Encontramos suas raízes entre a devota ordem dos Essênios, ao tempo de Cristo. Não são mencionados nos Evangelhos porque foram precisamente eles que dirigiram sua redação. Os manuscritos do Mar Morto, descobertos desde 1947, em aparente acaso, às margens do Mar do mesmo nome, nas cercanias do soterrado Mosteiro de Qumran, mostram inequívoca relação daquela Ordem com os Evangelhos, principalmente com o de S. João Evangelista e as cartas de S. Paulo. Efetivamente, José e Maria, pais de Jesus; Zacharias e Izabel, pais de João Batista; Jesus, João Batista e os seguidores de ambos, todos foram Essênios.
Lázaro, Iniciado por Cristo na simbólica passagem de sua ressurreição, renasceu depois como Christian Rosenkreuz, fundador da Ordem Rosacruz. Jesus foi educado pelos Essênios e com eles privou no período omitido pelos Evangelhos, dos onze aos vinte e nove anos, preparando-se em Qumran e posteriormente na Pérsia (onde havia a mais completa biblioteca daqueles tempos), para a missão transcendental de sua União a Cristo, no batismo do Jordão. As passagens principais da vida de Cristo-Jesus são “passos” Iniciático do desenvolvimento de cada Aspirante à vida superior. Com esse fim os Evangelhos foram escritos: como fórmulas de Iniciação, sob a singela aparência de narrativa a respeito da vida de Cristo-Jesus.
Essas nove Iniciações, pela ordem, são: Batismo, Tentação, Transfiguração, Última Ceia, Lavapés, Getsemani, Estigmatização, Crucificação e Ressurreição.
Assim a Fraternidade Rosacruz visa a uma grandiosa finalidade e encaminha os Aspirantes à vida superior vencedores a ilimitado desenvolvimento posterior para serviço do mundo. Não constitui uma confissão religiosa, no sentido comum do termo, porque não é dogmática; todavia no mais lato sentido, é uma escola de religiosidade, que oferece os mais eficientes meios de nos religar a Deus, através de Seu Filho, o Verdadeiro Caminho.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – março/1979 – Fraternidade Rosacruz –SP)
Resposta: Embora existam várias maneiras de demonstrar que a morte não seja o fim de tudo, tememos que nenhum argumento seja capaz de convencer alguém que não esteja disposto a aceitar a verdade. Você se lembra da parábola de Cristo sobre o homem rico e Lázaro, que morreram e, quando o homem rico desejou que Lázaro fosse autorizado a voltar dos mortos para avisar seus irmãos, Cristo disse: “Se não ouvem Moisés e os profetas, não acreditarão ainda que alguém ressuscite entre os mortos”[1]?
E isso é exatamente o que acontece. Já ouvimos alguns, assim chamados, cientistas dizerem que não se convenceriam da vida após a morte, mesmo que realmente vissem um fantasma, pois, tendo concluído pela razão e pela lógica, de forma completamente satisfatória para si mesmos, que fantasmas não existem, concluiriam que estivessem sofrendo de alucinação, caso se de fato vissem um fantasma.
Também não é possível apresentar declarações da Bíblia. A palavra “imortal” não aparece de forma alguma no Antigo Testamento. Naquela época, dizia-se: “morrendo, morrerás”[2] e uma vida longa era oferecida como recompensa pela obediência. Tampouco essa palavra é encontrada nos quatro Evangelhos, mas nas Epístolas de S. Paulo[3], onde ela aparece seis vezes. Na primeira passagem, fala-se de Cristo, que trouxe à luz a imortalidade por meio do Evangelho. Em outra, ele nos diz que “este corpo mortal precisa revestir-se da imortalidade”[4]. Na terceira ele deixa claro que essa imortalidade é concedida àqueles que a buscam. Na quarta, fala sobre nosso estado, “quando este corpo mortal se revestir da imortalidade”[5]. Na quinta, declara que “Somente Deus possui a imortalidade”[6] e a sexta passagem é uma adoração ao Rei eterno, imortal e invisível. Assim, a Bíblia de forma nenhuma ensina que a Alma seja imortal; no entanto e ao contrário, afirma enfaticamente: “A Alma que pecar, essa morrerá”[7]. Se a Alma fosse inerente e intrinsecamente imperecível, isso seria uma impossibilidade.
Também não podemos provar a imortalidade da Alma pela Bíblia, usando passagens como a do Evangelho Segundo S. João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Se confiarmos nessa passagem para provar que a Alma seja sem fim, dotada de vida interminável, devemos também aceitar as passagens que afirmam que as Almas estejam condenadas ao tormento eterno, como defendem algumas das seitas ortodoxas.
Mas, na verdade, essas passagens não provam uma vida de bem-aventurança ou tormento sem fim. Se você consultar o dicionário grego de Liddell e Scott[8], verá que o termo traduzido como “eterno” ou “para sempre”, na Bíblia, é a palavra grega aionian, que significa “por um curto período”, “uma era”, “um tempo limitado”, “um tempo de vida”. Então você perceberá isso com facilidade no caso do escravo Onésimo, sobre quem S. Paulo escreve a Filemom: “Porque provavelmente ele se separou de ti por algum tempo para que o mantivesse para sempre”[9]. Esse “para sempre” (aionian) só poderia significar os poucos anos da vida de Onésimo na Terra, e não uma duração infinita.
Então, qual é a solução? A imortalidade é apenas um produto da imaginação, e é incapaz de ser provada? De forma nenhuma, mas é necessário diferenciar claramente entre Alma e Espírito. Essas duas palavras são frequentemente tomadas como sinônimos, mas não são. Na Bíblia, temos a palavra hebraica ruach e a palavra grega pneuma, ambas significando Espírito, enquanto a palavra hebraica neshamah e a palavra grega psique significam Alma. Além dessas, temos a palavra hebraica nephesh, que significa sopro, mas foi traduzida como vida em alguns lugares, e como alma em outros, para a conveniência dos tradutores da Bíblia.
É isso que gera confusão. Por exemplo, é dito no Livro do Gênesis que Javé ou Jeová formou “o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego”[10] (nephesh), então “o homem se tornou (nephesh chayim) um ser que respira”, mas não uma Alma vivente. A respeito da morte, lemos no Livro do Eclesiastes 3,19-20, e em outros trechos, que não há diferença entre o homem e o animal: “assim como morre um, morre o outro, pois todos têm um mesmo fôlego (nephesh novamente), de modo que o homem não tem superioridade sobre o animal”. “Todos vão para o mesmo lugar”. Mas há uma distinção muito clara feita entre o Espírito e o Corpo, pois é dito que “quando o Cordão de Prata se rompe, então o Corpo retorna ao pó de onde foi tirado e o Espírito volta a Deus, Que o deu”[11]. A palavra “morte” nunca está associada ao Espírito e a doutrina da imortalidade do Espírito é ensinada de modo flagrante pelo menos uma vez na Bíblia; em no Evangelho Segundo S. Mateus 11:14, onde o Cristo disse a respeito de João Batista: “Este é Elias”. O Espírito que animou o Corpo de Elias renasceu como João Batista; portanto, ele necessariamente sobreviveu à morte física e foi capaz de continuar sua existência.
Para os ensinamentos mais profundos e definitivos sobre este assunto, devemos, no entanto, recorrer ao ensinamento místico; aprendemos no Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, que os Espíritos Virginais foram enviados para o deserto do Mundo como Raios de Luz da Chama Divina, que é o Nosso Pai Celestial, e primeiro passaram por um processo de Involução na matéria, cada Raio cristalizando-se em um Tríplice Corpo.
Então a Mente foi dada e se tornou o ponto de apoio sobre o qual a Involução se transforma em Evolução e a Epigênese, a habilidade criativa, divina e inerente ao Espírito interior, na alavanca pela qual o Tríplice Corpo é espiritualizado na Tríplice Alma e amalgamado com o Tríplice Espírito, sendo a Alma o extrato da experiência que nutre o Espírito, que vai da ignorância à onisciência, da impotência à onipotência e assim, finalmente, torna-se semelhante ao seu Pai Celestial.
É impossível para nós, com nossas capacidades atualmente limitadas, conceber a magnitude dessa tarefa, mas podemos compreender que estamos muito, muito longe da onisciência e da onipotência, de modo que isso necessariamente exija muitas vidas; portanto, vamos para a Escola da Vida como a criança vai para a escola. Assim como há noites de descanso entre os dias de aula das crianças, também há noites de morte entre nossos dias na Escola da Vida. A criança retoma seus estudos a cada dia exatamente de onde parou no dia anterior; da mesma forma, nós, ao renascer, retomamos as lições da vida exatamente de onde paramos em nossa existência anterior.
Se for feita a pergunta: “por que não lembramos nossas existências anteriores, se de fato as tivemos?”, a resposta é simples. Atualmente, não lembramos sequer o que fizemos há um mês, um ano ou alguns anos, como poderíamos lembrar algo muito mais distante no tempo? Tínhamos um cérebro diferente que estava sintonizado com a consciência da vida anterior. No entanto, existem pessoas que se lembram de suas existências passadas, e cada vez mais estão mostrando essa faculdade, pois ela está latente dentro de cada ser humano.
Mas, como S. Paulo diz muito apropriadamente no capítulo quinze da Primeira Carta aos Coríntios: “Se os mortos não ressuscitam, então nossa fé é vã e somos, de todos os homens, os mais miseráveis”. Portanto, o neófito que passou pela porta da Iniciação é levado ao leito de uma criança que está morrendo. Ele vê o Espírito se desprender do Corpo Denso material e é instruído a observá-lo nos Mundos invisíveis até que busque um novo Corpo Denso para renascer.
