Surge Um Mundo Novo
Um mundo novo está surgindo, como consequência do impulso originado de uma melhor compreensão da vida.
O ser humano já se apercebe de que com a decadência do já ultrapassado pensamento filosófico e religioso, a Divindade está preparando para si e para a humanidade, mudanças substanciais, capazes de ensejar uma concepção mais ampla sobre o significado da vida. A velha ordem de coisas está no fim e, simultaneamente, assistimos ao alvorecer de algo novo. Uma consciência que permaneceu adormecida durante Eras está despertando. Deus, que sempre trabalhou na essência mesma das coisas está desenvolvendo uma nova expressão da vida eterna que lhe é inerente.
A guerra e seus terríveis sofrimentos constituem as dores do parto. A seu devido tempo, o recém-nascido aportará a toda a humanidade, concedendo-lhe uma liberdade mais ampla, uma mentalidade mais forte e amor em maior profusão. A dor provocada por tão horrível carnificina trouxe triste pesar à nossa mãe-terra, mas sua convalescença já começou. No mundo inteiro está surgindo um ideal mais elevado que por séculos esperou o momento oportuno para manifestar-se.
No mundo trava-se uma luta da qual somos partícipes. Ela é parte da evolução que sempre se evidenciou através da submissão do inferior ao superior, do imperfeito ao perfeito. Esse conflito eterno e universal acompanha o ser humano desde as remotas épocas em que Deus o projetou como um pensamento no reino do Espírito. Passo a passo essa luta contínua e cruenta vai aperfeiçoando o espírito, até o estado atual.
Uma nova luz está projetando seus raios sobre a humanidade, luz de um conhecimento mais profundo. Os ensinamentos rosacruzes pretendem que o desenvolvimento da Mente se encontre em seu primeiro estágio, o mineral de sua evolução. O ser humano recebeu a Mente na Época Atlante para um propósito determinado. Mas como nessa época o Ego era excessivamente débil a seus desejos muito fortes, o nascente intelecto fracassou, unindo-se ao Corpo de Desejos. Daí originou-se a astúcia.
“Na Época Ária iniciou-se o desenvolvimento da Mente e da razão por intermédio do trabalho do Ego no sentido de dominar o Corpo de Desejos e conduzi-lo à realização da perfeição espiritual, que é o objetivo da evolução” (Conceito Rosacruz do Cosmos).
Na agonia da transição, muitas almas devotas assistem à derrota da religião, à eclipse da fé e ao desaparecimento das mais caras expectativas da humanidade. Porém, como a verdade é eterna não pode desaparecer. O conflito do ser humano com a realidade é parte essencial do progresso. Não estando preparado para receber a nova luz, a verdade a cega, o perturba e a dúvida atormenta.
Neste momento da vida é quando o ser humano mais necessita do auxílio de um mentor espiritual que o oriente, até que seja capaz de, por si mesmo, compreender a nova verdade que floresce. Chegou o momento em que ao estudante rosacruz se oferecem mil oportunidades de servir. “A seara é imensa, mas poucos são os trabalhadores”.
O século XX caracteriza-se por um grande despertar espiritual e filosófico. Desde o advento de Cristo-Jesus nunca se viu tantas igrejas, tantos novos cultos, nem tanto interesse renovado pela religião.
Quando faltavam uns 500 anos para o nascimento de Jesus, surgiram por todos os rincões da Terra novos instrutores e novas religiões. As mudanças que influenciaram o globo terrestre, por precessão dos equinócios, trouxeram muitas inquietudes à humanidade, pois essa se preparava para responder aos novos tempos. Foi assim que a Era de Áries, regida pelo belicoso Marte foi substituída pela influência jupteriana de Peixes.
Todas as decadentes filosofias devem ser substituídas por sistemas mais avançados. Novas religiões surgiram e se disseminaram pela Terra. Naqueles tempos o profeta e instrutor mais avançado, Isaias, assentava as bases daquilo que seria a religião cristã. A vida intelectual chegava ao seu ponto culminante.
Essas mudanças excitaram ao mesmo tempo os elementos inferiores, dando margem a guerras e crimes de toda espécie. É um fato bem conhecido dos esoteristas que quando um novo impulso ativo a religião, o mal e os elementos mais baixos são também postos em ação. A humanidade daquele tempo se dividiu, tal como predisse Cristo ao afirmar que “as ovelhas estão separadas das cabras”.
A Era Aquária, que se aproxima, é a Era do AR. Uma fase de características marcadamente intelectuais onde se produzirá o despertar intelectual da humanidade. Aquário é um Signo mental, cientifico e elétrico, capaz de despertar as multidões como nunca o fez Signo algum do zodíaco. Esse Signo representa o FILHO DO HOMEM.
Existem duas classes de pessoas capazes de responder às vibrações aquarianas: em primeiro lugar está o tipo saturnino, inflexível, duro, que se manifesta por atitudes cruéis; em segundo lugar encontra-se o tipo mais evoluído da humanidade, aquele que alcança as regiões do infinito, representado pelos seres de ciência, pelos pensadores avançados e os religiosos sensíveis às mais elevadas influências espirituais.
Como afirmou o casal Heindel no Livro A Mensagem das Estrelas: “Podemos dizer que o FILHO DO HOMEM é o “super-homem”; por tal motivo, quando o Sol transitar pelo Signo celeste de Aquário, entraremos (esotericamente) em uma nova fase da religião do Cordeiro, e o ideal para o qual haveremos tender é indicado por Leão, o Signo oposto”.
Todo exército tem sua vanguarda. A evolução também tem a sua. Existe sempre uma classe evoluída, destinada a preparar a humanidade para futuras transformações. De acordo com os ensinamentos rosacruzes, esses períodos evolucionários se estreitam à medida que nos elevamos no caminho. Conforme a Mente se organiza, alcança-se um estado de consciência mais elevado e com o tempo tomará uma forma semelhante à dos demais veículos superiores. A Mente do ser humano também se espiritualiza. Na Era de Aquário o veículo mental alcançará um grande desenvolvimento como consequência dos esforços científicos e espirituais do ser humano. Há um grande número de pessoas já conscientes da existência dos poderes internos, ansiosas por obter e aplicar os conhecimentos avançados.
(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – 08/86)
Faz sentido ter Temor às Provas quando no grau do Probacionismo?
Há dias, encontrei-me com um amigo e perguntei-lhe: “Como vai você no caminho Rosacruz? ”. Respondeu-me: “Recusei o Probacionismo. Disseram-me que a vida da gente piora quando se entra nesse grau”.
Esclareci-o. Não o encontrei mais, depois daquele dia.
A conversa que tivemos e as meditações que ela suscitou, me fizeram pensar neste artigo. Creio ser útil a muita gente.
