Uma pessoa quando se predispõe a estudar os Ensinamentos Rosacruzes por meio da Fraternidade Rosacruz já desenvolveu a sua consciência ao ponto de, pelo livre arbítrio, escolher um rumo para suas ideias, portanto, para o seu modo de pensar e agir.
Nesse ponto de transição, em que a consciência insatisfeita com o que aprendeu até ali, necessita de esclarecimentos mais amplos, ele entra num mar de dúvidas porque aquilo que já aprendeu ficou gravado atrapalhando o novo aprendizado até que, depois, por si mesmo, ele perceba a lógica nas novas lições e acomode nelas a corrente de suas ideias.
Acontece que, desde séculos passados, o ambiente religioso é o mesmo nestes lados ocidentais. Durante anos e anos duas Religiões exotéricas que não se unem, mas graças a Deus não se perseguem mais, vem prevalecendo no continente europeu e no continente americano, sujeitando a sociedade e embaraçando a expansão de ideias livres, ideias individuais.
Dessa maneira a pessoa que chega ao ponto de libertar a sua Mente e conduzi-la pelo seu livre arbítrio, fica receosa como um pássaro que, engaiolado por muito tempo, no momento de sua liberdade, tem medo do espaço infinito. Quando vê aberta a portinha da gaiola, não tem coragem de arriscar um voo.
O hábito é uma segunda natureza e milhares e milhares de pessoas vem se habituando, desde criança, no ambiente familiar e ambiente geral de uma só ordem de ideias, até que sua Mente desenvolvida em outros assuntos, por força das necessidades da vida, chega a um ponto de curiosidade e descontentamento e se põe a procurar novas diretrizes, novos horizontes. Chega a hora, então, de procurar outras Religiões, outras Filosofias Cristãs, de ler livros, até ali desconhecidos, de procurar lugares de ensinamentos até então ignorados, e considerados absurdos, mudar de pontos de vista, de adquirir novos conhecimentos.
Nessa altura, muitas pessoas temerosas de abandonar tradições, de mudar de corrente, sempre igual de ideias que influiu durante tantos anos na própria vida, compreendendo ao mesmo tempo, que essas ideias já não satisfazem mais, vacila tanto para dar novo rumo a sua mentalidade que acabam estacionando no seu modo de pensar, sem concordar plenamente com a que já aprendeu e sem vontade de aprender novas razões. Quantas pessoas deixam de progredir na vida, moral ou material, pela força do hábito!
Essa preguiça de natureza mental deve ser afastada desde logo, porque geralmente ela dura bastante e, muitas vezes, quando chega a passar por efeito de um impulso, provocada pela experiência, pelo sofrimento, já se perdeu muito tempo, ou mesmo o melhor do tempo.
É natural, pois, que quando se encontre num estado de transição de ideias, mormente se tratando de questões espirituais, se esbarre com muita dúvida; porém é necessária afastá-la desde logo e para se conseguir isso é preciso pesquisar, examinar.
No caso da espiritualidade Cristã, é preciso verificar se as lições aprendidas, ou melhor, se as lições que se está aprendendo, são enquadradas na realidade da vida de todos os dias, e se podem ser observadas em você mesmo ou nos outros. Para isso é preciso pensar, procurar dentro do próprio pensamento fatos ou coisas que se relacionem com o que se está aprendendo. É preciso usar a memória, recorrer a lembranças e, também, observar nos fatos presentes, a relação entre a vida real e a espiritualidade.
A espiritualidade Cristã não é mais nada que a nossa própria vida estudada na sua essência, nas suas bases fundamentais, na sua evolução e sua finalidade.
Ora, estudando a nossa própria consciência nos seus foros mais íntimos, e estudando, ao mesmo tempo, os acontecimentos da vida exterior, quese relacionam particularmente conosco de modo direto ou indireto, dando-nos pesares ou prazeres, alegrias ou tristezas, verificamos que tudo o que nos aconteceu e nos acontece está em harmonia com a nossa natureza particular, com a nossa capacidade, com a nosso entendimento, com o nosso grau de inteligência; por isso mesmo que se diz que Deus dá o frio conforme a roupa.
Verificaremos também que se os acontecimentos da nossa vida são diferentes dos acontecimentos das vidas dos outros, muito embora as situações sociais, financeiras, condições de saúde, de família e outras, sejam equivalentes, é porque a nossa natureza íntima, também é diferente, porque os nossos Mundos internos têm o seu feitio e o seu desenvolvimento particular, que não encontramos exatamente iguais em mais ninguém. É por isso que muitas pessoas, em ocasiões de raiva, de desespero, mesmo de coragem, de sacrifício, convencida de sua natureza exclama: “eu sou assim”. Está certo! Cada um é assim do seu modo peculiar e não muda, senão por força da evolução espiritual. O Mundo exterior repete continuamente a mesma série de cenas, as mesmas histórias, os mesmos fatos, garantido pelas espirais dentro de espirais. Nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) somos que, conservando o nosso feitio fundamental, as nossas linhas características, vai modificando a nossa expressão por efeito do desenvolvimento que vamos realizando. Quando recordamos certas épocas do nosso passado, certos ambientes, lugares e fatos, sentimos saudades de tudo o que se ligava a esses fatos, a paisagem, o céu, a rua, as pessoas – a verdade nos faz saudades, não propriamente essas coisas e sim o nosso estado interno desse tempo. Sentimos saudades de nós mesmos, de nossa alma mais animada, de nossas emoções mais leves, ligeiras, de nossos pensamentos cheios de entusiasmo e esperanças.