Com esse propósito, geralmente é escolhida uma criança que esteja destinada a renascer dentro de um ou dois anos; assim, em um tempo relativamente curto, o neófito pode ver por si mesmo como um espírito atravessa o portal da morte e entra novamente na vida física através do útero. Então ele tem a prova. A Razão e a Fé devem ser suficientes para aqueles que não estejam preparados para pagar o preço pelo Conhecimento Direto — preço, esse, que não pode ser comprado com ouro; o pagamento é feito com o sangue da vida.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – maio /1916 – Traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Lc 16:19-31
[2] N.T.: Gn 2:17
[3] N.T.: 1Tm 6:16; 1Tm 1:17; 1Cor 15:53; 1Cor 15:54; 2Cor 4:16; Rm 6:23
[4] N.T.: 1Cor 15:53
[5] N.T.: 1Cor 15:54
[6] N.T.: 1Tm 6:16
[7] N.T.: Ez 18:20
[8] N.T.: A Greek–English Lexicon, muitas vezes referida como Liddell & Scott, Liddell-Scott-Jones, ou LSJ, é uma obra lexicográfica padrão da língua grega antiga.
[9] N.T.: Fm 1:15
[10] N.T.: Gn 2:7
[11] N.T.: Ecl 12:6-7
S. Pedro não ressuscitou Dorcas[1], assim como Cristo não ressuscitou Lázaro[2] nem ninguém, o que aliás, Ele não pretendeu ter feito. Ele disse: “Lázaro não está morto: dorme”[3].
Para que essa asserção possa ser bem compreendida devemos explicar o que se passa por ocasião da morte e em que essa difere da letargia, pois as pessoas acima mencionadas estavam nesse estado, na ocasião em que os supostos milagres foram executados.
Durante a vigília, enquanto nós, o Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) agimos conscientemente no Mundo Físico, nossos diversos veículos estão concêntricos: ocupam o mesmo espaço. Contudo, à noite, durante o sono, ocorre uma separação: nós, revestidos do nosso Corpo de Desejos e da nossa Mente, nos desligamos do nosso Corpo Denso e do Corpo Vital, que ficam sobre o leito. Os veículos superiores flutuam próximo e acima desses dois últimos. Estão ligados aos outros dois veículos superiores pelo Cordão Prateado, um fio estreito e brilhante com três segmentos, onde dois deles tem a forma semelhante a de dois números “seis” invertidos e do qual uma das extremidades está ligada ao Átomo-semente no coração e a outra no Átomo-semente do Corpo de Desejos, sendo que o ponto onde os dois “seis” se une, está ligado ao Átomo-semente do Corpo Vital.
No momento da morte, esse fio se desconecta do coração. As forças do Átomo-semente passam pelo nervo pneumogástrico ou vago, pelo terceiro ventrículo do cérebro, através da sutura entre os ossos parietal e occipital, subindo aos veículos superiores que estão fora, por intermédio do Cordão Prateado. O Corpo Vital também se separa do Corpo Denso com essa ruptura (aliás é essa a única ocasião em que se dá essa separação) e junta-se aos veículos superiores, que estão flutuando sobre o cadáver. Aí o Corpo Vital permanece cerca de três dias e meio. Depois desse tempo, os veículos superiores se desligam do Corpo Vital que começa a se desintegrar simultaneamente com o Corpo Denso, nos casos comuns.
No momento dessa última separação, o Cordão Prateado rompe-se pelo meio, no lugar da união dos dois seis, e nós, o Ego, nos encontramos livres de qualquer contato com o Mundo material (a Região Química do Mundo Físico).
Durante o sono, nós também nos retiramos do nosso Corpo Denso, mas o nosso Corpo Vital continua interpenetrando esse último, e o Cordão Prateado permanece inteiro e intacto.
Acontece, às vezes, que nós não tornamos a entrar no Corpo Denso pela manhã, para despertá-lo como de hábito, porém ficamos fora durante algum tempo que varia de caso para caso. Nesse caso, porém, o Cordão Prateado não se rompeu. Quando ocorre essa ruptura, não será possível nenhuma restauração. O Cristo e os Apóstolos eram Clarividentes: sabiam que não tinha havido ruptura nos casos mencionados, e daí a afirmação: “Ele não está morto, dorme”. Eles possuíam o poder de obrigar o Ego a entrar no seu Corpo Denso e de restaurar as condições normais.
Assim foram feitos os supostos milagres de ressuscitação ou ressurreição!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – julho/agosto/1988 – Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Ora, em Jope havia uma discípula, chamada Tabita, em grego Dorcas, notável pelas boas obras e esmolas que fazia. Aconteceu que naqueles dias ela caiu doente e morreu. Depois de a lavarem, puseram-na na sala superior. Como Lida está perto de Jope, os discípulos, sabendo que Pedro lá se encontrava, enviaram-lhe dois homens com este pedido: “Não te demores em vir ter conosco”. Pedro atendeu e veio com eles. Assim que chegou, levaram-no à sala superior, onde o cercaram todas as viúvas, chorando e mostrando túnicas e mantos, quantas coisas Dorcas lhes havia feito quando estava com elas. Pedro, mandando que todas saíssem, pôs-se de joelhos e orou. Voltando- se então para o corpo, disse: “Tabita, levanta-te!”. Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Este, dando-lhe a mão, fê-la erguer-se. E chamando os santos, especialmente as viúvas, apresentou-a viva. Espalhou-se a notícia por toda Jope, e muitos creram no Senhor. Pedro ficou em Jope por mais tempo, em casa de certo Simão, que era curtidor. (At 9:36-43)
[2] N.R.: Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta. Maria era aquela que ungira o Senhor com bálsamo e lhe enxugara os pés com seus cabelos. Seu irmão Lázaro se achava doente. As duas irmãs mandaram, então, dizer a Cristo Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. A essa notícia, Cristo Jesus disse: “Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus”. Ora, Cristo Jesus amava Marta e sua irmã e Lázaro. Quando soube que este se achava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar em que se encontrava; só depois, disse aos discípulos: “Vamos outra vez até a Judéia!”. Seus discípulos disseram-lhe: “Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te e vais outra vez para lá?”. Respondeu Cristo Jesus: “Não são doze as horas do dia? Se alguém caminha durante o dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se alguém caminha à noite, tropeça, porque a luz não está nele”. “Disse isso e depois acrescentou: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”. Os discípulos responderam: “Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!”. Cristo Jesus, porém, falara de sua morte e eles julgaram que falasse do repouso do sono. Então Cristo Jesus lhes falou claramente: “Lázaro morreu. Por vossa causa, alegro-me de não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele!”. Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: “Vamos também nós, para morrermos com ele!”. Ao chegar, Cristo Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. Betânia ficava perto de Jerusalém, a uns quinze estádios. Muitos judeus tinham vindo até Marta e Maria, para as consolar da perda do irmão. Quando Marta soube que Cristo Jesus chegara, saiu ao seu encontro; Maria, porém, continuava sentada, em casa. Então, disse Marta a Cristo Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, ele te concederá”. Disse-lhe Cristo Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. “Sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia!”. Disse-lhe Cristo Jesus: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. “E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?”. Disse ela: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo”. Tendo dito isso, afastou-se e chamou sua irmã Maria, dizendo baixinho: “O Senhor está aqui e te chama!”. Esta, ouvindo isso, ergueu-se logo e foi ao seu encontro. Cristo Jesus não entrara ainda no povoado, mas estava no lugar em que Marta o fora encontrar. Quando os judeus, que estavam na casa com Maria, consolando-a, viram-na levantar-se rapidamente e sair, acompanharam-na, julgando que fosse ao sepulcro para aí chorar. Chegando ao lugar onde Cristo Jesus estava, Maria, vendo-o, prostrou-se a seus pés e lhe disse: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. Quando Cristo Jesus a viu chorar e, também, os judeus que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e ficou conturbado. E perguntou: “Onde o colocastes?”. Responderam-lhe: “Senhor, vem e vê!”. Cristo Jesus chorou. Diziam, então, os judeus: “Vede como ele o amava!”. Alguns deles disseram: “Esse, que abriu os olhos do cego, não poderia ter feito com que ele não morresse?”. Comoveu-se de novo Cristo Jesus e dirigiu-se ao sepulcro. Era uma gruta, com uma pedra sobreposta. Disse Cristo Jesus: “Retirai a pedra!”. Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!”. Disse-lhe Cristo Jesus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”. Retiraram, então, a pedra. Cristo Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves; mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste”. Tendo dito isso, gritou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”. O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Cristo Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o ir embora” (Jo 11:1-44)
[3] N.R.: Jo 11:11
Resposta: A maior parte dos problemas e interpretações errôneas sobre o que os Evangelhos realmente significam vem do grande mal-entendido da maioria das pessoas que acreditam que os Evangelhos pretendem relatar a história da vida de um indivíduo chamado Jesus Cristo. É a pura verdade que os Evangelhos tiveram como modelo a vida de Jesus, relatando a grandeza da vida dele e como ele serviu de exemplo para os que registraram as quatro diferentes Escolas de Iniciação. Entretanto, o que esses autores dos Evangelhos pretenderam realmente escrever foram as fórmulas de Iniciação, e os quatro Evangelhos, portanto, incorporam, ocultas debaixo de uma camada externa de fatos e coisas não essenciais, as fórmulas de Iniciação de quatro diferentes Escolas de Mistérios.
