Resposta: Isso depende. Quando uma pessoa se torna Clarividente Involuntária ou negativa para os casos em que um Espírito desencarnado (um irmão ou uma irmã que morreu e está “apegado à Terra”) tome posse do Corpo Denso, total ou parcialmente, como por exemplo nos chamados médiuns de transe, onde, justamente o Espírito toma posse do Corpo Denso e o utiliza como o próprio dono do Corpo Denso faria, há pouco ou nenhum dano, desde que o chamado “espírito de controle” não abuse de seu “privilégio”. De fato, existem casos em que os “espíritos de controle” têm uma melhor noção de como cuidar de um Corpo Denso do que o próprio dono desse Corpo Denso, podendo até mesmo melhorar a saúde.
Mas, Espírito de natureza espiritual ética elevada não se submetem a ser “espíritos de controle”, ou seja, não tomam posse de um Corpo Denso; são mais Espíritos apegados à Terra e de natureza espiritual inferior, muitos pertencentes às chamadas Raças atrasadas e muitos outros que também não pertencem a essas Raças – querem se satisfazer de uma forma ou outra –, que obtêm o controle sobre pessoas que praticam a Clarividência Involuntária ou negativa e, quando em posse do Corpo Denso, podem usá-lo para satisfazer suas paixões mesquinhas por bebida alcoólica e sexo, por exemplo. Assim, causa um desequilíbrio no organismo de uma deterioração do instrumento Corpo Denso.
No caso de uma pessoa que pratica a Clarividência Involuntária ou negativa como o médium materializador, podemos dizer que a influência é sempre prejudicial. O Espírito desencarnado entra em transe com o médium materializador e, então, extrai o Éter do Corpo Vital desse através do baço etérico, pois a diferença entre o médium materializador e uma pessoa comum reside no fato de que a conexão entre o Corpo Vital e o Corpo Denso é extremamente frouxa naquele, de modo que é possível extrair essa parte do Corpo Vital em grande medida. Lembrando que o Corpo Vital é o nosso veículo pelo qual as correntes de energia solar nos fornecem a vitalidade que precisamos. Privado do princípio vitalizador, o Corpo Vital do médium materializador, no momento da materialização, às vezes encolhe para quase metade do seu tamanho normal; a carne fica flácida e a chama da vida se extingue. Quando essa atividade termina e o Corpo Vital é reinserido no Corpo Denso do médium materializador, esse desperta e recupera a consciência normal. Mas, ele experimenta uma sensação de exaustão terrível e, às vezes, infelizmente, recorre à bebida ou outro tipo de estimulante para reanimas as forças vitais. Nesse caso, é claro, a saúde logo se deteriora e o médium materializador fica completamente debilitado. De qualquer forma, a Clarividência Involuntária ou negativa deve ser evitada, pois, além desse perigo para o Corpo Denso e Corpo Vital, existem outras considerações muito mais sérias relacionadas aos outros nossos veículos sutis, e particularmente em relação ao nosso estado quando morremos mais uma vez aqui.
(Pergunta nº 119 do Livro: Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Em qualquer plano, à medida que ampliamos nossa capacidade, também se amplia nossa utilidade.
Se esta é uma verdade indiscutível para a vida terrena, o é mais ainda para a vida espiritual. Assim, podemos dizer que, se a cultura religiosa não torna alguém mais Cristão, também não é somente a vivência que sustenta o Cristianismo. A fé que reside apenas na vontade e no sentimento corre um grande risco. Em momentos de crise faltará sustentação do intelecto para dizer: não estou entendendo nem sentindo como gostaria, mas conheço o suficiente para tirar uma conclusão. Dificilmente uma fé sobreviverá sem a base sólida ou suficientemente sólida da doutrina.
A tônica dos Ensinamentos Rosacruzes é servir. Mas será que não corremos o risco de nos acomodarmos ao serviço amoroso e desinteressado que procuramos executar e muitas vezes realmente o executamos, esquecendo-nos de que se aumentássemos nosso conhecimento, por meio do estudo, dos Ensinamentos Rosacruzes poderíamos servir mais e melhor, reconhecendo realmente todas as oportunidades que se nos apresentam sem deixar passar alguma que, às vezes, nem percebemos serem oportunidades de serviço?
E se, aumentando nossa capacidade de servir nesse plano material aumentamos proporcionalmente nossa capacidade de servir nos planos internos, será que temos plena consciência da nossa responsabilidade ao nos contentarmos em permanecer na situação espiritual que julgamos ter, sem melhorar ou melhorando muito aquém do que poderíamos e deveríamos, já que temos o privilégio enorme de sermos chamados pelos Irmãos Maiores para colaborar com eles na redenção da Humanidade?
Temos a tendência em achar que, se fazemos o máximo pelos outros está tudo certo. Mas será que esse máximo que fazemos é realmente do que seríamos capazes se ampliássemos nossas capacidades, se estudássemos mais, se procurássemos colocar em nossos atos um embasamento maior de conhecimentos da Filosofia Rosacruz?
Tudo na natureza está na divina ordem: se não somos Auxiliares Visíveis, jamais chegaremos a Auxiliares Invisíveis. Se não trabalhamos pelos nossos irmãos e pelas nossas irmãs, aqui e agora, aqueles que, com palavras e gestos muitas vezes imploram nosso auxílio, que credenciais teríamos para trabalhar como Auxiliares Invisíveis? Se o Mundo Físico é o “baluarte da evolução”, temos de trabalhar nele, antes de trabalhar em outros Mundos. Deus respeita tanto nosso livre arbítrio que, se não servimos aqui e agora por nossa livre e espontânea vontade, onde praticamente tudo depende de nós, Ele não nos levará a servir no outro lado. Se não queremos servir aqui, quem garante que o queiramos do outro lado?
À medida que servimos, nos tornamos aptos a receber maiores e melhores oportunidades de serviço. Precisamos estar atentos a essas oportunidades e aproveitá-las todas, para formarmos o nosso Corpo-Alma, nosso dourado manto nupcial, pois não sabemos quando Cristo virá nos chamar para as bodas místicas.
No nosso Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção examinemos mais cuidadosamente o que deixamos de fazer e, se o que fizemos foi tão bem-feito como o deveria, por falta de capacidade nossa. E assim poderemos nos conhecer melhor e ampliar nossa capacidade para cada dia podermos ser de maior utilidade na “Vinha do Senhor”.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – outubro/1975 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Quanto mais órgãos tiver um corpo para a recepção, o desenvolvimento e a propagação de diversas influências, mais certamente sua existência será rica e perfeita, porque terá um maior potencial de vida; mas, muitas forças para as quais não temos órgãos podem estar adormecidas em nós e, por conseguinte, não podem agir. Essas forças latentes podem ser despertadas, isto é, nós mesmos podemos nos organizar, para que elas se tornem ativas em nós.
O órgão é uma forma na qual age uma força; mas toda forma consiste na direção determinada das partes – ligadas à força atuante. O organizar-se para a ação de uma força quer dizer simplesmente: dar às partes uma tal forma ou situação que permita que a força possa agir nelas. É nisso que consiste a organização. Assim como para um ser humano que não tem órgãos para ter o sentido da visão e, portanto, não vê a luz visível aqui, ela não existe realmente para ele, enquanto todos os outros que têm esses órgãos pode apreciar a luz, assim também muitos indivíduos podem não conseguir ver coisas que outros conseguem ver. Eu quero dizer que um ser humano poderá ser organizado de tal maneira que sentirá, escutará, verá e apreciará coisas que um outro não poderá sentir, nem ouvir, nem ver, nem apreciar, porque lhe falta o órgão de percepção para tal.
Assim, neste caso, todas as explicações lhe seriam inúteis, porque ele juntaria sempre as ideias que teria de receber por seu órgão particular às ideias de outrem, não podendo apreciar e compreender, senão o que se aproximasse das suas próprias sensações.
Assim como formamos todas as nossas ideias pelos sentidos e todas as operações da nossa razão são abstrações de impressões sensíveis, assim também não podemos fazer nenhuma ideia de muitas coisas, porque ainda não temos um órgão adequado.
Daí parece estar demonstrado que os indivíduos organizados para o desenvolvimento das forças superiores não podem dar aos que não estão organizados para isso nenhuma ideia da verdade superior, a não ser muito vagamente.
Assim, todas as nossas controvérsias e nossos escritos de pouco servem. Os seres humanos devem, primeiramente, se organizar para a percepção da Verdade.
Mesmo que nós explicássemos tudo a respeito da luz, os cegos não a veriam mais claro. É necessário que eles adquiram, primeiramente, os órgãos para o sentido da visão.
Eis a pergunta: em que consiste o órgão da percepção da Verdade? O que fornece a nós a capacidade de a perceber?
A resposta é: “A simplicidade do Coração”. Porque a simplicidade coloca o Coração numa situação ajustada para receber o raio puro da razão, e esse raio prepara o Coração para a percepção da luz. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3).
E que instrumento é necessário para isso? A resposta é: o Corpo-Alma!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – janeiro/fevereiro-1987 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Saibamos ou não, concordemos ou não, mas somos Espíritos, partes integrantes de Deus, que é Espírito também, Fonte de todo o Amor e de todo o Bem. N’Ele não existe um só vestígio de mal. Por essa razão, não podemos atribuir-Lhe nossos sofrimentos, como tantas pessoas o fazem.
Desde que completamos nossa instrumentação com a Mente, com a razão, começamos a nos dirigir sozinhos. O livre-arbítrio e a experiência passaram a ser os dois fatores para a nossa evolução e elevação. É bom pensar muito bem nisso!
Se existe qualquer dificuldade ou sofrimento em nossa vida, não atribuamos a Deus. Antes, devemos encará-los como desafios à perfeição que um dia deveremos alcançar, segundo nos ensinado por Cristo: “Sede perfeitos como vosso Pai Celestial” (Mt 5:48). Se o leitor é pai, não deseja que seu (sua) filho (a) se torne maior ainda que você? E para isso não deve ele aprender a fazer as coisas sozinho?
“Mas devemos ter assistência, como a que damos a nossos filhos” – poderá responder.
Sim, recebemos, desde que as desejemos. Quem procura, encontra.
Temos inúmeras provas disso. Um dia encontramos, como por acaso, a Fraternidade Rosacruz, e nela nos ofereceram um manancial de razões que nos transformaram o viver e nos tornaram possível suportar muita coisa que nada tem a ver com Deus, senão com nossas próprias falhas. Desde então as fomos corrigindo. Consideramos essa uma correta orientação, uma perfeita assistência. Dá-nos meios para que nós mesmos nos corrijamos.
Uma causa única existe para nossos males: é o desvio às Leis de Deus, mantenedoras da harmonia do Universo. Muita gente, presa de sofrimento e dificuldades por esse mundo afora, já ouviu falar nisso, porém, de uma forma insatisfatória. Suas dúvidas continuaram e as perguntas surgem naturalmente: se somos partes de Deus, que é o Supremo Amor e Bem, em Quem não há sequer o menor vestígio de mal, por que sofremos, então? Por que tantas dificuldades em nossa vida? Que Pai é esse que se compraz com nossos sofrimentos?
Quando alguém procura a causa de seus sofrimentos já é um importante passo para encontrar sua solução.
No íntimo de seu ser reconhece que deve haver uma causa. E há mesmo. Poderíamos desfiar uma série delas, as mais importantes e prováveis a cada caso. Mas cada indivíduo é um mundo à parte. Suas condições internas são singulares. O modo como recebe as coisas, também. Por isso o conhecer isso por meio dos Ensinamentos Rosacruzes e a maravilhosa Filosofia Rosacruz se consegue chegar a “sua” causa.
Tudo ali se faz no sincero intuito de elevar a Humanidade, por meios Cristãos e seguros e sem objetivos comerciais.
Importante frisar que na Fraternidade Rosacruz não há esforço de proselitismo. Mas tudo que se aprender é para que o Estudante Rosacruz encontre por si mesmo o que precisa. Para isso há os cursos gratuitos (inclusive todo o material) para se capacitar (sem estudos constantes é impossível evoluir em uma Escola, como o é a Fraternidade Rosacruz). Com certeza, o Estudante Rosacruz encontra respostas a todas as perguntas que lhe suscite o íntimo, sejam de ordem material ou espiritual. Nela você encontrará tudo o que deseja saber a respeito de Deus, da criação e de sua própria evolução.
Afinal, como nos ensinou S. Tiago: “se sua vida carece ainda de esclarecimento, procure-o” (Tg 1:5).
Afinal, a Filosofia Rosacruz ensina que Deus está em todo lugar e principalmente no coração de quem esteja sinceramente pondo em prática os princípios Cristãos.
E conforme esses princípios mesmos é que tudo que a Fraternidade Rosacruz oferece é de graça, pois de graça recebemos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz –outubro/1966-Fraternidade Rosacruz-SP)
Médicos alemães e americanos trabalham atualmente na investigação dos fatores psíquicos que desempenham um papel importante, até mesmo decisivo como causa do infarto do miocárdio. Depois de se terem analisado conscientemente todos os fatores físicos, tais como o excesso de peso, a hiperpressão, falhas da alimentação, nível elevado de colesterina ou o abuso do cigarro, impõe-se cada vez mais nitidamente a convicção de que os fatores psicológicos e sócio-médicos têm de ser tomados em linha de conta nos antecedentes de um infarto e na situação propícia a um infarto.
