Categoria Filosofia

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Comunicação e Comunicação: a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, o cinema ou as artes

Comunicação e Comunicação: a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, o cinema ou as artes

Na década da comunicação, quando as teorias de Marshall McLuhan são quase elevadas a axiomas, uma frase é citada com relativa frequência: “Em todos os conflitos humanos há uma falha de comunicação”. Tal assertiva pode parecer um tanto quanto radical ou constituir-se em uma generalização perigosa; porém “onde há fumaça, há fogo”. A não-fixação em extremos exige uma análise da afirmativa em seus múltiplos aspectos. Na atualidade, a vida e seus componentes formam um emaranhado tão complexo ao ponto de demandarem análises e ponderações sob todos os ângulos imagináveis. É a única maneira de situar-se e definir um problema sem que se incorra em erros ou injustiças.

Considerando detidamente o tema em pauta, admitimos encontrar a falha originadora dos conflitos radicada mais no que se deseja comunicar do que propriamente nos meios de comunicação. É como dizem: com tijolos tanto podemos erigir um templo como um cabaré. Os tijolos em si mesmos não poderiam ser incriminados por formarem um recinto de degradação e vícios nem se revestiriam de quaisquer méritos por serem utilizados na construção de uma casa de louvor a Deus.

De maneira análoga, a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, o cinema ou as artes, como veículos de comunicação e expressão, tanto podem elevar como degradar. São malévolos? Sim, se os empregamos com tal finalidade. Se utilizados construtivamente, ajudarão a edificar uma sociedade cada vez melhor.

Alguém poderia indagar: por que os veículos de comunicação, como por exemplo os jornais, a televisão e o cinema, não se prestam a finalidades mais elogiáveis? A resposta é simples: são movidos quase exclusivamente por fatores utilitaristas que visam a fins lucrativos. Exploram as mazelas e debilidades humanas, envolvendo o povo em uma série de artifícios. Muitos jornais são promovidos e vendidos às custas de manchetes sensacionalistas, veiculando notícias às vezes inverídicas. Afinal, uma tiragem considerável constitui um chamariz da publicidade.

A televisão, em matéria de comunicabilidade, desponta como força extraordinária pela sua capacidade de penetração. No entanto, ela tem sido malbaratada através de programas antiestéticos, antiéticos e pouco educativos. Há exceções, é bom que se frise. Poucas são as emissoras preocupadas em difundir cultura.

“É preciso ir ao encontro do gosto popular”, afirmam alguns diretores de TV, pois “caso contrário não haverá audiência”. “Programa que não dá IBOPE” não tem patrocinador de renome; isso é, não fornece lucro. Então, o negócio é despejar “chanchadas” ou “vales de lágrimas” em cima do telespectador, deixando-o mal habituado, condicionando-o ao que, efetivamente, seja ruim.

Esporadicamente, algum programa aborda temas espiritualistas. Uma parcela mínima — quando muito, 20% — da programação de TV é benfazeja. O que existe realmente é um desserviço à coletividade!

Se o povo tem mau gosto, eis aí outro motivo para nossos indivíduos de televisão modificarem essa condição, procurando levar às massas uma mensagem de arte no sentido mais amplo e espiritual da palavra. Tudo é questão de hábito! Um programa educativo, estruturado em linhas modernas, versátil, sugestivo, abordando de forma criteriosa temas da atualidade, depois de certo tempo acabará produzindo IBOBE. Basta o público sentir-se motivado para se habituar a assistir a ele. Isso não será difícil, pois todos temos um Corpo Vital, o veículo criador de hábitos. E não faltarão os bons patrocinadores: são os que vêm por acréscimo.

Quanto ao cinema, o panorama não é mais alentador. De modo geral, sua temática tem servido mais para acelerar o processo de formação de neuroses, fobias e quejandos. Em matéria de crescimento anímico, pouco se aproveita. E, não podendo ser de outra forma, há muitos apelos ao sexo e à violência.

O poder da imagem e do som é fantástico. Sua capacidade de penetração no subconsciente é incontestável. Aí reside o grande perigo, quando empregado de maneira distorcida.

Muitos podem pretender objetar nossas considerações sob a alegação de estarmos vivendo numa era onde o realismo e o surrealismo são evidenciados em todos os ramos artísticos. Defendem a tese segundo a qual os problemas humanos devem ser encarados e apresentados como realmente são. Admitimos verdadeiramente o anacronismo da fantasia e do romantismo piegas; mas a exibição de películas cinematográficas em que a apologia ao crime e ao erotismo chega às raias do absurdo não merece o nosso apoio. Mesmo a apresentação de problemas humanos dentro de um realismo chocante só é válida quando se propõe no final a entregar uma solução dignificante e harmonizadora. Concordamos com a exposição do conflito, contanto que se tenha o bom senso de sugerir medidas saneadoras. Do contrário, os problemas só tenderão a se agravar. Vivemos na época da música, da literatura, do teatro e do cinema de protesto. Contestar é um direito de todo humano; no entanto, é necessário definir o que contestamos, porque fazemos e qual é a solução proposta.

A Filosofia Rosacruz harmoniza uma explicação lógica e racional sobre todos os problemas que afligem os seres humanos. Mediante a Astrologia revela o arcabouço anímico do ser humano, suas virtudes, falhas e conflitos. E não para por aí! Procura estimular, em cada estudante, uma reforma de caráter, promovendo a erradicação de conflitos por meio da compreensão das Leis Cósmicas. Oferece por intermédio de seus ensinamentos a oportunidade de cada um perscrutar-se interiormente, ensejando descobrir a origem de seus sofrimentos. Contudo, ressalta taxativamente a necessidade de um esforço próprio no sentido de eliminar as causas, criando assim um destino melhor. A Escola Filosófica fundada por Max Heindel não se vale da ciência da comunicação para alardear sua força ou oferecer aquisição de poderes a curto prazo. Não procura sensacionalismo. Não dá “iniciações” mediante o pagamento de uma taxa qualquer. Mantém uma linha de conduta tão séria e honesta ao ponto de afirmar e configurar o processo Iniciático como uma experiência interna, só atingível após um empenho perseverante e sincero em servir desinteressadamente ao próximo coadjuvado por uma reformulação interior. Vemos então como a Filosofia Rosacruz é realista, porque edifica um novo ser humano, ao invés de destruí-lo. Isto é realismo. É utilizar legitimamente os meios de comunicação, empregando-os no aprimoramento dos valores morais!

(Pulicado na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1970)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Epigênese: aprendamos a utilizar para alavancar nosso desenvolvimento espiritual

Epigênese: aprendamos a utilizar para alavancar nosso desenvolvimento espiritual

O próprio Ego que renasce incorpora em si a quintessência de seus primitivos Corpos Vitais; além disso, faz um pequeno trabalho original. Isso acontece para que na vida futura possa haver lugar para a expressão individual original, expressão que não esteja determinada por ações passadas.

Existe uma grande tendência para se pensar que tudo o que existe agora é o resultado de algo que existiu previamente; mas, se esse fosse o caso, não haveria margem para esforços novos e originais que exigem novas causas. A cadeia de causas e efeitos não é uma repetição monótona. Há um influxo contínuo de causas novas, originais. Essa é a base real da evolução, a única coisa que lhe dá significado e que a converte em algo mais do que um simples desdobramento ou desenvolvimento de qualidades latentes. Isto é EPIGÊNESE, o livre-arbítrio que supõe a eleição entre dois cursos de ação. Esse é o fator importante que sozinho pode explicar de maneira satisfatória o sistema ao qual pertencemos.

A forma foi construída pela Evolução; o Espírito a construiu e entrou nela pela Involução; porém o meio para inventar os melhoramentos é a Epigênese.

O pai e mãe dão a substância de seus corpos para construir o corpo do filho; no entanto, especialmente nas pessoas que renascem no ocidente do Planeta Terra, a Epigênese faz possível que se agregue algo, o que torna o filho diferente dos seus pais.

Quando a Epigênese não atua ou torna-se inativa no indivíduo, na família, na nação ou na raça, a evolução cessa e começa a degeneração.

Durante toda a vida a qualidade que os Rosacruzes chamam de Epigênese está em atividade; essa qualidade é o poder de pôr em ação um número limitado de causas novas que não são determinadas nem impostas a nós por atos do passado. Se estivéssemos totalmente sujeitos ao passado e incapazes de gerar novas causas, seria impossível desenvolver um poder criador e original, nem haveria livre-arbítrio. Vem aqui nos ajudar a faculdade espiritual da Epigênese, portanto; capacitando-nos, se for essa a nossa vontade, a abrir caminho para esferas ainda maiores de poder e atividade proveitosa.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de julho/1970)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Elogio Versus A Condenação

O Elogio Versus A Condenação

 

A Fraternidade Rosacruz enfatiza o serviço prestado a todos os seres vivos a nossa volta e, nesse contexto, muitas vezes esta pergunta é feita: “Como posso servir meus semelhantes? Parece que não tenho oportunidade”. Assim, será bom ressaltar que o serviço não significa apenas uma ação grande ou espetacular como, por exemplo, salvar a vida das pessoas que estejam dentro de uma carruagem cujos cavalos estejam em fuga, ou adentrar um prédio em chamas para resgatar aqueles que, de outra forma, queimariam até a morte. Tais oportunidades não chegam para todos, ou todos os dias; mas todos nós, sem exceção, temos a oportunidade de servir e, não importando qual seja o ambiente ou a linha de serviço que indiquemos neste artigo, é de valor ainda maior do que um ato único onde salvamos alguém da morte que, mais cedo ou tarde, será a parte que nos cabe a todos, porque certamente vale mais ajudar as pessoas a viver bem do que apenas a escapar da morte.

