vezes, quando chega a passar por efeito de um impulso, provocada pela experiência, pelo sofrimento, já se perdeu muito tempo, ou mesmo o melhor do tempo.
É natural, pois, que quando se encontre num estado de transição de ideias, mormente se tratando de questões espirituais, se esbarre com muita dúvida; porém é necessária afastá-la desde logo e para se conseguir isso é preciso pesquisar, examinar.
No caso da espiritualidade Cristã, é preciso verificar se as lições aprendidas, ou melhor, se as lições que se está aprendendo, são enquadradas na realidade da vida de todos os dias, e se podem ser observadas em você mesmo ou nos outros. Para isso é preciso pensar, procurar dentro do próprio pensamento fatos ou coisas que se relacionem com o que se está aprendendo. É preciso usar a memória, recorrer a lembranças e, também, observar nos fatos presentes, a relação entre a vida real e a espiritualidade.
A espiritualidade Cristã não é mais nada que a nossa própria vida estudada na sua essência, nas suas bases fundamentais, na sua evolução e sua finalidade.
Ora, estudando a nossa própria consciência nos seus foros mais íntimos, e estudando, ao mesmo tempo, os acontecimentos da vida exterior, quese relacionam particularmente conosco de modo direto ou indireto, dando-nos pesares ou prazeres, alegrias ou tristezas, verificamos que tudo o que nos aconteceu e nos acontece está em harmonia com a nossa natureza particular, com a nossa capacidade, com a nosso entendimento, com o nosso grau de inteligência; por isso mesmo que se diz que Deus dá o frio conforme a roupa.
Verificaremos também que se os acontecimentos da nossa vida são diferentes dos acontecimentos das vidas dos outros, muito embora as situações sociais, financeiras, condições de saúde, de família e outras, sejam equivalentes, é porque a nossa natureza íntima, também é diferente, porque os nossos Mundos internos têm o seu feitio e o seu desenvolvimento particular, que não encontramos exatamente iguais em mais ninguém. É por isso que muitas pessoas, em ocasiões de raiva, de desespero, mesmo de coragem, de sacrifício, convencida de sua natureza exclama: “eu sou assim”. Está certo! Cada um é assim do seu modo peculiar e não muda, senão por força da evolução espiritual. O Mundo exterior repete continuamente a mesma série de cenas, as mesmas histórias, os mesmos fatos, garantido pelas espirais dentro de espirais. Nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) somos que, conservando o nosso feitio fundamental, as nossas linhas características, vai modificando a nossa expressão por efeito do desenvolvimento que vamos realizando. Quando recordamos certas épocas do nosso passado, certos ambientes, lugares e fatos, sentimos saudades de tudo o que se ligava a esses fatos, a paisagem, o céu, a rua, as pessoas – a verdade nos faz saudades, não propriamente essas coisas e sim o nosso estado interno desse tempo. Sentimos saudades de nós mesmos, de nossa alma mais animada, de nossas emoções mais leves, ligeiras, de nossos pensamentos cheios de entusiasmo e esperanças.
O céu não mudou! Por toda a parte há, como antes, paisagens encantadoras, variadas, objetos interessantes, pessoas agradáveis, moda bonita. Nós, por efeito de nossas experiências, mudamos os sentimentos e a mentalidade, e por isso mesmo olhamos as coisas e os fatos por outro prisma. Nós, o Ego, arredamos alguns dos véus que nos encobrem e enxergamos tudo com mais realidade, mais clareza. Do mesmo modo recordamos com mais realismo as nossas tolices passadas, erros de toda a espécie, disparates e até dureza de coração e ficamos admirados de termos praticado tais atos. Isso vem mostrar que vamos clareando aos poucos e continuamente, ampliando a nossa mentalidade, apurando os nossos sentimentos e por isso mesmo éque nossa memória traz à tona, muitas vezes, atos que praticamos, bobagens, até sem importância e que por nada neste mundo seríamos capazes de praticar de novo, porque a nossa consciência não mais aceita. Será porque de lá para cá, cultuamos a nossa inteligência, lemos muito, aprendemos mais coisas? Em parte, sim. Digo em parte apenas, porque muitas pessoas têm uma cultura intelectual comprovada, capaz de resolver grandes e graves problemas financeiros e políticos, questões internacionais importantíssimas, técnicos aperfeiçoados, magistrados, que sabendo tanta coisa são fechados no orgulho, no egoísmo, na vaidade, que vivem para si somente, ignorando o resto da coletividade formada, entretanto, por seus semelhantes. Torno a dizer que a espiritualidade Cristã é o estudo da nossa própria vida por meio do desenvolvimento dos nossos Mundos internos. Por meio desse desenvolvimento percebemos que temos aprendido já muita coisa; que já conseguimos abrandar um pouco o coração; que ganhamos caminho, e que fomos muito mais atrasados. Já cometemos uma infinidade de erros mais graves dos que cometemos hoje e devemos seguir adiante, quer queiramos ou não.
Devemos desenvolver infinitamente o nosso aprendizado, visto que se estamos adiantados, à vista do estado espiritual em que já estivemos, estamos atrasados, à vista do grau de adiantamento a que temos de chegar.
O nosso aprendizado não é fácil, no ponto de desenvolvimento em que estamos, porque eledepende, em boa parte, do domínio das nossas emoções, o que quer dizer do cultivo dos nossos desejos e emoções, o que depende de muita força de vontade por nossa parte. A nossa luta de todos os dias está empenhada com uma coletividade dos mais variados graus de adiantamento espiritual, portanto, estamos, a cada instante, em choque com forças exteriores. Essas forças exteriores estão, por sua vez, em harmonia com a Lei de Causa e Efeito ou Lei de Consequência, portanto, é dentro dela mesmo que temos de agir, para vencer. Para agir com pessoas de todos os graus de adiantamento, evitando o mais possível os choques, é preciso que se tenha seriedade de espírito e isso só se consegue com conhecimento e amor aos semelhantes, sejam eles de qualquer estágio de aprendizado.
Quando se chega a compreender que, só podemos dar aquilo que temos, e quanto menos temos para dar mais infeliz somos, mais caminho temos que andar, de modo que, nossos amigos, as ideias de vingança, o desejo de desforra são provas de falta de conhecimento, de pouco ou nenhum raciocínio. Somos auxiliares mútuos no cumprimento da Lei da Causa e Efeito e de Consequência e conforme as nossas qualidades, somos portadores de alegrias ou de tristezas aos nossos semelhantes.
Essas questões e todas as outras que se relacionam diretamente com o cultivo dos sentimentos, com o desenvolvimento da consciência, com o aperfeiçoamento do caráter fazem parte integrante do aprendizado espiritual e o melhor exercício que se pode fazer é a prática das boas ações, obras e bons atos.
O domínio próprio, o autodomínio, exercitado diretamente, só pelo esforço da vontade, naturalmente, tem os melhores resultados, porém, não está ao alcance de todos, porque é muito difícil conter o nosso Corpo de Desejos. Há outro exercício mais brando, por isso mesmo mais demorado que chega também a um resultado satisfatório. É o trabalho de se procurar, conscientemente, em todos os fatos, em todas as coisas ou em todas as pessoas que nos desagradam, o lado bom, apreciável, a virtude que existe sempre e que muitas vezes, se oculta atrás de uma aparência má ou feia, ou seja: o bem que está lá, sempre. Aliá, sempre que fazendo isso conseguimos vencer uma aversão, estamos educando as nossas emoções e desejos.
Sempre que, ao julgarmos, nos demos ao trabalho de procurarmos a causa que o motivou, estaremos exercitando o raciocínio, portanto o abrandamento das emoções. Esses trabalhos repetidos apresentam geralmente resultados positivos. Há Estudantes Rosacruzes que, com o desejo de adiantar depressa se propõem a exercitar a domínio próprio por meios extremados, geralmente acima de suas forças, fora de suas capacidades, chegando a pouco ou nenhum resultado, porque ou se cansam e abandonam o exercício na metade, ou se aniquilam prejudicando a saúde. O domínio próprio tem de ser praticado dentro do princípio da relatividade, exercitar gradativamente e no seu meio termo. “Devagar é que se chega ao longe”. Quando se está subindo uma escada para se chegar ao cimo, seguramente, tem-se de prestar atenção em cada degrau que se está pisando, para nele não falsear o passo, nem pisar muito firme, com risco de torcer o pé.
Não adianta a preocupação antecipada com o que está lá em cima, no patamar, porque só chegando lá é que se pode compreender, e nem adianta também saltar degrau, porque, então, não se fica conhecendo bem a escada, e nela pode haver coisas de utilidade que venham a fazer falta mais tarde. O trabalho de examinar o que se está fazendo é de grande proveito e utilidade no presente e para o futuro; isso em qualquer exercício. Nos estudos na Fraternidade Rosacruz esse cuidado é indispensável por se tratar de questões de ordem superior, que determinam o nosso progresso em linhas mais retas ou explicando melhor, de modo mais direto.
Uma vez que se queira dar às ideias um rumo seguro, que se deseje dar à Mente mais largueza e mais claridade é justo que se empregue atenção em tudo o que diz respeito às lições que se vai aprendendo, que se examinem com a própria consciência os trabalhos indicados.
Os Ensinamentos Rosacruzes têm, como uma das finalidades mais em vista, levar o Estudante Rosacruz a libertar as suas ideias a ponto de resolver por si só, com o auxílio único de sua própria consciência, todos os problemas de sua vida. Ideias livres não querem dizer anarquismo, quando são orientadas na espiritualidade Cristã.