É cada vez mais evidente, no segundo plano da chamada “doença dos managers”, aparecerem tensões psíquicas invulgares e extraordinárias, na maioria dos casos reações psíquicas inconscientes e fracassos ou a impossibilidade de realizar determinados projetos. Segundo as mais recentes investigações, o infarto do miocárdio não é causado por excesso de trabalho, mas por um determinado conflito resultante da discrepância entre os objetivos estabelecidos e os resultados atingidos efetivamente. O êxito, o fracasso ou reconhecimento dos méritos e o seu desprezo são as mais fortes vivências psíquicas. Esse resultado da análise psicológica não data dos nossos dias. No entanto, adquiriu muito maior importância na atual estrutura sociológica, na qual os êxitos e as realizações adquiriram muito maior peso na aferição do valor do indivíduo.
O especialista de medicina interna da Universidade de Munster, na Westefália, Professor Werner Hauss, declarou recentemente no Congresso Berlinense de Promoção Médica que “o ser humano suporta o êxito ou os trabalhos coroados de êxito em ordens de grandeza simplesmente inconcebíveis”. Por outro lado, os trabalhos seguidos de decepções conduziriam frequentemente a toda uma série de males e doenças. O Professor Paul Christian, de Heidelberg, complementou essas asserções com uma análise precisa e exata da chamada “frustração”, dos perigosos abalos psíquicos que tão frequentemente são a consequência de fracassos. Segundo esse especialista, o fracasso efetivo ou imaginado é “a solicitação psíquica mais insuportável que nós conhecemos”. Se um indivíduo de grande vitalidade e ambição sofre a frustração em consequência de fracassos, pode ser originado um processo capaz de conduzir até mesmo à morte. Os fracassos induzem frequentemente o indivíduo a redobrar esforços, sendo o abalo psíquico da frustração ainda mais forte se o indivíduo em questão não atingir o objetivo em vista. Os mais recentes inquéritos organizados na Alemanha por médicos indicam efetivamente que cerca de 40% das vítimas de infarto do miocárdio tinham sofrido reveses e fracassos, sentindo-se finalmente incapazes de superarem o conflito psíquico.
O estudo consciencioso das causas psíquicas do infarto do miocárdio levou à convicção que existem indivíduos com uma autêntica predisposição psíquica ao infarto. Os indivíduos com a tendência para o infarto correspondem ao tipo pícnico e atlético. São extrovertidos, realistas, concentrados no seu êxito individual, sempre dispostos a agir e “ávidos de estímulos”. Se essas qualidades atingirem o limite do patológico, o perigo de um infarto é ainda maior. Frequentemente, o indivíduo predisposto ao infarto é também um neurótico, designado pelos psicólogos, de “histérico negativo”. Quando surgem quaisquer males ou doenças, esse indivíduo não as quer conhecer, negando-se até mesmo a consultar um médico. As estatísticas provam que 42 por cento dos pacientes que sofreram, de vez em quando, do coração e foram, finalmente, vítimas de um infarto do miocárdio, não tinham consultado previamente um médico. (Recortes dos meios de comunicação).
Ora, e o que é a frustração? O sentimento de malogro, a decepção pelo fracasso, o recalque inibitório por não suceder algo que se esperava ardentemente ou por que tenha lutado muito e não tenha chegado ao desejado resultado. Isso é comum. Bem entendido, é comum a nós. Se estamos bem-preparados espiritualmente não nos deixaremos levar pela frustração ou outros fatores negativos semelhantes. E, por bem-preparados queremos significar, não o espiritualista ilustrado, intelectualizado, senão o amadurecido, aqueles que fundamentaram uma razão superior para todas as coisas, que concilia a experiência e a observação com as Leis de Deus, os que tem fé incondicional no amor e justiça de Deus.
Todos nós comprometemos parcialmente nossa liberdade com as dívidas do passado (que nada mais são do que lições que insistimos em não aprender) ainda não regeneradas. Se não chegamos a um resultado, em nossos esforços, é porque, para o nosso próprio bem não era justo o que pretendíamos, ou porque não fizemos os esforços naturais que nos tornariam dignos de sua posse ou ainda porque estamos resgatando algo que anteriormente infligimos a outrem. De toda maneira, o malogro não deve desesperar ninguém. Aprendemos mais com nossos fracassos do que com nossos êxitos, desde que saibamos extrair-lhes a lição que nos destinavam. E essas lições, escolhidas por nós mesmos com a ajuda dos Anjos do Destino ainda no Terceiro Céu antes dessa vida terrestre aqui, não pode encerrar vingança nem justificar desonestidade. No complexo mecanismo das relações humanas, há sempre um propósito superior: o de nos ensinar a integração numa verdadeira fraternidade.
Ainda que a lição, amarga para nós, tenha vindo por intermédio de um semelhante nosso, que agiu com má-fé, precisamos compreender que ele apenas foi um instrumento, para ensinar-nos a prudência, para fazer-nos sentir algo que no passado forçamos outrem a experimentar, para provar-nos a convicção nos ideais superiores e a força de nosso amor.
Idealismo que se esboroa ao primeiro impacto de revés é idealismo puramente intelectual, justaposto, não assimilado, não interiorizado. E a maneira de chegar a sentir e viver realmente o ideal é ir sublimando essas manifestações negativas, pela razão, é persistir no estudo e compreensão das Leis de Deus que a Fraternidade Rosacruz oferece.
Avaliem, pois, a importância dos Ensinamentos Rosacruzes. Tais Ensinamentos vieram a disposição de todos mercê da previdência e do amor daqueles que anteviam esse estado de coisas, no progressista mundo ocidental. Eles anteviram a insuficiência do Cristianismo popular – ou exotérico – no preparo interno dos que se deixam engolfar pela ambição, dos que se escravizam pela máquina e invenções modernas, cujo fito imaturo ainda é o de enriquecer minorias em detrimentos de legítimos direitos da maioria. Mas a transição e mudança de coisas devem provir do nosso interior: de dentro para fora. Quando as internas necessidades humanas reclamam condições melhores, elas naturalmente vêm!
Outra conclusão importante que podemos tirar da notícia acerca da causa mais frequente do infarto é a influência e inegável ação dos pensamentos e das emoções sobre a nossa saúde.
Depreendemos, também, que a mesma influência e ação negativas são verdadeiras quanto à nossa felicidade. Aquele que alberga sentimentos, emoções e pensamentos pessimistas, rancorosos ou desonestos está, em primeiro lugar, conspurcando a si mesmo, comprometendo seu destino, manchando o Templo Divino do seu Corpo Denso, rasgando a trilha de hábitos daninhos que se alargarão pelo repetir, em estradas desoladoras de sofrimentos — a consequência lógica assegurada pela Lei de Causa e Efeito.
A Fraternidade Rosacruz franqueia amorosa e desinteressadamente a todos os de bom senso, a filosofia da felicidade, o entendimento de que só a Verdade, a Beleza e a Bondade, harmoniosamente conjugadas na ação humana, podem restituir-nos os direitos e vivências superiores que nós, como Espíritos, Filhos de Deus, temos de um dia alcançar. Resta-nos escolher se pelo caminho da dor, ou pela observação e consonância voluntária às Leis de Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – fevereiro/1967 – Fraternidade Rosacruz–SP)
Muitas pessoas não se dão conta de que os homens ou as mulheres com os quais nos relacionamos diariamente talvez sejam, alguns, é claro, possuidores de algum grau de vidência. Há vários estágios de desenvolvimento espiritual dos quais constantemente ouvimos falar.
As exibições dessa faculdade geralmente são feitas por videntes negativos, pouco ou nada conhecedores das forças com as quais se põem em contato. Outras vezes essas demonstrações são realizadas por aqueles que, tendo obtido um insignificante conhecimento das coisas espirituais, agem de forma precipitada em situações complexas que os mais sábios evitam.
O Clarividente positivamente desenvolvido – também chamado de Clarividente voluntário – sabe, por experiência, que uma única demonstração não convence ao incrédulo, servindo-lhe apenas para exigir mais uma.
Um ser elevado espiritualmente e treinado esotericamente, compreendendo as forças que o cercam, nunca prostituirá seu dom com a finalidade de auferir benefícios materiais. Jamais o empregará com propósitos banais, sabendo que poderá perdê-lo se o fizer. Nem a salvação e muito menos as evoluções podem ser compradas. Cristo curou e alimentou as multidões, mas não usou Seus poderes para fugir ao Gólgota.
É possível convivermos com um Clarividente voluntário sem nunca o sabermos. Ele não se identificará como tal.
Durante muitos anos certo homem foi meu sócio em vários negócios. Há pouco tempo, entretanto, é que, em uma palestra casual, descobri tratar-se de um Estudante Rosacruz. Isto, todavia, não é de se admirar, como parece à primeira vista. Revendo os vários anos de relacionamento com esse Estudante Rosacruz, percebi nunca tê-lo ouvido pronunciar a menor crítica ou ofensa a quem quer que fosse. Em circunstâncias onde o ser humano comum age com intolerância, ele sempre manifestou condescendência. Sempre respeitou todas as Religiões e as opiniões alheias, embora tivesse seus pontos de vista. Quando eu desrespeitava as coisas sagradas em sua presença, ele me repreendia sutil e silenciosamente.
Esse homem me intrigava e eu o interrogava o mais que podia. As respostas fluíam com simplicidade e paciência, exceto quando eu me tornava impertinente.
O Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui), nós, possui diversos veículos Corpos Denso, Vital, de Desejos e o veículo Mente, os quais usa para adquirir experiência e evoluir. O Corpo Denso é formado de matéria da Região Química do Mundo Físico em que vivemos cotidianamente quando estamos renascidos aqui e, naturalmente, é visível a quem tenha os órgãos da visão funcionando aqui. Os outros veículos são formados de substâncias pertinentes às Regiões e aos Mundos onde têm origem.
Da mesma forma como um indivíduo portador de cegueira não pode perceber a Região Química do Mundo Físico ao seu redor, o ser humano profano não distingue os Corpos mais sutis nem os Mundos a que se relacionam.
O grande inventor Thomas A. Edison, pouco antes de seu falecimento declarou que a ciência nos últimos cem anos fizera notáveis progressos no campo da física, mas no próximo século o grande campo de investigações seria o da metafísica; sabe-se, através de relatório elaborado pela senhora Edison, que nos últimos anos que precederam a morte de seu esposo, ele esteve ocupado em aperfeiçoar uma máquina que possibilitaria o contato com os planos espirituais. Os cientistas ocultistas afirmam que o único instrumento perfeito para tal função deve ser desenvolvido pelo ser humano e dentro de si mesmo.
Encontramos as “chaves” da Clarividência voluntária ou positiva no desenvolvimento de duas Glândulas Endócrinas: Corpo Pituitário e Pineal. O reto viver, por sua vez, é a chave desse desenvolvimento. Da mesma forma como os vários graus de visão espiritual podem ser desenvolvidos, outras faculdades superiores são suscetíveis de florescimento.
Uma delas é a possibilidade de ingressar nos planos invisíveis da Natureza e neles funcionar conscientemente. Depende da habilidade de cada pessoa, em efetuar a separação dos Éteres superiores dos Éteres inferiores do Corpo Vital, de uma forma correta e segura. Isto se torna realidade mediante uma vivência pura e amorosa, treinamento esotérico, mesclada com práticas devocionais e serviço altruísta e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) prestado ao irmão e a irmã, focando na Divina Essência oculta em cada um (que é a base da Fraternidade).
Os Éteres de Luz e Refletor formam o chamado “Vestido Dourado de Bodas” – o Corpo-Alma –, simbolizado pela estrela dourada do Emblema Rosacruz. Constituem, nessa circunstância, um verdadeiro Corpo espiritual, por meio do qual nós percorremos livremente os Mundos internos, enquanto o Corpo Denso fica repousando, dormindo. O indivíduo dotado de elevado desenvolvimento anímico, pode, durante o sono, utilizar seus veículos superiores para trabalhar como Auxiliar Invisível, principalmente no labor de curar os doentes e enfermos.
Muitas vezes, durante o sono, encontramos amigos e amigas ou nos achamos em lugares estranhos. Em várias ocasiões, tais experiências são consideradas como meros sonhos. Às vezes, porém, são experiências reais que muito nos impressionam quando despertos.
No primeiro estágio, o Auxiliar Invisível é inconsciente. Mais tarde, como decorrência normal de seu desenvolvimento, torna consciente. Qual o requisito básico para alguém tornar-se um Auxiliar Invisível? É simples: primeiramente deve se converter em um Auxiliar Visível, isto é, deve servir da maneira que puder aqui no Mundo material, quando está acordado ou em estado de vigília. Não há outro caminho!
Hoje em dia, com essa profusão de livros sobre ocultismo e psiquismo à venda nas livrarias, fala-se muito em sexto sentido. Um dos primeiros sinais de desenvolvimento do sexto sentido consiste na receptividade às vibrações dos planos suprafísicos. Nesta classe encontramos a maioria dos Estudantes Rosacruzes. O simples fato de serem Estudantes Rosacruzes e aceitarem a verdade contida nos Ensinamentos Rosacruzes, demonstra sua sensibilidade às vibrações suprafísicas. O importante é desenvolverem suas faculdades espirituais sempre no sentido positivo, por meio do Conhecimento Direto, preconizado pela Fraternidade Rosacruz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – abril/1979 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Aqui temos uma história oculta sobre o relacionamento entre pessoas provocado justamente pelo destino e que as fazem aprenderem lições conjuntas que enriquecem a vida aqui e ajudam a evoluir espiritualmente nessa vida.