O Probacionismo, ou melhor, o PROBATÓRIO – como registra o dicionário – de fato concerne à prova: “é o grau que serve de prova; que contém prova”. Notem bem: Ele NÃO leva à prova; NÃO conduz à prova exterior; ele SERVE de prova; CONTÉM prova – porque traz à tona da consciência as falhas internas; porque convida à purificação dos próprios defeitos. Não se trata de nos expormos a uma série de provas que os Mestres programam e às quais nos submetemos. Não! É a nossa própria prova; é nos convidar a remover, a pouco e pouco, aquelas limitações de caráter que nos retardam a caminhada.
Assim como ajudamos o Corpo, com uma pomada especial, a amadurecer e soltar o carnegão de um furúnculo que nos incomoda; assim também temos de tomar consciência de nossas limitações, para não mais repeti-las. O alimento dos hábitos errôneos é a ignorância. Quando compreendemos que eles são prejudiciais à nossa caminhada e ficamos alertas para não cair na repetição mecânica a que o hábito induz – eles vão perdendo força e se dissipam. Por isso diz Max Heindel: “Todo esforço Iniciático começa pelo Corpo Vital”.
Mas é preciso ter cuidado. O Corpo Vital é um veículo de hábitos, formados pela repetição. Por falta de esclarecimento ou por fraqueza (condescendência ao vício dominador) podemos repetir hábitos inconvenientes e fortalecê-los desse modo – reforçando os grilhões que nos condicionam.
São Paulo apóstolo disse: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém; examinai de tudo e escolhei o melhor”. Temos livre arbítrio. Somos livres para morrer ou para viver; para descer ou para subir pela escada evolutiva. Mas um aspirante à espiritualidade tem um só propósito: SUBIR.
Pensar em espiritualidade é admitir, de início, a TRANSFORMAÇÃO, sem a qual é impossível atingi-la. Alcançar a Iniciação, continuando a ser o mesmo ser vicioso de hoje, é um absurdo. A “queda do homem” não foi geográfica: foi de consciência. Embrutecemo-nos; caímos de sensibilidade, de vibração, de sintonia com o Divino. Evoluir é conscientemente conquistar maior sensibilidade, pela remoção das escórias que nos pesam.
Para descer ao fundo do mar e vencer a resistência da água, o mergulhador leva pesado escafandro. Qualquer um de nós sabe que ao mergulharmos a certa profundidade para alcançar o fundo temos de vencer a pressão da água. Mas para voltar à superfície é muito fácil: a própria pressão da água nos impele de volta à superfície.
Assim também com nossa natureza espiritual. A tendência natural da Essência divina é buscar o alto. O que nos mantém nos baixos estados de consciência é a ignorância, a crença falsa de que não podemos viver sem certos vícios, vícios esses que podemos reunir em um único: o tirano apego! Como o macaco preso à cumbuca, de punhos fechados, agarrados às ilusões e hábitos daninhos, não podemos desprender-nos!
Além desse apego ignorante, há outro fator retardante: a COVARDIA. O ser humano de nível comum é medroso, é covarde, é comodista. Quer alcançar as coisas sem esforço e a curto prazo. Quer alcançar certas coisas sem pagar o preço correspondente – como os alunos que procuram escolas desonestas e pagam bem para obter um diploma que envergonha a classe, a profissão. De onde vem essa pretensão idiota? Da personalidade. Ela quer pegar sem pagar. Já viram um PEGUE sem PAGUE? Tudo, no mundo, é um balanceamento de direito e de dever. A cada direito há um dever.
Ainda mais: no desenvolvimento das faculdades, há sempre o sacrifício de uma para dar nascimento a outra. Por exemplo: sacrificou-se metade (ou um polo) da força criadora unitiva do ser hermafrodita de antanho, para com ela formar-se a laringe e o cérebro, que nos atendessem as funções superiores e criadoras da palavra e do pensamento.
Tal é o preço na transformação do ser interior. Os olhos estão se transformando para alcançar a visão etérica; o Corpo Denso está se eterizando, aos poucos, nos espiritualistas sinceros que seguem as normas do Probacionismo de: “uma Mente pura, um Coração amoroso e um Corpo são”.
Para a Mente ficar pura; para o Coração tornar-se nobre e amoroso; para o Corpo se tornar são é indispensável uma transformação de hábitos, uma purificação gradual e decidida.
Que pensaríamos de uma pessoa que se recusasse a entrar na escola e submeter-se à sua disciplina – para não ter o trabalho de estudar; para ficar livre de horários? É claro: permanece ignorante.
O mesmo se dá em relação ao probatório: por que vou recusá-lo?
Para não me livrar dos vícios e limitações ignorantes? Seria o mesmo que permanecer no fundo d’água; não querer sair dali – e ao mesmo desejar o ar e o céu. Para alcançar uma coisa é preciso deixar outra. TRANSFORMAÇÃO pressupõe movimento: transitar para além da forma atual de ser. Tirar o pé do degrau de baixo para pô-lo no degrau de cima. Do contrário, não posso subir a escada; fico onde estou. Querer subir, sem “desgrudar o pé de baixo”, é impossível.
É uma triste pretensão querer brilhar como um brilhante e ao mesmo tempo negar-se ao despojamento das escórias que enfeiam o diamante bruto. É uma má compreensão querer que a árvore dê belos e abundantes frutos, sem submetê-la à poda. Ora, a poda existe igualmente na espiritualidade. Temos energia potencial; se a utilizamos egoisticamente, apenas na promoção da personalidade, ficaremos uma árvore folhuda, bonita por fora, mas completamente inútil, estéril. Lá, diz o Evangelho: “a árvore que não dá frutos, será cortada e lançada ao fogo”. Mas se podamos, isto é, se reservamos uma parte da energia potencial aos propósitos fisiológicos do corpo e dirigimos a parte sobrante aos propósitos espirituais, seremos aquele ser equilibrado e produtivo; aquele que, na definição de Max Heindel: “Assume perante si mesmo a obrigação de servir, obedecer e amar ao Eu verdadeiro e superior. ”
Só há um Eu verdadeiro – que chamamos de EU real. Mas o dizemos verdadeiro e superior, para destacá-lo claramente de outro eu falso e inferior – formado pela ignorância. Esse “eu” falso, inferior, o ladrão de nossas energias – a grande prostituta referida na Bíblia, que prostitui ou desvirtua a pureza dos intentos espirituais.
Atualmente estamos decaídos e divididos. Pensamos no “eu” pessoal e no Eu espiritual – como se fôssemos dois. O Cristo interno, à parte e separado do “eu” humano – a natureza inferior. Mas não há essa divisão. Há um só EU – que é o VERDADEIRO E SUPERIOR…
Enquanto houver a dualidade ilusória, é sinal de que “a casa estará dividida contra si mesma, sem possibilidade de subsistir”. Enquanto houver a identificação com um “eu” inferior e falso – haverá uma válvula de escape – que desviará as energias do EU REAL para propósitos egoístas.
