Feliz Páscoa! – Dizemos todos os anos, trocando cartões, coelhinhos e ovos. Mas, aproveitemos a pausa da semana santa e meditemos seriamente: por que “Feliz Páscoa”? Que sentido tem a Páscoa para nós?
Um irmão ou uma irmã de uma Religião Cristã nos dirá: “Comemoramos gratamente a Páscoa, em homenagem Àquele que se sacrificou por nós; que demonstrou a vitória sobre a morte, ao ressurgir do túmulo, três dias depois da crucifixão, conforme prometera; que, finalmente, ascendeu aos céus, quarenta dias após. Está à direita de Deus-Pai, intercedendo por nós”.
Insatisfeitos, perguntamo-nos: que significa isto para nós?
A Filosofia Rosacruz nos ensina que a Iniciação é um processo cósmico de iluminação e evolução do poder; portanto, as experiências de todos são semelhantes nas principais características. Também nos ensina que há a Iniciação Cristã Mística, onde o candidato geralmente está inconsciente do fato de que está tentando atingir algum objetivo definido, pelo menos durante os primeiros estágios de seus esforços, e há nessa nobre Escola de Iniciação tão somente um Mestre, o Cristo, que está sempre diante da visão espiritual do candidato como o Ideal e a Meta de todo o seu empenho. A meta alcançada por meio da Iniciação Cristã Mística é a mesma, porém o método é inteiramente diferente da Iniciação Cristã Ocultista. Na primeira se aprende que é infinitamente melhor ser capaz de sentir emoções nobres, do que ter o intelecto tão aguçado e hábil para definir todas as emoções.
Há nove degraus definidos na Iniciação Cristã Mística, começando com o Batismo, que é introdutório.
1. Batismo;
2. Tentação;
3. Transfiguração;
4. Última Ceia e Lavapés;
5. Getsemani ou Jardim da Agonia;
6. Estigmata;
7. Crucifixão;
8. Ressurreição; e
9. Ascensão.
Para a Iniciação Cristã Mística da Transfiguração até à Ascensão é conhecida como Mistérios Pascoais.
Em todos esses Mistérios (Iniciações) temos que seguir o Caminho da Santidade, que o Cristo percorre anualmente, durante Seu ministério em favor desse mundo e sua Humanidade. Note em sua volta que a Natureza – que, em sua totalidade, constitui o Corpo dessa Terra – se altera harmonicamente com a subida e a descida de Cristo, e o Caminho do Progresso Espiritual ou Iniciação para o ser humano, segue o mesmo processo. Por isso, quando aprendemos a nos pôr em uma mais estreita e íntima relação com Cristo, nos encontramos, consequentemente, mais harmonizados com o Espírito interno das mudanças de estação, e melhor realizamos o trabalho particular em cada uma das quatros estações do ano.
Temos uma correlação positiva e fortíssima entre a Iniciação Cristã Mística e a Iniciação Cristã Ocultista. Vamos resumi-la aqui:
Duas etapas se distinguem nessa luminosa ascese:
a) a primeira vai da 1ª à 5ª Iniciação Menor. Corresponde à conscientização de toda a evolução humana, desde o Período de Saturno até meados da Época Atlante ou metade do atual Período Terrestre. É a tomada de consciência do que acumulamos na Memória Supraconsciente, contida no Átomo-semente, da primeira metade deste Grande Dia de Manifestação. No fim desta etapa o candidato atinge o grau de primogênito.
b) a segunda vai da 6ª à 9ª Iniciação Menor (a última). Este período corresponde ao desabrochar da consciência do Iniciado, para o trabalho a ser desenvolvido na metade Mercurial (segunda metade) deste Período Terrestre.
A penetração da consciência do Iniciado na obra evolutiva referente aos Períodos de Júpiter, Vênus e Vulcano, dizem respeito às 1ª, 2ª e 3ª Iniciações Maiores. Na 4ª Iniciação Maior, o Iluminado candidato atinge a condição de Libertador, optando entre permanecer ajudando seus irmãos na Terra ou partir para uma evolução mais alta, em Júpiter. A Páscoa trata da segunda etapa. É o processo de libertação do Período Terrestre. É a superação de todo o trabalho deste Período. É o cortar do cordão umbilical que nos condiciona ao Planeta, quando nos conscientizamos de todas as suas leis ou mistérios.
