Terra de Ninguém

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Terra de Ninguém

Na terminologia de guerra, “Terra de Ninguém” significa a faixa de terreno situada entre a linha mais avançada de trincheiras dos exércitos em combate; uma área que ninguém pode atravessar, vindo de qualquer um dos lados, sem ser alvejado; onde os mortos permanecem e de onde, se possível, os feridos são retirados furtivamente durante a noite.

Ela sonhava, mas sabia que estava acordada e fora de seu Corpo Denso. Ao seu redor havia uma luz brilhante, e ela estava com sua mãe muito amada, que havia partido muitos anos antes. A mãe vestia uma túnica resplandecente e seu rosto irradiava luz. Elas conversavam sobre certos pontos dos Ensinamentos Rosacruzes quando a Sonhadora começou a ler em voz alta um poema intitulado “Terra de Ninguém”; à medida que prosseguia na leitura daquela descrição sublime, visões belíssimas se descortinavam, e o poema parecia transformar-se gradualmente em realidade. Sua mãe, tomando-a pela mão, conduziu-a a uma esfera de luz indescritível, onde reinavam a felicidade e a bem-aventurança perfeitas. Ela disse: “Esta é a ‘Terra de Ninguém’, e recebe esse nome porque não pertence a nenhum ser humano, raça ou nação em particular. Aqui, todos são irmãos.”. Elas permaneceram juntas no limiar e contemplaram o cenário; a Sonhadora viu miríades de seres, todos vestidos como sua mãe e com o mesmo amor radiante transparecendo em seus rostos, enquanto uma voz lhe dizia: “Aqui somos todos um, embora tenhamos vindo de todas as nações e países da Terra. Não existem inimigos aqui”.

Enquanto observava, a Sonhadora viu pessoas que, assim como ela, estavam no limiar contemplando aquela multidão gloriosa, mas que retornavam à Terra para suas atividades cotidianas. À medida que se aproximavam de seus corpos, pareciam esquecer o que haviam visto. Ela perguntou à mãe a razão disso, e ela respondeu: “É porque ainda não aprenderam o que é necessário para permanecer aqui”. Então, a Sonhadora começou a sentir-se atraída para baixo, em direção ao seu próprio corpo, embora contra a vontade dela. Ela disse: “Diga-me, mãe, o que devo fazer para ficar aqui? Não quero ir embora”. A mãe respondeu: “Você deve voltar e cumprir seu dever diário; ainda não é hora de você permanecer aqui. Mas leve consigo o Cristo, revestido de veículos ou corpos: o mais interior sendo o veículo do Pensamento Abstrato; o seguinte, mais externo, sendo o veículo do Pensamento Concreto; e o mais externo, ou mais denso, sendo o Corpo de Desejos”. Tão rarefeitos eram os Corpos dos habitantes da Terra naquela época que eles não eram afetados nem pelo calor nem pelo frio; eram como salamandras, ou seres ígneos. Não eram seres com Consciência de Vigília — nem mesmo quando se densificavam até o plano do desejo —, mas viviam inteiramente dentro de si mesmos.

O desejo deles voltava-se para o mais elevado estado espiritual de que eram capazes: o estado do Espírito de Vida. Eram tão altamente sutilizados que se apresentavam como seres radiantes, possuindo uma glória muito superior à do nosso Sol atual. Verdadeiramente, este foi a “Era de Ouro” da história do nosso mundo, o período de inocência infantil e bem-aventurança, quando — como nos diz o Cristo, referindo-se ao estado de inocência infantil — “no céu, os seus Anjos contemplam sempre a face de meu Pai, que está nos céus” (Mt 18:10). Era o estado dos mais elevados céus com os quais a Terra se relaciona, e dos mais elevados seres angélicos — ou melhor, do próprio Logos, o Sol de Deus — na escala descendente.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de dezembro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)

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