1. Para fazer download ou imprimir:
2. Para estudar no próprio site:
Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta
Por um Estudante
Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
Avenida Francisco Glicério, 1326 – conj. 82
Centro – 13012-100 – Campinas – SP – Brasil
Traduzido, Compilado e Revisado de acordo com:
Links of Destiny
1ª Edição em Inglês, 1916 a 1917, in The Rays from The Rose Cross – The Rosicrucian Fellowship
pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz – Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
contato@fraternidaderosacruz.com
fraternidade@fraternidaderosacruz.com
CAPÍTULO I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS
Os tons amarelados de um pôr do sol dourado iluminavam o céu do oeste e banhavam, em um esplendor momentâneo, a modesta rua da vila. As pequenas e humildes moradias resplandeciam na glória da transformação, enquanto o suave brilho âmbar repousava sobre elas. Ao passar, lançou um raio trêmulo de luz sobre as janelas da velha escola de tijolos vermelhos, na estrada principal — e então desapareceu lentamente sobre as colinas cobertas de faias e bordos que coroavam o horizonte.
O desgastado estrado de madeira captou o último lampejo de esplendor, e Ralph Remington, sentado à sua mesa, ergueu os olhos cansados para encontrar o brilho dourado. Um halo de luz repousava sobre sua cabeça, trazendo certa paz ao seu espírito solitário. Ao ouvir a música crepuscular da natureza, em seu fim pianíssimo [muito suave], ele quase se esqueceu dos fardos que carregava e que, poucos momentos antes, pareciam tão pesados.
O bálsamo aromático dos pinheiros entrava pelas janelas abertas, misturando-se suavemente ao perfume da rosa silvestre e da roseira-brava. Com o murmúrio do riacho límpido, que corria sobre as pedras brancas e lisas, vinham aromas deliciosos do vale dos fetos, onde a Natureza revelava alguns de seus segredos maravilhosos a quem quisesse ouvir.
O mestre-escola inspirou longas e profundas respirações do ar perfumado e sentiu-se momentaneamente revigorado. Então voltou-se novamente para os papéis sobre sua mesa e concentrou a consciência nos problemas de seus alunos. Continuou trabalhando, indiferente ao que o cercava, enquanto o longo dia de verão chegava ao fim. As aves deixaram de esvoaçar e o laborioso zumbido das abelhas se dissolveu num indistinto e sonolento murmúrio.
As inúmeras formas de vida trêmula da floresta cessaram instintivamente sua agitação inquieta. A paz pairava sobre a paisagem: o dia chegara ao fim. Formas estranhas e fantásticas surgiam gradualmente do crepúsculo que se adensava, acumulando-se nos cantos e entre os rudes bancos de madeira.
Mesmo assim, Ralph Remington permanecia sentado à sua mesa, de cabeça baixa, aparentemente alheio à escuridão que se adensava. Em retrospecção, revivia os anos passados — exteriormente sereno, discreto, convencional, mas, por dentro, movendo-se entre tempestades e conflitos até o desfecho. Suas provações começavam a assumir forma concreta e uma crise parecia aproximar-se.
De repente, a sombra de uma figura apareceu na porta e uma voz metálica enviou vibrações discordantes através da quietude da noite.
— Ainda aqui, é? Fui até a Villa para te ver! Sonhando, Ralph? Bem, sonhos não levam ninguém a lugar algum! Uh — este é um lugar fantasmagórico!
Repentinamente despertado do seu devaneio, Ralph Remington levantou-se e aproximou-se do intruso com a mão estendida: “Boa noite, Horace!”.
Por um momento, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Então, Horace Rathburn perguntou, com um tom que irritava os ouvidos do homem de coração gentil à sua frente: “Então, você já considerou a minha proposta?”.
— Isso teria sido um gasto desnecessário de força mental, Horace! Minha resposta para você naquela noite foi definitiva.
— Posso então inferir que você não usará sequer a influência que possui para garantir o objetivo proposto? É um pedido pequeno — e mesmo assim traria resultados altamente benéficos para todas as partes!
— Isso não é algo para nós decidirmos. Os principais envolvidos no caso são os únicos que têm interesse.
— Uma posição tola para assumir, Ralph Remington! Você influencia sua filha em tudo e a natureza dela é uma réplica da sua: você é seu modelo, em resumo; mas quando chega o momento mais importante da vida dela, também da sua, você se afasta e a deixa à deriva, entregue a um simples capricho, um devaneio! É melhor você reconsiderar o assunto!
— O tempo em que os pais decidiam os destinos dos filhos já passou. Marozia possui, de maneira incomum, as finas e aguçadas intuições femininas. O julgamento dela será a voz decisiva neste assunto, assim como em outras questões que a envolvem!
Havia uma firmeza silenciosa na voz de Ralph Remington que Horace Rathburn compreendia bem. No entanto, a persistência era sua característica mais marcante.
— Marque bem isto, Ralph! Não estou com disposição para continuar sendo enganado! A felicidade do meu filho está em jogo e agora será guerra até a morte, a menos que você ceda! Ralph Remington permaneceu em silêncio.
O estalar da brita sob seus pés, enquanto caminhavam entre pinheiros e cicutas, o canto dos grilos e o coaxar dos sapos no pântano distante eram os únicos sons que quebravam a quietude da noite. Horace Rathburn não suportava o silêncio. Era um homem de ação, e algo precisava ser dito ou feito a cada momento de vigília, não importando a natureza do que fosse dito ou feito. Sonhos, como ele chamava os silêncios da alma — eram totalmente supérfluos.
— Você ouviu, Ralph? Guerra até a morte! A menos que você ceda.
— Você já me viu ceder quando um princípio estava em jogo?
Horace Rathburn lembrou-se imediatamente de várias ocasiões no passado em que a vontade inflexível de Ralph Remington, empregada em favor do que era certo, havia frustrado seus planos perversos — e a lembrança não era nada agradável. Ele se contraiu e se remexeu levemente sob o olhar direto e penetrante que lhe era lançado na penumbra. Então, mudou seu método de ataque.
— Um belo subterfúgio esse: mandar sua filha para a escola em Utica, tendo uma escola preparatória aqui em Unadilla, da qual o meu ilustre colega, Ralph Remington, é o… ah… hm… diretor!
— Poupe seu sarcasmo, Horace Rathburn! A ocasião não justifica seu esforço.
— Mais uma vez, então, você recusa o meu pedido? Tem coragem de recusá-lo, sabendo o que isso significa para sua filha em termos de um futuro brilhante?
— Eu me recuso a interferir, de qualquer forma, nos direitos e prerrogativas da minha filha. Além disso, não quero que ela seja incomodada, sequer minimamente, por quaisquer sugestões ao retornar para casa. Esse é um assunto sagrado demais para ser invadido de forma tão impiedosa, especialmente depois do tom mercenário que você acabou de adotar.
— Então, entendo que você está dizendo que permitirá que ela faça o que quiser, mesmo que isso leve à miséria?
— Sua linguagem é exagerada, Horace. Pessoas de inteligência e instrução raramente se tornam miseráveis! Elas podem ganhar o próprio sustento.
— Então modifique, se quiser. O que pensará, quando ver a bela Marozia Remington trabalhando para ganhar o próprio sustento?
Uma súbita e bela luz irradiou do expressivo rosto de Ralph Remington, enquanto ele erguia a mão no gesto solene e forense que o caracterizava quando sua alma estava na arena, lutando pelo certo contra forças visíveis ou invisíveis.
— Isso não seria o pior dos males! Mil vezes melhor que ela fosse até mesmo uma miserável do que uma noiva infeliz. Nenhum jugo é tão opressor quanto o jugo matrimonial, quando une duas pessoas que vivem em planos diferentes. Seu filho é materialista, minha filha é idealista. Seria apenas mais um caso de união malformada e é sempre o idealista quem sofre. Claude não perceberia a disparidade, mas isso destruiria Marozia. Somente a verdadeira união de almas pode trazer felicidade a um casamento assim.
— Humm! Um sentimento um tanto esfarrapado e gasto, parece-me! Muito mais adequado à era da cavalaria do que a esta! Eu lhe digo, Ralph — seu tom mudou rapidamente para o de um promotor quase solícito, cuja simpatia se expande de forma diretamente proporcional ao desinteresse crescente da vítima em potencial — você e eu já estamos na ladeira descendente da colina e para nós isso não importa tanto, mas eu posso ver as marcas de dedo na parede!
— Deixe-me dizer algo como um velho amigo. O dinheiro será o poder dominante. Em menos de uma década, você verá que ele será o deus supremo. Inteligência não terá mérito; na verdade, será um obstáculo! Cultura, educação, linhagem: tudo estará em desvalorização. O amor será confirmado como aquilo que todas as pessoas sensatas já consideram, mera loucura ou tolice sentimental, adequada apenas para jovens imaturos e garotas tolas. Marozia é sensata demais para desperdiçar todas as suas chances de progresso em troca de um sentimento tolo como o que você expressou. Eu conheço algo do seu calibre mental e ambição de se destacar por meio de esforços intelectuais. Você sabe que isso não pode ser feito sem dinheiro… ou o seu equivalente, a influência!
— Horace, eu me recuso a continuar discutindo sobre esse nobre sentimento e não vejo razão para prolongar esta conversa.
— Bem, pode ser que haja uma ou duas razões do meu lado!
Tirou de um bolso interno um embrulho. O caminho de cascalho sob as cicutas fundia-se, naquele ponto, à rua da aldeia e, na penumbra, Ralph Remington viu o brilho malévolo nos olhos que estavam fixos nele. Um sapo preencheu a pausa com seu coaxar gutural. Ralph estremeceu ao erguer o olhar para a beleza serena dos céus. A voz metálica soou áspera em seus ouvidos sensíveis. As palavras seguintes ecoaram com a precisão cortante de quem está seguro de sua posição.
— Com base nos dados que tenho, sei que o estado de suas finanças está longe de ser satisfatório, para dizer o mínimo. Eu lhe ofereci a oportunidade de recuperar sua fortuna arruinada e colocar sua filha em uma posição condizente com seu caráter e conquistas. Você desprezou minhas propostas. Está vendo estas notas? Estão vencidas!
À luz que se projetava do correio da aldeia, Horace Rathburn pôde ver o efeito desse último golpe. Sua vítima pareceu atordoada por um momento. Ele não imaginara que as coisas tivessem chegado a tal crise.
— O que significa isso, Horace?
— Ah, eu as comprei, simplesmente.
— Isso é um jogo de extorsão… ou o quê?
— Dê o nome que você quiser. Tenho certeza da minha posição legal nesse assunto. Além disso, não me importo sequer um pouco. Agora você vai aceitar minhas condições!
Seu modo havia se tornado, de repente, intolerável. Havia nele uma insolência fria e arrogante que representava um insulto imensurável para o homem de grande alma que caminhava ao seu lado. Um apito estridente lhes feriu os ouvidos, quando o trem da noite contornou uma curva das colinas.
— Vou dar um tempo razoável para você pensar, mas você sabe qual é a alternativa. Boa noite.
CAPÍTULO II – CONEXÕES DO DESTINO
A velha carruagem, que levara Marozia Remington da sua casa até Utica, fora agora substituída pela ferrovia. A aldeia primitiva, colocada assim em comunicação direta com a cidade de Nova York, recebera da grande metrópole certas importações não totalmente condizentes com seu caráter rural. Seu antigo encanto residia em sua simplicidade rústica. Habitantes cansados da cidade fugiam para lá durante os quentes meses de verão a fim de descansar e recuperar as forças entre as colinas azuladas. Desde que a ferrovia estendera seus ramais da linha principal para todos os ricos assentamentos agrícolas e povoados vizinhos, chalés e vilas começaram a brotar às margens dos lagos límpidos de águas azuis. Ricos nova-iorquinos haviam previsto as vantagens desse local como estância de veraneio. Ainda estava em sua fase embrionária. Até então, era pouco mais do que um sonho na Mente de Horace Rathburn e de um ou dois outros empreendedores e capitalistas. Esses homens olhavam para o futuro e viam possibilidades nesse lugar.
Nessa fase de transição, a aldeia começava a crescer desajeitada, como uma camponesa que se enfeita com bugigangas e joias de vidro e finge sofisticação. Havia perdido o antigo encanto e ainda não adquirira o mais refinado, o da verdadeira cultura. Para Marozia, que estava repleta do entusiasmo infantil de uma viajante que retorna, a vulgaridade meio oculta ainda não se tornara aparente. Ela prendeu a respiração com um arrepio de deleite quando o trem, que a levava de volta para casa, contornou uma curva e visões cintilantes de azul e verde desfilaram diante dos seus olhos. Ora margeava um lago azul, ora atravessava uma muralha de rocha — então, outra abertura na cadeia de bosques ondulantes revelava sua aldeia natal, em sua pitoresca simplicidade, aos pés das colinas. No crepúsculo que se adensava, ela pôde distinguir ao longe a Farmington Villa, erguida no cume de uma das colinas de Beachwood, e estremeceu de emoção diante daquela visão. Enfim, ela estava em casa — e ali estava seu pai, na estação, à sua espera. Com a ansiedade de uma criança ela se lançou para encontrá-lo, mas recuou de súbito quando viu o seu rosto.