O céu não mudou! Por toda a parte há, como antes, paisagens encantadoras, variadas, objetos interessantes, pessoas agradáveis, moda bonita. Nós, por efeito de nossas experiências, mudamos os sentimentos e a mentalidade, e por isso mesmo olhamos as coisas e os fatos por outro prisma. Nós, o Ego, arredamos alguns dos véus que nos encobrem e enxergamos tudo com mais realidade, mais clareza. Do mesmo modo recordamos com mais realismo as nossas tolices passadas, erros de toda a espécie, disparates e até dureza de coração e ficamos admirados de termos praticado tais atos. Isso vem mostrar que vamos clareando aos poucos e continuamente, ampliando a nossa mentalidade, apurando os nossos sentimentos e por isso mesmo éque nossa memória traz à tona, muitas vezes, atos que praticamos, bobagens, até sem importância e que por nada neste mundo seríamos capazes de praticar de novo, porque a nossa consciência não mais aceita. Será porque de lá para cá, cultuamos a nossa inteligência, lemos muito, aprendemos mais coisas? Em parte, sim. Digo em parte apenas, porque muitas pessoas têm uma cultura intelectual comprovada, capaz de resolver grandes e graves problemas financeiros e políticos, questões internacionais importantíssimas, técnicos aperfeiçoados, magistrados, que sabendo tanta coisa são fechados no orgulho, no egoísmo, na vaidade, que vivem para si somente, ignorando o resto da coletividade formada, entretanto, por seus semelhantes. Torno a dizer que a espiritualidade Cristã é o estudo da nossa própria vida por meio do desenvolvimento dos nossos Mundos internos. Por meio desse desenvolvimento percebemos que temos aprendido já muita coisa; que já conseguimos abrandar um pouco o coração; que ganhamos caminho, e que fomos muito mais atrasados. Já cometemos uma infinidade de erros mais graves dos que cometemos hoje e devemos seguir adiante, quer queiramos ou não.
Devemos desenvolver infinitamente o nosso aprendizado, visto que se estamos adiantados, à vista do estado espiritual em que já estivemos, estamos atrasados, à vista do grau de adiantamento a que temos de chegar.
O nosso aprendizado não é fácil, no ponto de desenvolvimento em que estamos, porque eledepende, em boa parte, do domínio das nossas emoções, o que quer dizer do cultivo dos nossos desejos e emoções, o que depende de muita força de vontade por nossa parte. A nossa luta de todos os dias está empenhada com uma coletividade dos mais variados graus de adiantamento espiritual, portanto, estamos, a cada instante, em choque com forças exteriores. Essas forças exteriores estão, por sua vez, em harmonia com a Lei de Causa e Efeito ou Lei de Consequência, portanto, é dentro dela mesmo que temos de agir, para vencer. Para agir com pessoas de todos os graus de adiantamento, evitando o mais possível os choques, é preciso que se tenha seriedade de espírito e isso só se consegue com conhecimento e amor aos semelhantes, sejam eles de qualquer estágio de aprendizado.
Quando se chega a compreender que, só podemos dar aquilo que temos, e quanto menos temos para dar mais infeliz somos, mais caminho temos que andar, de modo que, nossos amigos, as ideias de vingança, o desejo de desforra são provas de falta de conhecimento, de pouco ou nenhum raciocínio. Somos auxiliares mútuos no cumprimento da Lei da Causa e Efeito e de Consequência e conforme as nossas qualidades, somos portadores de alegrias ou de tristezas aos nossos semelhantes.
Essas questões e todas as outras que se relacionam diretamente com o cultivo dos sentimentos, com o desenvolvimento da consciência, com o aperfeiçoamento do caráter fazem parte integrante do aprendizado espiritual e o melhor exercício que se pode fazer é a prática das boas ações, obras e bons atos.
O domínio próprio, o autodomínio, exercitado diretamente, só pelo esforço da vontade, naturalmente, tem os melhores resultados, porém, não está ao alcance de todos, porque é muito difícil conter o nosso Corpo de Desejos. Há outro exercício mais brando, por isso mesmo mais demorado que chega também a um resultado satisfatório. É o trabalho de se procurar, conscientemente, em todos os fatos, em todas as coisas ou em todas as pessoas que nos desagradam, o lado bom, apreciável, a virtude que existe sempre e que muitas vezes, se oculta atrás de uma aparência má ou feia, ou seja: o bem que está lá, sempre. Aliá, sempre que fazendo isso conseguimos vencer uma aversão, estamos educando as nossas emoções e desejos.