É fato deplorável que a maioria de nós seja egoísta até certo ponto. Buscamos o melhor que há na vida e fazemos isso desconsiderando quase totalmente nossos próximos. Uma das maneiras pelas quais esse egoísmo se expressa com mais frequência é a manutenção de atitudes de autossatisfação. Somos propensos a comparar nossos esforços, pertences ou faculdades aos dos outros e, onde for manifesto que eles tenham mais do que nós, que sejam mais realizados ou algo do tipo, haverá sentimentos de ciúme e inveja que nos levarão a minimizar o sucesso ou realizações deles sob a ilusão de que, por essa comparação, subiremos ao nível deles ou acima. Se, por outro lado, for manifesto que não possuam tanto quanto nós; se parecer que a posição social deles esteja abaixo da nossa e, assim, que pareça fácil estabelecer sua inferioridade, poderemos adotar uma atitude arrogante, falar sobre eles de modo paternalista ou condescendente, julgando que tal comparação nos eleve muito acima da nossa posição atual.

Se ouvimos alguém falar mal de outra pessoa, estamos sempre prontos e propensos a acreditar no pior porque, em comparação, parecemos bem melhores, muito mais sagrados ou, pelo menos por enquanto, exaltados acima do culpado. E onde o mérito é tão másculo que o elogio não possa ser retido, geralmente somos rancorosos, pois sentimos como se o louvor dado a eles se afastasse de nós ou, talvez, exaltasse-os sobre nós.

Tal é a postura geral do mundo. Por mais deplorável ou lamentável que seja esse fato, é uma evidência entre a maioria da humanidade — todos parecem preocupados em manter todos os outros atrás. Essa é uma das coisas mais desumanas que os seres humanos praticam contra si mesmos, gerando incontáveis lamentações que, em contrapartida, produzem outras incontáveis lamentações.

Que serviço maior pode alguém oferecer aos outros, senão auxiliá-los com uma atitude sistemática de encorajamento e elogio? Não há coisa mais verdadeira que este sentimento interior: “Há muito de bom no pior de nós e muito de ruim no melhor que, dificilmente, cabe-nos encontrar falhas nos outros”. Em casa, na loja, no escritório; em todos os lugares encontramos, dia após dia, pessoas diferentes e todas elas suscetíveis ao desejo de encorajamento.

O que o Sol é para a flor, uma palavra encorajadora é para todos, no mundo. Se alguém triunfou e proferimos uma palavra de elogio, ela o ajudará a melhorar ainda mais na próxima vez. Se alguém fez algo errado ou falhou, uma palavra de simpatia ou confiança em relação a suas capacidades de vitória ou recuperação o encorajará a tentar novamente e — vencer. Da mesma maneira que, certamente, a atitude de desânimo murchará e destruirá a vida que pudesse ter sido salva por uma palavra alegre. Quando alguém chegar com uma estória ruim sobre outra pessoa, sejamos muito lentos para acreditar e mais ainda para contar a um terceiro. Esforcemo-nos por todos os meios de persuasão para impedir que o que chegou até nós seja repetido para os outros. Nada de bom pode resultar para nós ou às outras pessoas, se ouvirmos e acreditarmos nessas estórias.

Esse tipo de serviço pode parecer bem fácil à primeira vista; entretanto, devemos ter em mente que, muitas vezes, seja necessário bastante autonegação para continuar o trabalho, porque estamos tão imbuídos de egoísmo que seja quase impossível para a maioria de nós afastar continuamente esse eu de maneira completa para nos colocar na posição dos outros e dar o encorajamento e os elogios pelos quais tanto nos dedicamos.

Contudo, se persistirmos nessa atitude e a cumprirmos consistentemente, com todos em nosso ambiente, sempre insistindo em dizer uma palavra de encorajamento quando encontrarmos oportunidade, descobriremos que as pessoas venham até nós não apenas com suas tristezas, mas também com alegrias e, assim, poderemos ganhar alguma recompensa. Sentiremos então que tivemos uma grande participação em suas realizações e em todos os seus sucessos haverá alegria e sucesso que legitimamente pertençam a nós mesmos, um triunfo além do que alguém possa tirar de nós, algo que irá conosco para além do túmulo como um tesouro no Céu.

Não nos esqueçamos de que todo pequeno ato seja gravado no Átomo-semente, em nossos corações; que o sentimento e a emoção que acompanham esse ato reagirão em nós na existência post-mortem; e que toda alegria, prazer ou amor que derramarmos sobre outras pessoas reagirá sobre nós no Primeiro Céu, o que nos dará uma experiência sublime, inculcando em nós a maravilhosa habilidade de oferecer cada vez mais alegria aos outros e prestar um serviço cada vez maior.

Lembremos também que essa seja a única grandeza verdadeira, a única pela qual vale a pena trabalhar — a que nos ajuda a prestar o serviço. Acima de tudo, mais do que incentivar outras pessoas em seu trabalho, lembremo-nos da parte do serviço que foi descrita e trata de descontinuar as estórias. Quando alguém vem até nós com isso, não importa o que possamos pensar nem qual seja sua justificativa, a repetição não tem qualquer valor. Ela faz mal. À medida que a bola de neve que desce a montanha acumula material, cresce cada vez mais; assim também, o conto que é levado de uma boca a outra se torna exagerado, causando muita tristeza e sofrimento pelas línguas de fofoca.

Portanto, não podemos oferecer maior serviço às partes envolvidas ou à comunidade do que tentar fazer com que aqueles que carregam estórias de maldade acabem com esse hábito. Lares foram destruídos, comunidades foram arrasadas, seres humanos foram para a forca inúmeras vezes ou à servidão em alguma instituição, o que é muito pior, por causa de estórias ociosas. Dessa forma, podemos fornecer um serviço muito bom tanto nos recusando a ouvir fofocas quanto incentivando quem falhou ou elogiando aqueles que tiveram sucesso. Todos os dias oportunidades batem à nossa porta, independentemente de onde estejamos ou qual seja a nossa posição na vida.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross, julho de 1915 – Traduzido pela Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Um decálogo para as relações humanas — Baseado nos ensinamentos de Cristo

Um decálogo para as relações humanas — Baseado nos ensinamentos de Cristo

Para que tenha valor ao indivíduo, a Religião deve produzir-lhe reforma interna. Conhecer a Religião praticada convencionalmente, de modo superficial, não nos traz proveito algum.

Contudo, para apreciar devidamente uma Religião, precisamos conhecê-la. Para conhecê-la precisamos estudá-la de modo conveniente. A Filosofia Rosacruz nos ajuda muito a conhecer o Cristianismo. Não poucos, com sua ajuda, retornaram à Bíblia, vendo-a sob nova luz.

Estivemos meditando sobre os princípios do Mestre, alusivos às relações humanas. Lemos várias vezes o Novo Testamento, anotando as citações que nos pareceram encerrar maior significância para o tema. Confirmamos, então, que o Novo Testamento seja o mais atualizado e profundo manual de relações humanas que existe no mundo!

Naturalmente, para esmiuçar as citações, buscando todos os seus alcances práticos, precisaríamos escrever um volumoso livro. Poucos se dispõem a ler obras volumosas e sérias. Buscamos, por isso, sintetizar nossas conclusões neste pequeno trabalho. Este decálogo deveria ser meditado e praticado por todos, pois abrange todas as esferas sociais. Desse modo, Cristo presidiria aos nossos diálogos, assegurando-nos êxito em todos as conversas!

1 — HARMONIZA-TE SEM DEMORA COM O TEU ADVERSÁRIO

Disse alguém: “Vive cada dia como se fosse o último de tua vida”. O que faríamos, se soubéssemos ter apenas um dia de vida ou, digamos, alguns dias? Como espiritualistas convictos da ação da Lei de Consequência e Renascimento, trataríamos, sem demora, de acertar todas as nossas pendências, desligando-nos de todos os compromissos terrenos! Não é lógico?

Enquanto mole, podemos corrigir um desnível no cimento. Mas depois que endurece não é possível, senão quebrando-o. Todas as coisas são mais facilmente acertadas no início, enquanto as razões estão frescas. Depois, convertem-se em destino maduro e a dor é inevitável durante a correção.