Começa a Páscoa quando o candidato, no plano mental abstrato, na 5ª Iniciação, deve transcender sua Personalidade. S. Paulo, o Apóstolo que conheceu essa experiência, que dura mais ou menos tempo, conforme o Candidato. Ele se refere a si próprio quando diz “conhecer um homem que foi arrebatado ao 3º céu e lá viu e ouviu coisas que não lhe é lícito contar” (IICor 12:1-6). Estava no plano mental abstrato ou Região Abstrata do Mundo do Pensamento, onde a universalidade do Espírito se limita a uma consciência egóica.
S. Paulo sentiu agudamente o Horto da Agonia, nos embates entre a Personalidade e o Divino interno, a Individualidade. Mas venceu a prova, pois afinal exclama triunfante: “Não mais eu quem vivo, mas o Cristo vive em mim!” (Gl 2:20).
O próximo passo – a 6ª Iniciação Menor – foi vivenciada, por exemplo, por S. Francisco de Assis, que apresentou os sinais interiores das estigmatas (dos ferimentos), naqueles pontos físicos em que o Espírito fica preso ou crucificado à cruz do Corpo Denso.
Na 7ª Iniciação Menor, o Candidato experimenta o morrer para o sentido humano. Esse processo dura certo período, simbolizado pelos três dias no túmulo. São três etapas em que dissolvemos os traços humanos dos corpos físico, emocional e mental. Então elevamos o grau vibratório de nossa tripla instrumentação e podemos ressurgir para mais alto estado. Não que a gente suba aos céus. Isto é um sentido simbólico. Não subimos para nenhum lugar, senão que experimentamos uma expansão de consciência e alcançamos mais profundamente os mistérios de nosso ser e de nosso Planeta.
Vem a Ressurreição – a 8ª Iniciação – na qual o Candidato adquire a capacidade de sutilização do Corpo, a faculdade plena de materializar-se e desmaterializar-se, mediante o domínio da vontade e poder excepcional de concentração. Eis a explicação do Mestre haver passado através das paredes e entrado na habitação fechada onde se achavam reunidos dez Apóstolos (S. Tomé estava ausente); e depois aos onze (S. Tomé junto). Mas ainda remanescem os sinais da estigmata – os últimos vestígios de influência terrena, que devem ser definitivamente dissolvidos, nos simbólicos quarenta dias (período indeterminado de tempo).
Aí vem a última etapa ou 9ª Iniciação Menor, em que estava João Batista: a Ascensão. Seu mesmo Espírito havia animado, em anterior renascimento, a expressiva figura de Elias – o profeta – que subiu aos céus num carro de fogo (IIRs 2:11) (Ascensão). João Batista, estava a ponto de passar à primeira Iniciação Maior, como Adepto. Por isso foi dito dele, por Cristo: “Dos nascidos de mulher, João Batista é o maior” (Mt 11:11) – isto é, dos que ainda têm de nascer do ventre materno, porque ligado às leis da Terra, João Batista era o mais alto Iniciado. Quando o Iniciado passa à primeira Iniciação Maior, adquire o mistério da Alquimia Espiritual. Ele domina todas as leis da matéria, e pode reunir elementos restantes da assimilação dos alimentos e conservá-los, para ir formando outro corpo, além do que ocupa. Quando ele termina sua missão num certo país e deve começar outra num país diferente, deixa o Corpo Denso antigo e toma o novo, para surgir como uma nova pessoa. Então se diz que “fulano morreu”. Esses elevados Iniciados trabalham no mundo, em missão de equilíbrio, para assegurar os rumos do destino evolutivo humano, dentro de certos limites de respeito ao livre arbítrio.
Todos teremos de passar, a nosso modo, por esses estágios.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – abril/1976 – Fraternidade Rosacruz – SP)