Sempre que, ao julgarmos, nos demos ao trabalho de procurarmos a causa que o motivou, estaremos exercitando o raciocínio, portanto o abrandamento das emoções. Esses trabalhos repetidos apresentam geralmente resultados positivos. Há Estudantes Rosacruzes que, com o desejo de adiantar depressa se propõem a exercitar a domínio próprio por meios extremados, geralmente acima de suas forças, fora de suas capacidades, chegando a pouco ou nenhum resultado, porque ou se cansam e abandonam o exercício na metade, ou se aniquilam prejudicando a saúde. O domínio próprio tem de ser praticado dentro do princípio da relatividade, exercitar gradativamente e no seu meio termo. “Devagar é que se chega ao longe”. Quando se está subindo uma escada para se chegar ao cimo, seguramente, tem-se de prestar atenção em cada degrau que se está pisando, para nele não falsear o passo, nem pisar muito firme, com risco de torcer o pé.
Não adianta a preocupação antecipada com o que está lá em cima, no patamar, porque só chegando lá é que se pode compreender, e nem adianta também saltar degrau, porque, então, não se fica conhecendo bem a escada, e nela pode haver coisas de utilidade que venham a fazer falta mais tarde. O trabalho de examinar o que se está fazendo é de grande proveito e utilidade no presente e para o futuro; isso em qualquer exercício. Nos estudos na Fraternidade Rosacruz esse cuidado é indispensável por se tratar de questões de ordem superior, que determinam o nosso progresso em linhas mais retas ou explicando melhor, de modo mais direto.
Uma vez que se queira dar às ideias um rumo seguro, que se deseje dar à Mente mais largueza e mais claridade é justo que se empregue atenção em tudo o que diz respeito às lições que se vai aprendendo, que se examinem com a própria consciência os trabalhos indicados.
Os Ensinamentos Rosacruzes têm, como uma das finalidades mais em vista, levar o Estudante Rosacruz a libertar as suas ideias a ponto de resolver por si só, com o auxílio único de sua própria consciência, todos os problemas de sua vida. Ideias livres não querem dizer anarquismo, quando são orientadas na espiritualidade Cristã.
Todo Estudante Rosacruz sabe que a verdadeira liberdade é a obediência às Leis de Deus e o exato cumprimento de todos os deveres. Que a nossa consciência só pode se desenvolver pelo conhecimento dessas coisas e que entre todos os nossos deveres o mais elevado é a estima, o respeito espontâneo, solícito aos direitos dos nossos semelhantes. É o reconhecimento da semelhança estabelecida no fundo de nossa natureza, pelo princípio que é o mesmo para todos.
O medo de pensar e agir livremente pode desaparecer, uma vez que o Estudante Rosacruz conheça o verdadeiro conceito da liberdade, que compreenda que o direito é um resultado do dever cumprido, portanto, quem cumpre, voluntariamente, seus deveres morais, materiais e espirituais está agindo com liberdade e segurança e está se aproximando da espiritualidade, e só consegue se espiritualizar em verdade, quem compreender este axioma ocultista: “Há apenas um único poder na Terra como nos Céus e este poder é o do Bem”.
Ora se a verdadeira espiritualidade é a que se apoia inteiramente no “Bem”, por que duvidar, vacilar, quando a consciência inquieta, insatisfeita reclama diretrizes mais claras, mais lógicas, na corrente das ideias? Quando, imperiosa, pede razão? Por que se demorar na decisão? Sujeição do ambiente ou da força do hábito? A nossa consciência é a iluminadora de nossas ações e quando ela chega a encaminhar a pessoa para os estudos espiritualistas, é porque é chegado o momento dela entrar para o caminho mais curto de sua evolução. É chegada a hora dela agir por si mesma, guiada somente pelo seu Cristo Interno.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – dezembro/1964 – Fraternidade Rosacruz–SP)
Resposta: A Lei do Renascimento tem como companheira a Lei de Causa e Efeito. É evidente que deve haver muitas causas desencadeadas por todos nós e que não trarão efeitos nesta vida. Por exemplo, um marido está doente e é cuidado pela esposa com grande abnegação. Obviamente, existe uma dívida aí, e se a doença continuar até o término da vida do marido, não haverá nessa vida oportunidade para a retribuição desses cuidados. Mas, se soubermos quais são as Leis da Natureza e como elas funcionam, saberemos que elas não são anuladas por questões tão pequenas como o cessar da vida em um certo Corpo Denso. Se fraturarmos um membro, ele não estará recuperado no dia seguinte, embora possamos ter dormido à noite inconscientes da nossa dor; mas, ao acordarmos, o membro estará praticamente nas mesmas condições do dia anterior. Assim também ocorre com os atos praticados no Corpo Denso em uma vida. Embora atravessemos a vida entre a morte e um novo nascimento, e agora estejamos inconscientes de vidas anteriores, quando iniciamos uma nova vida terrestre, a Lei de Associação e as causas geradas numa vida terrestre anterior, nos levarão a um novo ambiente onde encontraremos os nossos antigos amigos e antigos inimigos. Nós também os conhecemos, embora talvez não reconheçamos diretamente. Às vezes, porém, conhecemos uma pessoa pela primeira vez e nos sentimos atraídos por ela; sentimos como se a conhecêssemos a via toda e que poderíamos confiar nela com tudo que possuímos. Isso ocorre porque nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana, manifestado aqui), vemos um antigo amigo e o reconhecemos, embora sejamos incapazes de imprimir esse reconhecimento no nosso cérebro atual. Ou talvez possamos encontrar uma pessoa e sentir que não gostaríamos de estar em sua companhia; instintivamente, não gostamos dela, embora não tenhamos motivo do ponto de vista comum; mas também nesse caso é o nosso (o do realmente somos: um Ego) reconhecimento que faz a ponte com o passado e vê um antigo inimigo. Assim, nossos gostos e desgostos instintivos são guias, ditados por experiências anteriores e, geralmente, se mostrarão confiáveis à luz de experiências subsequentes.