Contudo, se, ao buscarmos conciliação e harmonia, apesar da delicadeza, do tato e do intento sincero, encontrarmos no desafeto uma disposição rancorosa e agressiva, que nos afastemos calmamente, sem revide. É o que os Evangelhos ensinam, ao recomendar que se deva tirar o pó das sandálias, retirando-se do lar onde não se foi acolhido. O importante é que cada um cumpra sua parte com seu Deus. E não nos detenhamos nas querelas. Imitemos os rios, que não se chocam com as montanhas, porém as contornam e seguem a diante.

2 — SE ALGUÉM TE OBRIGAR A ANDAR MIL PASSOS, VAI COM ELE DOIS MIL

“Não resistais ao mal”, ensinou também o Cristo e isso diz respeito ao nosso comportamento interno. Importa que não reajamos negativamente a qualquer atitude ou circunstância adversa. São Bernardo ensinou: “Ninguém pode ferir-me ou atingir-me, senão eu mesmo. Depende, pois, de mim, rebaixar-me ou irritar-me e, desse modo, deixar-me atingir pelo inimigo de minha personalidade”. Devemos empreender sincero esforço na conquista do domínio próprio. O descontrole emocional, mormente entre os latinos, tem sido a causa frequente de úlceras, diabetes, enfartes e tantas outras doenças. Existe alegria de viver ou felicidade, quando não temos saúde? E como podemos cumprir nossos deveres para com nosso Espírito, nossa família e o gênero humano, sem condições normais que nos ajudem? Também incluímos neste assunto todos os pequenos desafios que diariamente nos ameaçam corroer a paciência: as dificuldades no trabalho e no lar, as esperas nas filas de ônibus e os apertos dentro deles…

3 — TODA ÁRVORE QUE NÃO DÁ BOM FRUTO É CORTADA E LANÇADA NO FOGO

Não existe inércia nem inutilidade na natureza. O órgão não usado é atrofiado. Os desafios da vida são naturais e necessários para o desenvolvimento proporcional a cada indivíduo. Aquele que se adapta e age construtivamente, progride; o que para, retrocede. Aí está o verdadeiro conceito de mocidade e velhice: internamente, aquele que desanima e empaca morre para a vida, cuja finalidade é o desenvolvimento das faculdades internas que herdamos do nosso Criador. O cristão consciente é honesto e dá o melhor que pode em seu trabalho, no lar ou na sociedade porque sabe que, ao retardar seu dever, ao negligenciar suas tarefas, descuida de si mesmo, recebendo dos outros exatamente na medida em que oferece. Isso se aplica aos indivíduos, às empresas e agrupamentos sociais. Quanto mais produzem, construtiva e legitimamente, tanto mais crescem — em todos os sentidos! É preciso vencer as tentações dos maus exemplos e das insinuações aparentemente justas. Um erro não justifica outro! Que cada um de nós cumpra o seu dever.

4 — NÃO É O QUE ENTRA PELA BOCA QUE CONTAMINA O SER HUMANO, MAS O QUE DELA SAI

“Falar é prata, calar é ouro” — diz o provérbio. Depois que falamos algo inconveniente, tornar-se difícil e embaraçoso ao nosso orgulho que nos retratemos. Uma mentira conduz a outras, acabando por subestimar as pessoas mentirosas. As palavras violentas e irritadas têm prejudicado ótimas situações e arruinado negócios. Estamos educando ou aconselhando? Se queremos ajudar e demonstrar amor, falemos com amor. Argumentamos com alguém? Então que mantenhamos o equilíbrio, a lógica e a humildade, porque o objetivo é a verdade e não ganhar ou perder a discussão.

O uso da palavra é um assunto bem importante. É o próprio uso do Verbo! Tão importante que Tiago lhe dedicou primoroso capítulo, o terceiro de sua carta, sobre o qual Max Heindel nos exorta a meditar de vez em sempre. Observa Heindel: “A tendência de falar mal dos outros ou admoestar as coisas más é magia negra, porque construímos no Mundo do Desejo uma forma negativa e a lançamos na pessoa ou coisa. Uma abelha, quando pica, deixa o ferrão e morre. Que seria das línguas das pessoas, se lhes sucedesse o mesmo?”.

Todo Cristão-esoterista conhece a Lei de Atração dos semelhantes: se nutrimos ódio por alguém, suscitamos a reação odiosa dessa pessoa; se o amamos, suscitamos-lhe amor; se, ao irmos ao encontro de alguém para resolver uma pendência, um assunto qualquer, pensamos negativamente, construímos com isso as condições negativas em nós e na outra pessoa; no entanto, se vamos de forma confiante e corajosa, parte do problema já foi resolvido.

5 — E QUEM QUISER SER O PRIMEIRO ENTRE VÓS, SEJA ESSE O SERVO DE TODOS

Eis o ideal de liderança, o verdadeiro sentido de liderança baseado no serviço amoroso do líder, em sua relação com os companheiros: exemplificar. Envolve não apenas um sentido de poder, mas também um de dever. Em vez de submeter e mandar, une-se aos outros e os soergue com seu entusiasmo, convicção e trabalho. No lar, no trabalho ou na Fraternidade, os dirigentes criam seres humanos, ajudam-nos a vencer, multiplicam-se por meio deles e logram seguramente os objetivos para o benefício comum, porque lhes conquistam a lealdade, lhes galvanizam o entusiasmo e criam um espírito de trabalho em conjunto e de harmonia contagiante.

O serviço amoroso e altruísta é a tônica da Fraternidade Rosacruz; vale dizer, a medula da doutrina Cristã. Nele reside o êxito de todas as atividades.

6 — APASCENTAI AS MINHAS OVELHAS

O respeito do ser humano pelo ser humano, como semelhante centelha espiritual, deixa muito a desejar. Nunca o mundo precisou tanto de amor como nos atuais tempos de materialismo, algo tão perigoso ao nosso natural desenvolvimento interno. Por isso, o mais deplorável na hora presente é o desânimo dos “homens de boa vontade”. Psicólogos e educadores estudam as causas dos problemas sociais, mas não poderão perscrutar profundamente o problema, enquanto não considerarem o ser humano em sua integralidade, como humano e espiritual. A menos que sejamos alimentados em todos os aspectos, haverá fome de algum lado, deficiências, enfermidades jamais sonhadas pelos materialistas, porque a função cria o órgão e a negligência de certos aspectos, justamente os mais complexos e elevados da natureza humana, trará consequências desastrosas!

A técnica moderna, em vez de servir ao ser humano, veio escravizá-lo em benefício de alguns. As máquinas avassalaram os operários, reduzindo-os a peças cujos movimentos são estudados para cada vez mais produzir. A vida egoísta e intensa das grandes cidades nos ilham em um círculo vicioso e pouco edificante. É uma indústria de neuróticos. Os hospitais de doenças nervosas se multiplicam.

Contam as estatísticas que, dentre as pessoas com cursos superiores, os que mais se suicidam são os médicos e, dentre eles, os psiquiatras! Na América do Norte, é alarmante o número das pessoas que morrem de enfarte nervoso, antes dos 50 anos. Na Europa, justamente nos países mais adiantados (Suíça, Suécia, Dinamarca), ocorrem os maiores índices de suicídio. Por quê? Se o objetivo do ser humano fosse meramente material, se ele fosse apenas um conjunto orgânico que se desfaz com a morte, por que essa angústia? A resposta é simples: estão esquecendo o ser humano real! As criaturas andam famintas de amor, apreciação, estímulo, criatividade, motivação. O ser humano precisa ser compreendido em sua inteireza. De novo surge, do fundo das idades, a Esfinge gigantesca e repete o desafio: ou me decifras ou te devoro! De novo o Cristo dentro de nós inquire a nossa consciência: tu Me amas? Então, apascenta as minhas ovelhas!

O Cristianismo Esotérico possui uma tremenda responsabilidade, um grande dever de divulgar, por todos os meios ao seu alcance, os aspectos integrais do ser humano e o modo de torná-lo realmente feliz e realizado, mas não segundo o ponto de vista material, imediatista; porém, conforme uma perspectiva ampla que atente não só ao presente, mas também ao futuro.

“Não só de pão vive o homem.” O dia em que se ensejar a cada ser humano os meios e motivações de crescimento interior, ver-se-á que eles hão de florescer a dimensões jamais sonhadas, em todos os aspectos.

7 — MAS, SE NÃO PERDOARDES AOS SERES HUMANOS, TAMPOUCO VOSSO PAI PERDOARÁ AS VOSSAS OFENSAS

O único antídoto eficaz para a enfermidade do ressentimento, do ódio e da amargura é o perdão. Mas o perdão terapêutico! Todos nós conhecemos, por experiência própria, o perdão superficial, de boca: “Eu o perdoei, mas ele acabou para mim!”. Isso não é perdão! O ressentimento persiste como um elo paradoxal: dizemos que não mais desejamos qualquer laço com o desafeto e, todavia, mantemo-nos algemados, relembrando sempre o seu erro. Dizemos que a pessoa acabou para nós e, no entanto, permanecemos igual a um carcereiro, prendendo-a ao nosso ressentimento.