O exemplo mencionado, a Ressurreição de Lázaro[2], ou do Filho da Viúva de Naim[3], não significa que um Espírito que partiu tenha sido chamado a retornar ao veículo descartado. Isso não é feito. “Quando o Cordão Prateado é rompido, o Espírito retorno a Deus que o enviou e ao pó de onde foi tirado”[4]. Quando um candidato atinge o ponto em que deve ser elevado a um nível superior e a um poder maior do que já possuía antes, ele deve primeiro morrer para as coisas passadas e que ficaram para trás. O caminho se torna mais e mais estreito a cada passo, e ele não pode entrar pelo portão estreito, que conduz direto a um reino mais elevado da natureza, até que ele se livrado do Corpo que o correlacionava ao reino inferior imediato. Portanto, nesse sentido, se diz que, no momento em que está pronto para a transição, ele está morto.
Se você estudar o livro Maçonaria e Catolicismo – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, descobrirá que Lázaro havia sido anteriormente Hiram Abiff, o Mestre Maçom, e construtor-chefe do Templo de Salomão; que Jesus havia sido previamente encarnado como a Personalidade chamada Salomão; e que o Espírito de Cristo, que habitava nos Corpos Denso e Vital cedidos por Jesus, na época da citada ressurreição de Lázaro, foi o grande Iniciador que ergueu Lázaro e o tornou um Hierofante dos Mistérios Menores. Ele, agora, é conhecido como Christian Rosenkreuz, o líder da Escola dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental, e colaborador de Jesus para unir a Humanidade e conduzi-la ao Reino de Cristo.
De maneira semelhante, e em menor escala, os Apóstolos receberam o poder de ressuscitar os mortos. Aos inexperientes eles davam somente leite, mas aos que eram fortes eles davam a carne da doutrina, instruindo-os nos mistérios até que eles atingissem um certo ponto em que, após Viverem a Vida, morressem, e fossem ressuscitados para uma vida mais abundante em uma esfera maior de utilidade. No entanto, como já foi dito, essas mortes não envolveram o que, normalmente, chamamos de morte do Corpo Denso aqui.
(Pergunta nº 73 do Livro “Filosofia Rosacruz em Perguntas e Repostas” – Volume 2 – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T: Pergunta: Com que poder S. Pedro ressuscitou Dorcas dentre os mortos?
Resposta: S. Pedro não ressuscitou Dorcas dentre os mortos, nem o Cristo ressuscitou Lázaro ou qualquer outro, e nenhum deles afirmou isso. Cristo disse: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11:11).
Para que esse assunto seja bem compreendido, explicaremos o que ocorre na morte e em que ponto a morte é diferente do estado de transe, pois as pessoas mencionadas estavam em transe quando se sucederam os supostos milagres.
Durante o estado de vigília, quando o Ego está funcionando conscientemente no Mundo Físico, seus vários veículos estão concêntricos – eles ocupam o mesmo espaço – mas à noite, quando o Corpo Denso dorme, ocorre uma separação. O Ego, junto com a Mente e o Corpo de Desejos, liberta-se do Corpo Denso e do Corpo Vital, que são deixados sobre a cama ou outro lugar em que a pessoa esteja dormindo. Os veículos superiores pairam acima ou próximo ao Corpo Denso. Eles estão conectados aos veículos mais densos pelo Cordão Prateado, um fio tênue e reluzente que assume a forma de dois números seis, tendo uma extremidade ligada ao Átomo-semente no coração e a outra ao vórtice central do Corpo de Desejos (onde está o Átomo-semente do Corpo de Desejos, na posição referencial do fígado físico).
No momento da morte, esse tênue fio se rompe no Átomo-semente do coração e as forças desse Átomo-semente passam ao longo do nervo pneumogástrico (também chamado de nervo vago), através do terceiro ventrículo do cérebro e, daí para fora através da sutura entre os ossos occipital e parietal do crânio, ao longo do Cordão Prateado até aos veículos superiores. Simultaneamente a essa ruptura, o Corpo Vital também se desprende e junta-se aos veículos superiores que estão flutuando sobre o Corpo Denso sem vida. Permanece ali cerca de três dias e meio. Em seguida, os veículos superiores se desprendem do Corpo Vital que, nos casos comuns, se desintegra sincronicamente com o Corpo Denso.
No momento dessa última separação, o Cordão Prateado também se rompe ao meio, e o Ego está livre do contato com o Mundo material.
Durante o sono, o Ego também se retira do Corpo Denso, mas o Corpo Vital permanece com o Corpo Denso e o Cordão Prateado permanece intacto.
Algumas vezes acontece que o Ego não retorna ao Corpo Denso pela manhã para acordá-lo, como de costume, mas permanece fora por um tempo que varia de um a um número indefinido de dias. Então, dizemos que o Corpo Denso está em um estado de transe natural. Mas, o Cordão Prateado não se rompeu em nenhum dos dois pontos mencionados acima. Quando ocorrem essas rupturas, não há restauração possível. O Cristo e o Apóstolo eram clarividentes; eles viram que nenhuma ruptura ocorrera nos casos mencionados, por isso, disse: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”. Eles também possuíam o poder de forçar o Ego a retornar a seu Corpo Denso e restaurar a condição normal. Assim, os chamados milagres foram realizados por eles.(Pergunta nº 113 do Livro “Filosofia Perguntas e Repostas – Volume I” – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[2] N.T.: 1Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta. 2Maria era aquela que ungira o Senhor com bálsamo e lhe enxugara os pés com seus cabelos. Seu irmão Lázaro se achava doente. 3As duas irmãs mandaram, então, dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. 4A essa notícia, Jesus disse: “Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus”. 5Ora, Jesus amava Marta e sua irmã e Lázaro. 6Quando soube que este se achava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar em que se encontrava; 7só depois, disse aos discípulos: “Vamos outra vez até a Judéia!”. 8Seus discípulos disseram-lhe: “Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te e vais outra vez para lá?”. 9Respondeu Jesus: “Não são doze as horas do dia? Se alguém caminha durante o dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas se alguém caminha à noite, tropeça, porque a luz não está nele”. “Disse isso e depois acrescentou: 11 “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”. 12Os discípulos responderam: “Senhor, se ele está dormindo, vai se salvar!”. 13Jesus, porém, falara de sua morte e eles julgaram que falasse do repouso do sono. 14Então Jesus lhes falou claramente: “Lázaro morreu. 15Por vossa causa, alegro-me de não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele!”. 16Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: “Vamos também nós, para morrermos com ele!”. 17Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. 18Betânia ficava perto de Jerusalém, a uns quinze estádios. 19Muitos judeus tinham vindo até Marta e Maria, para as consolar da perda do irmão. 20Quando Marta soube que Jesus chegara, saiu ao seu encontro; Maria, porém, continuava sentada, em casa. 21Então, disse Marta a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23Disse-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 “Sei, disse Marta, que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia!”. 25Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. 26 “E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?”. 27Disse ela: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo”. 28Tendo dito isso, afastou-se e chamou sua irmã Maria, dizendo baixinho: “O Senhor está aqui e te chama!”. 29Esta, ouvindo isso, ergueu-se logo e foi ao seu encontro. 30Jesus não entrara ainda no povoado, mas estava no lugar em que Marta o fora encontrar. 31Quando os judeus, que estavam na casa com Maria, consolando-a, viram-na levantar-se rapidamente e sair, acompanharam-na, julgando que fosse ao sepulcro para aí chorar. 32Chegando ao lugar onde Jesus estava, Maria, vendo-o, prostrou-se a seus pés e lhe disse: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. 33Quando Jesus a viu chorar e, também, os judeus que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e ficou conturbado. 34E perguntou: “Onde o colocastes?”. Responderam-lhe: “Senhor, vem e vê!”. 35Jesus chorou. 36Diziam, então, os judeus: “Vede como ele o amava!”. 37Alguns deles disseram: “Esse, que abriu os olhos do cego, não poderia ter feito com que ele não morresse?”. 38Comoveu-se de novo Jesus e dirigiu-se ao sepulcro. Era uma gruta, com uma pedra sobreposta. 39Disse Jesus: “Retirai a pedra!”. Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!”. 40Disse-lhe Jesus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”. 41Retiraram, então, a pedra. Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: “Pai, dou-te graças porque me ouviste. 42Eu sabia que sempre me ouves; mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste”. 43Tendo dito isso, gritou em alta voz: “Lázaro, vem para fora!”. 44O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o ir embora”. (Jo 1:1-44)
[3] N.T.: 11Ele foi em seguida a uma cidade chamada Naim. Seus discípulos e numerosa multidão caminhavam com ele. 12Ao se aproximar da porta da cidade, coincidiu que levavam a enterrar um morto, filho único de mãe viúva; e grande multidão da cidade estava com ela. 13O Senhor, ao vê-la, ficou comovido e disse-lhe “Não chores!”. 14Depois, aproximando-se, tocou o esquife, e os que o carregavam pararam. Disse ele, então: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!”. 15E o morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. 16Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo”. 17E essa notícia difundiu-se pela Judéia inteira e por toda a redondeza. (Lc 7:11-17)
[4] N.T.: Do Ritual do Serviço Devocional de Funeral e do Capítulo 2 – O Problema da Vida e Sua Solução do livro Mistérios Rosacruzes – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz.