Ora, o que se propõe no probatório é o despojamento do “eu” inferior e falso – até certa medida que nos permita alcançar o portal da iniciação, onde contaremos com mais recursos para uma purificação mais intensa e esclarecida, mercê dos recursos extrassensoriais.
No probatório contamos com uma ajuda preciosa durante o sono, que nos esclarecerá, na medida de nossa consciência, sobre os pontos falhos e o despojamento deles. No probatório se amplia nossa possibilidade de servir, porque somos aproveitados para constituir equipes de auxílio e de cura no trabalho inconsciente durante o sono, após a restauração do corpo. E, com o tempo, segundo a sinceridade e esforço de cada Probacionista, ocorrem vislumbres para mostrar-lhe a seriedade do trabalho.
Sim: o probatório é um grau que serve de prova; que contém prova para aqueles que desejam entrar pela porta da escola, enfrentando lealmente as próprias limitações – não para os covardes, os desonestos, os comodistas que tiram os diplomas pelos fundos, a um preço “X”, iludindo-se a si mesmos e conservando-se na ignorância estagnadora.
A vida é um convite de subida, para descortinar horizontes mais largos, visões mais amplas. Mas cobra o preço do esforço da subida.
Quem não quer pagá-lo tem o direito de permanecer nas fraldas escuras da montanha, de mãos estendidas, a pedir luz, que ninguém lhe pode dar.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de junho/1976)
Como um Sistema Solar vem à existência?
Pergunta: Como o Sistema Solar vem à existência?
Resposta: Em harmonia com o axioma hermético “Como é o Macrocosmos, assim é o Microcosmos”, os sistemas solares nascem, morrem e renascem em ciclos de atividade e repouso, tal como acontece com o ser humano e com os seres de todos os reinos da natureza.
Pergunta: Como e por que um Sistema Solar é criado?
Resposta: No começo de um Grande Dia de Manifestação, um Grande Ser (designado no Mundo Ocidental pelo nome de Deus) limita-se a uma certa porção do espaço, objetivando criar um Sistema Solar para evoluir e expandir sua consciência.
Pergunta: O que se sabe a respeito da vida interna de Deus?
Resposta: Deus inclui dentro de Si hostes de gloriosas Hierarquias, de incomensuráveis poder e esplendor espirituais. Elas são o fruto de manifestações passadas desse mesmo Ser, que inclui em Si mesmo outras Inteligências em graus descendentes de evolução. Estas ainda não atingiram um estágio de consciência adiantado quanto o alcançado pela nossa humanidade. Dessa forma, aqueles não estarão em condições de completar sua evolução neste sistema.
Pergunta: Que trabalho específico executam esses seres?
Resposta: Aqueles que, em manifestações anteriores, adquiriram um mais elevado desenvolvimento operam sobre aqueles que ainda se encontram em graus de Consciência inferior. Induzem-lhes um estado de consciência, a partir do qual poderão, ao longo de um certo tempo, agir por conta própria.
Pergunta: Quando esses seres começam o seu trabalho?
Resposta: Todos esses diferentes seres não iniciam suas evoluções nos primeiros estágios de uma nova manifestação. Alguns aguardam o estabelecimento de condições favoráveis por parte daqueles que os precederam. Tudo se processa lenta, mas segura, correta e irreversivelmente.
Pergunta: Tomando como base o que já foi dito, como podemos comparar esse processo cíclico com a vida tal como a conhecemos?
Resposta: Assim como há estágios progressivos na vida humana — Infância, juventude, maturidade e velhice — assim o macrocosmos passa por fases cíclicas correspondentes aos vários períodos da vida microcósmica.
Pergunta: Quanto tempo esses Seres superiores trabalham sobre aqueles de consciência inferior?
Resposta: No princípio, os seres superiormente evoluídos trabalham sobre aqueles que possuem um maior grau de consciência. Depois voltam-se para as entidades menos desenvolvidas, porém em melhores condições. Por fim, a consciência própria é despertada e a vida evolucionante torna-se humana.
(Revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/73 – Fraternidade Rosacruz – SP)
As Verdades Espirituais nos Mitos Antigos
No Livro Mistérios das Grandes Óperas, de Max Heindel, lemos: “Temos dito frequentemente, em nossas publicações, que um mito é um símbolo velado, contendo uma grande verdade cósmica, um conceito que difere radicalmente daquele que é geralmente aceito. Tal como apresentamos às nossas crianças livros em quadrinhos para transmitir lições que estão além de seu entendimento intelectual, assim os grandes Mestres deram à humanidade em formação esses símbolos. Dessa forma, de uma maneira inconsciente, uma apreciação dos ideais apresentados tem se gravado em nossos veículos mais sutis.”
O desenvolvimento espiritual, o progresso e a evolução requerem um esforço constante na consecução de objetivos maiores e ideais mais elevados do que aqueles que já alcançamos. A complacência e a satisfação própria não devem ter guarida na vida do aspirante espiritual. Assim como a verdade espiritual é eterna, igualmente eterna deve ser a busca daquela verdade.
Na busca da verdade deve haver uma mudança contínua, ou, mais precisamente, uma transformação. Tais mudanças não podem, todavia, acontecer repentinamente, do nada. Deve haver sempre o tempo de preparação que precede a mudança em si. As mudanças das quais falamos não devem ser mentalizadas como meramente alterações nas condições exteriores e circunstâncias, mas também como modificações ocorrendo dentro do próprio ser humano: modificações em seu estado de consciência, em seu nível de percepção, em seu grau de entendimento e compreensão, em sua capacidade de dirigir e controlar certas forças, e assim por diante.
Uma das vias de preparação através das quais o ser humano é conduzido a reconhecer e participar das mudanças que marcam seu progresso evolucionário é a mitologia. A mitologia está para a verdade espiritual na mesma relação que o corpo está para o Espírito. Em cada caso o primeiro é o traje que reveste o último.
No passado, quando o ser humano estava mais relacionado aos mundos espirituais do que atualmente, era igualmente consciente das forças espirituais que criavam as realidades que experimentava. Porém, essa percepção devia-se ao que podemos chamar de “uma consciência automática” — uma percepção que era recebida sem qualquer entendimento de seu significado ou participação autoconsciente em seu propósito.
Naquela época, as forças que trabalhavam através da humanidade conduziam o ser humano mais e mais em contato com o Mundo Físico que hoje conhecemos e no qual presentemente nossa consciência de vigília está focalizada. Em consequência, as verdades espirituais começaram a se revelar à sua consciência numa forma mais definida, ou seja, sua percepção das verdades espirituais começou a tomar forma em termos do Mundo Físico no qual estava cada vez mais vinculado. E estas formas tornaram-se símbolos das verdades que ele anteriormente percebia mais diretamente.