A imagem não é exagerada. É real, para quem conhece as atividades do nosso Corpo de Desejos e sua relação com o Mundo do Desejo. O purgatório existe para desfazer os laços desamorosos que não foram desfeitos pela compreensão e perdão. O perdão terapêutico consiste em realmente perdoarmos o desafeto, dizendo convictamente para nós mesmos: “Eu o liberto do meu ressentimento por amor, na certeza de que tudo coopera com o bem”.

Os ressentimentos dividem os esforços coletivos cujos objetivos deveriam permanecer acima dos indivíduos. E a casa dividida não pode subsistir.

A resposta do Cristo para Pedro é bem significativa em relação à disposição que deveríamos costumeiramente adotar: “Devemos perdoar até setenta vezes sete”.

8 — TODA CASA DIVIDIDA CONTRA SI MESMA NÃO SUBSISTIRÁ

Quando Max Heindel fundou a Fraternidade Rosacruz, o Irmão Maior que o orientava recomendou-lhe que dispensasse, o quanto lhe fosse possível, a burocratização dos trabalhos, a criação de cargos etc. Max Heindel não conseguiu. A humanidade ainda não está preparada para essa elevada forma de trabalho em conjunto, onde cada um, independentemente de funções bem definidas, procura fazer o máximo, sem pensar em cargo ou natureza de trabalho. E as mesmas falhas humanas que ainda nos impedem de realizar essa colaboração espontânea e construtiva são as que motivam as dissenções.

O único líder é a IDEIA; e o único IDEAL É O CRISTO!

Se todos trabalhássemos para difundir, com o máximo das forças e faculdades, os maravilhosos ensinamentos da Filosofia Rosacruz, sem pensar em distinções, cargos ou elogios, que são ainda as propagandas de nossa personalidade, o Cristo seria mais bem alimentado! Não só dentro de nós, pelo serviço, como igualmente pelo soerguimento de nossos semelhantes.

As condições atuais exigem regulamentos, estatutos, cargos…, mas devemos aprender a transcender a época ou então ainda não estaremos capacitados para ensinar os ideais de uma nova época!

Não consideremos os aspectos externos das Sedes: a Fraternidade não é suas paredes ou móveis. Não critiquemos os oradores; eles estão fazendo o que podem para colaborar, mas têm suas falhas. Em vez de criticar, trabalhemos harmoniosa e conjuntamente pelo objetivo comum. Cada um de nós é algo muito valioso para a Fraternidade. Todas as trevas do mundo são incapazes de encobrir a luz de uma pequenina vela! E as velas reunidas iluminam o mundo.

Independentemente de tudo, façamos a nossa parte. Sobretudo, façamos parte ativa do Todo que é a Fraternidade. Ofereçamos nossos préstimos sem pretensão alguma.

A qualidade e a persistência de nossa colaboração, unidas pela compreensão, tolerância e adaptabilidade, darão credenciais de SERVOS DO SENHOR.

9 — ESTENDE A TUA MÃO!

Quando Cristo curou a mão atrofiada do homem que estava na sinagoga, ordenou: “Estende a tua mão!”. E o ideal de Cristo para a cura de todos os nossos males, para estabelecimento da real felicidade humana, continua a exigir de nós: “Estende a tua mão!”.

Além dos limites da nossa personalidade, estendamos a mão direita, símbolo universal de amizade, na direção do nosso próximo.

Como os braços metálicos que se entrelaçam e formam a tela de arame, homens e mulheres, brancos e negros, acima de credo, nacionalidade ou cor; acima de todos os convencionalismos, devem sair de si mesmos e se irmanar em uma autêntica família universal!

Cumprimente sentindo o que diz: “Bom dia!”, “Boa tarde!”, porque se a sua mão, em minha mão, não transmite amizade ou amor, também não transmite o Cristo, o único Ego para uma real Fraternidade.

Se isso se consumasse agora, todas as guerras, doenças e misérias acabariam!

10 — ASSIM, “TUDO O QUE QUISERDES QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-O ASSIM TAMBÉM VÓS A ELES. PORQUE ESSA É A LEI E OS PROFETAS”

Deixamos propositalmente a Regra Áurea para o fim. Ela enfeixa e encerra tudo o que existe sobre as relações humanas. Nem seria preciso tecer comentários sobre ela. Tanto tem sido falado e escrito a seu respeito que pareceria ocioso acrescentar algo. Apenas lembraríamos sua estreita ligação com a Lei de Consequência e a Lei de Atração do semelhante. Sua aplicação é pessoal, nacional e internacional. Quer pô-la em prática amanhã mesmo? Então faça uma lista das coisas que gostaria que as pessoas lhe fizessem e, assim, faça-as para as outras pessoas. Mas não faça como o menino imediatista que plantou as sementes e todos os dias as desterrava para verificar se estavam crescendo. Plante e espere. Mas plante com amor. O amor, a água pura e o Sol morno dão vigor à planta humana e a faz produzir mais de cem frutos por um. Lembremos: nossa personalidade é apenas vara, um galho da videira do Cristo interior. E quanto mais Lhe fizermos a Vontade, tanto mais fluiremos pelos canais de Sua inteligência, Seu afeto e Sua vitalidade: os frutos de Deus para a criação de um mundo melhor!

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz – junho/1970)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Que as suas ideias não existam apenas como ideias, mas como prática executada

Que as suas ideias não existam apenas como ideias, mas como prática executada

O melhor método para desenvolver uma faculdade é usá-la. Assim, se alguém fala continuamente uma língua estrangeira, a proficiência e o conhecimento dessa língua são os resultados obtidos. No entanto, por mais que se deseje aprender, o idioma é algo inútil sem um trabalho autêntico. O mesmo ocorre com os ideais. Eles são esplêndidos e edificantes, quando estão no mundo mental; no entanto, sua real utilidade é mostrada quando são cristalizados em ação definida no dia-a-dia do mundo material.

Tudo o que é material existiu primeiro no campo das ideias, dos pensamentos e foi reduzido à sua atual condição concreta por meio de ação definida e sequencial. O sonhador é um ser humano de ideias e ideais. Seu trabalho está no mundo mental; mas não desce mais baixo, para o mundo material.

Suas ideias existem apenas como ideias — são pensamentos sem a forma concreta e, do ponto de vista prático, inúteis. O ser humano prático vai um passo além, transformando seus conceitos em sólidos objetos materiais e seus ideais, em métodos palpáveis ou esquemas de trabalho.

Contudo, quando um pensamento é, assim, materializado, perde um elemento de sua beleza. É mais agradável pensar em muitas coisas do que realmente tê-las. Dessa forma, se alguém lesse sua autobiografia na forma em que são escritos os romances mais populares, consideraria extremamente agradável e gratificante. Porém saberia que interpretar sua vida dessa maneira fosse infinitamente mais encantador do que suas experiências reais e como foram vividas duramente.

O sonhador tem medo de materializar seus pensamentos, caso isso retire deles o charme, embora o ganho material seja grande. Ele não os prostituirá para obter ganhos materiais. O ser humano prático não possui esses escrúpulos, decidindo que o ganho material deva proceder de seus pensamentos. Portanto, ele exerce a faculdade de concluir suas ideias e, se for um auxiliar da humanidade, será mais eficiente que o sonhador, por causa da sua capacidade de trabalho e ajuda. Certamente, se um ser humano for material no sentido de ser totalmente influenciado por lucros e desejos egoístas, estará agindo de maneira censurável. É óbvio que o desenvolvimento correto do sonhador e do indivíduo material deva estar dentro das linhas ensinadas pela Filosofia Rosacruz; isto é, o progresso tanto da “cabeça quanto do coração”.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de julho de 1915 e traduzido pela Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O que, de fato, devemos almejar para nos desenvolver espiritualmente na Escola Fraternidade Rosacruz

O que, de fato, devemos almejar para nos desenvolver espiritualmente na Escola Fraternidade Rosacruz

Parece-nos que a ânsia de penetrar o desconhecido, inerente à natureza humana. Basta que algo se envolva em uma atmosfera de mistério para despertar a curiosidade do ser humano. Esse afã de descortinar novos campos, ou novas áreas dentro dos campos já existentes, tem motivado as mais notáveis pesquisas científicas e as mais profundas especulações filosóficas. Segundo um axioma ocultista, a vida constitui-se de um eterno “vir a ser”. “Vir a ser” subentende vir a conhecer, a conquistar, a descobrir. Seremos permanentemente impelidos a novas conquistas.

Sempre haverá algo para descobrir. A descoberta de uma coisa implica novas experiências. Estas formam a alma, que, por sua vez, alimenta o espírito, propiciando-lhe expansão de consciência.

