Há muito roceiro filósofo. Fomos visitar o sítio de um amigo. Mostrou-me todo ele. Uma beleza! A seu lado éramos como uma criança curiosa e ignorante a perguntar-lhe sobre as coisas que via. Muitas observações colhemos no bornal de nossa alma.
Hoje citaremos uma assas interessante, sobre a poda. Perguntei-lhe por que agora, no inverno, ele estava podando. Sua explicação foi uma aula de Astrologia e Filosofia Rosacruz, se bem seu curso tenha sido apenas a Natureza, ou melhor, apenas não, mas a sapientíssima Mestra Natureza, que nos ensina com atos e exemplos.
No inverno a força solar diminui e a seiva deixa de correr. É por isso que ao fim do outono as folhas vão caindo e os troncos ficam desnudos e aparentemente mortos. Também nas minguantes a seiva deixa de subir. Cortam-se então os galhos e as árvores, porque a madeira não está carregada de seiva e, assim, não apodrece depois.
No inverno e na Lua Nova a atividade é interna, seja nas plantas como nos animais e nos seres humanos. É quando crescem ocultamente as batatas e tubérculos e, semelhantemente, dentro de nós, há incentivo para formarmos a “batata” de nossa alma. O verão e a Lua Crescente, ao contrário, predispõem ao crescimento externo das folhas e frutos, porque faz ascender à seiva e a força vital para exteriorizá-las em bênçãos do verbo que se faz carne.
Mas, há ciência e medida na poda. Cortar demasiado a planta dá muitos frutos, mas enfraquece-se e pode até morrer. Se não é podada, ela utiliza a força vital e a seiva no desenvolvimento de seu corpo. A videira, se não é podada, não pode dar uvas de bagos grandes e sumarentos, senão muitos cachinhos de pequenos bagos.
Assim, também, nós em relação à força criadora, ou seja, nós em relação ao nosso Cristo interno. Como aprendemos nos nossos Estudos Bíblicos Rosacruzes: “Eu sou a videira e vós sois as varas” (Jo 15:5).
Isto quer dizer que, seja do ponto de vista físico, seja do espiritual, a regra é sempre a mesma: nós somos um mediador, na medida em que aprendemos a obedecer ao Cristo, mais legitimamente vamos utilizando os talentos de nossas forças internas, através dos nossos pensamentos, desejos, sentimentos, nossas emoções, palavras, obras, ações e nossos atos. O poder é o fluxo dessas forças internas. A condição para que elas fluam através de nós é a identificação com o que realmente somos, um Ego, e o desapego das coisas materiais.
A poda, em nós, significa o controle exercido sobre nós mesmos, de modo a encaminhar nossas forças para os nossos frutos, para os “negócios do Senhor”, pois a força é sempre a mesma e se vai para a satisfação dos impulsos corporais e instintivos, faltará ao outro lado.
Uma pessoa glutona especializará maior quantidade de Éter Químico no metabolismo, em detrimento especial do Éter Luminoso, seu correspondente superior, que rege as capacidades sensoriais; outro que abuse do sexo aumentará o Éter de Vida, em prejuízo, do Éter Refletor, sua contraparte superior, que governa a memória e possibilita o pensamento.
A ciência já comprovou que o irmão ou a irmã com deficiência intelectual tem pouco fósforo na massa encefálica, enquanto o irmão ou a irmã que não tem nenhuma deficiência intelectual tem bastante. No entanto, não é a simples ingestão de alimentos ricos em fósforo que torna o indivíduo mais dotado mentalmente. O que determina a capacidade de assimilarmos o fósforo é a condição anímica, isto é, a pessoa mais pura e racional emprega a força sexual criadora em atividades mentais construtivas e com isso faz crescer a Alma Intelectual, dando a seu organismo uma maior capacidade de assimilação do elemento fosfórico.
Assim ocorre em relação aos sentidos, pois o glutão como o erótico, bestializa as funções, exigindo maior convergência dessa energia para seus propósitos egoístas e desse modo perde a acuidade sensorial, o senso de observação, a sensibilidade, tão necessárias ao nosso desenvolvimento espiritual, de vez que precisamos de um veículo dócil e sensitivo ao nosso manejo, como um carpinteiro de ferramentas boas e afiadas.
Mas, não vamos aos extremos. A perfeição não é condição deste mundo. A castidade absoluta, por outro lado, não é exigida, senão nas Iniciações Maiores ou Iniciações Cristãs. Precisamos apenas ser racionais e equilibrados.
Comer sim, para viver, e não viver para comer. Não é só. Os alimentos tóxicos e os excitantes não só nos brutalizam e impedem a manifestação maior do que realmente somos, um Ego, como abrem caminho para os vícios em bebidas alcoólicas, drogas e a prática do erotismo.
No entanto, agindo em detrimento do Éter Luminoso, a gula altera o calor sanguíneo e, como nos manifestamos através do sangue, por uma temperatura normal, ou sofreremos pelo excesso de calor, podendo até sermos arrojados do nosso Corpo Denso nas crises de ira, ou ficaremos limitados pela falta de calor, como quando estamos com anemia.
Quanto ao Éter de Vida, que rege a procriação, sabemos bem, pelos Ensinamentos Rosacruzes, que ele constitui o “azeite” mencionado na Parábola das Virgens prudentes[1], pois, mediante a castidade racional evitamos que essa força sexual criadora desça para alimentar os hábitos eróticos e, pelo poder ascensional dos pensamentos puros, das preces e sentimentos idealistas, provocamos a elevação dessa força sexual criadora, que flui na medula espinhal (conhecida como o fogo espinhal de Netuno) ao cérebro, o lugar da caveira, o Gólgota onde Cristo – o aqui nós, o Ego – morrendo para o mundo nos livrou de sua parte humana, para dispô-Lo ao serviço do Ego. Antes da primeira vinda de Cristo, no Tabernáculo no Deserto, o cérebro, com o Corpo Pituitário e a Glândula Pineal (os dois Querubins da sala Ocidental), precisava da luz divina que se acende com o “azeite” da força criadora não empregada e elevada pela pureza, pois a simples economia da força não basta, ela necessita ser elevada por nossa aspiração espiritual.
O cérebro e laringe foram constituídos por metade da força sexual criadora, quando houve divisão dos sexos.
Na Astrologia Rosacruz o sexo é governado por Escorpião e seu oposto, Touro, dirige as atividades da laringe, da palavra. Vejam a relação: o ascendente gás espinhal netuniano ilumina a escura câmara ocidental de nosso Tabernáculo e nos capacita a usar, com sabedoria, as “Tábuas da Lei”, isto é, a viver de acordo com as Leis de Deus, empregando-as em nosso amoroso serviço em benefício dos nossos semelhantes, mediante o poder – a “Vara de Aarão” – pois quem agirá dentro de nós não será a nossa parte humana, senão nós, o Ego, o “Maná” caído do céu, a centelha de Deus que nos constitui um Espírito Virginal da Onda de Vida humana individual, e que nos faz à imagem e semelhança de nosso Criador, Deus. Essa iluminação, no Tabernáculo no Deserto, instituído por Moisés, pressupunha o sacrifício das paixões inferiores (Altar dos Sacrifícios), a pureza (Lavabo de Bronze), e serviço desinteressado aos demais (incenso extraído dos Pães da Proposição). Por isso, no Templo de Salomão havia o mesmo Querubim com uma flor nas mãos, símbolo de pureza e geração casta. Esse templo foi construído por Hiram Abiff (que renasceu depois como Lázaro, iniciado por Jesus e, mais tarde, como Christian Rosenkreuz), sem ruídos de martelos, silenciosamente. Todo indivíduo, pois, mediante os passos recomendados no livro Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz, pode percorrer esse glorioso caminho, como jardineiro de si mesmo, podando sabiamente, controlando perfeitamente seus veículos, de modo a, sem alarde, discreta e virtuosamente, chegar a fazer o que fez Cristo e coisas ainda maiores.
Vejam o que é a analogia. Pode-se acrescentar muitos mais detalhes aprendidos à Filosofia Rosacruz. Faça-o! A Natureza é uma fonte inesgotável de inspiração. Não só inspirou o radar pelo voo cego do morcego; como o planador, pelo voo do urubu, e todas as outras questões de ordem material ou metafísica, desde que tenhamos as portas abertas para o que realmente somos, um Ego, e os ouvidos abertos a nossa voz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1964 – Fraternidade Rosacruz – SP)
[1] N.R.: ou a Parábola das Dez Virgens: O Reino dos Céus será, pois, semelhante a dez virgens que pegaram suas candeias e saíram para encontrar-se com o noivo. Cinco delas eram insensatas, e cinco eram prudentes. As insensatas pegaram suas candeias, mas não levaram óleo. As prudentes, porém, levaram óleo em vasilhas, junto com suas candeias. O noivo demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram. “À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo se aproxima! Saiam para encontrá-lo!’. “Então todas as virgens acordaram e prepararam suas candeias. As insensatas disseram às prudentes: ‘Deem-nos um pouco do seu óleo, pois as nossas candeias estão se apagando’. “Elas responderam: ‘Não, pois pode ser que não haja o suficiente para nós e para vocês. Vão comprar óleo para vocês’. “E saindo elas para comprar o óleo, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial. E a porta foi fechada. “Mais tarde vieram também as outras e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abra a porta para nós!’ “Mas ele respondeu: ‘A verdade é que não as conheço!’. “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora!’ (Mt 25:1-13).
Apelando para a sabedoria popular, costuma dizer nosso “caipira”: “para conhecermos alguém é preciso comermos juntos um saco de feijão”, isto é, conviver durante um tempo razoável com ele. De fato, a convivência traz a intimidade e esta nos revela a pouco e pouco as fraquezas e virtudes de seu caráter.
E como ainda uma grande maioria das pessoas está engatinhando no Cristianismo Esotérico e “bebendo do leite da doutrina”, tem a tendência inferior de ver e exaltar os defeitos e se lembrar pouco das virtudes.
A Filosofia Rosacruz nos ensina que todos nós, mesmo os selvagens, temos algo de bom, que deve ser exaltado e cultivado. No livro Conceito Rosacruz do Cosmos – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz estudamos um trecho de uma história em que Cristo e seus Discípulos, passando pelo cadáver em putrefação de um cachorro, disse: “As pérolas são menos alvas que seus dentes”. Num espetáculo que parecia inteiramente nauseabundo e feio encontrou Ele motivo de beleza, porque sabia dos benéficos efeitos que produzia sobre o Mundo do Desejo, ao “procurar o bem em todas as coisas”. E no fim de nosso Ritual do Serviço Devocional do Templo repetimos sempre que o oficiamos: “esforcemo-nos por esquecer, diariamente, os defeitos dos nossos irmãos e procuremos servir a divina essência neles oculta, o que constitui a base da Fraternidade”.
No entanto, verificamos todos os dias que muitos de nós, Estudantes Rosacruzes, nos esquecemos desses princípios e nos deixamos arrastar pelos antigos hábitos de crítica destrutiva. Ora, um hábito com outro se corrige. Não é possível conciliarmos hábitos errados do passado com a formosa Filosofia Rosacruz. “Não se põe remendo novo em vestido velho” (Mt 9:16, Mc 2:21 e Lc 5:36), senão, que “devemos morrer todos os dias” (ICor 15:31) nas coisas erradas para formar o novo ser humano.
Aqueles que entram na Fraternidade Rosacruz e dela se afastam quando percebem um defeito em outro irmão ou em outra irmã não compreendeu que constituímos uma Escola de ensino e prática do Cristianismo Esotérico, ou seja, de aperfeiçoamento Cristão e, apesar de nossas falhas e defeitos, procuramos fazer o melhor possível.
Além disso, o que nos deve fixar na Fraternidade Rosacruz não são as pessoas, mas o ideal Rosacruz. É verdade que devemos dar o melhor exemplo possível, “dentro de nossas forças”, pois, os principais colaboradores estão, de certo modo, como a cidade edificada sobre o monte ou o lampião do velador (Mt 5:14-15), algo destacados e mirados pelos principiantes como indivíduos melhores. Daí, muitas vezes, a decepção e afastamento de um novo Estudante Rosacruz quando percebe neles algum defeito.
Repetimos: busquemos cada um o ideal Rosacruz, ou seja, cumprir o programa de aperfeiçoamento interior que por si não dá tempo para reparar nos outros – pois há muito que aprender e praticar – e procurar ver em tudo o que há de bom (que sempre existe).
Errar é próprio de cada um de nós e pelo fato de alguém entrar na Fraternidade Rosacruz não quer dizer que seja um santo ou que, após tantos anos por estar ali, se converta num Iniciado.
Afinal, quem se desilude é porque se iludiu primeiro. Quem ensina a por pedestais sob dirigentes? Max Heindel nos ensina que o mundo é uma escola – a Escola da Vida – e a Fraternidade Rosacruz uma escola que veio para lançar uma luz oculta sobre a mal-entendida Religião Cristã, e para explicar o mistério da Vida e do Ser do ponto de vista científico, em harmonia com a Religião, e onde são fornecidos a todos os meios de se elevarem com suas próprias forças (e não por forças externas) ao domínio de si mesmo e, desse modo, alcançar a possibilidade de cruzar os portais da Iniciação para a Ordem Rosacruz. Na Fraternidade Rosacruz aprendemos que até os Iniciados erram e é com isso que aprendem cada vez mais.
Não estamos defendendo as fraquezas nem os defeitos. Todos devemos nos esforçar para dar o melhor exemplo possível e se alguém escorrega, então o que devemos fazer como Cristãos é ajudá-lo de modo inteligente e construtivo e não o enterrar mais com as vibrações maléficas de nossos maus pensamentos e nossas más palavras de ferina crítica, pois sabemos que “todos colhem conforme semeiam” (Gl 6:7-8), tanto os que criticam como os que realmente erram.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – julho/1964 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Desde o momento em que suas pálpebras de bebê se abriram pela primeira vez para este mundo maravilhoso de beleza ao seu redor, ela foi o ídolo de corações amorosos — pais afetuosos, irmãos dedicados, amigos leais. Ela parecia ter sido criada para a felicidade — para amar e ser amada.
Seu corpo fora moldado pela mão de um artista, bela de rosto e forma, acompanhada de uma natureza profunda, ardente, verdadeira e, acima de tudo, aquele poder misterioso, o magnetismo pessoal, que inconscientemente atrai e mantém cativos todos os corações dentro do alcance do seu círculo. Apesar de tudo isso, ela viveu sua vida, no verdadeiro sentido, sozinha — contudo, não totalmente sozinha; ela vivia em um reino ideal feito por ela própria, pois ela nasceu já uma artista e musicista nata — uma idealista.
Em grande parte do tempo ela habitava a “Solidão da Alma” e quando em companhia, embora fosse muito sociável, sua conversa raramente dava qualquer indício do jardim encantado no qual vivia e construía seus castelos de ar.
Em um dia de verão, tendo a Mãe Terra coberta de verde como seu leito, sombreada pelos ramos pendentes do seu carvalho gigante e favorito, lar de um pássaro zombeteiro que derramava sua melodia fluida, ela permanecia deitada e sonhadora, observando as grandes nuvens ondulantes, brancas e felpudas como bancos de neve flutuando através do espaço azul, ilimitado e impenetrável, enquanto sua alma se esforçava intensamente para penetrar nos mistérios além dele.
No silêncio do crepúsculo místico, quando o grilo entoava seu canto melancólico e as miríades de estrelas cintilantes surgiam sobre o escuro dossel púrpura lá em cima, como diamantes espalhados por uma mão invisível, todo o seu ser se lançava em anseio por aquele “Algo” — indefinível, porém insistente, que ela soube intuitivamente ser sua herança divina.
As vibrações harmoniosas de som da Natureza eram para ela como uma música das esferas celestiais: o tamborilar das gotas prateadas de chuva, o tilintar do riacho murmurante, o vento suspirante, o mar com seu som, o rugido da catarata, as reverberações profundas do trovão… Tudo isso era, para ela, notas da Orquestra Eterna.
O mundo inteiro era, para ela, a Galeria de Arte de Deus. Toda a beleza da Natureza, suas montanhas enevoadas e veladas de púrpura, suas poderosas florestas com sua estranha melodia sussurrante, o mar entrelaçado com os raios cintilantes do luar, o glorioso pôr do Sol com o céu em chamas carmesins, douradas e púrpuras, desvanecendo-se nos tons opalinos de rosa, âmbar e lavanda — ah, tudo falava à sua alma do Infinito, do Desconhecido, pois “é da nebulosa terra de sombras do desconhecido que os Anjos vêm trazendo alimento às almas dos seres humanos”.
Da riqueza de sua natureza interior ela deu ao mundo incontáveis obras-primas de grandeza, beleza e emoção intensa, ajudando muitos a trazer à expressão seus poderes artísticos latentes; mediante seu toque mágico, vibrante com a melodia, ela encantava seus ouvintes, que eram balançados como juncos pela brisa de verão.
Assim, sua donzelice e jovem feminilidade terminaram com uma nota ocasional de tristeza e desapontamento mesclada ao seu “Salmo da Vida”[1]. Mas à medida que o tempo avançava, um a um ela via cada sonho e ideal da sua brilhante manhã acabar, cada castelo no ar se desfez, cada esperança acalentada ela viu murchar sob o sol escaldante do Saara e, por fim, as nuvens e sombras da aflição a envolveram até que não restasse sequer o mais tênue filete prateado; — como um mergulhador humano, ela havia sondado as mais íntimas profundezas da amargura mental e da angústia; havia sorvido “o cálice de absinto e fel” até as suas borras mais amargas… Um desespero negro se instalou nela como um sudário; verdadeiramente, ela se tornara uma mulher “de dores e familiarizada com a angústia e o sofrimento profundos”[2]. Seu sofrimento físico, muitas vezes, quase rompeu o Cordão Prateado e a alma, atormentada e aprisionada, ansiava e rezava pelo “Mensageiro Sombrio” que lhe concederia libertação. Mas tal fim não estava destinado a ela. As Leis de Deus operam perfeitamente. O que uma alma aprende, nada no Universo pode extrair dela.
Por meio da orientação de poderes invisíveis, ela foi conduzida a um Curador Auxiliar Invisível onde, tanto sua cura espiritual quanto a etérica foram realizadas (de modo que a parte física ela conseguiu restaurar) — uma foi chamada de “cura milagrosa”, pois essa alma havia sido uma errante afastada da Casa do Pai, tateando cegamente na escuridão em busca do Caminho que a levaria aos portais do seu Lar Celestial, ansiando por se reunir com o grande Espírito Divino do qual é uma Centelha, desejando o amor do Pai como “a agulha magnética anseia pela pedra-ímã que a atrai”; e quando o Portal fechado se abriu de par em par, uma torrente de luz brilhante e dourada irrompeu, envolvendo-a com sua glória sobrenatural — “a Luz reivindicou o que Lhe pertencia”, marcando um momento de profunda transcendência espiritual. A intensidade dessa iluminadora Luz de Amor era tão avassaladora que o próprio ar vibrava com ela, seu cérebro e nervos, seu sangue e músculos, todo o seu ser estremecia em uníssono com ela. Então se seguiu o êxtase devoto, o voo ascendente do Espírito aos Reinos espirituais, “vendo e comungando com o indizível”, onde veio a ela a plena percepção de que era um Ego (ou seja, um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui) —, que ela era parte de Deus, que não poderia haver morte e que ela havia alcançado a unidade com essa Fonte Divina de todo ser, onde lhe foram revelados os mistérios da Vida e do Ser, o propósito da dor e do sofrimento. Com esse conhecimento vieram a exaltação moral, a elevação intelectual e um sentimento indescritível de júbilo.
Após o desvanecer dessa maravilhosa visão, ao retornar ao mundo objetivo, permaneceu aquele raio de Luz, firme, raro e inefável, “além de todos os sinais, descrição ou linguagem”. Uma paz e alegria infinitas encheram o seu coração; ambições mundanas, cuidados e ansiedades morreram à luz da gloriosa verdade que lhe fora revelada e em seu lugar nasceu o desejo constante e o poder dinâmico de conduzir outros ao Caminho da Vida que ela encontrou: “ir adiante e levar sua paz consigo” para que também pudessem conhecer a alegria e a “paz que excede todo entendimento”[3] — para cumprir aquilo “para o qual ela fora enviada”.
Ao lançar um olhar retrospectivo sobre as tristezas e angústias profundas, decepções e experiências terríveis da sua vida passada, ela as reconheceu como degraus, apenas um meio para um fim: prepará-la e conduzir a uma vida ainda mais elevada – inspirá-la a algo ainda mais nobre e melhor em sua obra futura, melhor do que tudo em seu passado. Ela é capaz de considerar aquilo que parecia sofrimento interminável e intolerável como algo de curta duração, quando visto à luz de uma eternidade sem fim; ela se regozija na gloriosa vitória que finalmente foi sua ao atravessar o mar de amargura — sendo a vitória não apenas para esta vida, mas para toda a eternidade. Esse olhar retrospectivo que analisa o passado sombrio também serve para inspirá-la com a mais suprema reverência e amor pelo Ser Onipotente que tornou possível a uma alma alcançar as alturas às quais ela chegou e saber que, apesar da sublimidade presente nisso, é apenas uma seção da glória que virá.
Sua alma de artista compreende plenamente que o fascínio reside não na beleza do pôr do Sol, mas na beleza invisível que ele desperta interiormente; não nas harmonias ouvidas, mas nos sobretons inaudíveis; que por trás de todas as belas e grandiosas “ilusões” da Natureza encontramos os fatos mais profundos e mais doces que somente o amor e a inspiração podem apreender. Eles são as Mãos que acenam e a Voz que suplica que todos devam ver e ouvir antes de sentir, de conhecer o Amor plenamente satisfatório que desejam — antes que a União Eterna seja consumada.
À medida que o tempo passava, ela chegou à compreensão de que estivera sob um dos “Sete Espíritos diante do Trono” — uma das grandes e exaltadas Inteligências Espirituais que são Ministros de Deus e Se esforçam para cumprir a vontade d’Ele, sempre visando ao mais elevado e último bem — Saturno, “o Espírito da Negação: o Poder que ainda opera para o bem, embora planeje o mal”. Ele é, primeiro, “o provador” que retarda, dificulta, obstrui, prende, restringe, castiga e exige ao máximo paciência, tolerância, resistência, autocontrole e submissão, sem outro propósito senão a obtenção da perfeição por todos os seres humanos e todas as coisas.
Ele é o Executor do mandamento do Mestre: “Sede perfeitos como vosso Pai no Céu é perfeito”[4]. Portanto, na realidade, sua missão é a mais elevada de todos os “Anjos Estelares” ligados ao Mundo Físico, pois Ele finalmente conduz toda alma humana à verdadeira humildade e ao estado no qual tudo o que é material é removido para que os poderes latentes do “Eu Superior” (Individualidade) possam atravessar a ponte feita por Ele mesmo (Saturno) e caminhar em direção à Personalidade — aquele estado em que a vontade pessoal se rende à Vontade Divina —, reconhecendo a Vontade do Pai como o Amor supremo que tudo abrange e atrai todos os seres humanos para Si, dizendo: “Seja feita a Tua vontade”[5].
Ele então se torna o “Iniciador.” Ele é o Deus que nos faz ter o controle de tudo (especialmente o autocontrole), pois é o Regente de Capricórnio, o Signo do bode, e “estar no controle” implica Iniciação, consiste na tentação até o limite de tudo o que podemos suportar, provas que exigem o máximo da nossa resistência e, naturalmente, a superação, a sublimação.
Ele dissipou as névoas que a faziam “ver como por um espelho, obscuramente”[6]; as ilusões e desilusões deste mundo desapareceram como se tocadas por um dedo mágico; ela é capacitada a olhar além das falhas e limitações da Personalidade de cada ser humano e a ver o “Ser Perfeito” interior — o Espírito em sua beleza e perfeição divinas; a sentir aquela simpatia amorosa e compaixão semelhante à de Cristo, que sente as dores, angústias e os sofrimentos de toda criatura vivente; ao errante ela desejaria proteger e resguardar “como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas”[7], — sentindo aquele amor universal que irradia espontaneamente tanto para o santo quanto para o pecador, príncipe ou camponês; dando livremente, de bom grado, “sem dinheiro e sem preço”[8] da sua abundância — pois “dai, e dar-se-vos-á: uma boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, vos darão; porque com a medida que usardes, vos medirão a vós.”[9].
As experiências pelas quais ela passou manifestaram para ela a Inteligência Cósmica, fazendo dela a mensageira do Deus de Sabedoria e Luz, uma reveladora dotada de grandes poderes espirituais e discernimento, uma líder no grande coro do mundo, sempre pronta a ajudar os outros a encontrar a harmonia e a beleza da canção de suas próprias vidas — e ajudá-los a cantá-la.
Ela é, agora e verdadeiramente, “uma serva de todos”[10]: investindo sua vida em “dar um copo de água fresca”[11], uma palavra de consolo, uma mão que eleva, uma mensagem útil em serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) à Humanidade.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – setembro/1920, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil
[1] N.T.: Poema Salmo da Vida de Henry Wadsworth Longfellow
Não me digas em tristes versos
Que a vida é apenas um sonho vazio!
Pois a alma que adormece está morta,
E as coisas não são o que parecem.
A vida é real! A vida é sincera!
E a sepultura não é o seu alvo;
“Pó és e ao pó voltarás”
Não foi dito a respeito da alma.
Nem alegria nem tristeza
É o nosso destino ou fim traçado;
Mas agir para que cada amanhã
Nos encontre mais longe do que hoje.
A arte é longa, e o tempo é passageiro,
E os nossos corações, embora fortes e valentes,
Ainda, como tambores abafados, batem
Marchas fúnebres rumo ao túmulo.
No amplo campo de batalha do mundo,
No acampamento da vida,
Não sejas como o gado mudo e conduzido!
Sê um herói na luta!
Não confies no Futuro, por mais agradável que seja!
Deixa o Passado morto enterrar os seus mortos!
Age — age no Presente vivo!
Com o coração no peito e Deus no alto!
A vida dos grandes homens nos lembra
Que podemos tornar nossas vidas sublimes,
E, ao partir, deixar para trás
Pegadas nas areias do tempo;
Pegadas que talvez um outro,
Navegando pelo solene mar da vida,
Um irmão náufrago e desolado,
Ao ver, recobre o ânimo.
Vamos, então, agir e lutar,
Com o coração preparado para qualquer destino;
Sempre alcançando, sempre perseguindo,
Aprender a trabalhar e a esperar.
[2] N.T: Is 53:3
[3] N.T.: Fp4:7
[4] N.T.: Mt 5:48
[5] N.T.: Mt 6:10 e Lc 22:42
[6] N.T.: ICor 13:12
[7] N.T.: Mt 23:37 e Lc 13:34
[8] N.T.: Is 55:1
[9] N.T.: Lc 6:38
[10] N.T.: Mc 9:35
[11] N.T.: Mt 10:42 e Mc 9:41
Resposta: Isso depende. Quando uma pessoa se torna Clarividente Involuntária ou negativa para os casos em que um Espírito desencarnado (um irmão ou uma irmã que morreu e está “apegado à Terra”) tome posse do Corpo Denso, total ou parcialmente, como por exemplo nos chamados médiuns de transe, onde, justamente o Espírito toma posse do Corpo Denso e o utiliza como o próprio dono do Corpo Denso faria, há pouco ou nenhum dano, desde que o chamado “espírito de controle” não abuse de seu “privilégio”. De fato, existem casos em que os “espíritos de controle” têm uma melhor noção de como cuidar de um Corpo Denso do que o próprio dono desse Corpo Denso, podendo até mesmo melhorar a saúde.
Mas, Espírito de natureza espiritual ética elevada não se submetem a ser “espíritos de controle”, ou seja, não tomam posse de um Corpo Denso; são mais Espíritos apegados à Terra e de natureza espiritual inferior, muitos pertencentes às chamadas Raças atrasadas e muitos outros que também não pertencem a essas Raças – querem se satisfazer de uma forma ou outra –, que obtêm o controle sobre pessoas que praticam a Clarividência Involuntária ou negativa e, quando em posse do Corpo Denso, podem usá-lo para satisfazer suas paixões mesquinhas por bebida alcoólica e sexo, por exemplo. Assim, causa um desequilíbrio no organismo de uma deterioração do instrumento Corpo Denso.
No caso de uma pessoa que pratica a Clarividência Involuntária ou negativa como o médium materializador, podemos dizer que a influência é sempre prejudicial. O Espírito desencarnado entra em transe com o médium materializador e, então, extrai o Éter do Corpo Vital desse através do baço etérico, pois a diferença entre o médium materializador e uma pessoa comum reside no fato de que a conexão entre o Corpo Vital e o Corpo Denso é extremamente frouxa naquele, de modo que é possível extrair essa parte do Corpo Vital em grande medida. Lembrando que o Corpo Vital é o nosso veículo pelo qual as correntes de energia solar nos fornecem a vitalidade que precisamos. Privado do princípio vitalizador, o Corpo Vital do médium materializador, no momento da materialização, às vezes encolhe para quase metade do seu tamanho normal; a carne fica flácida e a chama da vida se extingue. Quando essa atividade termina e o Corpo Vital é reinserido no Corpo Denso do médium materializador, esse desperta e recupera a consciência normal. Mas, ele experimenta uma sensação de exaustão terrível e, às vezes, infelizmente, recorre à bebida ou outro tipo de estimulante para reanimas as forças vitais. Nesse caso, é claro, a saúde logo se deteriora e o médium materializador fica completamente debilitado. De qualquer forma, a Clarividência Involuntária ou negativa deve ser evitada, pois, além desse perigo para o Corpo Denso e Corpo Vital, existem outras considerações muito mais sérias relacionadas aos outros nossos veículos sutis, e particularmente em relação ao nosso estado quando morremos mais uma vez aqui.
(Pergunta nº 119 do Livro: Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
Em qualquer plano, à medida que ampliamos nossa capacidade, também se amplia nossa utilidade.
Se esta é uma verdade indiscutível para a vida terrena, o é mais ainda para a vida espiritual. Assim, podemos dizer que, se a cultura religiosa não torna alguém mais Cristão, também não é somente a vivência que sustenta o Cristianismo. A fé que reside apenas na vontade e no sentimento corre um grande risco. Em momentos de crise faltará sustentação do intelecto para dizer: não estou entendendo nem sentindo como gostaria, mas conheço o suficiente para tirar uma conclusão. Dificilmente uma fé sobreviverá sem a base sólida ou suficientemente sólida da doutrina.
A tônica dos Ensinamentos Rosacruzes é servir. Mas será que não corremos o risco de nos acomodarmos ao serviço amoroso e desinteressado que procuramos executar e muitas vezes realmente o executamos, esquecendo-nos de que se aumentássemos nosso conhecimento, por meio do estudo, dos Ensinamentos Rosacruzes poderíamos servir mais e melhor, reconhecendo realmente todas as oportunidades que se nos apresentam sem deixar passar alguma que, às vezes, nem percebemos serem oportunidades de serviço?
E se, aumentando nossa capacidade de servir nesse plano material aumentamos proporcionalmente nossa capacidade de servir nos planos internos, será que temos plena consciência da nossa responsabilidade ao nos contentarmos em permanecer na situação espiritual que julgamos ter, sem melhorar ou melhorando muito aquém do que poderíamos e deveríamos, já que temos o privilégio enorme de sermos chamados pelos Irmãos Maiores para colaborar com eles na redenção da Humanidade?
Temos a tendência em achar que, se fazemos o máximo pelos outros está tudo certo. Mas será que esse máximo que fazemos é realmente do que seríamos capazes se ampliássemos nossas capacidades, se estudássemos mais, se procurássemos colocar em nossos atos um embasamento maior de conhecimentos da Filosofia Rosacruz?
Tudo na natureza está na divina ordem: se não somos Auxiliares Visíveis, jamais chegaremos a Auxiliares Invisíveis. Se não trabalhamos pelos nossos irmãos e pelas nossas irmãs, aqui e agora, aqueles que, com palavras e gestos muitas vezes imploram nosso auxílio, que credenciais teríamos para trabalhar como Auxiliares Invisíveis? Se o Mundo Físico é o “baluarte da evolução”, temos de trabalhar nele, antes de trabalhar em outros Mundos. Deus respeita tanto nosso livre arbítrio que, se não servimos aqui e agora por nossa livre e espontânea vontade, onde praticamente tudo depende de nós, Ele não nos levará a servir no outro lado. Se não queremos servir aqui, quem garante que o queiramos do outro lado?
À medida que servimos, nos tornamos aptos a receber maiores e melhores oportunidades de serviço. Precisamos estar atentos a essas oportunidades e aproveitá-las todas, para formarmos o nosso Corpo-Alma, nosso dourado manto nupcial, pois não sabemos quando Cristo virá nos chamar para as bodas místicas.
No nosso Exercício Esotérico noturno Rosacruz de Retrospecção examinemos mais cuidadosamente o que deixamos de fazer e, se o que fizemos foi tão bem-feito como o deveria, por falta de capacidade nossa. E assim poderemos nos conhecer melhor e ampliar nossa capacidade para cada dia podermos ser de maior utilidade na “Vinha do Senhor”.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – outubro/1975 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Quanto mais órgãos tiver um corpo para a recepção, o desenvolvimento e a propagação de diversas influências, mais certamente sua existência será rica e perfeita, porque terá um maior potencial de vida; mas, muitas forças para as quais não temos órgãos podem estar adormecidas em nós e, por conseguinte, não podem agir. Essas forças latentes podem ser despertadas, isto é, nós mesmos podemos nos organizar, para que elas se tornem ativas em nós.
O órgão é uma forma na qual age uma força; mas toda forma consiste na direção determinada das partes – ligadas à força atuante. O organizar-se para a ação de uma força quer dizer simplesmente: dar às partes uma tal forma ou situação que permita que a força possa agir nelas. É nisso que consiste a organização. Assim como para um ser humano que não tem órgãos para ter o sentido da visão e, portanto, não vê a luz visível aqui, ela não existe realmente para ele, enquanto todos os outros que têm esses órgãos pode apreciar a luz, assim também muitos indivíduos podem não conseguir ver coisas que outros conseguem ver. Eu quero dizer que um ser humano poderá ser organizado de tal maneira que sentirá, escutará, verá e apreciará coisas que um outro não poderá sentir, nem ouvir, nem ver, nem apreciar, porque lhe falta o órgão de percepção para tal.
Assim, neste caso, todas as explicações lhe seriam inúteis, porque ele juntaria sempre as ideias que teria de receber por seu órgão particular às ideias de outrem, não podendo apreciar e compreender, senão o que se aproximasse das suas próprias sensações.
Assim como formamos todas as nossas ideias pelos sentidos e todas as operações da nossa razão são abstrações de impressões sensíveis, assim também não podemos fazer nenhuma ideia de muitas coisas, porque ainda não temos um órgão adequado.
Daí parece estar demonstrado que os indivíduos organizados para o desenvolvimento das forças superiores não podem dar aos que não estão organizados para isso nenhuma ideia da verdade superior, a não ser muito vagamente.
Assim, todas as nossas controvérsias e nossos escritos de pouco servem. Os seres humanos devem, primeiramente, se organizar para a percepção da Verdade.
Mesmo que nós explicássemos tudo a respeito da luz, os cegos não a veriam mais claro. É necessário que eles adquiram, primeiramente, os órgãos para o sentido da visão.
Eis a pergunta: em que consiste o órgão da percepção da Verdade? O que fornece a nós a capacidade de a perceber?
A resposta é: “A simplicidade do Coração”. Porque a simplicidade coloca o Coração numa situação ajustada para receber o raio puro da razão, e esse raio prepara o Coração para a percepção da luz. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3).