Todo Estudante Rosacruz sabe que a verdadeira liberdade é a obediência às Leis de Deus e o exato cumprimento de todos os deveres. Que a nossa consciência só pode se desenvolver pelo conhecimento dessas coisas e que entre todos os nossos deveres o mais elevado é a estima, o respeito espontâneo, solícito aos direitos dos nossos semelhantes. É o reconhecimento da semelhança estabelecida no fundo de nossa natureza, pelo princípio que é o mesmo para todos.
O medo de pensar e agir livremente pode desaparecer, uma vez que o Estudante Rosacruz conheça o verdadeiro conceito da liberdade, que compreenda que o direito é um resultado do dever cumprido, portanto, quem cumpre, voluntariamente, seus deveres morais, materiais e espirituais está agindo com liberdade e segurança e está se aproximando da espiritualidade, e só consegue se espiritualizar em verdade, quem compreender este axioma ocultista: “Há apenas um único poder na Terra como nos Céus e este poder é o do Bem”.
Ora se a verdadeira espiritualidade é a que se apoia inteiramente no “Bem”, por que duvidar, vacilar, quando a consciência inquieta, insatisfeita reclama diretrizes mais claras, mais lógicas, na corrente das ideias? Quando, imperiosa, pede razão? Por que se demorar na decisão? Sujeição do ambiente ou da força do hábito? A nossa consciência é a iluminadora de nossas ações e quando ela chega a encaminhar a pessoa para os estudos espiritualistas, é porque é chegado o momento dela entrar para o caminho mais curto de sua evolução. É chegada a hora dela agir por si mesma, guiada somente pelo seu Cristo Interno.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – dezembro/1964 – Fraternidade Rosacruz–SP)
Um filósofo certa vez afirmou: “a paciência é a maior das virtudes”. A verdade é que tal virtude, sendo bem cultivada, nos levará a alcançar outras qualidades espirituais.
O Estudante Rosacruz encontra na paciência uma dura prova, principalmente quando começa a dar os primeiros passos dentro dos sublimes Ensinamentos Rosacruzes por meio do Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz. Notadamente, os jovens, com a alma ávida de novos conhecimentos e experiências e, talvez devido a uma má orientação anterior, sentem um desejo ardente de rasgar véus que envolvem mistérios e desenvolver qualidades psíquicas, desconhecendo que o essencial é o crescimento espiritual, pois psiquismo não é espiritualidade.
O passo mais importante a ser dado pelo Aspirante à vida superior é conservar a Mente pura, arejada, livre de pré-conceitos que entravam o progresso espiritual; um Coração nobre, justo, sensitivo, porém condizente com a situação de quem procura analisar os fatos dentro de um prisma racional e lógico; um Corpo são, através de um regime alimentar adequado e hábitos salutares, bem como estabelecer, como dínamo a impressioná-lo em suas atividades diárias, o serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) ao irmão e a irmã que está ao seu lado. O resto virá por acréscimo.
Mesmo no decorrer do estudo da Filosofia Rosacruz nem tudo nos apresenta claro e compreensível de um dia para outro. Nem todos possuem a mesma capacidade de assimilação de conhecimentos, pois tal capacidade constitui uma bagagem adquirida em existências passadas, conforme o maior ou menor empenho de cada um. Não obstante, é necessário perseverar e perseverar sempre. Mesmo que levemos muito tempo para entender algum tópico das lições, e que isto não seja motivo para esmorecimentos e desistência. Cada um deve sobrepor-se as próprias fraquezas e dificuldades, porque é desta conquista da natureza inferior que se removem os obstáculos e as limitações esvaem-se. Estas são criações do próprio ser humano, através de um modo negativo de viver, de pensar e agir.
O estudo constante, a participação em reuniões de estudos Rosacruzes sempre que possível, a prática constante do Exercício Esotérico noturno de Retrospecção, o viver leal e sincero de conformidade com os ideais rosacruzes constituem fatores positivos, que propiciam o vislumbre de horizontes mais amplos.
É evidente que o estudo e a demonstração das Leis de Deus que regem os Mundos suprafísicos não implicam em compreensão imediata, pois a Natureza não dá saltos e se muitas vezes não entendemos nem aquilo que é perceptível aos nossos sentidos físicos, quanto mais o que é âmbito mais sutil!
Mas, se tivermos paciência, tudo virá no devido tempo e conseguiremos o almejado, pois, o espírito de harmonia e a unidade de propósito muito nos auxiliarão; assim, constituirão uma força que beneficiará, fortalecerá e sustentará a cada um de nós.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz outubro/1966-Fraternidade Rosacruz -SP)
Há que repararmos que principalmente em todo o continente americano há, nos dias atuais, uma verdadeira invasão de algumas Religiões e seitas tipicamente orientais ou até as praticadas por irmãos e irmãs que trazem fortes reminiscências das Épocas Lemúricas e Atlantes (fenomênicas, negativas e até à base de sacrifícios de animais e quiçá de pessoas). Parece que entre os jovens registra-se a maior influência dessas crenças e, consequentemente, maior número de adesões. Muitos, inclusive, manifestam a pretensão de abandonar tudo: emprego, estudo, família, para aprender meditação na Índia, ou, então, recolher-se ao isolamento das montanhas seja lá onde forem.
Em vários países do lado ocidental da Terra, os “gurus” e/ou “instrutores” e/ou “mestres” estão despontando em escala crescente, mas nem todos se revestem do manto da espiritualidade, haja vista algumas concentrações realizadas onde, ao som de músicas estridentes e anti-espiritualistas, muitas pessoas “curtem” até vários tipos de drogas ditas lícitas e até ilícitas.
Tudo isso tem provocado um número expressivo de queixas, mormente dos pais, inconformados com a decisão de seus jovens filhos, de quem esperavam brilhantes vidas plenamente vividas dentro da espiritualidade Cristã, ou pelo menos uma vida enquadrada nos padrões do lado ocidental da Terra. Irritados, e em alguns casos até chocados com o exotismo das ditas Religiões e seitas que habilmente atraem moços e moças, não vacilaram, alguns, de até exigirem providências das autoridades.
A questão é complexa, não lhe cabendo, portanto, uma análise simplista. É necessário encontrar as razões pelas quais algumas pessoas se desencantam com o Cristianismo (mesmo o popular, o Exotérico), partindo em busca de sistemas religiosos estranhos à nossa formação ocidental e ao estágio evolutivo atual de cada lado.
Um exame mais profundo e abrangente desse problema, não poderá fugir de uma base eminentemente esotérica. A Filosofia Rosacruz, esotérica por excelência, propicia-nos fundamentos essencialmente lógicos para assegurar-nos conclusões satisfatórias. À sua luz, portanto, examinemos tão controvertido tema.
Tal como o Sol aparentemente se desloca de leste a oeste, a luz da espiritualidade obedece à mesma trajetória ao longo da nossa evolução aqui.
Confúcio na China; Buda na Índia; Pitágoras na Grécia constituíram marcos progressivos do caminho esplendoroso do Sol da espiritualidade, empurrando o sentimento religioso – expresso na forma mais adequada a cada povo – cada vez mais para Oeste.
Mais tarde se manifestou Cristo, cuja influência se faz sentir, predominantemente, no lado ocidental. E continuará assim, até que todos nós, Egos (Espíritos Virginais da Onda de Vida humana manifestados aqui), que habitamos em todas as regiões do Planeta, nos universalizemos, nos libertando dos laços restritivos da Raça e das tradições antigas retrógradas e contra o Cristianismo (mesmo que muitas, por astúcia, dizem não serem). Quando tal ocorrer, o Cristianismo se consagrará, de fato, como uma Religião de âmbito mundial.
A Lei do Renascimento nos auxilia a penetrar na complexidade do assunto, elucidando os mistérios que envolvem as diferenças filosófico-religiosas patentes, por exemplo, entre ocidentais e orientais.
No ocidente se encontra os seres humanos mais evoluídos da Terra, em sentido geral. Em existências passadas renasceram vária vezes no oriente. Renascem, agora, nessa parte da Terra, para se dedicarem a um aprendizado condizente com seu atual estado evolutivo.
Aos menos avisados, parece ser o oriente mais avançado espiritualmente. Puro equívoco. Não é nada disso. E vale a pena ressaltar que essa ideia errônea foi espalhada por aí através das obras orientais postas à venda em todo tipo de comércio. Realmente, a produção de fenômenos suprafísicos e a manifestação de faculdades paranormais, impressionam. Causam certo impacto em quem não conhece devidamente o assunto. Muitos ficam deslumbrados à simples narrativa das façanhas, por exemplo, de faquires e iogues. Ficam por aí lamentando as “deploráveis condições de materialismo” em que vivem os ocidentais, exaltando o oriente como única fonte de espiritualidade.
Ora, devagar com o andor! Psiquismo não é espiritualismo! Muitas vezes andam até bem divorciados. Ocorre que certos exercícios preconizados pelas Escolas Orientais têm o condão de despertar certos atributos psíquicos. São, realmente, indicados para os nossos irmãos e nossas irmãs que são Aspirantes daquela parte do globo terrestre. Mas quando praticados por ocidentais, tendem a conduzir a um despertamento prematuro e artificial, consequentemente perigoso. Isto é válido, principalmente em se tratando de exercícios respiratórios. São práticas inadequadas e desaconselháveis ao ser humano do ocidente. Várias doenças e enfermidades podem ser contraídas como resultado desses exercitamento. Muitas pessoas boas andam por aí, internadas em clínicas, casas de saúde, hospitais especializados em casos ditos psiquiátricos, debilidade intelectual ou de transtornos mentais.