Defendemos ardorosamente a tese de que os frutos de todas as pesquisas e especulações — isto é, as descobertas — devam ser revertidos em benefício do soerguimento espiritual da coletividade. Os estudantes rosacruzes têm por hábito analisar todos os fatos partindo de suas causas. Com a ciência materialista ou aqueles que ainda não entraram em contato com o esoterismo acontece o inverso. Por isso, não nos causa espanto o fato de muitas pesquisas científicas serem infrutíferas. Analogamente, isso ocorre no campo das especulações filosóficas e metafísicas.

Atualmente, notamos grande interesse por Ocultismo, Psicologia, Psicanálise, Parapsicologia etc. Jornais, internet e canais de televisão abordam constantemente tais assuntos e os estudos a respeito estão sendo intensificados. Contudo, eles focam quase exclusivamente os efeitos, os fenômenos, as consequências. As causas não são reveladas. “Estuda-se os milagres, mas não se sabe quais santos os fizeram”. É indubitavelmente um trabalho meritório por despertar a consciência popular para evidências transcendentais ao mundo material ou que ultrapassam a capacidade de percepção dos sentidos físicos; contudo, é preciso que se aprofunde nas origens! Nenhum estudo ou conhecimento é completo sem, pelo menos, uma análise paciente de suas causas primárias.

Hoje, notamos a imensa quantidade de obras ocultistas pululando em livrarias, bibliotecas e bancas de jornais. A promoção que recebem fundamenta-se justamente na curiosidade e ansiedade de abrir véus herméticos, qualidades próprias do ser humano. O povo, de modo geral, já se encontra tremendamente “massificado” e muito condicionado aos efeitos da propaganda. Disso brota o êxito de muitos lançamentos. Não lhes negamos o valor, quando têm. E, que se diga para o bem da verdade, alguns são excelentes, apresentando conteúdo edificante. No entanto, nem todos revelam pontos de capital importância, assuntos concernentes à aplicação justa e oportuna daquilo que tratam. Muito embora venham a expor conhecimentos ou conceitos interessantes e, algumas vezes, imprescindíveis aos estudiosos da ciência esotérica, omitem-se quando deveriam observar enfaticamente a necessidade de aplicar tais conhecimentos ao benefício de outrem.

É comum muita gente dedicar-se a essas pesquisas objetivando enricar-se de algum modo pelo emprego dos conhecimentos adquiridos; ou seja, visando a benefícios imediatistas, egoístas e descabidos como satisfazer a própria curiosidade, aumentar o cabedal de bens puramente intelectuais com o intuito de projeção social e cultural, o progresso material, o desenvolvimento de poderes psíquicos sem uma finalidade altruísta… É lícito e válido almejar a tudo isso; porém como um meio de ajudar e não um fim em si mesmo. Nada que façamos egoisticamente será duradouro ou subsistirá por muito tempo. Sem tais esclarecimentos, as pessoas menos avisadas tenderão naturalmente a aplicar em proveito próprio os conhecimentos hauridos, sem configurá-los como meios de servir à humanidade ou orientar uma reforma de caráter.

Além de assuntos relativos a obras ocultistas, hoje tão disseminadas, outros merecem uma análise mais acurada. Algumas obras do gênero em questão, expostas em livrarias, exibem bases eminentemente orientais, preconizando uma série de práticas (como, por exemplo, os exercícios respiratórios) inadequadas ou mesmo terrivelmente nocivas à constituição psicossomática ocidental. Muitos males originam-se do exercício indiscriminado e ignorante desses aprendizados. Não vacilamos em afirmar que se tratam de práticas suicidas. É uma temeridade que alguém se empenhe em trabalho de tal natureza, desconhecendo as forças com as quais esteja lidando, sem perceber as consequências que poderão advir. Muitas pessoas, como resultado dessas práticas, debilitaram-se emocional e mentalmente ou contraíram moléstias destrutivas. E tudo pela ambição incontida de avançar a curto prazo, desenvolver a clarividência, projetar-se para fora do corpo, cultivar poderes psíquicos…

A Fraternidade Rosacruz, porém, é sumamente realista quando nos adverte sobre tais perigos. Fundamentada na Sabedoria Cristã, prescreve poucos exercícios. Estes, por sua vez, não apresentam qualquer inconveniente ao Aspirante ocidental. Destacamos a RETROSPECÇÃO e a CONCENTRAÇÃO, cuja prática, sendo realizada com sinceridade e constância, torna-se um meio valioso de crescimento anímico. Contudo, a Filosofia Rosacruz preconiza antes de qualquer coisa uma reforma de caráter e a conscientização do serviço que deva ser prestado de forma amorosa e desinteressada aos demais. Sem isso, será vã toda tentativa de progresso.

O Estudante Rosacruz recebe uma sábia orientação no sentido de aprimorar-se internamente, antes de esboçar o mínimo desejo de desenvolvimento psíquico. É uma temeridade almejarmos penetrar nos Planos invisíveis sem estar devidamente preparados pelo reto viver. Como semelhante atrai semelhante, lá, nos Mundos internos, poderemos nos defrontar com entidades afins à nossa formação moral. Se não somos “flores que se cheire”, seguramente esbarraremos em formas demoníacas e, traumatizados, volveremos rapidamente ao Corpo Denso. Valeria a pena enfrentar, assim, momentos tão desagradáveis e que por certo não nos trariam proveito algum? O bom senso e a lógica afirmam que não. Por que, então, forçar algo que, no seu devido tempo, desabrochará seguindo o curso das Leis naturais?

A prática do exercício de Retrospecção nos leva à medida exata de nossas falhas e virtudes, por tratar-se de uma autoanálise. Conhecendo-nos como realmente somos, estaremos em condições de efetuar, tais como os alquimistas, as devidas transmutações. É a chamada reforma de caráter que, aliada à nossa disposição e capacidade de servir, tornar-nos-á gradativamente espiritualizados. Como lógica consequência, nossas faculdades latentes começarão a despertar de maneira conveniente e segura. Nossa formação interna será tal que não nos permitirá fazer alarde de tais conquistas e, o que é mais importante, todo poder adquirido, tal como a “DANÇA DE PARSIFAL” e a “VARA DE AARÃO”, só será empregado em benefício dos demais, nunca em proveito próprio. Adquiriremos clarividência, faculdade de deixar o corpo conscientemente e muitos outras capacidades, tudo como fruto de um esforço desinteressado em sermos melhores em nosso ambiente, vivendo diuturnamente os ideais cristãos de caridade, autossacrifício, compaixão e renúncia.

Ainda que pratiquemos mil e um exercícios ou que leiamos todas as obras esotéricas do mundo, se não nos propusermos a “VIVER A VIDA”, nada de prático alcançaremos. De nada nos adiantará procurar alguém que, rotulado de “mestre”, ofereça-nos a Iniciação mediante uma determinada quantia de dinheiro. Um dia a verdade emergirá, virá à tona. Ficaremos então a sós com a nossa decepção. Enquanto vivermos apegados a nossas mazelas, não devemos pensar em ser iniciados. O preço da Iniciação é o mérito, EXCLUSIVAMENTE O MÉRITO.

Tal é a orientação sadia oferecida pela Fraternidade Rosacruz, evidenciando a realidade das coisas. Que algumas de nossas palavras não sejam interpretadas como censura. Não tencionamos apresentar aqui um folheto contra quem quer que seja. Alicerçados nos Ensinamentos Rosacruzes nós desejamos apenas realçar algumas verdades insofismáveis. Os fatos corroboram nossas asserções.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de maio/1970)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Pergunta: Se Cristo era divino, um Arcanjo, o Iniciado mais elevado do Período Solar, conforme você diz, por que foi Ele chamado “O Filho do Homem”?

Pergunta: Se Cristo era divino, um Arcanjo, o Iniciado mais elevado do Período Solar, conforme você diz, por que foi Ele chamado “O Filho do Homem”?

Resposta: Para entender convenientemente o título “O Filho do Homem”, é necessário conhecer a lenda Maçônica sobre a criação do mundo e do ser humano que nele habita, e também a história bíblica. Visto que nem todos os Estudantes leram as lições contidas no livro “A Maçonaria e o Catolicismo”, repetiremos esta lenda, ou melhor, os seus pontos essenciais.