(Pergunta nº 69 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Resposta: O destino que geramos sob a Lei de Consequência ou Lei de Causa e Efeito por nossos próprios atos pode ser dividido em três tipos. Em primeiro lugar, há o destino que, pela própria natureza do caso, não podemos expiar na vida presente; por exemplo, quando uma pessoa comete um assassinato, quer sofra a pena por isso aqui ou não, a vida na prisão geralmente não tem o efeito de torná-la mais amena e bondosa. Às vezes, faz o contrário; torna-a amarga e volta sua mão contra todos. Antes que a natureza se satisfaça, ela deve aprender que não pode privar um semelhante de sua forma; ela deve aprender a servir. Assim, o caso não se resolve até que ela tenha a oportunidade, em um momento futuro, de prestar um serviço amoroso e desinteressado, focado na divina essência oculta – que é a base da Fraternidade – a sua vítima assassinada.
Um segundo tipo de destino colhemos dia após dia; é, poderíamos dizer, como uma transação em dinheiro, pagamos conforme o uso. Se comemos demais, temos indigestão; se saímos sem roupas suficientes, pegamos um resfriado, etc.
Um terceiro tipo é chamado de Destino Maduro ou “destino concreto”. É o resultado de nossas ações em vidas passadas ou em nossos primeiros anos de evolução, que amadureceram a ponto de se materializarem nas imagens mostradas a um Ego como o seu Panorama de Vida vindoura ao iniciar o processo de renascimento. Uma vez que o Ego escolhe uma determinada vida com o Destino Maduro alocado para ser cumprido pelos Anjos do Destino, ele fica vinculado a sua escolha. As tendências a agir de maneira propícia ao ajuste desse Destino Maduro são inerentes aos Corpos e inscritas nos Astros, pois as influências astrais são a fonte da atividade humana. Portanto, esse Destino Maduro pode ser visto no horóscopo de nascimento da pessoa, destacando-se com extrema clareza, de modo que é muito evidente e patente para o (a) Astrólogo (a) com inclinação espiritual. Ele (ou ela) também pode ver os outros tipos de destino e, às vezes, pode confundir um tipo com o outro, errando em sua avaliação sobre se um evento pode ou não ser evitado. Se for o Destino Maduro cumprido, será impossível evitá-lo apesar de todos os avisos, como talvez o exemplo a seguir possa demonstrar:
Em 1906, o autor ministrou algumas aulas de Astrologia Espiritual ao Sr. L., um palestrante renomado em Los Angeles, utilizando o próprio horóscopo do cavalheiro para fins didáticos, pois isso permite ao aluno verificar a veracidade das interpretações dos símbolos no que diz respeito ao passado, e torna a aula mais interessante do que usar o horóscopo de um desconhecido. O horóscopo revelou uma propensão a sofrer acidentes. Foram então mostradas ao Sr. L. o modo e as datas em que ocorreram alguns acidentes e outros acontecimentos do passado. Também lhe foi dito que outro acidente ocorreria no dia 21 de julho de 1906 ou no sétimo dia após, parecendo esta última data ser a mais perigosa, isto é, o dia 28 do mesmo mês. Foi alertado ainda sobre qualquer meio de transporte, e indicadas as partes ameaçadas de ferimento: peito, espáduas, braços, e a parte inferior da cabeça. Como estava plenamente convencido do perigo, ele prometeu ficar em casa nesse dia.
O autor foi, por aquele tempo, ao norte de Seattle, e uns poucos dias antes da data crítica escreveu ao Sr. L., prevenindo-o novamente. O Sr. L. respondeu que haveria de se lembrar da recomendação e teria cuidado.
A seguinte comunicação sobre o caso veio de um amigo comum: no dia 28 de julho o Sr. L. fora à Sierra Madre[1] num bonde, o qual se chocou com um trem. O Sr. L. sofreu exatamente os ferimentos previstos e mais um que não lhe fora anunciado: o seccionamento de um tendão da perna esquerda.
A questão era averiguar porque o Sr. L., tendo completa fé na predição, não dera melhor atenção ao aviso. A explicação veio três meses após, quando se recompôs suficientemente para poder escrever. Na carta dizia: “Eu julguei que o dia 28 era 29”.
Este caso, na opinião do autor, demonstra que o Destino Maduro não pode ser alterado e que podemos, com segurança, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar perigos iminentes sem temer interferir na Lei de Causa e Efeito. Existem forças invisíveis ao nosso redor que neutralizam qualquer ação de nossa parte que possa interferir e, na opinião do autor, elas foram responsáveis pela confusão de datas do Sr. L.
(Pergunta nº 153 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.R.: nome dado a várias cadeias montanhosas do México.