— Oh, por que eu o deixei, pai? — ela exclamou com algo na voz que parecia um soluço contido. — Por que eu o deixei?
Ele sorriu ternamente ao pousar a mão sobre os cabelos dela com seu antigo toque carinhoso.
— Isso não lhe fez mal, querida? — disse ele, em tom de pergunta e afirmação, enquanto seus olhos gentis repousavam sobre o rosto dela.
— Não, mas você… você, pai! Você sofreu e eu posso ver isso. Emagreceu muito também! Oh, pai, por que eu fui embora?
— Por que você não deveria ter ido? — ele perguntou com um sorriso terno, meio curioso.
— Porque você precisava de mim aqui.
— De fato, querida, não sou um tirano ridículo o suficiente para mantê-la em casa, afastada da escola, apenas para atender às minhas necessidades imaginárias.
Ela percebeu que ele tremia, como de fraqueza, quando ela segurou seu braço. Ela procurou a carruagem e o velho cavalo da família. Ele leu em seu olhar a pergunta silenciosa e disse em tom mais baixo.
— Vendi o cavalo e a carruagem no mês passado. Você se sente capaz de caminhar, minha filha?
Ele virou o rosto para que ela não percebesse a emoção estampada ali.
— Você sabe que costumávamos caminhar muitas vezes, você e eu, minha menina, e será como nos velhos tempos outra vez. Mas tem certeza de que não está cansada demais? — acrescentou ele, com profunda solicitude na voz.
— Só estou cansada de ficar sentada. Estou ansiosa para caminhar!
Mesmo assim, ela se perguntava por que motivo ele vendeu o velho cavalo da família.
Uma multidão curiosa os observava enquanto se afastavam e passavam pela agência dos correios da vila. “Agência dos correios” era o nome que ostentava, mas como muitos exemplares da espécie humana, exibia uma aparência que não conseguia sustentar. Uma vez lá dentro, suas limitações eram dolorosamente aparentes. Ocupava apenas um pequeno canto de uma loja, que ostentava uma placa que dizia “Mercearia e Miudezas Yankee” em grandes letras pretas na frente outrora imaculada. Agora, cinza com as tempestades de muitos anos.
A multidão heterogênea de desocupados naquela hora utilizava barris de melaço e açúcar, além de caixas de sabão, como assentos, enquanto se sentava para entalhar pedaços de madeira e se entregava às costumeiras fofocas da aldeia. Diferia apenas, em relação àquelas espalhadas durante os chás dos círculos de costura das mulheres, nos adjetivos e nas exclamações.
O respeito pela nossa frequentemente mutilada língua inglesa e pelas leis do esteticismo impedem um relato literal da discussão que surgiu naquela noite sobre o retorno de Marozia Remington de Utica. O consenso geral parecia ser de que a educação para as mulheres fosse inteiramente supérflua e, nesse caso, pouco menos do que criminosa, considerando a arruinada situação financeira dos Remingtons. Rube Slater parecia ser o presidente do conclave de desocupados e seu discurso de abertura à assembleia começou da seguinte forma.
— Bem, eu acho que a Marozia Remington carrega a cabeça um tiquinho alto demais, considerando as coisas!
Enquanto falava, dois filetes amarronzados escorriam pelos cantos de sua boca grande, seguiam caminho tortuoso pelo queixo enrugado e, por fim, perdiam-se entre a barba rala e avermelhada que o adornava.
Zeke Ketchum tinha de fonte bastante confiável que “ela” havia retornado justamente nesse momento para entrar em competição com as irmãs Watson e outras moças do condado a fim de conquistar o prêmio matrimonial da temporada — Claude Rathburn, filho do promotor e capitalista.
Havia uma ligeira diferença na formulação entre os membros do “conselho da aldeia”, mas todos concordavam em um ponto, a saber: que os Remingtons eram excessivamente aristocráticos e precisavam ser rebaixados alguns “graus”.
Marozia e seu pai, completamente inconsciente aos comentários que despertavam, subiram pela longa rua da aldeia e desapareceram de vista. A antiga “casa de reuniões” erguia-se diante de seu semicírculo de abrigos para carroças, rígida, cinzenta e sóbria — em marcado contraste com a pequena igreja gótica do outro lado do caminho.
Mais adiante, passaram pela antiga escola vermelha, aninhada entre os abetos e pinheiros, depois pelo moinho semiarruinado com sua enorme roda d’água que se erguia negra e espectral na luz que se desvanecia. Seguiram pela “estrada da colina”. Marozia notou que tudo lhe parecesse ainda mais primitivo do que antes, depois do seu ano de vida na cidade — e, no entanto, amava mais. O amor tem o dom de idealizar todos os defeitos.
Houve um tempo em que ela sentia apenas um desprezo intolerável por seu ambiente na aldeia. Agora, idealizava sua simplicidade arcadiana. Sentia-se feliz ao caminhar de braço dado com o pai pela estrada pedregosa. O mesmo e velho sapo que havia tomado posse do seu tronco no pântano anunciou sua presença. Sua voz era patriarcal e ele praticamente bramia. Marozia soltou uma risadinha divertida e lançou um olhar furtivo ao pai. A expressão em seu rosto a surpreendeu. Suas próximas palavras foram ditas em tom menor.
— Essas criaturas não têm a menor noção de que seus esforços de expressão soam como uma nota dissonante na música do Universo. Eu me pergunto se a nossa música afeta do mesmo jeito as Inteligências superiores de outros mundos! Os sapos têm seus noturnos e nós, nossas sinfonias; lá em cima, nos mundos tonais, toda a nossa música pode parecer rudimentar! Nossa própria vida, com todas as suas elevadas aspirações, pode ser uma dissonância na harmonia universal.
O sapo respondeu em seu baixo profundo e ambos sorriram.
— Que angustiante! — ele disse, e ela instintivamente soube que seu pai estivesse sofrendo.
Sua simpatia intuitiva nunca precisou de detalhes verbais.
Ela tentou, em meio a uma brincadeira meiga e bem-humorada, dissipar a melancolia, mas depois insistiria em sua determinação de conhecer a causa.
Sua Mente analítica jamais descansava e obedecia ao indício do sexto sentido adivinhatório para compreender a causa subjacente dos eventos.
Agora, era necessário mudar o curso dos pensamentos dele com o seu brilho mágico.
— Não foi meu pai quem falou. Ele teria falado da seguinte forma: se nossos sentidos fossem suficientemente aguçados, poderíamos perceber a harmonia subjacente até mesmo no coaxar de um sapo!
Sua alma emergiu de repente das trevas. O sorriso terno dela e o leve tremor em sua voz revelaram sua simpatia abrangente. As palavras eram apenas uma brincadeira. Um sorriso sereno, luminoso como a luz, pairava sobre as marcas do cansaço.
— Ah, perdoe o meu pequeno deslize filosófico, Marozia, minha filha! Na verdade, nossa vida é grandiosa e bela, mesmo com seu canto fúnebre de dor. Todos os tons são necessários, até mesmo aquilo que chamamos de dissonâncias, para compor a música das esferas. É apenas uma questão de ajuste, combinação. Mesmo assim, a nossa Terra, com sua multiplicidade de tons, toca apenas um acorde na poderosa harmonia do Universo.
— Falou como meu querido pai! — exclamou a jovem com terna paixão. — Ele podia ver o brilho delicado de seu sorriso na penumbra, que lutava por atravessar a densa folhagem.
— Não existe lado sombrio quando vemos de forma abrangente, com clareza suficiente; ainda assim… — Ele se interrompeu de repente e a velha sombra voltou a se insinuar em seu rosto. — É o agora e o aqui que mais nos afeta, apesar de toda a nossa bela filosofia. Por uma pequena nota falsa, ou um gesto em falso, todo o ritmo se desfaz: ao menos nesta vida. É preciso haver unidade de objetivo e propósito, harmonia: uma união verdadeira!
Uma alma menos intuitiva que a de Marozia teria questionado, ou em silêncio se espantado com a transição abrupta. Ela compreendia o hábito de seu pai de devanear em tom rítmico. Sabia que sua Mente tivesse mudado rapidamente de opinião e estivesse contemplando outra fase do seu problema. Sabia que ele tivesse problemas a resolver e que, com sua ampla e abrangente simpatia, pudesse compreender muitas coisas que não lhe haviam ocorrido de fato pela via da experiência. Seus devaneios continuaram…
— Podemos teorizar sobre a beleza abstrata, mas são as simples experiências humanas do dia a dia que determinam a ventura ou a desventura. A felicidade ou a miséria doméstica talvez não dependam tanto de condições ideais, mas sim do enlace. Viver em planos diferentes, ter interesses muito distantes é uma tortura inconcebível para aquele que aspira mais alto — e se torna ainda mais intolerável com o passar dos anos! — Ainda assim, ela permaneceu em silêncio.
— Marozia! — Sua voz estava tão vibrante de profunda tristeza que ela se voltou e olhou para ele.
Não podia distinguir-lhe os traços, pois a luz que se filtrava pela mata já era demasiado tênue para revelar mais do que contornos indistintos. — Marozia!
— Sim, querido pai. — Um arrepio percorreu o seu coração.
Ele hesitou. Através da multiplicidade de emoções conflitantes e do esforço multidimensional que o consumia, não conseguia trazer à tona para ela o tema que desejava abordar. Só pôde vacilar fracamente, percebendo, ao pronunciá-las, a fútil inadequação das palavras.
— Espero que, quando chegar o momento, minha filha escolha o verdadeiro companheiro.
— Mas por que preciso escolher, pai? Só preciso de você!
Seu olhar era tão claro e direto quanto o de uma criança.
Ele leu seu coração e soube que ainda estivesse intacto.
Chegaram à Villa e a Sra. Remington estava na varanda para cumprimentar Marozia. Sua cordialidade era tão forçada que se aproximava da efusividade artificial. O semblante do Sr. Remington se carregou de nuvens e ele entendeu o rosto fascinante e sombrio que sorriu por cima do ombro da esposa; Claude Rathburn avançou com graça despreocupada para cumprimentar Marozia.
CAPÍTULO III – PENSAMENTOS-FORMAS DISTORCIDOS
Claude Rathburn era inegavelmente divertido quando se esforçava para agradar. Muitas moças ingênuas, incapazes de enxergar além da máscara exterior, haviam se deixado fascinar pelo sorriso dele. Aos olhos da Sra. Remington, seu principal atrativo residia na posição interessante de herdeiro da fortuna dos Rathburn. Marozia estava irritada com ambos naquela noite, e a alegria inicial de seu retorno ao lar acabou sendo ofuscada. Ela queria passar a noite com o pai e — bem, tentava não ser desrespeitosa com a mãe, nem mesmo em pensamento, mas não havia qualquer laço de afinidade entre elas. Viviam em planos diferentes — muito distantes um do outro. O pai a compreendia; conhecia cada mudança de humor e antecipava cada pensamento dela.
“Por que você o trouxe aqui esta noite?”, perguntou ela à mãe enquanto tirava o chapéu. “É perfeitamente natural que ele queira cumprimentá-la ao chegar em casa. Você sabe que ele é muito apegado a você e eu gostaria que você o tratasse com o respeito que ele merece.”
“Teria sido suficiente, mamãe, que ele tivesse me recebido na estação e me acompanhado até a carruagem ou acenado em despedida enquanto papai e eu fazíamos nosso pequeno passeio pela estrada da colina!”
“Pois brinque com a situação, se quiser, mas logo descobrirá o que significa ficar sem carruagem ou qualquer meio de transporte. Pode parecer divertido agora, mas espere só! Logo perceberá o que as atenções de Claude Rathburn significam para você!”
“Mamãe, elas não têm absolutamente nenhum significado para mim. Eu lhe disse, no ano passado, que não o encorajaria, pois ele não é o tipo de homem que admiro. Papai é o meu ideal e, quando eu encontrar um homem de alma nobre como ele — cuja natureza se harmoniza com a minha, cujos objetivos e propósitos se fundem aos meus —, talvez eu seja capaz de amar. Até lá, quero ser deixada em paz.”
“Imagino que você tenha lido alguns romances tolos, nos quais o amor é apresentado como o fim e o objetivo da existência.”
“Quando você se deparar com a vida real, descobrirá quão pouco isso conta.”
Marozia voltou seu olhar límpido para o rosto da mãe por um instante, e uma profunda tristeza surgiu em seus olhos. “Mamãe, nunca concordaremos nesse ponto; por favor, encerre o assunto.” Em seguida, virou-se para entrar na sala de visitas.
Apesar de seu desapontamento e desagrado, a Sra. Remington sentia um orgulho secreto da graça e da compostura de Marozia. Seu jeito era encantador em sua simplicidade despretensiosa, e sua voz, grave, doce e bem modulada. Não havia nela aquele arrastado afetado que a pseudoaristocracia do vilarejo considerava um sinal de distinção de classe.
“Agora ela vai superar as garotas Watson!”, pensou ela, com um frêmito de euforia. Elas haviam sido o seu padrão de comparação no passado — para grande desgosto de Marozia, que detestava as suas afetações esnobes. Ela enxergava além das poses e fingimentos delas, mas sua mãe via tudo apenas através da névoa de seus próprios pensamentos-formas distorcidos.