No princípio, o Elohim Jeová criou Eva, e o Elohim Samael, que é o embaixador de Marte na Terra, uniu-se a ela. Caim foi o fruto dessa união. Depois, o Elohim Jeová criou também Adão, e Adão uniu-se a Eva, e Abel foi o produto dessa união. Abel era, portanto, filho de pais humanos, ambos criaturas de Jeová, era dócil e receptivo às ordens de Deus que ele considerava seu Criador; ao passo que Caim era o produto semidivino de uma mãe humana e de um pai divino. Por essa razão, ele tinha o impulso divino da criação. Abel contentava-se em guardar os rebanhos, criados também por Jeová, os quais, como ele, se alimentavam do alimento vegetal que crescia naturalmente sem esforço de sua parte, uma dádiva dos deuses. Caim era diferente. Tinha o desejo dominante de criar algo, esse impulso divino de fazer crescer duas folhas de grama onde antes só havia uma, era uma força dominante irresistível, e ele não se sentia satisfeito enquanto não realizasse algo por iniciativa própria. Portanto, ele plantou as sementes que achou, fez crescer o grão, e ofereceu a Jeová o fruto do trabalho de suas mãos, Não obstante, suas oferendas não agradaram ao Deus Jeová, que via nele um possível rival — alguém que não seria completamente dominado. Em consequência, criou-se uma animosidade entre Caim e Abel, e o sangue desse foi derramado. Adão uniu-se novamente a Eva, e dessa união nasceu Seth. Desde então, sempre houve no mundo duas classes de pessoas, os Filhos de Caim e os Filhos de Seth. Um deu origem à longa linhagem de reis, que exerciam essa função “pela graça de Deus” e que culminou com Salomão. Essa linhagem é a do filho dos homens, isto é, nasceram de pai e de mãe humanos, a saber, Adão e Eva, ambos criados por Deus e obedientes às Suas ordens — ambos total e inteiramente humanos.

Quanto a isto, os Filhos de Seth diferem radicalmente dos Filhos de Caim. Caim era virtualmente o filho de uma viúva, porque Eva foi abandonada por seu divino esposo, Samael, no momento em que se consumou a fecundação. Ele nunca assumiu sua função de marido ou de pai, portanto, o seu filho era, como já foi dito, o filho de uma viúva.

Dessa progênie semidivina, Caim, descendem várias gerações de filhos que originaram todas as indústrias, como poderão verificar consultando a Bíblia. Eles inventaram todas as artes e todas as ciências. Deve-se a eles todo o progresso material do mundo, e sua estirpe culminou na época em que Salomão, o filho do homem, ocupava o trono de Israel, e o nascimento de um filho de uma viúva, chamado Hiram Abiff está também registrado na Bíblia. Não confundir Hiram de Tiro com Hiram, o mestre-artífice, que foi enviado pelo Rei Hiram de Tiro para construir o Templo de Salomão. Vemos que ele era “o filho da viúva”, e Salomão o “filho do homem”. Posteriormente, esses dois personagens do drama mundial renasceram. Salomão tornou-se Jesus de Nazaré, o Filho do Homem. Hiram Abiff tornou-se Lázaro. Ele foi também o Filho da Viúva de Naim, e as duas ressurreições registradas são um acontecimento referentes à Iniciação.

Desde então, esses dois personagens, o Filho do Homem e o Filho de uma Viúva, têm trabalhado para os mesmos objetivos, embora em esferas diferentes. Jesus, o Filho do Homem, trabalhou e trabalha até hoje entre as igrejas. Christian Rosenkreuz é o último nome de Hiram Abiff e de Lázaro, o Filho de uma Viúva. Jesus, o Filho do Homem, é o gênio protetor de todas as igrejas onde a religião seja cultivada e o ser humano seja conduzido de volta a Deus através do caminho sincero da Devoção.

Christian Rosenkreuz, o Filho da Viúva, trabalha com as potências do mundo, as indústrias e a ciência, a fim de efetuar a união das forças temporal e espiritual, a cabeça e o coração, que deve ser realizada antes que Cristo o Filho de Deus, possa vir novamente.

Com referência a essa união, lemos no “Conceito” que a segunda vinda de Cristo ocorrerá numa época em que o Estado e a Igreja estiverem unidos, mas reconhecemos que essa não foi uma expressão feliz. Queremos lembrar que recebemos nossos ensinamentos na Alemanha, e em tal quantidade que era muito difícil encontrar imediatamente uma expressão inglesa adequada para cada termo. Muitas vezes, fizemos uma tradução por demais literal. As palavras “Estado” e “Igreja”, da forma usada pelo Mestre, queriam transmitir a ideia de que em algum tempo, os poderes temporal e o clerical deverão trabalhar de mãos dadas e unir-se cada vez mais; pois, na época em que isso acontecer e que aguardamos, o Reino de Cristo, só haverá um regente. Ele será ambos, Rei e Sacerdote e, por essa razão, a Onda de Vida humana deve ser educada de forma tal que os seus dirigentes humanos se aproximem cada vez mais desse ideal, sendo sábios o bastante para governar um estado, e bons o bastante para guiar os corações dos homens. Assim e somente assim, poderemos aproximar-nos do Reino de Deus, portanto, essa é a condição que Christian Rosenkreuz e Jesus esforçam-se por trazer à Igreja e ao Estado.

(Pergunta nº 92 do livro A Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas”, Vol. II)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Como construir uma Virtude

Como construir uma Virtude

Existe em nosso vocabulário uma palavra encantadora que reflete um estilo de vida: essa palavra, essa conquista, é a VIRTUDE. Infelizmente, nos instáveis tempos que atravessamos ela quase perdeu seu significado real. Até já é considerada antiquada. No entanto, representa uma expressiva realização para todo aspirante à vida espiritual.

Muitas pessoas admiram mais a inocência do que a virtude. Isso vem de longe. Até pouco tempo atrás, as mulheres eram educadas exclusivamente para a maternidade e o lar. Considerava-se prendada a mulher que ignorasse as malícias do mundo e se conservava em pureza infantil. Quando se casava, submetia-se inteiramente ao marido, chamava-o de “Senhor Fulano” e não se metia em seus negócios. Se ficasse viúva, sua inocência a convertia em presa fácil dos espertalhões, que se valiam de suas assinaturas em endossos avais e procurações para despojá-las.

Hoje em dia, as mulheres partiram para uma autoafirmação extremada. É natural de toda transição. Mas não representa virtude, porque é degradante. A experiência as reconduzirá à virtude pela dor. Então poderão desfrutar retamente a igualdade de direitos que já está quase inteiramente conquistada com o direito ao voto, ao exercício de cargos públicos elevados ou tantos outros. Porém a igualdade terá de respeitar as características de cada sexo.

A inocência ainda é cultivada em muitas crianças e conservada em muitas mulheres. É um estado de inexperiência que ignora algumas necessidades, estando alheio às experiências e provas que amadurecem e consolidam o caráter.

Parsifal, o herói da ópera de Wagner, era inocente quando tropeçou pela primeira vez nos guardiões do Graal, em Monte Salvat. A toda pergunta que fazia Gurnemanz, ele respondia: “Não sei”. Sua inocência era uma pureza imatura que teria de mudar com os impactos e cicatrizes da batalha da vida.

Os neófitos da vida espiritual acreditam que as Forças Superiores devem protegê-los de toda experiência difícil, sem compreender que as adversidades lhes aparecem como efeito de sua conduta egoísta. Cabe aos expositores deixar bem claro a necessidade de eliminar os traços indesejáveis do caráter, de purificar os Corpos e concentrar os esforços em um equilíbrio entre os interesses espirituais e materiais, dando “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Espiritualidade não é a busca de fenômenos, não é a tentativa de eliminar as desarmonias físicas ou psíquicas por meio de “passes”, imposição de mãos e “trabalhos espirituais”, partindo da suposição egoísta de que todo mal é mandado pelos outros. Espiritualidade é o cultivo das faculdades latentes do espírito por meio de um reto pensar, um nobre sentir e um correto agir: trabalho incessante, paciente, perseverante e diário de orar e vigiar contra o único adversário (etimologicamente chamado de demônio ou Satanás), dentro de nós, que nos tenta a repetir e consolidar os vícios adquiridos através de muitas vidas de erro…

Vejam como agem as pessoas comuns: quando se tornam conscientes de sua “falta de graça” ou desgraça, tornam-se abrumadas, tristes, pessimistas, revoltadas, inseguras diante dos desafios! Como se abraçam carinhosamente às suas antigas emoções para se autojustificar e defender o direito de ser como são, a regalia de não mudar, decretando com isso sua cristalização, adiando a prova, desistindo de “passar de ano” na Escola da vida!

A tentação é uma necessidade: são os exames da vida por intermédio dos quais mostramos estar, ou não, preparados para adentrar os graus de consciência mais elevados. Ser tentado não significa viver em pecado. Desculpar nossas debilidades e nos comprazer no erro: isso, sim, é pecado. Agindo desse modo, mostramos não ser virtuosos. Virtude é conhecer o bem, o mal e escolher voluntária e gostosamente o bem, sem recalques. Notem que na “Oração do Senhor”, popularmente conhecida como “Pai Nosso”, somos ensinados a pedir: “Não nos deixeis cair em tentação”. A tentação existe, mas devemos superá-la pouco a pouco, até que a atração de repetir um hábito desapareça e já não nos constitua um desejo. Isso nos leva a compreender que a tentação tenha sua raiz em algum hábito errôneo formado no passado. A um beberrão o jogo pode não constituir tentação nem a bebida, ao jogador. Cada um tem seu ponto fraco a superar.