O Mundo Físico é um mundo de formas definidas. E formas definidas implicam em separatividade. A primeira manifestação da descida do ser humano para o Mundo Físico — de separatividade — foi a formação das raças, na qual agrupamentos humanos vivendo sob condições diferentes de clima e solo começaram a desenvolver características diferentes. Cada grupo começou a perceber as verdades espirituais em termos das condições peculiares que o cercavam e separavam dos demais. Dessa forma vieram à existência as muito diferentes mitologias, oriundas dessas diferentes culturas.
Não obstante a percepção da verdade espiritual aparecesse em diferentes roupagens, era ainda a mesma verdade essencial que se encontrava por detrás de todas elas. Essas verdades, falando ao ser humano através de seu mito, pareciam a ele mui real e viva, por mais absurda que possa parecer à nossa consciência moderna.
A consciência do ser humano atual não pode aceitar uma interpretação literal dos mitos antigos, como queremos crer que seres humanos daqueles tempos antigos faziam. Pode ser ainda que nem o ser humano da antiguidade acreditava em seus mitos no sentido literal, como imaginamos que ele cria. No entanto, acreditava na realidade literal que animava aqueles mitos. Todavia, ele não admitia isso. Tal ocorria devido a que ele ainda vivia a maior parte do tempo num estado de consciência automática que lhe permitia perceber e participar de uma coisa sem ter um entendimento consciente próprio da mesma.
Os requisitos que se apresentam ao ser humano moderno são de ordem bem diferente. A consciência automática deve ser descartada em favor de uma consciência própria, plena, vigilante. Somente dessa maneira o ser humano se capacitará a compreender a verdade que percebe, e, por meio dessa compreensão, se colocar numa posição de adquirir domínio de si mesmo e se tornar o dono de seu destino.
Essa transição de estado de consciência não ocorre de uma vez, e, nesse entretempo é possível que muitas complicações se apresentem. Quando ocorre a perda da consciência automática, então, e somente então, surge o perigo de que o ser humano comece a acreditar numa interpretação literal de seus mitos. Nesse ponto podem acontecer duas coisas. Uma consciência que começa a demandar mais e mais entendimento e explicação daquilo que percebe pode rejeitar os mitos que uma vez lhe falaram por causa do agora aparente absurdo. Ou, tornando-se incapaz de distinguir entre a roupagem exterior de um mito e a verdade interna que ele contém, alguém pode também se tornar incapaz de distinguir entre símbolos e realidades.
A tarefa que, hoje em dia, o ser humano enfrenta é a de apanhar a verdade espiritual direta e conscientemente onde ele antes apanhava indireta e automaticamente. Um estudo da mitologia pode auxiliá-lo a fazer isso, se ele a encarar da maneira apropriada. Cabe-lhe deixar de pensar nos mitos como coisas de mera curiosidade ou encantadores pequenos exemplos da ignorância dos povos antigos e pré-históricos. Deve reconhecer que há uma verdade espiritual que permanece atrás e constitui a origem de um mito, da mesma forma como há um ser espiritual como origem do corpo físico. Então, plenamente consciente, deve-se esforçar para perceber o que é aquela verdade espiritual que em outras idades lhe falava automaticamente. Com essa convicção vem o conhecimento, e desse conhecimento pode se desenvolver uma força que é a alma daquele mito. De forma idêntica, a alma do ser humano é criada por seu Espírito, trabalhando através de seus três diferentes veículos: os Corpos Denso, Vital e de Desejos.
Quando efetivamente chegamos a um entendimento lúcido das verdades espirituais contidos em certos mitos, isso produz um efeito sobre nossa consciência, difícil de explicar. É semelhante ao que experimentamos quando encontramos novamente um ser querido ou um amigo chegado, para nós desaparecido por muitos e muitos anos. O processo de amadurecimento que ambos atravessaram torna o reatamento muito mais agradável e possibilita a cada um compartilhar com o outro de uma maneira mais completa do que antes. Em cada um uma apreciação mais profunda em relação ao outro é despertada.
Acontece o mesmo com o ser humano e seus mitos. Esses mitos têm estado perdidos para ele por um longo tempo. E ele agora readquire algumas de suas forças e beleza, como uma criança em sua fascinação com contos de fada. Mas quando alcança uma compreensão autoconsciente de seus significados, esses mitos lhe falarão novamente. Esse novo relacionamento não é meramente uma continuação da mesma coisa que experimentou no passado, mas é a complementação de alguma coisa que não havia se completado naquela ocasião. As impressões que a mitologia causou em nossas vidas há tempos ressuscitarão para uma nova vida, na qual o ser humano, o microcosmo, pode ser auxiliado a encontrar o seu caminho de volta ao macrocosmo, plenamente consciente.
Naturalmente, devemos reconhecer que muitos mitos, da forma em que nos chegam, são uma corrupção de sua verdade, causada pela interferência de nossa consciência automática. Isso, porém, não deveria fazer com que desprezássemos seu valor integral.
Na Mitologia Grega encontramos a estória de Prometeu e Hércules. Prometeu era filho dos parentes de Titã e ele próprio era considerado como um Titã. Era campeão do ser humano e antagonista de Zeus, o chefe dos deuses, a favor do ser humano. Falava-se que ele havia moldado o ser humano da argila e muitas das artes da civilização eram atribuídas a ele. A dádiva com ele sempre associada é o fogo, que roubou do céu numa haste de cânhamo e trouxe à terra. Prometeu também enganou a Zeus na aceitação da pior parte nos sacrifícios que o ser humano oferecia aos deuses. Em punição a tudo isso Zeus confinou Prometeu ao pico de uma montanha e mandou uma águia para devorar seu fígado. Depois de idades de sofrimento Prometeu foi finalmente libertado por Hércules.
Hércules era filho de Zeus e Alomena, um deus e uma mortal. Foi o mais renomado dos matadores de gigantes e monstros — um aventureiro e irrequieto batalhador, que realiza façanhas aparentemente impossíveis. Embora Hércules participasse praticamente de qualquer espécie de aventura concebível, as mais importantes, além de libertar Prometeu, foram seus doze trabalhos.
Os mitos relacionados com Prometeu e Hércules são de especial importância aos estudantes dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental, pois falam do relacionamento de Lúcifer e Cristo com a evolução espiritual da humanidade.
A estória de Prometeu é a estória de Lúcifer, que, em desobediência ao mandamento de Jeová, despertou prematuramente no ser humano uma consciência de sua força criadora. Induziu o ser humano a se rebelar contra a diretriz de Jeová, impondo-se-lhe ser “como deuses, conhecendo o bem e o mal.” O elemento de ferro no sangue foi também introduzido por Lúcifer, capacitando o ser humano a produzir sangue quente no corpo, tornando-se um Espírito interno. Lúcifer trabalha no ser humano através de um dos três segmentos do cordão espinhal, representado pela haste de cânhamo, e incita suas intensas paixões, representadas pelo elemento “fogo”.