E que instrumento é necessário para isso? A resposta é: o Corpo-Alma!
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – janeiro/fevereiro-1987 – Fraternidade Rosacruz-SP)
Saibamos ou não, concordemos ou não, mas somos Espíritos, partes integrantes de Deus, que é Espírito também, Fonte de todo o Amor e de todo o Bem. N’Ele não existe um só vestígio de mal. Por essa razão, não podemos atribuir-Lhe nossos sofrimentos, como tantas pessoas o fazem.
Desde que completamos nossa instrumentação com a Mente, com a razão, começamos a nos dirigir sozinhos. O livre-arbítrio e a experiência passaram a ser os dois fatores para a nossa evolução e elevação. É bom pensar muito bem nisso!
Se existe qualquer dificuldade ou sofrimento em nossa vida, não atribuamos a Deus. Antes, devemos encará-los como desafios à perfeição que um dia deveremos alcançar, segundo nos ensinado por Cristo: “Sede perfeitos como vosso Pai Celestial” (Mt 5:48). Se o leitor é pai, não deseja que seu (sua) filho (a) se torne maior ainda que você? E para isso não deve ele aprender a fazer as coisas sozinho?
“Mas devemos ter assistência, como a que damos a nossos filhos” – poderá responder.
Sim, recebemos, desde que as desejemos. Quem procura, encontra.
Temos inúmeras provas disso. Um dia encontramos, como por acaso, a Fraternidade Rosacruz, e nela nos ofereceram um manancial de razões que nos transformaram o viver e nos tornaram possível suportar muita coisa que nada tem a ver com Deus, senão com nossas próprias falhas. Desde então as fomos corrigindo. Consideramos essa uma correta orientação, uma perfeita assistência. Dá-nos meios para que nós mesmos nos corrijamos.
Uma causa única existe para nossos males: é o desvio às Leis de Deus, mantenedoras da harmonia do Universo. Muita gente, presa de sofrimento e dificuldades por esse mundo afora, já ouviu falar nisso, porém, de uma forma insatisfatória. Suas dúvidas continuaram e as perguntas surgem naturalmente: se somos partes de Deus, que é o Supremo Amor e Bem, em Quem não há sequer o menor vestígio de mal, por que sofremos, então? Por que tantas dificuldades em nossa vida? Que Pai é esse que se compraz com nossos sofrimentos?
Quando alguém procura a causa de seus sofrimentos já é um importante passo para encontrar sua solução.
No íntimo de seu ser reconhece que deve haver uma causa. E há mesmo. Poderíamos desfiar uma série delas, as mais importantes e prováveis a cada caso. Mas cada indivíduo é um mundo à parte. Suas condições internas são singulares. O modo como recebe as coisas, também. Por isso o conhecer isso por meio dos Ensinamentos Rosacruzes e a maravilhosa Filosofia Rosacruz se consegue chegar a “sua” causa.
Tudo ali se faz no sincero intuito de elevar a Humanidade, por meios Cristãos e seguros e sem objetivos comerciais.
Importante frisar que na Fraternidade Rosacruz não há esforço de proselitismo. Mas tudo que se aprender é para que o Estudante Rosacruz encontre por si mesmo o que precisa. Para isso há os cursos gratuitos (inclusive todo o material) para se capacitar (sem estudos constantes é impossível evoluir em uma Escola, como o é a Fraternidade Rosacruz). Com certeza, o Estudante Rosacruz encontra respostas a todas as perguntas que lhe suscite o íntimo, sejam de ordem material ou espiritual. Nela você encontrará tudo o que deseja saber a respeito de Deus, da criação e de sua própria evolução.
Afinal, como nos ensinou S. Tiago: “se sua vida carece ainda de esclarecimento, procure-o” (Tg 1:5).
Afinal, a Filosofia Rosacruz ensina que Deus está em todo lugar e principalmente no coração de quem esteja sinceramente pondo em prática os princípios Cristãos.
E conforme esses princípios mesmos é que tudo que a Fraternidade Rosacruz oferece é de graça, pois de graça recebemos.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz –outubro/1966-Fraternidade Rosacruz-SP)
Médicos alemães e americanos trabalham atualmente na investigação dos fatores psíquicos que desempenham um papel importante, até mesmo decisivo como causa do infarto do miocárdio. Depois de se terem analisado conscientemente todos os fatores físicos, tais como o excesso de peso, a hiperpressão, falhas da alimentação, nível elevado de colesterina ou o abuso do cigarro, impõe-se cada vez mais nitidamente a convicção de que os fatores psicológicos e sócio-médicos têm de ser tomados em linha de conta nos antecedentes de um infarto e na situação propícia a um infarto.
É cada vez mais evidente, no segundo plano da chamada “doença dos managers”, aparecerem tensões psíquicas invulgares e extraordinárias, na maioria dos casos reações psíquicas inconscientes e fracassos ou a impossibilidade de realizar determinados projetos. Segundo as mais recentes investigações, o infarto do miocárdio não é causado por excesso de trabalho, mas por um determinado conflito resultante da discrepância entre os objetivos estabelecidos e os resultados atingidos efetivamente. O êxito, o fracasso ou reconhecimento dos méritos e o seu desprezo são as mais fortes vivências psíquicas. Esse resultado da análise psicológica não data dos nossos dias. No entanto, adquiriu muito maior importância na atual estrutura sociológica, na qual os êxitos e as realizações adquiriram muito maior peso na aferição do valor do indivíduo.
O especialista de medicina interna da Universidade de Munster, na Westefália, Professor Werner Hauss, declarou recentemente no Congresso Berlinense de Promoção Médica que “o ser humano suporta o êxito ou os trabalhos coroados de êxito em ordens de grandeza simplesmente inconcebíveis”. Por outro lado, os trabalhos seguidos de decepções conduziriam frequentemente a toda uma série de males e doenças. O Professor Paul Christian, de Heidelberg, complementou essas asserções com uma análise precisa e exata da chamada “frustração”, dos perigosos abalos psíquicos que tão frequentemente são a consequência de fracassos. Segundo esse especialista, o fracasso efetivo ou imaginado é “a solicitação psíquica mais insuportável que nós conhecemos”. Se um indivíduo de grande vitalidade e ambição sofre a frustração em consequência de fracassos, pode ser originado um processo capaz de conduzir até mesmo à morte. Os fracassos induzem frequentemente o indivíduo a redobrar esforços, sendo o abalo psíquico da frustração ainda mais forte se o indivíduo em questão não atingir o objetivo em vista. Os mais recentes inquéritos organizados na Alemanha por médicos indicam efetivamente que cerca de 40% das vítimas de infarto do miocárdio tinham sofrido reveses e fracassos, sentindo-se finalmente incapazes de superarem o conflito psíquico.
O estudo consciencioso das causas psíquicas do infarto do miocárdio levou à convicção que existem indivíduos com uma autêntica predisposição psíquica ao infarto. Os indivíduos com a tendência para o infarto correspondem ao tipo pícnico e atlético. São extrovertidos, realistas, concentrados no seu êxito individual, sempre dispostos a agir e “ávidos de estímulos”. Se essas qualidades atingirem o limite do patológico, o perigo de um infarto é ainda maior. Frequentemente, o indivíduo predisposto ao infarto é também um neurótico, designado pelos psicólogos, de “histérico negativo”. Quando surgem quaisquer males ou doenças, esse indivíduo não as quer conhecer, negando-se até mesmo a consultar um médico. As estatísticas provam que 42 por cento dos pacientes que sofreram, de vez em quando, do coração e foram, finalmente, vítimas de um infarto do miocárdio, não tinham consultado previamente um médico. (Recortes dos meios de comunicação).
Ora, e o que é a frustração? O sentimento de malogro, a decepção pelo fracasso, o recalque inibitório por não suceder algo que se esperava ardentemente ou por que tenha lutado muito e não tenha chegado ao desejado resultado. Isso é comum. Bem entendido, é comum a nós. Se estamos bem-preparados espiritualmente não nos deixaremos levar pela frustração ou outros fatores negativos semelhantes. E, por bem-preparados queremos significar, não o espiritualista ilustrado, intelectualizado, senão o amadurecido, aqueles que fundamentaram uma razão superior para todas as coisas, que concilia a experiência e a observação com as Leis de Deus, os que tem fé incondicional no amor e justiça de Deus.
Todos nós comprometemos parcialmente nossa liberdade com as dívidas do passado (que nada mais são do que lições que insistimos em não aprender) ainda não regeneradas. Se não chegamos a um resultado, em nossos esforços, é porque, para o nosso próprio bem não era justo o que pretendíamos, ou porque não fizemos os esforços naturais que nos tornariam dignos de sua posse ou ainda porque estamos resgatando algo que anteriormente infligimos a outrem. De toda maneira, o malogro não deve desesperar ninguém. Aprendemos mais com nossos fracassos do que com nossos êxitos, desde que saibamos extrair-lhes a lição que nos destinavam. E essas lições, escolhidas por nós mesmos com a ajuda dos Anjos do Destino ainda no Terceiro Céu antes dessa vida terrestre aqui, não pode encerrar vingança nem justificar desonestidade. No complexo mecanismo das relações humanas, há sempre um propósito superior: o de nos ensinar a integração numa verdadeira fraternidade.
Ainda que a lição, amarga para nós, tenha vindo por intermédio de um semelhante nosso, que agiu com má-fé, precisamos compreender que ele apenas foi um instrumento, para ensinar-nos a prudência, para fazer-nos sentir algo que no passado forçamos outrem a experimentar, para provar-nos a convicção nos ideais superiores e a força de nosso amor.
Idealismo que se esboroa ao primeiro impacto de revés é idealismo puramente intelectual, justaposto, não assimilado, não interiorizado. E a maneira de chegar a sentir e viver realmente o ideal é ir sublimando essas manifestações negativas, pela razão, é persistir no estudo e compreensão das Leis de Deus que a Fraternidade Rosacruz oferece.
Avaliem, pois, a importância dos Ensinamentos Rosacruzes. Tais Ensinamentos vieram a disposição de todos mercê da previdência e do amor daqueles que anteviam esse estado de coisas, no progressista mundo ocidental. Eles anteviram a insuficiência do Cristianismo popular – ou exotérico – no preparo interno dos que se deixam engolfar pela ambição, dos que se escravizam pela máquina e invenções modernas, cujo fito imaturo ainda é o de enriquecer minorias em detrimentos de legítimos direitos da maioria. Mas a transição e mudança de coisas devem provir do nosso interior: de dentro para fora. Quando as internas necessidades humanas reclamam condições melhores, elas naturalmente vêm!
Outra conclusão importante que podemos tirar da notícia acerca da causa mais frequente do infarto é a influência e inegável ação dos pensamentos e das emoções sobre a nossa saúde.
Depreendemos, também, que a mesma influência e ação negativas são verdadeiras quanto à nossa felicidade. Aquele que alberga sentimentos, emoções e pensamentos pessimistas, rancorosos ou desonestos está, em primeiro lugar, conspurcando a si mesmo, comprometendo seu destino, manchando o Templo Divino do seu Corpo Denso, rasgando a trilha de hábitos daninhos que se alargarão pelo repetir, em estradas desoladoras de sofrimentos — a consequência lógica assegurada pela Lei de Causa e Efeito.
A Fraternidade Rosacruz franqueia amorosa e desinteressadamente a todos os de bom senso, a filosofia da felicidade, o entendimento de que só a Verdade, a Beleza e a Bondade, harmoniosamente conjugadas na ação humana, podem restituir-nos os direitos e vivências superiores que nós, como Espíritos, Filhos de Deus, temos de um dia alcançar. Resta-nos escolher se pelo caminho da dor, ou pela observação e consonância voluntária às Leis de Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – fevereiro/1967 – Fraternidade Rosacruz–SP)
Muitas pessoas não se dão conta de que os homens ou as mulheres com os quais nos relacionamos diariamente talvez sejam, alguns, é claro, possuidores de algum grau de vidência. Há vários estágios de desenvolvimento espiritual dos quais constantemente ouvimos falar.
As exibições dessa faculdade geralmente são feitas por videntes negativos, pouco ou nada conhecedores das forças com as quais se põem em contato. Outras vezes essas demonstrações são realizadas por aqueles que, tendo obtido um insignificante conhecimento das coisas espirituais, agem de forma precipitada em situações complexas que os mais sábios evitam.
O Clarividente positivamente desenvolvido – também chamado de Clarividente voluntário – sabe, por experiência, que uma única demonstração não convence ao incrédulo, servindo-lhe apenas para exigir mais uma.
Um ser elevado espiritualmente e treinado esotericamente, compreendendo as forças que o cercam, nunca prostituirá seu dom com a finalidade de auferir benefícios materiais. Jamais o empregará com propósitos banais, sabendo que poderá perdê-lo se o fizer. Nem a salvação e muito menos as evoluções podem ser compradas. Cristo curou e alimentou as multidões, mas não usou Seus poderes para fugir ao Gólgota.
É possível convivermos com um Clarividente voluntário sem nunca o sabermos. Ele não se identificará como tal.
Durante muitos anos certo homem foi meu sócio em vários negócios. Há pouco tempo, entretanto, é que, em uma palestra casual, descobri tratar-se de um Estudante Rosacruz. Isto, todavia, não é de se admirar, como parece à primeira vista. Revendo os vários anos de relacionamento com esse Estudante Rosacruz, percebi nunca tê-lo ouvido pronunciar a menor crítica ou ofensa a quem quer que fosse. Em circunstâncias onde o ser humano comum age com intolerância, ele sempre manifestou condescendência. Sempre respeitou todas as Religiões e as opiniões alheias, embora tivesse seus pontos de vista. Quando eu desrespeitava as coisas sagradas em sua presença, ele me repreendia sutil e silenciosamente.
Esse homem me intrigava e eu o interrogava o mais que podia. As respostas fluíam com simplicidade e paciência, exceto quando eu me tornava impertinente.
O Ego (um Espírito Virginal da Onda de Vida humana manifestado aqui), nós, possui diversos veículos Corpos Denso, Vital, de Desejos e o veículo Mente, os quais usa para adquirir experiência e evoluir. O Corpo Denso é formado de matéria da Região Química do Mundo Físico em que vivemos cotidianamente quando estamos renascidos aqui e, naturalmente, é visível a quem tenha os órgãos da visão funcionando aqui. Os outros veículos são formados de substâncias pertinentes às Regiões e aos Mundos onde têm origem.
Da mesma forma como um indivíduo portador de cegueira não pode perceber a Região Química do Mundo Físico ao seu redor, o ser humano profano não distingue os Corpos mais sutis nem os Mundos a que se relacionam.
O grande inventor Thomas A. Edison, pouco antes de seu falecimento declarou que a ciência nos últimos cem anos fizera notáveis progressos no campo da física, mas no próximo século o grande campo de investigações seria o da metafísica; sabe-se, através de relatório elaborado pela senhora Edison, que nos últimos anos que precederam a morte de seu esposo, ele esteve ocupado em aperfeiçoar uma máquina que possibilitaria o contato com os planos espirituais. Os cientistas ocultistas afirmam que o único instrumento perfeito para tal função deve ser desenvolvido pelo ser humano e dentro de si mesmo.
Encontramos as “chaves” da Clarividência voluntária ou positiva no desenvolvimento de duas Glândulas Endócrinas: Corpo Pituitário e Pineal. O reto viver, por sua vez, é a chave desse desenvolvimento. Da mesma forma como os vários graus de visão espiritual podem ser desenvolvidos, outras faculdades superiores são suscetíveis de florescimento.
Uma delas é a possibilidade de ingressar nos planos invisíveis da Natureza e neles funcionar conscientemente. Depende da habilidade de cada pessoa, em efetuar a separação dos Éteres superiores dos Éteres inferiores do Corpo Vital, de uma forma correta e segura. Isto se torna realidade mediante uma vivência pura e amorosa, treinamento esotérico, mesclada com práticas devocionais e serviço altruísta e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) prestado ao irmão e a irmã, focando na Divina Essência oculta em cada um (que é a base da Fraternidade).
Os Éteres de Luz e Refletor formam o chamado “Vestido Dourado de Bodas” – o Corpo-Alma –, simbolizado pela estrela dourada do Emblema Rosacruz. Constituem, nessa circunstância, um verdadeiro Corpo espiritual, por meio do qual nós percorremos livremente os Mundos internos, enquanto o Corpo Denso fica repousando, dormindo. O indivíduo dotado de elevado desenvolvimento anímico, pode, durante o sono, utilizar seus veículos superiores para trabalhar como Auxiliar Invisível, principalmente no labor de curar os doentes e enfermos.
Muitas vezes, durante o sono, encontramos amigos e amigas ou nos achamos em lugares estranhos. Em várias ocasiões, tais experiências são consideradas como meros sonhos. Às vezes, porém, são experiências reais que muito nos impressionam quando despertos.
No primeiro estágio, o Auxiliar Invisível é inconsciente. Mais tarde, como decorrência normal de seu desenvolvimento, torna consciente. Qual o requisito básico para alguém tornar-se um Auxiliar Invisível? É simples: primeiramente deve se converter em um Auxiliar Visível, isto é, deve servir da maneira que puder aqui no Mundo material, quando está acordado ou em estado de vigília. Não há outro caminho!
Hoje em dia, com essa profusão de livros sobre ocultismo e psiquismo à venda nas livrarias, fala-se muito em sexto sentido. Um dos primeiros sinais de desenvolvimento do sexto sentido consiste na receptividade às vibrações dos planos suprafísicos. Nesta classe encontramos a maioria dos Estudantes Rosacruzes. O simples fato de serem Estudantes Rosacruzes e aceitarem a verdade contida nos Ensinamentos Rosacruzes, demonstra sua sensibilidade às vibrações suprafísicas. O importante é desenvolverem suas faculdades espirituais sempre no sentido positivo, por meio do Conhecimento Direto, preconizado pela Fraternidade Rosacruz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – abril/1979 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Aqui temos uma história oculta sobre o relacionamento entre pessoas provocado justamente pelo destino e que as fazem aprenderem lições conjuntas que enriquecem a vida aqui e ajudam a evoluir espiritualmente nessa vida.
1. Para fazer download ou imprimir:
2. Para estudar no próprio site:
Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta
Por um Estudante
Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
Avenida Francisco Glicério, 1326 – conj. 82
Centro – 13012-100 – Campinas – SP – Brasil
Traduzido, Compilado e Revisado de acordo com:
Links of Destiny
1ª Edição em Inglês, 1916 a 1917, in The Rays from The Rose Cross – The Rosicrucian Fellowship
pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz – Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil
contato@fraternidaderosacruz.com
fraternidade@fraternidaderosacruz.com
CAPÍTULO I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS
Os tons amarelados de um pôr do sol dourado iluminavam o céu do oeste e banhavam, em um esplendor momentâneo, a modesta rua da vila. As pequenas e humildes moradias resplandeciam na glória da transformação, enquanto o suave brilho âmbar repousava sobre elas. Ao passar, lançou um raio trêmulo de luz sobre as janelas da velha escola de tijolos vermelhos, na estrada principal — e então desapareceu lentamente sobre as colinas cobertas de faias e bordos que coroavam o horizonte.
O desgastado estrado de madeira captou o último lampejo de esplendor, e Ralph Remington, sentado à sua mesa, ergueu os olhos cansados para encontrar o brilho dourado. Um halo de luz repousava sobre sua cabeça, trazendo certa paz ao seu espírito solitário. Ao ouvir a música crepuscular da natureza, em seu fim pianíssimo [muito suave], ele quase se esqueceu dos fardos que carregava e que, poucos momentos antes, pareciam tão pesados.
O bálsamo aromático dos pinheiros entrava pelas janelas abertas, misturando-se suavemente ao perfume da rosa silvestre e da roseira-brava. Com o murmúrio do riacho límpido, que corria sobre as pedras brancas e lisas, vinham aromas deliciosos do vale dos fetos, onde a Natureza revelava alguns de seus segredos maravilhosos a quem quisesse ouvir.
O mestre-escola inspirou longas e profundas respirações do ar perfumado e sentiu-se momentaneamente revigorado. Então voltou-se novamente para os papéis sobre sua mesa e concentrou a consciência nos problemas de seus alunos. Continuou trabalhando, indiferente ao que o cercava, enquanto o longo dia de verão chegava ao fim. As aves deixaram de esvoaçar e o laborioso zumbido das abelhas se dissolveu num indistinto e sonolento murmúrio.
As inúmeras formas de vida trêmula da floresta cessaram instintivamente sua agitação inquieta. A paz pairava sobre a paisagem: o dia chegara ao fim. Formas estranhas e fantásticas surgiam gradualmente do crepúsculo que se adensava, acumulando-se nos cantos e entre os rudes bancos de madeira.
Mesmo assim, Ralph Remington permanecia sentado à sua mesa, de cabeça baixa, aparentemente alheio à escuridão que se adensava. Em retrospecção, revivia os anos passados — exteriormente sereno, discreto, convencional, mas, por dentro, movendo-se entre tempestades e conflitos até o desfecho. Suas provações começavam a assumir forma concreta e uma crise parecia aproximar-se.
De repente, a sombra de uma figura apareceu na porta e uma voz metálica enviou vibrações discordantes através da quietude da noite.
— Ainda aqui, é? Fui até a Villa para te ver! Sonhando, Ralph? Bem, sonhos não levam ninguém a lugar algum! Uh — este é um lugar fantasmagórico!
Repentinamente despertado do seu devaneio, Ralph Remington levantou-se e aproximou-se do intruso com a mão estendida: “Boa noite, Horace!”.
Por um momento, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Então, Horace Rathburn perguntou, com um tom que irritava os ouvidos do homem de coração gentil à sua frente: “Então, você já considerou a minha proposta?”.
— Isso teria sido um gasto desnecessário de força mental, Horace! Minha resposta para você naquela noite foi definitiva.
— Posso então inferir que você não usará sequer a influência que possui para garantir o objetivo proposto? É um pedido pequeno — e mesmo assim traria resultados altamente benéficos para todas as partes!
— Isso não é algo para nós decidirmos. Os principais envolvidos no caso são os únicos que têm interesse.
— Uma posição tola para assumir, Ralph Remington! Você influencia sua filha em tudo e a natureza dela é uma réplica da sua: você é seu modelo, em resumo; mas quando chega o momento mais importante da vida dela, também da sua, você se afasta e a deixa à deriva, entregue a um simples capricho, um devaneio! É melhor você reconsiderar o assunto!
— O tempo em que os pais decidiam os destinos dos filhos já passou. Marozia possui, de maneira incomum, as finas e aguçadas intuições femininas. O julgamento dela será a voz decisiva neste assunto, assim como em outras questões que a envolvem!
Havia uma firmeza silenciosa na voz de Ralph Remington que Horace Rathburn compreendia bem. No entanto, a persistência era sua característica mais marcante.
— Marque bem isto, Ralph! Não estou com disposição para continuar sendo enganado! A felicidade do meu filho está em jogo e agora será guerra até a morte, a menos que você ceda! Ralph Remington permaneceu em silêncio.
O estalar da brita sob seus pés, enquanto caminhavam entre pinheiros e cicutas, o canto dos grilos e o coaxar dos sapos no pântano distante eram os únicos sons que quebravam a quietude da noite. Horace Rathburn não suportava o silêncio. Era um homem de ação, e algo precisava ser dito ou feito a cada momento de vigília, não importando a natureza do que fosse dito ou feito. Sonhos, como ele chamava os silêncios da alma — eram totalmente supérfluos.
— Você ouviu, Ralph? Guerra até a morte! A menos que você ceda.
— Você já me viu ceder quando um princípio estava em jogo?
Horace Rathburn lembrou-se imediatamente de várias ocasiões no passado em que a vontade inflexível de Ralph Remington, empregada em favor do que era certo, havia frustrado seus planos perversos — e a lembrança não era nada agradável. Ele se contraiu e se remexeu levemente sob o olhar direto e penetrante que lhe era lançado na penumbra. Então, mudou seu método de ataque.
— Um belo subterfúgio esse: mandar sua filha para a escola em Utica, tendo uma escola preparatória aqui em Unadilla, da qual o meu ilustre colega, Ralph Remington, é o… ah… hm… diretor!
— Poupe seu sarcasmo, Horace Rathburn! A ocasião não justifica seu esforço.
— Mais uma vez, então, você recusa o meu pedido? Tem coragem de recusá-lo, sabendo o que isso significa para sua filha em termos de um futuro brilhante?
— Eu me recuso a interferir, de qualquer forma, nos direitos e prerrogativas da minha filha. Além disso, não quero que ela seja incomodada, sequer minimamente, por quaisquer sugestões ao retornar para casa. Esse é um assunto sagrado demais para ser invadido de forma tão impiedosa, especialmente depois do tom mercenário que você acabou de adotar.
— Então, entendo que você está dizendo que permitirá que ela faça o que quiser, mesmo que isso leve à miséria?
— Sua linguagem é exagerada, Horace. Pessoas de inteligência e instrução raramente se tornam miseráveis! Elas podem ganhar o próprio sustento.
— Então modifique, se quiser. O que pensará, quando ver a bela Marozia Remington trabalhando para ganhar o próprio sustento?
Uma súbita e bela luz irradiou do expressivo rosto de Ralph Remington, enquanto ele erguia a mão no gesto solene e forense que o caracterizava quando sua alma estava na arena, lutando pelo certo contra forças visíveis ou invisíveis.
— Isso não seria o pior dos males! Mil vezes melhor que ela fosse até mesmo uma miserável do que uma noiva infeliz. Nenhum jugo é tão opressor quanto o jugo matrimonial, quando une duas pessoas que vivem em planos diferentes. Seu filho é materialista, minha filha é idealista. Seria apenas mais um caso de união malformada e é sempre o idealista quem sofre. Claude não perceberia a disparidade, mas isso destruiria Marozia. Somente a verdadeira união de almas pode trazer felicidade a um casamento assim.
— Humm! Um sentimento um tanto esfarrapado e gasto, parece-me! Muito mais adequado à era da cavalaria do que a esta! Eu lhe digo, Ralph — seu tom mudou rapidamente para o de um promotor quase solícito, cuja simpatia se expande de forma diretamente proporcional ao desinteresse crescente da vítima em potencial — você e eu já estamos na ladeira descendente da colina e para nós isso não importa tanto, mas eu posso ver as marcas de dedo na parede!
— Deixe-me dizer algo como um velho amigo. O dinheiro será o poder dominante. Em menos de uma década, você verá que ele será o deus supremo. Inteligência não terá mérito; na verdade, será um obstáculo! Cultura, educação, linhagem: tudo estará em desvalorização. O amor será confirmado como aquilo que todas as pessoas sensatas já consideram, mera loucura ou tolice sentimental, adequada apenas para jovens imaturos e garotas tolas. Marozia é sensata demais para desperdiçar todas as suas chances de progresso em troca de um sentimento tolo como o que você expressou. Eu conheço algo do seu calibre mental e ambição de se destacar por meio de esforços intelectuais. Você sabe que isso não pode ser feito sem dinheiro… ou o seu equivalente, a influência!
— Horace, eu me recuso a continuar discutindo sobre esse nobre sentimento e não vejo razão para prolongar esta conversa.
— Bem, pode ser que haja uma ou duas razões do meu lado!
Tirou de um bolso interno um embrulho. O caminho de cascalho sob as cicutas fundia-se, naquele ponto, à rua da aldeia e, na penumbra, Ralph Remington viu o brilho malévolo nos olhos que estavam fixos nele. Um sapo preencheu a pausa com seu coaxar gutural. Ralph estremeceu ao erguer o olhar para a beleza serena dos céus. A voz metálica soou áspera em seus ouvidos sensíveis. As palavras seguintes ecoaram com a precisão cortante de quem está seguro de sua posição.
— Com base nos dados que tenho, sei que o estado de suas finanças está longe de ser satisfatório, para dizer o mínimo. Eu lhe ofereci a oportunidade de recuperar sua fortuna arruinada e colocar sua filha em uma posição condizente com seu caráter e conquistas. Você desprezou minhas propostas. Está vendo estas notas? Estão vencidas!
À luz que se projetava do correio da aldeia, Horace Rathburn pôde ver o efeito desse último golpe. Sua vítima pareceu atordoada por um momento. Ele não imaginara que as coisas tivessem chegado a tal crise.
— O que significa isso, Horace?
— Ah, eu as comprei, simplesmente.
— Isso é um jogo de extorsão… ou o quê?
— Dê o nome que você quiser. Tenho certeza da minha posição legal nesse assunto. Além disso, não me importo sequer um pouco. Agora você vai aceitar minhas condições!
Seu modo havia se tornado, de repente, intolerável. Havia nele uma insolência fria e arrogante que representava um insulto imensurável para o homem de grande alma que caminhava ao seu lado. Um apito estridente lhes feriu os ouvidos, quando o trem da noite contornou uma curva das colinas.
— Vou dar um tempo razoável para você pensar, mas você sabe qual é a alternativa. Boa noite.
CAPÍTULO II – CONEXÕES DO DESTINO
A velha carruagem, que levara Marozia Remington da sua casa até Utica, fora agora substituída pela ferrovia. A aldeia primitiva, colocada assim em comunicação direta com a cidade de Nova York, recebera da grande metrópole certas importações não totalmente condizentes com seu caráter rural. Seu antigo encanto residia em sua simplicidade rústica. Habitantes cansados da cidade fugiam para lá durante os quentes meses de verão a fim de descansar e recuperar as forças entre as colinas azuladas. Desde que a ferrovia estendera seus ramais da linha principal para todos os ricos assentamentos agrícolas e povoados vizinhos, chalés e vilas começaram a brotar às margens dos lagos límpidos de águas azuis. Ricos nova-iorquinos haviam previsto as vantagens desse local como estância de veraneio. Ainda estava em sua fase embrionária. Até então, era pouco mais do que um sonho na Mente de Horace Rathburn e de um ou dois outros empreendedores e capitalistas. Esses homens olhavam para o futuro e viam possibilidades nesse lugar.
Nessa fase de transição, a aldeia começava a crescer desajeitada, como uma camponesa que se enfeita com bugigangas e joias de vidro e finge sofisticação. Havia perdido o antigo encanto e ainda não adquirira o mais refinado, o da verdadeira cultura. Para Marozia, que estava repleta do entusiasmo infantil de uma viajante que retorna, a vulgaridade meio oculta ainda não se tornara aparente. Ela prendeu a respiração com um arrepio de deleite quando o trem, que a levava de volta para casa, contornou uma curva e visões cintilantes de azul e verde desfilaram diante dos seus olhos. Ora margeava um lago azul, ora atravessava uma muralha de rocha — então, outra abertura na cadeia de bosques ondulantes revelava sua aldeia natal, em sua pitoresca simplicidade, aos pés das colinas. No crepúsculo que se adensava, ela pôde distinguir ao longe a Farmington Villa, erguida no cume de uma das colinas de Beachwood, e estremeceu de emoção diante daquela visão. Enfim, ela estava em casa — e ali estava seu pai, na estação, à sua espera. Com a ansiedade de uma criança ela se lançou para encontrá-lo, mas recuou de súbito quando viu o seu rosto.
— Oh, por que eu o deixei, pai? — ela exclamou com algo na voz que parecia um soluço contido. — Por que eu o deixei?
Ele sorriu ternamente ao pousar a mão sobre os cabelos dela com seu antigo toque carinhoso.
— Isso não lhe fez mal, querida? — disse ele, em tom de pergunta e afirmação, enquanto seus olhos gentis repousavam sobre o rosto dela.
— Não, mas você… você, pai! Você sofreu e eu posso ver isso. Emagreceu muito também! Oh, pai, por que eu fui embora?
— Por que você não deveria ter ido? — ele perguntou com um sorriso terno, meio curioso.
— Porque você precisava de mim aqui.
— De fato, querida, não sou um tirano ridículo o suficiente para mantê-la em casa, afastada da escola, apenas para atender às minhas necessidades imaginárias.
Ela percebeu que ele tremia, como de fraqueza, quando ela segurou seu braço. Ela procurou a carruagem e o velho cavalo da família. Ele leu em seu olhar a pergunta silenciosa e disse em tom mais baixo.
— Vendi o cavalo e a carruagem no mês passado. Você se sente capaz de caminhar, minha filha?
Ele virou o rosto para que ela não percebesse a emoção estampada ali.
— Você sabe que costumávamos caminhar muitas vezes, você e eu, minha menina, e será como nos velhos tempos outra vez. Mas tem certeza de que não está cansada demais? — acrescentou ele, com profunda solicitude na voz.
— Só estou cansada de ficar sentada. Estou ansiosa para caminhar!
Mesmo assim, ela se perguntava por que motivo ele vendeu o velho cavalo da família.
Uma multidão curiosa os observava enquanto se afastavam e passavam pela agência dos correios da vila. “Agência dos correios” era o nome que ostentava, mas como muitos exemplares da espécie humana, exibia uma aparência que não conseguia sustentar. Uma vez lá dentro, suas limitações eram dolorosamente aparentes. Ocupava apenas um pequeno canto de uma loja, que ostentava uma placa que dizia “Mercearia e Miudezas Yankee” em grandes letras pretas na frente outrora imaculada. Agora, cinza com as tempestades de muitos anos.
A multidão heterogênea de desocupados naquela hora utilizava barris de melaço e açúcar, além de caixas de sabão, como assentos, enquanto se sentava para entalhar pedaços de madeira e se entregava às costumeiras fofocas da aldeia. Diferia apenas, em relação àquelas espalhadas durante os chás dos círculos de costura das mulheres, nos adjetivos e nas exclamações.
O respeito pela nossa frequentemente mutilada língua inglesa e pelas leis do esteticismo impedem um relato literal da discussão que surgiu naquela noite sobre o retorno de Marozia Remington de Utica. O consenso geral parecia ser de que a educação para as mulheres fosse inteiramente supérflua e, nesse caso, pouco menos do que criminosa, considerando a arruinada situação financeira dos Remingtons. Rube Slater parecia ser o presidente do conclave de desocupados e seu discurso de abertura à assembleia começou da seguinte forma.
— Bem, eu acho que a Marozia Remington carrega a cabeça um tiquinho alto demais, considerando as coisas!
Enquanto falava, dois filetes amarronzados escorriam pelos cantos de sua boca grande, seguiam caminho tortuoso pelo queixo enrugado e, por fim, perdiam-se entre a barba rala e avermelhada que o adornava.
Zeke Ketchum tinha de fonte bastante confiável que “ela” havia retornado justamente nesse momento para entrar em competição com as irmãs Watson e outras moças do condado a fim de conquistar o prêmio matrimonial da temporada — Claude Rathburn, filho do promotor e capitalista.
Havia uma ligeira diferença na formulação entre os membros do “conselho da aldeia”, mas todos concordavam em um ponto, a saber: que os Remingtons eram excessivamente aristocráticos e precisavam ser rebaixados alguns “graus”.
Marozia e seu pai, completamente inconsciente aos comentários que despertavam, subiram pela longa rua da aldeia e desapareceram de vista. A antiga “casa de reuniões” erguia-se diante de seu semicírculo de abrigos para carroças, rígida, cinzenta e sóbria — em marcado contraste com a pequena igreja gótica do outro lado do caminho.
Mais adiante, passaram pela antiga escola vermelha, aninhada entre os abetos e pinheiros, depois pelo moinho semiarruinado com sua enorme roda d’água que se erguia negra e espectral na luz que se desvanecia. Seguiram pela “estrada da colina”. Marozia notou que tudo lhe parecesse ainda mais primitivo do que antes, depois do seu ano de vida na cidade — e, no entanto, amava mais. O amor tem o dom de idealizar todos os defeitos.