Como espiritualistas, façamos a nós mesmos esta pergunta: qual é o propósito da evolução?

Nossos estudos respondem: é a aquisição e o correto uso do conhecimento aliado ao amor para formarmos a Sabedoria com a qual desenvolveremos nossos poderes latentes rumo à perfeição a que somos chamados — “Sede vós perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito”. Isso corresponde à semente que dilui sua personalidade, ao se desmanchar na terra para converter-se na árvore da qual veio.

Esse processo de evolução é indispensável, como teste, na vida de todos. Precisamos encontrar nossa fortaleza. Nosso Eu Superior não aceita subterfúgios, porque já está cansado dos tormentos que se prolongam vida após vida, sob o domínio da natureza inferior.

Verdade é que muitas vezes cedemos à tentação. É pena. Mas isso não nos impede de alcançar a virtude. “O único fracasso é deixar de lutar.” — diz Max Heindel. O que nos pode distanciar da virtude é a falta de arrependimento. A contrição sincera e positiva lava a transgressão com lágrimas e abre a porta da reforma para se alicerçar um caráter virtuoso sobre o qual podemos edificar uma vida espiritual autêntica e estável. Esse penoso esforço deixa profundas impressões que mais tarde são transmitidas ao Átomo-semente durante a gravação do panorama da vida sobre nosso Corpo Vital. No estágio post-mortem, essas impressões são gravadas no Corpo de Desejos como “consciência” para o crescimento da alma e a firmeza contra as tentações de futuras existências.

Assim, devemos compreender e aceitar os desafios, especialmente as tentações, vendo nelas boas oportunidades de nos livrar de hábitos e atividades retardantes. Ao vencê-los, podemos desarraigar características anticrísticas, tendências adversárias ao nosso crescimento anímico.

O caminho do transgressor é duro. Ele provoca reações da Lei Divina mantenedora da harmonia universal. Tais reações lhe são dolorosas, mas também amorosas, porque advertem: “Retorne ao caminho da retidão. Endireite a sua vereda, antes que lhe ocorram coisas piores”. Por meio da dor compreendemos que ninguém pode fugir de Deus, “em Quem vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”. Ao tomarmos consciência desse Poder passamos a admirá-Lo, não por medo, mas pela alegria de descobrir que o mundo tem um Supremo Diretor que é muito justo e a Quem, prazerosamente, desejamos servir. Daí começamos a ser justos, convictamente. Fazemos o bem pelo amor ao Bem. Então nos tornamos VIRTUOSOS.

Os seres humanos têm o privilégio da liberdade relativa, da escolha e do conhecimento para isso. Tais capacidades são aprimoradas pela experiência. A ave Fênix da Sabedoria, que nasce das cinzas do conhecimento e do amor sempre renovados e melhorados, mostra que vale a pena passar pelo fogo da dor e pelos arranhões da batalha. O diabo (adversário criado pelos maus hábitos da nossa natureza) pode e sempre nos tenta. Contudo, quando escolhemos profundamente o melhor curso de ação, podemos dominar a tentação e agir em harmonia com o bem universal. Desse modo nos tornamos aptos à união final e consciente com os guias Espirituais da humanidade por meio do despertar de nossa Deidade.

Um fato bem estabelecido é este: nossas vidas futuras se decidem AGORA. É certo que neste momento estamos ajustando antigas dívidas e relações. No entanto, não importa quão severos sejam os condicionamentos atuais do destino, sempre contamos com uma margem de livre-arbítrio para criar melhores condições futuras. Os guias espirituais se preocupam demais com essa possibilidade de redenção e tudo fazem para permiti-la. Um ponto importante é o modo como agimos diante das provas. Esse é um dos fatores decisivos da regeneração. Dar-se logo por vencido e buscar uma saída fácil não remedia coisa alguma. Não que sejamos masoquistas, nada disso. Devemos, isto sim, aceitar o desafio e nele ver uma boa oportunidade para exercitar os músculos da alma, dar mais flexibilidade e tolerância ao nosso caráter e testar nossas fibras.

Até o Cristo foi tentado! Quanto Amor tem o excelso Cristo para permitir que Sua Consciência Se deixasse envolver por uma onda de vida manchada de pecados e ritmo evolucionário tão lento! As satânicas promessas de poder sobre todos os reinos do mundo e sua glória jamais poderiam tentar Aquele que já era o mais elevado Iniciado dos Arcanjos. O Cristo submeteu-Se a essa indignidade para mostrar à humanidade que a tentação é uma parte da nossa experiência, aqui na Terra. É claro: um Anjo rebelde nunca poderia tentar um elevado Arcanjo. As tentações de Cristo assumem diferentes significados, quando recordamos que Ele estava usando o Corpo Denso e o Corpo Vital de Jesus de Nazaré. Os corpos humanos estão sujeitos a determinadas características físicas como a fome. Assim, a ideia de converter as pedras em pão, depois de quarenta dias (simbólicos) de jejum, poderia constituir uma tentação à natureza HUMANA do seu corpo. No entanto, converter pedras em pão também encerra outro significado: o de usar os poderes alquímicos de Iniciado para proveito próprio, em todos os assuntos. O Cristo jamais havia passado, em Sua evolução, por condições QUÍMICAS e DURAS como nós. Seu veículo mais inferior é o Corpo formado de matéria emocional, o Corpo de Desejos. Portanto, Ele precisava conhecer as condições terrenas para compreender a consciência humana. Quando foi levado ao pináculo do Templo, recebeu a tentação do poder: “Tudo isso te darei, se prostrado me adorares”. Através dos Átomos-sementes dos Corpos Denso e Vital de Jesus, o Cristo precisava avaliar o impacto dessa tentação: submeter o Espírito ao mundo em troca de um domínio efêmero, a barganha “da progenitura por um prato de lentilhas”. Finalmente, a exibição de poder em que tantos espiritualistas caem! “Lança-Te daqui abaixo e os Anjos designados para proteger-Te virão amparar-Te na queda.” Dessas tentações saiu o Cristo consciente da condição humana, cheio de compaixão para converter-Se, através de Seu sacrifício, no ÚNICO SER A POSSUIR UMA CADEIA COMPLETA DE VEÍCULOS QUE LIGAM “O HOMEM AO PAI CELESTIAL”.

No Velho Testamento, no livro de Jó, vemos que Jó foi tentado por Satanás, com permissão de Deus. Embora fosse Jó “perfeito, reto, temente a Deus, apartado do mal”, foi experimentado o suficiente para bradar a Deus, em meio a sua angústia, não cessando de clamá-Lo até que o Senhor lhe apareceu com perguntas bem interessantes. Se você se interessa, leia os últimos capítulos do Livro de Jó (a humanidade) na Bíblia, em situação bem desvantajosa. Elas conduziram Jó à compreensão e arrependimento que o livraram de sua miséria.

O propósito da tentação é apenas testar se os erros passados foram mesmo vencidos e convertidos em caráter, em virtude. Quando caímos, diante das mesmas provas, é sinal de que não as vencemos ainda. Em tal caso, a dor purgatorial é bem mais profunda para que a consciência a registre mais nitidamente. Só desse modo, ao defrontarmos idênticas provas em seguinte encarnação, teremos força interna para batalhar e vencer. Ninguém pode fugir ao propósito evolutivo sem retrogradar. Se desejamos evitar a dor e a tristeza, cada vez mais aumentadas pela fuga e irresponsabilidade, precisamos nos converter em SENHORES DE NÓS MESMOS. Como está no Livro do Apocalipse: “Há um livro doce ao paladar, mas amargo ao estômago”. As satisfações, o egoísmo e as seduções de nossa natureza inferior são efemeramente gostosas; depois, convertem-se em sofrimento e fel. Quando compreendemos e adquirimos o valor para viver consoante as Leis Divinas, tornamo-nos virtuosos e desfrutamos a paz, harmonia e os demais talentos que lhe são inerentes e se oferecem a “todos os escolhidos”.

A dor purgatorial anterior nos adverte contra a repetição dos abusos e as presentes vitórias só se incorporam em nós como caráter ao serem assimiladas e reunidas no Átomo-semente, no Primeiro Céu, onde desfrutamos as alegrias dessas vitórias. Depois, no Terceiro Céu, nosso espírito as incorpora como Alma, o poder anímico determinante para nossa conduta futura. Que isso nos sirva de estímulo para lutar o bom combate e encarar com decisão hercúlea as características que estorvam este templo que estamos edificando para o ESPÍRITO. Vejam como respiramos aliviados, ao remover um fardo ou uma falta pelo domínio de nós mesmos! Começamos assim, por pequenas vitórias. Ao racionalizar e eliminar os aspectos sutis desses erros, sentimo-nos leves e felizes, desejosos, mais do que nunca, de nos livrar do imã do apego ou vício que nos atrai às provas e afasta de nossa legítima herança de paz.