Marozia não irradiava aquele brilho nem demonstrava o entusiasmo habitual quando conversava. Tampouco se esforçava minimamente para agradar. A Sra. Remington, contudo, compensava essa postura. Ela estava sempre atenta, pronta para direcionar seu ardor radiante à reserva de Marozia e para neutralizar qualquer sátira sutil a que a jovem pudesse recorrer em um momento crítico. “Nunca se sabe o que Marozia fará ou dirá a seguir”, pensava ela, enquanto circulava Claude Rathburn, zelando pelos interesses imaginários dele com vigilância ciumenta. Seus esforços despertavam o desprezo de Marozia.
“Que ridículas a Mamãe e eu estamos parecendo”, pensou ela, com um desdém crescente. Sabia que a mãe estava ficando irritada com os lampejos esverdeados que lhe faiscavam nos olhos. Mas Marozia já não se importava; nunca se importava quando as pessoas ultrapassavam certo limite. A cada instante, ela se tornava mais provocante em seu desdém insolente — seu desdém por aquelas gentilezas excessivas. Enquanto a mãe sorria radiante, ela se fechou em uma postura gélida e, quando finalmente Claude Rathburn se despediu, seu estado de espírito não era nada promissor para as pretensões dele. Ela sabia o que esperar quando a mãe a seguiu até o quarto.
“Bem, devo dizer, nunca vi uma garota como você!”
Marozia detestava discussões acaloradas. Considerava-as totalmente ineficazes. Ela respondeu calmamente:
“Provavelmente não.”
“Você se vangloria da sua teimosia? Age como se tivesse orgulho do seu jeito peculiar.”
“Não posso dizer que sinto qualquer emoção a respeito disso.”
“Bem, você tratou o Claude com muita grosseria esta noite. Seus comentários sarcásticos foram horríveis: depois de ele ter sido tão paciente com suas ações contrárias. Poucos homens teriam esperado um ano inteiro para uma garota se decidir como ele fez, especialmente quando ele poderia escolher entre elas. Ora, todas estão loucas por ele!”
“Bem, eu desejo de todo o meu coração que ele se desfaça de um pouco dessa bondade angelical e leve todas elas para Salt Lake City e se case com todas! Então eu poderia ter permissão para viver em paz em casa.”
“Marozia Remington!”
“Perdoe-me, mamãe, mas vamos deixar de lado esse assunto angustiante! Prefiro falar do tempo — ou dos bebês da Sra. Peter — de qualquer coisa, na verdade, exceto de Claude Rathburn e de suas ‘vantagens’!”. A última palavra foi dita com uma careta de escárnio.
“Ora, não consigo entender uma moça como você!”
“Concordamos que não existe outra como eu neste planeta, então não é de se admirar que a senhora não me compreenda. Na verdade, nem eu mesma me entendo.”
A Sra. Remington virou-se com raiva e deixou a filha sem um carinho de boa-noite. Marozia compreendeu, então, aquilo que sentira vagamente na infância. Viu a disparidade irremediável entre elas e reconheceu que as separava um abismo de eras. Sabia que a mãe não conseguia enxergar a verdade com um olhar límpido; a visão seria sempre distorcida, turva e confusa pelas aberrações cromáticas e esféricas de sua visão imperfeita. Não se tratava de pontos de vista diferentes ou de paralaxe alterada, mas de lentes distorcidas da alma.
Apesar da pouca idade, Marozia sabia que a harmonia — uma verdadeira harmonia de fundo — seria impossível. Ela percebia que sempre fora um espinho na vida de sua mãe, uma mulher mundana. A primeira vez que se deu conta disso foi em sua infância solitária, num dia triste em que seu cabelo se recusava a formar belos cachos como os de Viola Watson, insistindo, em sua obstinação rebelde, em voltar ao seu estado natural: liso e brilhante como cetim, rente à cabeça. Num acesso de irritação, sua mãe disse que ela bem poderia ser uma indígena, ficar em casa e viver na floresta. Naquele dia, ela foi deixada para trás — uma criança desamparada e solitária —, enquanto a mãe partia sozinha para a viagem que tanto despertara o desejo daquele coração infantil.
Naquele dia, despertou a primeira hostilidade vaga e sombria. Ela subiu em uma cadeira, postou-se diante do espelho sobre uma cômoda alta e encarou sua imagem refletida com um ódio ardente. Bateu com as mãozinhas no cabelo liso e brilhante, num gesto de desprezo desafiador.
“Fique liso, então — não me importo mais — nunca mais vou me importar! Eu odeio você de qualquer jeito, Marozia Remington! Quem dera você não tivesse nascido, juro!”.
Então, ela fugiu para o bosque — lugar ao qual, segundo sua mãe, ela pertencia — e, a sós com as árvores que sussurravam, chorou convulsivamente, extravasando toda a sua revolta apaixonada. Esse foi o início da ruptura. O ponto crítico ocorreu quando ela se recusou a corresponder às atenções ardentes de Claude Rathburn. Entre esses dois extremos de comportamento rebelde, passaram-se anos de convivência tensa, durante os quais nenhuma das duas conseguia se adaptar à mentalidade da outra.
A atitude de Marozia em relação a Claude Rathburn foi mais do que uma decepção para a Sra. Remington. Ela desejava ardentemente que o jovem fosse bem-sucedido em sua corte à filha. Sua ambição voltava-se inteiramente para as aparências grandiosas, os triunfos sociais e a prosperidade material. Em sua cidade natal, New Haven, ela fora uma jovem muito admirada e disputada, e nunca se conformou com o destino que a levara àquele vilarejo primitivo. É verdade que ela era a “senhora da Villa” — a mais bela propriedade rural daquela região do estado — e que, até a maré da fortuna virar contra ele, seu marido, Ralph Remington, fora a figura de maior destaque do condado.
Agora, devido a uma série de reveses, ele não passava de um professor da escola local, e o círculo social dela havia encolhido drasticamente em importância e influência. Para ela, não importava que as dificuldades financeiras decorressem da alma nobre e generosa de seu marido, incapaz de negar ajuda a quem passasse necessidade ou enfrentasse dificuldades.
Ele via a si mesmo como um administrador que guardava, em benefício de outros, a riqueza que lhe chegava às mãos; assinava inúmeras notas promissórias que acabava tendo de pagar e financiava diversos projetos para ajudar o próximo a alcançar seus objetivos. Sua fortuna foi se esvaindo aos poucos, mas ele, com sua paciência serena, sempre acreditou que ela seria restaurada, caso fosse justo que ele a possuísse e utilizasse.
Ele vivia tão imerso em seu belo mundo interior que a prosperidade material não passava de um mero detalhe na jornada da alma. Para a Sra. Remington, porém, ela representava a vida inteira.
Quando Claude Rathburn, filho do empreendedor e capitalista, surgiu no vilarejo, ela saudou sua chegada com alegria secreta, assim como muitas mães ambiciosas que tinham filhas em idade de se casar. Quando ele escolheu Marozia como alvo de suas atenções extremamente lisonjeiras, a Sra. Remington mal conseguiu conter a alegria. Sua Mente fervilhava de planos ambiciosos quando Marozia, com frieza, desferiu o golpe de misericórdia em suas esperanças ao decidir atender ao desejo do pai e passar o ano estudando em Utica.
Seguiu-se uma cena tempestuosa. A Sra. Remington sabia que havia outras moças atraentes entre as conhecidas de Claude e, por isso, tentava manter sua influência sobre ele. Ele era convidado para a Villa sempre que os negócios do pai o traziam à região, e alimentavam-se grandes expectativas quanto ao seu sucesso futuro. Naquela noite, porém, muito do trabalho parecia ter sido arruinado pela atitude de Marozia em relação a ele. Portanto, Marozia precisava ser disciplinada.
CAPÍTULO IV – SUPORTAR AS PROVAÇÕES COM NOBREZA CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO DA ALMA
Marozia afastou cuidadosamente qualquer vestígio de agitação e desceu silenciosamente até a biblioteca. O pai estava sentado na poltrona dele, junto à escrivaninha, e o banquinho dela estava posicionado ao lado dele, como de costume. Ela sabia que ele esperava sua visita antes de dormir; aquele costumava ser o momento que passavam juntos. Ela acomodou-se naturalmente em seu lugar de sempre e encostou o rosto no braço dele.
“Ah, é tão bom estar aqui novamente com o senhor!” Com aquele antigo gesto de carícia — meio solene, mas carregado de uma ternura e de uma melancolia subjacentes —, ele pousou a mão alva e fina sobre a testa dela e enrolou as pequenas mechas rebeldes em seus dedos. O amor que ele nutria por ela continha mais melancolia do que alegria. Seu olhar sempre transcendia as sombras, vendo o rosto dela junto ao rosto de seu ideal, envolto em um mistério doloroso. Ao fitar os olhos profundos dele, a alma dela pressentiu uma tristeza; ela estremeceu levemente enquanto segurava a mão dele e a beijava com ternura. Então, com todo o anseio de seu coração concentrado no olhar expressivo, ela perguntou:
– “Pai, o que foi? O senhor precisa me contar.”
Ele passou a mão pela testa e sorriu — um sorriso sereno e paciente. “Contar o quê, minha filhinha?”
– “Você está sofrendo. Há algum problema e eu preciso saber, pai, pois não suporto a expectativa!”
– “Não pense mais nas minhas pequenas preocupações, querida — especialmente esta noite, a noite do seu retorno. Já é uma grande felicidade tê-la aqui. Não quero estragar tudo trazendo sombras.”
Mesmo assim, ela não estava satisfeita. O fato de haver sombras perturbava sua paz. Com o velho sorriso luminoso e transformador, ele falou de outras coisas. Ela o questionou sobre a Sra. Morton, a esposa do reitor, e ele se tornou eloquente enquanto falava.
– “Pai, ela é tão querida! Estou ansiosa para vê-la novamente!”
– “Ela é a mulher mais nobre que já conheci”, respondeu ele calmamente. Finalmente, disse: “As coisas se ajustarão, Marozia, minha filha. Nossa parte é trabalhar com a Vontade Divina. O que significará para nós, daqui a séculos, as provações que suportamos? Importará mais como as suportamos.”
– “Sim, porque suportá-las com nobreza contribui para o crescimento da alma. Além disso, nenhuma experiência nos chega sem que haja alguma lição para aprendermos — ou que não seja o efeito de alguma causa passada.”. Seu pai expressou surpresa.
– “Aprendi muitas coisas no ano passado, meu querido Pai. Conheci um homem maravilhoso em Utica — o Sr. Arlington — e assisti a algumas de suas aulas. Ele ensina uma filosofia de vida que é convincente em seu apelo tanto ao intelecto quanto ao coração. Chama-se Filosofia Rosacruz. Ela corrobora o que o senhor sempre me ensinou, Pai; apenas correlaciona e sintetiza aquilo que, até então, era fragmentário e desconexo.”
– “Seria Teosofia, minha querida?”
– “É a mesma verdade em que se baseia a Teosofia, mas vai além dela. O Sr. Arlington diz que esse ensinamento é para o povo do ocidente. Ele coloca o Cristo acima de tudo, e esses ensinamentos, chamados de Ensinamentos Rosacruzes, são aceitos como os mais elevados já transmitidos ao nós. É o Cristianismo Esotérico.”
– “Sempre me pareceu que essas verdades elevadas deveriam ser formuladas num sistema que pudesse ser compreendido, elaborado e aplicado como qualquer outro currículo.”
– “É, pai. Há um livro que cobre todo o problema da vida e do destino humano. Trouxe um exemplar para casa comigo e estou ansioso para que você o leia.”
– “Ficarei feliz em fazê-lo, querida. Há muito tempo sinto a necessidade de um livro exatamente como o que você descreve. Em todas as filosofias que estudei, parece haver uma lacuna. Algo estava faltando e no silêncio da minha alma tentei preenchê-lo. Muitas verdades profundas me vieram assim e venho tentando elaborar no livro que estou escrevendo”.
– “Como está indo seu trabalho em psicologia, pai? Estou ansiosa para saber.”
– “Está bem encaminhado, Marozia. Espero que possa ser útil para os estudantes da ciência.”
– Certamente será, querido pai. O que me surpreende é que todos esses ensinamentos maravilhosos que ouvi no último ano parecem encontrar um eco dentro de mim. Eles se alinham com todos os seus ensinamentos e os explicam. O Sr. Arlington me disse que isso acontece porque eu recebi as mesmas verdades em uma vida anterior — ou melhor, nós as recebemos — e o conhecimento delas agora é como uma memória revivida.”
– “Isso parece muito lógico, querida.”
Houve um breve silêncio, durante o qual ambos estavam absortos em pensamentos. Mais tarde, ele acrescentou, como desfecho da conversa:
– “Acima de tudo, mantenhamos imaculada a alma em nosso interior, digna de se reunir à Chama Divina. O pensamento de que estamos construindo um futuro glorioso e de que viveremos eras adiante — éons em algumas daquelas estrelas distantes, brilhando nós mesmos com luz radiante — deve nos dar força para enfrentar qualquer provação, qualquer decepção; sim, qualquer sofrimento, por mais avassalador que seja.”