Houve um tempo em que ela sentia apenas um desprezo intolerável por seu ambiente na aldeia. Agora, idealizava sua simplicidade arcadiana. Sentia-se feliz ao caminhar de braço dado com o pai pela estrada pedregosa. O mesmo e velho sapo que havia tomado posse do seu tronco no pântano anunciou sua presença. Sua voz era patriarcal e ele praticamente bramia. Marozia soltou uma risadinha divertida e lançou um olhar furtivo ao pai. A expressão em seu rosto a surpreendeu. Suas próximas palavras foram ditas em tom menor.
— Essas criaturas não têm a menor noção de que seus esforços de expressão soam como uma nota dissonante na música do Universo. Eu me pergunto se a nossa música afeta do mesmo jeito as Inteligências superiores de outros mundos! Os sapos têm seus noturnos e nós, nossas sinfonias; lá em cima, nos mundos tonais, toda a nossa música pode parecer rudimentar! Nossa própria vida, com todas as suas elevadas aspirações, pode ser uma dissonância na harmonia universal.
O sapo respondeu em seu baixo profundo e ambos sorriram.
— Que angustiante! — ele disse, e ela instintivamente soube que seu pai estivesse sofrendo.
Sua simpatia intuitiva nunca precisou de detalhes verbais.
Ela tentou, em meio a uma brincadeira meiga e bem-humorada, dissipar a melancolia, mas depois insistiria em sua determinação de conhecer a causa.
Sua Mente analítica jamais descansava e obedecia ao indício do sexto sentido adivinhatório para compreender a causa subjacente dos eventos.
Agora, era necessário mudar o curso dos pensamentos dele com o seu brilho mágico.
— Não foi meu pai quem falou. Ele teria falado da seguinte forma: se nossos sentidos fossem suficientemente aguçados, poderíamos perceber a harmonia subjacente até mesmo no coaxar de um sapo!
Sua alma emergiu de repente das trevas. O sorriso terno dela e o leve tremor em sua voz revelaram sua simpatia abrangente. As palavras eram apenas uma brincadeira. Um sorriso sereno, luminoso como a luz, pairava sobre as marcas do cansaço.
— Ah, perdoe o meu pequeno deslize filosófico, Marozia, minha filha! Na verdade, nossa vida é grandiosa e bela, mesmo com seu canto fúnebre de dor. Todos os tons são necessários, até mesmo aquilo que chamamos de dissonâncias, para compor a música das esferas. É apenas uma questão de ajuste, combinação. Mesmo assim, a nossa Terra, com sua multiplicidade de tons, toca apenas um acorde na poderosa harmonia do Universo.
— Falou como meu querido pai! — exclamou a jovem com terna paixão. — Ele podia ver o brilho delicado de seu sorriso na penumbra, que lutava por atravessar a densa folhagem.
— Não existe lado sombrio quando vemos de forma abrangente, com clareza suficiente; ainda assim… — Ele se interrompeu de repente e a velha sombra voltou a se insinuar em seu rosto. — É o agora e o aqui que mais nos afeta, apesar de toda a nossa bela filosofia. Por uma pequena nota falsa, ou um gesto em falso, todo o ritmo se desfaz: ao menos nesta vida. É preciso haver unidade de objetivo e propósito, harmonia: uma união verdadeira!
Uma alma menos intuitiva que a de Marozia teria questionado, ou em silêncio se espantado com a transição abrupta. Ela compreendia o hábito de seu pai de devanear em tom rítmico. Sabia que sua Mente tivesse mudado rapidamente de opinião e estivesse contemplando outra fase do seu problema. Sabia que ele tivesse problemas a resolver e que, com sua ampla e abrangente simpatia, pudesse compreender muitas coisas que não lhe haviam ocorrido de fato pela via da experiência. Seus devaneios continuaram…
— Podemos teorizar sobre a beleza abstrata, mas são as simples experiências humanas do dia a dia que determinam a ventura ou a desventura. A felicidade ou a miséria doméstica talvez não dependam tanto de condições ideais, mas sim do enlace. Viver em planos diferentes, ter interesses muito distantes é uma tortura inconcebível para aquele que aspira mais alto — e se torna ainda mais intolerável com o passar dos anos! — Ainda assim, ela permaneceu em silêncio.
— Marozia! — Sua voz estava tão vibrante de profunda tristeza que ela se voltou e olhou para ele.
Não podia distinguir-lhe os traços, pois a luz que se filtrava pela mata já era demasiado tênue para revelar mais do que contornos indistintos. — Marozia!
— Sim, querido pai. — Um arrepio percorreu o seu coração.
Ele hesitou. Através da multiplicidade de emoções conflitantes e do esforço multidimensional que o consumia, não conseguia trazer à tona para ela o tema que desejava abordar. Só pôde vacilar fracamente, percebendo, ao pronunciá-las, a fútil inadequação das palavras.
— Espero que, quando chegar o momento, minha filha escolha o verdadeiro companheiro.
— Mas por que preciso escolher, pai? Só preciso de você!
Seu olhar era tão claro e direto quanto o de uma criança.
Ele leu seu coração e soube que ainda estivesse intacto.
Chegaram à Villa e a Sra. Remington estava na varanda para cumprimentar Marozia. Sua cordialidade era tão forçada que se aproximava da efusividade artificial. O semblante do Sr. Remington se carregou de nuvens e ele entendeu o rosto fascinante e sombrio que sorriu por cima do ombro da esposa; Claude Rathburn avançou com graça despreocupada para cumprimentar Marozia.
CAPÍTULO III – PENSAMENTOS-FORMAS DISTORCIDOS
Claude Rathburn era inegavelmente divertido quando se esforçava para agradar. Muitas moças ingênuas, incapazes de enxergar além da máscara exterior, haviam se deixado fascinar pelo sorriso dele. Aos olhos da Sra. Remington, seu principal atrativo residia na posição interessante de herdeiro da fortuna dos Rathburn. Marozia estava irritada com ambos naquela noite, e a alegria inicial de seu retorno ao lar acabou sendo ofuscada. Ela queria passar a noite com o pai e — bem, tentava não ser desrespeitosa com a mãe, nem mesmo em pensamento, mas não havia qualquer laço de afinidade entre elas. Viviam em planos diferentes — muito distantes um do outro. O pai a compreendia; conhecia cada mudança de humor e antecipava cada pensamento dela.
“Por que você o trouxe aqui esta noite?”, perguntou ela à mãe enquanto tirava o chapéu. “É perfeitamente natural que ele queira cumprimentá-la ao chegar em casa. Você sabe que ele é muito apegado a você e eu gostaria que você o tratasse com o respeito que ele merece.”
“Teria sido suficiente, mamãe, que ele tivesse me recebido na estação e me acompanhado até a carruagem ou acenado em despedida enquanto papai e eu fazíamos nosso pequeno passeio pela estrada da colina!”
“Pois brinque com a situação, se quiser, mas logo descobrirá o que significa ficar sem carruagem ou qualquer meio de transporte. Pode parecer divertido agora, mas espere só! Logo perceberá o que as atenções de Claude Rathburn significam para você!”
“Mamãe, elas não têm absolutamente nenhum significado para mim. Eu lhe disse, no ano passado, que não o encorajaria, pois ele não é o tipo de homem que admiro. Papai é o meu ideal e, quando eu encontrar um homem de alma nobre como ele — cuja natureza se harmoniza com a minha, cujos objetivos e propósitos se fundem aos meus —, talvez eu seja capaz de amar. Até lá, quero ser deixada em paz.”
“Imagino que você tenha lido alguns romances tolos, nos quais o amor é apresentado como o fim e o objetivo da existência.”
“Quando você se deparar com a vida real, descobrirá quão pouco isso conta.”
Marozia voltou seu olhar límpido para o rosto da mãe por um instante, e uma profunda tristeza surgiu em seus olhos. “Mamãe, nunca concordaremos nesse ponto; por favor, encerre o assunto.” Em seguida, virou-se para entrar na sala de visitas.
Apesar de seu desapontamento e desagrado, a Sra. Remington sentia um orgulho secreto da graça e da compostura de Marozia. Seu jeito era encantador em sua simplicidade despretensiosa, e sua voz, grave, doce e bem modulada. Não havia nela aquele arrastado afetado que a pseudoaristocracia do vilarejo considerava um sinal de distinção de classe.
“Agora ela vai superar as garotas Watson!”, pensou ela, com um frêmito de euforia. Elas haviam sido o seu padrão de comparação no passado — para grande desgosto de Marozia, que detestava as suas afetações esnobes. Ela enxergava além das poses e fingimentos delas, mas sua mãe via tudo apenas através da névoa de seus próprios pensamentos-formas distorcidos.
Marozia não irradiava aquele brilho nem demonstrava o entusiasmo habitual quando conversava. Tampouco se esforçava minimamente para agradar. A Sra. Remington, contudo, compensava essa postura. Ela estava sempre atenta, pronta para direcionar seu ardor radiante à reserva de Marozia e para neutralizar qualquer sátira sutil a que a jovem pudesse recorrer em um momento crítico. “Nunca se sabe o que Marozia fará ou dirá a seguir”, pensava ela, enquanto circulava Claude Rathburn, zelando pelos interesses imaginários dele com vigilância ciumenta. Seus esforços despertavam o desprezo de Marozia.
“Que ridículas a Mamãe e eu estamos parecendo”, pensou ela, com um desdém crescente. Sabia que a mãe estava ficando irritada com os lampejos esverdeados que lhe faiscavam nos olhos. Mas Marozia já não se importava; nunca se importava quando as pessoas ultrapassavam certo limite. A cada instante, ela se tornava mais provocante em seu desdém insolente — seu desdém por aquelas gentilezas excessivas. Enquanto a mãe sorria radiante, ela se fechou em uma postura gélida e, quando finalmente Claude Rathburn se despediu, seu estado de espírito não era nada promissor para as pretensões dele. Ela sabia o que esperar quando a mãe a seguiu até o quarto.
“Bem, devo dizer, nunca vi uma garota como você!”
Marozia detestava discussões acaloradas. Considerava-as totalmente ineficazes. Ela respondeu calmamente:
“Provavelmente não.”
“Você se vangloria da sua teimosia? Age como se tivesse orgulho do seu jeito peculiar.”
“Não posso dizer que sinto qualquer emoção a respeito disso.”
“Bem, você tratou o Claude com muita grosseria esta noite. Seus comentários sarcásticos foram horríveis: depois de ele ter sido tão paciente com suas ações contrárias. Poucos homens teriam esperado um ano inteiro para uma garota se decidir como ele fez, especialmente quando ele poderia escolher entre elas. Ora, todas estão loucas por ele!”
“Bem, eu desejo de todo o meu coração que ele se desfaça de um pouco dessa bondade angelical e leve todas elas para Salt Lake City e se case com todas! Então eu poderia ter permissão para viver em paz em casa.”
“Marozia Remington!”
“Perdoe-me, mamãe, mas vamos deixar de lado esse assunto angustiante! Prefiro falar do tempo — ou dos bebês da Sra. Peter — de qualquer coisa, na verdade, exceto de Claude Rathburn e de suas ‘vantagens’!”. A última palavra foi dita com uma careta de escárnio.
“Ora, não consigo entender uma moça como você!”
“Concordamos que não existe outra como eu neste planeta, então não é de se admirar que a senhora não me compreenda. Na verdade, nem eu mesma me entendo.”
A Sra. Remington virou-se com raiva e deixou a filha sem um carinho de boa-noite. Marozia compreendeu, então, aquilo que sentira vagamente na infância. Viu a disparidade irremediável entre elas e reconheceu que as separava um abismo de eras. Sabia que a mãe não conseguia enxergar a verdade com um olhar límpido; a visão seria sempre distorcida, turva e confusa pelas aberrações cromáticas e esféricas de sua visão imperfeita. Não se tratava de pontos de vista diferentes ou de paralaxe alterada, mas de lentes distorcidas da alma.
Apesar da pouca idade, Marozia sabia que a harmonia — uma verdadeira harmonia de fundo — seria impossível. Ela percebia que sempre fora um espinho na vida de sua mãe, uma mulher mundana. A primeira vez que se deu conta disso foi em sua infância solitária, num dia triste em que seu cabelo se recusava a formar belos cachos como os de Viola Watson, insistindo, em sua obstinação rebelde, em voltar ao seu estado natural: liso e brilhante como cetim, rente à cabeça. Num acesso de irritação, sua mãe disse que ela bem poderia ser uma indígena, ficar em casa e viver na floresta. Naquele dia, ela foi deixada para trás — uma criança desamparada e solitária —, enquanto a mãe partia sozinha para a viagem que tanto despertara o desejo daquele coração infantil.
Naquele dia, despertou a primeira hostilidade vaga e sombria. Ela subiu em uma cadeira, postou-se diante do espelho sobre uma cômoda alta e encarou sua imagem refletida com um ódio ardente. Bateu com as mãozinhas no cabelo liso e brilhante, num gesto de desprezo desafiador.
“Fique liso, então — não me importo mais — nunca mais vou me importar! Eu odeio você de qualquer jeito, Marozia Remington! Quem dera você não tivesse nascido, juro!”.
Então, ela fugiu para o bosque — lugar ao qual, segundo sua mãe, ela pertencia — e, a sós com as árvores que sussurravam, chorou convulsivamente, extravasando toda a sua revolta apaixonada. Esse foi o início da ruptura. O ponto crítico ocorreu quando ela se recusou a corresponder às atenções ardentes de Claude Rathburn. Entre esses dois extremos de comportamento rebelde, passaram-se anos de convivência tensa, durante os quais nenhuma das duas conseguia se adaptar à mentalidade da outra.
A atitude de Marozia em relação a Claude Rathburn foi mais do que uma decepção para a Sra. Remington. Ela desejava ardentemente que o jovem fosse bem-sucedido em sua corte à filha. Sua ambição voltava-se inteiramente para as aparências grandiosas, os triunfos sociais e a prosperidade material. Em sua cidade natal, New Haven, ela fora uma jovem muito admirada e disputada, e nunca se conformou com o destino que a levara àquele vilarejo primitivo. É verdade que ela era a “senhora da Villa” — a mais bela propriedade rural daquela região do estado — e que, até a maré da fortuna virar contra ele, seu marido, Ralph Remington, fora a figura de maior destaque do condado.
Agora, devido a uma série de reveses, ele não passava de um professor da escola local, e o círculo social dela havia encolhido drasticamente em importância e influência. Para ela, não importava que as dificuldades financeiras decorressem da alma nobre e generosa de seu marido, incapaz de negar ajuda a quem passasse necessidade ou enfrentasse dificuldades.
Ele via a si mesmo como um administrador que guardava, em benefício de outros, a riqueza que lhe chegava às mãos; assinava inúmeras notas promissórias que acabava tendo de pagar e financiava diversos projetos para ajudar o próximo a alcançar seus objetivos. Sua fortuna foi se esvaindo aos poucos, mas ele, com sua paciência serena, sempre acreditou que ela seria restaurada, caso fosse justo que ele a possuísse e utilizasse.
Ele vivia tão imerso em seu belo mundo interior que a prosperidade material não passava de um mero detalhe na jornada da alma. Para a Sra. Remington, porém, ela representava a vida inteira.
Quando Claude Rathburn, filho do empreendedor e capitalista, surgiu no vilarejo, ela saudou sua chegada com alegria secreta, assim como muitas mães ambiciosas que tinham filhas em idade de se casar. Quando ele escolheu Marozia como alvo de suas atenções extremamente lisonjeiras, a Sra. Remington mal conseguiu conter a alegria. Sua Mente fervilhava de planos ambiciosos quando Marozia, com frieza, desferiu o golpe de misericórdia em suas esperanças ao decidir atender ao desejo do pai e passar o ano estudando em Utica.
Seguiu-se uma cena tempestuosa. A Sra. Remington sabia que havia outras moças atraentes entre as conhecidas de Claude e, por isso, tentava manter sua influência sobre ele. Ele era convidado para a Villa sempre que os negócios do pai o traziam à região, e alimentavam-se grandes expectativas quanto ao seu sucesso futuro. Naquela noite, porém, muito do trabalho parecia ter sido arruinado pela atitude de Marozia em relação a ele. Portanto, Marozia precisava ser disciplinada.
CAPÍTULO IV – SUPORTAR AS PROVAÇÕES COM NOBREZA CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO DA ALMA
Marozia afastou cuidadosamente qualquer vestígio de agitação e desceu silenciosamente até a biblioteca. O pai estava sentado na poltrona dele, junto à escrivaninha, e o banquinho dela estava posicionado ao lado dele, como de costume. Ela sabia que ele esperava sua visita antes de dormir; aquele costumava ser o momento que passavam juntos. Ela acomodou-se naturalmente em seu lugar de sempre e encostou o rosto no braço dele.
“Ah, é tão bom estar aqui novamente com o senhor!” Com aquele antigo gesto de carícia — meio solene, mas carregado de uma ternura e de uma melancolia subjacentes —, ele pousou a mão alva e fina sobre a testa dela e enrolou as pequenas mechas rebeldes em seus dedos. O amor que ele nutria por ela continha mais melancolia do que alegria. Seu olhar sempre transcendia as sombras, vendo o rosto dela junto ao rosto de seu ideal, envolto em um mistério doloroso. Ao fitar os olhos profundos dele, a alma dela pressentiu uma tristeza; ela estremeceu levemente enquanto segurava a mão dele e a beijava com ternura. Então, com todo o anseio de seu coração concentrado no olhar expressivo, ela perguntou:
– “Pai, o que foi? O senhor precisa me contar.”
Ele passou a mão pela testa e sorriu — um sorriso sereno e paciente. “Contar o quê, minha filhinha?”
– “Você está sofrendo. Há algum problema e eu preciso saber, pai, pois não suporto a expectativa!”
– “Não pense mais nas minhas pequenas preocupações, querida — especialmente esta noite, a noite do seu retorno. Já é uma grande felicidade tê-la aqui. Não quero estragar tudo trazendo sombras.”
Mesmo assim, ela não estava satisfeita. O fato de haver sombras perturbava sua paz. Com o velho sorriso luminoso e transformador, ele falou de outras coisas. Ela o questionou sobre a Sra. Morton, a esposa do reitor, e ele se tornou eloquente enquanto falava.
– “Pai, ela é tão querida! Estou ansiosa para vê-la novamente!”
– “Ela é a mulher mais nobre que já conheci”, respondeu ele calmamente. Finalmente, disse: “As coisas se ajustarão, Marozia, minha filha. Nossa parte é trabalhar com a Vontade Divina. O que significará para nós, daqui a séculos, as provações que suportamos? Importará mais como as suportamos.”
– “Sim, porque suportá-las com nobreza contribui para o crescimento da alma. Além disso, nenhuma experiência nos chega sem que haja alguma lição para aprendermos — ou que não seja o efeito de alguma causa passada.”. Seu pai expressou surpresa.
– “Aprendi muitas coisas no ano passado, meu querido Pai. Conheci um homem maravilhoso em Utica — o Sr. Arlington — e assisti a algumas de suas aulas. Ele ensina uma filosofia de vida que é convincente em seu apelo tanto ao intelecto quanto ao coração. Chama-se Filosofia Rosacruz. Ela corrobora o que o senhor sempre me ensinou, Pai; apenas correlaciona e sintetiza aquilo que, até então, era fragmentário e desconexo.”
– “Seria Teosofia, minha querida?”
– “É a mesma verdade em que se baseia a Teosofia, mas vai além dela. O Sr. Arlington diz que esse ensinamento é para o povo do ocidente. Ele coloca o Cristo acima de tudo, e esses ensinamentos, chamados de Ensinamentos Rosacruzes, são aceitos como os mais elevados já transmitidos ao nós. É o Cristianismo Esotérico.”
– “Sempre me pareceu que essas verdades elevadas deveriam ser formuladas num sistema que pudesse ser compreendido, elaborado e aplicado como qualquer outro currículo.”
– “É, pai. Há um livro que cobre todo o problema da vida e do destino humano. Trouxe um exemplar para casa comigo e estou ansioso para que você o leia.”
– “Ficarei feliz em fazê-lo, querida. Há muito tempo sinto a necessidade de um livro exatamente como o que você descreve. Em todas as filosofias que estudei, parece haver uma lacuna. Algo estava faltando e no silêncio da minha alma tentei preenchê-lo. Muitas verdades profundas me vieram assim e venho tentando elaborar no livro que estou escrevendo”.
– “Como está indo seu trabalho em psicologia, pai? Estou ansiosa para saber.”
– “Está bem encaminhado, Marozia. Espero que possa ser útil para os estudantes da ciência.”
– Certamente será, querido pai. O que me surpreende é que todos esses ensinamentos maravilhosos que ouvi no último ano parecem encontrar um eco dentro de mim. Eles se alinham com todos os seus ensinamentos e os explicam. O Sr. Arlington me disse que isso acontece porque eu recebi as mesmas verdades em uma vida anterior — ou melhor, nós as recebemos — e o conhecimento delas agora é como uma memória revivida.”
– “Isso parece muito lógico, querida.”
Houve um breve silêncio, durante o qual ambos estavam absortos em pensamentos. Mais tarde, ele acrescentou, como desfecho da conversa:
– “Acima de tudo, mantenhamos imaculada a alma em nosso interior, digna de se reunir à Chama Divina. O pensamento de que estamos construindo um futuro glorioso e de que viveremos eras adiante — éons em algumas daquelas estrelas distantes, brilhando nós mesmos com luz radiante — deve nos dar força para enfrentar qualquer provação, qualquer decepção; sim, qualquer sofrimento, por mais avassalador que seja.”
O orador tomou conta da situação, tornando-se eloquente sob o efeito daquela simpatia calorosa e profunda que ela demonstrava. Ela se iluminou com uma emoção correspondente, à medida que a alma dele triunfava sobre a fraqueza e a dor humanas. Um fogo espiritual brilhava nas profundezas de seu olhar.
– “Nosso pequeno ciclo humano é tão pequeno, tão minúsculo em comparação com o grande destino cósmico que nos espera! Pense, minha filha, a luz de alguns desses sistemas estelares nas profundezas do universo nunca alcançará nosso Planeta enquanto estivermos aqui. A imensidão do espaço, a infinidade da vida, a vastidão dos ciclos astronômicos – o simples pensamento de tudo isso nos dá inspiração para viver nossa pequena vida conturbada! Acalma a turbulência selvagem das nossas tristezas e das nossas paixões humanas. Você se lembra do poema requintado com o anel marcial trovejando em sua doçura lírica que tanto amávamos antigamente, o “Sic itur ad astra”, ou seja: “assim se vai aos astros” ou “é assim que se sobe aos céus”?”.
– “Sim, Pai. Ele nos convoca a nos prepararmos para a batalha. Creio que transmite o ideal de força e coragem.”
– “E força é o de que mais precisamos, minha filha — força e fortaleza. Este poema nos mostra o Caminho e as provações ao longo da jornada. Não nos ilude com falsas esperanças. Se adormecemos, entorpecidos pelas folhas de lótus do prazer egoísta, ele nos desperta, colocando diante de nós a alternativa de integrar a grandiosa procissão de heróis em sua marcha ascendente ou… perder as estrelas.”
Marozia repetiu esse poema em voz baixa, com uma ternura nostálgica em sua voz doce, na qual vibrava uma nova nota de poder:
Sic itur ad astra! Que glória
Contemplar a cúpula luminosa da Terra,
E pensar que, triunfantes sobre a dor,
Encontraremos um lar entre os Planetas!
Voar pelo azul do empíreo
Num voo radiante e arrebatador,
Entoando um hino de júbilo
Sobre tudo o que é alegre e brilhante.
Alto — bem alto acima de cada esfera de ilusão,
Longe — bem longe das guerras rancorosas da vida,
Onde a contenda não chega, nem a confusão;
Oh, como iremos até as estrelas?
Por jardins esmaltados de flores,
Acolhidos entre as árvores mais belas;
Onde a fragrância dos bosques de asfódelos
Espalha perfume em cada brisa.
Por campos de alegria perene,
Onde floresce a felicidade imorredoura,
Onde nenhum fantasma de perigo ou tristeza
Ameaça numa proximidade aterradora.
Onde a preocupação não chega, e nenhuma queixa
Perturba a sensação de serenidade:
Oh, não penses que é assim que viajamos —
Não é assim que vamos às estrelas!
Por bosques cujos recessos labirínticos
Nenhum raio de sol alegre consegue penetrar;
Por desertos cuja solidão pesa
Com silenciosa angústia sobre o coração.
Por vales desconcertantes e sombrios,
Sobre montanhas desoladas, áridas e íngremes,
Onde viajantes de pés doloridos e exaustos
Cumprem uma peregrinação desoladora.
Entre cenas de comoção aterradora,
Como o marinheiro que se agarra aos mastros
Em meio ao caos furioso do oceano!
Assim — é assim que vamos às estrelas!
Sentavam-se em silêncio, tensos pela elevação de pensamentos sublimes e vibrantes com as ondas rítmicas de um arrebatamento poético. Na cadência final, uma nota de triunfo ressoou em sua voz grave e rica, como se ela também, na juventude, visse o Caminho solitário — o Caminho das Dores — e, contudo, olhasse além, com anseio ardente, para a vasta e ilimitada extensão da alma liberta.
Já avançada a noite, Ralph Remington estava sentado à sua escrivaninha, escrevendo como alguém impelido por uma necessidade irresistível. Sua postura denunciava um profundo cansaço. Uma das mãos apoiava-lhe a testa, ocasionalmente passando pelos cabelos — já mesclados de fios grisalhos — que se aglomeravam ao redor dela. Seus dedos abriam-se e fechavam-se em pequenos movimentos nervosos, enquanto o pensamento vibrava em ondas rápidas e cintilantes. Seu rosto era o de um erudito — de um pensador. Contudo, algo mais — algo superior à grandeza intelectual — estava impresso naquela fronte.
O Fogo divino ardia naqueles olhos expressivos e cintilava, como relâmpagos de verão, sobre o rosto móvel e sensível. Era um rosto como aqueles que os pintores adoram estudar e os poetas veem em seus sonhos. Seus pensamentos pareciam inquietos, ao passo que suspiros ocasionais — lentos e profundos, como que vindos das profundezas de uma alma em sofrimento — vibravam no silêncio da tarde. O antigo fogo ardia em seus olhos e lhe corava as faces, mas logo ele parava e pousava a pena, enquanto uma expressão de angústia afastava a luz transfiguradora da inspiração.
Certa vez, ele murmurou:
“Ah, ela nem imagina o pleno alcance disso! Horace Rathburn, seu objetivo, desde aquele dia fatídico, anos atrás, tem sido a minha ruína — e você quase conseguiu. Durma tranquila esta noite, minha filha — e por quantas noites mais for possível… Que Deus a ajude, Marozia, minha pequena Marozia, pois temo que você tenha nascido para sofrer!”
Com um longo suspiro trêmulo, ele voltou ao seu trabalho.
Quando finalmente se levantou da escrivaninha, sentiu-se subitamente fraco e afundou em um sofá. Tudo ficou escuro por um momento, então sua Mente pareceu despertar, ávida em sua rápida investida em direção a realidades invisíveis. Girando pelo espaço com a rapidez do pensamento, parecia ultrapassar Planetas e sóis — incontáveis sóis — permeados por uma única e grande sensação de liberdade infinita, repouso infinito.
Quando o pequeno fragmento do verdadeiro “Eu”, que pode se manifestar através do cérebro físico, retornou a Ralph Remington, a Lua havia surgido e um longo raio de luz espectral pairava sobre o rosto magro e ansioso. Mas uma mudança ocorreu a ele. Havia uma nova memória – uma memória despertada. Ele trouxe de volta à consciência desperta as experiências daquele voo maravilhoso para Mundos superiores.
Então, ele soube que a imortalidade era um fato. Ao abrir os olhos, uma figura estava sentada ao seu lado. Ele esforçou a vista para enxergar o rosto. Era sereno, benevolente, doce, porém forte. Enquanto se perguntava se a forma diante dele era real ou parte de sua visão, uma voz proferiu estas palavras e a figura desvaneceu-se:
– “Não tenha medo de atravessar o fogo! Este é o caminho para a libertação!”
Marozia, em seu quarto no andar de cima, ajoelhou-se junto à janela aberta e olhou para as estrelas, sussurrando com os lábios trêmulos:
– “Pai, querido Pai, se eu pudesse sofrer por você! Eu mergulharia em um mundo inteiro de miséria e sorriria acima da dor, se eu pudesse, se eu pudesse!”.
CAPÍTULO V – A FILOSOFIA ROSACRUZ EXPLICA TODOS ESSES PROBLEMAS DA VIDA DE FORMA MUITO CLARA E SATISFATÓRIA
Na manhã seguinte ao retorno de Marozia para casa, ela e a Sra. Morton estavam sentadas na biblioteca da Villa, conversando intimamente. Havia uma terna solicitude na maneira como a Sra. Morton tratava a jovem. Ela sabia que nuvens sombrias se acumulavam ao redor dela, mas não podia alertá-la. Ralph Remington, com ou sem sabedoria, desejava que sua filha permanecesse alheia a qualquer problema que os ameaçasse, acreditando — com um otimismo comovente — que a situação ainda poderia ser evitada, mesmo no último instante. “Assim, será uma dor a menos para ela”, raciocinava ele. “Não me importo com as cicatrizes da batalha, mas elas não combinam com o rosto belo da minha filha.”
A Sra. Morton, que via em Ralph Remington apenas virtudes e grandeza, não concordava com ele nesse ponto. Ela conhecia o poder benéfico do sofrimento. Conhecia a beleza que ele confere — mesmo aos jovens — quando suportado com nobreza. Conhecia a têmpera da alma de Marozia. Perita em ler a natureza humana, ela sabia que qualquer sofrimento que tocasse a vida de sua amiga jamais degeneraria em algo egoísta; o primeiro pensamento dela seria sempre para com os outros. Ciente do valor de tais experiências de belo altruísmo, ela não ousava impedir uma alma de alcançar sua elevada herança apenas para poupá-la de algumas dores em sua ascensão. Após abordarem diversos assuntos, a Sra. Morton perguntou:
– “A propósito, querida, você se lembra da Sarah Thomas, que veio morar aqui vinda de Cherry Valley pouco antes de você partir?”
– “Sim, lembro-me muito bem de como ela agiu na primeira vez que nos encontramos. Foi no último dia de aula; demos de cara uma com a outra, inesperadamente, na trilha do prado, perto daquela pedra grande. Eu estava perdida em um dos meus ‘devaneios’ quando ela passou caminhando devagar. Ela murmurava algo para si mesma e, quando me levantei da pedra e ficamos frente a frente, ela parecia assustada e com um ar meio selvagem. Imagino que ela tenha me confundido com o fantasma de uma irmã (ela realmente tinha esse ar), mas não me recebeu nada bem.”
– “O que ela fez?”
– “Caiu de cabeça na grama do prado em seus esforços frenéticos para escapar. Eu sorri. Não consegui evitar, Sra. Morton, ela parecia tão perfeitamente ridícula. Sim, ela viu o sorriso quando lançou um olhar rápido para trás depois de se levantar e colocar de volta seu chapéu de sol esfarrapado na cabeça. Ela não disse nada, mas parecia indescritível.”
Um sorriso de pena divertida pairava nos lábios doces da Sra. Morton.
– “Ela é tímida, coitada, e sua posição desajeitada aumentava sua sensibilidade.”
– “Sim, eu realmente senti pena dela e tentei me redimir depois, quando nos encontramos no mesmo lugar, mas ela rejeitou todas as minhas tentativas e me deixou lá, um penitente solitário e abatido. Ela nunca me perdoou pelo sorriso infeliz.”
– “Não”.
– “O caso dela é triste, minha cara. O pai, um homem preguiçoso e desleixado, da pior espécie, insistiu em colocá-la para trabalhar na lavoura. Ela ansiava por instrução, coitada, para poder lecionar, mas a ignorância brutal mostrou-se intransigente. No dia seguinte, ela foi trabalhar na fazenda da Sra. Gregory”.
– “Sinto muito por ela, mas vejo esses casos sob uma perspectiva completamente diferente desde que estudei a Filosofia Rosacruz. Ela explica todos esses problemas da vida de forma muito clara e satisfatória. Deve ter havido uma causa antecedente em alguma vida passada de Sarah para produzir resultados tão angustiantes.”
– “Sim, minha querida, concordo plenamente com você. Há muito tempo acredito que somente a doutrina da reencarnação poderia explicar nossos destinos intrincados.”
A expressão de Marozia revelava sua surpresa.
— Sim, minha querida; e talvez a surpreenda ainda mais saber que o Reitor também acredita nisso e o ensina indiretamente. Ele diz que, se a Igreja compreendesse sua verdadeira herança, valorizaria a obra de Cristo como nunca antes. Diz também que essa ideia começa a ser amplamente aceita pelo clero, especialmente no Ocidente. Era a antiga doutrina esotérica da Igreja que, durante vários séculos, deixou de fazer parte do ensino público.
— “E sabe por que, Sra. Morton? Havia uma razão para isso, que o Sr. Arlington explicou em suas aulas. Era necessário que a Humanidade conquistasse o Mundo material e, também, se individualizasse plenamente e desenvolvesse a autoconsciência. O ser humano não teria o incentivo para aproveitar ao máximo cada vida se tivesse conservado a memória do renascimento. Teria se tornado indolente e sonhador — como alguns dos povos orientais que ainda preservam esse conhecimento. Eles também serão obrigados a descer mais profundamente na materialidade, visto que estão atrás de nós na evolução. Ele diz que eles renascerão no mundo ocidental e, assim, aprenderão as lições que lhes restam. Chegamos ao limite da separatividade e precisamos cultivar o altruísmo e despertar os poderes espirituais, ou então nos cristalizaremos. A nova Raça está se formando — ou, pelo menos, é o alvorecer de sua formação — e chegou o momento de difundir publicamente o antigo ensinamento esotérico.”
— “Isso é muito interessante, querida, e estou ansiosa para aprofundar meu conhecimento nessa Filosofia Rosacruz.”
— “Ela nunca a decepcionará, Sra. Morton. Quanto mais se estuda, mais se percebe sua profundidade e vastidão. Sua lógica é tão convincente que atrai mentes eruditas, e ainda assim é tão simples que uma criança consegue compreender seus princípios fundamentais.”
— “Sempre uma marca da verdade, Marozia.”
— “Voltando a falar de Sarah Thomas… Um pequeno incidente ocorreu logo depois, quando passei por ela na estrada da colina. Ela estava parada junto ao portão da Sra. Gregory, resmungando e agitando a mão erguida em tom de desafio — aparentemente contra mim. Ouvi quando ela disse, olhando para mim com uma expressão de intensa amargura: ‘A sua vez vai chegar’.”
— “Coitada, sem dúvida ela estava com vontade de brigar com o mundo naquele dia!”
— “Sim, agora eu entendo, pois meu pai dizia que ela era uma aluna brilhante. Ser privada da educação daquela maneira cruel é, certamente, algo comovente. Seu rosto apático e sem vida, bem como sua aparência desajeitada, despertavam, sem dúvida, compaixão.”
— “Senti muita pena dela em nosso primeiro encontro, depois que meu senso tolo de ridículo passou.”
— “Ela mudou muito de aparência desde aquele dia.”
— “Espero que seja para melhor. Certamente, havia espaço para isso!” A Sra. Morton olhou para o rosto de Marozia e falou com sinceridade direta:
— “Acredito que ela precisa da influência do seu caráter e personalidade em sua pobre vida distorcida, minha querida!”
— “Ah, mas ela congelou minha simpatia na segunda vez que nos encontramos. O olhar que ela me lançou ao se virar e sair apressadamente era uma mistura complexa de absinto e fel.”