Não. Há três tipos de Memória: existe, em primeiro lugar, o registro produzido pelos nossos sentidos. Olhamos ao nosso redor no mundo, vemos e ouvimos coisas; essas impressões ficam gravadas nas células do nosso cérebro e somos capazes de, conscientemente, evocá-las conscientemente, embora nem sempre, e em graus variáveis, pois essa Memória é extremamente falha e influenciada pela subjetividade, e se esse fosse o único método de obter um registro das nossas vidas, a Lei de Causa e Efeito seria invalidada; nossa vida futura não seria uma sequência do que fizemos ou deixamos de fazer no passado. Deve haver outra Memória, e é a isso que os cientistas chamam de Mente ou Memória Subconsciente. Assim como o Éter permite ao fotógrafo um registro da paisagem circundante, imprimindo-a sobre a placa sensível nos mínimos detalhes, independentemente se o fotógrafo observou ou não, o mesmo Éter que leva uma imagem aos nossos olhos e o imprime na retina, leva aos nossos pulmões uma imagem semelhante que é, então, absorvida pelo sangue. Conforme o sangue passa através pelo coração, esse registro é indelevelmente inscrito sobre o sensitivo Átomo-semente do Corpo Denso que está localizado no ventrículo esquerdo do nosso coração, próximo ao ápice. As forças desse Átomo-semente do Corpo Denso são retiradas pelo Espírito, no momento da morte, e contêm o registro de toda a vida com os mínimos detalhes, de modo que, independentemente de termos observado os fatos em determinada cena ou não, eles estão registrados lá.
George du Maurier escreveu um livro intitulado “Peter Ibbetson“, na qual essa teoria da Memória Subconsciente é claramente mostrada. Peter Ibbetson, um prisioneiro em uma penitenciária inglesa, aprendeu como “sonhar de verdade”, ou seja, ao posicionar seu Corpo de uma determinada maneira, aprendeu a bloquear as correntes de Éter dentro de si, de modo que à noite conseguia, à vontade, manter contato com qualquer cena de sua vida passada que desejasse; ali ele se via como um espectador (na qualidade de pessoa adulta), e também se via entre os seus pais e companheiros de brincadeiras, e no mesmo ambiente em que se encontrava no momento em que a cena se desenrolou. Ele via toda a cena com muito mais detalhes do que havia sido capaz de observar na época em que os eventos ocorreram nesse Mundo material. Isso porque, sob essas circunstâncias, ele conseguia entrar em contato com a sua própria Memória Subconsciente. Ele não era capaz de obter qualquer informação sobre o futuro, mas o passado havia sido inscrito no Átomo-semente do seu coração e era, portanto, acessível sob condições adequadas. É a partir dessa Memória Subconsciente que o registro da vida é extraído após a morte, e como isso só depende da respiração, ela continua independentemente de todas as outras circunstâncias enquanto houver vida Corpo e embora um ser humano possa perder a sua Memória Consciente e se tornar incapaz de recordar eventos passados à vontade, a Memória Subconsciente os contém todos e os revelará no momento apropriado.
(Pergunta nº 54 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Resposta: Os dois principais ensinamentos para auxiliar a Humanidade e solucionar seus problemas de vida encontram-se na compreensão da Lei de Causa e Efeito e no conhecimento da Doutrina do Renascimento.
Essas duas Leis contêm os princípios vitais que são da mais alta importância para todos. A Lei de Causa e Efeito nos ensina que estamos onde estamos por causa das nossas ações passadas e não porque alguém seja o responsável. Se não gostamos de nosso ambiente de então, podemos, certamente, mudá-lo tão cedo tenhamos aprendido as lições que ele contém. A vida não é algo sem esperança. Tão cedo estejamos aptos para um novo ambiente, ele se apresentará. A vida é um processo ativo. Devemos estar amplamente despertos e alertas, prontos a tirar a vantagem em cada oportunidade apresentada e sempre ávidos em aprender as lições nela contidas.
O conhecimento da Doutrina do Renascimento nos revela a justiça perfeita do grande plano cósmico. Os nossos “hoje” são os resultados dos nossos “ontem” (ou vidas passadas), os nossos “amanhã” (vidas futuras) dependem dos nossos “hoje”. Sempre existem oportunidades à nossa frente. Fizemos de nós aquilo que somos e podemos, no devido tempo, fazer de nós mesmos aquilo que gostaríamos de ser.
Podemos, sozinhos, desenvolver as potencialidades do Deus interno. Outros poderão indicar o método, porém, devemos fazer o trabalho, uma vez que o renascimento nos oferece repetidas oportunidades. Aqueles que amamos em uma vida não somente encontraremos entre as vidas nos Mundos celestes, mas, também quando retornamos a Terra. Ao crescermos na graça, cessaremos de ter inimigos, em virtude de nos tornarmos demasiados grandes para abrigar a inimizade. Amaremos sempre, sejamos retribuídos ou não. Basicamente esse amor atrai os outros nos laços de saúde e confiança.
Com o conhecimento dessas duas grandes Leis (de Causa e Efeito e de Renascimento) vamos, gradualmente, aprendendo a solucionar todos os problemas que se nos deparam e a vida se torna uma alegria.