O orador tomou conta da situação, tornando-se eloquente sob o efeito daquela simpatia calorosa e profunda que ela demonstrava. Ela se iluminou com uma emoção correspondente, à medida que a alma dele triunfava sobre a fraqueza e a dor humanas. Um fogo espiritual brilhava nas profundezas de seu olhar.
– “Nosso pequeno ciclo humano é tão pequeno, tão minúsculo em comparação com o grande destino cósmico que nos espera! Pense, minha filha, a luz de alguns desses sistemas estelares nas profundezas do universo nunca alcançará nosso Planeta enquanto estivermos aqui. A imensidão do espaço, a infinidade da vida, a vastidão dos ciclos astronômicos – o simples pensamento de tudo isso nos dá inspiração para viver nossa pequena vida conturbada! Acalma a turbulência selvagem das nossas tristezas e das nossas paixões humanas. Você se lembra do poema requintado com o anel marcial trovejando em sua doçura lírica que tanto amávamos antigamente, o “Sic itur ad astra”, ou seja: “assim se vai aos astros” ou “é assim que se sobe aos céus”?”.
– “Sim, Pai. Ele nos convoca a nos prepararmos para a batalha. Creio que transmite o ideal de força e coragem.”
– “E força é o de que mais precisamos, minha filha — força e fortaleza. Este poema nos mostra o Caminho e as provações ao longo da jornada. Não nos ilude com falsas esperanças. Se adormecemos, entorpecidos pelas folhas de lótus do prazer egoísta, ele nos desperta, colocando diante de nós a alternativa de integrar a grandiosa procissão de heróis em sua marcha ascendente ou… perder as estrelas.”
Marozia repetiu esse poema em voz baixa, com uma ternura nostálgica em sua voz doce, na qual vibrava uma nova nota de poder:
Sic itur ad astra! Que glória
Contemplar a cúpula luminosa da Terra,
E pensar que, triunfantes sobre a dor,
Encontraremos um lar entre os Planetas!
Voar pelo azul do empíreo
Num voo radiante e arrebatador,
Entoando um hino de júbilo
Sobre tudo o que é alegre e brilhante.
Alto — bem alto acima de cada esfera de ilusão,
Longe — bem longe das guerras rancorosas da vida,
Onde a contenda não chega, nem a confusão;
Oh, como iremos até as estrelas?
Por jardins esmaltados de flores,
Acolhidos entre as árvores mais belas;
Onde a fragrância dos bosques de asfódelos
Espalha perfume em cada brisa.
Por campos de alegria perene,
Onde floresce a felicidade imorredoura,
Onde nenhum fantasma de perigo ou tristeza
Ameaça numa proximidade aterradora.
Onde a preocupação não chega, e nenhuma queixa
Perturba a sensação de serenidade:
Oh, não penses que é assim que viajamos —
Não é assim que vamos às estrelas!
Por bosques cujos recessos labirínticos
Nenhum raio de sol alegre consegue penetrar;
Por desertos cuja solidão pesa
Com silenciosa angústia sobre o coração.
Por vales desconcertantes e sombrios,
Sobre montanhas desoladas, áridas e íngremes,
Onde viajantes de pés doloridos e exaustos
Cumprem uma peregrinação desoladora.
Entre cenas de comoção aterradora,
Como o marinheiro que se agarra aos mastros
Em meio ao caos furioso do oceano!
Assim — é assim que vamos às estrelas!
Sentavam-se em silêncio, tensos pela elevação de pensamentos sublimes e vibrantes com as ondas rítmicas de um arrebatamento poético. Na cadência final, uma nota de triunfo ressoou em sua voz grave e rica, como se ela também, na juventude, visse o Caminho solitário — o Caminho das Dores — e, contudo, olhasse além, com anseio ardente, para a vasta e ilimitada extensão da alma liberta.
Já avançada a noite, Ralph Remington estava sentado à sua escrivaninha, escrevendo como alguém impelido por uma necessidade irresistível. Sua postura denunciava um profundo cansaço. Uma das mãos apoiava-lhe a testa, ocasionalmente passando pelos cabelos — já mesclados de fios grisalhos — que se aglomeravam ao redor dela. Seus dedos abriam-se e fechavam-se em pequenos movimentos nervosos, enquanto o pensamento vibrava em ondas rápidas e cintilantes. Seu rosto era o de um erudito — de um pensador. Contudo, algo mais — algo superior à grandeza intelectual — estava impresso naquela fronte.
O Fogo divino ardia naqueles olhos expressivos e cintilava, como relâmpagos de verão, sobre o rosto móvel e sensível. Era um rosto como aqueles que os pintores adoram estudar e os poetas veem em seus sonhos. Seus pensamentos pareciam inquietos, ao passo que suspiros ocasionais — lentos e profundos, como que vindos das profundezas de uma alma em sofrimento — vibravam no silêncio da tarde. O antigo fogo ardia em seus olhos e lhe corava as faces, mas logo ele parava e pousava a pena, enquanto uma expressão de angústia afastava a luz transfiguradora da inspiração.
Certa vez, ele murmurou:
“Ah, ela nem imagina o pleno alcance disso! Horace Rathburn, seu objetivo, desde aquele dia fatídico, anos atrás, tem sido a minha ruína — e você quase conseguiu. Durma tranquila esta noite, minha filha — e por quantas noites mais for possível… Que Deus a ajude, Marozia, minha pequena Marozia, pois temo que você tenha nascido para sofrer!”
Com um longo suspiro trêmulo, ele voltou ao seu trabalho.
Quando finalmente se levantou da escrivaninha, sentiu-se subitamente fraco e afundou em um sofá. Tudo ficou escuro por um momento, então sua Mente pareceu despertar, ávida em sua rápida investida em direção a realidades invisíveis. Girando pelo espaço com a rapidez do pensamento, parecia ultrapassar Planetas e sóis — incontáveis sóis — permeados por uma única e grande sensação de liberdade infinita, repouso infinito.
Quando o pequeno fragmento do verdadeiro “Eu”, que pode se manifestar através do cérebro físico, retornou a Ralph Remington, a Lua havia surgido e um longo raio de luz espectral pairava sobre o rosto magro e ansioso. Mas uma mudança ocorreu a ele. Havia uma nova memória – uma memória despertada. Ele trouxe de volta à consciência desperta as experiências daquele voo maravilhoso para Mundos superiores.
Então, ele soube que a imortalidade era um fato. Ao abrir os olhos, uma figura estava sentada ao seu lado. Ele esforçou a vista para enxergar o rosto. Era sereno, benevolente, doce, porém forte. Enquanto se perguntava se a forma diante dele era real ou parte de sua visão, uma voz proferiu estas palavras e a figura desvaneceu-se:
– “Não tenha medo de atravessar o fogo! Este é o caminho para a libertação!”
Marozia, em seu quarto no andar de cima, ajoelhou-se junto à janela aberta e olhou para as estrelas, sussurrando com os lábios trêmulos:
– “Pai, querido Pai, se eu pudesse sofrer por você! Eu mergulharia em um mundo inteiro de miséria e sorriria acima da dor, se eu pudesse, se eu pudesse!”.
CAPÍTULO V – A FILOSOFIA ROSACRUZ EXPLICA TODOS ESSES PROBLEMAS DA VIDA DE FORMA MUITO CLARA E SATISFATÓRIA
Na manhã seguinte ao retorno de Marozia para casa, ela e a Sra. Morton estavam sentadas na biblioteca da Villa, conversando intimamente. Havia uma terna solicitude na maneira como a Sra. Morton tratava a jovem. Ela sabia que nuvens sombrias se acumulavam ao redor dela, mas não podia alertá-la. Ralph Remington, com ou sem sabedoria, desejava que sua filha permanecesse alheia a qualquer problema que os ameaçasse, acreditando — com um otimismo comovente — que a situação ainda poderia ser evitada, mesmo no último instante. “Assim, será uma dor a menos para ela”, raciocinava ele. “Não me importo com as cicatrizes da batalha, mas elas não combinam com o rosto belo da minha filha.”
A Sra. Morton, que via em Ralph Remington apenas virtudes e grandeza, não concordava com ele nesse ponto. Ela conhecia o poder benéfico do sofrimento. Conhecia a beleza que ele confere — mesmo aos jovens — quando suportado com nobreza. Conhecia a têmpera da alma de Marozia. Perita em ler a natureza humana, ela sabia que qualquer sofrimento que tocasse a vida de sua amiga jamais degeneraria em algo egoísta; o primeiro pensamento dela seria sempre para com os outros. Ciente do valor de tais experiências de belo altruísmo, ela não ousava impedir uma alma de alcançar sua elevada herança apenas para poupá-la de algumas dores em sua ascensão. Após abordarem diversos assuntos, a Sra. Morton perguntou:
– “A propósito, querida, você se lembra da Sarah Thomas, que veio morar aqui vinda de Cherry Valley pouco antes de você partir?”
– “Sim, lembro-me muito bem de como ela agiu na primeira vez que nos encontramos. Foi no último dia de aula; demos de cara uma com a outra, inesperadamente, na trilha do prado, perto daquela pedra grande. Eu estava perdida em um dos meus ‘devaneios’ quando ela passou caminhando devagar. Ela murmurava algo para si mesma e, quando me levantei da pedra e ficamos frente a frente, ela parecia assustada e com um ar meio selvagem. Imagino que ela tenha me confundido com o fantasma de uma irmã (ela realmente tinha esse ar), mas não me recebeu nada bem.”
– “O que ela fez?”
– “Caiu de cabeça na grama do prado em seus esforços frenéticos para escapar. Eu sorri. Não consegui evitar, Sra. Morton, ela parecia tão perfeitamente ridícula. Sim, ela viu o sorriso quando lançou um olhar rápido para trás depois de se levantar e colocar de volta seu chapéu de sol esfarrapado na cabeça. Ela não disse nada, mas parecia indescritível.”
Um sorriso de pena divertida pairava nos lábios doces da Sra. Morton.
– “Ela é tímida, coitada, e sua posição desajeitada aumentava sua sensibilidade.”
– “Sim, eu realmente senti pena dela e tentei me redimir depois, quando nos encontramos no mesmo lugar, mas ela rejeitou todas as minhas tentativas e me deixou lá, um penitente solitário e abatido. Ela nunca me perdoou pelo sorriso infeliz.”
– “Não”.
– “O caso dela é triste, minha cara. O pai, um homem preguiçoso e desleixado, da pior espécie, insistiu em colocá-la para trabalhar na lavoura. Ela ansiava por instrução, coitada, para poder lecionar, mas a ignorância brutal mostrou-se intransigente. No dia seguinte, ela foi trabalhar na fazenda da Sra. Gregory”.
– “Sinto muito por ela, mas vejo esses casos sob uma perspectiva completamente diferente desde que estudei a Filosofia Rosacruz. Ela explica todos esses problemas da vida de forma muito clara e satisfatória. Deve ter havido uma causa antecedente em alguma vida passada de Sarah para produzir resultados tão angustiantes.”
– “Sim, minha querida, concordo plenamente com você. Há muito tempo acredito que somente a doutrina da reencarnação poderia explicar nossos destinos intrincados.”
A expressão de Marozia revelava sua surpresa.
— Sim, minha querida; e talvez a surpreenda ainda mais saber que o Reitor também acredita nisso e o ensina indiretamente. Ele diz que, se a Igreja compreendesse sua verdadeira herança, valorizaria a obra de Cristo como nunca antes. Diz também que essa ideia começa a ser amplamente aceita pelo clero, especialmente no Ocidente. Era a antiga doutrina esotérica da Igreja que, durante vários séculos, deixou de fazer parte do ensino público.
— “E sabe por que, Sra. Morton? Havia uma razão para isso, que o Sr. Arlington explicou em suas aulas. Era necessário que a Humanidade conquistasse o Mundo material e, também, se individualizasse plenamente e desenvolvesse a autoconsciência. O ser humano não teria o incentivo para aproveitar ao máximo cada vida se tivesse conservado a memória do renascimento. Teria se tornado indolente e sonhador — como alguns dos povos orientais que ainda preservam esse conhecimento. Eles também serão obrigados a descer mais profundamente na materialidade, visto que estão atrás de nós na evolução. Ele diz que eles renascerão no mundo ocidental e, assim, aprenderão as lições que lhes restam. Chegamos ao limite da separatividade e precisamos cultivar o altruísmo e despertar os poderes espirituais, ou então nos cristalizaremos. A nova Raça está se formando — ou, pelo menos, é o alvorecer de sua formação — e chegou o momento de difundir publicamente o antigo ensinamento esotérico.”
— “Isso é muito interessante, querida, e estou ansiosa para aprofundar meu conhecimento nessa Filosofia Rosacruz.”
— “Ela nunca a decepcionará, Sra. Morton. Quanto mais se estuda, mais se percebe sua profundidade e vastidão. Sua lógica é tão convincente que atrai mentes eruditas, e ainda assim é tão simples que uma criança consegue compreender seus princípios fundamentais.”
— “Sempre uma marca da verdade, Marozia.”
— “Voltando a falar de Sarah Thomas… Um pequeno incidente ocorreu logo depois, quando passei por ela na estrada da colina. Ela estava parada junto ao portão da Sra. Gregory, resmungando e agitando a mão erguida em tom de desafio — aparentemente contra mim. Ouvi quando ela disse, olhando para mim com uma expressão de intensa amargura: ‘A sua vez vai chegar’.”