Pouco a pouco, cresce dentro de nós um forte propósito de purificação. No entanto, lembremos: quanto mais fortes nos tornamos e quanto mais tentações vencemos, tanto mais sutis e manhosas elas se tornam.

Os vizinhos e amigos observam atentamente os Aspirantes da Luz, esperando deles sempre as virtudes de um caráter íntegro. Contudo, as virtudes que ninguém vê, as mais delicadas, internas, que os Aspirantes sinceros e iluminados não mostram, que foram acumulando modestamente com as pequenas vitórias nas lutas interiores, essas constituem o mais valioso material para TECER O DOURADO MANTO NUPCIAL ou O CORPO DO CRISTO INTERNO, o Corpo-Alma.

Deus dá o fardo segundo as nossas forças.” Praticantes sinceros e iluminados não precisam, todos, de duras experiências físicas ou emocionais. Entretanto, podemos, cada um em seu particular grau de consciência, preparar-nos, em tempos de paz, para vencer a luta, quando ela chegar. Recomendamos o hábito, o exercício de criar imagens mentais, imaginando situações difíceis e criando soluções cristãs para sobrepujá-las. Isso nos prepara para “melhores escolhas e decisões”, principalmente em emergências que possam aparecer em nossa vida. Muitas pessoas que manejam habilmente as situações são as que, amorosa e calmamente, preparam-se para superar problemas, analisando-os como um enxadrista, de vários ângulos, dos seus e dos de outras pessoas. São admiráveis qualidades que atualmente muitos possuem e resultam do trabalho feito em vidas passadas. A virtude é a essência de todo o bem de vidas pregressas: é a percepção de tudo que se constitui em estímulo para o Espírito esforçar-Se cada vez mais ardentemente no caminho evolutivo rumo à Liberdade Espiritual.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de agosto/1973)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Fé, Esperança e Amor: a espera na porta do nosso coração, onde está o templo

, Esperança e Amor: a espera na porta do nosso coração, onde está o templo

Disse o Mestre: “No caminho para o Santo Castelo do Graal, onde se oferecem às almas o Elixir da Paz de Deus, leve sem demora, filho do meu coração, o bastão da Esperança, a Luz da e o néctar do verdadeiro Amor.

O bastão da Esperança te guardará contra as feras do medo e do desalento, que espreitam o caminho.

A Luz da te ilumina o caminho na noite do desespero e tornará visível a imagem magnífica diante de teus olhos espirituais.

O néctar do Amor Puro dar-te-á a força necessária para escalar o penhasco íngreme da melancolia!

Ele fortificará teu coração, conservará tua esperança e tua vivas!

Embora a tempestade do infortúnio seja tão forte que te ameace arrancar os pés do chão firme, não deixes cair das tuas mãos o bastão da Esperança!

Se as ondas do sofrimento e o tormento da tua alma ameaçam-te subjugar, mesmo assim, não percas a esperança, reanima-te e desafia com a força renovadora os obstáculos das ondas revoltadas!

Reconhece, porém, que no desespero mais alto existe ainda uma faísca de nova esperança!

Saibas que, mesmo que o céu esteja coberto de escuras nuvens, o sol, a lua e as estrelas estão escondidas além e em breve reaparecerão novamente!

Percebe que nenhuma tormenta jamais durou eternamente!

Após a noite desponta a aurora, o fluxo sucede ao refluxo das ondas, à luta sucede a paz!

Essa é a lei da Graça, do Amor e da Sabedoria Divina!

Portanto, espera meu filho, embora não haja mais motivo de esperança! Espera, mesmo no mais profundo desespero!

Espera, embora não vejas sequer tênue Luz de esperança! Porém, reconhece que a verdadeira esperança obtém sua força da verdadeira fé!

Verdadeira é aquela fonte de energia que nunca falha, nunca se esgota!

Verdadeira é aquela chama inflamada pela mão de Deus que nunca se apaga!

Por isso, conserva o bastão de tua esperança através da correnteza da verdadeira , sempre verde!

Sim, transforma tua esperança em verdadeira, como a lagarta rastejante se transforma numa alada e magnífica borboleta!

A verdadeira não conhece desânimo ou medo. Ela está inflamada do fogo do entusiasmo e compenetrada do alento da convicção interna!

A Luz da te mostrará os rastros dos peregrinos que sulcaram este caminho muito antes de ti; fortalecerá teus pés e dar-te-á forças novas!

A semente da Esperança só pode ser despertada para a vida pela Luz da ! Sem a Luz da , a árvore da vida do ser humano não pode crescer nem dar frutos! Na está a maior força da Cura!

A está enraizada na aperfeiçoada energia da vida!

Na desembocam todas as forças criadoras da alma!

Quem anda sem a Luz da cairá dentro em breve vítima do demônio do desespero! Não deixes, pois, ó peregrino do Santo Graal, que a Luz da convicção se apague em teu coração.

Crê na direção e na providência Divina!

Crê na força salvadora do sacrifício!

Crê na lei universal que não deixa esforço e sacrifício sem recompensa!

Crê, que também tu, por pequena a importância que pareças ter na posição em que te achas, terás de cumprir uma missão!

Crê na força criadora da tua própria alma!

Crê na potência do Santo Graal, no templo invisível da humanidade!

Crê, antes de tudo, no poder divino do verdadeiro Amor!

Reconheça que o Amor puro é o refúgio de todas as almas!

O Amor puro remove todo o antagonismo e todas as inimizades!

O Amor puro afasta todas as dificuldades da vida!

O Amor é o eixo da criação, a origem e o fim do caminho que conduzirá ao templo da redenção!

O Amor puro é distintivo dos Cavaleiros do Santo Graal!

O Amor puro é o alimento dos deuses e dos Anjos!

No Amor puro reflete-se a face de Deus — sim — ele é Deus mesmo!

Deixa, pois, a Luz de tua inflamada pela brasa do Amor puro!

O Amor puro é universal, por isso não conhece fronteiras e nele não há diferenças! É aquele sol ardente do coração de Deus o qual vivifica e ilumina tudo, seja alto ou baixo, bom ou mau, bonito ou feio!

Uma centelha desse Sol — o Amor do Criador — está oculta no coração de cada ser humano! O dever de cada alma é despertar e inflamar essa centelha!

Enquanto não despertares essa centelha divina em teu coração, és indigno de usar o nome ‘Cavaleiro do Santo Graal’!

O Amor puro não conhece ódio ou orgulho. Ele conhece somente perdão, sacrifício e benignidade. Ele é paciente, bondoso e tolerante!

O Amor dar-se-á e achará a bem-aventurança no sacrifício de si mesmo! Ele não deseja mais do que dedicação! Nunca se sente ferido ou magoado! Nunca para de chamejar e de entusiasmar, mesmo se for negado!

Ele vivifica tudo, alimenta tudo, salva tudo!

Ele perdoa os malfeitores, porque reconhece que eles sofrem e andam em treva espiritual. Ele os ilumina, cura-os e torna-os sadios!

O Amor sabe que os cegos pisoteiam a flor santa da verdade por cegueira. Por isso os conduza para o caminho certo!

O Amor sabe que as trevas não se podem vencer com trevas, porém só pela Luz!

Por isso ele andará com os malfeitores e decaídos, sempre misericordioso e compassivo!

Pela sua dedicação compadecedora, ele salva as almas obscurecidas e faz que os corações cegos recuperem a vista!

Assim, ama, ó peregrino, teus inimigos, para que possas salvá-los!

Ama também teus sofrimentos para que possas transformar sua força em bênção!

Tua admissão no exército dos Cavaleiros do Santo Graal depende da atividade desse amor puro. Tu deves conservá-lo sempre vivo, no viver de cada dia!

O guardião do Castelo do Graal te perguntará, um dia, antes de transpores os portais do Castelo: ‘Quantas almas trouxeste, peregrino, como sinal dos sacrifícios de amor puro?’.

Quem não apresentar uma única alma salva, como testemunho da sua dignidade, o portal do Santo Graal, então, jamais se abrirá para ele!

Bem-aventurado aquele que despertou e conduziu muitas almas pelo poder do amor puro, pois será admitido como servidor no Castelo do Santo Graal!

Agora, foste, ó saudoso peregrino, informado sobre o caminho que conduz ao Castelo do Graal!

Mas reconhece que ninguém é capaz de começar a peregrinação para o Castelo do Graal, se não for chamado por ele!

Recebe, agora, estas palavras como um chamado do Santo Graal e começa com o bastão da Esperança, a Luz da na tua mão e o néctar do Amor puro no coração — tua peregrinação.

Meus olhos cuidarão dos teus passos e a minha bênção te acompanhará. Eu te esperarei aqui, na porta do teu coração, onde está situado o templo.

Felicidades para ti! Felicidades para todos os Seres!”.

(Traduzido do alemão e publicado na Revista Serviço Rosacruz de maio/1973)

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