A Sra. Morton surpreendeu-se com o tom e as palavras de Marozia. Parecia haver uma leve dissonância, interna ou externa — talvez entre os dois extremos de sua polaridade.
A bela luminosidade de outrora, que irradiava dos olhos e do rosto para outros corações, estava agora sob uma leve sombra. Percebia-se maior autoconfiança e independência em sua franqueza direta e aberta, mas havia também um matiz de sátira refinada — sinal, em alguém de seu temperamento, de inquietação ou de ideais não realizados.
O que ela teria adquirido ao longo do último ano? Que influências estariam atuando em sua vida interior? A Sra. Morton não tinha conhecimento de outras experiências capazes de provocar tal mudança.
Ela compreendia a falta de harmonia entre mãe e filha, mas isso apenas realçava ainda mais a força e a doçura do caráter de Marozia. Não conseguia, contudo, compreender plenamente a nova nuance de sua natureza versátil.
A Sra. Morton possuía a intuição aguçada e a sensibilidade refinada que são características marcantes de mulheres de natureza elevada. Ela compreendeu a Personalidade de Marozia logo no primeiro encontro, dois anos antes, quando seu marido assumiu o cargo de reitor da pequena igreja gótica. Viu nela um contraste revigorante em relação às moças comuns. Sua Mente era tão equilibrada e lúcida, tão brilhante e original, que ela adorava sua companhia. A diferença de idade perdia a importância, pois a Sra. Morton conservava o coração e o semblante de uma eterna juventude.
Sabia que a Mente de Marozia estava totalmente livre de quaisquer tendências mórbidas; contudo, percebia que a própria inclinação de idealizar tudo o que tocava sua vida poderia acarretar inúmeras decepções no futuro. Esse é, invariavelmente, o destino do idealista, pois até as pessoas e coisas mais banais são transfiguradas no alambique de sua imaginação rica e vívida. Segue-se, então, o despertar, quando belos vínculos perdem o encanto e parecem vulgares e superficiais à luz da realidade cotidiana. Nada pode evitar a dor e o sofrimento do idealista, mas a alma pode sobreviver às suas ilusões e transformá-las em força e fibra — se assim o desejar.
A Sra. Morton sentia que Marozia sempre faria de suas adversidades “degraus”. Contudo, apesar de todo o seu belo altruísmo — que constantemente se voltava para ajudar e elevar o próximo —, ela estava ciente das cruéis disparidades da vida. Sabia como, às vezes, as almas submergem nas águas sombrias e — aqui — jamais voltam à tona.
Além do encanto que ela reconhecia na Personalidade de Marozia, havia um outro, misterioso, que a ligava a tempos passados. Ela conhecera Ralph Remington na juventude, quando ele era estudante em Yale. Ao vê-lo novamente, após o transcurso de muitos anos, seu rosto pálido e doce tornou-se um pouco mais pálido. A memória trazia de volta aqueles dias dourados, como um sonho.
Conhecer Ralph Remington fora, por si só, algo que elevava o espírito. Depois que a primeira onda avassaladora de sua mágoa secreta passou, deixou em seu rosto sereno uma doçura e uma calma benfazejas. Agora, ela via a marca do caráter nobre de Ralph Remington no rosto de Marozia e a amava com uma ternura ainda mais profunda.
Suas palavras seguintes foram ditas com certa hesitação:
— “Sarah Thomas tornou-se uma moça muito bonita, mas… eu realmente não sei o que pensar a respeito. Às vezes, sinto que agimos mal ao não manter um contato mais próximo com ela. Acho que ela deveria ter ido com a mãe!” Então, a voz doce da Sra. Morton tornou-se suplicante.
— “Você acha que conseguiria vê-la e conhecê-la?”
— “Suponho que eu conseguiria…, mas de que adiantaria, querida Sra. Morton?”
— “Pode ser de grande valia para uma natureza profunda e rica estender a mão através do silêncio que separa as almas — tocar, com calor humano, uma vida solitária e reprimida”.
O rosto de Marozia iluminou-se à medida que a artista em seu interior reagia às palavras e à Personalidade radiantes da Sra. Morton. Contudo, ela não cederia — pelo menos não ainda. Respondeu com um tom de indagação:
— “Ainda assim, admitindo-se as mais elevadas intenções, será sensato tentar estabelecer um ponto de encontro entre almas que não gravitam naturalmente uma em direção à outra?”
— “Quer dizer que, mesmo que estejam no mesmo plano, se houver uma incompatibilidade química, haverá repulsão e desarmonia — e que, se estiverem em planos diferentes, aquele que se encontra em um estágio inferior jamais poderia compreender ou assimilar, restando à natureza mais elevada a humilhação da derrota? Sei, meu bem, que propósitos altruístas são facilmente mal interpretados e retornam distorcidos para ferir o coração sensível. Ainda assim, devemos seguir o caminho ascendente, não importam os espinhos e as sarças que possamos encontrar.”
Marozia sorriu, um sorriso pequeno e peculiar, meio engraçado, meio patético.
— “Ainda estou cética quanto a essa questão. Na verdade, me importo cada vez menos em ‘conhecer’ as pessoas. Quem realmente conhece alguém, a menos que suas almas estejam unidas? Não achei as pessoas que conheci até agora muito amáveis ou que valessem a pena conhecer, e sem dúvida elas têm a mesma impressão de mim. Prefiro o Pai e a solidão.”
— “Mas as outras pessoas – aquelas que não sabem usar nem mesmo a solidão – precisam de ajuda, minha querida!”
— “Não acho que elas queiram ser ajudadas. Geralmente, elas se ressentem de qualquer esforço benéfico.”
— “Nem todos; e devemos prosseguir com nossos esforços, ou nossas próprias almas se degenerarão. Ninguém está tão morto quanto aqueles que são egocêntricos; que veem a vida sob uma ótica limitada; que interpretam mal as motivações alheias ao analisá-las a partir do centro distorcido de sua própria consciência ignóbil. Enganamo-nos tão facilmente. Nossas motivações devem elevar-se a um patamar superior àquele sugerido pela minha alternativa egoísta. Não devemos ajudar apenas para promover o crescimento de nossa própria alma, mas porque amamos e não podemos deixar de empreender esse esforço. Em última análise, apenas o altruísmo mais puro é o que conta.”
Houve um silêncio momentâneo; então, o rosto de Marozia iluminou-se, e sua alma viva e fervorosa transpareceu através de um humor levemente zombeteiro.
— “Tive um novo pensamento ontem à noite – e sobrevivi à experiência. Papai foi o responsável por implantá-lo em minhas células cerebrais.” A Sra. Morton sorriu ansiosamente.
— “Um novo pensamento?”
— “Bem, pelo menos para mim foi novo – embora quem possa dizer quantas vezes ele já se manifestou?”
— “Conte-me! Estou ansiosa por algo novo!”
— “Não, pois consigo detectar o sorriso por trás das palavras.”
— “Mesmo assim, conte-me, Marozia. O sorriso desapareceu completamente, deixando apenas um desejo sincero de conhecer seus belos pensamentos.”
— “O prefácio é mais importante do que o pensamento, pois o prefácio era do Papai. Vou lhe contar essa parte.”
Havia um toque da antiga vivacidade no jeito de Marozia. O rosto da Sra. Morton iluminou-se com um belo resplendor.
— “Conte-nos o prefácio, sem dúvida”, ela pediu.
— “Bem, meu pai disse algo que soou um tanto pouco ortodoxo do ponto de vista literário. Eu vinha insistindo para que ele deixasse seu gênio se afirmar, e ele declarou que o esforço e a afirmação banalizam as verdadeiras glórias. Perguntei-lhe para que fim fora dado o Fogo divino, e ele respondeu: ‘O Fogo divino não permite a afirmação. Ele realiza sua obra — sua obra de silenciosa iluminação — e consome o eu insignificante. Há uma tentativa excessiva de expressão nesta época. É grosseiro tagarelar. Mesmo a vívida pintura com palavras de Ruskin não produziu efeito maior — se é que se buscava algum efeito — do que a descrição que Tom Gregory fez de sua horta de batatas. Tanto as glórias venezianas quanto a horta de batatas eram, em igual medida, completas — cada uma à sua maneira — sem a poesia ou a prosa rudimentar da descrição’.”
— “Mas outros olhos e Mentes podem não ver”, objetei.
— “Ah, agora você toca na verdadeira questão, no cerne do assunto”, respondeu ele. “Quando me afirmo por mim mesmo, torno-me um egoísta superficial – um mero tagarela, tão desprezível no papel mais importante como no mais humilde. É o fazer pelos outros que nos salva”.
A respiração da Sra. Morton ficou rápida. “E seu pensamento complementar, meu caro?”
— “Apenas isto. Perguntei-me se os nossos esforços no sentido de uma revelação mútua não acabam, na verdade, por menosprezar as nossas próprias experiências e as dos outros. Podemos até sentir certo prazer na troca de ideias, mas será que, graças a esse esforço, passamos realmente a conhecer-nos melhor? E — se o conseguíssemos — o que isso significaria? O Ego nunca se revela nem se expressa. Ele está aprisionado em recônditos mais profundos do que os claustros da alma — uma entidade muda e imóvel, repleta de Fogo vivo; ele próprio um Fogo vivo —, ao passo que o Impostor se veste com as suas roupagens, ocupa o trono e faz-se ouvir pelos outros. É o “eu” fictício que encontra outros “eus” fictícios. Como um fantasma a encontrar fantasmas!”
O pensamento de Marozia revelava os perigos e as glórias que aguardavam uma mente profundamente analítica e uma natureza emocional rica. Revelava à Sra. Morton capacidades que podiam alcançar qualquer altura ou de lançar a alma nas profundezas do desespero. Tanto as alturas quanto as profundezas significariam muito mais para tal espírito do que para os outros.
— Suponho que você me lembraria da máxima do papai: “quando me afirmo em prol de mim mesma, eu me degrado” e “é o agir em favor dos outros que nos salva” — continuou Marozia, como se lesse o pensamento não verbalizado da Sra. Morton. — Ainda assim, será sensato sacrificar a verdade e ultrajar o “Eu” verdadeiro, mesmo que seja para sustentar uma teoria nobre e elevada?
— “Mas, minha querida, embora a ideia seja boa e verdadeira, não seria prudente colocá-la em prática!”
— “Por que não, se é verdade?”, perguntou Marozia com uma franqueza surpreendente.
— “Porque a verdade pode ser elevada demais e sublime demais para este Planeta em seu atual estágio de desenvolvimento.”
Havia um brilho profundo nos olhos da Sra. Morton. Marozia acrescentou rapidamente:
— “Imagino que você perguntaria o que seria de amizades como a nossa, mas não creio que elas possam ser incluídas. O pensamento simplesmente responde ao pensamento, e nenhuma ofensa é feita ao “Eu” verdadeiro. Na verdade, é o “Eu” verdadeiro que fala quando estamos juntos. A nossa é uma amizade em seu estado ideal — uma amizade que perdura desde eras passadas.”. Um sorriso radiante surgiu entre elas.
— “Compreendo perfeitamente, querida; no entanto, não devemos nos fechar em nosso mundo ideal e permitir que os outros “eus” ao nosso redor se sintam solitários. Nem mesmo os superficiais, egoístas e vulgares. Devemos ajudá-los a ver o lado mais elevado da vida. Quanto mais baixo o nível em que se encontram, maior a necessidade de estendermos a mão. E esse gesto deve ser de fato um ‘estender a mão’, sem jamais transparecer qualquer atitude de quem se inclina ‘de cima para baixo’. A Luz interior é a mesma em todos, e devemos procurar ajudá-la a brilhar.”
— “Sim, eu sei que a Luz é a mesma em todos. Os acréscimos externos pertencem à Personalidade, que é transitória. Podemos não ser capazes de admirá-la, mas é com ela que entramos em contato nos outros!”
— “Eu sei, minha querida, mas precisamos ser capazes de alcançar o “Eu” verdadeiro através disso – precisamos aprender a fazer isso.”
— “Mas como fazer isso? Ah, essa é a parte difícil!”.
— “Tente expandir sua consciência, querida Marozia! Tente ver a Vida Divina por trás da outra Personalidade — por trás daquilo que a repele. Tente imaginar essa Vida Única circulando por todo o Universo, expressando-se através das mais variadas máscaras: ora através da sua, ora através da minha, e também através daquela que você não admira nem um pouco, nem pela qual se sente atraída. A máscara não tem grande importância. O que conta é o Espírito.”
— “Mas e se o Espírito for sufocado por um desejo elemental? Devemos amar isso?”
— “Devemos conduzir todas as coisas à bondade por meio do amor. Esse é, contudo, um caso extremo, resultante de um mal persistente e de desejos egoístas. Nesses casos, o Espírito pode ser forçado a abandonar seu veículo, mas é raro encontrar uma Personalidade desprovida de qualquer vestígio da Vida Única em seu interior. Esse vestígio pode permanecer temporariamente submerso sob a massa de detritos acumulada pelo desejo egoísta. Devemos tentar resgatá-lo — redescobrir o tesouro perdido.”
— “Mas, deixando de lado os casos extremos — será sensato, nesta fase de nossa evolução, desnudarmos nossas almas uns aos outros? Sei que, um dia, estaremos alma com alma — e anseio de todo o coração por esse dia feliz —, mas agora, enquanto a Personalidade é tão dominante em quase todos nós… será sensato?”
— “Algumas de nossas concepções de verdade podem pertencer ao “eu” pessoal e, se tentássemos vivenciá-las, nos tornaríamos auto-reprimidos e egocêntricos. Devemos sempre discernir.”
Marozia sorriu – o antigo sorriso irônico e brilhante.
— “Ah, os velhos enigmas desconcertantes que costumavam atormentar minha infância! Verdade em vislumbres parciais – em doses homeopáticas! Discrepâncias entre o real e o ideal! Vemos uma verdade – parece bela, mas quando tentamos vivenciá-la, pronto! – Ela se torna egoísmo mascarado sob o disfarce da verdade!”
— “Engrenagens dentro de engrenagens!” — respondeu a Sra. Morton, com uma compreensão luminosa e cheia de empatia.
Ela sabia a que alturas a jovem havia chegado para nutrir tais pensamentos, mas vislumbrava alturas ainda maiores — horizontes distantes, radiantes de luz em vez de sombras púrpuras — e ansiava por revelá-los àquela alma elevada que tinha diante de si. A Sra. Morton percebia a verdade por trás da verdade — a alma da alma —, um conhecimento que só advém da profundidade e da amplitude de visão, do desabrochar interior. Ao levantar-se para partir, tomou as mãos de Marozia nas suas e disse, com profunda sinceridade:
— “Marozia, minha querida, existe uma meia-verdade que parece absolutamente encantadora, mas, logo além dela, aguarda outra — completa, abrangente e inclusiva —, que preenche o círculo do universo. Você contemplou a meia-verdade. Não se detenha aí! Há alturas além de outras alturas. Meias-verdades jamais podem ser conciliadas. A verdade perfeita não reserva decepções nem admite discrepâncias. A Mente da filha de Ralph Remington é nobre e elevada demais para se contentar com horizontes limitados!”
CAPÍTULO VI – COLOCANDO A PERSONALIDADE EM UM PEDESTAL INSTÁVEL
Depois que a Sra. Morton saiu, a Sra. Remington mandou chamar Marozia e retomou as hostilidades. Ela discutiu e fez escândalo, como algumas mulheres aflitas costumam fazer.
Então, tentou a diplomacia. Com a astúcia ancestral derivada da Atlântida perdida, insinuou a saúde debilitada do marido e suas dificuldades financeiras. Em seguida, acrescentou:
– “Você deve saber que custa muito dinheiro mandá-la para Utica estudar por um ano. E que coisa tola de se fazer, nessas circunstâncias!”
– “Tentarei reembolsá-la, mamãe.”
– “Bem, não sei como você conseguirá, a menos que recupere o juízo e se case com Claude Rathburn! Além de lhe dar uma posição social invejável, isso pode salvar a vida do seu pai se você aceitar Claude!”. Ela examinou o rosto da filha atentamente para observar o efeito daquela alfinetada.
Em voz baixa e tensa, com os olhos dilatados por um temor inexplicável, Marozia perguntou:
– “Papai me deixa fazer esse sacrifício?”. Seu pai sempre lhe parecera a personificação de todos os ideais elevados e ela aguardava ansiosamente a resposta da mãe! A Sra. Remington era uma estrategista, e a franqueza de Marozia sempre a confundia.
– “Você sabe que seu pai raramente vê as coisas sob a perspectiva correta — especialmente assuntos mundanos!”.
Os olhos de Marozia brilharam com a luz reveladora que sempre detectava as sofisticações de sua mãe. Ela perguntou baixinho:
– “Casamento é um assunto mundano?”
– “Não sei o que mais poderia ser!”
– “Ó, mãe… mãe!”
– “Bem, você sabe o que eu quero dizer! Seu pai tem suas próprias ideias sobre as coisas. Ele está sempre no mundo da Lua e nunca analisa as coisas com bom senso! Outro dia mesmo eu o ouvi dizer que todos os seres humanos deveriam ser como irmãos e se preocupar mais com os interesses dos outros do que com os seus próprios! Imagine só! Estamos aqui para cuidar de nós mesmos!”.
– “Papai tem razão!”, respondeu Marozia em voz baixa.
– “Bem, se você está tão envolvida com ele, por que não tenta facilitar as coisas para ele?”. Marozia ficou em silêncio.
A Sra. Remington prosseguiu com seu argumento, concluindo com estas palavras:
– “Além disso, Claude é um homem muito atraente, independentemente do dinheiro!”.
– “Não acho que eu o separaria do dinheiro dele! Eles naturalmente combinam e contribuem para as vantagens!”.
– “Você não precisa ser tão sarcástica! Você deveria ter vergonha!”.
– “Eu tenho vergonha — vergonha de estar discutindo um assunto como esse!”. Ora, mãe, você está tão deslumbrada com a aparência externa que não consegue enxergar o quão vulgar isso é! É pior do que folheado em móveis! Eu prefiro pessoas genuínas — mesmo sem as vantagens!”.
Terminou em afastamento entre elas. Marozia fugiu pela trilha verdejante e através da alta grama do prado até a grande rocha plana, cinzenta de líquen, que tinha vista para o riacho e as colinas além. Esse era seu refúgio favorito quando seu “temperamento” entrava em conflito com os planos mundanos de sua mãe.
Até mesmo as ideias mais simples e sensatas de sua mãe a perturbavam com seu pequeno mundo interior. Nos dias de sua infância melancólica e sonhadora, quando se sentava na pedra no prado inclinado e olhava através das ondulações intermináveis para os contornos distantes e nebulosos das colinas, ela se perguntava o que havia além delas. Sabia que um ramal da grande ferrovia havia chegado perto do outro lado da pequena crista, trazendo a um povoado vizinho, que ela tanto apreciava, um sopro do mundo exterior. Esse sopro, porém, já havia perdido seu frescor inicial; quando a velha diligência o transportou pelas colinas até o pequeno povoado isolado. Conforme crescia e se tornava uma jovem garota, sua alma começou a se rebelar contra a estreiteza de tudo aquilo.
Ela se cansava insuportavelmente das colinas azuis que a cercavam. Em seus momentos de paixão, quando seu espírito se agitava por dentro, ela quase odiava as curvas baixas e monótonas que se estendiam contra o céu e nunca sugeriam nada de grandioso. A estreita paisagem pitoresca, que nunca se abria para horizontes, a sufocava. Tudo em seu ambiente rural parecia típico de sua vida reprimida. Até mesmo o riacho, que enfim encontrava seu caminho penoso até o Susquehanna, era atormentado por suas represas, suas margens estreitas e intermináveis desvios e distrações, quando ansiava por correr em direção ao mar. E as pessoas – pareciam tão rudes, tão grosseiras, tão cheias de pequenos preconceitos e opiniões mesquinhas, pronunciadas em suas bocas rudes.
Mesmo quando criança, ela as pesava e analisava a todos, atribuindo a cada um seu devido lugar. Ela imitava, rindo, seus provincianismos, mas não havia malícia em seu humor. Era amplo, espontâneo e gentil, sempre. Surgia da intuição de sua alma. Ela não suportava limitações, pretensões ou ignorância, que não demoravam a ser esclarecidas. Em seu ambiente restrito, ela sempre ansiava pela vida mais ampla e rica que pulsava pelos grandes centros arteriais do mundo e fluía em correntes cada vez maiores além das colinas do horizonte de sua aldeia — além do grande rio Susquehanna.
Naqueles tempos de infância, o rio Susquehanna parecera imenso à sua imaginação fértil. Ela imaginava, como muitos antes e depois dela, que a satisfação residia na busca por conhecimento, na altitude ou numa vida rica e vibrante. A inspiração talvez surgisse ali, mas não a satisfação. Vibrações dos pulsos pulsantes do mundo por vezes alcançavam a pequena Arcádia, mesmo naqueles tempos distantes — ecos tênues da batalha mundial que irrompia de leste a oeste, da metrópole à planície. Ela ansiava por estar ali, por fazer parte daquilo.
Como ela se emocionou quando finalmente teve a oportunidade de ir um pouco além das colinas! Sua primeira viagem começou com a velha carroça puxada por um cavalo da família até a diligência, e depois, atravessando as colinas sucessivas, chegou à ferrovia secundária. O mais maravilhoso para sua visão atônita foi o longo trem, que chegou estrondosamente assim que ela desceu do vagão apertado e abafado, usado pela ferrovia secundária para transportar seus passageiros ocasionais de e para a grande estação central de Nova York. Uma vez a bordo e girando em direção ao destino, algo dentro dela se agitou e respondeu com pulsações aceleradas à sensação de velocidade, clamando incessantemente por mais. Ela se sentiu inclinando-se para a frente, ansiosa e excitada com a rápida aproximação de “algum lugar”. Logo avistou lagos azuis, cidades, campos e florestas enquanto era levada pela correnteza e pelo rugido em seus ouvidos e pela emoção em seu coração. Ela sorriu na noite passada ao relembrar o passado. Tinha sido um ano maravilhoso para ela e marcado uma época em sua vida. Mesmo assim, ela estava feliz por estar de volta em casa. Hoje, ela estava tão cansada das tolas pretensões, dos afetos ridículos e da sordidez mesquinha de seu pequeno mundo que ansiava por escapar novamente.
As duas inteligências luminosas, que eram como estrelas em seu mundo, eram seu pai e a Sra. Morton. Com eles, a verdadeira Marozia despertava. Agora, ela estava repleta de inquietação ao perceber que poderia ter oportunidades ilimitadas no cumprimento do dever filial, se assim o desejasse. Sentada diante de suas emoções tumultuosas, a antiga ânsia por expansão, por horizontes mais amplos, não apenas físicos, mas mentais – e não apenas mentais, mas espirituais – a dominou.
Enquanto observava a grama do prado ondulando graciosamente como ondas do mar, uma visão surgiu das sombras onde ela sentira a estreiteza e o anseio selvagem por expansão. Sussurrava, com fascinante sutileza, sobre a vida brilhante além de seu horizonte limitado. Atraía e chamava sua alma ávida. Sua mãe havia insinuado outra limitação – a limitação da pobreza – que ela logo experimentaria, se recusasse essa oportunidade de escapar. Seus pensamentos vagavam pelos campos que sua ambição exploraria.
Ela ansiava por escrever, por ensinar. Estava ainda mais ansiosa para fazer isso desde que aprendera algo sobre a maravilhosa Filosofia da Escola de Mistérios Ocidental, a Filosofia Rosacruz.
Ela precisava revelar suas verdades a outros corações, mas como poderia fazê-lo se a previsão de sua mãe se concretizasse? Pobreza – ela nunca a conhecera, mas a palavra lhe parecia horrível. Sempre a associava às pessoas que viviam no “Vale”. Eram desleixadas e sujas, e usavam uma linguagem terrível. Seus sentidos exigentes se revoltavam só de pensar em qualquer tipo de associação com pessoas assim – e, no entanto, a pobreza poderia chegar até ela! Ela se perguntava se um dia se tornaria menos refinada, menos uma verdadeira “dama”, menos meticulosa, limpa e delicada. Estremeceu de horror ao imaginar essa cena.
– “Eu poderia suportar os barracos — talvez — mas não suportaria o que viria junto com eles! A sujeira e a miséria me matariam! Assim como a convivência com gente desse tipo! Mesmo assim, minha mãe dizia que a pobreza nos encarava de frente se eu não desse atenção a Claude Rathburn. E se eu desse!”.
Então, a visão de um futuro glorioso voltou a acenar. Ela se viu cercada por tudo o que o mundo preza. Honra, riqueza, fama, amor, tudo poderia ser seu! Honra – a estima dos homens – aquilo que a mera opinião alheia traz! E essa opinião – qual o seu valor? Ela não toca o “Eu verdadeiro” – lida com o “eu fictício”, o “eu irreal”.
Coloca a Personalidade em um pedestal instável e se curva em homenagem servil. É tão provável que se transforme em difamação e maldição no instante seguinte, se a inveja, o ciúme ou o interesse próprio se insinuarem. É como a adoração do bezerro de ouro – não há nada de grandioso por trás disso. Um sopro pode destruí-lo. Uma pequena ofensa pode ser sentida, a vaidade pode ser ferida e, eis que a homenagem se transforma em calúnia! Perante o tribunal interior, a honra – a honra que os outros prestam – é proclamada uma sombra sem valor do real.
A riqueza compareceu perante o juiz silencioso. Riqueza — mera fantasia, uma bolha para a alma que vive! Parece potente apenas para o materialista, e Marozia não era materialista. Assim, a riqueza desfilou diante do tribunal como um poder a ser considerado, se a alma se apresentasse como a mercadoria que ela compraria. Fama — ah, como a honra, surge de um vapor de presunção humana! Não tem nenhuma qualidade permanente, nenhuma qualidade duradoura. Uma palavra, uma crítica, um ciúme poderiam varrê-la. Também era irreal — não tocava as verdades eternas. Amor? Ah, ali ela hesitou.
Ela não amava Claude Rathburn — tinha certeza de que nunca poderia. Amava seu pai e a Sra. Morton. Tentou amar sua mãe, mas isso lhe causava discórdia perpétua e ela sabia que, em última análise, não passava de um movimento forçado de um desejo altruísta — não emoção. Não conseguia sentir nenhum poder forte de atração que puxasse sua alma para a alma de sua mãe. Seria assim se ela se permitisse casar-se com Claude Rathburn. Por mais que procurasse, não conseguia encontrar em seu coração ou em sua alma qualquer sentimento em relação a ele, exceto uma mistura de medo e repulsa.
A visão brilhante se dissipou em algo banal e sem graça, algo pelo qual ela supostamente deveria estar se interessando. No instante seguinte, sentiu um recuo diante daquilo que, junto com suas brilhantes oportunidades, era obrigado a aceitar. Uma onda nauseante se abateu sobre suas esperanças infladas, submergindo-as. Sua alma reconheceu a farsa e recuou com um arrepio.
– “Não. Eu não poderia amá-lo, e um casamento sem amor seria intolerável para mim!”, murmurou ela ao levantar-se para descer a estrada da colina e encontrar o pai. Ao ver o rosto dela — pálido, agitado, porém decidido —, ele compreendeu que ela atravessava um momento crítico e que, sob a tensão da batalha, a mulher que havia nela despertara.
Ralph Remington também se deixava levar por reflexões sobre o passado enquanto subia lentamente a colina para encontrar Marozia, que frequentemente o aguardava ali. Ele pensava em sua juventude perdida. Nem sempre é agradável rememorar o passado. Para aquele homem, porém, era uma tortura, dada a disparidade infinita entre seus sonhos e a realidade. Parecia ter passado uma eternidade desde que ele fora um jovem brilhante e cheio de entusiasmo, nutrindo esperanças ardentes e ambições elevadas. No entanto, ele estava apenas na meia-idade. Quanta coisa havia sido comprimida naquele sonho!
Seu pai desprezara sua ambição. Precisavam dele na fazenda — uma propriedade grande —, por isso ele abrira mão do desejo de cursar uma faculdade. Durante anos, alimentou a ideia de que, algum dia, poderia retomar o projeto de sua vida de onde o havia deixado. Com esse objetivo, prosseguiu com suas pesquisas pacientes. Estudava sozinho, à luz da lareira, até altas horas da noite, treinando a Mente para o raciocínio preciso. Concluiu seus estudos em Yale.
Com o falecimento do pai, Ralph Remington ficou responsável pela propriedade que herdara. Sua experiência como proprietário de terras foi marcada pelo insucesso; ele não tinha aptidão nem para as finanças nem para a agricultura. Como sabemos, homens inescrupulosos tiraram proveito de sua honestidade e ingenuidade. Ao longo do tempo, à medida que surgiam emergências, a propriedade foi sendo sucessivamente onerada por hipotecas.
Nesse meio-tempo, ele havia se casado e, como vimos, sua vida doméstica era muito infeliz. A Sra. Remington era a verdadeira personificação do egoísmo, da vaidade e da superficialidade femininos. Incapaz de compreender a grandeza de espírito do marido, ela fingia desprezo por tal grandeza. Seus planos haviam sido bem arquitetados: ela atraíra o jovem herdeiro erudito para sua rede — pois a juventude é pateticamente cega. E tratava-se, de fato, de uma rede que se apertava gradualmente em torno de suas esperanças radiantes. Cada ano naquele ambiente doméstico sufocante havia paralisado algum anseio da alma ou alguma bela esperança humana, a ponto de ele já não lutar contra o seu destino.
Uma Mente rasa e egoísta tem o poder de causar uma ruína indescritível a uma alma nobre e sensível, cujas elevadas aspirações entravam em conflito com os planos sórdidos dessa Mente. Se ela tivesse a grandeza ou a bondade necessárias para compartilhar a vida superior do marido, poderia ter sido o equilíbrio indispensável entre a alma elevada dele e o mundo prático, que ele tão mal compreendia. Suas energias, contudo, eram dedicadas a intrigas egoístas, enquanto ele se tornava mais silencioso, mais retraído e mais sensível às visões da vida interior. Ele passara a temer as forças que poderiam desafiá-lo, caso saísse de seu isolamento. Sua solidão era a vida intensificada, espiritualizada. Sua visão tornava-se mais clara; sua alma, mais pura. Na calma solidão de sua vida mais ampla, ele podia criar. Nos silêncios de sua existência solitária, conseguia ouvir claramente as vozes divinas que lhe falavam incessantemente e traduzi-las para outros Corações e Mentes. Era uma compensação abençoada para ele — essa crescente sensibilidade à vida dentro da vida, esse contato de sua alma com realidades infinitas e invisíveis. Isso limitava sua ambição humana, mas ampliava seu horizonte espiritual.
Hoje ele percebeu, mais do que nunca, que uma crise estava prestes a acontecer. Viu sua sombra no rosto de Marozia quando ela o encontrou.
– “Pai, a pobreza é uma coisa tão terrível assim?”, perguntou ela enquanto caminhava ao seu lado pela estrada rochosa.
– “Acho que não é o pior dos males, minha filha”, respondeu ele suavemente. “Pode acarretar algumas privações materiais, mas isso deixaria a alma mais livre”.
– “Mas isso não nos atrapalharia, Pai, na busca de nossa grande ambição?”.
– “Poderia ser um obstáculo, mas isso provaria nossa força e dignidade! Nada que valha a pena vem fácil. Além disso, minha filha, a ambição pode brotar de uma raiz de desejo egoísta. Se for esse o caso, é melhor que seja consumida pelo fogo!”.
CAPÍTULO VII – NESSA EVOLUÇÃO HÁ MUITOS RETARDATÁRIOS
A Sra. Remington estava oferecendo uma recepção em homenagem a Marozia.
Como ocorre em muitos eventos mais pretensiosos, o orgulho era a motivação dominante. A Sra. Remington não possuía nada daquela hospitalidade calorosa que dá vida às relações sociais. Ela desejava apenas impressionar os Watson e os Weston, além de várias outras figuras de destaque cujo interesse, ultimamente, deixara de se concentrar na Villa como um centro de vida social e formador de opinião. Esse arrefecimento do interesse lhe causava profunda irritação — sobretudo porque poderia ter sido evitado pelos membros de sua própria família, caso tivessem ouvido seus conselhos. Agora, ela saborearia uma pequena e doce vingança, tanto contra Marozia quanto contra seus antigos amigos. Contra a primeira, ao colocá-la o máximo possível na companhia de Claude Rathburn. Depois, sentiria um prazer deliciosamente malicioso ao exibir Marozia diante da elite local, que já começava a tratá-la com uma condescendência que deixava transparecer, de forma inequívoca, a perda do respeito.
— “Quem sabe o que pode acontecer nesta festa?”, refletiu ela enquanto batia o bolo e decorava os quartos com motivos festivos.
— “As meninas são volúveis e facilmente influenciáveis! Vou garantir que Marozia não deixe essa oportunidade escapar! Ela é igualzinha ao pai — com a cabeça nas nuvens —, mas vou mantê-las com os pés no chão — veja se consigo.”
A elite local compareceu em peso na noite da festa. Havia também duas ou três figuras de destaque vindas de Cooperstown, Oneonta e Utica, mas, acima de tudo, Claude Rathburn em traje de gala, exibindo seu sorriso habitual. A felicidade da Sra. Remington transbordava. Pouco lhe importava que a curiosidade tivesse contribuído para atrair grande parte dos convidados; bastava-lhe que estivessem ali, e ela saberia jogar bem as suas cartas enquanto a oportunidade durasse. Naturalmente, no decorrer do último ano, Marozia havia conquistado certo prestígio aos olhos da aristocracia do condado e do vilarejo. Todos queriam ver como ela estava depois de ter passado um tempo estudando fora. O fato de Claude Rathburn ser visto como um possível pretendente aumentava ainda mais o interesse.
— “Realmente, ela tem um ar bem peculiar, não acha?” – Viola Watson disse arrastado, por trás do leque, para o médico da aldeia.
— “Sim, sim, bem descolada!”
— “Não é engraçado, já que ela estava só em Utica? Agora, se ela tivesse passado o ano na Metrópole …, mas… bem, é engraçado de qualquer forma o jeito que ela se comporta!”
— “Sim, sim, muito ‘engraçado’ – absolutamente hilário!”
— “Quero dizer ‘estranho’”, corrigiu ela, corando.
— “Sim, muito estranho. Um incidente verdadeiramente notável!”
— “Vale a pena registrar! Eu diria que isso poderia muito bem ser classificado como um fenômeno!”. Os olhos vivos e perspicazes do velho médico traziam um brilho de humor. Os esnobes eram sua aversão particular, mas sua ironia nunca era cáustica. Ela passava pelo filtro de uma mente repleta de bondade benevolente e absorvia essa qualidade. Viola Watson deu um sorriso afetado e ficou imaginando o que o velho médico queria dizer. Ela jamais se deu conta de que havia cometido uma gafe.
Naquela noite, Marozia era tudo o que a Sra. Remington poderia desejar. Ela mostrava-se serena, imponente e brilhante.
A Sra. Morton observava-a com um aperto de tristeza no coração. “Ela não é mais a mesma!”, observou em pensamento. “Parece ter adquirido força e um charme magnético; mantém-se — assim como mantém os outros — sob pleno controle. Certamente possui um novo poder e uma nova percepção, o que sugere alguma crise vivida entre o sofrimento e a vitória. No entanto, ela não passou por ‘experiências’ marcantes, e sua vida, aos olhos de todos, transcorre de forma docemente simples. Não compreendo bem essa mudança e sinto falta da antiga Marozia, com o encanto de seu humor vivo e peculiar e suas graças espirituosas e fantasiosas.”