Max Heindel não se cansa de nos advertir a respeito. Em face de sua responsabilidade como mensageiro dos Irmãos Maiores na divulgação dos Mistérios Rosacruzes, define com exatidão e clareza as linhas constitutivas dos Métodos de Desenvolvimento Ocidental e Oriental. Vejamos o que ele afirma sobre o assunto no livro Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz: “Na Índia se empregam diversos métodos, sob diferentes sistemas de Ioga. Ioga significa União e, como no Ocidente, o objetivo do Aspirante é a união com o ‘Eu superior’. Porém, para serem eficazes os métodos de alcançar essa união, devem ser diferentes para um indiano ou uma indiana e para um ser humano que nasce e vive no lado ocidental, tendo em vista que os veículos de um indiano ou uma indiana estão diferentemente constituídos dos de um ser humano que nasce e vive no lado ocidental. Os indianos e as indianas, durante muitos milhares de anos, viveram em ambiente e clima totalmente diferentes dos nossos e seguiram diferentes métodos de pensamento. Sua civilização, embora de ordem muito elevada, produz efeitos diferentes. Portanto, seria inútil adotarmos seus métodos, aliás, produto dos mais elevados conhecimentos ocultos. São perfeitamente convenientes para eles, mas, sob todos os aspectos, tão inadaptáveis aos ocidentais como um prato de aveia é impróprio para um leão.
Por exemplo, em alguns sistemas se pede ao iogue para se sentar em determinadas posições a fim de certas correntes cósmicas poderem fluir de certo modo através do seu Corpo, o que produzirá definidos resultados. Eis uma instrução completamente inútil para um ser humano que nasce e vive no lado ocidental, cuja maneira de viver torna-o inteiramente insensível a essas correntes. Para obter algum resultado prático deve trabalhar em harmonia com a constituição dos próprios veículos”.
Em uma de suas Cartas aos Estudantes, Max Heindel aponta outras diferenças, por exemplo, com o Hinduísmo: “A Escola Oriental de Ocultismo baseia os seus ensinamentos no Hinduísmo, enquanto a Escola dos Ensinamentos de Sabedoria Ocidental preconiza o Cristianismo – Esotérico, a Religião do Ocidente – e há uma grande discrepância fundamental e irreconciliável entre os ensinamentos dos modernos representantes do Oriente e os dos Rosacruzes. De acordo com a versão do Ocultismo Oriental, o Corpo Vital – chamado ‘Linga Sharira’ – é comparativamente sem importância, pois é incapaz de se desenvolver como um veículo de consciência. Ele serve apenas como um canal para a força solar, ‘prana’, e é um ‘elo’ entre o Corpo Denso e o Corpo de Desejos, que é chamado ‘Kama Rupa’, também chamado de ‘Corpo Astral’. Esse, dizem eles, é o veículo do Auxiliar Invisível.
A Escola dos Ensinamentos de Sabedoria Ocidental nos ensina, como sua máxima fundamental, que ‘todo o desenvolvimento oculto começa com o Corpo Vital’, e o autor, como seu representante oficial e público, tem estado constantemente empenhado, desde o princípio do nosso movimento, tentando reunir e disseminar os conhecimentos referentes aos quatro Éteres e ao Corpo Vital.”.
Há ainda outro fator positivo respaldando o Método Ocidental de desenvolvimento: é o seu caráter libertário, emancipando o Aspirante à vida superior de toda influência externa, tornando-o confiante em si mesmo no mais alto grau. Já no Oriente tal não ocorre; o “Chela” deve submeter-se ao “Guru”, a quem deve estrita obediência. Ao discípulo não se concede liberdade de escolha, mas também não assume nenhuma responsabilidade. Entre as almas mais “velhas” do Ocidente, Aspirantes ao crescimento espiritual, não pode haver submissão a “gurus”, “mestres” e “guias”. Cada um deve aprender a conduzir-se por si só, mesmo que lhe custe algumas quedas e sofrimentos.
Os ocidentais são mais ativos, mais empreendedores e dinâmicos, tendo, com essa gama notável de qualidades, já conquistado o Mundo material. De pujante intelecto, desenvolveram-se cientificamente, criando uma vasta e sofisticada tecnologia. Souberam aproveitar todas as oportunidades e recursos oferecidos pelo Mundo Físico. É verdade que isso lhes trouxe também inúmeros problemas, não pela matéria em si, mas pelo uso distorcido que dela fizeram; inverteram a ordem das coisas. Trocaram os fins pelos meios. Converteram em objetivos os recursos que, naturalmente, são meios para se lograr um progresso transcendental à materialidade. Mas essa condição, a despeito de ser perigosa, é passageira.
Os orientais até bem pouco tempo consideravam a vida material como sendo um pesado fardo. Pouco se interessavam por ela, preferindo uma existência mais contemplativa, onde pudessem gozar as delícias do “nirvana”. Aferrados a tradições milenares, relutavam em aceitar as vantagens oferecidas pela existência concreta. Mantinham-se alheios às novas descobertas e às transformações que, de tempos em tempos, imprimem novos contornos e colorido às civilizações.
Porém, como não existe inércia na natureza, as Hierarquias Criadoras, responsáveis pela nossa caminhada evolutiva, valeram-se de alguns meios para promover uma descristalização com catástrofes, conflitos bélicos, etc. Hoje já se nota um processo de ocidentalização em várias nações orientais, desenvolvendo-se, em algumas delas, modernas sociedades de consumo. As coisas já começaram a mudar.
Não é difícil, portanto, admitir a existência de acentuadas diferenças entre orientais e ocidentais. Aqueles Egos encontram-se na curva descendente da Evolução, prestes a atingir o Nadir da Materialidade, pelo qual nós já passamos a milhares de anos. Em um futuro próximo, deverão enfrentar os mesmos problemas agora afligindo os ocidentais, para adquirirem a experiência da vida material. Afastam-se, pouco a pouco, das vivências predominantemente subjetivas, para dedicar-se à conquista do plano material, requisito indispensável à Evolução.
Os ocidentais, por sua vez, ascendendo o arco evolutivo, estão alcançando condições de maior espiritualidade. Constroem Corpos Densos mais sutis e Mentes mais dinâmicas. Tudo isso lhes é possível graças ao método de realização onde seu desenvolvimento depende exclusivamente de iniciativa, esforço e perseverança. São qualidades capazes de manter sempre dinamicamente atualizadas as sociedades e instituições do ocidente.
Ora, se os ocidentais são vanguardeiros da evolução humana e suas Escolas de Mistérios são respaldadas pelo Cristianismo, tais premissas induzem, infalivelmente, a uma conclusão: “o sistema filosófico religioso Cristão é o mais avançado que se conhece”. Daí ser um contrassenso alguém, principalmente natural do lado ocidental do globo, abraçar uma Religião ou Escola de Mistérios do Oriente.
Mas, por que alguns jovens aderem aos cultos orientais? A resposta em parte, podemos encontrá-la dentro dos próprios movimentos Cristãos populares. O Cristianismo Popular Exotérico, ainda escravizado à “letra que mata e não ao espírito que vivifica” (IICor 3:6), vai perdendo, gradativamente, consistência ante os avanços que ocorrem em todos os campos do conhecimento humano. As Igrejas Cristãs que preconizam o Cristianismo Exotérico ou Popular sustem-se pelos dogmas. E o dogma, para manter-se, exige uma fé cega, o que já se tornou inconcebível em nossos dias.
A Mente acadêmica procura uma explicação lógica e racional, para todos os fenômenos, empenhando-se em conceituar e definir as coisas. Daí concluirmos que, somente uma Religião assentada em bases racionais pode satisfazer ao ser humano moderno, atendendo, principalmente, aos anseios das novas gerações. E esse sistema religioso, é a Cristianismo Esotérico, tal como é divulgado pela Fraternidade Rosacruz.
Contudo, a despeito da profundidade dos Ensinamentos Rosacruzes, o número de Estudantes filiados a este movimento não é muito grande. Nem todos aceitam a disciplina inerente a uma Escola Filosófica séria. Essa disciplina, que fique bem claro, não é imposta. O próprio Estudante, livre, espontânea e conscienciosamente se impõe uma norma de conduta lastreada nas Leis Divinas. Ele alimenta propósitos edificantes, cioso de que o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz não é nada fácil. Mas, corajosamente assume a responsabilidade, por sua conta e risco. E a ninguém ou à organização alguma procura debitar seus fracassos e as frustrações decorrentes. As pessoas, em sua maioria, sempre esbarram nessa responsabilidade. É mais cômodo transferi-la a outrem.
A tibieza, o fanatismo e o mau exemplo expresso em incoerência de atitudes por parte de alguns chefes religiosos, e de pessoas bem-posicionadas dentro de comunidade, também constituem fatores suscetíveis de levar os jovens a desiludirem-se com o Cristianismo Popular. “Errare humanum est”, pode contestar alguém. Não é justo confundir uma crença com a atitude dos crentes. Todos os seres humanos estão sujeitos a momentos de fraqueza. Mas também é certo que a “quem muito é dado muito será exigido” (Lc 12:48). Quem ocupa uma posição de destaque no seio de uma comunidade, principalmente religiosa, deve estar consciente de sua responsabilidade, empenhando-se em manter intacta sua integridade moral. O Cristo exortou-nos a “orar e vigiar” (Mt 26:41).
Vivemos hoje numa sociedade extremamente imediatista e utilitarista, pragmática e competitiva. As pessoas, carentes de sólidas defesas morais, sentem-se massacradas intimamente.
Essa é a gênese das neuroses, suicídios e outros males modernos. A troca dos meios pelos fins desaguou nisso aí. Mas quem arranjou essa encrenca foi a próprio ser humano. Cabe-lhe, portanto, sair dela, pela colocação das coisas em seus devidos lugares, atribuindo-lhes os seus valores reais.
Essa tarefa fundamental compete principalmente aos pais, professores e chefes religiosos. Lamentavelmente, nem todos se encontram preparados para tal. Eis porque muitos jovens sentem-se desorientados, desiludidos, carentes de respostas, oprimidos por um vazio interior. No exotismo (extravagância) de Religiões orientais ou no silêncio quase sepulcral de mosteiros e montanhas, procuram algo capaz de preencher suas íntimas necessidades.