Dessa maneira, Lúcifer tem assumido um papel importante na criação do ser humano como ele hoje existe. Efetivamente, muitas de nossas mais valiosas posses devem-se à sua influência, seja em seu todo ou em parte. Entre elas incluem-se o cérebro e a laringe, a habilidade de pensar e adquirir conhecimento independentemente, a capacidade e a inspiração para conquistar o mundo material e a eventual habilidade de se tornar participante consciente nos mundos espirituais.
Em certo sentido, portanto, deve-se agradecer a Lúcifer pelo que tem feito por nós. A desobediência, todavia, tem seu preço, e, ambos, Lúcifer e o ser humano, têm tido o que pagar. O ser humano, através das penas e sofrimentos, da dor e das lutas, pelo mau uso de seu conhecimento e de sua força criadora, despertados e estimulados por Lúcifer. Lúcifer tem de pagar através da perda de sua liberdade e subsequente dependência do ser humano. Ele evolui através da intensidade de sentimento, que só pode provocar através do ser humano. Dessa maneira, tenta nos conduzir às profundezas de nossas emoções. E, se nos permitimos que estas vivifiquem nossos desejos e paixões inferiores, então ambos, ele e nós seremos arrastados para dentro da cova. Porém, se nos afirmamos e lhe permitimos somente intensificar nossas mais refinadas e edificantes emoções, então estaremos conquistando a redenção, tanto de Lúcifer como da humanidade.
A perda da liberdade de Lúcifer é simbolizada por Prometeu sendo acorrentado no pico da montanha. A águia, um símbolo do Signo zodiacal Escorpião, que rege a força criadora no ser humano, devora o fígado de Prometeu. O fígado é a raiz da ligação entre o Corpo Denso e o Corpo de Desejos. Assim indica-se que a redenção de Lúcifer e o fim de sua influência negativa sobre o ser humano só podem se efetivar mediante a purificação e o controle de nossas emoções.
Com sua própria força, todavia, a grande maioria da humanidade é incapaz de transformar a influência negativa de Lúcifer num fator para o bem. Portanto é necessário dar-lhe alguma espécie de auxílio. E esse auxílio veio com Jesus Cristo.
Recordamos que Hércules nasceu de seres divinos e mortais, indicando a natureza composta de Jesus Cristo. Cristo é o mais elevado Iniciado dos Arcanjos, o Espírito Solar, pela Palavra do Qual todas as coisas de nosso sistema solar foram criadas. Jesus foi o mais nobre e puro ser humano disponível na ocasião do advento de Cristo. Foi, portanto, escolhido como o veículo através do qual Cristo se manifestou na Terra durante Seus três anos de ministério como Jesus-Cristo, do batismo à crucificação.
Durante Sua curta permanência na Terra, usando um corpo humano, Cristo foi capaz de passar e sobrepujar todos os diferentes males e tentações aos quais o ser humano está sujeito. Isto é simbolizado pelos doze trabalhos de Hércules, que representa toda a variedade de experiências que sobrevêm ao ser humano através dos doze Signos do Zodíaco. Passando através do Mistério do Gólgota, Ele nos deu o poder de também ultrapassar todos esses males e tentações. Dessa maneira, através do poder de Cristo, podemos vencer o mal com o bem, para a redenção da humanidade e de Lúcifer. Assim é que Hércules finalmente consegue libertar Prometeu e terminar seu sofrimento.
Muitos mitos e lendas contam essa mesma estória. Portanto, há uma lista de muitos lideres e mestres espirituais que padronizaram suas vidas com base nessa estória. Se não aprendemos a distinguir o símbolo da realidade, é possível incorrermos em grande erro. Esse erro é acreditar em que a vida de Jesus Cristo é apenas uma outra vida padronizada nessa mesma arquetípica estória, nada tendo de peculiar que O distinguisse dos outros de uma categoria idêntica.
A verdade é que a vinda do Cristo se constituiu no único e maior evento na história espiritual da humanidade. Todos os mitos, lendas e vidas de seres humanos de poder espiritual que precederam a Cristo serviram para preparar a consciência humana para aquele evento; apenas anteciparam um vislumbre daquilo que viria. Em Cristo temos aquilo que foi enunciado; temos a realização daquilo que foi preparado. Em Jesus Cristo temos a verdadeira presença de Deus na Terra; a presença do Criador em Sua Criação. Todos os que vieram antes foram apenas Seus servidores. Todos os que vierem depois, seguirão Suas pegadas.
Portanto, se somos capazes de perceber corretamente isso dentro de nós mesmos, reconhecemos que certos mitos, lendas e vidas de seres humanos de poder espiritual prepararam o ser humano para entender essa verdade: “que ante o nome de Jesus Cristo todo joelho se dobra e toda boca deve confessar que Jesus Cristo é o Senhor, para a Glória de Deus Pai.”
(Traduzido da Revista Rays from The Rose Cross e Publicado na Revista Serviço Rosacruz de novembro/1977)
Descanso: o que é e o que não é
Muitas definições da palavra descanso se encontram nos dicionários. As duas mais comuns são: repouso ou refrigério do corpo devido ao sono, e parada ou interrupção do movimento do labor, quietude, tranquilidade. Outra definição que à primeira vista engloba as outras duas, mas que também pode ser entendido em um sentido de atividade é: liberdade de qualquer coisa que disturbe ou moleste a paz da mente ou do espírito.
O sono é essencial para todos, já que somente por meio do sono é que as substâncias do Corpo Denso são reconstituídas e recobram o ritmo. O sono, contrariamente à ciência popular, é um momento de intensa atividade. O Ego leva o veículo mental e o Corpo de Desejos ao Mundo do Desejo, deixando o Corpo Denso e Vital para trás. Como as vibrações harmoniosas do Mundo do Desejo fluem através da Mente e do Corpo de Desejos, o ritmo e a harmonia desses veículos são gradualmente restabelecidas. Os veículos superiores banham-se na essência de desejo e quando estão completamente fortalecidos começa o trabalho no Corpo Vital. Depois o Corpo Vital, usando a energia solar, remove todos os resíduos acumulados durante o dia no Corpo Denso e o reconstrói: como resultado, teremos um corpo fresco e vigoroso pela manhã quando o Ego entra nele no momento de despertar. Se essa atividade não tivesse acontecido, nos sentiríamos fatigados quando despertássemos, como quando no momento em que adormecemos, e nossos corpos físicos logo se inutilizariam.
Uma distinção entre descanso e sono é feita no Conceito Rosacruz do Cosmos, onde lemos: o descanso não é nada em comparação com o sono. É somente quando os veículos superiores estão no Mundo do Desejo que há uma total suspensão de desgaste e influxo de força regenerativa. É verdade que durante o descanso o Corpo Vital é obstruído em seu trabalho pelos tecidos que estão sendo danificados pelo movimento e os músculos tensos, mas, no entanto, deve lutar com o gasto de energia do pensamento e por isso recebe a energia recuperadora do exterior do Mundo do Desejo durante o sono.
Por isso vemos que o sono é absolutamente essencial para a supervivência de nossos Corpos Densos e que nenhuma quantidade de atividade calma, leitura ociosa é substituto adequado.