A alma de Marozia estava novamente agitada naquela noite, pois o rosto de Claude Rathburn surgia incessantemente diante dela. Parecia impossível escapar dele. Em qualquer multidão de que ela fosse o centro, ele estava ao seu lado. Ao que tudo indicava, ele estava em toda parte naquela noite.
— Ah, Sra. Morton — exclamava Viola Watson —, a senhora não poderia convencer o Sr. Remington a deixar Marozia ir conosco para Nova York na semana que vem? Seria tão divertido tê-la conosco, não acha? — Assim interpelada, a Sra. Morton sorriu ao responder:
— Acho que eu seria uma péssima embaixadora; portanto, por favor, não me atribua tal incumbência! — Marozia retribuiu o sorriso com um lampejo de simpatia. Mas Viola continuou:
— “Seria muito divertido se você viesse conosco à metrópole! Você nunca esteve lá, sabe… além disso, realmente deveríamos nos ver mais; somos amigos de longa data!”. Marozia estava perto do pai, que as irmãs Watson cercavam em vão. Ali por perto, o onipresente Claude exibia um sorriso radiante. Um sorriso irônico surgiu em seus lábios delicados e sensíveis. Então, ela respondeu com um entusiasmo forçado:
— “Srta. Watson, eu, assim como todos os alunos do meu pai, tenho motivos para lembrar que, quando ele diz não, é para valer!”
Ela então se voltou para outros convidados e perdeu-se na multidão.
Ralph Remington nunca apreciava as recepções promovidas pela esposa, embora houvesse momentos preciosos, aqui e ali, em que podia conversar com o bom e velho Dr. Lester, com a Sra. Morton ou com o Professor Bancroft.
Naquela noite, sentia-se exausto e oprimido. Uma premonição de algo funesto pairava sobre ele. Desejava ardentemente refugiar-se na tranquilidade de sua biblioteca. A alternativa mais agradável era uma conversa tranquila com a Sra. Morton; por isso, atravessou o salão para sentar-se ao lado dela em um divã.
— “Tenho pensado em como Marozia se desenvolveu maravilhosamente durante o último ano!”, observou ela em voz baixa.
— “Ela esteve em contato com uma grande alma.”
— “A professora de quem ela falou?”
— “Sim.”
— “Mesmo assim, não é notável ter adquirido tanto em tão pouco tempo?”
— “Seria assim se fosse adquirido como o conhecimento é, mas querida Sra. Morton, é um desenvolvimento interior. Quando uma alma está pronta, o tempo é transcendido. Então, quando uma verdade é apresentada, ela é imediatamente compreendida, pois encontra uma resposta interior”.
— “Você gostaria de me lembrar que é sabedoria em vez de mera aquisição de cultura!”
— “Mesmo assim. Marozia é sábia além de sua idade! Sua alma tem um longo passado durante o qual ela melhorou seu tempo em vez de vadiar. Para ter certeza, como Espíritos, todos nós viemos de Deus ao mesmo tempo, mas alguns – ou melhor, muitos – entre nós são retardatários. Como crianças na escola, perdemos nosso tempo em vez de aprender nossas lições e o resultado é que tais pessoas estão atrás dos outros. Eles não conseguem compreender as verdades mais profundas. Há muitos graus na evolução! Você vê, não consigo deixar de lado as comparações de pedagogo!”, ele acrescentou sorrindo.
— “Não conheço melhor maneira de explicar os problemas dos teólogos, quando eles procuram compreender as diferenças de status mental e moral entre a humanidade. Isso sempre intrigou aqueles cujo senso de justiça é forte.
— “É verdade, meu querido amigo. E em quase todos os cultos modernos – mesmo nas escolas avançadas de pensamento, há discrepâncias – lacunas a serem preenchidas ou transpostas! Não encontrei nada que seja tão satisfatório para a Mente e para o Coração como esta maravilhosa Filosofia de vida que Marozia tem estudado, a Filosofia Rosacruz. É a verdade abstrata que sempre senti intuitivamente, formulada em um sistema. Prometo a mim mesmo de ter a grande satisfação de investigar mais a fundo os seus mistérios profundos”.
Mais tarde, naquela noite, Marozia viu-se subitamente frente a frente com Claude Rathburn em uma sala um tanto reservada, aonde fora em busca de alguns desenhos.
— “Ah, comecei a pensar que jamais teria um momento a sós com você! Com quanta insistência você tem me evitado esta noite!”. Sua voz era baixa e persuasiva, e seus olhos ardiam com um poder intensamente concentrado. Para ela, aquele olhar remetia às artes ocultas inferiores; contudo, um feitiço singular a mantinha imóvel. As palavras que ela proferiu soaram mecânicas e forçadas.
— “Não sei se um tête-à-tête é especialmente necessário ou desejável!”
— “Com você ou comigo?”
— “Com nenhum de nós!”
— “Assim fala a Rainha de outros tempos! No entanto, seu Cavaleiro de outrora ainda lhe prestaria serviços obedientes!”
— “Você fala em enigmas!”
— “A Esfinge deu o exemplo e muitos sábios desde então seguiram o método! Conceda-me o favor de um conhecimento mais próximo e eu desvendarei alguns enigmas muito interessantes para você!”
Ele sorriu para ela, e mais uma vez ela se sentiu incapaz de se mover ou falar. Pareceu-lhe uma eternidade, embora não passasse de um instante.
— “Você quer ter poder? Quer conhecer segredos estranhos? Posso lhe contar muitas coisas — se você me permitir — e amá-la!”
Uma repulsa nauseante tomou conta dela ao ouvir aquelas palavras. Contudo, ele ainda prendia o olhar dela ao seu rosto.
— “Você me pertence”, continuou ele. “Existem laços que vêm de muito tempo atrás!”
Seu eu interior protestava contra as palavras dele — mas aquele feitiço singular a mantinha imóvel. Então, de repente, algo nela foi atraído em direção a ele, e ela tomou viva consciência de uma dualidade em seu íntimo. Uma parte dela recuava horrorizada; a outra estendia-se numa estranha fascinação, compelida pelo poder irresistível do olhar dele.
— “Não, não!”. Seu tom era suplicante, mas ela não sentia forças para se mover.
— “Um dia eu te provarei isso.”
— “Por favor, me deixe em paz!”, ela implorou. Ela ergueu as mãos diante dos olhos e, conforme os passos se aproximavam, ele desviou o olhar de seu rosto. Ela se sentiu fraca e tonta ao se virar e caminhar para a sombra de uma videira em uma varanda lateral. Ele não a seguiu. Ele não tinha mais dúvidas sobre o resultado final – sobre a conquista desejada.
Marozia levou as mãos aos olhos novamente, como se quisesse bloquear algo. Ela respirou fundo e rapidamente e sussurrou, tremendo:
— “Você, Marozia Remington! O que isso significa?”
Ao voltar a conviver com os convidados de sua mãe, ela trazia uma expressão estranha no olhar e aguardava, com o coração acelerado, o fim daquela ocasião enfadonha. Claude não a procurou novamente naquela noite; agora, ele podia esperar o momento certo.
Ao final do evento, quando Marozia foi procurar o pai na biblioteca, ela estava incomumente silenciosa. Ele notou seu ar absorto, mas atribuiu-o ao cansaço. Ela apoiou a cabeça no joelho dele e sentiu um pouco da antiga serenidade invadir sua Mente agitada.
— “Ó Pai, se eu pudesse estar sempre contigo!”, murmurou ela.
— “Esses assuntos não interessam à minha filhinha?”
— “Ah, algumas fases são interessantes, mas…”
— “Mas as exceções… quais são elas?”
— “Claude Rathburn é uma delas.”
— “Ele não te interessa, querida?”
— “Sim e não! Mas eu queria nunca mais vê-lo!
— Por que a mamãe insiste em convidá-lo para vir aqui?”
Uma expressão de profunda tristeza surgiu em seu rosto e ele curvou ainda mais a cabeça.
Ao chegar ao seu quarto, Marozia sentou-se junto à janela aberta até que a beleza estrelada da noite acalmasse a agitação de seu sangue. Então, com um domínio imperioso de sua vontade, ela afastou aquele estranho feitiço e pareceu alguém que despertara subitamente de um delírio.
“O que é isso — o que é isso?”, perguntava ela repetidamente, sem encontrar resposta. “Sou a mesma Marozia Remington… e, no entanto, não sou a mesma. Não cometi mal algum, mas sinto uma estranha inquietação. O que foi que me aconteceu? Ele falou em poderes. Eu sei que existem poderes espirituais, mas era diferente. Quem tem realmente jamais exerce tal influência; jamais se pronuncia sobre os poderes que tem. Seus discursos versam sempre sobre poder espiritual, sobre a formação do caráter, sobre o crescimento da alma. Ah, eu não compreendo isso!”
Ao relembrar os eventos daquela noite, ela sentiu o feitiço retornar e se repreendeu por isso.
— “Nunca mais o verei, se depender de mim – eu o detesto!”
No entanto, subconscientemente, ela sabia que ele havia entrado em sua vida.
CAPÍTULO VIII – O FASCÍNIO DO FEITIÇO QUE AS FORÇAS DO MUNDO DO DESEJO TECEM
Uma voz de barítono clara ressoou num recitativo grosseiro e zombeteiro, acompanhada por suaves sinos de vaca:
– “Calma aí, garoto – calma aí, Sorrel top!
Pois tudo acontece numa vida, minha Polly Ann!
Tão tweedle-dum e tweedle-dee!
Da moça mais bela ao homem mais corajoso—
(Calma aí, garoto—calma aí) Opa, Nancy Jane!
E se você entrar no caminho?
Bem – bem, eu nunca vi vacas tão grandes!”.
A trilha era estreita; a orla de sabugueiros invadia a vereda sinuosa — as vacas andavam de forma errática — e, com o cair do crepúsculo, Tom tentava acelerar o passo lento do rebanho em direção ao curral. Quem sabe as vacas também têm seus humores! O fato é que, naquele dia, elas haviam se afastado e explorado os limites extremos de seu pequeno mundo, e Tom estava atrasado para a ordenha. Mais uma vez, sua voz rica e sem treinamento entoava trechos de canções — ora sentimentais e comoventes, ora misturadas a versos tolos e jargões disparatados —, enquanto seu rosto alegre e queimado de sol se contraía em sorrisos de canto de boca, sempre que ele fazia uma pausa entre os versos para chamar os animais.
– “Sally, você sabe que eu me importo com você mais do que com qualquer outra coisa, e não gosto de ver você rondando aquele sujeito de Nova York do jeito que faz! Você vive se oferecendo, ficando aqui debruçada no portão à espera dele passar — e depois inventa desculpas para sair pela estrada atrás dele! Já vi isso muitas vezes e tentei evitar que a mamãe desconfiasse, pois não queria que você levasse bronca… mas, olha, estou começando a perder a paciência com isso!”.
Sarah Thomas permaneceu junto à passagem da cerca até que ele desaparecesse atrás do celeiro; então, lançando um olhar furtivo na direção da casa do leite, ela passou silenciosamente pelas travessas e desceu rapidamente pela estrada da colina.
– “Não consigo evitar!”, murmurou ela, sentindo um leve arrepio de desafio — uma sensação tão nova para aquele coração faminto e reprimido que foi acolhida sem reservas em seu íntimo. Ao chegar a um ponto onde a curva da colina ocultava a casa, ela desviou o caminho para um prado que margeava a estrada. A grama alta envolvia seus pés e estendia-se em longas faixas atrás dela. Uma pequena serpente cruzou velozmente o seu caminho. Quando chegou ao seu mirante favorito — uma grande pedra plana, encravada no prado, com vista para o riacho e as colinas distantes —, ela se sentou e esperou.
– “Não consigo evitar!”, ela repetiu. “Eu o amo, sim — e odeio Tom Gregory! Marozia Remington, agora chegou a minha vez!”.
Muitas emoções conflitantes agitavam-na — inveja, ciúme, ódio —, mas predominava o fascínio do feitiço que as forças do Mundo do Desejo estavam tecendo. Ela olhou rapidamente ao redor.
– “Por que ele não vem? Eu disse para ele me encontrar aqui!”
– “Ele não disse que o faria, mas imagino que vá, quando perceber o quanto o amo!”. Ela esperou até que o tempo que havia tomado para si chegasse ao fim e, então, caminhou lentamente de volta para a estrada, tomada por uma sensação angustiante de vergonha e decepção. Acelerou o passo ao ouvir, de repente, o som de cascos de cavalo se aproximando e avistar uma figura contornando uma curva da estrada. Uma voz despreocupada chamou:
– “Ah, Sarah, que ar abatido! Aconteceu alguma coisa com o Tom?”. Nenhuma zombaria poderia ter caído de forma mais devastadora sobre um coração; ainda assim, ela tinha uma vaga consciência de que a merecia. Por mais simples que fosse, seu orgulho inato veio em seu socorro.
– “Boa noite, Sr. Rathburn!”, disse ela com a voz tensa, pronta para seguir caminho. Ele imaginou que aquilo lhe proporcionaria um pouco de diversão para os dias de tédio que teria de passar naquele pequeno vilarejo. Por isso, parou e mudou de postura, adotando um ar de interesse fingido.
– “Com pressa, Sarah? Um compromisso com o Tom ou com a mãe dele?”
– “Meu compromisso era com o senhor — mas parece que se esqueceu dele, Sr. Rathburn!”. Ela não tinha sofisticação suficiente para guardar rancor ou deixar o orgulho falar mais alto por muito tempo.
– “É verdade… ah, perdoe minha negligência, minha camponesa rústica!”
Havia zombaria em seu tom, mas ela não percebeu.
– “Imagino que estivesse na casa dos Remington; então, naturalmente, acabou esquecendo!”. Uma pontada de ódio e ciúme acompanhou as palavras. Ele sorriu, intrigado.
– “E se eu estivesse?”
– “Ora, é claro que o senhor tem o direito de ir aonde quiser, mas…”
– “Mas o quê?”
Ela ficou confusa. Não estava acostumada àquela troca de estocadas e defesas. As sutilezas sociais daquele jogo de esgrima verbal lhe eram totalmente estranhas e, como de costume em tais situações, seus pensamentos transpareciam com clareza. Como o típico homem mundano, ele aproveitou a oportunidade para se divertir um pouco mais.
– A propósito, Sarah, você está evoluindo rapidamente! Na verdade, está ficando muito bonita! Você tem trabalhado muito ultimamente?
– Sim.
– O que acha de morar numa casa agradável, onde não precisaria trabalhar pesado — apenas ajudar nas tarefas mais leves? Vou comprar uma casa em breve e colocar a Sra. Reed como governanta. Gostaria de ser assistente dela?
Os olhos da moça brilharam de alegria.
– “Ah, como eu gostaria!”
– “Você perguntou se eu estive na Villa. Acabei de voltar de lá — tive negócios com o Sr. Remington. Parece que ele não vai durar muito! A sorte está contra ele em todos os sentidos!”
Duas pequenas entidades clamavam por acesso ao cérebro de Sarah. Uma era um duende malicioso que sorriu diabolicamente por trás dos olhos dela quando conseguiu entrar. Ele a incitava a se alegrar com a possível queda de um inimigo imaginário.
Apontou Marozia Remington como a “inimiga”. O lampejo momentâneo de triunfo exultante revelou sua presença a Claude Rathburn. Isso traiu o lado feio da, até então, “simples empregada rústica”. Agiu como um paliativo para uma consciência acusadora – como um paliativo agiria, pois, sua consciência nunca o perturbou. Ele havia sido colocado para dormir há muito tempo. Ele estava começando a sentir um desprezo enojado misturado com diversão quando a outra entidade prevaleceu momentaneamente. Este despertou uma emoção melhor – de pena – não para Marozia, mas para seu pai. Ela exclamou com sentimento:
– “Coitado do professor! Eu gostava tanto dele! E que professor ele era — nunca vi outro igual! Ele me ajudou naquela época terrível em que meu pai me tirou da escola para me pôr na fazenda! Faltava só um ano, e eu queria muito terminar para poder dar aulas. O Sr. Remington me ajudava com geometria e latim fora do horário de aula… mas não adiantou nada! Meu pai dizia que estudar estragava as mulheres — então fui mandada para a casa da Sra. Gregory!”
– “Bem, você não precisa ficar lá muito tempo!”
Seu tom era de indiferença. Por um momento, tentou sentir aquele interesse divertido de antes, mas em vão. Ele havia percebido nela um traço de vulgaridade que transformava o que poderia ter sido apenas um passatempo passageiro em uma megera vulgar em potencial. A expressão de triunfo em seu rosto logo deu lugar a um ar de pavor e desconcerto ao ouvir o assobio de Tom ao longe.
– “Ah, preciso correr de volta para a leitaria, senão a Sra. Gregory vai dar pela minha falta e aí…”
– “Aí ela mandaria o Tom atrás de você, imagino!”
– “Ah, pior do que isso… ela mesma poderia vir!”
Um sorriso divertido surgiu em seu rosto.
– “Consigo até imaginá-la — óculos, chapéu de sol, nariz e todos os outros acessórios — vindo estrada abaixo atrás de você!”.
– “Pois é… não teria graça nenhuma, pode acreditar! Mas… quando posso voltar, Sr. Rathburn?”.
– “Ah, não se preocupe com isso, Sarah! Você sabe que sou um homem bastante ocupado hoje em dia… tenho vários projetos em andamento, na verdade!”
Percebendo o olhar de decepção dela, acrescentou rapidamente:
– “Venha quando tiver vontade e, se eu estiver por aqui, ótimo! Se não… o Tom pode servir.”
– “Queria que o senhor não dissesse essas coisas, Sr. Rathburn! O senhor sabe que eu odeio o Tom Gregory!”
– “Está tudo bem, Sarah… eu estava apenas brincando com você!”
O sorriso que acompanhava as palavras trouxe de volta a luz do sol ao seu coração simples. Enquanto corria pela estrada, sentiu-se subitamente elevada acima de sua existência miseravelmente banal. Um toque de romance havia entrado em sua vida de labuta sórdida. Toda a natureza parecia compartilhar de sua alegria, e o capim alto à beira da estrada, ao roçar em seu vestido, oscilava como se em êxtase.
Tom estava junto à porteira e sorriu de forma significativa quando ela passou. Havia sofrimento e uma nota de pesar naquele sorriso.
– Escuta aqui, Sally… a Mamãe está lá na leiteria esperando por você! É melhor se apressar!
Ela sentiu um súbito desafio ao destino, uma espécie de ousadia desenfreada que a fez desprezar as consequências. Como um animal ferido, Tom virou as costas e subiu, arrastando-se, para o seu sótão no celeiro.
Claude Rathburn cavalgava com desdém pela estrada poeirenta em direção ao vilarejo e resmungava, contrariado:
– Droga… como eu odeio este lugarzinho pacato e tudo o que há nele, exceto… Bem, suponho que terei de suportar tudo isso em nome dos… resultados!
CAPÍTULO IX – MENTE TÃO DOMINANTE QUE NÃO DÁ AO CORAÇÃO A CHANCE DE FALAR
Marozia viveu um estranho estado de espírito nos dias que se seguiram. Seus problemas pareciam, de repente, insolúveis por qualquer meio que ela tivesse ao seu alcance. A estranha influência daquela noite de festa persistia nela, por mais que tentasse afastá-la. O feitiço, tecido de forma tão sutil, refletia-se em seu íntimo, atormentando-a duplamente. Ela não conseguia apagar da memória aquele instante em que sentiu sobre si o olhar de basilisco. Por vezes, sentia apenas profunda aversão e desprezo pelo homem que adquirira aquela influência inexplicável sobre ela. Mas, num relance, as espirais irresistíveis voltavam a envolver seus sentidos. Ela ficava muda, tomada pelo horror e pelo mistério de tudo aquilo.
Passou-se um mês repleto de eventos sociais nos quais Claude Rathburn figurava com destaque. Ele era a sombra de Marozia; por mais que ela tentasse, não conseguia escapar dele. Então, de repente, a popularidade dela começou a declinar. Ela fora a alma de todas as reuniões sociais — sua vivacidade e originalidade, seu espírito cativante e humor peculiar lhe haviam conquistado admiração e um certo séquito de seguidores. Ela possuía um grande charme magnético e, aliada à sua força e postura, havia uma doçura e uma graça de alma irresistíveis. Claude Rathburn estava agora perdidamente apaixonado por ela e decidido a não deixar que nada impedisse seus esforços para conquistá-la como esposa. Mas a popularidade é tão efêmera quanto a fama e a honra. Depende de tantas contingências. Ela não mudou, mas os caprichos de seus conhecidos, sim. Na opinião dela, eram apenas conhecidos — não amigos. Amizade é um nome sagrado demais para ser aplicado àquelas excrescências que brotam num dia e murcham com a mesma rapidez. O ciúme era a causa subjacente do recente declínio de sua popularidade. Decidiu-se, naqueles encontros regados a chá, que as outras moças não teriam a menor chance enquanto Marozia estivesse tão em evidência; portanto, ela precisava ser deixada de lado. A família Watson tomou a iniciativa ao organizar uma excursão ao Lago Otsego e excluí-la do grupo. Foi uma atitude ousada para aquela pequena comunidade, mas eles não pensavam a longo prazo — eram incapazes de tal dispêndio de energia mental.
Elas se parabenizaram pela jogada de mestre e planejaram um golpe no qual a riqueza e a ostentação de trajes luxuosos desempenhariam um papel de destaque — sendo Claude Rathburn o prêmio.
Na manhã do dia decisivo, do qual as “candidatas” tanto esperavam, Marozia estava sentada sozinha sobre sua rocha no prado, em profunda meditação. Como vinha acontecendo ultimamente, sua Mente estava voltada para as suas múltiplas dificuldades. “O que devo fazer?”, exclamou ela em voz alta, depois de analisar a situação sob todos os ângulos. Uma voz ao seu lado respondeu:
– “Eu lhe direi, se você quiser ouvir! Posso lhe dar a ‘Pedra de Roseta’ que lhe permitirá decifrar os estranhos hieróglifos da vida! Caso contrário, você tateará no escuro em vão!”.
Tomada por um espanto imenso, ela olhou na direção da voz e viu Claude Rathburn. Levantando-se rapidamente, exclamou, consternada:
– “Pensei que você tivesse ido com o grupo!”
– “Você acha que eu iria sem você? Quando, no último instante, soube que você não faria parte do grupo, simplesmente desapareci!”. Ela ergueu as mãos para se proteger daqueles olhos terríveis, mas ele as segurou.
– “Marozia, você sabe que a amo acima de tudo!”
– Por que você procura me evitar? Não vai adiantar nada… você deve ser minha esposa!
– “Nunca, nunca!”. Ele a obrigou a olhar para ele e, ao fixar os olhos no rosto dela, ela vacilou novamente.
– “Marozia?” – O nome foi sussurrado em um sussurro baixo e sibilante.
– “Marozia?”, ele repetiu. Mesmo assim ela não respondeu, mas o feitiço estava tomando conta dela novamente e enquanto ela desejava escapar, sentiu-se impotente para se mover.
– “Você será minha esposa?” – O tom era mais uma ordem do que uma súplica.
– “Não, mil vezes não!” – Ainda assim, os olhos dele estavam fixos nos dela e ela desmaiou.
– “Perdoe-me! Mal sei o que estou dizendo, mas…
– “Sim, entendo! Você está animado, mas sei o que seu coração diria! Você me ama, só que sua Mente é tão dominante que não dará ao Coração a chance de falar!
– Deixe falar agora e você não se arrependerá!”. Com um esforço violento, ela soltou as mãos e desviou os olhos. “Eu não te amo, eu te abomino! Deixe-me imediatamente!”
Ela ergueu novamente os olhos para o rosto dele e sentiu o controle sobre a própria vontade vacilar. Então, uma dúvida sobre si mesma a dominou. Estaria o intelecto em conflito com o coração e os direitos deste? Seria ela intelectual demais para amar? Sua Mente dominante a estaria impedindo de alcançar uma possível felicidade? Novamente, a voz dele suplicou:
– “Só o amor satisfaz! O Coração, e não a Mente, deve ser a voz decisiva! Sua mentalidade é imperiosa demais para se curvar ao seu legítimo soberano!”
Ela sentiu-se ceder novamente ao feitiço — aquele estranho feitiço que se apoderava dela aos poucos.
– “Marozia, você quer ser minha esposa?” — ouviu-o suplicar em um tom baixo e magnético. Seus olhos brilhavam com uma espécie de triunfo sutil. Ele tentou puxá-la para perto, mas ela se desvencilhou bruscamente mais uma vez. Pressionando as mãos sobre os olhos, ela recuperou a compostura.
– “Não — não — mil vezes não!”, repetiu ela, como antes.
O esforço de vontade rompeu o feitiço, e cada palavra serviu de estímulo à sua determinação. Uma expressão estranha cruzou-lhe o rosto; um observador atento poderia ter discernido nela uma mistura de fúria impotente e vexame. Ela não ousou olhar novamente para o rosto dele. Enquanto se apressava pelo caminho verdejante, sentia-se como uma rosa após uma criatura viscosa ter rastejado sobre o seu doce coração branco. Ansiava por escapar, por apagar a mancha deixada em sua consciência imaculada. Sabia — ela, que era ao mesmo tempo menina e mulher — que o amor não deixaria tal mácula; que uma natureza elevada e pura não imprimiria tal marca na sua. Ouviu-o chamar por ela:
– “Marozia!”. Sua voz estava próxima.
– “Se você imagina que eu abandono um propósito tão friamente assim, está enganada sobre a minha natureza! Eu nunca vou desistir de você!”
– “Por favor, me deixe”, ela implorou, “Eu só quero esquecer!”
– “Suas palavras são uma confissão! Elas implicam que há algo a ser esquecido!”. Uma onda de vergonha ruborizou o rosto dela.
– “Não! Eu não poderia te amar e não me casaria a menos que pudesse te amar com todo o meu coração e alma!”
– “Por todos os poderes existentes, você vai me amar assim!”, ele exclamou com uma veemência surpreendente.
– “Eu não vou! Eu não faria isso mesmo se pudesse. Isso me mataria!”
Mesmo enquanto falava, temia que o feitiço retornasse.
– “Então você brincou comigo, Marozia Remington, e pagará por isso!”.
De repente, a doce frescura da manhã havia desaparecido de sua vida.
– “Foi assim que Eva se sentiu depois que a serpente a deixou?”, perguntou.
– “Mas o que eu fiz para merecer esse sentimento de culpa? Nada conscientemente, mas tudo parece ter mudado!”
Mais tarde, ela soube o porquê. Quando compreendeu melhor os Ensinamentos Rosacruzes, soube que existiam vários tipos de vampiros. Hoje, ela não sabia como os Éteres do Corpo Vital podiam ser usados para servir a algum fim vil e egoísta, e o mistério da experiência a aterrorizava.
Dia após dia, suas perplexidades se aprofundavam, e seu pai tornava-se mais silencioso e preocupado. Ele não havia ficado ocioso, mas seus esforços foram inúteis; as probabilidades jogavam fortemente contra ele. A única coisa que lhe trazia algum consolo era a atitude de Marozia em relação a Claude Rathburn. Isso estava em harmonia com sua própria percepção íntima. Ele sentia intuitivamente que tal união não poderia resultar em felicidade para Marozia. Sabia que ela precisava de muito mais lealdade amorosa e verdade do que a jovem comum, pois ela mesma oferecia muito mais. Com sua Mente brilhante e perspicaz, sua natureza profundamente analítica e seu temperamento artístico, ela era rica em potencialidades. Poucos homens estariam à altura de seus padrões elevados, mas feliz seria aquele que pudesse ser o seu cavalheiro!
Seus padrões não eram impostos arbitrariamente de fora — como as convenções sociais —, mas eram inerentes à sua própria natureza sublime. Eles nasciam de suas convicções íntimas e eram formados pela substância do plano em que sua consciência estava centrada. Suas convicções eram parte integrante de seu ser. Cálculos materialistas e mercenários sempre lhe causavam profunda repulsa; no entanto, esse era justamente o aspecto que tingia todo o pensamento de Claude Rathburn. Ele se cercava de uma aura através da qual pensamentos elevados e nobres jamais conseguiam penetrar.
Nessa fase, ela não havia racionalizado a questão, mas sentia instintivamente a falta de harmonia entre eles. Contudo, exercia-se pressão de todas as esferas para unir a vida dela à dele.
Enquanto Ralph Remington observava com aprovação a atitude de sua filha em relação a Claude Rathburn, ele aguardava o momento crítico de seus negócios.
CAPÍTULO X – AJUDAR SOMENTE QUEM QUER SER AJUDADO
Durante as conversas diárias de Marozia com a Sra. Morton, ela percebeu a necessidade não apenas de impulsos altruístas, mas de impulsos altruístas concretizados — se quisesse alcançar seus horizontes distantes. Num rápido lampejo de lucidez, ela vislumbrou — com sua aguda percepção mental — uma imagem de si mesma nada admirável. Viu-se como alguém que apenas fingia diante da verdade — diante do tribunal interior —, mas que não estava disposta a fazer o sacrifício necessário para vivenciá-la de fato.
Sob aquela luz reveladora, sua autossuficiência mostrou-se não passar de autocomplacência. A percepção que tinha da unidade subjacente parecia servir apenas como um campo mais amplo para nutrir e incentivar o crescimento de uma separação ainda mais intensa.
Seu ideal exigia dela uma perfeição interior e inata, e essa perfeição residia apenas na direção do belo altruísmo que sua filosofia lhe impunha. Contudo, um sentimento de revolta e repulsa em relação às Personalidades humanas ao seu redor a impedia de alcançar esse propósito altruísta. Ela teorizava sobre a beleza e a verdade abstratas; adorava sentar-se no isolamento refinado da biblioteca de seu pai, cercada pelos clássicos da antiguidade, lendo Platão, Bacon e Emerson. Gostava de traçar o Esquema de Evolução à luz dos Ensinamentos Rosacruzes. Por entre todas as complexidades e meandros da Evolução, sua Mente insistia em retornar ao silêncio onde ela, o Ego que é, podia comungar com o Infinito. Repousando em Deus — a grande Fonte da vida —, ela podia observar e acompanhar o primeiro movimento do Verbo através da substância primordial: o polo negativo do ser. Depois, a manifestação em inúmeras formas, o nascimento de Mundos, as diversas Ondas de Vida iniciando sua longa Involução – a parte do Esquema de Evolução para frente e para baixo, rumo a densidades maiores dos Mundos e Regiões –, sua descida a uma matéria cada vez mais densa. Quando o ponto mais baixo da materialidade era atingido – o Nadir da Materialidade –, começava então a ascensão pela longa trilha de volta ao Infinito (a parte Evolução do Esquema de Evolução: para frente e para cima), munida de todos os poderes adquiridos através de provações e tempestades, de sofrimento e dor. Tudo isso — essa contemplação elevada — era fascinante para ela; mas vivenciá-la em meio a todas aquelas Personalidades repugnantes… ah, essa era a parte difícil! No entanto, era isso que ela precisava fazer para alcançar a meta! Ela se sentia com uma Personalidade dual. Uma parte travava uma batalha perpétua contra a outra. Às vezes, vislumbrava claramente a vida altruísta de amor Crístico, do serviço e da compaixão. Em outros momentos, porém, o sentimento de separação a dominava, e ela se via delimitada, como que por uma linha definida, em relação aos outros seres. Sua Individualidade era dominante e completa. Havia chegado ao ponto além do qual não poderia se manifestar sem perigo.
Uma alma que realmente deseja conhecer e viver a verdade descobrirá que todos os seus caminhos convergem para aquele único ponto focal e, desafiando todas as forças contrárias, será guiada ao seu objetivo. Sua autoconsciência fundir-se-á com o autoexame. O pensamento examinará seus próprios movimentos com interesse crítico — não para fins de pesquisa psicológica comparativa, mas com um propósito benéfico. Sob essa perspectiva, o autoexame jamais degenerará em amor-próprio ou autopiedade.
Quando impulsionado por um propósito altruísta, o crescimento da alma é favorecido. Nessa fase de sua experiência, a imagem de Sarah Thomas surgia constantemente em sua Mente. A conversa que tivera com a Sra. Morton, na primeira manhã após seu retorno para casa, voltava-lhe sempre à memória. Em sua nova dedicação a servir à Humanidade, ela sabia que precisava começar pelo lar, pelo círculo mais próximo, e ajudar aquelas pessoas de todas as maneiras possíveis. A condição comovente de Sarah despertava-lhe a compaixão, mas sua Personalidade causava-lhe profunda repulsa. Era uma Personalidade tão desafiadora, insolente e de uma audácia tão grosseira que, até aquele momento, não surgira qualquer oportunidade de oferecer ajuda. Ainda assim, ao lembrar-se do desejo de Sarah de obter instrução, de seus esforços heroicos nesse sentido e dos obstáculos intransponíveis que lhe eram impostos, a compaixão crescia, a despeito da atitude repulsiva da moça. Certo dia, ela foi procurá-la com o desejo sincero de transpor o abismo que as separava, a fim de influenciar a vida de Sarah de maneira edificante. Dirigiu-se à casa da fazenda da Sra. Gregory. Era dia de bater a manteiga, e sua chegada foi inesperada e inoportuna. A atitude da Sra. Gregory foi hostil; ela considerava a visita de Marozia à sua “ajudante” uma intromissão indevida. A “ajuda” dela era vista apenas como algo destinado a bens e objetos materiais — eles não tinham almas que pudessem ser ajudadas ou esmagadas.
O sorriso de Marozia era elétrico e radiante. Ela estendeu a mão cordialmente ao se aproximar de Sarah, que moldava a manteiga em pãezinhos. A recepção que Marozia teve passou longe de ser amigável. Os olhos de Sarah se estreitaram obliquamente ao lançar-lhe um olhar de soslaio — e, em seguida, um ar de desconfiança surgiu neles. Ela continuou seu trabalho e respondeu em monossílabos. As tentativas de aproximação de Marozia foram em vão — não surgiu nenhuma brecha para um interesse amigável, e ela partiu com o coração pesado e o entusiasmo um tanto arrefecido.
— “Afinal, qual é a utilidade disso?”, perguntou-se mentalmente, enquanto descia a colina em direção à escola de tijolos vermelhos para encontrar o pai. — “Será que não temos uma visão distorcida do serviço nesta era de atividade intensa, voltada para manifestações externas? O caminho de Emerson[1] não seria o melhor? Será que realmente ajudamos as pessoas ao nos esforçarmos tanto — ao interferirmos, de alguma forma, em seus destinos? Os teosofistas são regidos pela lei rígida e imutável do carma. Nós vamos para o outro extremo e damos tanta ênfase ao ‘serviço amoroso e desinteressado ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade’ que Mentes pouco criteriosas acabam interferindo no processo evolutivo. Esquecemos que a Epigênese cuida de toda vida em desenvolvimento na forma humana — e faríamos bem em não interferir na evolução alheia, mas sim ajudar sempre e onde o dever claramente apontar o caminho. Sarah evidentemente não deseja minha ajuda — ela se ressente do que considera uma intromissão — e, no fim das contas, ela provavelmente tem razão! Ela tem seu próprio destino a construir — não pediu ajuda, e não tenho justificativa para assumir a prerrogativa de uma instrutora. Pelo menos isso me ensinou uma lição: viver minha vida, irradiar toda a luz que puder e estar sempre pronta para ajudar quem precise de meus serviços e os solicite, mas nunca me impor ao outro. Cada um deve conquistar sua própria salvação — buscar seu próprio desenvolvimento!”.
Assim ela refletia enquanto caminhava pela estrada poeirenta. Sarah, por sua vez, alimentava seu espírito de ódio ciumento e ressentimento surdo contra a jovem cujos dons e graças se destacavam, nitidamente delineados, contra o fundo sombrio de sua própria insuficiência. Ela se sentia tratada com crueldade pelo destino e ansiava por vingança.