A intenção é boa e pura. Mas, de certo modo, configura fuga ou escapismo. Andam em busca de paz. Mas um dia serão obrigados a retornar ao Mundo, porque a paz só se obtém aqui, em meio às lutas, pela transformação das consciências; pela reforma do íntimo, pela coragem em encarar e enfrentar os obstáculos. A paz é fruto do trabalho.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1980 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Como bem explicado no Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, o Mundo do Desejo é formado por sete Regiões, sendo três Regiões superiores, uma Central e três Regiões inferiores. Após a morte alguns irmãos ou algumas irmãs chegam a Região Central e dado a seus interesses, bons ou maus, é que determina em que direção irá seguir podendo ficar na Região Central (onde está localizada a Região Limítrofe) ou seguir para as Regiões inferiores ou superiores do Mundo do Desejo; porque as forças que prevalecem nesta Região Central – Interesse e Indiferença – são as palavras chaves desta Região para determinar o rumo de cada um de nós.
Não existe o sofrimento nessa Região Limítrofe, como o há nas Regiões inferiores; porém este é o lugar de expiação dos apáticos, aqueles que deliberadamente não foram maus nesta vida; fizeram o bem e foram moralmente irrepreensíveis e gentis, mas sem sentimentos de devoção alguma e, também, sem guardar verdadeira aspiração para a vida espiritual. Para eles o Mundo do Desejo é um estado da mais indescritível monotonia. Pode-se ouvi-los exclamar com o mais profundo desespero: “Quando acabará isto? Quando acabará isto?”. Mas, chega um determinado momento em que o Ego é acometido por apatia e tédio, dada a situação que se encontra. Até que surge nele um desejo para a vida anímica superior; é quando está pronto para passar ao Purgatório e Primeiro Céu.
Mas, nenhum Ego deve temer o Purgatório, uma vez que todo o sofrimento que irá enfrentar foi gerado por ele mesmo, no último renascimento aqui. Ali as pessoas moralmente enfermas recebem o cuidado necessário para restaurar a saúde espiritual. Certamente que neste cuidado pode incluir uma espécie de “cirurgia” que será dolorosa para o Ego, já que é realizada, mediante a ação da força de Repulsão; força esta que domina no chamado Mundo do Desejo inferior. No Purgatório, somente as cenas onde o Ego errou (por omissão ou por comissão) são revividas, e ele se vê no lugar daquele ou daquela que prejudicou e sofre como sofreram aqueles e aquelas que ele fez sofrer na vida terrena recém-finda.
Quando o Ego aprende as lições do Purgatório e a quintessência das experiências adquiridas pela dor e sofrimento – que será a consciência na próxima vida – são gravadas no Átomo-semente do Corpo de Desejos como fruto da vida passada, então está pronto para se elevar ao Primeiro Céu, que é a chamada parte superior do Mundo do Desejo.
À medida que o Ego arranca de si os desejos inferiores e começa a pensar de maneira construtiva ou espiritualmente, seus sonhos, suas esperanças e seus desejos serão melhorados, começando a elevar-se até o Primeiro Céu, de onde a Lei de Atração dominante produz um mundo de beleza e de ordem para o Ego.
Mas existe uma maneira de encurtar a existência no Purgatório, que é pela prática diária do Exercício Esotérico noturno de Retrospecção. Este é um grande benefício que o Ego tem como ajuda ao desenvolvimento da visão espiritual. Este processo consiste em: “ao se deitar rever os acontecimentos do dia em ordem inversa, isto é, da noite para manhã, considerando os erros cometidos, buscando o sincero arrependimento e a decisão de se reformar intimamente, prometendo a si mesmo fazer o melhor para retificá-los quando a oportunidade surgir, e ela sempre surgirá devido a estamos sob ‘espirais dentro de espirais’”. Se proceder assim erradicará os pecados cometidos nesta vida e se tornará uma pessoa melhor e certamente os pecados que deveriam ser expurgados no Purgatório já foram eliminados durante a vida, e a existência será encurtada. Podendo assim passar menos tempo lá e depois subir ao Primeiro Céu.
(Publicado na: Rays From The Rose Cross – maio/1916 – Traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
A necessidade de desenvolvermos o Corpo-Alma, se quisermos viver conscientemente na próxima Era está contida nesse versículo do Apocalipse de S. João e são de natureza profética: “A quem vencer, eu o farei coluna do Templo do meu Deus, e dele nunca sairá” (Apo 3:12). Seu significado é muito claro e conciso!
Adaptando-lhe os termos da Filosofia Rosacruz, quer dizer que aqueles que extraíram da existência física o Corpo-Alma, ou seja, o “Veículo de Cristo”, se tornam servos em Sua “Vinha” ou Reino e não mais retornam ao Mundo material. Os que não vencerem, devem retornar à Terra pelo renascimento para poderem progredir, sendo-lhes dada assim outra oportunidade de revestirem-se do Manto Dourado Nupcial.
Temos aqui uma positiva evidência do Renascimento, cuja doutrina é indispensável para podermos aceitar a evolução. O progresso depende de substituir o velho pelo novo, à medida que avançamos; a morte para o velho e o nascimento para o novo, como acontece com a vida.
A Forma é uma necessidade para a expressão da Vida, que é eterna. Em sua evolução, a Vida teve, necessariamente, de usar diversas Formas que sempre foram melhorando conforme a Vida progredia. Daí a morte e o renascimento resultando da verdade: “Deveis nascer de novo” (Jo 3:1). Quando a Forma se torna imprestável para o nosso uso deve ser abandonada, daí resultando a morte, e uma nova Forma deve ser construída para que o nosso desenvolvimento espírito continue. Tal é o princípio do Renascimento. O Renascimento é, portanto, um fator incontestável nesse Esquema de Evolução – no qual todos estamos inseridos, saibamos ou não –, já que o progresso, sem ele, é inadmissível, e o Renascimento se torna parte da nossa concepção da eternidade, uma necessidade para aquilo que era, é e será. O Renascimento é, na verdade, um fator indiscutível na evolução, pois o progresso é impossível sem ele. Velado em mistério, sua aceitação ainda depende da nossa fé. Para alguns, todavia, há dificuldades em aceitá-lo, porque não podem compreender que perdemos a lembrança de nossa existência espiritual superior durante os Renascimentos aqui. Isso acontece para que demos maior importância a sua vida física, pois se tivéssemos lembranças da nossa vida nos Mundos superiores não daríamos a devida importância a nossa existência material e nossa vida aqui na Terra seria de pouca valia para nós. Pode-se facilmente reconhecer a sabedoria que preside a essa circunstância, quando verificamos que descemos à existência no Mundo Físico para aprendermos tudo o que pudermos a respeito deste Mundo como parte da nossa evolução e, não tendo conhecimento de nossa existência superior, somos impelidos a nos aplicar na vida aqui na Terra. O Estudante Rosacruz ativo e que já está trilhando a algum tempo o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz sabe que o Renascimento é uma verdade porque tem ciência que é um Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) e pode acompanhá-lo desde a sua saída do Corpo, por ocasião da morte aqui, até que reaparece na Terra por meio de novo Renascimento.
A Filosofia Rosacruz estabelece que o nosso Corpo Denso era semelhante ao mineral durante a Época Polar; semelhante ao vegetal durante a Época Hiperbórea; semelhante ao animal, possuindo um Corpo de Desejos, na Época Lemúrica, tendo chegado ao estado humano, possuindo Mente, na Época Atlante e que agora estamos desenvolvendo o terceiro aspecto do nosso Tríplice Espírito, o Espírito Humano, na atual Época Ária. As mudanças feitas por meio das referidas mortes e nascimentos foram feitas por nós mesmos em nosso estado inconsciente, mas atualmente adquirimos a Consciência de Vigília, ou consciência de nós mesmos, exercendo em alguma extensão nossa vontade individual, o que está nos habilitando a desenvolver o nosso poder espiritual divino. Atualmente somos grandemente responsáveis por nossos atos estando sujeito à Lei de Consequência. Essa Lei, agindo em harmonia com os Astros, nos traz ao nascimento quando as posições dos corpos celestes fornecem as condições necessárias a nossa experiência e progresso na Escola da Vida. As Leis do Renascimento e de Consequência têm sido ensinadas secretamente em todos os tempos, porém não foi ensinada publicamente no Mundo Ocidental durante os últimos dois mil anos.
A Hierarquia Criadora de Escorpião, os Senhores da Forma, tem a seu cargo os três germes dos Corpos Denso, Vital e de Desejos durante o presente estado evolutivo. Essa Hierarquia, sob a direção de outras ainda mais elevadas, realmente faz o principal trabalho nesses Corpos, usando a Vida que está evoluindo como uma espécie de instrumento. Atualmente estão com o encargo do terceiro aspecto do Espírito, o veículo Espírito Humano, durante o restante desse Período Terrestre.