Ainda hoje observamos em muitas construções antigas de igrejas católicas quatro estátuas em cima do frontispício, representativas dos quatro Evangelistas – S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João –, tendo aos pés os símbolos dos quatro Signos Fixos que outrora compunham a esfinge: Escorpião (representado por uma águia), Leão (por um leão), Touro (por um touro) e Aquário (representado por um ser humano). É uma influência da primitiva igreja, pois os antigos “Pais da Igreja” conservavam o conhecimento dos Mistérios Cristãos e sabiam muito bem a parte Esotérica e a relação entre as Forças Cósmicas (Astrologia Espiritual) e a evolução humana. Os Evangelhos são Fórmulas de Iniciação diferentes: dentre as coletâneas feitas pelos diferentes Discípulos de Cristo-Jesus e por seus seguidores diretos, foram escolhidas apenas essas quatro, que hoje, divididas em capítulos, constituem os Evangelhos. As demais foram consideradas apócrifas ou não inspiradas. Contudo, havia uma razão de ser nessa escolha. Tais Evangelhos ou métodos iniciáticos formam as linhas angulares que determinariam o horóscopo e evolução do Cristianismo.
Podem alguns estranhar que Escorpião seja ali representado pela águia, como o foi na esfinge misteriosa. É que Escorpião representa a força sexual criadora, em que se fundamenta todo o nosso poder potencial encerra vários símbolos. Cada um deles exprime um estágio evolutivo.
As forças ocultas no ser humano são um mistério, cujo conhecimento e domínio nos abre as portas da regeneração e libertação, para a reconquista da condição de Filhos de Deus (religação ou a verdadeira Religião). Por isso, Escorpião rege o sexo e a força motriz emotiva. Por isso, Escorpião rege a oitava Casa do horóscopo, que expressa a regeneração ou a degeneração, segundo os Astros e Aspectos de cada horóscopo.
Na fase primitiva da evolução, Escorpião rasteja na paixão, escravizando o nativo às exigências dos sentidos. No aspecto espiritual, gira por detrás, com a cauda, mostrando o lado negativo em que vivíamos, como Clarividentes involuntários grandemente influenciados e dirigidos de fora. Aqueles que alcançam a Iniciação e, com isso o desenvolvimento positivo das suas faculdades (a Clarividência voluntária) eram relacionados com a serpente, que pica pela frente, mostrando o aspecto positivo, independente. Nos mistérios egípcios, os Najas, ou serpentes, levavam uma serpente que parecia sair da raiz do nariz (lugar da consciência individual, do Espírito Divino). Esses eram desenvolvidos positivamente nos mistérios. Eram Clarividentes voluntários! Os Clarividentes involuntários traziam uma serpente desenhada no ventre, na altura do Plexo Celíaco ou Plexo Solar. Essas posições da serpente mostravam que, no desenvolvimento positivo (da Clarividência voluntária) é a própria pessoa que alcança a possibilidade de “voos d’alma”, saindo e entrando do seu Corpo Denso, pela cabeça (entre as comissuras dos ossos parietais e occipital), ao passo que, no desenvolvimento negativo (da Clarividência involuntária) é um irmão desencarnado ou uma irmã desencarnada (que chamamos de “espírito apegado à Terra” e que, portanto, não entrou no Purgatório) ou um Elemental (um ser de uma Onda de Vida sub-humana) que expulsa a pessoa residente e penetra no Corpo Denso dela pelos órgãos sexuais ou pelas paredes etéricas, rompidas, do Plexo Celíaco ou Plexo Solar.
Na Bíblia temos várias passagens elucidativas desses dois estados. Os israelitas tomaram a palavra “Naja” e modificaram-na, com o sufixo, negativo feminino “OTH”, que nos dá NAIOTH, para a Clarividência involuntária, e o final positivo masculino “IM” para a Clarividência voluntária. Saul foi a Naioth (foi tomado por um “espírito” e divertiu os outros com tiradas proféticas).
Cristo-Jesus foi Naim e ressuscitou o Filho da Viúva (Iniciação de Lázaro).
Mercúrio, o símbolo da razão, também leva uma serpente a lhe sair do chapéu; é indicação de que, com o chapéu de Mercúrio, a razão, chave evolutiva da presente Época Ária, o ser humano é livre e independente de influência externa para evoluir.
Quando, no antigo Egito, a pessoa levava duas serpentes a lhe sair da fronte, indicava exercer dois poderes: de Rei e Sacerdote.
Naja (Uraeus) é um emblema de Sabedoria. Cristo se refere aos detentores dessa Sabedoria quando aconselhou a sermos “sábios como as serpentes”. Na Índia, os guardiães dos mistérios eram chamados “nagas” ou serpentes. Nos “Eddas” de Islândia, vemos que Siegfried, investigador sincero, degolou a serpente, provou seu sangue e se converteu num sábio. Ora, o veneno é um símbolo da força sexual criadora. Siegfried o bebeu e se tornou sábio. Quem usa o veneno (poder, força sexual criador) de forma indevida, pica por detrás e se torna réu ou vítima do próprio veneno como o escorpião ao se matar, diante do perigo. Contudo, quem usa essas forças de forma positiva e justa, pica pela frente, como a serpente (razão).
Um estudo sobre Escorpião mostra como essa força age e a necessidade de ela ser transmutada, transubstanciada. Quando, pela regeneração da natureza criadora, transubstanciamos essa força sexual criadora dentro de nós, alcançamos a condição de águias, a que voa em busca das alturas, não com as asas de cera do falso desenvolvimento de um Ícaro, mas com asas reais, que nos torna possível deixar a prisão da ilha do nosso Corpo Denso.
Os alquimistas costumavam comparar o ser humano a um forno e representavam-no com uma chama inferior para queimar e sublimar em forma de vapor, a líquida natureza da força de Escorpião. De fato, sabemos que na medula espinhal do ser humano circula um gás, a força de Netuno que rege as faculdades supranormais. Esse gás pode converter-se no líquido passional que procura exteriorização pelo sexo ou pode ser incendiado pela aspiração e prática de ideais superiores, caso em que, eleva-se pelo tubo (medula) do forno (corpo humano) e vai fazer vibrar os dois centros espirituais da cabeça (da Glândula Pineal e da Pituitária), estabelecendo, com a persistência do processo regenerativo, uma ponte vibratória entre esses dois centros.
Abrem-se, então, os olhos espirituais e alcançamos a visão dos planos internos da natureza, atualmente encobertos pelos nossos olhos carnais.
Ora, o que cegou o ser humano foi a “Queda do Homem”, o uso da bebida alcoólica e de outros excitantes. Por isso, a Fraternidade Rosacruz recomenda aos Aspirantes à vida superior – o Estudante Rosacruz – o abandono da carne animal (mamífero, aves, peixes, répteis, anfíbios, frutos do mar e afins) – que está impregnada pela paixão animal, pois como diz a Bíblia, “a alma da carne está no sangue”[1] –, das bebidas alcoólicas, do fumo (de qualquer tipo e de qualquer forma) e de outros tóxicos que dificultam o processo regenerativo.
O modelo divino do Tabernáculo no Deserto, dado a Moisés no Monte, previa precisamente a elevação humana da degeneração em que estavam, para a regeneração. O Altar dos Sacrifícios simboliza a força sexual criadora voltada para satisfação egoísta de todos os desejos do ser humano. Ela deve ser queimada (sublimada) com sal (arrependimento). O odor que se elevava da queima agradava ao Senhor. Contudo, naquele tempo não estávamos preparados, ainda, para o sacrifício de nós mesmo e os Seres Superiores determinaram que sacrificássemos as nossas posses (machos bovinos e ovinos) além dos dízimos. Com o advento de Cristo e a purificação dos Estratos da Terra, alcançamos a possibilidade de fazer de nós mesmos, sob uma orientação racional, um sacrifício vivente. O Tabernáculo no Deserto, que era “uma sombra das coisas que viriam”[2], antecipava essa possibilidade expressa por S. Paulo Apóstolo quando diz na sua Epístola aos Efésios 4:22 a 24: “que nos despojemos do homem velho e nos revistamos do homem novo, em novidade de espírito”. E, ainda mais, na sua Primeira Epístola aos Coríntios 15:42: “ressuscitarmos da corrupção para a incorrupção, de corpo animal para o corpo espiritual”. O Tabernáculo no Deserto é nosso Corpo Denso, o Templo de Deus Vivo, o Deus Interno. Se queremos trabalhar eficazmente a serviço da Humanidade, alcançando para nós, ao mesmo tempo, a verdadeira felicidade, é necessário que passemos além de seres humanos comuns, que funcionam apenas no Átrio externo do Tabernáculo no Deserto, no lado inferior. Aprendendo a queimar os atos errôneos de cada dia, com o fogo da consciência, durante o Exercício Esotérico noturno de Retrospeção, podemos nos lavar e nos purificar, a fim de entrar, durante o sono, no Sanctum (Sala Oriental do Tabernáculo no Deserto) e lá trabalhar como Auxiliares Invisíveis inconscientes, a serviço da Humanidade. Contudo, não basta isso, é necessário que durante o dia aproveitemos todas as oportunidades de bem agir, ou seja, de servir amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) a divina essência oculta em cada irmão e irmã – que é a base da Fraternidade – que está ao nosso redor. Só podemos ser eficientes Auxiliares Invisíveis quando aprendemos a ser, aqui e agora, Auxiliares Visíveis provados pela prática, e não simplesmente em teoria e aspiração. Aí sim, o bem agir e um Exercício Esotérico noturno de Retrospeção bem-feito nos permite extrair a essência do serviço prestado, para oferecê-la aos semelhantes durante o trabalho noturno, a que nos consagramos diariamente.