— “Coitada, sem dúvida ela estava com vontade de brigar com o mundo naquele dia!”
— “Sim, agora eu entendo, pois meu pai dizia que ela era uma aluna brilhante. Ser privada da educação daquela maneira cruel é, certamente, algo comovente. Seu rosto apático e sem vida, bem como sua aparência desajeitada, despertavam, sem dúvida, compaixão.”
— “Senti muita pena dela em nosso primeiro encontro, depois que meu senso tolo de ridículo passou.”
— “Ela mudou muito de aparência desde aquele dia.”
— “Espero que seja para melhor. Certamente, havia espaço para isso!” A Sra. Morton olhou para o rosto de Marozia e falou com sinceridade direta:
— “Acredito que ela precisa da influência do seu caráter e personalidade em sua pobre vida distorcida, minha querida!”
— “Ah, mas ela congelou minha simpatia na segunda vez que nos encontramos. O olhar que ela me lançou ao se virar e sair apressadamente era uma mistura complexa de absinto e fel.”
A Sra. Morton surpreendeu-se com o tom e as palavras de Marozia. Parecia haver uma leve dissonância, interna ou externa — talvez entre os dois extremos de sua polaridade.
A bela luminosidade de outrora, que irradiava dos olhos e do rosto para outros corações, estava agora sob uma leve sombra. Percebia-se maior autoconfiança e independência em sua franqueza direta e aberta, mas havia também um matiz de sátira refinada — sinal, em alguém de seu temperamento, de inquietação ou de ideais não realizados.
O que ela teria adquirido ao longo do último ano? Que influências estariam atuando em sua vida interior? A Sra. Morton não tinha conhecimento de outras experiências capazes de provocar tal mudança.
Ela compreendia a falta de harmonia entre mãe e filha, mas isso apenas realçava ainda mais a força e a doçura do caráter de Marozia. Não conseguia, contudo, compreender plenamente a nova nuance de sua natureza versátil.
A Sra. Morton possuía a intuição aguçada e a sensibilidade refinada que são características marcantes de mulheres de natureza elevada. Ela compreendeu a Personalidade de Marozia logo no primeiro encontro, dois anos antes, quando seu marido assumiu o cargo de reitor da pequena igreja gótica. Viu nela um contraste revigorante em relação às moças comuns. Sua Mente era tão equilibrada e lúcida, tão brilhante e original, que ela adorava sua companhia. A diferença de idade perdia a importância, pois a Sra. Morton conservava o coração e o semblante de uma eterna juventude.
Sabia que a Mente de Marozia estava totalmente livre de quaisquer tendências mórbidas; contudo, percebia que a própria inclinação de idealizar tudo o que tocava sua vida poderia acarretar inúmeras decepções no futuro. Esse é, invariavelmente, o destino do idealista, pois até as pessoas e coisas mais banais são transfiguradas no alambique de sua imaginação rica e vívida. Segue-se, então, o despertar, quando belos vínculos perdem o encanto e parecem vulgares e superficiais à luz da realidade cotidiana. Nada pode evitar a dor e o sofrimento do idealista, mas a alma pode sobreviver às suas ilusões e transformá-las em força e fibra — se assim o desejar.
A Sra. Morton sentia que Marozia sempre faria de suas adversidades “degraus”. Contudo, apesar de todo o seu belo altruísmo — que constantemente se voltava para ajudar e elevar o próximo —, ela estava ciente das cruéis disparidades da vida. Sabia como, às vezes, as almas submergem nas águas sombrias e — aqui — jamais voltam à tona.
Além do encanto que ela reconhecia na Personalidade de Marozia, havia um outro, misterioso, que a ligava a tempos passados. Ela conhecera Ralph Remington na juventude, quando ele era estudante em Yale. Ao vê-lo novamente, após o transcurso de muitos anos, seu rosto pálido e doce tornou-se um pouco mais pálido. A memória trazia de volta aqueles dias dourados, como um sonho.
Conhecer Ralph Remington fora, por si só, algo que elevava o espírito. Depois que a primeira onda avassaladora de sua mágoa secreta passou, deixou em seu rosto sereno uma doçura e uma calma benfazejas. Agora, ela via a marca do caráter nobre de Ralph Remington no rosto de Marozia e a amava com uma ternura ainda mais profunda.
Suas palavras seguintes foram ditas com certa hesitação:
— “Sarah Thomas tornou-se uma moça muito bonita, mas… eu realmente não sei o que pensar a respeito. Às vezes, sinto que agimos mal ao não manter um contato mais próximo com ela. Acho que ela deveria ter ido com a mãe!” Então, a voz doce da Sra. Morton tornou-se suplicante.
— “Você acha que conseguiria vê-la e conhecê-la?”
— “Suponho que eu conseguiria…, mas de que adiantaria, querida Sra. Morton?”
— “Pode ser de grande valia para uma natureza profunda e rica estender a mão através do silêncio que separa as almas — tocar, com calor humano, uma vida solitária e reprimida”.
O rosto de Marozia iluminou-se à medida que a artista em seu interior reagia às palavras e à Personalidade radiantes da Sra. Morton. Contudo, ela não cederia — pelo menos não ainda. Respondeu com um tom de indagação:
— “Ainda assim, admitindo-se as mais elevadas intenções, será sensato tentar estabelecer um ponto de encontro entre almas que não gravitam naturalmente uma em direção à outra?”
— “Quer dizer que, mesmo que estejam no mesmo plano, se houver uma incompatibilidade química, haverá repulsão e desarmonia — e que, se estiverem em planos diferentes, aquele que se encontra em um estágio inferior jamais poderia compreender ou assimilar, restando à natureza mais elevada a humilhação da derrota? Sei, meu bem, que propósitos altruístas são facilmente mal interpretados e retornam distorcidos para ferir o coração sensível. Ainda assim, devemos seguir o caminho ascendente, não importam os espinhos e as sarças que possamos encontrar.”
Marozia sorriu, um sorriso pequeno e peculiar, meio engraçado, meio patético.
— “Ainda estou cética quanto a essa questão. Na verdade, me importo cada vez menos em ‘conhecer’ as pessoas. Quem realmente conhece alguém, a menos que suas almas estejam unidas? Não achei as pessoas que conheci até agora muito amáveis ou que valessem a pena conhecer, e sem dúvida elas têm a mesma impressão de mim. Prefiro o Pai e a solidão.”
— “Mas as outras pessoas – aquelas que não sabem usar nem mesmo a solidão – precisam de ajuda, minha querida!”
— “Não acho que elas queiram ser ajudadas. Geralmente, elas se ressentem de qualquer esforço benéfico.”
— “Nem todos; e devemos prosseguir com nossos esforços, ou nossas próprias almas se degenerarão. Ninguém está tão morto quanto aqueles que são egocêntricos; que veem a vida sob uma ótica limitada; que interpretam mal as motivações alheias ao analisá-las a partir do centro distorcido de sua própria consciência ignóbil. Enganamo-nos tão facilmente. Nossas motivações devem elevar-se a um patamar superior àquele sugerido pela minha alternativa egoísta. Não devemos ajudar apenas para promover o crescimento de nossa própria alma, mas porque amamos e não podemos deixar de empreender esse esforço. Em última análise, apenas o altruísmo mais puro é o que conta.”
Houve um silêncio momentâneo; então, o rosto de Marozia iluminou-se, e sua alma viva e fervorosa transpareceu através de um humor levemente zombeteiro.
— “Tive um novo pensamento ontem à noite – e sobrevivi à experiência. Papai foi o responsável por implantá-lo em minhas células cerebrais.” A Sra. Morton sorriu ansiosamente.
— “Um novo pensamento?”
— “Bem, pelo menos para mim foi novo – embora quem possa dizer quantas vezes ele já se manifestou?”
— “Conte-me! Estou ansiosa por algo novo!”
— “Não, pois consigo detectar o sorriso por trás das palavras.”
— “Mesmo assim, conte-me, Marozia. O sorriso desapareceu completamente, deixando apenas um desejo sincero de conhecer seus belos pensamentos.”
— “O prefácio é mais importante do que o pensamento, pois o prefácio era do Papai. Vou lhe contar essa parte.”
Havia um toque da antiga vivacidade no jeito de Marozia. O rosto da Sra. Morton iluminou-se com um belo resplendor.
— “Conte-nos o prefácio, sem dúvida”, ela pediu.
— “Bem, meu pai disse algo que soou um tanto pouco ortodoxo do ponto de vista literário. Eu vinha insistindo para que ele deixasse seu gênio se afirmar, e ele declarou que o esforço e a afirmação banalizam as verdadeiras glórias. Perguntei-lhe para que fim fora dado o Fogo divino, e ele respondeu: ‘O Fogo divino não permite a afirmação. Ele realiza sua obra — sua obra de silenciosa iluminação — e consome o eu insignificante. Há uma tentativa excessiva de expressão nesta época. É grosseiro tagarelar. Mesmo a vívida pintura com palavras de Ruskin não produziu efeito maior — se é que se buscava algum efeito — do que a descrição que Tom Gregory fez de sua horta de batatas. Tanto as glórias venezianas quanto a horta de batatas eram, em igual medida, completas — cada uma à sua maneira — sem a poesia ou a prosa rudimentar da descrição’.”
— “Mas outros olhos e Mentes podem não ver”, objetei.
— “Ah, agora você toca na verdadeira questão, no cerne do assunto”, respondeu ele. “Quando me afirmo por mim mesmo, torno-me um egoísta superficial – um mero tagarela, tão desprezível no papel mais importante como no mais humilde. É o fazer pelos outros que nos salva”.
A respiração da Sra. Morton ficou rápida. “E seu pensamento complementar, meu caro?”
— “Apenas isto. Perguntei-me se os nossos esforços no sentido de uma revelação mútua não acabam, na verdade, por menosprezar as nossas próprias experiências e as dos outros. Podemos até sentir certo prazer na troca de ideias, mas será que, graças a esse esforço, passamos realmente a conhecer-nos melhor? E — se o conseguíssemos — o que isso significaria? O Ego nunca se revela nem se expressa. Ele está aprisionado em recônditos mais profundos do que os claustros da alma — uma entidade muda e imóvel, repleta de Fogo vivo; ele próprio um Fogo vivo —, ao passo que o Impostor se veste com as suas roupagens, ocupa o trono e faz-se ouvir pelos outros. É o “eu” fictício que encontra outros “eus” fictícios. Como um fantasma a encontrar fantasmas!”
O pensamento de Marozia revelava os perigos e as glórias que aguardavam uma mente profundamente analítica e uma natureza emocional rica. Revelava à Sra. Morton capacidades que podiam alcançar qualquer altura ou de lançar a alma nas profundezas do desespero. Tanto as alturas quanto as profundezas significariam muito mais para tal espírito do que para os outros.
— Suponho que você me lembraria da máxima do papai: “quando me afirmo em prol de mim mesma, eu me degrado” e “é o agir em favor dos outros que nos salva” — continuou Marozia, como se lesse o pensamento não verbalizado da Sra. Morton. — Ainda assim, será sensato sacrificar a verdade e ultrajar o “Eu” verdadeiro, mesmo que seja para sustentar uma teoria nobre e elevada?
— “Mas, minha querida, embora a ideia seja boa e verdadeira, não seria prudente colocá-la em prática!”
— “Por que não, se é verdade?”, perguntou Marozia com uma franqueza surpreendente.
— “Porque a verdade pode ser elevada demais e sublime demais para este Planeta em seu atual estágio de desenvolvimento.”
Havia um brilho profundo nos olhos da Sra. Morton. Marozia acrescentou rapidamente:
— “Imagino que você perguntaria o que seria de amizades como a nossa, mas não creio que elas possam ser incluídas. O pensamento simplesmente responde ao pensamento, e nenhuma ofensa é feita ao “Eu” verdadeiro. Na verdade, é o “Eu” verdadeiro que fala quando estamos juntos. A nossa é uma amizade em seu estado ideal — uma amizade que perdura desde eras passadas.”. Um sorriso radiante surgiu entre elas.
— “Compreendo perfeitamente, querida; no entanto, não devemos nos fechar em nosso mundo ideal e permitir que os outros “eus” ao nosso redor se sintam solitários. Nem mesmo os superficiais, egoístas e vulgares. Devemos ajudá-los a ver o lado mais elevado da vida. Quanto mais baixo o nível em que se encontram, maior a necessidade de estendermos a mão. E esse gesto deve ser de fato um ‘estender a mão’, sem jamais transparecer qualquer atitude de quem se inclina ‘de cima para baixo’. A Luz interior é a mesma em todos, e devemos procurar ajudá-la a brilhar.”
— “Sim, eu sei que a Luz é a mesma em todos. Os acréscimos externos pertencem à Personalidade, que é transitória. Podemos não ser capazes de admirá-la, mas é com ela que entramos em contato nos outros!”
— “Eu sei, minha querida, mas precisamos ser capazes de alcançar o “Eu” verdadeiro através disso – precisamos aprender a fazer isso.”
— “Mas como fazer isso? Ah, essa é a parte difícil!”.