O Signo de Escorpião, o Signo dos segredos, da morte e da regeneração ou renascimento é o segundo Signo da Trindade Reprodutora está, e quando o Sol está transitando por ele, estamos nos preparando para um renascimento do Cristo, mais uma vez no centro do nosso Planeta Terra, pelo Natal, enquanto a “Mãe Terra” mergulha no silêncio e na escuridão material e é permeada mais fortemente pela aura do Sol Espiritual, com o correlativo aumento do Fogo Sagrado inspirador de crescimento anímico em nós (não importando em que hemisfério estamos, sentimos essa influência, se estamos cultivando a nossa espiritualidade Cristã praticada na nossa vida aqui); mas, pela Páscoa, provoca uma diminuição de espiritualidade com o correlativa intensificação e pujança de vitalidade física (também não importando em que hemisfério estamos, sentimos essa influência, se estamos cultivando a nossa espiritualidade Cristã praticada na nossa vida aqui). O nascimento e a morte são necessários um ao outro como polos opostos de manifestação da Vida. O segredo da morte é a preparação para o nascimento. O princípio do renascimento – “aparecer de novo” – está sempre diante de nós: o Sol nasce pela manhã e morre à tarde, para aparecer novamente no dia seguinte; nossa consciência vem ao despertarmos do sono, para morrer mais tarde quando o sono retorna. Esse princípio de atividade consciente e inconsciente age em todos os planos, em grau diverso. Pelo Renascimento cada novo aparecimento é uma melhora nas condições anteriores, se adquirimos o conhecimento por meio da experiência, à proporção em que caminhamos para a frente e para cima, sempre.
É o polo positivo do ígneo Marte, por meio de Áries, que traz o renascimento ao plano material no Mundo Físico e é o polo negativo desse Planeta que introduz o Renascimento nos Mundo celestes por meio de Escorpião, precedido da morte no Mundo Físico. Portanto, Marte é o “Senhor do Renascimento”.
A criação procede da geração e a geração é o resultado da atividade sexual administrada por Marte. O sexo, ou a força sexual criadora, se manifesta em tudo na Região Química do Mundo Físico, o plano físico. Já nos planos suprafísicos essa mesma força criadora se manifesta nos princípios masculino (Vontade) e feminino (Imaginação) e estão sempre ativos no universo. Toda atividade resulta da atração e a força sexual criadora é o poder ativo que está por trás da atividade. No plano físico, as atividades dos elétrons, dos átomos e dos corpúsculos são simples atividades dessa força criadora. No plano mental, a Mente objetiva (quando renascemos no sexo masculino aqui) e a Mente (quando renascemos no sexo feminino aqui) estão em atração mútua, enquanto no plano espiritual existe a atração das essências espirituais entre a Vontade e Imaginação. A atividade da força sexual criadora, o princípio causador da criação, deu a Marte o título de “auxiliar do Sol”, que é o “Senhor da Criação”.
Vejamos agora o que a crença no Renascimento pode fazer por nós em nossa vida neste plano físico. Primeiramente revela o fato de que nós, sendo conscientes de nós mesmos, e agindo de acordo com a nossa própria vontade, nos tornamos responsáveis por nossas ações. Essas ações, sob a Lei de Consequência (isto é, o efeito que resulta da causa) ajudam a modelar nossa vida. Aprendemos que colhemos boas recompensas pela atos retos, ação ou obra reta, e colhemos dores e sofrimentos pelos maus atos, más obras ou ações. Não podemos escapar dessas consequências, pois se não aparecerem na vida atual, aparecerão em uma nossa vida posterior como Destino Maduro a ser dissolvido, às vezes, em situação mais difícil e doloroso. Portanto, temos muitos incentivos para nos tornarmos uma melhor pessoa por nossa vida em evolução aqui. O Renascimento vem ao encontro da doutrina da Ressurreição, pois por seu intermédio, o “aguilhão da morte” é removido e perdida a “vitória do túmulo”, pois o que desapareceu tornará a aparecer.
O Renascimento revela a eternidade da vida que proporciona a alegria de viver e das aspirações por sucesso na evolução, pois os fracassos nessa vida poderão se tornar vitórias na vida futura, por meio de novas oportunidades para vencer o que hoje nos cerceia.
As repetidas vidas do correto viver, desejar, falar, pensar nos habilitam a conhecer de “onde viemos, para onde vamos e por que estamos aqui”, bem como o que o futuro nos reserva acerca da Liberdade de escolha.
O Renascimento revela a sabedoria de Deus e a justiça das Suas Leis, a Santidade da vida e, sobretudo, a nossa grandeza feito à imagem e semelhança de Deus.
A crença no Renascimento não é coisa nova; existe na Índia desde tempos antigos; é encontrada no Budismo; contida no Alcorão, o livro sagrado de Islã; é conhecida dos Lamas do Tibete. Foi ensinada por Pitágoras e dos gregos foi transmitida à primitiva Igreja Cristã. É religiosa, filosófica; e também podemos dizer, científica.
Na realidade a morte não existe! O que assim parece é uma perda temporária de consciência num período de transição, quando passamos de um degrau para outro superior na escada da evolução.
Erradicando o temor da morte de nossas vidas, pelo conhecimento do renascimento, a transmutação e a transfiguração guiam o curso das nossas vidas para os portos celestes da paz e do amor, ao mesmo tempo que viajamos para o nosso Criador, tendo cumprido nossa missão o melhor que pudemos, para alegria do nosso Senhor!
“E quando tenha terminado meu trabalho na Terra,
E meu novo trabalho nos Céus comece.
Esqueça eu os louros que ganhei.
Enquanto trabalho pelos outros.”
(Frances Jane Crosby – Fanny Crosby)
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de novembro/1978-Fraternidade Rosacruz-SP)
É tempo de Natal. Mais uma vez o Espírito de Cristo – um raio do Cristo Cósmico –, amorosamente, esparge sua energia em nosso Planeta, renovando-o espiritualmente. A época é muito propícia ao recolhimento e introspecção.
Perguntemo-nos sobre nossas vidas. Inquiramo-nos sobre o que temos feito das oportunidades colocadas em nossas mãos. Elas estão sendo aproveitadas edificantemente, tais como os talentos da parábola evangélica (a Parábola dos Talentos[1]), multiplicando-se por seu emprego justo e apropriado?
Não neguemos: temos tido oportunidades. A despeito das cruezas e incertezas da era que vivemos, podemos nos considerar privilegiados. Quantas bênçãos e oportunidades de crescimento anímico são postas ao nosso alcance.
Contemplemos essa admirável Filosofia Rosacruz! É uma fonte inesgotável de sabedoria, assentada sobre bases adequadas ao nosso desenvolvimento. O aspecto racional dela projeta luz sobre os mais intrincados problemas da vida, facultando-nos encontrar Deus em todas as coisas e em nós mesmos. Enseja-nos respostas. Delineia-nos um caminho. Disciplina o fluxo das nossas energias.
O aspecto devocional da Filosofia Rosacruz fortalece nossa fé no supremo “bem”. Alenta-nos nos difíceis momentos dos desafios: “O único fracasso é deixar de lutar”. Prepara-nos, inspira-nos, revela-nos nossa vocação espiritual.
Ensina-nos, a Filosofia Rosacruz, a dignidade do bom relacionamento, evidenciando a regra de ouro: “não fazer a outrem o que não queremos que nos façam”[2]. Exorta-nos à pureza, advertindo que “o salário do pecado é a morte”[3].
Estimula o estudo como um meio de conhecermos as Leis da Natureza: “O único pecado é a ignorância, e a única salvação o conhecimento aplicado”. Das entrelinhas de seus ensinamentos faz emergir o Evangelho do Serviço: “O serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) para com os demais é o caminho mais curto, mais seguro e mais agradável que nos conduz a Deus”.
O método de desenvolvimento da Fraternidade Rosacruz, se observado com fidelidade, conduz ao portal do Templo da Iniciação. Basta “viver a vida” e amar a todos os seres da criação.
Mas nem sempre essas preciosíssimas oportunidades estiveram ao alcance de todos.
Nos tempos pré-Cristãos, o Caminho da Iniciação era uma realidade para uma minoria. As portas do Templo eram abertas exclusivamente para uns poucos escolhidos, preparados e guiados pelos Hierofantes dos Mistérios. A natureza de desejos era muito forte e o egoísmo constituía o denominador comum do relacionamento humano. Um número insignificante de pessoas se mostrava em condições de se acercar das realidades espirituais por meio da Iniciação.
Com o advento do Cristianismo, as coisas passaram por substanciais modificações. Quando o sangue fluiu no Gólgota, o “véu do templo rasgou-se de alto a baixo”[4]. E o Cristo se tornou assim o Regente Planetário da Terra, iniciando um trabalho de, periodicamente, infundir energia e purificar o Corpo de Desejos planetário. O fim desse ciclo está condicionado ao nosso próprio adiantamento. Abria-se, assim, o Caminho da Iniciação para todos aqueles que se dispusessem a trilhá-lo, acumulando para tanto o necessário mérito; agora, só o mérito é que conta!
Sensibilizados pelo Amor Universal, sentimos brotar em nosso interior as primícias dessa ação cósmica: a caridade, o sentimento de empatia, o espírito de sacrifício, a fraternidade.
Diariamente somos prodigalizados com inúmeras oportunidades de servir. Que fazemos delas? A menos que as traduzamos em obras, continuaremos a retardar o dia da libertação, o “consumatum est” coletivo.
O Cristo Cósmico aguarda pacientemente o nascimento, em cada um de nós, de sua réplica microcósmica, o Cristo Interno. É um trabalho árduo, exigindo paciente persistência em praticar o bem. As oportunidades estão aí, mas o mundo com suas ardilosas solicitações ainda nos exerce um perigoso fascínio. O nascimento do Cristo em nós, por certo, resultará de um parto doloroso. Um dia, porém, deverá acontecer.