Desse modo — afirma Max Heindel com o conhecimento de causa — o maior criminoso pode transformar-se radicalmente. É um trabalho de repetição no bem, de automatização do certo, deixando de lado, procurando esquecer o lado inferior, que morrerá de inanição, aos poucos, e um dia chegará em que, suficientemente equilibrados para nos dirigir seguramente no Mundo do Desejo, somos visitados pelo Irmão Maior e convidados a entrar no Sanctum Sanctorum (Sala Ocidental do Tabernáculo no Deserto). Esse extremo ocidental do Tabernáculo no Deserto é a nossa cabeça, onde estão os dois Querubins (Glândula Pineal e Pituitária ligando suas asas, ponte vibratória) sobre a arca, onde estão as Tábuas da Lei (a observância consciente e espontânea nas Leis de Deus), a Vara de Aarão (o fogo espinhal de Netuno, com todo seu poder potencial) e o Maná (o Espírito).
Contudo, essa transubstanciação é assunto delicado. Por isso fazemos o presente artigo, na esperança de reforçar e assegurar uma boa compreensão.
Precisamos nos conhecer sobre o assunto (Nosce Te Ipsum), por um estudo criterioso do nosso horóscopo (calculado e levantado ponto a ponto por nós mesmos – utilizando a Astrologia Rosacruz –, e não por outrem e, muito menos por meios automatizados), tomar consciência dos nossos pontos frágeis e fortes e depois trabalhar vigilantemente por nossa regeneração, seguindo um roteiro pessoal. Os pontos frágeis, principalmente os complexos impulsos emocionais e sexuais, não são sublimados pelo combate. Cristo recomenda mui oportunamente que “não resistamos ao mal”[3], isto é, que não pensemos nele, que não lhe demos consideração pois, cada vez que pomos uma ideia na consciência fortificamo-la com nossa atenção. Conseguir bons resultados, nos mantém sempre ocupados em coisas nobres e prazerosas. Os Santos são, muitas vezes, representados pisando uma serpente. S. Jorge, por exemplo, matou o dragão; também nós, para dominar a força emocional de Escorpião, devemos unicamente estar alertas contra seu automatismo astuto e sutil e pensar e agir unicamente no que seja construtivo.
Há muitas coisas por aí a conspirar contra nosso aperfeiçoamento. Não faz mal. Não podemos ficar num convento ou num mosteiro. A oficina de aperfeiçoamento é aqui mesmo, no meio da tentação, na vida que nós mesmos escolhemos no Terceiro Céu. É a única forma de provarmos para nós mesmos se estamos seguros para enfrentar provas maiores. Estejamos alertas contra as insidiosas sensações e imagens que, pela mídia, pelos canais de comunicações, podem acumular-se e insidiosamente incitar-nos a natureza inferior. Olhemos o lado bom de cada coisa, desconcertando o mecanismo do subconsciente instintivo. Isto é, “vigiai e orai”[4].
E, como ainda não somos santos, cuidadosamente demos vazão ao vapor da natureza emocional que se acumular, porque senão estoura a caldeira. Escorpião rege esse impulso de liberação e devemos ser prudentes. Contudo, entre ser prudentes e condescendentes com o instinto, vai uma grande distância!
Há, ainda, o perigo do recalque, isto é, não sublimar natural e inteligentemente a força sexual criadora e apenas querer contê-la à força de vontade ou por inibição. Isso é realmente um perigo. Na Lenda de Parsifal, Klingsor, buscando ser um dos cavaleiros do Graal (ser repentinamente elevado), mutilou-se, vedando a si mesmo a satisfação instintiva.
Contudo, com a vista espiritual o Guardião do Castelo percebeu o íntimo tenebroso e passional de Klingsor e não lhe permitiu o ingresso. É o problema da circuncisão debatido por S. Paulo Apóstolo. O Corpo de Desejos é distinto do Corpo Denso, se bem se expresse através dele, como Klingsor fazia com Kundry, quando a despertava antes que os Cavaleiros do Graal o fizessem, utilizando-a em propósitos egoístas. Klingsor morava no “vale”, indicativo da parte baixa do Corpo Denso, onde se situam os órgãos sexuais, expressão inferior da força emocional. O Castelo do Graal estava no “monte”, isto é, na cabeça. Os Cavaleiros são o gás netuniano. Atraídos e seduzidos pela flores-deusas deixam-se exterminar por Klingsor.
Parsifal foi tentado e venceu a prova. Contudo, teve, ademais, que provar seu valor altruístico, sofrendo e servindo, usando seu poder em benefício dos demais e nunca para si.
Assim, também nós, temos tudo isso dentro do nosso reino interno e é mister alcançar o mérito de Parsifal não insensatamente como Amfortas, mas sabiamente, como “serpentes” que desejam se transmutar em águia.
E das cinzas da queima da natureza inferior se elevará, gloriosamente, em repetidos renascimentos, cada vez mais luminosos, a Fênix!
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de junho/1966-Fraternidade Rosacruz-SP)
[1] N.R.: Lev 7:11
[2] N.R. Hb 10:13
[3] N.R. Mt 5:39
[4] N.R.: Mt 26:41)
Mais uma vez é atingido o ponto culminante do ano, o maior de todos os eventos cósmicos: o Natal, a renovação do impulso Crístico na Terra.
Na Noite Santa, o solene tanger dos sinos invoca a presença dos fiéis para reverenciar a magna data. É a colimação cíclica de um processo irresistível e irreversível.
Novamente, o acendrado amor de Cristo por cada um de nós se faz sentir por meio da manifestação da Sua energia, sensibilizando os nossos corações para as esferas superiores da vida. É a observação fiel de um compromisso, cujo término se condiciona ao nosso próprio livre arbítrio, perdurando até que uma boa parte de nós desenvolva o Corpo-Alma, o “soma psuchicon”, identificando-se então com o próprio Cristo, por isso que é chamado, também, de Cristo interno.
Hoje, tal promessa é tão viva, tão real, tão sonora como o foi há mais de dois mil anos! Sentimos a presença do Cristo em cada ato de benevolência. Ouvimos a voz d’Ele nas palavras consoladores, nas pregações sinceras, nas músicas sublimes. Observamos os milagres d’Ele na ação pura dos idealistas. Cada novo Cristão é um Lázaro que ressurge. Cada novo Cristão é um participante da multidão alimentada com o “pão da vida”.
Mais de vinte séculos são decorridos e as vitórias do Cristianismo se sucedem. Forjado com o sangue dos mártires imolados em Roma e na Ásia Menor, resistiu a todas as procelas: aos tenazes perseguidores, às incompreensões e divergências internas, ao materialismo dos nossos tempos.
Força irresistível! Sobreviveu a todas as tentativas de destruição que lhe fizeram.
Estamos atravessando um momento crítico nesse Esquema de Evolução. Nunca carecemos tanto da presença de Cristo como agora, e nunca Ele esteve tão próximo, empenhando-se em nos despertar a nossa verdadeira vocação espiritual.
Somos uma massa heterogênea. Formamos um conglomerado de virtudes e defeitos, de injustos, justos e injustiçados, de crentes e indiferentes, de altruístas e egoístas, de explorados e exploradores. A cada Natal, a força Crística reinicia o processo de transmutação dessa massa, sensibilizando as nossas faculdades espirituais. É essa energia dinâmica na verdadeira acepção da palavra que procura romper a barreira das nossas limitações. É ela que nos inspira no aprimoramento do nosso caráter. Ela nos enleva ante uma estátua esculpida na algidez de uma pedra. Ali não deparamos meramente com a figura estática, mas sentimo-la vivente, palpitante.
Essa energia nos deixa extasiados ao examinarmos um quadro, em que os contornos e as cores sugerem sentimentos. Ela nos eleva e aquieta ao som de uma Sinfonia de Beethoven, de uma composição de Bach ou Haendel.
Nessas contemplações transcendemos a forma, penetramos no âmago, no espírito das coisas.
A esse propósito, queridos irmãos e irmãs, almejemos cada vez mais penetrar no Espírito do Natal, identificando-nos com ele. O verdadeiro Natal é interno. Consiste no nascimento do Cristo em nosso mundo interior.
Convertamos nossos corações em humildes manjedouras para receber Aquele que salva. E quais Reis Magos, depositemos aos Seus pés nossas oferendas: o ouro, o incenso e a mirra, traduzidos simbolicamente no Corpo, na Alma e no Espírito. Reverentes e gratos, entreguemos nossas dádivas Àquele que em si mesmo é a dádiva perpétua, a oferta perfeita, o Cristo que salva, que redime, que consola, que eleva, que encontra uma réplica microcósmica em cada ser humano, e que, ano após ano, generosamente, oferece-nos sua ajuda no sentido de ampliarmos Sua imagem em nós, até que todas formem uma só aura, uma só força, um só poder, no grande dia das Bodas Místicas.
Que este Natal nos encontre unidos em torno do nosso ideal, o ideal do Cristo!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – dezembro/1973–Fraternidade Rosacruz–SP)
Resposta: S. Pedro não ressuscitou Dorcas dentre os mortos, nem o Cristo ressuscitou Lázaro ou qualquer outro, e nenhum deles afirmou isso. Cristo disse: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”[1]”.
Para que esse assunto seja bem compreendido, explicaremos o que ocorre na morte e em que ponto a morte é diferente do estado de transe, pois as pessoas mencionadas estavam em transe quando se sucederam os supostos milagres.