A atividade restabelecedora do sono tem lugar de uma maneira fácil e com êxito quando o Ego se comportou de uma maneira limpa e consciente durante o dia. Se obedeceu a lei natural e os ditados do sentido comum para cuidar de seu corpo físico, se seus pensamentos foram bons e amorosos e seus comportamentos altruístas, os veículos superiores, rapidamente restabelecidos, serão capazes de fazer seu trabalho sobre o Corpo Vital. Dessa maneira tampouco haverá problema em revitalizar o corpo físico.
Se, pelo contrário, o Ego caiu em comportamentos viciosos, ou excesso de alimento ou bebida, se teve sentimentos como o medo, ressentimentos e repugnância, a desarmonia em todos os veículos é tão grande que o restabelecimento, às vezes, não pode ser completo. Se caiu em emoções baixas, leva muito mais tempo retomar os veículos mentais e de desejo a um estado no qual possa trabalhar sobre o Corpo Vital. Dessa maneira, o trabalho no corpo físico também se atrasa e pode não estar terminado pela manhã.
Até se as aberrações fossem puramente físicas, os 4 veículos estariam em relação entre si, o que afeta a um, afeta a todos, e o restabelecimento não se faz.
É por isso que muitas vezes despertamos com certo mal-estar, envenenamos de tal forma todo o sistema que não é possível fazer o ajuste necessário.
Por razões puramente físicas, tanto como por razões espirituais, vemos quão importante é levar uma boa vida, moderada, dedicada aos demais. Com referência à segunda definição que tem a conotação de paralisação de movimento e o restabelecimento de tranquilidade e quietude, concluímos que certamente tem seu lugar em nossa rotina diária. O labor físico pode ser sustentado somente por um certo período, depois do qual o corpo deve ter um período de inatividade.
A quietude e a tranquilidade, entretanto, não são sinônimos. Todos conhecemos pessoas que desejam servir aos demais por causa da fadiga. Ao tratar de curar essa fadiga, no entanto, não tratam de dormir, o que lhes daria o restabelecimento que necessitam, mas gastam seu tempo em tarefas sem importância como assistir TV, beber coquetéis porque se estão relaxando ou a leitura de alguma publicação de mérito duvidoso, já que a cabeça não lhes dá para ler nada mais.
Essas atividades, no entanto, não lhes confere a tranquilidade desejada ainda que a pessoa possa pensar que o está fazendo.
Se a dor de cabeça resultante, a irritabilidade ou qualquer outra reação não agradável ao seu comportamento improdutivo servem ultimamente somente para fazer a pessoa se sentir pior do que estava antes geralmente a vemos no dilema de “Estou tão cansada, mas não fiz nada”.
Enquanto o corpo físico descansa, os demais veículos podem utilizar-se de algo produtivo. Às vezes, o pensamento é mais produtivo quando o corpo está inativo, depois de um período de movimento intenso.
Muitas espécies de serviços podem ser prestadas em uma posição sedentária. A boa literatura e a música clássica são boas alternativas para abandonar as revistas e a chamada “música popular”, pois têm um efeito mais desejável sobre o Ego e os veículos superiores.
Também a atividade mental intensa deve ser seguida por um período de relativa quietude para a Mente. Esse período também não necessita ser improdutivo. A Mente pode descansar enquanto o corpo se exercita nas tarefas da casa, no jardim, esportes ao ar livre. O que é descanso para um veículo geralmente significa necessidade de estimulação para outro.
Por isso, o pior que podemos fazer, depois de um dia sedentário de trabalho, é nos pormos a fazer algo similar ao chegarmos em casa.
Nossos veículos requerem uma mudança de ritmo periódica de modo que possam manter uma interação harmônica entre eles.
Para manter essa harmonia, a essência da terceira definição deve encontrar-se em tudo o que fazemos.
A paz mental é o ingrediente principal que deve encontrar-se como base de todas as atividades que fazemos se formos fazê-las o melhor possível. Esse estado do ser pode ser comparado com o equilíbrio que o estudante deve ter e cultivar. Se carecemos dessa quietude, a tranquilidade não pode penetrar totalmente em nenhum dos veículos.
Muitas pessoas se dedicam a atividades que ao contrário do que elas esperam, não as relaxam.
Uma tarde em um restaurante com amigos comendo alimentos saudáveis pode ser um momento de distração e um bom descanso depois de um dia de trabalho.
Uma tarde bebendo e dedicada a entretenimentos duvidosos que se continua até altas horas, com ideia que se trabalhamos muito, devemos nos divertir muito, leva a uma eficiência reduzida no dia seguinte e não a uma paz interior, não importa o quanto a pessoa esteja se divertindo. Essa espécie de relaxamento leva-o a uma desarmonia completa.
Paz mental não se consegue com a inatividade, na realidade essa produz o efeito contrário. Essa paz se consegue realizando atividades que estejam de acordo com a lei natural, benéfica aos demais e que desenvolvam nossas qualidades espirituais.
Se vivemos a vida recomendada na Filosofia Rosacruz, teremos paz mental, não importa o quão ocupado que estejamos.
O descanso será necessário, mas será de natureza produtiva e nunca deixaremos de crescer e aprender. Ademais, desenvolveremos uma força interior não conhecida até agora, que nos possibilita fazer uma obra maior sem a necessidade de descanso.
Se vivemos uma vida indulgente e egoísta, concentrando nossos esforços só no que nos agrada e depreciando a ética espiritual, nos encontraremos permanentemente em uma situação de discórdia interna na qual teremos altos e baixos de humor. Nenhuma quantidade de descanso concentrado em tarefas improdutivas nos curará disto.
O tipo de descanso que assegura a tranquilidade espiritual deve ser de natureza tão positiva como o trabalho que nos conduz a essa meta. Não podemos dividir nossas vidas de maneira que nosso trabalho e descanso não tenham nenhuma relação um com o outro. Tampouco podemos pretender que o que fazemos em nossos momentos de descanso não tenha nada a ver com nossa natureza total.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – jul/ago/87)
Pergunta: Quando oramos para o Cristo as nossas preces realmente o alcançam, ou são respondidas, ou recebidas por um ser menos elevado?
Resposta: Aprendemos nos Ensinamentos Rosacruzes que uma das funções do grande Ser ao qual conhecemos como Cristo – o maior de todos os Arcanjos, o mais elevado Iniciado do Período Solar, o Deus-Filho -, o Espírito Planetário da Terra, é de impregnar nosso Planeta com Sua vida e abastecer a atmosfera com Suas vibrações espirituais, para estimular a humanidade na sua evolução espiritual.
Há uma ligação direta entre cada indivíduo disposto a Viver uma Vida seguindo os Seus ditames e o Espírito de Cristo.
Essa ligação é mantida pela formação do Corpo-Alma, o veículo composto pelos dois Éteres Superiores do Corpo Vital (o Éter Luminoso e o Refletor).
