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porFraternidade Rosacruz de Campinas

Uma Conversa em Mount Ecclesia: como devo servir?

Quem quer que esteja acostumado a conviver com Estudantes Rosacruzes certamente já deve ter ouvido esta pergunta:

“Como devo servir?”. E, pela frequência com que essa pergunta é feita, poder-se-ia concluir que todas as oportunidades foram avidamente aproveitadas; mas confesso, com pesar, que não é bem assim.

Você se lembra daquela música Cristã muito apreciada, “Guia-me, Luz Bendita”[1], que contém o verso: “Eu amava escolher o meu próprio caminho”? É assim que agimos, a maioria de nós. Há apenas certas coisas que gostamos de fazer, e aquele velho clamor infantil — “Eu não quero” — nos vem aos lábios ou ao coração quando nos sugerem uma forma de serviço que não nos agrada.

Ou, às vezes, o grito nasce do medo: “Ah, eu não consigo fazer isso”, esquecendo-nos do nosso lema: “se andarmos na Luz, como Ele na Luz está, seremos fraternais uns com os outros”. Temos um poder muito maior do que se trabalhássemos sozinhos; e, por trás de tudo, está a força de Nosso Deus-Pai.

Se quisermos seguir a ordem do nosso Mestre, Cristo, devemos ser servos — ou aqueles que servem — de todos. Observe bem: servos, não escravos. O escravo é impelido ao trabalho pelo açoite; o verdadeiro servo serve por amor, como uma honra e um privilégio. Às vezes, ansiamos pela oportunidade de servir a uma grande personalidade, a um instrutor ou a um escritor; contudo, a alma do ser mais humilde da Terra é tão preciosa para Nosso Deus-Pai quanto qualquer outra, e a honra de servi-Lo é igualmente grande — e as oportunidades para isso surgem aos montes, todos os dias.

Mas voltemos à pergunta: “Como devo servir?” A Parábola dos Talentos[2], no capítulo 25 do Evangelho Segundo S. Mateus, ensina-nos que o serviço deve ser realizado com todos os talentos que Nosso Mestre, Cristo, nos concedeu. Nenhum talento ou dom pode ficar guardado; todos devem ser utilizados. Lemos no Livro do Gênesis que Deus nos deu Corpos — o “Primeiro Dom”. Depois, soprou neles o fôlego da Vida — o “Segundo Dom”. E, em seguida, o dom do movimento, da audição, da visão, do olfato, do paladar, do tato e muitos, muitos outros dons ou talentos para serem usados ​​a serviço do próximo. Mas a maior de todas as dádivas é a Vida Eterna, por meio de Seu Filho, Cristo. Se aceitarmos esses dons — ou talentos — um a um e os utilizarmos em sua plenitude a serviço de Cristo, não teremos motivo para fazer a pergunta com a qual começamos. As oportunidades surgirão em tal abundância que as horas, os dias e até mesmo a própria vida parecerão curtos demais.

Retomando a Parábola: aquele que usou todos os seus dez talentos recebeu mais — e assim acontecerá conosco; a visão, a audição e todas as outras faculdades serão ampliadas além da nossa compreensão. Além disso, novos dons nos serão concedidos. Mas não nos esqueçamos de como utilizar esses talentos: o serviço deve ser prestado ao próximo, amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) e focado na Divina Essência oculta em cada um de nós que é a base da Fraternidade. Afinal, perdemos aquilo que gastamos apenas conosco!

Imagine que, na próxima semana, cada um de nós se empenhe em utilizar, a cada dia, um talento em sua plenitude a serviço dos outros. Pode ser o nosso canto ou a nossa música; pode ser a costura ou o trabalho da terra; a agudeza da visão, a precisão da audição, o talento para a organização, para o amor Crístico ou para promover a harmonia no lar. Cada um deles certamente proporcionará um serviço repleto de alegria.