Durante o estado de vigília, quando o Ego está funcionando conscientemente no Mundo Físico, seus vários veículos estão concêntricos – eles ocupam o mesmo espaço – mas à noite, quando o Corpo Denso dorme, ocorre uma separação. O Ego, junto com a Mente e o Corpo de Desejos, liberta-se do Corpo Denso e do Corpo Vital, que são deixados sobre a cama ou outro lugar em que a pessoa esteja dormindo. Os veículos superiores pairam acima ou próximo ao Corpo Denso. Eles estão conectados aos veículos mais densos pelo Cordão Prateado, um fio tênue e reluzente que assume a forma de dois números seis, tendo uma extremidade ligada ao Átomo-semente no coração e a outra ao vórtice central do Corpo de Desejos[2].
No momento da morte, esse tênue fio se rompe no Átomo-semente do coração e as forças desse Átomo-semente passam ao longo do nervo pneumogástrico[3], através do terceiro ventrículo do cérebro e, daí para fora através da sutura parieto-occipital do crânio, ao longo do Cordão Prateado até aos veículos superiores. Simultaneamente a essa ruptura, o Corpo Vital também se desprende e junta-se aos veículos superiores que estão flutuando sobre o Corpo Denso sem vida. Permanece ali cerca de três dias e meio. Em seguida, os veículos superiores se desprendem do Corpo Vital que, nos casos comuns, se desintegra sincronicamente com o Corpo Denso.
No momento dessa última separação, o Cordão Prateado também se rompe ao meio, e o Ego está livre do contato com o Mundo material.
Durante o sono, o Ego também se retira do Corpo Denso, mas o Corpo Vital permanece com o Corpo Denso e o Cordão Prateado permanece intacto.
Algumas vezes acontece que o Ego não retorna ao Corpo Denso pela manhã para acordá-lo, como de costume, mas permanece fora por um tempo que varia de um a um número indefinido de dias. Então, dizemos que o Corpo Denso está em um estado de transe natural. Mas, o Cordão Prateado não se rompeu em nenhum dos dois pontos mencionados acima. Quando ocorrem essas rupturas, não há restauração possível. O Cristo e o Apóstolo eram clarividentes; eles viram que nenhuma ruptura ocorrera nos casos mencionados, por isso, disse: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo”. Eles também possuíam o poder de forçar o Ego a retornar a seu Corpo Denso e restaurar a condição normal. Assim, os chamados milagres foram realizados por eles.
(Pergunta nº 113 do Livro “Filosofia Perguntas e Repostas – Volume I” – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: Jo 11:11
[2] N.T.: onde está o Átomo-semente do Corpo de Desejos, na posição referencial do fígado físico.
[3] N.T.: também chamado de nervo vago.
Ao contrário do que é costume fazer-se devemos ver o Evangelho Segundo São João como um todo, buscando analisá-lo em seus pontos principais. Desde os primeiros capítulos, vê-se pela composição e pelo estilo, que esta obra é o documento mais completo que existe no mundo. Porém, não é com uma leitura superficial que se verificará essa asserção. É mister compreender-se o que está oculto em suas palavras.
Notemos que o Evangelho enumera sete milagres até a ressurreição de Lázaro:
Partamos de um ponto chave, para esboçar o estudo deste último e maravilhoso acontecimento: “Os chefes dos sacerdotes decidiram, então, matar também a Lázaro” (Jo 12:10). Por que matar a Lázaro? Cristo-Jesus havia beneficiado outros e os sacerdotes não procuraram matá-los… Isto nos leva a conclusão de que o ato da ressurreição de Lázaro foi a prova pública, dada por Cristo, de que a Iniciação estava aberta para todo aquele que quisesse. Ora, isso era a derrocada do regime sacerdotal. Só havia, pois, uma solução: matar o autor e também a obra, para que nenhum testemunho ficasse. Mas, façamos um estudo mais detalhado.
Dentre os milagres acima enumerados atribuídos a Cristo-Jesus, devemos dar um significado muito especial à ressurreição de Lázaro. Tudo concorre para dar ao fato aí narrado o lugar principal no Novo Testamento. Lembremo-nos de que esse fato é citado no Evangelho Segundo São João apenas, isto é, o Evangelho que, desde suas palavras iniciais, reclama interpretação precisa de todo o seu conteúdo.
São João começa dizendo: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (…). E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade”. (Jo 1:1 e 14)
Quem inicia um relatório com tais palavras indica claramente que todo o relatório deve ser interpretado em sentido particularmente profundo. Não nos podemos cingir a raciocínios superficiais. Então, que o Apóstolo São João quis dizer com estas palavras de introdução? Disse claramente de algo eterno, que existia desde o começo. Os fatos narrados por São João não se endereçam à vista nem aos ouvidos; reclamam maturidade interior e lógica. O “Verbo” que agiu no princípio está oculto em todos os fatos. Os fatos são, para ele, os veículos nos quais se exprime em sentido superior. Pode-se, pois, supor, que por baixo do fato da ressureição de um homem de entre os mortos (fato difícil de conceber pelos olhos, pelos ouvidos e pela inteligência material) esconde-se um sentido mais profundo.
A isso vem juntar-se outra coisa: não há nenhuma dúvida de que a ressurreição de Lázaro teve influência decisiva sobre a morte de Jesus. Pois, por que o fato de ter Cristo-Jesus ressuscitado um morto, tornou-O tão perigoso aos seus adversários? É preciso admitir, com efeito, que Cristo-Jesus fez algo particularmente importante para justificar palavras como estas: “Então, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: “Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais.” (Jo 11:47).
É preciso reconhecer que todo o Evangelho Segundo São João está envolto em um mistério. Verificaremos isto num instante. Se o seu conteúdo fosse tomado ao pé da letra, que sentido teriam estas palavras: “A essa notícia, Jesus disse: ‘Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus’” (Jo 11:4)? E o que dizer ainda destas palavras: “Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo; 11:25). Seria muito fútil acreditar que Cristo-Jesus quisesse significar: “Lázaro adoeceu para dar oportunidade a Jesus de mostrar sua arte”. Seria também muito fútil atribuir a Cristo-Jesus o pensamento de que a fé n’Ele fazia reviver os mortos. E que haveria de extraordinário num homem ressuscitado dentre os mortos e que depois da ressurreição continuasse a ser o mesmo de antes? E como poderíamos atribuir a esse homem o sentido dado pelas palavras: “Eu sou a ressurreição e a vida”? A vida e o sentido entram nas palavras de Cristo-Jesus se as tomarmos simbolicamente e, em seguida, de certo modo literalmente, tal como estão no texto. Cristo-Jesus não disse que Ele personificava a ressurreição havida com Lázaro e que Ele é a Vida que vive em Lázaro? Tome-se ao pé da letra o que é o Cristo no Evangelho de São João: “O Verbo feito carne“. Ele é o eterno que era desde o começo. Ora, se de fato Ele é a ressurreição, é também a vida primordial que foi despertada em Lázaro. Trata se aqui de uma evocação do “Verbo” eterno e este Verbo é a Vida a qual Lazaro foi despertado. Trata-se de uma doença que não leva a morte, mas a “glória de Deus”. Se o Verbo eterno ressurgiu em Lázaro, então, todo esse acontecimento manifesta a glória de Deus, de vez que, por esse processo, Lázaro tornou-se outro. Antes disso, o Verbo, o Espírito, não vivia nele; agora, o Espírito nele vive. Esse espírito foi gerado em sua alma.
É claro que todo nascimento é acompanhado de doença. Ora, essa doença não leva à morte, mas a uma vida nova.
Onde está o túmulo onde nasceu o Verbo? Para responder a esta pergunta basta pensar no iniciado Platão[1], que chama o corpo do ser humano de “o túmulo da alma”. E Platão falou também duma espécie de ressurreição quando fez alusão ao despertar da vida espiritual no corpo. O que Platão chamou de “alma espiritual”, São João o designa por Logos, Verbo ou a Palavra. Platão poderia ter dito “quem se torna espiritual ressuscitou o divino do túmulo de seu corpo”. E para São João a vida de Cristo é essa Ressurreição. Nada de espantoso, pois ele disse de Cristo: “Eu sou a Ressurreição”.
Não há como duvidar de que o episódio de Betânia é uma ressurreição no sentido espiritual. É bastante caracterizar esse fato com as palavras dos que se iniciaram nos mistérios, e seu sentido logo aparece. Que disse Plutarco[2] do propósito desses mistérios? Que eles serviam para desprender a alma da vida corporal e uni-la ao Divino. E eis como Schelling[3] descreve as sensações de um Iniciado: “O Iniciado tornava-se pela Iniciação um membro da cadeia mágica; era recebido num organismo indestrutível e, como exprimem as velhas inscrições, associado ao exército dos deuses superiores. Não se pode designar de modo mais significativo a reviravolta que se produzia na vida do ser humano que recebia a Iniciação, do que pelas palavras de Edésio[4] a seu discípulo, o imperador Constantino: “Um dia, quando tomares parte nos Mistérios, terás vergonha de teres nascido como ser humano”.
Quando nossa alma ficar penetrada por esse sentimento, o acontecimento de Betânia aparecerá em sua verdadeira luz. Então, a narração de São João nos fará viver algo em particular. Mal se entreve a certeza de que não podemos dar nenhuma interpretação, nenhuma explicação racional. Um mistério, no verdadeiro sentido da palavra está diante de nossos olhos. “O Verbo Eterno” penetrou em Lázaro. Ele tornou-se, falando na linguagem dos Mistérios, um verdadeiro Iniciado. E o acontecimento que São João nos conta é um fenômeno de Iniciação.