(Publicado na Revista: Serviço Rosacruz – novembro/1967 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Resumo dos benefícios do Exercício Esotérico Rosacruz de Retrospecção quando praticado à noite ao se deitar:
Algumas vezes as pessoas perguntam se o Exercício Esotérico Rosacruz de Retrospecção é necessário quando alguém se arrepende imediatamente logo após realizar ações ou pronunciar palavras indesejáveis. No entanto, parece óbvio que seria impossível colher todos os benefícios pelo simples arrependimento de indesejáveis ações durante o dia, mesmo se a pessoa tiver tempo para realizá-lo. O fato de se arrepender imediatamente após alguém ter machucado outra pessoa, fazê-la sofrer de quaisquer modos que conhecemos e que nem conhecemos, é naturalmente favorável ao Estudante Rosacruz, mas como qualquer Aspirante à vida superior sincero poderia tirar proveito disto? Se neste momento não estiver aí nenhum arrependimento sincero, não haveria, provavelmente, nenhum incentivo para o real arrependimento ao fazer o Exercício Esotérico Rosacruz de Retrospecção. Além do que, o arrependimento e o desejo sincero de reforma íntima que produzimos durante a execução do Exercício Esotérico Rosacruz de Retrospecção está em um contexto de, naquele momento, estarmos revendo o efeito (produto de uma causa colocada por nós e que gerou a dor, sofrimento ou tristeza para outrem). A intensidade de sentimento de arrependimento nesse momento é maximizada e muito mais eficiente do que em qualquer outro momento do dia, inclusive no momento que acabou de acontecer. Por quê? Porque nesse momento é normal usarmos a astúcia atlante e cairmos no nosso “departamento de justificativas”, não é?
Deveria também ser entendido que, em alguns casos, a constante atenção despendida para os eventos do dia pode ser mais prejudicial do que útil. De fato, aprendemos na Fraternidade Rosacruz não sermos super ansiosos para realizarmos nossos deveres, nem sermos medrosos ou inquietos. Quando estamos muito inquietos, constantemente, estamos considerando nossas faltas e fervorosamente ansiosos por erradicá-las; quando estamos com muita ansiedade para ver progresso e crescimento espirituais próprio, podemos nos equiparar a um garotinho que plantou uma semente e, diariamente, revira a terra para ver se a semente está crescendo e se transformando em uma planta. Nós sabemos que por sua ansiedade desapropriada, o garotinho se frustra o mesmo objeto que deseja obter; o aspirante, quando está constantemente se colocando sob holofotes e revisando seus atos defeituosos com hipercrítica, está também desmoronando seu objetivo adiantando a consumação de suas esperanças. Mantendo-se em estado de repreensão de si mesmo tem o mesmo efeito de terceiros que ficam apontando seus defeitos.
O caminho do progresso espiritual é o caminho da autodisciplina: controle dos pensamentos, palavras, sentimentos e ações. Contra isto o nosso “eu inferior” – o que achamos que somos, mas não somos, a Personalidade – se rebela constantemente e oferece todos os tipos de desculpas para nos prevenir dessa realização, mas o Aspirante à vida superior sábio não presta atenção nele. Ele compreende que o Exercício Esotérico Rosacruz de Retrospecção requer o uso da Vontade, o nosso mais elevado aspecto espiritual (nosso veículo Espírito Divino), para controlar o pensamento e o sentimento para um definitivo e sequencial período de tempo. Assim, por esta razão, juntamente com todas as demais razões mencionadas acima, o desempenho de sucesso é uma vitória espiritual para cada um de nós, uma vitória que fornece a força e o poder para o nosso “Eu Superior”, o que realmente somos, a Individualidade.
Que as Rosas floresçam em vossa cruz
Os filhos aprendem dos pais as primeiras ideias do bem e do mal, do certo e do errado. Para as crianças, os pais são os modelos de quem aceitam, sem hesitar, os conceitos que mais tarde lhes vão sedimentar o caráter. Eminentemente ensináveis, dóceis e sensitivas, as crianças gravam vividamente as lições e como “vídeo-tape” vão mais tarde relacionando fatos e modelando juízos.
Disse um famoso educador: “Dá-me uma criança até sete anos; a influência que lhe incutirei nesse período será decisiva para o resto de sua existência”. Avaliem, pois, a responsabilidade dos pais perante os Egos (Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) a quem deram oportunidade de renascer e ajudar. Se de um lado há o fator destino, fazendo com que cada um nasça no lugar mais adequado as suas necessidades internas, por outro lado os pais respondem, perante a Lei de Causa e Efeito, pela forma como educam. Pestalozzi[1] afirmou com muito acerto: “primeiramente é necessário educar os pais”. Seu sentido de educação era integral: intelectual, física e moral.
Sabemos que uma criança, à semelhança de um “iceberg”, revela apenas uma pequena parte de sua natureza. O tema astrológico poderá mostrar as tendências que trouxe ao nascer. Essa é a parte submersa no passado. O “meio ambiente” acrescentará algo mais, modificando ou reforçando os diversos aspectos de seu modo de ser. Educar é tarefa delicada e espinhosa. Não se trata, como vemos, de somente das escolas. É, principalmente, o exemplo dos pais, suas reações perante a vida, seus conceitos etc. Olhos atentos os observam e os imitam. São pequenas lições diárias a influir poderosamente no pai ou mãe de amanhã. De fato, o futuro é a soma de pequenos “agoras”.