— “Aquela convencida… não precisava vir aqui bisbilhotar! Ela se acha melhor do que eu só porque teve vantagens que eu não tive! Pois eu ainda vou me vingar de você, Marozia Remington — porque eu te odeio!”. Então, uma diabinha maliciosa esgueirou-se para trás de seus olhos e espiou para fora. A expressão era tão diabólica e de escárnio que a Sra. Gregory a notou e exclamou, com aprovação:
— “É melhor ela cuidar da própria vida e não aparecer mais por aqui! Ela só vem para ‘espiar o terreno’ — como minha avó costumava dizer!”. Sarah não respondeu; estava ocupada planejando uma vingança.
O tipo de pessoa que Sarah representa é frequentemente encontrado por trabalhadores altruístas; aqueles que têm maior clareza de visão consideram sábio deixá-las trilhar seu próprio destino. Elas têm lições a aprender que só podem assimilar verdadeiramente sozinhas — por meio do sofrimento. Tentar protegê-las disso — tentar suportá-la em seu lugar — é frustrar ou retardar o seu desenvolvimento. Muitas almas compassivas cometem esse erro, apenas para descobrir, mais tarde, que interferir na evolução de outra pessoa — mesmo com as melhores intenções — é um erro e nunca ajuda o indivíduo em questão. É aqui que o Exercício Esotérico Rosacruz de Discernimento deve ser aplicado repetidamente, a cada nova situação.
Marozia travava agora batalhas diárias consigo mesma. Enquanto isso, outras forças moldavam o destino dela e de seu pai.
Ralph Remington recebeu, de repente, a notícia de que seus serviços como professor da escola do vilarejo não seriam mais necessários. Quando o período letivo de outono começou, um pedagogo ianque assumiu o seu lugar. A escola se rebelou, e alguns dos rapazes mais velhos — homens em porte físico — carregaram-no ignominiosamente nos ombros e o depositaram nas águas rasas do riacho. Na vez seguinte em que ele apareceu, uma rolha cravejada de alfinetes serviu de substituto para a almofada da cadeira de sua mesa. Ao ameaçar castigar todos os meninos, começando pelo mais velho para não deixar escapar o verdadeiro culpado, ele acabou recebendo um novo banho no riacho. Atrás da cadeira, no quadro-negro, lia-se a seguinte inscrição em letras grandes de forma: “Consagrado à memória de Ralph Remington, professor”! O pedagogo recém-contratado pediu demissão.
A escola enviou uma petição pedindo a reintegração do antigo professor, mas o Conselho manteve-se irredutível. A influência de Horace Rathburn era poderosa. Por fim, solicitou-se a Ralph Remington que, em nome da lei, da ordem e da educação, conversasse com os alunos rebeldes. Ele deixou de lado suas mágoas e apresentou-se diante de seus antigos alunos com um profundo brilho místico no olhar; defendeu seu sucessor, apelando para a honra e a lealdade deles como futuros cidadãos. Eles ouviram com atenção, de semblantes contritos, depois que a tempestade de aplausos que saudou seu reaparecimento entre eles havia cessado. Ele despertou o que havia de melhor neles e, sem uma palavra de censura, fez com que se sentissem culpados. Rubores de vergonha subiram pelos rostos bronzeados e sardentos, e uma mudança de atitude se operou. Ele retornou à quietude de sua biblioteca e escreveu até altas horas da noite. Dia após dia, crescia nele uma ansiedade febril para terminar seu livro. A necessidade agora o impulsionava.
O professor ianque estava novamente no cargo, e as coisas na escola prosperavam aparentemente. No coração dos alunos, porém, havia uma rebeldia secreta. Ralph Remington fora extremamente consciencioso em seu trabalho como professor. Em cada Mente sob sua orientação — desde o garoto descalço e de rosto sardento que lutava penosamente com a divisão longa até o jovem estudioso cuja Mente ágil resolvia com facilidade problemas de geometria —, ele via um possível “gênio” em embrião.
— “Pois quem pode prever o futuro de qualquer um destes rapazes?”, disse ele, respondendo à sugestão bem-humorada de Marozia de que parte do material humano ali presente não parecia muito promissor. Marozia sempre via o lado divertido das pessoas e das coisas.
— “Imagino que não seria difícil ‘prever uma carreira’ para alguns deles — para Billy Jenkins e Peter Rooney, por exemplo!”, respondeu ela, com seu habitual sorriso espirituoso.
— “Ah, minha querida, devemos lembrar que alguns, cujo início foi extremamente desfavorável, surpreenderam o mundo com suas realizações. Não podemos nos dar ao luxo de deixar que uma única alma perca uma oportunidade de cultura. Nós, que cuidamos deles, devemos trabalhar incansavelmente. Poucos professores compreendem plenamente sua responsabilidade; caso contrário, seu trabalho apresentaria melhores resultados.”
— “Suponho que, para muitos, o ensino seja apenas um ofício”, respondeu Marozia, pousando a mão com carinho sobre a cabeça dele.
— “Deveria ser uma Religião!”, respondeu ele com fervor.
Como todo professor que possui notável habilidade aliada a grande originalidade, ele nutria certas teorias próprias sobre sua profissão — teorias que formulava e aplicava diariamente. Isso, no entanto, deve ser dito no passado, pois seu trabalho como professor na escola do distrito havia chegado ao fim. Outras teorias, patrimônio comum de todos os sábios e eruditos, haviam adquirido um caráter distintivo — um toque de sua Personalidade marcante — à medida que eram desenvolvidas em detalhes por sua Mente ávida e incansável.
Ele atribuía grande parte da atual apatia em relação às coisas mais elevadas e refinadas da vida aos princípios falsos assimilados durante a fase inicial do desenvolvimento mental.
— “Uma vez estabelecido o alicerce adequado, minha filha, a Mente, à medida que progride, naturalmente assimilará os elementos necessários para o seu próprio crescimento.”
— “Mas e quanto à responsabilidade do “Ego” nessa questão, querido pai? Ele não desenvolveria suas capacidades sob quaisquer circunstâncias? O ambiente em que Lincoln cresceu representava um grande obstáculo; ainda assim, ele se desenvolveu e realizou sua obra magistral a despeito disso.”
— “Lincoln era um Ego avançado — forte o suficiente para forjar seu destino contra todas as forças contrárias. Nem todas as almas estão à altura dessa tarefa. Algumas mantêm suas capacidades em estado latente e precisam de auxílio para desabrochá-las e utilizá-las plenamente. Cabe aos educadores da Humanidade proporcionar essa oportunidade.”
— “Sim, compreendo”, assentiu Marozia. “Cabe a eles lançar os alicerces, e o Ego responderá de acordo com seu estágio e desenvolvimento.”
— “E o alicerce deve ser amplo”, concluiu ele. “Amplo o suficiente para permitir que qualquer altura seja alcançada em anos futuros, sem comprometer a simetria.”
Essas ideias eram expressas de tempos em tempos, enquanto ele conversava com Marozia sobre o seu trabalho. Eram sempre proferidas naquele estilo peculiar, sincero e eloquente — quase forense —, que possuía um charme próprio, tão em harmonia com a sua dignidade gentil e o seu caráter elevado. Ele sentia profundamente a humilhação presente, mas a tristeza por ser forçado a abandonar seu amado trabalho era ainda mais intensa.
Forças sutis do mal pareciam agora conspirar contra ele. Esse fato lhe ocorreu pela primeira vez quando rostos desviados e cumprimentos constrangidos o recebiam a cada esquina. Alguns o cumprimentavam com uma aparente cordialidade, mas, através da tênue camada de interesse presumido, revelavam uma suspeita antipatia ou animosidade ciumenta. Essa é a mais desprezível das afrontas a uma natureza nobre. Era sempre transparente para sua inteligência ágil e sensível e evocava, com o silencioso desalento de sua grande alma, um sublime desprezo. Ele desprezava toda a trama desonesta, toda a mesquinhez. Era impossível para ele compreender a repentina retirada de estima e honra. Ele sabia que era tão digno quanto antes. Sua inocência não reconhecia o veneno secretamente destilado. Alguns inimigos nunca agem abertamente.
Eles têm o dom de aparentar amizade enquanto apertam seus laços com mais força ao redor da vítima desavisada. Horace Rathburn dizia com um sorriso que pretendia ser convincente:
— “Ah, sim, coitado do Ralph, ele nunca conseguiu se dar bem. Tudo lhe escapou por entre os dedos, pura má administração e… sonhos! Sinto muito por ele e gostaria de ajudá-lo ainda mais, mas é como jogar dinheiro na rua. Ele nunca consegue resgatar suas notas promissórias e… bem, você conhece o velho ditado: ‘A caridade começa em casa’. Eu o sustentei o máximo que pude!”.
Assim, ele se fazia de amigo bondoso e interessado, enquanto espalhava a impressão, onde causaria mais danos, de que Ralph Remington era pouco menos que um indigente dependente de sua caridade. Após mais um encontro entre Marozia e seu filho Claude, ele redobrou seus esforços para torná-lo um indigente de fato. Ele tinha seu próprio método para fazer isso.
Como Claude gozava de grande prestígio com a Sra. Remington, sua estratégia era esperar o momento certo para o golpe final. Por amor a Claude, ele cederia agora mesmo se Marozia pudesse ser persuadida a ceder sem os métodos inquisitoriais. Começava a parecer sem esperança desde o último tête-à-tête relutante dela com Claude. Enquanto isso, ele gradualmente apertaria os laços em torno de sua vítima inocente. Era fácil para ele atingir seus objetivos, pois era um homem de negócios tanto na aldeia quanto no mundo exterior.
— “Ainda vou forçá-los a agir!”, murmurou ele em sua linguagem de jogador.
Foi bom para a alma orgulhosa e sensível de Ralph Remington que ele desconhecesse a extensão total das calúnias em circulação. Ele não imaginava que era considerado indigente e desonroso. Ele não imaginava que sua nobre e elevada amizade com a Sra. Morton fosse mal interpretada. Algumas dessas calúnias cruéis se originaram da mulher que carregava seu nome.
Seu ciúme, e mais tarde seu rancor pela recusa do marido em coagir Marozia a aceitar Claude Rathburn, foram os motivos subjacentes em suas ações dissimuladas.
Quando uma alma se destaca de seus pares por uma grandeza interior, ela é sitiada pelos poderes do mal. Sua força e fibra são testadas a cada instante. É necessário que as forças das trevas afastem toda inteligência elevada consagrada aos fins mais nobres — se quiserem ter sucesso em seus propósitos diabólicos. Toda alma radiante, forte e nobre é uma barreira para suas ações malignas de arrastar a Humanidade para baixo.
Assim, toda grande alma imbuída de ideais nobres, com um propósito elevado, é um alvo para seu ataque aberto ou uma marca para sua astúcia secreta e mortal. Elas agem de muitas maneiras — às vezes por meio de um trabalho amado realizado a serviço da Humanidade — às vezes por meio de pessoas fracas e negativas que são facilmente influenciadas por forças externas. Uma mulher que se coloca como esposa pode ser a inimiga mais cruel e implacável para um homem de grande alma. Assim foi no caso de Ralph Remington. Enquanto caminhavam distantes, ele com seus ideais elevados, ela com sua Mente vil e sórdida, totalmente voltada para bens materiais, para objetivos e fins egoístas, ela se tornou sua inimiga mais sutil. Ela cooperou com Horace Rathburn à sua maneira astuta, sem perceber as consequências totais de suas ações sobre si mesma e sobre os outros. Como muitas outras Mentes inclinadas à vingança e ao rancor, ela lançou um bumerangue que acabou se voltando contra ela mesma. Almas imaturas desconhecem a Lei de Consequência que opera de forma segura e imutável, a menos que a pessoa seja grande e boa o suficiente para transcendê-la. Para isso, a consciência Crística deve ser despertada.
A Sra. Morton viu e ouviu muitas coisas com o horror indignado que a verdadeira amizade sente por um amigo que está sendo difamado. Ela fez tudo o que pôde para frustrar os planos malignos de Horace Rathburn e sua ingênua, a Sra. Remington, mas o mal é sutil e mortal, enquanto a bondade é aberta e desprevenida.
Ralph Remington gradualmente se afastou de seus semelhantes e passou a viver em comunhão com os grandes de todas as épocas e com seu Deus. Muitas experiências profundas lhe foram vivenciadas enquanto vivia em silêncio. Diariamente, ele comprovava a veracidade de suas convicções íntimas, concretizando o que fora uma intuição de longa data. Sua visão etérica estava se desenvolvendo e ele podia ouvir a música mais maravilhosa ao despertar pela manhã, revigorado após sua imersão nos Mundos internos. Ele sentia, mais do que via, a presença de Inteligências Superiores, e a comunhão silenciosa com elas o inspirava para o trabalho e o sofrimento diários. Agora, trabalhava incessantemente em seu livro, que tratava de problemas psicológicos profundos e que ele concebeu como um auxílio complementar para estudantes dessa Ciência. Ele tinha uma visão tão esclarecida da utilidade daquilo para professores e alunos — especialmente por poder relacioná-la ao ensino maravilhoso que recebera graças à estadia de Marozia em Utica — que se sentia ansioso, quase com um entusiasmo infantil, por concluí-la. Esse envolvimento em um esforço elevado revelava-se benéfico para ele naquele momento, diante da crise iminente.
[1] N.T.: “Caminho de Emerson” refere-se, mais notavelmente, à filosofia individualista e de autossuficiência do ensaísta e transcendentalista americano Ralph Waldo Emerson, centrada na verdade interior e no não conformismo. O termo também pode se referir a “Emerson’s Way”, um romance de mistério da série “Emerson and Snow”.
CAPÍTULO XI – É PRECISO UMA TEMPESTADE OU UMA CRISE PARA DESPERTAR UMA NATUREZA APÁTICA
A fortuna dos Remington havia ruído! A tempestade finalmente havia passado, e uma mudança significativa chegara à vida dos moradores da Villa. Houve um leilão de bens domésticos — uma renúncia forçada aos seus lares e pertences mais caros. Até mesmo o velho sótão fora profanamente invadido e devastado. Todos os seus tesouros de outros tempos sucumbiram, seja sob o martelo implacável do leiloeiro ou diante das línguas vermelhas e devoradoras da fogueira. Os móveis antigos — há muito banhados dos cômodos inferiores, mas ainda ricos em mogno e jacarandá esculpidos à mão — juntaram-se à procissão silenciosa de rocas e teares, cadeirões e berços que seguiam para a coleção do Sr. Watson, um novo-rico e caçador de relíquias sem escrúpulos. Nada escapou no sótão, exceto os baús com o enxoval de noiva — peças de linho tecido em casa, perfumadas com lavanda e amareladas pelo tempo — e os ricos brocados de seda antiga, com suas saias opulentas e corpetes de renda rígida, que haviam servido a mais de uma noiva da família. Esses baús foram arrastados de seus cantos escuros sob o telhado inclinado, despertando uma colônia de aranhas e centopeias. Uma carroça agrícola estacionada na varanda oeste continha o que fora salvo do desastre e transportou os pertences para uma casa de quatro cômodos perto do moinho em ruínas. Dali em diante, aquele seria o “lar” dos “orgulhosos Remington”. A Villa passara para as mãos de Horace Rathburn.
Enquanto a carroça descia lentamente pela estrada da colina, Sarah Thomas — que levara uma jarra de bebida azeda para Tom Gregory — parou e sorriu. Era um sorrisinho malicioso. Tom transportava pedras para construir outra cerca e, enquanto sua carroça de pedras descia pela trilha verdejante, Sarah parou sob uma grande nogueira e observou a carroça carregada de móveis balançando perigosamente, prestes a tombar na estrada íngreme e pedregosa. Sarah talvez sentisse um pouco de pena se não odiasse Marozia Remington com um ódio invejoso. Ela puxou as fitas de seu chapéu de sol, pensativa.
— “É apenas uma forma de equilibrar as coisas!” — exclamou ela em voz baixa. A Sra. Gregory girou o corpo em direção a ela (essa é a única palavra que descreve perfeitamente seu andar peculiar), com as fitas do chapéu voando ao vento. Ela possuía um talento nato para farejar fofocas e jamais deixava escapar nada do que acontecia — especialmente aquelas coisas que deveriam, de preferência, transcorrer com certa discrição. Nenhum veículo passava pela estrada da colina sem que os olhos ou ouvidos atentos da Sra. Gregory o detectassem. Ambos os sentidos eram aguçados, como convinha à sua avidez por notícias da vizinhança.
Sem dúvida, ela devia parte de seu sucesso nessa área à dedicação absoluta à sua “atividade”. Jamais permitia que trivialidades como bater manteiga, varrer ou passar roupa interferissem na coleta de notícias. Essa era a sua verdadeira vocação; todas as tarefas domésticas não passavam de questões secundárias. Com as mãos ainda sujas de massa ou água de lavar louça, ela pegava seu chapéu de sol e, com as mãos na cintura, examinava cada detalhe da cena que se desenrolava diante dela. Nessas ocasiões, sua postura compunha um elemento marcante da decoração do jardim — algo que combinava perfeitamente com o local. Aquele pedaço de verde, a que se dava o nome de jardim, consistia em grama alta e desgrenhada, malvas-reais exuberantes e canteiros de petúnias, calêndulas e cravinas que lutavam timidamente para ganhar destaque em meio ao tanaceto e à erva-de-gato. O cenário era tão grotesco e absurdo quanto a própria Sra. Gregory.
— “Ora, Sa-ry, o que foi que eu te disse?” — ela ofegava enquanto avançava com todo o seu vulto imponente em direção à pequena figura sob a nogueira. Seu peso lutava heroicamente contra a ladeira e o calor, mas, naquele caso, a recompensa era mais do que satisfatória. Ela estava radiante e, pela primeira vez, a demora de Sarah não rendeu nenhuma bronca. Acomodou-se sob a árvore, de onde se tinha uma boa vista da carroça que descia, e começou:
— “Os Remington acabaram vindo morar aqui embaixo mesmo! Eu te disse no ano passado que eles desceriam! Você não se lembra de eu ter dito, em tom de brincadeira, exatamente estas palavras — pelo menos que eu me lembre, e é claro que ninguém consegue se lembrar de cada palavra dita, mas, como eu ia dizendo… pelo que me recordo, foi exatamente isso que eu te disse, Sa-ry Jane, no dia em que você veio morar aqui comigo: ‘Pode anotar o que eu digo: a Maroshy Remington ainda vai cair do cavalo — quer ver só? Ela nasceu, mas ainda não morreu!’ Você não se lembra de eu ter dito isso? (Não precisa desviar o olhar e fingir que não lembra! Eu sei que o Tom está chegando, mas não importa, escute o que eu digo!). Ouvi umas coisas naquele dia que prometi não contar (e nunca contei para ninguém, exceto para a Sra. Peters, a Sra. Slater e mais uma ou duas pessoas que eu achava que deviam saber!)”. Ela fez uma pausa para se abanar com o avental.
— “Dizem que a Maroshy está de olho num sujeito rico de Nova York! Ele anda rondando a Villa há um bom tempo — imagino que ele achasse que os Remington eram ricos, pelo jeito que eles se exibiam! As meninas Watson também estão atrás dele e, provavelmente, vão ficar com ele agora — afinal, é claro que ele não vai querer nada com uma moça pobre!”. Uma pontada de ciúme, acompanhada de medo, atravessou o coração de Sarah. A Sra. Gregory continuou:
— “Engraçado, não é? Ela ia para Utica estudar, sendo que o pai dela também é professor… Imagino que tenha sido só para se exibir para aquele sujeito de Nova York! Pois é, tem gente que adora bancar a importante! Duvido que eu gastasse todo esse dinheiro só com estudo! Preferia investir em umas boas vacas!”.
A engrenagem na cabeça da Sra. Gregory tinha um mecanismo admirável. Raramente precisava de corda e nunca deixava de funcionar por uma ou duas horas, com apenas breves pausas. Sarah frequentemente sorria com ironia diante daquela confusão irremediável de palavras e valores. Ela já conseguia perceber a ironia das situações, agora que seu espírito havia sido marcado pela amargura. Às vezes, é preciso uma tempestade ou uma crise para despertar uma natureza apática ou revelar toda a força de uma Mente brilhante.
— “Você está com uma cor melhor, Sary, desde que começou a andar pela fazenda! Meninas não precisam de estudo, de jeito nenhum — isso as estraga e as deixa pálidas e com cara de doentes… além de deixá-las orgulhosas e metidas — como a Maroshy Remington! Bem, acho que ela vai baixar a crista agora! Digo, como eu gostaria de dar uma espiada neles agora, lá naquele barraco apertado! Bom… vamos lá, Sary, já ficamos paradas aqui tempo demais — temos que voltar para a nossa batedeira de manteiga! Depressa, leve a bebida azedinha cítrica para o Tom e não deixe que eu te pegue ficando nem um minuto a mais do que o necessário!”. A carroça da fazenda havia desaparecido de vista. Enquanto a Sra. Gregory se afastava com seu andar bamboleante, Sarah deixou transparecer seu desprezo e fez uma careta de nojo, caminhando sem ânimo em direção a Tom com a jarra de água com vinagre e açúcar. Com um sorriso cômico, ele estendeu a mão para pegar a jarra e, ao mesmo tempo, agarrou-a. Ela se livrou do aperto dele e ficou diante dele com os olhos faiscando.
— “Credo, eu não sabia que você conseguia ficar tão brava, Sally! Mas isso deixa você muito bonita — juro que deixa!”
— “Nunca mais fale comigo, Tom Gregory — eu odeio você!”
— “Ah, não odeia não! Vamos lá, Sally — é assim que você fala com o Sr. Rattlebones? Esse é o nome dele, não é?”. O rosto dela ficou vermelho de vergonha e raiva enquanto ela se virava e o deixava para trás.
— “É isso que eu ganho! Eu mesma me coloco numa situação para ser tratada assim! Quem dera o Sr. Rathburn se casasse comigo e me levasse embora… aí sim eu ia mostrar para eles!”. Lágrimas de raiva brotaram em seus olhos. Tom não cantava mais enquanto trabalhava. Com um baque surdo, as pedras eram empilhadas para o muro.
Uma lembrança repentina fez Sarah parar bruscamente.
— “É exatamente aqui que eu estava no dia em que amaldiçoei Marozia Remington! Isso foi há quase um ano — antes de eu conhecer Claude! Dizem que as maldições, assim como as galinhas, sempre voltam para o poleiro — mas essa não! Ela foi direto para ela — e lá ficou! Ela até perdeu a casa — e o homem por quem tanto lutou! Eu ainda vou tê-lo, nem que isso me mate! Ele simplesmente tem de se casar comigo e me tirar desta vida miserável! Ele não parece muito entusiasmado com a ideia, mas usarei todos os recursos que tenho para conquistá-lo — e depois, não me importo com mais nada!”
Enquanto Sarah caminhava de mau humor, sentia amargura no coração. Ela andava insatisfeita com o trabalho — a rotina exaustiva havia se tornado insuportável.
CAPÍTULO XII – É NO PROFUNDO SILÊNCIO DA ALMA QUE A MENTE DIVINA FALA
Marozia estava desembalando os barris de louça e arrumando as peças nas prateleiras da despensa. Já não havia mais cristaleiras.
— “Não é simplesmente horrível?” — gemeu a Sra. Remington, torcendo as mãos em sinal de impotência e atrapalhando Marozia, que tentava diligentemente acomodar seis polegadas de louça em um espaço de quatro polegadas e, ainda por cima, criar um arranjo artístico.
Ralph Remington, o erudito, lutava heroicamente para ajustar um tapete a ângulos agudos, sendo que antes ele cobria um piso octogonal. Por mais que puxasse, virasse e tentasse soluções, o tapete não encaixava; por fim, ele chamou Marozia, que resolveu o problema com uma lata de tingidor para pisos, uma tesoura e alguns tapetinhos. Ao voltar para a despensa, sua mãe exclamou novamente:
— “Francamente… isso é horrível demais para se acreditar!”.
— “Tudo depende do ponto de vista, mamãe! Acho divertido — como brincar de dona de casa —, só que o papai vai ter de ficar sem a biblioteca… e sem outras coisas!”.
— “É, é sempre ‘papai, papai’! Meus sentimentos nunca contam! Nem sequer mereço consideração! Pois saiba que nunca vou lhe perdoar por isso! A culpa é inteiramente sua! Não tenho paciência para esse falso afeto que se resume a palavras! Você poderia ter evitado isso, mas fala como uma hipócrita sobre o papai ficar sem a biblioteca! Não suporto hipócritas!”.
— “Eu também não!” — respondeu Marozia enquanto subia em uma escada portátil. Aquele velho desafio irônico, que sempre a dominava quando as pessoas insistiam em julgamentos equivocados, faiscou em seus olhos.
— “Por que não se pode ser absolutamente justo — mesmo com um inimigo?” …exclamou ela mentalmente. Ela desprezava a intolerância tacanha que distorce e deturpa, que colore e falsifica a realidade para servir a algum rancor ou ódio ciumento. Uma estranha convicção surgiu-lhe de repente: a de que sua mãe era uma antiga inimiga. Devia ser assim, pensou ela ao recordar o passado. Não conseguia se lembrar de um único momento feliz ou gratificante passado com a mãe; sempre houvera, isso sim, um antagonismo profundo e sutil.
Sua natureza doce e verdadeira ansiava por amor e compreensão solidária, mas buscava isso em vão junto àquela que deveria estar mais pronta a oferecê-lo. Por que haviam sido reunidas nesta vida? Devia ser para nos tornarmos amigas, para aprendermos a amar uma à outra — concluiu. Então, de repente, um desejo intenso de reconciliação total com a mãe tomou conta dela. Precisava idealizar aquela situação angustiante para conseguir suportá-la; caso contrário, seu coração adoeceria com o conflito. Agora, restavam apenas os laços do lar. Poderiam ser felizes, mesmo ali, se houvesse amor no ambiente doméstico! O caráter de seu pai era absolutamente nobre. Se ao menos sua mãe conseguisse olhar além do aspecto material e unir-se a eles na busca por idealizar tudo o que havia de sórdido ou banal em suas vidas, até mesmo aquela experiência poderia tornar-se agradável e proveitosa! Restava-lhes o que era genuíno: caráter, Mente e Alma. Com amor e paz no lar, quatro cômodos pequenos valiam tanto quanto o luxo espaçoso da Villa. Com esses pensamentos, ela desceu a escada e pousou o braço carinhosamente sobre o da mãe, dizendo, enquanto sorria para ela:
— “Não se preocupe, mamãe; podemos ficar muito bem nestes quatro cômodos! (começou a dizer “felizes”, mas uma lembrança a fez hesitar.) O que importa é a vida em família! Podemos ter isso aqui!”.
— “Bem, não sei quais são as suas ideias sobre a vida, sinceramente!” — respondeu a mãe, em tom de queixa. — “Se é preciso ficar confinada numa caixa de madeira como esta, gostaria de saber qual é o valor da vida! Sem vida social, sem prazeres, sem renda — a não ser uma ninharia de vez em quando! Uma situação e tanto, devo dizer!”.
— “Mas, mamãe, a vida não consiste em coisas exteriores! A vida social, o ambiente e o modo de vestir podem ser desejáveis, mas são apenas acessórios. Pode-se prescindir da vida social, se necessário. Temos um pai — e ter a permissão de estabelecer um relacionamento íntimo e amoroso com alguém de tal caráter é felicidade suficiente para qualquer mulher. Não consigo ver como algo poderia acrescentar ou tirar da felicidade da vida quando se está unida a um homem como ele! Acho que as mulheres não dão a mínima importância aos homens nobres! Elas são muito propensas a considerá-los como garantidos.”. Havia uma tristeza melancólica e um anseio desesperado nos olhos de Marozia enquanto ela falava. Uma expressão feia e lasciva surgiu no rosto da Sra. Remington quando ela respondeu com um “Humph!” satírico. Um súbito lampejo de luz revelou a Marozia o verdadeiro caráter de sua mãe. Ela estremeceu de dor. Ela viu a longa decepção de seu pai, sua vida solitária. Havia uma disparidade infinita entre eles. Ele sempre caminhara sozinho, preso a algo grosseiro, vulgar, materialista — algo que o vampirizava.
— “Pobre querido pai!”, ela exclamou mentalmente. Então, o doce rosto da Sra. Morton surgiu diante dela e seu caráter encantador se destacou em nítido contraste.
— “Eu não o culparia nem um pouco por nada que ele fizesse! Mas ele é tão leal, tão bom e verdadeiro! Ninguém sabe — nem mesmo eu — o que ele teve que suportar todos esses longos anos!”. O laço que a prendia à mãe — o laço íntimo — foi rompido. Ah, quando as mulheres vão aprender! A voz angustiante da mãe soou novamente em seus ouvidos, mas desta vez não despertou nenhum sentimento. Caiu abafada, como qualquer som dissonante cairia em um ouvido sensível:
— “Quando você superar a fase da sentimentalidade boba, aprenderá que o amor não vale nada sem outras coisas. Você é tão visionária e sonhadora quanto seu pai! Não vejo por que você não poderia ter puxado um pouco a mim!”.
— “Eu não puxei a ninguém — eu sou eu mesma!”.
— “Bem, pelo menos você pode ser um pouco prática!”.
— “Eu sou — senão eu não estaria arrumando esta despensa agora! Isso nunca fez parte das minhas visões e ‘sonhos’. Você acha que essa porcelana azul ficaria melhor no meu armário improvisado?”.
Em todos esses reveses, há um lado grotesco e ridículo, se for possível separá-lo do patético que o envolve. O aguçado senso de humor de Marozia, aliado à sua capacidade de idealizar, a impediu de se tornar uma mera serva conforme as provações surgiam dia após dia. Ela percebeu que era inútil desperdiçar sentimentos com sua mãe mundana, então voltou-se silenciosamente para suas tarefas e escondeu outra dor em seu coração. Ela estava encontrando agora amplo espaço para todo o seu idealismo altruísta. Seus sofrimentos eram proporcionais ao seu requintado organismo mental e sensibilidade refinada, mas, em prol dos outros, eram tão habilmente ocultados que alguns fofoqueiros comentaram sobre a natureza superficial de Marozia Remington, que não conseguia sentir um golpe quando ele chegava. Seu brilhante idealismo era como uma brisa aromática que pairava sobre a calma sufocante das areias áridas.
Sua mãe só conseguia ver e sentir o desperdício opressivo dos níveis do Mar Morto. Quando a família repentinamente caiu abaixo do padrão aos olhos da futura aldeia aristocrata, ela estava absolutamente paralisada. Ela havia vivido unicamente para o elemento fraco e inconstante que muda de posição com a maré da mudança financeira ou qualquer outra influência igualmente absurda. Consequentemente, ela se viu comparativamente desamparada em sua adversidade. Ela invejava seu marido e sua filha pela serena indiferença deles às circunstâncias externas, mas os odiava por isso.
Um dia, ela se aproximou de Marozia em estado de histeria. Os Watsons a haviam esnobado — sim, a esnobado impiedosamente!
— “Eu nunca vou sobreviver a esse insulto!”. Ela lamentou.
O esnobismo, em qualquer forma, servia para revelar toda a energia e força latentes da natureza de Marozia. Ela considerava a própria quintessência da vulgaridade plebeia valorizar alguém por alguma circunstância externa acidental. Depositar respeito em uma base tão barata quanto o corte mais recente de um vestido ou o tamanho de uma conta bancária, em vez de valor intrínseco, proclamava a ordem extremamente baixa à qual tais árbitros autoproclamados pertenciam.
Seu desprezo por parasitas humanos e esnobes era diretamente proporcional ao poder penetrante de sua Mente. Ela sempre enxergava através das pessoas — por trás de todas as suas máscaras e disfarces. Seus lábios agora se curvaram em desdém ao se lembrar de algumas ocasiões no passado em que os Watsons figuraram, enquanto lutavam freneticamente para abrir caminho nas casas da nobreza do condado. Isso foi durante o período em que sua conta bancária estava começando a ser expressa em milhares em vez de centenas, quando montaram sua própria carruagem e deixaram de viver em uma casa alugada. Moravam na sede do condado naquela época, mas visitavam a mãe dela com frequência.
Enquanto a mãe lamentava agora a perda repentina de popularidade, Marozia recordava mentalmente aqueles outros dias em que consideravam uma honra constar na lista de visitas dos Remington. Um sorriso satírico passou por seu rosto expressivo ao lembrar das discussões profundas sobre as últimas modas e novidades quando estavam “reunidas em convenção” na Villa. Naqueles tempos, sua mãe — cuja Mente não conseguia enxergar além das aparências — franzia a testa e se tornava glacial quando Marozia tentava desesperadamente desviar a conversa de penteados elaborados e modismos para livros e autores, ou para algum tópico interessante da atualidade.
Marozia sentia um certo prazer malicioso ao tentar introduzir algum assunto que realmente valesse a pena discutir. Ela sempre sabia exatamente como terminaria. A Sra. Watson olhava para o vazio com uma expressão condizente, enquanto as moças tentavam parecer sábias, mas sorriam de forma afetada por trás de seus leques (elas sempre carregavam leques para esse fim)! Então, elas “achavam” que estava na hora de ir embora. Seus “achados” sempre surgiam exatamente no momento em que Marozia começava a contra-argumentar. Ela desprezava a atitude bajuladora delas naquela época ainda mais do que a atual postura de condescendência arrogante. Naqueles outros tempos, os Watsons foram responsáveis por muitos desentendimentos entre Marozia e sua mãe. Certa vez, quando a atitude de desprezo da filha se tornou evidente demais, a Sra. Remington exclamou:
— “Você deveria ter vergonha de tratá-las assim; elas são as pessoas mais importantes do condado agora!”,
— “Então vamos cultivar as últimas!” — respondeu Marozia, com os olhos faiscando. Hoje, ela lembrou à mãe quão insignificantes eram elas e toda aquela classe superficial. Seu objetivo era altruísta, não de crítica. Ela esperava que a mãe pudesse enxergar as coisas reais e elevar-se acima do trivial e do lugar-comum, que não passavam de quimeras de uma visão distorcida.
O primeiro toque da pobreza e o desastre que a acompanhou foram como a geada precoce do outono sobre a videira: apenas acrescentaram uma nova cor à vida. O encanto ainda estava lá; a decadência ainda não havia começado. À medida que os dias passavam e o encanto inicial da novidade se dissipava, surgiam pequenas adversidades a serem suportadas — coisas triviais, vistas à distância por uma grande alma, mas que, na proximidade imediata, ganhavam proporções enormes e dominadoras.
Então, ela começou a perceber vagamente uma sensação de desilusão em seu mundo interior — especialmente quando a imagem de Claude Rathburn lhe vinha à memória. Ela tentava, agarrando-se às realidades simples do cotidiano doméstico, sufocar o anseio de seu coração feminino, que sempre desejava o abraço abençoado do amor. Passou, então, a entrar naquele estado mental e psíquico em que se tenta agarrar fios intangíveis e irrealidades emocionais. No fundo, por trás de toda a independência de seu caráter, ela desejava amar e ser amada. A desarmonia entre ela e sua mãe — entre sua vida e o ambiente em que vivia — era uma tortura para sua alma sensível.
— “A natureza certamente nos brinda com mais um de seus caprichos de fina ironia!”, exclamou ela em pensamento ao analisar a situação. Sua Mente ativa começou, então, a elaborar planos. Não era de sua natureza permanecer passiva e inerte diante de uma situação angustiante, nem aceitar com indiferença paciente um destino adverso.