Imaginemos a cena como sendo uma Iniciação. Cristo Jesus ama Lázaro. Não é uma amizade no sentido vulgar da palavra. Isso seria contrário ao sentido do Evangelho Segundo São João, onde Cristo-Jesus é “O Verbo”. Cristo-Jesus amou Lázaro porque viu que ele estava “maduro”, pronto para despertar do “Verbo” em si. Existiam relações entre Cristo-Jesus e a família de Lázaro. Isso quer dizer que Cristo havia preparado tudo nessa família para o ato final do drama: a ressurreição de Lázaro. Este é o discípulo de Cristo-Jesus. É um discípulo no qual Cristo-Jesus tem a certeza de que a ressureição se completará. O último ato da ressureição consistia em uma ação simbólica. O ser humano não devia compreender apenas as palavras: “morre e volta”; devia justificá-las com um ato. Devia repelir sua parte terrestre, aquela da qual o indivíduo superior, no dizer dos mistérios, deve ter vergonha. O ser humano terrestre devia morrer. Seu corpo era mergulhado durante três dias num sono letárgico. Prodigiosa transformação vital, então, se produzia nele. Mas esse processo dividia a vida do místico em duas partes. Quem não conhece, por experiência própria, o conteúdo superior de semelhante ato, não o pode compreender. Pode apenas ter uma ideia aproximada por meio de uma comparação.
Resumamos, por exemplo, em algumas palavras, a substância da tragédia do Hamlet, de Shakespeare. Quem compreendeu esse resumo, pode dizer que conhece Hamlet, em certa medida. Pela lógica, conhece-o de fato. Outro conhecimento, porém, teria quem assistisse ao desenrolar de toda a tragédia, com toda a sua riqueza. Este teria compreendido sua essência e nenhuma descrição poderia substituir a sensação viva obtida por ter assistido ao desenrolar da tragédia. Para ele, Hamlet tornou-se um acontecimento artístico, uma experiência da alma.
O que se passa na imaginação do expectador durante uma representação dramática passa-se no ser humano, em plano superior da consciência, no acontecimento mágico e significativo da ressurreição que é o coroamento à Iniciação. O ser humano vive simbolicamente em si aquilo que adquiriu espiritualmente. O Corpo Denso está, de fato, morto durante três dias. Do seio da morte brota a nova vida. A alma imortal sobrevive à morte. Ela surge com a consciência de sua imortalidade, pois venceu a morte.
Foi isso que aconteceu com Lázaro. Cristo-Jesus o havia preparado para a ressurreição. A doença de que se fala no Evangelho de São João é, ao mesmo tempo, simbólica e real. É uma prova da Iniciação que deve conduzir o Iniciado, depois de um sono de três dias, a uma vida verdadeiramente nova.
Lázaro estava pronto para sofrer esta metamorfose em si mesmo. Veste a túnica de linho dos místicos, cai na letargia, que é o símbolo da morte. Adoece na cripta. Quando Cristo-Jesus chegou já se haviam passado três dias. Tiraram, pois, a pedra. E Cristo-Jesus, levantando os olhos para o Céu, disse: “Pai graças Te dou, por me haveres ouvido” (Jo 11:41).
O Pai havia ouvido Cristo-Jesus, pois Lázaro chegara ao ato final do grande acontecimento. Tinha reconhecido como chegar a ressureição. Acabava-se de cumprir uma Iniciação aos Mistérios. A Iniciação, como era feita na antiguidade, se havia consumado à luz do dia, publicamente. Cristo-Jesus fora o Iniciador.
As palavras de Cristo-Jesus que se seguiram a esse ato, são significativas: “Eu sabia que sempre me ouves; mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste.” (Jo 11:42). No fundo, este acontecimento era para Cristo-Jesus o meio e não o fim. Ele o provocou, para que os que não criam na ressurreição, senão como uma cerimônia, acreditassem na Sua palavra. Para Ele, o principal é a ressurreição da alma, da qual a ressurreição do corpo é apenas o símbolo. Conclui-se, portanto, que haveria outra ressurreição e que esta era exatamente a do próprio Cristo. Mas, a ressurreição deveria produzir efeito sobre toda a humanidade. Deveria ser para todos os indivíduos, o que era para os Iniciados, a Iniciação nos mistérios. Lázaro, o ressuscitado, devia ser o testemunho consciente do grande acontecimento histórico da ressurreição de Cristo. Em Cristo-Jesus a tradição personificou-se. E o evangelista assim teve o direito de dizer: “n’Ele o Verbo se fez carne”. Teve o direito de ver em Cristo-Jesus um mistério corporificado. Eis porque o Evangelho Segundo São João é um mistério. É preciso lê-lo pensando que os fatos nele narrados são de natureza espiritual.
Na exclamação de Cristo: “Lázaro, sai para fora” pode-se reconhecer a voz dos Iniciadores antigos, chamando à vida de todos os dias, seus discípulos colocados no túmulo e mergulhados no sono letárgico para morrer para as coisas terrestres e receber o mundo divino num êxtase. Mas Cristo-Jesus havia divulgado o segredo dos mistérios. Havia tornado pública a Iniciação, privilégio de determinada casta.
Compreende-se, pois, que os Judeus quisessem punir tal atitude e buscassem meios de matar, não somente Cristo-Jesus, senão também a Lázaro (Jo 12:10). Mas Cristo-Jesus não dava nenhuma importância ao processo exterior da Iniciação: “ Eu sabia que sempre me ouves; mas digo isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que me enviaste.” (Jo 11:42).
Na Iniciação antiga provocava-se a convicção da imortalidade da alma por processos sábios e secretos. Antigamente se podia dizer: “Felizes os Iniciados; pois eles viram”. Mas, Cristo-Jesus queria dar essa felicidade a todos. Por isso, Ele fez dizer pela boca do Apóstolo: “Felizes os que não viram, mas que, assim mesmo, creram“[5].
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – outubro/1967 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental.
[2] N.R.: historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo médio platônico grego.
[3] N.R.: Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling foi um filósofo alemão, um dos representantes do idealismo alemão.
[4] N.R. filósofo neoplatônico e místico.
[5] N.R. Jo 20:29
Um correspondente deseja saber o que determina a época da Páscoa a cada ano e, sendo maçom, também deseja saber qual a conexão entre a ressurreição de Cristo na Páscoa e a ressurreição de Hiram Abiff na simbologia maçônica.
Terminada a nossa série sobre a Iniciação Cristã Mística, continuaremos o assunto com outro artigo que trata da Iniciação e se chama “Maçonaria e Catolicismo”. Nesses artigos, o assunto mencionado por nosso correspondente será amplamente debatido. Enquanto isso, esboçaremos brevemente a lenda maçônica que é necessário conhecer para compreender o assunto a que se refere.
A lenda maçônica diz que no início Iahweh criou Eva e o espírito de Lúcifer, Samael, uniu-se a ela; dessa união nasceu Caim. Então Samael deixou Eva e ela se tornou virtualmente uma viúva; assim, Caim era filho de uma viúva e dele descenderam todos os artesãos do mundo, incluindo Hiram Abiff, o grande mestre-de-obras do templo de Salomão, a quem Iahweh revelou o projeto para o Seu templo; mas, Salomão foi incapaz de executar o projeto e, portanto, compelido a contratar Hiram Abiff, um artesão exímio, filho de Caim e, portanto, filho de uma viúva.
Os elevados maçons místicos reconhecem o fato de que, do ponto de vista cósmico, Hiram Abiff é simbolizado pelo Sol. Enquanto o Sol (Hiram) está nos Signos do norte — Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão e Virgem — ele está entre amigos e seguidores fiéis, mas quando, no decorrer do ano, ele entra nos Signos do sul — Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes — ele é atacado pelos três conspiradores, conforme registrado na lenda maçônica, e finalmente morto no Solstício de Dezembro, para ser novamente ressuscitado enquanto sobe em direção ao equador, que ele cruza no Equinócio de Março.
A lenda maçônica relata que a Rainha de Sabá viajou de longe para ver o sábio Salomão de quem ela tanto ouvira falar. Ela também viu o belo templo e quis ver o exímio artesão, o mestre-de-obras e seus operários, que haviam forjado tal maravilha. Mas, sempre houve inimizade entre os filhos de Caim e os filhos de Seth. Mesmo quando eles cooperaram, nunca confiaram totalmente um no outro e Salomão temia que sua bela noiva pudesse se apaixonar por Hiram Abiff; portanto, ele se esforçou para chamar os trabalhadores pessoalmente, mas nenhum respondeu. Eles “conheciam a voz do seu pastor”, Hiram Abiff (o Sol em Áries, o Signo do cordeiro). Eles foram treinados para obedecer ao seu chamado e não atenderiam a outra voz. Portanto, Salomão foi finalmente forçado a mandar chamar Hiram Abiff e pedir que ele chamasse seus artesãos; no momento em que ergueu o seu martelo (1 grau de Áries, que é o Signo de sua autoridade e exaltação), eles vieram em uma multidão que não poderia ser contada, cada um ansioso para fazer a sua vontade.