Só podemos dar aos filhos o que temos e o que somos. Embora não tenhamos a intenção de prejudicar-lhes a formação, é o que muitas vezes fazemos, por falta de preparo ou só egoísmo.
Vejamos um fato comum e diário: a criança comete um deslize e o pai ou a mãe a corrige. Se a falta trouxe algum prejuízo material (rasgar ou sujar a roupa, gastar sem permissão, estragar qualquer coisa) a mãe fica furiosa e depois de gritar-lhe muito que o dinheiro é duro de se ganhar, que ela é ingrata, etc., põe-se no castigo. Quando a falta implica, porém, em dano moral (mentira, deslealdade, desobediência) o castigo é menor ou nenhum. Então a criança associa as duas coisas e conclui: “O que traz prejuízo material é mais grave. Portanto, o dinheiro é mais importante”.
Admiramo-nos, hoje, de que nossos filhos não se dedicam a espiritualidade deles e julgue muito mais importante ganhar dinheiro, lutar pelo supérfluo, pensar mais em “gozar a vida”? Fomos nós mesmos que lhes incutimos, sem o perceber, esse conceito. E quem sabe se no íntimo de nosso ser essa falha, ainda hoje, nos impede prestar justa colaboração à obra de divulgação e dedicação aos Ensinamentos Rosacruzes? Analisem-se. Vejam se não é verdade.
Este é apenas um dos inúmeros pontos que trazemos do passado. É preciso rever, reanalisar, reexaminar tudo o que temos dentro de nós. Nossas capacidades de análise e o nosso conhecimento das premissas Cristãs, hoje, nos permitem “separar o joio do trigo”, isto é: distinguir o que é bom do que é ruim. Isto foi o que disse Cristo, quando os discípulos, notando a presença do joio entre o trigo, se dispuseram a expurgá-lo: “Agora não, pois, haveria o período de cortarem o trigo, pensando ser joio”[2].
Separar, cortar o errado, o falso em nosso modo de pensar e sentir é tarefa que devemos fazer, quando devidamente orientados por sãos princípios, como os da Filosofia Rosacruz.
Hoje os Estudantes Rosacruzes dedicados podem e devem expurgar o joio, sem esperar que a Lei de Repulsão o faça, contra sua vontade, no estado post-mortem. O que conta em nosso favor, como conquista anímica, é o que realizamos aqui renascidos nessa escola da vida.
E ao mesmo tempo em que nos regeneramos, tanto mais capacitados estaremos para orientar e ajudar nossos semelhantes, a começar por nossos filhos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – outubro/1966 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) foi um pedagogista suíço e educador pioneiro da reforma educacional. Pestalozzi foi um dos pioneiros da pedagogia moderna, influenciando profundamente todas as correntes educacionais, e longe está de deixar de ser uma referência. Fundou escolas, cativava a todos para a causa de uma educação capaz de atingir o povo, num tempo em que o ensino era privilégio exclusivo. “A vida educa. Mas a vida que educa não é uma questão de palavras, e sim de ação. É atividade.”.
[2] N.R.: Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O Reino dos céus é semelhante ao homem que semeia boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou o joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu no teu campo boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, pois, que vamos arrancá-lo? Porém ele lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro. (Mt 13:24-30)
Resposta: Demonstra-se o triste estado da sociedade quando uma questão como esta pode ser relevante, como, infelizmente, é. O propósito fundamental do casamento é a perpetuação da Onda de Vida humana aqui, na Região Química do Mundo Físico, e as pessoas que não estão dispostas a se tornarem pais não têm o direito de se casar. Deveria ser direito de toda criança ser bem-nascido e bem-vindo.
Mas, embora tenhamos o cuidado de procurar a melhor linhagem nos animais que usamos para fins de reprodução, para que possamos obter os mais resistentes e de melhor qualidade, geralmente, não costumamos pensar na aptidão física, moral e mental daquele ou daquela que escolhemos para ser o pai ou a mãe dos filhos que queremos aqui. Na verdade, normalmente, é considerado indelicado, senão impróprio, e quando elas chegam, apesar dos preventivos, os pais, muitas vezes, ficam perturbados e desgostosos. Mas, a Lei de Causa e Efeito não pode ser contrariada. “Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem extraordinariamente bem”, e embora os séculos possam passar, chegará o momento em que aquele que foi um pai ou uma mãe relutante procurará, novamente, renascer aqui, e talvez renasça numa família onde não seja bem-vindo. Ou, ao pai ou a mãe relutante numa vida, poderá ser estéril numa outra. O autor tomou conhecimento de vários casos, como o de um casal que tinha sido abençoado com a vinda de numerosos filhos muito desejados, que amaram intensamente, mas que morreram durante a infância, um após o outro, para o grande desespero dos pais.