Ela se rebelava contra imposições; não serviria como uma boa escrava do destino. Preferia criar o seu próprio destino. Em todo o processo de agitação e despertar de sua Mente, a verdade se revelava sob diversos ângulos. Até mesmo as virtudes assumiam significados novos e diferentes no fogo da experiência. A paciência, por exemplo, em certas circunstâncias, parecia não passar de paralisia de sentimentos ou ações, de indiferença, de falta de energia; e a mansidão, mera aspiração acorrentada. Ela tinha uma aversão profunda a grilhões. Seu espírito livre ansiava por planar pelos ares sutis, sem algemas. Contudo, a vida aqui, nesta prisão, é sempre vivida sob grilhões, ponderava ela. É apenas uma questão de grau. Mesmo nas condições mais ideais, o Espírito tem plena consciência das paredes de sua prisão.
Então, uma parte dos ensinamentos do Sr. Arlington sobre as dívidas para com a Lei de Consequência lhe veio à Mente.
— “Podemos ser de pouca utilidade para os Grandes Seres enquanto nossas dívidas para com a Lei de Consequência não forem pagas ou anuladas pelo serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade”, ele havia dito repetidamente nas aulas durante o ano anterior. Isso lhe ocorreu com um novo significado agora, diante das limitações impostas pela situação angustiante em que se encontrava.
— “Em casos assim, suponho que nada além de paciência e resignação possa ajudar”, concluiu ela, após um profundo exame de consciência.”.
A renda de Ralph Remington tornara-se muito incerta. Provinha exclusivamente da venda de artigos educacionais para várias revistas. Às vezes, a demanda era pequena, e a remuneração, proporcional. Tornou-se uma luta suprir as necessidades diárias. Essa preocupação incessante com questões financeiras retardava o progresso de sua obra maior. É difícil para o Eu Superior imprimir uma mensagem no cérebro quando este está distraído por preocupações. É no profundo silêncio da alma que a Mente Divina fala.
Um plano concreto tomou forma na Mente fértil de Marozia, pelo qual ela poderia aliviar, em termos práticos, parte dos fardos de seu pai. Ela havia decidido dedicar-se ao ensino — essa seria a missão de sua vida — e o primeiro passo foi dado quando, por influência do Reverendo Morton, recebeu uma oferta para lecionar em uma escola de um vilarejo vizinho. Ao aceitá-la, ela sabia que estava seguindo o caminho apontado pelo dever; a orientação era inconfundível. Um dedo luminoso apontava para o alto, e ela sorriu radiantemente enquanto sussurrava: “Sic itur ad astra.”[1]
[1] N.T.: “assim se vai aos astros” ou “é assim que se sobe aos céus”.
CAPÍTULO XIII – O ISOLAMENTO OU A SOLIDÃO, ÀS VEZES, É O MELHOR PARA O CRESCIMENTO MAIS RICO E VERDADEIRO DA ALMA
No desabrochar de uma alma, assim como na criação de um Mundo, existem silêncios profundos — períodos de aparente repouso — nos quais a Mente Divina se agita, prepara e vivifica. Forças elétricas são sentidas, despertando movimentos vitais. Tempestades e calmarias se alternam; convulsões vulcânicas, perturbações tempestuosas, silêncios profundos onde ardem fogos interiores — e eis que um Planeta, ou uma alma, se desenvolve! A vida de Marozia tornou-se, então, uma rotina monótona — uma condição muito mais penosa para uma alma brilhante e ávida do que o fragor da batalha. As coisas haviam se acalmado — como sempre acontece após uma perturbação ciclônica — numa quietude repleta dos escombros de memórias dolorosas. Mais uma vez, seu horizonte se estreitou. Ela se viu confinada, não apenas pelas colinas sufocantes, mas por barreiras que nem mesmo sua coragem indomável conseguia transpor. O inverno foi repleto de dificuldades, privações e provações mesquinhas. Devido à saúde debilitada, Ralph Remington ainda não conseguira concluir seu livro. Parecia consumido por uma dor oculta, diante da qual sorria enquanto trabalhava com paciência silenciosa. Tornava-se cada vez mais difícil concentrar a Mente na escrita. Inúmeras preocupações o distraíam, e o ruído das tarefas domésticas feria dolorosamente seus ouvidos sensíveis. Já não desfrutava do isolamento refinado próprio de um erudito. Tudo ali era sórdido, vulgar, mesquinho, repugnante. Seus ideais eram levados ao limite para manterem uma relação verdadeira com aquelas realidades angustiantes. Contudo, a angústia que sentia diante daquela situação penosa era pelos outros. Sentia-se, de certa forma, culpado pela condição em que se encontravam, e isso agravava a miséria paralisante que, por vezes, o deixava inerte. A Sra. Remington pensava da mesma forma e jamais cessava suas recriminações. Parecia que ela sentia um prazer especial em provocar todo o ruído e a confusão possíveis enquanto realizava suas simples tarefas domésticas. Aos olhos dela, o gênio na pobreza reduzia-se a proporções liliputianas. Não valia a pena possuí-lo, pois representava um obstáculo para tantas coisas. A menos que pudesse ostentar uma coroa num hall da fama e cobri-la de ouro, aquele dom não passava de uma infelicidade.
A Sra. Remington era, de fato, muito infeliz. Ninguém é mais miserável do que uma mulher ambiciosa e mundana diante da adversidade. Ela não possui recursos interiores, e a solidão lhe é penosa. Sua vaidade não tem do que se alimentar; por isso, ela se volta contra aqueles ao seu redor com suas exigências incessantes. Ela não reconhece direitos nem privilégios alheios no que diz respeito ao sofrimento. Ela detém o monopólio do infortúnio e da miséria. Se os outros sofrem, a culpa é deles mesmos; eles atraem isso para si. Se ela sofre, a culpa é dos outros. Assim, o pequeno círculo de seus pensamentos mórbidos gira sem parar — e ai dos infelizes que são apanhados nesse turbilhão!
— Pronto, faz-me bem ver você sorrir assim novamente! — A Sra. Morton passou o braço pela cintura de Marozia e conduziu-a a uma cadeira diante da lareira acesa, no escritório do Reitor. — Você está trabalhando demais, minha querida… e se preocupando também!
— Não. — Marozia respondeu com um sorriso de protesto. — Mas…
— Sim, eu sei: você está pensando nos destinos entrelaçados, nas disparidades, nas desigualdades, na maneira absolutamente inversa como as coisas se desenrolam… e, no ano passado, você teria se revoltado contra o destino. Mas agora…
— Agora… esta noite, querida Sra. Morton, sinto vontade de fazer a mesma coisa. Sim, sinto vontade de me revoltar contra o destino. Há algumas semanas, achei ter visto uma solução satisfatória para os problemas da vida.
O rosto da Sra. Morton iluminou-se de repente.
Seus olhos ganharam profundidade, e ela parecia contemplar dois mundos. — Você está cansada esta noite, querida, e precisa descansar.
— Sim, estou cansada de tudo isso, mas não por mim. É pelo meu pai que sofro! Se ele pudesse ter o sucesso e a felicidade que merece, eu suportaria qualquer coisa! É tudo tão terrivelmente opressivo. Às vezes me sinto paralisada e me belisco para ver se estou mesmo viva. E se eu me sinto assim, o que deve sentir o meu pobre e querido pai?
— Por que usar o primeiro adjetivo, querida? Homens como o seu pai não são pobres!
— Eu sei, mas pense no que ele perde na vida! Não em coisas materiais, mas no que elas representam em valores mentais e espirituais — e na felicidade do coração.
— Entendo. A voz era muito baixa e vibrante, e os olhos brilharam com ternura. No entanto, você sabe que o Ego permanece intocado pelo desastre, imaculado pelo tribulum[1]. A alma precisava dessa experiência específica — pois não há acaso na ordem divina do universo. Você sabe que ela deve passar por todas as fases e adquirir todos os poderes antes de poder servir como o veículo perfeito para o Espírito. Você está passando por uma fase, seu pai por outra, mas no fim tudo se equilibrará. Após um breve silêncio, ela acrescentou:
— Você se lembra da compensação da qual falamos no verão passado — aquela que brota da consciência interior de poderes nobres e dons divinos?
— Sim, eu me lembro, mas sou inconsistente, pois o amo muito. Reconheço o valor da tristeza para a alma, mas gostaria que essa tristeza fosse negada a ele. Conheço sua alma grandiosa e elevada e gostaria que outros também a conhecessem — mesmo correndo o risco de uma bela teoria. Um belo brilho iluminou seus olhos — a chama ardente de um amor puro e altruísta — um amor que é sagrado. A Sra. Morton viu seu reflexo em seus próprios olhos. Ela falou com doce sinceridade:
— A notoriedade não é desejável, Marozia, para um Espírito tão grandioso e nobre como o do seu pai. Muitos entre os plebeus adquirem uma certa fama barata, que tem apenas valor comercial!
— Sim, eu sei. Papai não gostaria disso — na verdade, ele não gosta de nenhum reconhecimento. Sou eu quem quer que ele seja conhecido e apreciado — porque eu sei o que ele é — e eu o amo muito!
— Eu entendo, querida. A mão da Sra. Morton repousou suavemente sobre a de Marozia. De repente, a menina falou com uma intensidade apaixonada que indicava uma dor oculta, além do que as meras palavras revelavam.
— O isolamento, ou a solidão, é o melhor caminho — mesmo para fins nobres? O melhor para o coração, quero dizer?
— Nem sempre é o melhor para o coração, ou para o “eu inferior”, mas quase sempre é o melhor para o trabalho. Às vezes, para o crescimento mais rico e verdadeiro da alma. Ainda assim, suponho que seja melhor sair do próprio eremitério de vez em quando, acrescentou ela com um sorriso radiante.
— Mas, querida Sra. Morton, e se o eremitério for selado?
— Então, pode-se trabalhar e se desenvolver sem distrações, na plenitude da solidão — e o Fogo divino substituirá a companhia humana.
Quando Marozia voltou para casa após a entrevista com a Sra. Morton, sua mãe a recebeu com uma excitação mal contida.
— O que você acha? — perguntou ela abruptamente. — Claude voltou de Nova York e vai morar na Villa com a Sra. Reed como governanta e Sarah Thomas como assistente. Eu o vi hoje e ele vai reformar o antigo moinho e contratar uma equipe de homens para operá-lo. Ele vai lotear e subdividir toda a terra entre a Vila e o moinho e construir chalés e casas de veraneio. Os planos que ele tem para melhorar esta vila são maravilhosos — e ele tem o dinheiro para realizá-los também. Seu pai confiou todos os seus assuntos por aqui a ele. Ele esteve hoje no antigo moinho com seu capataz, fazendo planos. Ele diz que ainda está esperando pacientemente por você — que nunca desistirá de você.
Marozia se virou involuntariamente, como se esperasse encontrar um rosto moreno e sorridente — um sorriso cínico. Um arrepio emocional a dominou, no qual havia um vislumbre de leveza em um fundo de sombras. A depressão foi subitamente dissipada e o tênue vislumbre se espalhou. O encanto estava retornando e ela foi levada adiante por suas emoções despertando — ou seria alguma força externa que a estava influenciando? Os olhos de Claude Rathburn pareciam queimar sua alma — seu poder era aterrador, mas seu fascínio era irresistível. Foi um grande alívio libertar-se momentaneamente da dor entorpecente que havia paralisado o brilho de seu espírito durante os últimos meses de provação. Para ela e seu pai, aquilo fora uma tragédia. Naquele momento, várias forças pareciam atuar para remover as barreiras entre sua alma e Claude e forçá-la a uma escolha. O rosto de seu pai surgiu de repente naquela nova luminosidade — sorridente, sereno, livre de preocupações e iluminado pela alegria de uma aspiração realizada, de uma conquista nobre. Uma voz parecia dizer: É isso que você poderia concretizar se fosse menos dominada por sua mentalidade, menos egoísta, menos idealista. Então, uma outra presença interior — que parecia exercer um poder de persuasão — lembrou-lhe de que Claude não estava à sua altura em termos de intelecto ou caráter. Essa presença habitava as profundezas mais recônditas de sua alma, onde a Luz ardia e flamejava em premonição e convicção. Ali, ela sentia a barreira indefinível e perpétua. Ali, as estrelas a haviam proclamado, e ela estava profundamente gravada na intimidade de sua consciência. O veredito era que não havia ponto de encontro possível entre a alma dela e a de Claude — não havia terreno comum. No entanto, contra toda a razão e o bom senso, contra a voz da intuição, ela se deixava levar pelo despertar de suas emoções. Sua alma enfrentava uma crise, e um veredito estranho surgiu em letras de fogo diante de sua consciência que despertava — sua consciência de si mesma. Sua mãe continuava falando, mas ela não ouvira nada até então. Suas últimas palavras chegaram, enfim, aos seus ouvidos:
— Todos acham que você é tola por deixar escapar uma chance dessas… e seu pai pagará o preço pela sua insensatez egoísta.
A resposta de Marozia revelou a notável complexidade de sua natureza:
— Se eu me casar com Claude Rathburn, acabarei morrendo de desgosto… ou me petrificarei. — A Sra. Remington notou, com um triunfo secreto, a mudança na construção da frase: se eu me casar. A esperança cresceu. Ela se animou um pouco ao continuar:
— Tirando o dinheiro, Claude é um partido excelente para você! Você seria a inveja de todas as garotas… e os Watsons morreriam de inveja! — Ao ouvir a menção ao aspecto material, todo o brilho se dissipou e Marozia sentiu uma onda de revolta. Sua situação pareceu, de repente, sórdida, banal e degradante. A misteriosa exaltação que arrebatara suas emoções dissipou-se diante da sugestão de vantagens mundanas. O materialismo grosseiro da estratégia e dos objetivos de sua mãe causava-lhe repugnância. Até mesmo o rosto de seu pai perdeu a aura de luminosidade emocional e voltou para as sombras, ao lado de seu Ideal; contudo, em meio à dor e à tristeza, ele brilhava com uma luz maravilhosa. Sua voz ganhou um novo tom quando ela voltou a falar:
— “Quando eu me casar, não será para despertar inveja ou ciúme, nem para que alguém construa um lar ou um futuro para mim, mas porque amo o homem por quem ele é”. A jovem falou com fervor apaixonado. Uma agitação nervosa transparecia em seu rosto e em sua voz. Sua alma estava perturbada; era como se fios elétricos vivos estivessem à flor da pele. Ela virou-se rapidamente e despediu-se da mãe às pressas.
O único momento que Marozia tinha para refletir sobre seus problemas e tentar encontrar uma saída para suas dificuldades era quando entrava em seu quartinho espartano, situado sob o telhado inclinado da casa da fazenda onde se hospedava. No final do outono, havia dias de tempo tempestuoso e deprimente, em que a chuva tamborilava tristemente e o vento uivava como espíritos demoníacos. Uma ou duas telhas soltas produziam, de tempos em tempos, batidas inquietantes. Tudo aquilo parecia nu e hediondo à sua sensibilidade artística. O retalho desbotado de tapete de trapos diante da cama de madeira barata — cujo aspecto desajeitado sugeria a necessidade de dossel e sanefas — realçava a feiura grosseira do ambiente. Quando ela chegara ali pela primeira vez, uma névoa cinzenta pairava no ar e as folhas que redemoinhavam sugeriam a morte. Agora, a neve branca acumulava-se no parapeito da janela e o frio era desolador. Ela ouvia a voz da mulher de rosto afilado e temperamento ríspido lá embaixo, bem como a fala arrastada, fraca e insossa do sujeito bronco e simplório que vivia com aquela megera. Ela estremeceu de dor e aversão. Sua Mente estava vivamente alerta, e ela traçava contrastes nítidos naquele momento. Era um período de reajustes, de encontrar a proporção exata entre pensamento e experiência. Ao concluir essa lição, ela compreenderia o verdadeiro valor de seus ideais. Não haveria sentimentalismo falso nem fantasias visionárias grosseiras. Cada Ideal se destacaria, claro e bem definido, sob a luz branca da verdade.
De repente, surgiu a lembrança de uma noite — deve ter sido há muito tempo — em que olhos maravilhosos, como os de um basilisco, brilharam para ela vindos de uma selva tropical. Ela se sentia compelida por eles — dominada por eles. Parecia ser levada às pressas de uma cena para outra — com aqueles olhos sempre diante de si; eles a perseguiam — ela não conseguia escapar deles e, no entanto, os odiava. À medida que a visão se desenrolava, ela se via tramando uma fuga e, finalmente, um punhal punha fim à luta. Mais uma vez, ela os encarou às margens do Tibre, num palácio suntuoso, e eram olhos de mulher. Eles brilhavam de amor ao encontrar o olhar dela — um amor no qual espreitava uma certa ferocidade. Ainda assim, ela foi cruel, e outra tragédia se seguiu. Muitas cenas passaram diante dela, tendo aqueles olhos como centro. Ela estremeceu e tentou afastar a visão. Então, uma lembrança a fez parar: viu novamente aqueles olhos, como quando a encararam na noite em que ela foi buscar os desenhos, durante sua festa. Sentiu-se fraquejar e, apesar da razão e da força de vontade, percebeu a velha e sutil influência se apoderando dela. Cada vez que essa influência a confrontava, seu poder se intensificava. Os intervalos eram preenchidos por um esforço sincero e determinado para quebrar o feitiço, para se livrar da influência crescente, mas eram como as breves e temporárias calmarias antes de uma tempestade que se avizinha. A emoção — tal como as tempestades físicas — tornava-se cada vez mais avassaladora enquanto acumulava suas forças.
— Por que não consigo esquecê-lo? Eu o desprezo! — ela lamentou, enquanto a nevasca rugia lá fora. Sentia-se tão solitária e miserável, tão faminta por amor humano. Ansiava por ser envolvida, acolhida por um amor humano grande e caloroso. Por que manter esse conflito perpétuo? Por que não ouvir suas emoções insistentes e seu coração cheio de anseios? Por que não ceder às forças que agiam sobre ela de todos os lados? Por que continuar lutando?
Então, as palavras de seu mestre em Utica lhe vieram à Mente: “Não confie nas emoções”, ele dissera repetidas vezes. “Estamos tão inextricavelmente ligados ao animal que é necessária uma força sobre-humana para romper os laços e nos libertar. No entanto, é preciso fazê-lo se quisermos viver.”.
—Se quisermos viver, ela repetiu. —Sim, deve ser a alma animal que luta em meu interior e pinta imagens tão fascinantes — que atrai, acena e sufoca a Voz interior. Não devo dar ouvidos a isso; devo sofrer, trabalhar e aguardar.
Inconscientemente, as palavras de um belo e antigo hino ecoaram em seu coração cansado:
Célere ao fim declina o breve dia da vida.
Esmaecem as alegrias da terra; suas glórias se vão.
Vejo mudança e declínio em tudo ao redor.
Ó Tu, que não mudas — permanece comigo!
Preciso da Tua presença a cada hora que passa;
O que, senão a Tua graça, pode vencer o poder do tentador?
Quem, senão Tu, pode ser meu guia e amparo?
Entre nuvens e sol, Senhor, permanece comigo!
De repente, elas se integraram à sua consciência e ganharam um novo significado. Sua alma elevou-se a esferas mais altas e ela comungou com o Invisível. Ele, Aquele que não muda — ‘que não cochila nem dorme’[2] — Ele, a inspiração dos sonhos de meu Pai — a Presença além das estrelas, cujo brilho é a Sua Luz — preciso d’Ele — mais do que nunca, agora! Preciso dessa Presença constante para ir à minha frente por entre os recônditos labirínticos e as encostas áridas — rumo às estrelas!
Então, ela adormeceu, serena como uma criança no colo da mãe.
[1] N.T.: (ou tribula) era um antigo instrumento agrícola de debulha, feito de uma pesada plataforma de madeira cravada com pedras afiadas ou dentes de ferro na parte inferior. Ele era puxado por animais por cima das espigas de cereais (como o trigo) espalhadas no chão para separar os grãos úteis da palha imprestável.
[2] N.T.: A expressão “ele nunca dorme nem cochila” (Sl 121:3-4) significa que Deus está constantemente alerta, plenamente consciente e vigiando e protegendo continuamente o Seu povo, sem qualquer interrupção ou fadiga.
CAPÍTULO XIV – COMEÇAR A ENTRAR EM CONTATO CONSCIENTE COM OUTROS PLANOS DE EXISTÊNCIA
Claude Rathburn julgou oportuno o momento para retornar ao vilarejo. A miséria em que viviam os Remington e a vida de privações e dificuldades de Marozia serviam de estímulo ao seu egoísmo — embora este não precisasse de tal incentivo para florescer. Naquele momento crítico, sentiu uma euforia infundada, uma confiança não totalmente justificada por suas experiências anteriores com Marozia. Ele sabia que ela trabalhava arduamente — chegando a ajudar nas tarefas domésticas da casa onde estava hospedada, para poder destinar uma parcela maior de sua parca renda ao pai. Ao repassar a situação mentalmente, ponderou consigo mesmo:
“Diabos, que criatura atrevida e orgulhosa ela é! Mas eu não daria muito valor a uma mulher que não tivesse um pouco de fibra. Essa atitude lhe cai bem; ela é sempre tão vivaz! E é tão doce quanto vivaz! Não consigo imaginar como, em nome do bom senso, deixei as coisas chegarem a esse ponto com ela — é inacreditável! Preciso mudar de tática. Será que consigo deixá-la com ciúmes de Sarah Thomas? Vou tentar… embora garotas como ela, que se jogam para cima de um homem, pareçam tão vulgares e sem graça perto de Marozia Remington. Ela é um prêmio que vale a pena conquistar a qualquer custo! Mas confesso que estou ficando de saco cheio dessa farsa no vilarejo e dessa história com a Sarah Thomas!”
A Villa foi redecorada e ganhou móveis novos; Claude começou a receber convidados. A elite local ficou em polvorosa. Como se supunha que Marozia estava fora da disputa, as outras candidatas ao casamento respiraram aliviadas, embora redobrassem os esforços para conquistar o “prêmio”.
A ingênua Sarah Thomas estava radiante de felicidade, exceto por uma pequena sombra de preocupação. Tom Gregory sentia falta de Sarah e não conseguia compreender por que ela morava na Villa. Ele foi perdendo a alegria habitual e ficando atormentado.
— “Olha, Sally”, argumentou ele, “se você cismou de ajudar a Sra. Reed com os afazeres, podia vir aqui à noite e ficar com a mamãe. Ela precisa mais de você do que a Sra. Reed — ou o Sr. Ossudo!”
Sarah sorriu com um ar de desafio e seguiu para a Villa, onde estava hospedada na função de auxiliar de governanta. Claude Rathburn viajava frequentemente de e para a cidade e, certa vez, trouxe consigo um suposto vidente — um ocultista que havia conquistado grande reputação em Nova York como mestre de certos mistérios. Claude já se aventurava no ocultismo há muito tempo e, para ele, não importava estar perigosamente próximo da fronteira da magia negra. Ele levava até o fim qualquer objetivo que se propusesse a alcançar, mesmo que isso conduzisse à ruína — a infernos de desespero. Claude e o Swami, como o homem era chamado, passavam horas a fio trancados em um dos aposentos do andar superior da Villa. Após algumas semanas, o rosto de Claude começou a exibir um ar de triunfo.
Certo dia, enquanto Sarah Thomas caminhava entre as macieiras em flor no início da primavera, Claude juntou-se a ela.
— “Não é maravilhoso para você, Sarah?” — Os olhos da jovem brilharam de alegria.
— “Ah, eu nunca sonhei com uma vida assim… é o paraíso! Mas não consigo entender… eu temia que você gostasse mais de Marozia Remington do que de mim. Agora não penso mais assim… embora você nunca tenha me dito realmente que… me amava!”. Ele desviou o rosto para esconder um sorriso de ironia divertida, e Sarah acrescentou rapidamente:
— Mas eu a odeio!
— Por que você a odeia?
— Ah… não sei… Ela tem ares de superioridade! Para começar, sente-se acima das outras pessoas!
— É mesmo? — Aquele tom de brincadeira provocadora o divertia imensamente naquela época.
— Sim, e digo a você: eu a odeio!
— “Você sabe o que o ódio faz, Sarah?” — A jovem permaneceu em silêncio.
— “Bem, um dia eu lhe conto. Continue assim… é uma boa arma para usar!”. As palavras dele a deixaram assustada e intrigada. No entanto, ela não se deixaria desviar de seu propósito naquele momento e insistiu em conduzir a conversa para o rumo que desejava.
— E o senhor nunca gostou dela, Sr. Rathburn?
— Não seja sentimental, Sarah! — A jovem estremeceu, sentindo vergonha.
Ele acrescentou rapidamente:
— “Você está com uma ótima aparência ultimamente! Aquele aspecto doentio desapareceu e seus olhos estão brilhantes. Mantenha-os assim — pelo bem do Tom. Um homem gosta de uma mulher vibrante; ele nunca se cansa de alguém cheia de vida!” Mais uma vez, ela estremeceu de dor.
— “Eu gostaria que você não falasse do Tom Gregory… você sabe que eu também o odeio!”
— “Nossa, que talento maravilhoso você está desenvolvendo para os ‘Lúciferes’ aproveitarem! Um dia você será uma das grandes estrelas deles!”. A ironia dele passou despercebida por ela — ela tinha um objetivo a alcançar.
— “Por favor, diga-me, Sr. Rathburn, que você não se importa nem um pouco com a Marozia Remington!”
— “O que colocou essa ideia na sua cabeça? Alguém sugeriu tal possibilidade?”
— “Sim, a Sra. Gregory disse que ela estava tentando fisgar você, mas que as garotas Watson poderiam acabar ficando com você.”
— “Hum… e serem presas por bigamia! Ha, ha, essa é boa! Mas o que mais ela disse?”
— “Que você ia vê-la com frequência. —’Namorando’ — foi a palavra que ela usou, mas sem pronunciar o ‘o’ final.”
— “Agora você está despertando, Sarah, e pode vir a me divertir muito!”.
Ela ergueu o olhar, surpresa e desconcertada, ao ouvir o tom e as palavras dele. O rosto bonito exibia um sorriso — um sorriso dirigido a ela —, e a leve sombra desapareceu. Ela não conseguia perceber nuances sutis, fosse de ironia divertida ou de sátira.
— “Nunca acreditei no que ouvi, pois achava que você se importava comigo, mesmo que eu não esteja à sua altura! Mas sinto um pouco de ciúme… dela!”
— “Ora, isso é natural — as mulheres sempre sentem ciúmes umas das outras! Mas nunca acredite nem na metade do que ouve, Sarah! As fofoqueiras da aldeia vivem de bisbilhotar a vida alheia; isso é o pão de cada dia para elas. Já o pessoal da cidade encara a fofoca apenas como um aperitivo. Prefiro que sejam estes últimos a tratar dos meus assuntos.”
Ralph Remington começava a perceber que estava sob uma nuvem de desconfiança aos olhos de seus vizinhos. Levava mais tempo para se dar conta de fatos sórdidos e desagradáveis do que uma Mente menos espiritualizada. Além disso, estava absorto em sua nobre missão e pouco se importava com as coisas exteriores.
Outro sentido despertava em seu interior: ele começava a entrar em contato consciente com outros planos de existência. Ao despertar pela manhã, ouvia uma música sublime que flutuava em direção às esferas etéreas. Cores que desafiavam a capacidade de reprodução dos pigmentos terrenos — cores que os grandes mestres da arte buscavam, mas jamais conseguiam transpor para a tela — encantavam sua alma, que retornava a cada manhã revigorada por suas experiências gloriosas nos Mundo celestiais. Ele já ouvira um tênue eco dessa música em outros tempos, quando, nos grandes conservatórios, sentava-se fascinado ao som das obras de Wagner, Beethoven, Gounod e Liszt.
Nos grandes órgãos de tubos e nas famosas orquestras, ele havia captado um presságio, uma profecia, um eco daquela música que ainda reverberava em seu íntimo ao despertar; sua própria alma vibrava com essa lembrança. Por diversas vezes, a Presença radiante estivera com ele, e seu trabalho recebera um novo batismo. Um brilho elétrico permeava seus pensamentos.
Ele precisava desse novo estímulo, pois sua vida doméstica tornava-se, a cada dia, mais miserável e deprimente. A Sra. Remington, com aquela propensão desastrada que parece ser um traço inato de certas mulheres insuportáveis, sempre relatava coisas desagradáveis justamente quando a Mente do marido estava ocupada com a criação. Ela sentia um prazer deliciosamente malicioso ao vê-lo contorcer-se em silêncio, torturado. “Vou tirá-lo de seus sonhos”, exclamava ela em pensamento. “Bem-feito para ele! Ninguém tem o direito de perder tempo brincando com uma pena!”.
Pouco lhe importava se ele caísse das nuvens com um baque devastador; ela não lhe ofereceria sequer um paraquedas para uma descida suave e indolor.
Certo dia, ela foi mais cruel do que de costume. Com uma espécie de júbilo diabólico, observou o efeito da calúnia que acabara de proferir. Por um instante, sua Mente elevada pareceu atordoada pelo esforço de compreender o verdadeiro alcance daquelas palavras cruéis; depois, ele voltou-se em silêncio para o trabalho. Apenas uma palidez mais intensa denunciava a ferida.
— “Bem, você tem algo a dizer?” ela exigiu, após esperar tempo suficiente para que o veneno fizesse efeito.
— “Nada”, respondeu ele, enquanto se inclinava levemente para a frente e protegia os olhos do sol poente, cujos raios incidiam diretamente em seu rosto.
— “Bem, acho que já passou da hora de você dizer alguma coisa, agora que as coisas chegaram a esse ponto.”
— “Se pararmos para responder a cada calúnia pelo caminho, nosso progresso será lento.”
— “Você e Marozia são iguais! Mas vou lhe dizer uma coisa: estou cansada de viver assim e não vou mais suportar isso! Se você não obrigar Marozia a se casar com Claude Rathburn e nos deixar viver como devemos, eu deixarei vocês dois!”
A Sra. Remington assustou-se com o efeito de suas palavras cruéis. Ela não estava preparada para o resultado. Ralph Remington levantou-se e ficou de frente para ela. Parecia ter ganhado estatura enquanto seus olhos a perscrutavam profundamente. Então, eles subitamente incendiaram-se com um desprezo diante do qual ela se encolheu, intimidada. Quando esse desprezo surgiu em seu olhar, pareceu encontrar outra força com a qual se fundiu, e a mulher cruel à sua frente sentiu o poder de um homem que assume o comando. Era uma experiência nova para ela — e para ele. Foi preciso justamente esse auge de injustiça cruel e de insolência provocadora, acumuladas ao longo de meses e culminando neste ultimato desafiador, para despertar suas forças latentes e completar a formação de seu caráter. Naquele momento crucial, ele viu tudo sob uma nova perspectiva: sua antiga atitude de paciente tolerância diante de provocações e abusos, bem como sua docilidade branda frente a calúnias e injustiças, agora lhe pareciam fraqueza.
Naquele instante, ele alcançou o equilíbrio, a combinação perfeita, a fusão das duas forças, cuja união constitui o poder e a compaixão.
Daquele momento em diante, ele era o senhor da situação.
Quando finalmente falou, em tom lento e ponderado, havia uma nova nota de determinação em sua voz.
— “Nunca pensei que veria este dia, ou que sentiria o que senti há pouco — vergonha e desprezo pela mulher que ostenta o meu nome! Você me apresentou uma alternativa — e eu a aceito! Peço apenas que aguarde até que meu livro esteja concluído e no mercado, para que eu possa assegurar-lhe uma provisão financeira. Depois, você poderá escolher onde morar, e eu espero passar o resto da minha vida em paz — uma paz que não conheço desde que nossas vidas incompatíveis se uniram no altar!”.
Ele virou as costas e a deixou ali, paralisada pelo medo covarde das consequências que ela mesma havia provocado; contudo, não sentia arrependimento nem remorso. Tais sentimentos nobres pertenciam a um estágio de evolução que ela não havia alcançado. Estava demasiado cristalizada em seu egoísmo para sentir qualquer coisa além de covardia, medo e um ressentimento surdo. Ela tentara levá-lo à ira. Aplicara sanguessugas e cantáridas à natureza sensível e gentil dele, mas, de alguma forma, dessa vez a tática não surtira o efeito esperado. Aparentemente, ele permanecera alheio, com calma, a todas as injustiças e ultrajes acumulados ao longo de meses e anos. Ela o julgara desprovido de fibra por ter se submetido silenciosamente por tanto tempo. Como tantas outras mulheres insensatas, ela dera um passo além da conta e desperdiçara, num único momento trágico, a maior bênção de uma mulher: o afeto e o respeito de um homem nobre.
Enquanto Ralph Remington caminhava sob as árvores, tentava elaborar um plano, mas em vão. Repassava mentalmente toda a situação angustiante do último ano. Enquanto ainda vivia na Villa — cercado pelas terras de seus antepassados —, a possibilidade de um desastre não lhe parecia tão aterrorizante. Sabia que não havia prejudicado ninguém conscientemente e, com essa convicção, enfrentara as ameaças de Horace Rathburn com o espírito de um herói e mártir. Sentira aquele frêmito momentâneo e triunfante que o santo condenado experimenta quando sua sentença é proferida e ele vislumbra glórias invisíveis. Vivia tão imerso nessas glórias que não conseguia compreender a imensidão do sofrimento que se pode vivenciar no plano físico. Seu Espírito regozijava-se em sua inocência, em sua nobreza de propósito, e ele não sentia a tortura. Vivera para concretizar seus belos ideais, talvez não tanto por amor à Humanidade em seu coração, mas pela ideia de ser fiel ao Propósito Divino em sua vida.
Seu amor pela Humanidade manifestava-se como uma compaixão gentil diante de seus múltiplos desvios. Incomodava-o o fato de ela não conseguir enxergar, com a clareza de sua visão, as alturas luminosas das possibilidades da alma. Ele sentia as correntes divinas circulando por sua vida. A grandeza de seu Espírito conferia uma glória transformadora a tudo, e todos que entravam em sua esfera de influência sentiam algo daquela doçura e elevação. Mesmo para os de Espírito simples ou vulgares, ele parecia alguém “separado”. Falhar em qualquer aspecto significava uma profunda angústia de Espírito. Ele prezava imensamente concluir as coisas — dar plenitude e completude à sua vida e à sua obra. Houve um tempo em que acreditara que isso seria possível — numa única existência. Isso fora na juventude, antes que suas perspectivas se estendessem até o infinito.
Agora — desde sua última experiência trágica — era como se seus belos ideais tivessem sofrido um golpe mortal e cruel. Ele se via como que através de lentes duplas: como sabia que era, e como os outros, com sua visão distorcida, o viam. Esse é um dos testes cruciais de uma grande alma. Se for digna — se estiver pronta —, ela seguirá sozinha até o fim, a despeito de críticas mesquinhas ou calúnias. Seguirá de forma grandiosa, majestosa, em meio ao choque e ao colapso de um mundo em agonia — tal como os deuses caminharam para o seu Ragnarök[1]. Uma alma menor, que ainda não reuniu forças para romper a casca exterior e alcançar a Luz interior, tropeçará em desorientação e desesperança diante das cruéis investidas do destino. A alma ignóbil, por sua vez, definhará completamente no cadinho de fogo.
Ralph Remington não conseguiu escrever mais nada naquele dia, nem no seguinte. Parecia paralisado pelo golpe. Toda a sua bela inspiração dissipara-se como uma essência etérea. Sua fraqueza física abatia-lhe a esperança e o coração.
— “Marozia Marozia, venha até mim. Preciso de você!”, murmurou ele, enquanto sua cabeça pendia sobre a escrivaninha e a consciência se esvaía.