Em meados de março o Sol (Hiram) ingressa em Áries a 1 grau, Signo de sua Exaltação. Esse Signo tem a forma do martelo que Hiram ergueu e todos os trabalhadores do templo (o Universo) correm para cumprir suas ordens e continuar seu trabalho, quando ele ascender ao trono de sua dignidade e autoridade nos céus do Norte. Ele é o seu pastor porque no Equinócio de Março ele entra no 1° grau de Áries, o Signo do carneiro ou cordeiro. Eles o ouvem, mas essas forças da natureza assumem o comando de ninguém menos que o Sol em Áries, o Sol da Páscoa.
Essa é a interpretação cósmica, mas de acordo com a Lei da Analogia, Hiram, o filho de Caim, também deve ser elevado a um grau superior de Iniciação e somente o Espírito-Sol, prestes a subir aos céus, poderia realizar a façanha. Portanto, Hiram renasceu como Lázaro e foi levantado pelo forte aperto da pata do Leão. Ele havia sido um líder dos artífices durante o regime de Iahweh e Seu filho Salomão. Por essa Iniciação ele foi elevado com o propósito de ser um líder no Reino de Cristo e ajudar as mesmas pessoas em uma fase superior de sua evolução. Portanto, ele se tornou Cristão, encarregado de explicar os mistérios da Cruz e como símbolo desse mistério a Rosa foi adicionada a ele; essa missão foi incorporada em seu nome simbólico, Christian Rosenkreuz.
Em geral, a rosa é chamada de emblema do mistério; mas, a maioria das pessoas não sabe que essa adição da rosa à cruz foi a origem desse significado simbólico. A rosa é o emblema do mistério da cruz porque explica o caminho da castidade, a transmutação do sangue da paixão em amor. Lázaro, portanto, tornou-se Cristão Rosa-Cruz e os Rosacruzes são os mensageiros especiais de Cristo para os filhos de Caim, como Jesus é para os filhos de Abel.
Os fariseus sabiam muito sobre a origem oculta dessas duas classes da humanidade e, portanto, o milagre de Lázaro foi para eles o grande crime do Cristo. Eles ficaram seriamente alarmados com o fato de que sua Religião nacional seria substituída por outra, se mais sinais fossem realizados, pois eles sentiram que fosse uma Iniciação de natureza mais elevada do que eles conheciam e um presságio da entrada em um ciclo superior. Antes de Cristo, todas as Religiões eram Religiões de Raça, adequadas às pessoas a quem foram dadas e apenas a elas. Todas essas Religiões eram Religiões de Iahweh, pois assim como o Pai foi o mais elevado Iniciado do Período de Saturno e Cristo, o Filho, foi o mais elevado Iniciado do Período Solar, Iahweh, o Espírito Santo, foi o mais elevado Iniciado do Período Lunar. De Iahweh, então, vêm as Religiões de Raça, que se empenham em preparar a humanidade no caminho da evolução por meio da lei. Essas Religiões de Raça serão substituídas pela Religião universal do Espírito-Sol Cristo, que unirá todos os seres humanos em uma fraternidade. A mudança de uma para outra e o fato de que a Religião do Deus lunar Iahweh deve preceder a Religião do Espírito-Sol Cristo é simbolizada pela maneira como a Páscoa é determinada.
A regra em uso atual para determinar o tempo da Páscoa é que ela aconteça no primeiro domingo após a Lua Cheia pascal. Isso foi adotado pelos primeiros Cristãos, que tinham conhecimento e consideração pelo significado oculto, mas logo pessoas ignorantes começaram cismas e fixaram-na em diferentes épocas. Isso ocasionou grande controvérsia. No segundo século surgiu uma disputa sobre esse ponto entre as Igrejas orientais e ocidentais. Os Cristãos orientais celebravam a Páscoa no 14º dia do primeiro mês ou Lua judaica, considerando-a equivalente à Páscoa judaica. Os Cristãos ocidentais celebravam no domingo, após o 14º dia, sustentando que fosse a comemoração da ressurreição de Jesus.
O Primeiro Concílio de Nicéia, 325 d.C., decidiu a favor do uso ocidental, marcando a prática oriental com o nome de heresia. Isso, no entanto, apenas estabeleceu a norma de que a Páscoa não deveria ser celebrada em um determinado dia do mês ou da Lua, mas em um domingo. O ciclo astronômico adequado para calcular a ocorrência da Lua da Páscoa ainda não tinha sido determinado, mas eles finalmente adotaram o antigo método de fixar o festival pela Lua e, assim, o antigo costume original foi finalmente revivido. Dessa forma, a Páscoa, agora, é celebrada no mesmo dia exigido pela tradição oculta e necessária para simbolizar adequadamente o significado cósmico do evento. A esse respeito, tanto o Sol quanto a Lua são fatores necessários, porque a Páscoa não é meramente uma festa solar. O Sol não deve apenas ultrapassar o Equador, como acontece em 21 de março, mas também a Lua Cheia após o Equinócio de Março, e então o domingo seguinte é a Páscoa, o dia da Ressurreição. A luz do Sol de Março ou Abril deve ser refletida por uma Lua Cheia antes que esse dia possa raiar na Terra e há, como foi dito, um profundo significado oculto por trás desse método de determinar a Páscoa; a saber, que a humanidade não está suficientemente evoluída para ter a Religião do Sol, a Religião Cristã da fraternidade universal, até que ela tenha sido totalmente preparada através das Religiões da Lua, que segregaram e separaram a humanidade em grupos, nações e raças; isso é simbolizado pela ascensão anual do Espírito do Sol na Páscoa, sendo adiada até que a Lua Jeovística tenha refletido completamente a luz do Sol da Páscoa.
Todos os fundadores das Religiões de Raça — Hermes, Buda, Moisés, etc. — foram Iniciados nos mistérios jeovistas. Eles eram Filhos de Seth. Em sua Iniciação, eles foram animados por seu Espírito de Raça particular e Ele, falando pela boca de tal Iniciado, deu leis a seu povo, como, por exemplo, o Decálogo de Moisés, as leis de Manu ou as nobres verdades de Buda. Essas leis manifestavam pecado porque o povo não as guardava e não podia mantê-las em seu estágio de evolução. Em consequência disso os povos fizeram uma certa dívida de destino. Esse destino, o Iniciado humano fundador da Religião teve que assumir e então precisou nascer de novo e de novo para ajudar seu povo. Assim, Buda nasceu como Shankaracharya e teve vários outros renascimentos. Moisés renasceu como Elias e João Batista; mas Cristo, por outro lado, não precisava nascer, em primeiro lugar. Ele o fez de livre e espontânea vontade para ajudar a humanidade, para revogar a lei que traz o pecado e emancipar a humanidade da lei do pecado e da morte.
As Religiões de Raça do Deus lunar Iahweh transmitiam a vontade de Deus à humanidade de maneira indireta por meio de videntes e profetas, que eram apenas instrumentos imperfeitos como os raios lunares que refletem a luz do Sol. A missão dessas Religiões é preparar a humanidade para a Religião universal do Cristo Sol-Espírito, que Se manifestou entre nós sem intermediário, como a luz que vem direto do Sol, e “vimos a Sua glória como o unigênito do Pai”, quando ensinou o Evangelho do Amor. A Religião Cristã não oferece leis, mas prega o Amor como o cumprimento da lei; portanto, nenhuma dívida de destino é gerada sob ela e assim, o Cristo, que não teve necessidade de nascer, não será atraído para o renascimento sob a Lei de Consequência, como foram os fundadores das Religiões lunares da Raça, que devem carregar de vez em quando os pecados de seus seguidores. Quando Ele aparecer, será em um corpo feito dos dois Éteres superiores — o Éter de Luz e o Éter Refletor — o Dourado Manto Nupcial, chamado de soma psuchicon ou Corpo-Alma por São Paulo, que é muito enfático em sua afirmação de que “carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus”. Ele afirma que seremos transformados e seremos semelhantes a Cristo; ora, se não podemos entrar no Reino em um corpo carnal, seria absurdo supor que o Rei da Glória usaria uma roupa tão grosseira e pesada!
O Sacerdócio, do qual Iahweh tirou Seus representantes, os profetas, os fundadores de Religiões e os construtores de templos espirituais, são os Filhos de Seth. Os Filhos de Caim ainda sentem no peito a natureza divina do seu ancestral; eles repudiam o método indireto de salvação pela fé da Igreja e insistem em encontrar a luz da Sabedoria eles mesmos pelos métodos diretos do trabalho, aperfeiçoando-se nas artes e ofícios e construindo o templo da civilização material pela indústria e estadismo, de acordo com o plano de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, sendo Cristo “a principal Pedra Angular” e cada maçom místico uma “pedra viva”.
Com o tempo, porém, essas duas grandes correntes dos Filhos de Seth e dos Filhos de Caim devem se unir para alcançar os portais do Reino de Cristo. Antes do Seu tempo, não havia como tal amálgama ocorrer, mas quando Cristo, o grande Espírito do Sol, veio, Salomão renasceu como Jesus, em quem o Cristo-Espírito entrou no Batismo e Hiram Abiff renasceu como Lázaro. Quando Lázaro foi levantado pelo forte aperto da pata do Leão de Judá, Hiram e Salomão, os antigos antagonistas, apagaram suas diferenças, conforme solicitado pelo Espírito de Cristo, e ambos estão trabalhando agora para o estabelecimento do Reino de Cristo. Foi isso que os fariseus, de alguma forma, sentiram ou presumiram e daí seus temores de que esse Jesus iniciaria muitas pessoas e as retiraria da Religião de Raça com a qual eles (os fariseus) estavam fiéis seguidores.
(por Max Heindel – Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de maio/1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)