(Pergunta nº 28 do livro “Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas, Vol. I” – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Conta-se a história de um casal bondoso no País de Gales que desejava adotar uma criança refugiada belga e viajou até Swansea, uma cidade costeira do País de Gales, para conseguir uma no campo de concentração que havia lá. Mas nenhuma lhes agradou, exceto um irmão e uma irmã que se agarravam um ao outro com tanta tenacidade que o casal não teve coragem de separá-los. Então decidiram adotar ambos e os levaram para casa.
Quando a senhora despiu a menininha, reparou que ela trazia um medalhão pendurado no pescoço. A pequena explicou, da melhor forma que conseguiu, que ali dentro havia a imagem de sua mamãe, que fora massacrada. Ao abrir o medalhão, a senhora viu com assombro e angústia o retrato da sua própria irmã, que havia partido para a Bélgica anos antes como governanta e de quem não recebera notícia desde então. Assim, foi revelado que ela havia acolhido em seu lar e coração os filhos da irmã assassinada.
Como isso aconteceu — de fato aconteceu? Essa é uma questão de grande importância, pois afeta o destino de todo ser humano saber se os acontecimentos de nossas vidas são regidos pelo acaso ou pelo desígnio. A explicação mais simples é, naturalmente, que simplesmente aconteceu; pode parecer muito forçado para a maioria postular a ideia de “desígnio”. Ainda assim, Cristo nos ensinou que: “Até os cabelos da sua cabeça estão todos contados e mesmo um pardal não cai sem o conhecimento do Pai. Vocês valem mais do que muitos pardais.” (Mt 10:29-30)
Se Cristo disse a verdade — e não podemos duvidar que disse —, então o elemento do acaso é eliminado; assim, tudo o que nos acontece é resultado do desígnio Divino ou humano, atuando sob, e em harmonia com, a imutável Lei de Consequência; as forças que elaboram esses desígnios podem estar nos Mundos visível ou invisíveis.
Sob essa hipótese, é fácil explicar o ocorrido. Quando nos perguntamos quem teria interesse em levar aquelas crianças até a tia para protegê-las, a resposta é óbvia: a mãe. Se uma mãe pode fazer isso por seus filhos, então segue-se que todas as mães devem possuir capacidade semelhante de influenciar o destino de sua descendência — limitada, é claro, pela Lei de Causa e Efeito já mencionada. Se as mães podem fazer isso, também os pais ou outros parentes podem; em suma, todos estão além do véu da morte devem ter o poder de motivar cada pessoa que vive aqui; assim, nós também devemos ter esse poder. Não pode haver meio-termo.
Para o investigador ocultista isso é algo de conhecimento comum: aqueles a quem chamamos de mortos continuam, por um tempo que varia conforme sua inclinação e disposição, a se interessar pelos assuntos daqueles que deixaram para trás e se esforçam, com maior ou menor êxito, por influenciá-los, assim como nós sugestionamos uns aos outros nas relações físicas. Eles não são livres para fazê-lo em todos os momentos, pois certos episódios do Panorama da Vida deles passada exigem toda a sua atenção enquanto estão vivendo a purgação da última vida; mas entre os períodos de expurgação, nossos amigos dos Mundos invisíveis estão bem próximos de nós e nos envolvem com o mesmo cuidado e amor que tinham por nós enquanto estavam aqui no Corpo Denso.
Infelizmente, o contrário também é verdadeiro. Se um inimigo morre, não nos livramos dele por esse simples fato; na verdade, ele pode até nos causar mais dano de lá do que poderia em vida física. Isso foi sentido em pequena escala na guerra Russo-japonesa, quando alguns dos golpes estratégicos dos japoneses derivaram de impressões recebidas do outro lado. Métodos semelhantes foram usados, em proporção incrível para quem não esteja de fato ciente dos fatos, no início da presente Primeira Guerra Mundial.
Mas a ação organizada dos Irmãos Maiores e suas hostes de Auxiliares Invisíveis têm dado frutos no sentido de conter a corrente de ódio entre as vítimas do campo de batalha, de modo que todos os que atravessam o portal da morte agora são instruídos sobre o efeito da malícia sobre si e o mundo. Suas naturezas superiores são invocadas e o altruísmo é enaltecido como sendo mais nobre que o patriotismo; o resultado é que a maioria é convertida, pelo menos o suficiente, para se afastar de esforços ativos que objetivam a interferência no conflito.
Há muitos anos defendemos a abolição da pena de morte por razões semelhantes; o assassino, ressentido por esse ato de retaliação, é solto nos Mundos invisíveis para manipular outros de mentalidade semelhante e isso produz muitos homicídios. No entanto, se fosse mantido na prisão, permaneceria isolado até que os anos passassem e mitigassem seu ressentimento contra a sociedade; então atravessaria o portal da morte física em um estado de espírito menos perigoso e eventualmente não causaria mal à coletividade.
Que se compreenda, portanto, que seja um fato e não um sentimento poético, o conhecimento dado por John McCreery:
Embora invisíveis ao olhar mortal,
Eles ainda estão aqui e nos amam.
Os queridos que deixaram para trás,
Eles jamais esquecem.
Sim, sempre perto de nós, ainda que não sejam vistos,
Nossos queridos espíritos familiares caminham,
Pois em todo o vasto Universo de Deus há Vida e
Não existem mortos.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de Setembro/1916 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)