[1] N.T.: Na mitologia nórdica, Ragnarök (em português: destino final dos deuses), representa a escatologia nórdica, marcado por uma série de eventos que conduziriam ao fim do mundo.
CAPÍTULO XV – A IMPORTÂNCIA DE APROVEITAR AO MÁXIMO CADA EXPERIÊNCIA
Ralph Remington, em Espírito, precipitou-se através de vastos espaços, ou por uma esfera de luz que parecia preencher o universo. Incontáveis átomos em turbilhão compunham esse poderoso Sol luminoso. Cada átomo inseparável estava permeado pela Consciência Universal, e ele instintivamente reconhecia-se como parte daquela esfera de luz e de suas partículas indiferenciadas. Então, ocorreu uma mudança. Houve um grande movimento cantante — uma maravilhosa profusão de tons poderosos, com cada átomo movendo-se ao som de um tom que lhe era próprio. Ele ainda se sentia parte do Todo, mas observava a trajetória de um desses átomos cantantes enquanto, acompanhado por sua poderosa multidão, ele girava para baixo e para fora. Ao girar para baixo, o átomo atraía para si matéria de densidade cada vez maior. Depois, fez uma pausa — talvez por eras — em um reino etérico, onde envolveu seu núcleo radiante com um véu tênue.
Ideias e pensamentos residiam nessa substância, aguardando corporificação e expressão. O átomo em turbilhão não podia expressar-se ainda; tinha eons de descida pela frente até que os mecanismos adequados estivessem prontos; depois, em sua longa jornada de ascensão, teria de aprender a evoluir e a expressar-se por meio de seus complexos invólucros.
Ele observava, como um espectador à parte, o turbilhão descendente e as pausas seculares em cada Plano Cósmico, enquanto o átomo acumulava nova matéria e novas experiências. Então, sua consciência foi subitamente mergulhada nas profundezas da matéria, em um globo sombrio, e sua longa peregrinação teve início.
Ao longo de eons, ele observou o germe em evolução — a centelha da Chama — traçando seu curso através de Globos, Revoluções e Períodos, até que começasse sua obra como ser humano. A consciência despertou em climas tórridos, onde cresciam samambaias gigantes e florestas tropicais. Desabrochou em terras polares, entre o gelo e a neve; em meio a vastas civilizações e na solidão dos desertos da perdida Atlântida. Houve ondas gigantescas, convulsões vulcânicas, cataclismos poderosos, muitos nascimentos e mortes, impactos violentos; contudo, a consciência despertava lentamente. Às vezes, passavam-se eras antes que houvesse algo a extrair e assimilar da experiência de vida, tão profundamente estava o Espírito enredado na matéria. Naqueles tempos remotos, a alma crescia, de fato, muito lentamente.
Vislumbres surgiam agora diante do observador: selvas indianas, jardins persas, templos egípcios e, então, uma Acrópole grega — e ali ele fez uma pausa, e a consciência tornou-se ativa. Ele viu um homem de porte nobre, um filósofo em meio ao seu grupo de discípulos. Um jovem, entre eles, sentava-se a seus pés e absorvia as palavras de sabedoria, mas não as vivenciava. Era um patrício arrogante que buscava o saber pelo saber, pela casta, pelo poder! Mais tarde, o Mestre foi para sua casa, situada entre os bosques atenienses, e o patrício o acompanhou. Ele amava a bela filha do filósofo, mas amava ainda mais o poder. O compromisso de casamento fora firmado, e o dia da união se aproximava. Naquela mesma noite, na casa do patrício, uma escrava foi açoitada por uma falta qualquer e morreu com uma maldição nos lábios. Com o espírito altivo e indomável de um líder, o jovem esmagava tudo — até mesmo a virtude e a verdade — em sua busca desenfreada pelo poder. Conquistou-o, mas perdeu a noiva: ela o rejeitou com um desprezo silencioso.
Jurou vingança e, mais tarde, casou-se com uma beldade sem alma, que o auxiliava em seus planos nefastos para obter ainda mais domínio!
A filha do filósofo casou-se com outro discípulo de seu pai, um homem de alma nobre que também se tornou mestre entre os homens. Palavras de sabedoria — a sabedoria arcana — fluíam de seus lábios enquanto caminhava pelos bosques atenienses com seu grupo de discípulos escolhidos, e sua fama se espalhava pela Grécia e pelas ilhas do mar. A felicidade coroou essa união — parecia ideal, assim como a de seus pais —, mas uma morte trágica abateu-se sobre a jovem matrona grega. Enquanto essa cena passava diante dos olhos do observador, sua angústia extravasou em um grande grito:
— “Marozia… Marozia, eu teria morrido por você!”. — “Marozia!”, repetiu ele, despertando então para a consciência do presente. — “Marozia”, sussurrou novamente, já desperto e ciente do que o cercava. — “Ah, foi aí que encontrei o nome! Era ela, naquela outra vida!”. Ergueu-se subitamente, mas caiu para trás, tomado por uma vertigem avassaladora, e pareceu ser transportado novamente para a era romana. Sua retrospectiva ainda não estava completa.
Um tribuno romano é conduzido em sua carruagem desde a vila, situada no alto das colinas com vista para a cidade e a Campânia. Seu destino é o Fórum. Uma questão de grande importância está em jogo, podendo decidir o destino da nação. Ele permanece como alguém inspirado, enquanto uma oratória apaixonada comove a multidão diante dele. Na Villa, uma nobre matrona romana aguarda sua chegada e, ao saudá-lo, seus olhos brilham com um amor terno e devoto. — “Ah, isto é o melhor de tudo!”, exclama ele, com o tom apaixonado de um amante. — “O amor é melhor do que a fama!”
Um belo jovem surgiu de repente e suplicou permissão para visitar a Grécia e o Oriente, a fim de estudar a sabedoria dos sábios e as escolas de mistérios.
Contemplando com terno orgulho o seu nobre filho, a permissão foi concedida. Muitas cenas passaram rapidamente diante do observador. Houve intrigas, conspirações, mudanças de dinastia, vitórias e derrotas, e o Tribuno Romano estava no meio da batalha. Um certo Centurião era o seu inimigo mais implacável e ferrenho. Esse comandante garantiu a cooperação de um escravo grego da casa do Tribuno e, certa noite, uma taça com veneno foi-lhes servida. O Tribuno e sua bela esposa foram as vítimas. Mais tarde, o Centurião teve o mesmo destino pelas mãos do escravo.
Mais uma vez, a cena muda para a corte de um rei em um reino espanhol. Muitos grandes filósofos e sábios estavam reunidos ali. Havia também alquimistas e astrólogos árabes. Entre eles, havia um que conhecia seu poder e o utilizava. Ele era o poder por trás do trono e usava sua influência para o mal. Dedicava-se às artes das trevas e era temido por todos. Conquistou o amor — ou o obteve à força por meio de sua magia — de uma bela e jovem princesa, para depois descartá-lo como algo de pouco valor. Um rei governava uma das províncias do reino. Sua alma poderia ter sido grandiosa e nobre, mas o orgulho e o intelecto dominavam-no — não o amor e a compaixão.
A princesa cortejada pelo mago das trevas era sua filha. Privada de amor, ela também buscou refúgio no orgulho e no intelecto, tornando-se famosa por sua sátira e sagacidade. Muitos pretendentes afluíam à sua corte, mas ela desprezava o amor. Ela o satirizava e usava seu brilhante intelecto para provar que apenas a razão deveria governar e conduzir a Humanidade. Seu pai, o Rei, compartilhava dessa visão. Os escravos e servos da corte não passavam de mercadorias e propriedades. Se sofriam, era apenas uma consequência natural da escravidão e da servidão. Ele nunca foi cruel, mas o amor e a compaixão lhe eram estranhos naquela época. No entanto, como sua alma era inerentemente grandiosa e nobre, e seu intelecto brilhante, ele não estava longe de seu despertar. Faltavam-lhe apenas um pouco mais de sofrimento e mais algumas provações para que sua vida ficasse plena desse frutos abundantes. Ele havia experimentado o poder ao longo de muitas vidas; agora, era preciso despertar a compaixão.
— “Ah, Marozia”, sussurrou ele, ao despertar novamente para a fase atual da vida eterna e única, — “a lição foi aprendida — nossa lição foi aprendida.”.
A escola de Marozia estava prestes a fechar para o verão. Situava-se em um povoado agrícola, mal merecendo ser chamado de vilarejo. Seus alunos eram meninos e meninas da fazenda, que precisavam retornar cedo ao trabalho no campo. Os mais adiantados entre esses jovens moradores do campo frequentavam a antiga escola de seu pai, que os levava até o segundo ano da faculdade.
Hoje, enquanto Marozia voltava pelos campos recém-arados para a casa da fazenda onde estava hospedada, uma tempestade que se formava desabou com fúria sobre sua cabeça desprotegida. Os relâmpagos eram vívidos — cegantes, até —, mas ela sentia um certo desafio diante do perigo; uma ousadia elemental que brotava das profundezas inquietas de seu ser. Era um conflito perpétuo em seu interior; por que não também no exterior? — “Passarei a detestar tudo o que é calmo e sereno se essa guerra continuar”, exclamou ela, com um arrebatamento que a fez estremecer, ao sentir um estrondo repentino de trovão despertar seus sentidos. Um frenesi — metade êxtase, metade terror — apoderou-se dela. Ela estava em total sintonia com o estado de espírito da natureza. “Em meio a cenas de terrível comoção” — “Sim, isso é o melhor nesta etapa da jornada; o conflito terminará mais cedo, pois há um limite para o que podemos suportar — nestes corpos sensíveis!”. Assim ela falava consigo mesma, enquanto a tempestade lá fora respondia àquela que rugia em seu interior.
Quando chegou ao seu sótãozinho sombrio, a tempestade havia perdido a força, e ela foi tomada pelo desânimo. O ambiente ali dentro era tão barato, grosseiro e feio — e tão sufocante. Havia algo nela que sempre protestava contra condições feias e sórdidas. Guardava lembranças vagas de salões de mármore, de elegância cortesã, de posição social, de poder. Esse senso inato era mais do que instinto, mais do que um sonho: era uma realidade da qual ela fazia parte. Todos com quem ela convivia reconheciam sutilmente esse poder inato; ele transparecia em seu rosto, revelava-se em seu porte e se manifestava em sua alma sublime — em sua majestade e nobreza, em sua beleza refinada. Ela sempre fora diferente das pessoas ao seu redor.
A Sra. Morton e seu pai eram as únicas exceções. Era essa a qualidade que os moradores do vilarejo reconheciam, mas não conseguiam compreender — e, por isso, a ressentiam à sua maneira desajeitada. O ambiente sempre significara muito para ela, mas ela estava aprendendo a viver, a suportar e a sorrir apesar de tudo. Naquele dia, seu quarto parecia incomumente deprimente. Os cheiros da cozinha ainda pairavam entre as vigas rústicas. Ela abriu a pequena janela, e uma lufada de ar carregado de chuva varreu seu rosto ruborizado. Respirou fundo, enchendo os pulmões. Num ímpeto apaixonado, clamou ao Infinito: — “Meu Pai, não suporto mais isso! Esta existência claustrofóbica e sufocante vai me matar! Preciso de liberdade, de vida! Até mesmo uma tempestade seria melhor – a fúria de um ciclone! Prefiro que minha vida se apague numa tempestade rápida e violenta a arrastar-se interminavelmente numa monotonia monótona e prolongada!”.
Então, pensou em seu pai. Não, preciso viver por ele! Preciso aprender a viver, mesmo desta maneira! Viver, não apenas existir! Lembrou-se de seu antigo professor, o Sr. Arlington, e de algumas coisas que ele lhe dissera sobre o significado da vida — a vida verdadeira. Um pensamento sobressaía claramente entre os demais, como uma espécie de conclusão para suas reflexões: a importância de aproveitar ao máximo cada experiência e de encontrar uma lição em cada situação infeliz ou angustiante.
— “Caso contrário”, ele concluíra, “podemos passar a vida inteira apenas tangenciando as experiências, sem extrair delas nada que possamos levar conosco e transformar em essência da alma ou em faculdade interior. Devemos aprender a dominar as circunstâncias, e não permitir que elas nos dominem!”
— “Sim, é isso que devemos fazer”, respondeu ela, como se sua alma estivesse falando com ele. — “É isso que devo fazer aqui e agora!” Aproximou então sua poltrona de leitura da janela; a tempestade estava passando. Ela sempre gostava de ler uma epopeia ou tragédia quando os elementos da natureza estavam em conflito. Pegou a Ilíada[1], mas não conseguiu se deixar absorver pelas disputas dos antigos heróis gregos e troianos. Pela primeira vez, todo o estrondo das ações bélicas e os detalhes minuciosos das movimentações nessas disputas pareceram-lhe tolos, triviais. As páginas pesadas já não eram comparadas, por sua imaginação vibrante, à marcha de Júpiter. Aqueles heróis lendários pareciam, de repente, não passar de crianças grandes. Nas complexidades maravilhosas que a consciência em desabrochar apresenta nesta fase de desenvolvimento, a proeza física na guerra — requisito principal daquela era distante — parece, de fato, simples e primitiva.
A batalha agora trava-se no interior, onde situações maravilhosas se desenrolam — onde questões grandiosas estão em jogo e forças lutam às cegas, envoltas em trevas. E, às vezes, não se tem certeza absoluta do motivo do conflito ou de qual é a questão em pauta. De uma forma metafísica e vaga, a Mente sabe que se trata do conflito milenar entre o bem e o mal, a ser travado no campo de batalha da alma; mas onde está a linha divisória? Parece, em última análise, uma questão de paralaxe, de posição no Caminho. Contudo, a batalha deve prosseguir, e a alma deve sofrer e, com esse sofrimento, adquirir experiência.
Assim, naquele dia, tudo no mundo exterior parecia comum para Marozia. Seu mundo interior, porém, revelara de repente possibilidades extraordinárias: possibilidades de um sofrimento titânico e de uma marcha firme e heroica rumo ao silêncio e ao crepúsculo. Enquanto estava absorta em meditação, pareceu-lhe ouvir a voz do pai, e a imagem dele surgiu diante dela com absoluta nitidez.
— “O que houve, Pai?” — exclamou ela, levantando-se de um salto. — “Preciso ir até ele… algo aconteceu.”. Ela soluçou baixinho ao recair na cadeira, tomada por uma súbita fraqueza. A antiga biblioteca da Villa surgiu diante de seus olhos com uma nitidez impressionante. Ela viu o tom carmesim desbotado das tapeçarias e do tapete; as longas fileiras de estantes coroadas pelos bustos de Homero, Milton e Shakespeare; a grande lareira diante da qual se sentavam nas noites de inverno e a prateleira ricamente entalhada, que sustentava o relógio antigo e os vasos; o tapete de pele branca diante da lareira, onde ela costumava se enroscar com Rover aos pés do pai; a poltrona grande, posicionada junto à mesa da biblioteca, e o fogo que brilhava intensamente.
Ela via o rosto de seu pai — uma face imponente e espiritual, paciente e sofrida — e podia ouvir sua voz, que se tornava mais baixa e terna à medida que a luz suavizava e se esvaía, e as sombras avançavam pelos cantos, ao redor das grandes estantes de livros. Como ele interpretava, parafraseava e sugeria novas belezas de expressão, com seu jeito vívido, entusiasta e inimitável. Suas paráfrases eram a melhor parte de tudo aquilo. Enquanto a luz desaparecia, ela sempre se sentava em seu banquinho, ao lado dele, com a mão dele pousada em bênção sobre sua cabeça, coroada por cabelos escuros e brilhantes.
Às vezes, e ela estremecia quando essa imagem lhe vinha à Mente, a sorveira agitava suas bagas vermelhas contra as vidraças da janela, enquanto o vento noturno se levantava e gemia como uma alma em sofrimento. Então, enquanto essa cena passava diante de seus olhos, algo estranho acontecia. De repente, sua visão se ampliava e outra cena, situada na era clássica, se desenrolava. Uma fachada grega, um jardim singular, o litoral — cena após cena, em visão panorâmica, passava diante dela — e, sempre, parecia haver dois Espíritos indissociavelmente ligados ao seu. À medida que o pergaminho se desenrolava, ela percebia outra influência: uma força poderosa, mas diante da qual ela recuava, tomada por um vago horror. Então, uma vila romana surgia à vista, e ela sentia aquele mesmo grande Espírito caminhando ao lado do seu pelas cenas marcantes daquela época. Havia sempre uma profunda sensação de unidade com o grande “Eu” – o Ego – que, naquele momento, se ocultava sob a Personalidade de seu pai. Ao retomar o fio de sua vida presente, ela se levantou de um salto e preparou-se para ir até ele. Viajou na carroça de um fazendeiro até o vilarejo e, depois, apressou o passo pela rua lavada pela chuva. Estremeceu ao ouvir o ranger da velha roda do moinho, mas seguiu adiante, impulsionada por um único desejo: chegar até o pai.
— “Ah, minha garotinha, eu sabia que você viria!” — disse ele quando ela entrou. Ela ficou muda de espanto diante da palidez do rosto dele. Ele tentou sorrir enquanto estendia os braços em direção a ela.
— “Pai!” — ela exclamou, ofegante, enquanto escondia o rosto no ombro dele e soluçava, tomada pela fraqueza que sucede a uma forte emoção. Sentia-se tonta e enjoada.
— “Você me chamou, pai?”
— “Sim.”
— “Você precisava de mim, querido pai?”
— “Sim, eu precisava de você…, mas por que você achou que eu a chamei?”
— “Ouvi você com clareza e a vi ao meu lado, por isso vim.”
— “Minha garotinha, filha do meu coração!”
— “Mas, Pai, o senhor está doente… conte-me tudo, pois agora sou forte e aprendi a suportar!”
— “Marozia, minha filha, acho que perdi algo — algo que pulsava como uma chama luminosa em meu interior, impelindo-me a expressá-lo! Algo que tentei reter, questionar e traduzir em palavras. Mas se foi — e eu… estou perdido… nas sombras!”. Seu rosto, de repente, tornara-se abatido e pálido, e seus olhos haviam perdido o brilho profundo de outrora.
— “Oh, Pai — querido Pai — o senhor parte o meu coração! Não está perdido, não pode estar! Voltará com novo vigor! O senhor está exausto agora e precisa descansar! Oh, diga-me… diga-me que isso retornará!”. A angústia dela o despertou.
— “Sim, querida, tem de voltar — tem de voltar! O Propósito divino jamais inclui capricho ou fracasso. Ele está sempre a realizar e a aperfeiçoar. Não me abandonaria agora, aqui. Tomo a própria dádiva como sinal e prova.”
— “Falou como o meu querido Pai!”. Um tremor convulsivo percorreu-lhe o corpo, trazendo consigo uma multidão de lembranças inquietantes. Essa fora a resposta dela naquela noite memorável — que parecia ter ocorrido há uma eternidade —, quando caminhavam juntos pelo bosque de faias. Aquilo acontecera no início da tragédia e, naquela noite de sombras proféticas, seu espírito dolorido captara raios de luz da alma radiante dela.
— “Lembra-se, meu pai, da nossa caminhada pela floresta na noite em que voltei para casa? O senhor falou sobre o significado profundo de nossas tristezas e provações e, mais tarde, na biblioteca, ao final da noite, falou com tanta eloquência sobre o Sic itur ad astra. Lembrou-me de que o caminho até lá não importa tanto, desde que alcancemos as estrelas — que simbolizam o nosso objetivo. Agora, o senhor atravessa os ‘desertos cuja solidão pesa sobre o coração com uma angústia silenciosa’. Mas tenha coragem, meu querido pai! No horizonte distante, vejo uma luz — uma luz bela, de tonalidade violeta — e o senhor caminhará nela; vejo-o caminhando nela agora, com suas belas visões tornando-se realidades vivas; e outros — muitos outros — verão e compreenderão por meio de você.”.
Ela falava com entusiasmo e paixão, como se possuísse uma visão profética. Seus olhos brilhavam com ternura, e sua voz vibrava com uma estranha e mística doçura. Ela se inclinou na direção dele, com as mãos entrelaçadas sobre os dedos finos e inquietos dele. Havia uma ternura nostálgica no rosto dele — aquele olhar infantil, oculto durante os anos agitados e combativos, emergia agora por trás da máscara da carne. Não era a fraqueza senil de uma Mente ociosa e de um Coração endurecido, mas a pureza suave de uma alma forte e clarividente, purificada por múltiplas tristezas. Ao contemplá-la com amoroso orgulho, ele se sentiu fortalecido. Conversaram sobre o trabalho e os planos dele, e o brilho retornou ao seu semblante. Ele se maravilhava com o poder e a percepção cada vez maiores dela.
— “Creio que a Chama luminosa penetrou na alma da minha filha”, disse ele, ao se despedirem para a noite.
O sorriso dela trazia um toque de reverência misteriosa, mesclado a um radiante fulgor.
[1] N.T.: um dos dois principais poemas épicos da Grécia Antiga, de autoria atribuída ao poeta Homero, que narra os acontecimentos decorridos no período de 51 dias durante o nono e penúltimo ano dos dez anos da Guerra de Troia, conflito empreendido para a conquista de Troia, cuja gênese radica na ira de Aquiles.
CAPÍTULO XV – O AMOR DE UMA IDEALISTA
Os acontecimentos precipitaram-se, como costuma ocorrer quando uma crise se aproxima. Nas semanas seguintes, dois episódios destacaram-se sobre todos os outros na vida de Marozia e de seu pai. O primeiro deles foi o ponto de virada da situação. Ralph Remington havia terminado seu livro; a obra estava completa e acabada, fruto de sua antiga e poderosa inspiração. Era uma chave mestra para muitos problemas desconcertantes da vida, e através dela brilhava a luz da verdade — uma verdade que as eras futuras haveriam de desenvolver. Durante as semanas transcorridas desde a sua visão, ele trabalhara com um novo vigor — uma força nascida de profunda compaixão. Já não permanecia isolado nas alturas, trabalhando indiretamente para a Humanidade por meio de seu gênio; sentia-se, agora, unido a ela em todas as suas lutas seculares. Sua obra era a sua contribuição para o todo, a sua oferenda no altar do serviço. Ele não havia pensado no aspecto material até o dia doloroso em que se viu subitamente confrontado com fatos frios e crus — fatos mercenários e sórdidos, aos olhos daquele sonhador talentoso que vivia o auge de seu poder criativo. O editor a quem ofereceu o trabalho enviou a resposta de praxe: a obra seria lida, analisada, divulgada e publicada segundo as condições habituais — isto é, caberia ao autor arcar com os custos da primeira edição. Ele tentou novamente, mas obteve o mesmo resultado. Outro editor exigiu uma certa quantia por uma crítica favorável, além de um número suficiente de assinantes que garantisse a cobertura dos custos da primeira edição. Ninguém estava disposto a aceitar a obra por seus próprios méritos e publicá-la. Um ano antes, ele talvez tivesse conseguido levantar a quantia necessária, mas agora não havia a menor possibilidade de atender às exigências dos editores.
Com o coração apertado, ele recebia um golpe após o outro, perdendo a cada vez um pouco mais de sua capacidade de resistência. Tudo dependia da venda daquele livro — tudo. Todo o seu trabalho futuro estava condicionado a ele. Se fosse bem-sucedido, seus poderes criativos não conheceriam limites. Se fracassasse, ou se ele não conseguisse levá-lo ao público — ah, ele não ousava encarar tal tragédia; não ousava pensar além disso. Não lhe restava mais nada a que recorrer — para ele, parecia ter chegado o fim de todas as coisas.
O momento crítico ocorreu numa noite de sábado, quando Marozia caminhou com ele até a agência de correios do vilarejo para buscar a correspondência diária. O golpe havia caído; a última e esmagadora decepção atingira seu coração, já tão provado pela vida. Ele parecia condenado à derrota.
No dia seguinte, a Sra. Remington os deixou. Ela não suportaria mais a pobreza nem compartilharia com eles a vergonha de uma derrota aparente. Foi então, num momento de profunda angústia e agonia avassaladora, que Marozia tomou sua decisão. Ela salvaria o pai, custasse o que custasse a si mesma. Ela se casaria com Claude Rathburn. As circunstâncias a haviam colocado frequentemente na companhia dele ultimamente, e ele não perdera nenhuma oportunidade de enredá-la em suas malhas. Certa noite, pouco depois de ter tomado a decisão, ela se tornou a noiva do homem de quem toda a sua natureza íntima recuava, mas que exercia um estranho poder sobre ela.
Nos dias que se seguiram, houve uma tempestade interior e um caos marcado por certa ousadia emocional, por um abandono desenfreado às forças que a arrastavam. Sua Mente brilhante, subitamente trazida de seu elevado plano para os vórtices astrais, viu-se imersa em uma complexidade estranha e desconcertante de experiências emocionais. Naquele único momento fatídico de decisão repentina, ela havia se aliado ao mundo da ilusão e da fantasia, pois não aceitaria receber mais do que desse. A escolha fora feita sob a pressão de circunstâncias irresistíveis, impulsionada por seu amor altruísta. Aquele motivo era o elemento redentor e que a absolvia em uma transação, de outra forma, mercenária e sórdida. Agora que havia feito sua escolha, ela não o enganaria — cumpriria sua parte. Para tanto, ela forçava suas emoções, sufocava seus ideais e sua razão, e tentava compelir o próprio coração. Ela amaria como uma esposa deve amar — se não agora, então depois que fossem proferidas as palavras solenes que uniriam suas vidas. Ela tinha uma noção muito vaga do que isso implicava. Para ela, naquele momento, tratava-se de uma experiência emocional difusa que revestiria a vida — a vida a dois — com uma espécie de aura romântica. Além disso, ela não ousava olhar.
Começou a se perguntar se algum dia voltaria a conhecer a paz. Sua vida interior era agora uma alternância entre conflito e uma euforia desenfreada, que a conduzia em direção ao seu destino fatal. Sua alma era um verdadeiro emaranhado de emoções contraditórias. Seu anjo de olhar solene ainda sussurrava “não” nas horas silenciosas da noite, quando ela mergulhava no silêncio de sua alma; mas ela já havia tomado sua decisão irrevogável e tentava persuadir a si mesma de que sentia o que deveria sentir. Ela forçaria seu coração — ou sua natureza emocional — a obedecer. Não lhe daria escolha, pois a vida de seu pai estava em jogo.
Para intensificar a aventura de Claude neste jogo ousado, chegaram os dias de primavera, quando a natureza aliava seus encantos maravilhosos ao poder de despertar emoções. O feitiço que agora se tecia em torno de seu coração era vago e onírico como o encanto do luar, porém tingido pelo romantismo e pela poesia de sua alma. Os pássaros estavam embriagados de vida enquanto planavam em voos frenéticos e velozes pelo ar perfumado. As florestas estavam repletas de vida jovem e vibrante: os lagos azuis e os riachos das montanhas pulsavam com uma vida ágil e cintilante, que não desprezava seu renascimento nas águas. O sabugueiro, ao longo das estradas sinuosas, oferecia sua contribuição perfumada aos doces aromas da madressilva, da rosa silvestre e da seringa. Tudo estava pronto para as núpcias entre a promessa da primavera e a perfeição do verão. Como uma criança exausta, ela começou a ceder ao estranho feitiço que a envolvia. Certo dia, pouco depois do noivado, enquanto passava pela casa paroquial, a Sra. Morton chamou-a:
— “Venha ver minha orquídea, Marozia.”
Enquanto caminhavam de braços dados pela alameda ladeada de flores, um estranho teria se impressionado com a semelhança entre elas e, sem dúvida, as teria tomado por mãe e filha. Os mesmos traços radiantes, ávidos e luminosos, o mesmo olhar iluminado pela alma animavam ambos os rostos; a diferença era que um era jovem em anos e o outro vibrava com o espírito de uma juventude imortal, ao passo que a passagem do tempo imprimira sua marca de beleza serena naquele rosto doce e claro. Ralph Remington notara muitas vezes essa semelhança. Só ele conseguia explicá-la para si mesmo, pois um daqueles rostos doces fora a inspiração de toda a sua vida e, muito tempo atrás, eles haviam amado e perdido um ao outro.
Ao pararem diante da orquídea, com os rostos delicados como flores inclinados sobre a flor etérea, Marozia exclamou com seu jeito de sempre — ávido e infantil:
— “Oh, que linda! É maravilhosa também, não é, querida Sra. Morton?”
— “Sim, maravilhosa quando consideramos as condições em que se desenvolve.” — Um sorriso vivo e expressivo iluminou-lhe o rosto. Tinha o efeito de um brilho elétrico.
— “Há pouca analogia entre os parasitas humanos e seus equivalentes no Reino vegetal.”
— “Nenhuma, Marozia, exceto pelo fato de que exigem condições semelhantes para existir.”
— “Sra. Morton, antes de eu ir, a senhora cantaria para mim? Faz tanto tempo que não ouço aquelas canções queridas de antigamente!”
— “Ora, tenho de cantar as mesmas canções de sempre? Certamente elas lhe parecerão simples agora!”
— “As coisas simples são sempre as melhores quando são doces e verdadeiras.” — A Sra. Morton percebeu uma nota de tristeza naquela voz baixa e sincera.
— “Ela realmente mudou” — pensou. Não fazia ideia do noivado, mas conhecia um pouco da natureza íntima de Marozia e das provações de sua vida. Sabia que sua natureza não era inerentemente simples, mas complexa, multifacetada, e que suas necessidades eram, proporcionalmente, grandes e variadas. Quando, portanto, ela expressou aquele sentimento, a Sra. Morton imaginou que fosse o resultado de um anseio reprimido — a resignação forçada que sucede a uma longa agonia paralisante.
“Aquela serenidade que entorpece não é para os jovens — aquela tranquilidade profunda que aquieta as emoções tumultuosas e clamorosas. Ela é para aqueles que suportaram os fardos da vida e receberam inúmeros choques e cicatrizes. Para eles, é uma compensação abençoada, uma dádiva.” Assim ela refletia, enquanto seu coração se voltava com amor e empatia para a doce jovem, cujos ideais eram tão elevados e femininos. Ela sentou-se ao piano e tocou as teclas com um movimento de carícia. Sua voz conservava toda a doçura de outrora. Marozia gostava de ouvi-la cantar; havia uma doçura e naturalidade que fundamentavam e davam vida a toda a sua cultura. Não havia artificialidade em sua arte, nem vibrato afetado, apenas aquele natural que sugere o tremor da alma, requintado como a doce vibração do registro voz humana de um órgão. Ela cantou uma ou duas baladas antigas que evocavam a fragrância do narciso banhado pelo orvalho, combinada ao aroma de calêndulas, cravos e dianthus barbatus. Depois, acariciou as teclas enquanto conversava em voz baixa com Marozia, e a “Canção de Primavera” de Mendelssohn misturava sua doçura vibrante aos fluxos de pensamento lírico. Seguiu-se uma pausa momentânea, um prelúdio suave e terno, e ela cantou baixinho:
“Penso numa Cidade que jamais vi,
Exceto em minhas horas de sonho,
Onde pés de mortais jamais pisaram
Para macular seu brilho suave, tão suave.
Há um vislumbre de pérola e um brilho de ouro,
E um sopro vindo da alma das rosas,
Enquanto glória e beleza, indescritíveis,
Invadem o repouso sereno,
Enquanto sonho, enquanto sonho
Com uma Cidade que jamais vi.”
O último verso dissipou-se como um sopro suave no ar do crepúsculo. Havia algo naquela canção simples — com suas repetições de doçura infantil, sua melodia dolente e cativante, sua rima e ritmo imperfeitos — que tocava Marozia. Talvez fossem as associações ligadas a ela. A primeira vez que a ouvira, a Sra. Morton a cantara num suave crepúsculo de junho, quando o perfume das rosas preenchia o ar. Seu coração estava repleto de um conflito intenso, e a canção trouxe uma calma que parecia uma bênção.
— “Um sopro da alma das rosas”, repetiu ela, com os olhos brilhando e a voz trêmula. “Como essa imagem ganha beleza — à luz do nosso elevado ensinamento!”. A Sra. Morton deixou o piano e sentou-se ao lado dela, no recuo da janela.
— “Podemos levá-la cada vez mais longe”, respondeu ela suavemente.
— “No entanto, é mais bela pelo que sugere do que pelo que diz”, disse a querida Sra. Morton. “Essa é a chave do poder na poesia e na canção. Quando diz tudo, perde o encanto, a beleza e o mistério. Existe uma Ultima Thule na arte, mas não no espírito.”
Um arrepio súbito percorreu Marozia quando seus olhos encontraram os da Sra. Morton. Ela estava prestes a falar de seu noivado, mas hesitou. Sob aquele olhar perspicaz fixo no seu, tornou-se dolorosamente consciente da enorme disparidade entre seus antigos ideais e a realidade presente. E, no entanto, ela — Marozia Remington, a Idealista —, possuidora de um temperamento artístico que tanto exige, de uma Mente filosófica que raciocina, analisa, compara e pensa com tanta persistência, e de um desabrochar espiritual capaz de vislumbrar as glórias interiores, estava irrevogavelmente comprometida com ele — destinada a tornar-se uma só com ele.
É extremamente difícil traduzir um belo sonho em palavras. Marozia começara a sonhar desde que forçara suas emoções a despertar; seu sonho assumia as nuances de sua própria natureza rica e era belo e puro, como convinha ao amor de uma Idealista. Sim, Marozia amava, mas não uma pessoa. Ela amava o próprio amor. Os raios brilhavam através do éter refrator onde a imagem de Claude se erguia, mas atravessavam-no e iam além, rumo às alturas distantes onde seu Ideal aguardava em uma luz mística. Até aquele momento, ela não havia despertado para essa consciência; vivera apenas em seu sonho.
Então, de repente, o conflito apaixonado reacendeu-se. Ela lutou por um instante com suas emoções e, tomada por uma determinação desesperada de acabar logo com aquilo — pois a Sra. Morton precisava saber… “Uma crise se aproxima, Sra. Morton! As coisas não podem continuar assim por muito mais tempo! Isso vai matar o papai — e ele precisa ser salvo!”. O rosto da Sra. Morton empalideceu e um tremor convulsivo percorreu-a. Ela permaneceu em silêncio. Compreendia muito mais do que as meras palavras transmitiam.
— “Há apenas um caminho, e eu o escolhi: vou me casar com Claude Rathburn.”
— “Marozia!”
— “Sim, não se choque, querida Sra. Morton; prometi casar-me com ele.”
— “Marozia, minha querida menina… certamente você não dará esse passo por nenhum outro motivo que não aquele capaz de santificar a união! Deve haver outra maneira — tem de haver. Ou… talvez… você o ame!” Havia um apelo terno — misto de medo e esperança — no rosto e na voz da Sra. Morton enquanto ela se inclinava para a frente e trazia a amiga para perto, num abraço carinhoso.
— “Não serei injusta com ele, Sra. Morton; eu o amarei.”
— “Mas não agora, querida?”
— “Não sei … mas vou tentar!” Então, um arrepio lhe percorreu o corpo ao se dar conta do vínculo que a prendia. Como poderia ela, Marozia Remington — que sempre fora tão livre e se orgulhava de sua liberdade —, como poderia suportar o jugo de um homem como Claude Rathburn, a menos que pudesse amá-lo de todo o coração e com toda a alma? Sua intuição lhe dizia que isso não seria possível, mas ela afastou tal pensamento. Decidiu que o faria — que precisava fazê-lo, pois estava prometida a ele, e ele salvaria seu pai e tornaria possível a realização do desejo mais profundo do coração dele.
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Claude insistiu em uma união imediata, e um medo súbito a fez hesitar; então, ela pensou no pai — e consentiu.