— “Tente expandir sua consciência, querida Marozia! Tente ver a Vida Divina por trás da outra Personalidade — por trás daquilo que a repele. Tente imaginar essa Vida Única circulando por todo o Universo, expressando-se através das mais variadas máscaras: ora através da sua, ora através da minha, e também através daquela que você não admira nem um pouco, nem pela qual se sente atraída. A máscara não tem grande importância. O que conta é o Espírito.”
— “Mas e se o Espírito for sufocado por um desejo elemental? Devemos amar isso?”
— “Devemos conduzir todas as coisas à bondade por meio do amor. Esse é, contudo, um caso extremo, resultante de um mal persistente e de desejos egoístas. Nesses casos, o Espírito pode ser forçado a abandonar seu veículo, mas é raro encontrar uma Personalidade desprovida de qualquer vestígio da Vida Única em seu interior. Esse vestígio pode permanecer temporariamente submerso sob a massa de detritos acumulada pelo desejo egoísta. Devemos tentar resgatá-lo — redescobrir o tesouro perdido.”
— “Mas, deixando de lado os casos extremos — será sensato, nesta fase de nossa evolução, desnudarmos nossas almas uns aos outros? Sei que, um dia, estaremos alma com alma — e anseio de todo o coração por esse dia feliz —, mas agora, enquanto a Personalidade é tão dominante em quase todos nós… será sensato?”
— “Algumas de nossas concepções de verdade podem pertencer ao “eu” pessoal e, se tentássemos vivenciá-las, nos tornaríamos auto-reprimidos e egocêntricos. Devemos sempre discernir.”
Marozia sorriu – o antigo sorriso irônico e brilhante.
— “Ah, os velhos enigmas desconcertantes que costumavam atormentar minha infância! Verdade em vislumbres parciais – em doses homeopáticas! Discrepâncias entre o real e o ideal! Vemos uma verdade – parece bela, mas quando tentamos vivenciá-la, pronto! – Ela se torna egoísmo mascarado sob o disfarce da verdade!”
— “Engrenagens dentro de engrenagens!” — respondeu a Sra. Morton, com uma compreensão luminosa e cheia de empatia.
Ela sabia a que alturas a jovem havia chegado para nutrir tais pensamentos, mas vislumbrava alturas ainda maiores — horizontes distantes, radiantes de luz em vez de sombras púrpuras — e ansiava por revelá-los àquela alma elevada que tinha diante de si. A Sra. Morton percebia a verdade por trás da verdade — a alma da alma —, um conhecimento que só advém da profundidade e da amplitude de visão, do desabrochar interior. Ao levantar-se para partir, tomou as mãos de Marozia nas suas e disse, com profunda sinceridade:
— “Marozia, minha querida, existe uma meia-verdade que parece absolutamente encantadora, mas, logo além dela, aguarda outra — completa, abrangente e inclusiva —, que preenche o círculo do universo. Você contemplou a meia-verdade. Não se detenha aí! Há alturas além de outras alturas. Meias-verdades jamais podem ser conciliadas. A verdade perfeita não reserva decepções nem admite discrepâncias. A Mente da filha de Ralph Remington é nobre e elevada demais para se contentar com horizontes limitados!”
Resposta: Sim. Muitas vezes, uma mãe que faleceu recentemente zela pelos seus filhos pequenos por um longo tempo, e há casos registrados em que mães salvaram seus bebês de perigos. Embora não soubessem conscientemente como se materializar, o amor pelos pequeninos e o intenso medo pela segurança deles fizeram com que as mães, nesses casos, atraíssem para si o material para que pudessem ser vistas pelas crianças. Aqueles que chamamos de mortos, geralmente, não se afastam da casa onde viveram, até muito tempo depois do funeral. Permanecem nos cômodos familiares e circulam entre nós, embora não os vejamos com a visão física. É claro, quando chega a hora de irem para o Primeiro Céu, não permanecem mais nas nossas casas, mas as visitam frequentemente. Quando entram no Segundo Céu, já não têm mais consciência dessa esfera física, no sentido de terem tidos lares, amigos ou parentes; devem então ser vistos mais como Forças da Natureza, enquanto estão no Segundo Céu, pois trabalham sobre a Terra e a Humanidade, da mesma maneira que as Forças da Natureza não assumem a forma humana.
Assim, é perfeitamente natural que eles velem por seus entes queridos por muito tempo após o falecimento, e muitas vezes foi observado por pessoas presentes no falecimento de uma mãe cujos filhos haviam falecido, alguns anos antes, que no momento da morte ela via os filhos à sua volta e exclamava: “Ora, ali estão o Joãozinho, e como ele cresceu!”, e assim por diante. As pessoas presentes ao redor da cama, provavelmente pensariam que se tratava de uma alucinação, mas não é, e se nota que um certo fenômeno sempre acompanha essas visões, a saber, quando uma pessoa morre, uma escuridão a envolve, que ela sente descendo sobre si. Muitas pessoas falecem sem voltar a ver o Mundo Físico. Essa é a transição de nossas vibrações e luz para as vibrações do Mundo do Desejo, e é semelhante à escuridão que se estendeu sobre a Terra por ocasião da crucificação. Com outras pessoas acontece que a escuridão se dissipa após um momento e, então, a pessoa se torna Clarividente, vendo tanto o Mundo Físico presente como o Mundo do Desejo, e lá, é claro, aparecem os entes queridos, que foram atraídos pela morte iminente, que é um nascimento nos Mundos espirituais.
Assim, podemos dizer que os mortos se interessam pelo nosso bem-estar por um longo período após terem morrido, mas é preciso lembrar que não há poder transformador na morte; que ela não lhes confere nenhuma habilidade especial para cuidar de nós, e que eles não têm meios de realmente influenciar nossos assuntos, de forma que não é exatamente correto considerá-los os nossos “anjos guardiões”. Eles são meramente espectadores interessados, com exceção de alguns poucos casos específicos em que um amor intenso os capacita a prestar algum pequeno serviço em caso de grande necessidade. Esse serviço, porém, nunca assumiria a forma de nos enriquecer ou qualquer coisa desse gênero, mas seria como um aviso de perigo ou algo parecido.
(Pergunta nº 64 do Livro: Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Não importa quão pequeno ou pouco importante que sejamos, alguém tem necessidade de nossa ajuda. Não importa quão ignorante possamos ser, ou o pouco talento que tenhamos, ali, muito perto de nós, há um serviço que só nós podemos prestar. A cada um de nós foi dado oportunidades para servir; não as percamos por nosso descuido ou indiferença. Não as percamos por esperar grandes oportunidades a realizar. O serviço que achamos pequeno e sem importância, pode produzir o maior bem. Basta um instante para estender a mão que pode ajudar a alguém a encontrar seu caminho ou uma estrela a qual seguir. Uma só palavra de alento ou de compreensão pode levantar a uma alma do mais profundo desespero e ajudá-lo a começar uma vida nova.
Quando se nos dá a oportunidade de servir, não desperdicemos tão preciosa ocasião em perguntarmos: “Me trará alguma benção?”; “que proveito terá nisso?”; “meu prazer antecipado diminuirá seu valor?”; “requererá muito esforço?”; “por que não deixar para que outra pessoa o faça?”; “poderei deixar para amanhã?”, e outras mil e uma desculpas. É muito melhor, sem perder tempo, dirigirmos a palavra ou estendermos a mão a quem necessita, com alegria e gratidão pela oportunidade que se nos apresenta de fazer um serviço, e esse é um de nossos privilégios, o de Servir.
“Tudo o que fizerdes em favor do menor de meus irmãos, a Mim o haveis feito” (Mt 25:40), ensinou-nos Cristo. Demonstraremos nosso amor por Ele, amando nossos irmãos e nossas irmãs. Servimo-Lo melhor, servindo nossos irmãos e nossas irmãs. Adoramo-Lo melhor quando oferecemos em Seu nome, nosso serviço desinteressado.
Foi-nos ensinado que “o serviço amoroso e desinteressado é o caminho mais curto, mais seguro e o mais agradável que nos conduz a Deus“. Isto se refere ao serviço que não se executa com fim de se obter lucros.
O serviço desinteressado tem sua fonte de Amor, o amor a nosso Pai e aos nossos irmãos e as nossas irmãs.
O progresso espiritual nos vem pelo serviço, porém este serviço nunca será realizado se ficarmos parados na metade do caminho. Esqueçamos nossas limitações e as nossas faltas.
Há sempre um serviço que podemos fazer melhor do que qualquer outro do mundo. Façamo-lo em nome de Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – maio/1981, Fraternidade Rosacruz – SP)
O Mestre, pela boca da solidão, fala muitas vezes à alma cansada da fatuidade do mundo e ansiosa por nova vida. E diz-lhe: “Não escutes as vozes enganosas que vem de fora. Vem para mim no retiro do teu coração e terás o verdadeiro conhecimento. Não penses deste modo: se eu tivesse num ermo, num vale profundo, numa paragem solitária, poderia realmente encontrar-me, poderia conhecer minha verdadeira vocação”.
“Não é preciso que te afaste para me encontrar. Também habito na tua consciência tranquila, na tua mente sossegada, na tua alma desprendida, nos teus sentidos sabiamente dominados. Eu, a perfeita solidão.
Se me buscas, podes encontrar-me em tua casa, no teu lugar de trabalho, entre o ruído da cidade, entre a confusão dos indivíduos. E, então, quando recolhida em ti, atingires tua íntima cela ouvirá a Voz Divina. Saberás que teu primeiro dever é transformar-te e esquecer o passado, bom ou mau, deleitoso ou amargurado, seus triunfos e fracassos”.
A alma, ao receber as sugestões destes belos pensamentos, acende-se em entusiasmo. Faz promessas fáceis e precipitadas. A doçura desses momentos já lhe parece o fim do Caminho, quando não é mais que mínima prenda da promessa divina.
No seu encanto, clama, suspira, geme e canta. E diz: “Conduze-me, Senhor, por este brilhante caminho de luz. Abre meus olhos para que veja a Tua beleza. Não te ocultes jamais da minha vista. Transforma a minha vida para que me concentre na única vida, a Tua, Senhor. Que se queime este corpo antigo, para vestir um traje de glória. Tenho trocado tantas vezes de bandeira! Quero, agora, esta nova bandeira, a que é feita de castidade, de renúncias e de sacrifícios. Senhor, por Ti desejaria sofrer todas as provas, todas as dores, padecer mil mortes, passar por mil suplícios, conhecer o martírio por que passaram os Teus servidores mais fiéis, só para ser digno do Teu amor!
Que se acenda já a chama da minha alma e, quando estiver em flama, que abarque todo o meu ser. Senhor não me deixe agora. Não posso estar só e nem a minha vida é vida sem Ti. Não vês, Sumo Bem, que tenho fome e sede de Ti, cada vez mais ardentes? Já comecei a buscar-Te e não posso mais deter-me, como a flecha que foi arremessada. Fala Senhor. Que queres que eu faça? Que queres de mim? Dize-me, para cumprir somente a Tua vontade”.
Pobre alma! Quanto pede e quanto promete! Não sabe como são duros os espinhos e cortantes as pedras que há de encontrar no Caminho!
O Divino Mestre, que a observa com suma ternura, cobre os olhos com as santas mãos, compadecidamente, ao ver, no porvir, todas as suas quedas. Quantas vezes terá que levantá-la; quantas vezes terão de curar-lhe as feridas e afastar de sua mente as nuvens de desencanto e do desespero!
Então, o Mestre lhe fala: “Não te levantes, ainda, oh alma, em grandes voos. Não prometas maravilhas nem aspires aos altos cumes da santidade. Contenta-te em viver bem o teu dia e em santificar as pequenas obras diárias. Segue-Me com submissão e simplicidade. Modifica a tua vida sem que nada ou ninguém o note e mantém-te exatamente como antes ainda que teu íntimo esteja completamente transformado.
Comece a procurar-Me por toda a parte, todo o dia e sempre. Que teus olhos Me vejam no rosto de todos os seres humanos e, como um véu, suspenso ante todas as coisas. Vê-Me no rico e no pobre, na criança e no ancião, no santo e no pecador, na flor e no céu, no dia e na noite, no trabalho que te desgosta e na festa que te alegra. Todas as coisas têm alguma formosura quando são miradas com olhos serenos, desapaixonados, vistas lá do fundo da solidão interior, da secreta morada.
Depois, oh alma, quando a compaixão vibrar em ti e te faça doce e mansa, sossegada e discreta, compreensiva e prudente; quando a dor alheia arder em tua própria carne – então, Me verás. Une-te com a dor, une-te ao Amor, une-te ao saber e à ação – e Me encontrarás. Porém, mais uma vez te recomendo: enquanto esperas, simplifica a tua existência, dia a dia, hora a hora; torna-a cada vez mais suave e mais humilde. Nunca digas: ‘dai-me!’. Que a tua palavra de ordem seja sempre: ‘Tome!’. Compreendes meu filho? Compreendes minha filha?”.
A alma ficou serena e tranquila. Aos arranques do entusiasmo, sucederam, em seu coração, a serenidade e a paz profunda. Tendo atingido o umbral da solidão e ouvido a voz do Mestre, começa o seu Caminho. Reina o silêncio em volta. Esta é a hora eterna.
E o Mestre? É o Cristo Interno que temos dentro de cada um de nós e que despertamos quando decidimos trilhar o Caminho da Santidade ou o Caminho de Preparação e Iniciação Rosacruz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – agosto/1982, Fraternidade Rosacruz – SP)