É tempo de Natal. Aproveitemos para meditar sobre isso.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – dezembro/1974-Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Pois será como um homem que, viajando para o estrangeiro, chamou os seus próprios servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um. A cada um de acordo com a sua capacidade. E partiu. Imediatamente, o que recebera cinco talentos saiu a trabalhar com eles e ganhou outros cinco. Da mesma maneira, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas aquele que recebera um só o tomou e foi abrir uma cova no chão. E enterrou o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo, o senhor daqueles servos voltou e pôs-se a ajustar contas com eles. Chegando aquele que recebera cinco talentos, entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me confiaste cinco talentos. Aqui estão outros cinco que ganhei’. Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’” Chegando também o dos dois talentos, disse: ‘Senhor, tu me confiaste dois talentos. Aqui estão outros dois talentos que ganhei’. Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’ Por fim, chegando o que recebera um talento, disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. Assim, amedrontado, fui enterrar o teu talento no chão. Aqui tens o que é teu’. A isso respondeu-lhe o senhor: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei e que ajunto onde não espalhei? Pois então devias ter depositado o meu dinheiro com os banqueiros e, ao voltar, eu receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe o talento que tem e dai-o àquele que tem dez, porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o fora nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes!’ (Mt 25:14-30)
[2] N.R.: Mt 7:12
[3] N.R.: Rm 6:23
[4] N.R.: Mt 27:51, Mc 15:38 e Lc 23:45
Ninguém deve temer o Purgatório, já que ele é um “hospital para alma”. Nele as pessoas moralmente enfermas recebem o cuidado necessário para “restaurar a saúde”. Certamente que nesse cuidado pode incluir uma espécie de “cirurgia” que frequentemente é dolorosa para o Ego – que ainda está revestido pelo Corpo de Desejos e pela Mente da vida terrestre recém terminada –, já que é realizada, mediante a ação da Força de Repulsão; força essa que predomina nas Regiões inferiores do Mundo do Desejo, onde se localiza o Purgatório.
Os fabricantes de instrumentos da maldade devem aprender a se elevar acima de seus desejos; já que a escravidão dos apetites físicos é vencida pela completa impossibilidade de gratificá-los. Os “demônios” da crença ortodoxa são vistos no Purgatório como uma força inferior da Onda de Vida comparada à dos insetos e répteis do Mundo Físico, porém menos perigosos devido ao fato de que são mais dóceis à vontade do Ego e às forças psíquicas. Um simples ato de determinação, uma elevação de consciência mediante a oração, não de caráter angustioso, suplício (ainda que essa também tenha seu poder), mas da oração tranquila que nasce de uma Mente elevada afasta rapidamente esses elementais, enquanto o corpo doente não é tão facilmente dissipado.
A base da vida no Purgatório são as cenas em que o Ego errou e são revividas, e ele se vê no lugar daquele que prejudicou e sofre como sofreram aqueles que ele lesou na vida terrena, da mesma forma que a base da vida enquanto encarnados neste Mundo Físico é o Panorama da Vida que escolhemos no Terceiro Céu. Mesmo porque no Purgatório vivemos, em média, um terço do tempo vivido aqui e nesse período temos muito que compensar por meio do arrependimento e da reforma íntima.
O que ocorre, às vezes, é os Auxiliares Invisíveis encontrarem pessoas que estão no Purgatório e que lhe pedem que vá as suas famílias para dizer-lhes para viver vidas retas e bondosas e fazer o seu melhor para não ter que sofrer depois que eles passarem pela morte. E, obviamente, eles não vão porque de nada adiantaria (como não adianta, na maioria das vezes, a gente ser testemunhas oculares das mazelas dos nossos pais, familiares e entes próximos e, mesmo assim, a gente continua fazendo o que é errado!).
Vamos falar um pouco sobre como é o processo da experiência purgatorial, quanto à sua constância em sentirmos os sofrimentos e as dores purgantes encadeando um sofrimento após o outro durante toda a nossa existência nesse lugar. Usemos a Lei de Analogia para entendermos como funciona lá, estudando como funciona aqui. Suponhamos que uma pessoa que sofre intensamente, por um curto período de tempo, geralmente sente a dor muito agudamente. Agora uma outra pessoa que sofre durante anos sucessivos, embora a dor infligida possa ser igualmente intensa, não parece senti-la na mesma proporção que a primeira pessoa. Isso ocorre porque a segunda pessoa se acostumou a ela e, de certa forma, o seu Corpo Denso se adaptou à dor; por isso, o sofrimento não é tão intensamente sentido nesse caso quanto no primeiro.
A mesma coisa ocorre na experiência purgatorial: se uma pessoa foi muito dura, cruel, indiferente quanto aos demais, egocêntrica, causadora de muita dor e muitos sofrimentos nos outros, então o seu sofrimento no Purgatório será muito rigoroso e intensificado pelo fato de que a experiência purgatorial seja de menor duração do que a vida vivida na Terra; mas a dor é intensificada proporcionalmente. Comparando com o caso acima se a experiência dessa pessoa fosse contínua ou a dor gerada por um ato fosse imediatamente seguida por outra, grande parte do sofrimento seria perdido para a pessoa, pois não seria sentida em toda a sua intensidade. Por esse motivo, às experiências lhe chegam em ondas, com períodos de descanso, para que o sofrimento seguinte possa ser profundamente sentido. Alguns podem achar que isso é cruel e que a dor infligida, ao utilizar-se desse artifício para intensificar o sofrimento, seja desnecessária. Porém não é assim. Esse sofrimento resultará um bem maior, pois Deus nunca busca desforra ou vingança, mas apenas almeja ensinar a pessoa pecadora a não mais reincidir no erro. Por isso, ela deve expiar todos os pecados cometidos. Isso irá ensiná-la a respeitar, em vidas futuras, os sentimentos alheios e a ser misericordiosa com todos. Portanto, é necessário que a dor seja altamente sentida para a conservação da energia e para que a pessoa possa se purificar e se tornar melhor, o que não aconteceria, caso a dor fosse contínua e o sofrimento, correspondentemente amenizado.
As experiências do Purgatório são gravadas no Átomo-semente do Corpo de Desejos como fruto da vida passada e depois na forma de um sentido moral purificado que o Ego leva consigo e conduz depois ao próximo renascimento para atuar como consciência e estimular o desenvolvimento das virtudes ao conceito de justiça e misericórdia.
Que as rosas floresçam em vossa cruz
É bem sabido pelo Astrólogo esotérico Rosacruz que o Corpo Denso tem um imenso período de evolução e que este esplêndido organismo é o resultado de um lento processo de construção gradual que ainda continua e tornará cada geração melhor que a anterior, até que, em algum futuro distante, tenha alcançado um estágio de completude com o qual nem sequer podemos sonhar. Também é compreendido pelos estudiosos mais profundos que, além do Corpo Denso, possuímos os veículos mais sutis que ainda não são vistos pela grande maioria das pessoas, embora todos tenham latente em si um sexto sentido, por meio do qual, com o tempo, reconhecerão esses invólucros mais sutis da alma.
O ocultista fala desses veículos mais sutis como o Corpo Vital, feito de Éteres, e o Corpo de Desejos, feito de matéria-desejo, o material de onde extraímos nossos sentimentos e emoções. Com a adição do invólucro da Mente e do Corpo Denso, estes completam o que pode ser chamado de Personalidade, que é a parte evanescente distinta do Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) que usa esses veículos para a expressão dele. Esses veículos mais sutis interpenetram o Corpo Denso como o ar permeia a água e têm domínio particular sobre certas partes dele, porque o próprio Corpo Denso é uma espécie de “cristalização” desses veículos mais sutis da mesma maneira e com base no mesmo princípio que os fluidos moles do corpo de um caracol gradualmente se cristalizam na concha dura e sílex que ele carrega em suas costas. Para os propósitos desta dissertação, podemos dizer, de forma ampla, que as partes mais moles de nossos Corpos, que comumente chamamos de “carne”, podem ser divididas em dois tipos: Glândulas e músculos.
Aprendemos na Fraternidade Rosacruz que o nosso Corpo Vital foi nos fornecido, como germe, no Período Solar. A partir daquele momento, a cristalização naquele veículo desenvolveu o que hoje chamamos de Glândulas, e até hoje elas e o sangue são as manifestações especiais do Corpo Vital dentro do Corpo Denso. Portanto, pode-se dizer que as Glândulas como um todo estão sob o domínio do Sol vivificante e do grande benéfico, Júpiter. A função do Corpo Vital é construir e restaurar o tônus dos músculos quando tensos e cansados pelo trabalho imposto a eles pelo inquieto Corpo de Desejos, que foi nos fornecido, como germe, no Período no Período Lunar.
Os músculos são, portanto, regidos pela Lua errante, que é o atual ponto de observação dos Anjos, a Humanidade do período Lunar, e pelo impulsivo e turbulento Marte, onde habitam os chamados Espíritos Lucíferos. Ou seja, como um todo, pois o Estudante Rosacruz deve observar cuidadosamente que Glândulas individuais e grupos específicos de músculos também estão sob o domínio de outros Astros (Sol, Lua e Planetas). É como quando dizemos que todos os que vivem nos Estados Unidos da América são cidadãos daquele país, mas alguns estão sujeitos às leis da Califórnia, outros às do Maine, etc.
Conhecemos o Axioma Hermético: “Assim como em cima, assim embaixo”, que é a chave-mestra para todos os mistérios, e assim como existem na Terra, o macrocosmo, muitos lugares desconhecidos, também no microcosmo do Corpo Denso encontramos países desconhecidos que são um livro fechado para os exploradores científicos. A principal delas tem sido um pequeno grupo das chamadas “Glândulas Endócrinas”, em número de sete, a saber:
A Glândula Pituitária (também conhecida como hipófise ou Corpo Pituitário), regida por Urano.
A Glândula Pineal (também conhecida como conarium, epífise cerebral ou simplesmente pineal), regida por Netuno.
A Glândula Tireoide ou Tiroide, regida por Mercúrio.
A Glândula Timo, regida por Vênus.
A Glândula Baço, regida pelo Sol.
As duas Glândulas Suprarrenais, regidas por Júpiter.