O Corpo-Alma é o produto do altruísmo, do serviço, da pureza e da aspiração espiritual. Os Éteres que o compõem estão em correlação direta com o Mundo do Espírito de Vida, o lar espiritual do Cristo (onde ele trabalha e vive cotidianamente, como nós, quando renascidos aqui, vivemos cotidianamente no Mundo Físico).
Dessa forma o Ego que consegue constituir o seu Corpo-Alma liga-se em correlação direta com o Espírito de Cristo.
Quando oramos para o Cristo, oramos, na realidade, ao Espírito de Cristo dentro de nós, o segundo aspecto do Tríplice-Espírito, ou Ego Superior.
A oração evoca, às vezes, a ajuda de Seres Superiores, que vem auxiliar a pessoa suplicante.
Devemos lembrar, porém, que a oração científica consiste de glorificação e adoração.
Como disse Max Heindel: “Quando oferecemos orações de agradecimento e louvor, colocamo-nos numa posição favorável em relação à Lei de Atração, e estamos num estado de receptividade que permite que possamos receber uma maior dádiva do Espírito do Amor e da Luz”
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de Novembro/1974)
Não tem escapado à observação de Estudantes, simpatizantes e pessoas ligadas à Fraternidade Rosacruz a nossa despreocupação em arregimentar a qualquer custo grande número de prosélitos. Há quem diga que uma propaganda em massa faria, inevitavelmente, nossas salas de reuniões lotar, ensejando, além disso, um consumo sem precedentes de livros e publicações Rosacruzes.
Por uma questão de coerência com os nossos próprios Ensinamentos recusamo-nos terminante e conscientemente a lançar mão de propagandas que envolvam o espetacular e o emocional. Não utilizamos “iscas” na forma de psiquismo sensacionalista. Não prometemos mundos e fundos. Aos desejosos de filiar-se à Fraternidade, oferecemos apenas os Ensinamentos Rosacruzes, além da orientação e do ideário por eles encerrados. Todas as outras conquistas decorrem do mérito reunido pelo aspirante na superação do “eu inferior”.
É um problema individual e interno. Aos relutantes em admitir essa verdade, Max Heindel responde: “Só a persistente paciência em fazer o bem qualifica o Aspirante aos degraus da Iniciação”. E nós acrescentamos: esse “fazer o bem” tem um sentido bem amplo. Não implica somente beneficiar a outrem, mas também a si próprio pela autodisciplina, purificação dos sentimentos e pensamentos etc.
Francamente, considerando o estágio espiritual em que se encontra a humanidade, não acreditamos na possibilidade de, atualmente, a Filosofia Rosacruz atrair grandes multidões. Quem deseja melhorar-se interiormente? Quantos se acercam das Escolas Ocultistas com honestidade de propósito?
Só motivações de ordem externa empolgam as massas. Se acenássemos com fenômenos, enigmas envoltos no véu do mais profundo mistério, iniciações fáceis ou voos anímicos, atrações tão ao gosto da curiosidade popular, por certo atrairíamos muitas pessoas; todavia, quedariam, mais tempo, menos tempo, decepcionadas, porque suas pretensões ilusórias, somadas a uma visão caricata do verdadeiro espiritualismo, não resistiriam ao crivo austero do método Rosacruz de desenvolvimento.
A verdade nua e crua é que muitos seres se alentam ao aproximar-se das Escolas Filosóficas, e mesmo das religiões, com o intuito egoísta de resolver seus problemas mundanos relacionados, via de regra, ao amor, dinheiro e saúde; quando não, por mero diletantismo. Descuram-se de procurar em si mesmos a tão ansiada solução, configurada internamente como autorregeneração e observância às Leis Divinas.
Poucos se dispõem a assumir responsabilidades, tornando-se condutores de si próprios. É mais cômodo delegá-las a “mestres”, “guias”, “líderes”, eternas “muletas” de quem detesta um mínimo de esforço.
Essa posição de comodidade contraria frontalmente o método Rosacruz, basicamente aquariano, por almejar, desde o início, libertar o aspirante de toda e qualquer influência externa, tomando-o confiante em si mesmo, no mais alto grau.
As multidões, ainda nos dias de hoje, procuram ansiosamente por líderes, de preferência carismáticos, prontos a dirigi-las, comandá-las, determinar-lhes o caminho. Bebem e embriagam-se de palavras grandiloquentes. Arrebatam-se com frases de efeito, com o magnetismo derramado da retórica pomposa, do sofisma traiçoeiro e de elogios nem sempre sinceros. O líder diz exatamente aquilo que a multidão deseja ouvir.
Na Fraternidade Rosacruz não há líderes. Nem o seu fundador pretendeu essa investidura. Ele, um Iniciado de caráter nobre, forjado no sofrimento e na compaixão, foi apenas um orientador sábio e amoroso. Pautou sua conduta pelo respeito ao livre-arbítrio do seu semelhante. Jamais andou à cata de encômios e reconhecimentos. A dedicação e o sacrifício que o consumiram, a simplicidade que lhe era peculiar e seu exemplo edificante constituem uma inesgotável fonte de inspiração. Vislumbramos nosso roteiro e encontramos nossa vocação espiritual nestas suas lapidares palavras: “Cada um, movido pelo Espírito do Amor Interno, deve trabalhar sem lideranças pela elevação física, moral e espiritual da humanidade, à altura de Cristo, o Senhor e a Luz do Mundo”.
Todas as atividades desenvolvidas no seio da Fraternidade Rosacruz revestem-se de um sentido estritamente impessoal. O desejo de servir constitui o móvel de toda a ação, mantendo-se como ponto de honra a renúncia aos apelos da personalidade. A única recompensa aspirada é receber novas e maiores oportunidades de colaborar.
O exposto esclarece por que o número de Estudantes Rosacruzes ainda não é tão grande como muitos desejam que fosse. Mesmo que centenas ou milhares de pessoas acorram à Fraternidade, nela apenas a minoria permanecerá. E ainda assim, alguns desistem no meio do caminho. Nem todos estão amadurecidos para encarar a luz radiante do Cristianismo Esotérico.
Apesar das dificuldades, o número de Estudantes vem crescendo consideravelmente e o consumo de algumas obras está a exigir novas edições. Muitos jovens nos procuram. Grupos de Estudo estão se formando. Novos colaboradores estão engrossando nossas fileiras. Temos boas razões para confiar no futuro da Obra.