A resposta para a pergunta “Como devo servir?” só pode ser dada por você mesmo. Somente você sabe o que é capaz de fazer e até que ponto pode levar o seu “Templo Vivo” a corresponder aos seus reais anseios, a do Ego, o que realmente somos. Outros podem lhe oferecer sugestões, mas apenas você poderá dizer, ao final do dia, ao seu Corpo cansado: “Muito bem, servo bom e fiel[3]. Sirvamos com todas as partes do templo: o cérebro, a voz, as mãos e os pés. O serviço realizado fora do Templo não tem tanto valor quanto a entrega de si mesmo. Podemos adaptar as palavras de Lowell[4], em “Visão de Sir Launfal” e dizer: “O serviço sem aquele que serve é vazio”. Talvez você pergunte: a quem devemos prestar serviço? Encontramos a resposta no Ritual Rosacruz do Serviço Devocional do Templo: “Serviço amoroso e desinteressado para com os outros” — isto é, para a Humanidade; mas a Humanidade tem duas faces: a física e a espiritual. A qual delas devemos servir? Prestamos muitos serviços no plano físico da vida, provendo alimento, vestuário, abrigo, lazer e assim por diante. Lemos que devemos “procurar servir a Divina Essência oculta em cada um de nós” do Templo físico; mas só podemos servir por meio do Templo físico porque a Divina Essência — o nosso aspecto espiritual— está oculta em nosso interior. Portanto, devemos alcançá-la por meio de nossos pensamentos, ou seja, do motivo subjacente ao ato de servir.

Se nossas vidas forem consagradas ao serviço deve ser prestado ao próximo, amorosa e desinteressadamente (portanto, o mais anônimo possível) e focado na Divina Essência oculta em cada um de nós que é a base da Fraternidade, atrairemos oportunidades da mesma forma que um ímã atrai limalha de ferro.

 (Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de dezembro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)


[1] N.T.: Guia-me, Luz Bendita, em meio à treva que me cerca,

Guia-me Tu!

A noite é escura e estou longe do lar,

Guia-me Tu!

Guarda os meus passos; não peço ver

O horizonte distante; um passo me basta.

Nem sempre fui assim, nem pedi que Tu

Me guiasses;

Eu amava escolher e ver o meu caminho; mas agora

Guia-me Tu!

Eu amava o dia resplandecente e, apesar dos medos,

O orgulho regia a minha vontade. Não te lembres dos anos passados!

Por tanto tempo o Teu poder me abençoou; certamente ainda

Me guiará.

Por charcos e pântanos, por rochedos e torrentes, até que

A noite se vá,

E com a manhã sorriam aqueles rostos de anjos,

Que amei há muito tempo e perdi por um breve instante!

[2] N.T.: 14Pois será como um homem que, viajando para o estrangeiro, chamou os seus próprios servos e entregou-lhes os seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um. A cada um de acordo com a sua capacidade. E partiu. Imediatamente, 16o que recebera cinco talentos saiu a trabalhar com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma maneira, o que recebera dois ganhou outros dois. 18Mas aquele que recebera um só o tomou e foi abrir uma cova no chão. E enterrou o dinheiro do seu senhor. 19Depois de muito tempo, o senhor daqueles servos voltou e pôs-se a ajustar contas com eles. 20Chegando aquele que recebera cinco talentos, entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me confiaste cinco talentos. Aqui estão outros cinco que ganhei’. 21Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’” 22Chegando também o dos dois talentos, disse: ‘Senhor, tu me confiaste dois talentos. Aqui estão outros dois talentos que ganhei’. 23Disse-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor!’ 24Por fim, chegando o que recebera um talento, disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. 25Assim, amedrontado, fui enterrar o teu talento no chão. Aqui tens o que é teu’. 26A isso respondeu-lhe o senhor: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei e que ajunto onde não espalhei? 27Pois então devias ter depositado o meu dinheiro com os banqueiros e, ao voltar, eu receberia com juros o que é meu. 28Tirai-lhe o talento que tem e dai-o àquele que tem dez, 29porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem será tirado. 30Quanto ao servo inútil, lançai-o fora nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes!’

[3] N.T.: Mt 25:21

[4] N.T.: James Russell Lowell (1819-1891) – poeta romântico, crítico, satírico, escritor, diplomata e abolicionista americano.

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