Elas têm um grande e particular interesse para os ocultistas e podem ser chamadas, em certo sentido, de “as sete rosas” na Cruz do Corpo, pois estão intimamente ligadas ao desenvolvimento oculto da Humanidade. Quatro delas, a Glândula Timo, a Glândula Baço e as duas Glândulas Suprarrenais estão ligadas à Personalidade. A Glândula Pituitária e a Glândula Pineal estão particularmente correlacionadas com o lado espiritual da nossa natureza, a Individualidade, e a Glândula Tiroide forma o elo entre elas.
As razões para a regência astrológica de cada Glândula Endócrina é a seguinte:
A Glândula Baço é a porta de entrada das forças solares, especializadas em cada um de nós, que circulam pelo Corpo Denso como o fluido vital, sem o qual nenhum ser pode viver. Este órgão é, portanto, governado pelo Sol.
As duas Glândulas Suprarrenais estão sob a regência de Júpiter, o grande benéfico, e exercem um efeito calmante, tranquilizador e tranquilizador quando as atividades emocionais da Lua e de Marte ou Saturno destroem o equilíbrio. Quando a mão obstrutiva de Saturno desperta as emoções melancólicas e impõe sua restrição ao coração, as secreções das Suprarrenais são transportadas pelo sangue para o coração e atuam como um poderoso estimulante em seu esforço para manter a circulação, enquanto o otimismo jovial luta contra as preocupações saturninas ou contra o impulso de Marte, que incita o Corpo de Desejos a emoções turbulentas de raiva, deixando os músculos tensos e trêmulos, dissipando a energia do sistema. Então, a secreção das Suprarrenais vem em socorro, liberando o glicogênio do fígado em quantidade mais abundante do que o habitual para lidar com a emergência até que o equilíbrio seja novamente alcançado, e da mesma forma durante qualquer outro estresse ou tensão. Foi o conhecimento desse fato oculto que levou os antigos Astrólogos a colocarem os rins sob a regência de Libra, o equilíbrio, e para evitar confusão de ideias, podemos dizer que os próprios rins desempenham um papel importante na nutrição do Corpo, estando sob a regência de Vênus, o Regente de Libra. No entanto, Júpiter rege as Suprarrenais, com as quais estamos agora particularmente envolvidos.
Tanto Vênus quanto sua oitava superior, Urano, regem as funções de nutrição e crescimento, mas de maneiras diferentes e para propósitos diferentes. Portanto, Vênus rege a Glândula Timo, que é o elo entre os pais e a criança até que esta atinja a puberdade. Essa Glândula está localizada imediatamente atrás do esterno. Ela é maior na vida pré-natal e durante a infância, enquanto o crescimento é excessivo e rápido. Durante esse período, o Corpo Vital da criança realiza seu trabalho mais eficaz, pois a criança não está mais sujeita às paixões e emoções geradas pelo Corpo de Desejos após o nascimento, por volta dos quatorze anos. Mas, durante os anos de crescimento, a criança não consegue fabricar os glóbulos vermelhos do sangue como o adulto, pois o Corpo de Desejos ainda não nascido e desorganizado não atua como um canal para as forças marcianas que assimilam o ferro dos alimentos e o transmutam em hemoglobina. Para compensar essa deficiência, é armazenada na Glândula Timo uma essência espiritual extraída dos pais, e com essa essência fornecida pelo amor deles, a criança é capaz de realizar temporariamente a alquimia do sangue até que seu Corpo de Desejos se torne dinamicamente ativo. Então, a Glândula Timo atrofia e a criança extrai de seu próprio Corpo de Desejos a força marciana necessária.
A partir desse momento, em condições normais, Urano, a oitava de Vênus e Regente da Glândula Pituitária, assume a função de crescimento e assimilação da seguinte maneira: é bem sabido que todas as coisas, incluindo nossos alimentos, irradiam continuamente de si mesmas pequenas partículas que dão um índice da coisa de onde emanam, incluindo sua qualidade. Assim, quando levamos o alimento à boca, várias dessas partículas invisíveis entram pelo nariz e, pela excitação do trato olfativo, nos transmitem o conhecimento se o alimento que estamos prestes a ingerir é adequado para esse propósito ou não, o olfato nos alerta para descartar alimentos com odor desagradável, etc. Mas, além daquelas partículas que nos atraem ou repelem dos alimentos por sua ação no trato olfativo através do olfato, existem outras que penetram no osso esfenoidal, incidem sobre a Glândula Pituitária e iniciam a alquímica uraniana pela qual uma secreção é formada e injetada no sangue. Isso promove a assimilação através do Éter Químico, afetando assim o crescimento normal e o bem-estar do Corpo Denso ao longo da vida. Às vezes, essa influência uraniana da Glândula Pituitária é excêntrica e, portanto, responsável por crescimentos estranhos e anormais que produzem as infelizes aberrações da Natureza que ocasionalmente encontramos.
Mas, além de ser responsável pelos impulsos espirituais que geram as manifestações físicas de crescimento mencionadas anteriormente, Urano, atuando através da Glândula Pituitária, também é responsável pelas fases espirituais de crescimento que nos auxiliam a despertar em nossos esforços para penetrar o véu dos Mundos invisíveis.
Nesta obra, porém, ele é associado a Netuno, o Regente da Glândula Pineal, e, portanto, será necessário, para uma elucidação adequada, que estudemos as funções da Glândula Tiroide, regida por Mercúrio, e da Glândula Pineal, que está sob o domínio de sua oitava superior, Netuno, simultaneamente.
Que a Glândula Tiroide está sob o domínio de Mercúrio, o Planeta da razão, é facilmente percebido quando compreendemos o efeito que a degeneração dessa Glândula tem sobre a Mente, como demonstrado nas doenças do cretinismo e do mixedema. As secreções dessa Glândula são tão necessárias para o funcionamento adequado da Mente quanto o Éter é para a transmissão de eletricidade, isto é, no plano físico da existência, onde o cérebro transmuta o pensamento em ação. O contato e a expressão nos Mundos invisíveis dependem da capacidade funcional da Glândula Pineal, que é totalmente espiritual e, portanto, regida pela oitava de Mercúrio, Netuno, o Planeta da espiritualidade, que opera em conjunção com a Glândula Pituitária, regida por Urano.
Os cientistas têm perdido muito tempo especulando sobre a natureza e a função desses dois pequenos corpos, a Glândula Pituitária e a Glândula Pineal, mas sem sucesso, principalmente porque, como Mefistófeles diz sarcasticamente ao jovem que deseja estudar ciências com Fausto:
“Quem quer conhecer e tratar de algo vivo
Busca primeiro o espírito vivo para daí expulsar;
Então, estão os fragmentos sem vida em sua mão;
Falta-lhe, infelizmente, a faixa do espírito vital! “
Ninguém pode real e verdadeiramente observar as funções fisiológicas de qualquer órgão sob as condições existentes no laboratório, na mesa de operação ou na câmara de dissecação ou vivissecção. Para chegar a uma compreensão adequada, é necessário necessariamente ver esses órgãos exercendo suas funções fisiológicas no Corpo Denso vivo, e isso só pode ser feito por meio da visão espiritual.
Há vários órgãos que estão se atrofiando ou se desenvolvendo; os primeiros mostram o caminho que já percorremos durante nossa evolução passada, os últimos são marcadores de posição, indicando nosso desenvolvimento futuro. Mas há ainda outra classe de órgãos que não estão se degenerando nem evoluindo; eles estão simplesmente adormecidos espiritualmente no momento presente. Os fisiologistas acreditam que a Glândula Pituitária e a Glândula Pineal estão atrofiando porque encontram esses órgãos mais desenvolvidos em algumas das classes mais baixas da vida, como os vermes, mas, na verdade, estão errados em suas ideias. Alguns também suspeitam que a Glândula Pineal esteja de alguma forma conectada com a Mente, porque ela contém certos cristais após a morte, e a quantidade era muito menor naqueles que eram mentalmente deficientes do que em pessoas com mentalidade normal. Essa conclusão está correta, mas o Clarividente voluntário e treinado sabe que o canal espinhal dos vivos não é preenchido com fluido; que o sangue não é líquido e que esses órgãos não possuem cristais quando o Corpo Denso está vivo.
Essas afirmações são feitas com pleno conhecimento do fato de que o sangue e a essência espinhal são líquidos quando extraídos do Corpo, vivo ou morto, e o conteúdo da Glândula Pituitária e da Glândula Pineal parece cristalino quando o cérebro é dissecado. No entanto, a razão é semelhante àquela que faz com que o vapor extraído de uma caldeira a vapor se condense imediatamente ao entrar em contato com a atmosfera, e o metal fundido extraído da fornalha de uma fundição se cristalize imediatamente ao ser retirado.
Todas essas substâncias são essências puramente espirituais quando dentro do Corpo Denso; elas são então etéreas e a substância na Glândula Pineal, quando vista pela visão espiritual, aparece como luz. Além disso, quando um Clarividente voluntário e treinado olha para a Glândula Pineal de outro que também está exercendo suas faculdades espirituais, essa luz é de um brilho intenso e de uma iridescência semelhante, mas transcendente em beleza, ao espetáculo mais maravilhoso da Aurora Boreal. Pode-se dizer também que a função desse órgão parece ter mudado no curso da evolução humana. Durante as primeiras Épocas de nossa atual permanência na Terra, quando o nosso Corpo era algo grande e espalhado, no qual nós ainda não havíamos penetrado nele, mas estávamos ali apenas como uma presença que o encobria, havia uma abertura na parte superior e a Glândula Pineal estava dentro dela. Então ele era um órgão de orientação, dando um senso de direção. À medida que o Corpo Denso se condensava, tornava-se cada vez menos capaz de suportar o calor intenso que prevalecia naquela Época, e a Glândula Pineal emitia um aviso quando o Corpo Denso era levado muito perto de uma das muitas crateras e vulcões ativos que então estavam em erupção na fina crosta terrestre, permitindo assim que nos guiássemos para longe desses lugares perigosos. Era um órgão de direção que operava pelo tato, mas desde então o tato foi distribuído pela pele de todo o Corpo Denso. Isso é uma indicação para o ocultista de que algum dia os sentidos da audição e da visão também serão distribuídos de forma semelhante, de modo que veremos e ouviremos com todo o nosso Corpo Denso e, assim, nos tornaremos ainda mais sensíveis nesses aspectos do que somos agora. Desde então, a Glândula Pineal e a Glândula Pituitária se tornaram temporariamente adormecidos espiritualmente para nos tornar alheio aos Mundos invisíveis enquanto aprendemos as lições oferecidas pelo mundo material.