Consta de nossa programática difundir a Filosofia Rosacruz através dos modernos meios de comunicação. Aliás, já o fizemos algumas vezes. Porém, agora, como nas oportunidades anteriores, nosso procedimento assentar-se-á no critério de divulgar sem objetivar proselitismo. Além disso, nós, os Estudantes, poderemos nos tornar os maiores e mais eficientes divulgadores da Filosofia Rosacruz, por meio de uma vida exemplar cuja ressonância superará as mais comoventes e eruditas palavras.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de maio/1975)
Para quem embarcou na Jornada para o “Reino dos Céus” todas as ideias metafísicas são mais interessantes ou menos, têm seu lugar e uso. Todavia, o que mais o preocupa é o aquilo que deve fazer para ajudar a si próprio em seu progresso e como deve comportar-se em suas relações com seu ambiente e semelhantes a fim de obter o máximo de benefício espiritual. Para chegar a um entendimento adequado do que é necessário, vamos considerar um pouco o lado mundano da vida. Vemos os seres humanos do mundo lutando e esforçando-se para realizar suas diversas ambições e propósitos na vida; enfrentando decepções, sofrimentos, tristezas e problemas de inumeráveis tipos. Todas essas dificuldades, provações, decepções e sofrimentos têm seu proveito e espaço, na ordem Divina. Eles vêm para separar nossos corações do mundo, para afrouxar o domínio do mundo dos sentidos sobre nós, para nos fazer buscar a paz e descansar onde ela pode ser encontrada.
Quando um ser humano chega a ver que o mundo material e externo nunca dá e nunca pode dar a paz e felicidade permanentes, ele precisa de pouco para se iniciar no Caminho Celestial. No entanto, para quem começou há pouco tempo, ainda existem problemas e provações, pelo menos por um tempo, mas agora com um propósito diferente: aperfeiçoar o caráter. Nenhuma qualidade ou virtude, por mais desejável que seja, pode realmente se tornar parte do nosso caráter até que a incorporemos à nossa natureza, vivendo-a na vida cotidiana, às vezes sob condições árduas, difíceis.
Podemos pensar e meditar frequentemente sobre a virtude da paciência; contudo, a menos que tenhamos oportunidades frequentes para o seu exercício, sob as condições difíceis da vida diária, nunca seremos positivamente fortes nessa virtude. Assertiva essa válida para a humildade, a mansidão, a brandura e todas as outras virtudes Cristãs. O crescimento só vem do exercício. Assim, os vários problemas, decepções, tristezas e aborrecimentos da vida tornam-se apenas muitas oportunidades de exercitar a fé e o amor, a bondade e a paciência. Toda tentação simplesmente aponta para um ponto fraco em nossa natureza. Não poderia ser uma tentação, se fôssemos fortes. Toda tristeza, problema ou irritação afeta apenas uma parte do nosso orgulho, egocentrismo ou egoísmo.
O egoísmo, em algumas de suas muitas formas, é a causa primária de todos os nossos problemas — amor próprio, orgulho egoísta, vontade própria, opinião egoísta, egoísmo. Ele, em suas variadas formas, é o único inimigo que temos que vencer e, ao vencer, vencemos o mundo; como só podemos superar nossa natureza egoísta pelo poder da natureza do Cristo interior, quando completamos esta, a maior de todas as conquistas, nós nos tornamos um com a natureza de Cristo. Ao nos tornarmos unos com o Cristo, manifestaremos amor puro, altruísta e santo por todos os homens e, desse amor, florescerá natural e inevitavelmente toda a virtude Cristã. “O amor é o cumprimento da lei”.
A liberdade de Cristo, mencionada em vários lugares da Bíblia, é a liberdade ou emancipação obtida pelo desapego do mundo e pela superação do egoísmo. Vivemos então no mundo, mas não somos do mundo. A obtenção da perfeita tranquilidade de mente e coração, inabalável por qualquer agente, é a evidência da superação. É a base da paz duradoura e o fundamento de uma felicidade sempre crescente.
Desse modo, vê-se que a vida nada mais é do que uma grande escola espiritual. E cada um de nós está em uma classe, sozinho, e ela é composta pelas várias circunstâncias e condições de nossa vida, as situações mais adequadas para promover o crescimento espiritual. É um reflexo da nossa condição espiritual. O que vemos em nosso ambiente é uma imagem de nós mesmos. Portanto, se não gostamos de uma condição ou circunstância específica, devemos olhar para dentro de nós próprios e aprender a lição que ela pretende ensinar. Logo, fazemos uso dessa condição e a superamos. “Recusar-se a ser escravizado por qualquer coisa externa ou acontecimento, vendo isso como lição para nosso uso e educação: isso é Sabedoria. Ser paciente em todas as circunstâncias e aceitar todas as situações como fatores necessários em nosso treinamento significa elevar-nos, tornar-nos superiores a todas as condições dolorosas e superá-las com uma vitória que é certa, porque pelo poder da obediência à Lei elas serão totalmente mortas”.
A grande maioria da humanidade ainda está na turma do jardim de infância, aprendendo as lições simples e fundamentais da vida, progredindo lentamente ao longo do caminho evolutivo. Entretanto, para aqueles que, sabendo o que buscam, estão se esforçando para alcançar o estado Celestial, todos os dias trazem oportunidades para sacrificar o egoísmo, servir seus semelhantes e amá-los. Cada erro que eles cometem e toda queda contêm lições de humildade, paciência, coragem. Eis que todas as coisas são boas. “Todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam o Senhor, daqueles que são chamados de acordo com o Seu propósito.” Sim, e todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que Deus ama — Ele pode dar algo que não seja bom e nós podemos eliminar algo dado por Ele?
Esse entendimento não oferece uma base razoável para a fé ou a confiança no Pai Celestial? Não podemos perceber que a verdadeira sabedoria consiste em dar um dia de cada vez para Deus, deixando a ordem de todas as nossas vidas para Aquele que sempre busca nossa perfeição e felicidade? Nossa perfeição é realizada não tanto pelo que fazemos, mas por permitir que a Vontade Divina aja através de nós. É mais cedendo nossa vontade em obediência, “desejando fazer a vontade Dele”, do que por nossos próprios esforços em direção à perfeição. As Leis universais são perfeitas em sua operação e, mesmo quando impedidas por nosso entendimento imperfeito, levam-nos pelo caminho mais curto e fácil para alcançar a perfeição adequada da mente e do coração, que é a vontade do Pai Celestial para cada um de nós. Devemos acreditar que tudo o que for necessário para o nosso crescimento e desenvolvimento sempre virá e na hora certa. O caminho da vida é muito simples. É pela obediência, pela confiança. Temos nossa parte a fazer — é a obediência. Sempre podemos confiar que o Pai Celestial faça Sua parte. Cristo disse: “A semente brota, não sabe como; primeiro a folha, depois a espiga, depois o milho cheio na espiga”. Nosso desenvolvimento espiritual não é sentido pelo ser humano natural. É um crescimento interior, tão silencioso e gentil que escapa à observação comum. Somente comparando o presente com o passado somos capazes de discernir a mudança em nossa natureza. Cada passo nos aproxima do estado celestial. Emerson disse: “Nada se torna nossos lábios, senão pausas de louvor e agradecimento”. Não podemos escapar do bem.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de outubro/1915 e traduzido pela Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)