A Glândula Pituitária manifestou a influência uraniana esporadicamente em crescimento físico anormal, produzindo aberrações e monstruosidades de vários tipos, enquanto Netuno, atuando também de forma anormal através da Glândula Pineal, foi responsável pelo crescimento espiritual anormal de curandeiros, bruxas e médiuns de controle espiritual. Quando despertados para as atividades normais, essas duas Glândulas Endócrinas abrirão a porta para os Mundos internos de maneira sã e segura, mas, enquanto isso, a Glândula Tiroide, regida por Mercúrio, o Planeta da razão, retém a secreção necessária para dar equilíbrio ao cérebro.
No futuro, as Glândulas Endócrinas estão destinadas a desempenhar um papel proeminente; seu desenvolvimento acelerará enormemente a evolução, pois seus efeitos são principalmente mentais e espirituais. Estamos nos aproximando da Era de Aquário; o Sol, portanto, começa a transmitir as vibrações altamente intelectuais deste Signo, responsáveis pelas intuições, premonições e transmissões telepáticas tão prevalentes hoje em dia. Em última análise, esses fenômenos se devem ao despertar do corpo pituitário, regido por Urano, o Regente de Aquário, e a cada ano que passa eles se tornarão mais manifestos.
(Publicado na Revista Echoes from Mount Ecclesia de fevereiro/1916 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)
A Fraternidade Rosacruz considera com grande importância o serviço atual que prestamos aos nossos semelhantes sempre amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível), focado na Divina Essência oculta tanto nos semelhantes como em cada um de nós – já que ela é a base da Fraternidade –, e muitas vezes surge esta pergunta: – Como posso servir aos meus semelhantes? Não vejo nenhuma oportunidade para isso.
Portanto, seria bom assinalar que por “serviço” não queremos significar uma grande ação espetacular, tal como saltar à frente de um carro em disparada e salvar uma criança de atropelamento ou, então, penetrar num edifício em chamas e salvar da morte os que estão em perigo de queimar-se.
Naturalmente, tais oportunidades não aparecem para todos, nem tão pouco são coisas de todo o dia; porém, todos, sem nenhuma exceção, têm oportunidade de servir realmente, sem importar o meio ambiente em que vivem. A linha de serviço que indicaremos é ainda de maior valor do que qualquer simples ato de salvar alguém da morte, que cedo ou tarde virá fatalmente para todos, pois, seguramente e de muito maior valor, ajudar as pessoas a viver bem do que ajudá-las meramente a escapar, uma vez apenas, da morte.
É um fato deplorável que sejamos, na grande maioria, egoístas a um grau extremo. Buscamos o melhor que há na vida sem nos ocupar em nada com nossos semelhantes. Estamos demasiados propensos a comparar nossas posses, nossas faculdades com os outros, e quando percebemos que eles têm mais do que nós ou que fizeram algo com mais sucesso, deixamo-nos tomar por um sentimento de ciúme e inveja que nos impele a falar deles com desprezo, ou de alguma maneira diminuir seu êxito ou sua realização, na ilusão de que assim fazendo nos elevamos ao seu nível ou o superamos.
Se por outro lado percebemos que eles não têm tanto como nós, ou a condição social deles parece ser mais baixa que a nossa, então é fácil estabelecer sua inferioridade e, portanto, adotamos logo uma atitude arrogante e falamos de uma maneira “condescendente”, pensando que por tais comparações nos elevamos muito acima das nossas condições atuais.
Se ouvirmos alguém falar mal de outrem, geralmente estamos prontos e dispostos a acreditar no pior, porque então, por comparação, parecemos ser muitos melhores, mais santos e, portanto, nos julgamos muito elevados sobre o réu. E onde o mérito esteja tão manifesto que não se possa evitar o elogio, geralmente o fazemos de má vontade, pois nos sentimos como se, ao louvar a outrem, nos tirassem algo de nós mesmos ou talvez o outro fique muito exaltado e nos “faça sombra…”.
Essa é a atitude geral do mundo. Por mais deplorável e lamentável que seja, isto é um fato, e entre a grande maioria da Humanidade, muitas pessoas parecem estar, unicamente, interessadas em que todos os demais fiquem para trás delas. Esta é uma das maiores manifestações de desumanidade do indivíduo com o indivíduo, o que faz com que uma grande parte tenha que lamentar-se, enquanto que a outra grande parte também se lamente por sua vez.
Que maior serviço pode alguém prestar aos outros do que adotar uma atitude sistematicamente de estímulo e de louvor? Não há nada mais verídico do que o sentimento expresso quando refletimos sobre que sempre há algo bom no pior irmão ou na pior irmã, assim como sempre há algo mal no melhor irmão ou irmã.
No lar, no trabalho e em toda parte encontramos, diariamente, pessoas que sentem necessidade de estímulo, como qualquer pessoa no mundo. Se alguém fez algo de bom e dizemos algumas palavras de apreço, essa palavra o ajudará a fazer ainda melhor na próxima vez. Se alguém fez algo que se define como mal ou fracassou, uma palavra de simpatia e confiança lhe dará novas energias que o estimularão a experimentar, mais uma vez, e alcançar o triunfo, exatamente com a mesma segurança que uma atitude de desalento pode arruiná-lo na vida, ao passo que uma palavra alegre poderia tê-lo salvado.
Quando alguém se aproxima de nós com histórias, falando mal de alguém, sejamos vagarosos em crer e mais vagarosos ainda para contar a outrem o que acabamos de ouvir. Esforcemo-nos, por todos os meios possíveis, por evitar que as pessoas que nos vem contar alguma coisa má continue repetindo a mesma história aos outros. Nada de bom pode resultar para nós ou para qualquer outro ouvir e crer em semelhantes histórias.
Esta linha de serviço pode parecer muito fácil à primeira vista, porém, convém considerar que, muitas vezes, será preciso uma grande dose de abnegação própria para agir assim, porque estamos todos tão imbuídos com o egoísmo que é quase impossível para a maioria de nós colocarmo-nos de lado totalmente, pondo-nos na posição de outros, dando-lhes o estímulo e louvor que tão ardentemente desejamos para nós mesmos.
Porém, se persistimos nessa atitude, e a realizarmos consistentemente com todos, em nosso meio ambiente, sempre fazendo o possível para dizer uma palavra de estímulo onde quer que encontremos a oportunidade, veremos que os outros virão a nós não somente com as suas penas, mas também com as suas alegrias; assim alcançaremos também alguma recompensa. Sentir-nos-emos, então, seu sucesso, e em todos esses êxitos de outras pessoas haverá uma alegria e um sucesso que legitimamente nos pertence, um êxito que ninguém poderá tirar de nós, algo que irá conosco para além do túmulo, como um tesouro espiritual.
Não devemos nos esquecer de que cada ato, por simples que seja, está gravado no Átomo-semente do nosso Corpo Denso em nossos corações, e o sentimento e emoção que acompanham esse ato.
Reagirão sobre nós na existência post-mortem, e toda essa alegria, todo o prazer, todo o amor que tenhamos vertido, por outras pessoas reagirão sobre nós no Primeiro Céu e nos proporcionarão uma experiência sublime. Isto desenvolverá em nós uma faculdade maravilhosa de dar mais regozijo aos outros, de poder servir mais e melhor. E recordemos que esta é a única grandeza verdadeira, a única grandeza que é digna de nosso esforço, a grandeza de alma que nos permite ser serviçais, servidores do mundo.
Acima de tudo, além de infundir ânimo e valor no trabalho dos outros, recordemos a parte de serviço que se relaciona com o evitar que os mal-entendidos e separações se propaguem. Quando alguém se aproxima com uma história dessas, falando mal de alguém, sem tomar em conta o que possamos pensar disso ou sem considerar qualquer justificação, tenhamos em vista que a repetição dessa história causará realmente um dano. Assim como uma bola de neve que roda de uma montanha abaixo vai acumulando mais e mais neve, crescendo e tornando-se cada vez maior, assim também a história que vai de boca em boca se exagera e acaba por causar tristeza e sofrimento. Assim, pois, um dos maiores serviços que podemos oferecer à comunidade é fazer todo o possível para que essas histórias, essas conversas malévolas, não continuem a circular; procuremos corrigir aqueles que vivem a forjar “histórias” e a falar mal dos outros por ignorância dos malefícios que produzem.
Muitos lares se têm destruído, comunidades têm sido desbaratadas, muitas pessoas têm abandonado suas oportunidades, suas obrigações e aspirações e ainda coisas piores têm acontecido devido a essas histórias que têm sido levadas de boca em boca. Portanto, podemos fazer um grande serviço recusando ouvir o falar mal dos outros, recusando ouvir “histórias” e murmurações, dando ânimo àqueles que fracassaram em suas ambições e elogiando, sinceramente, àqueles que tiveram êxito.
Todos os dias as oportunidades estão batendo as nossas portas, em qualquer lugar que estejamos, seja qual for à condição de vida que tenhamos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – janeiro/1965 – Fraternidade Rosacruz –SP)