Resposta: Certamente que não, e particularmente não na interpretação extremamente restrita de algumas pessoas que pensam que o livro que temos hoje é o único genuíno já dado à Humanidade. No máximo, poderia ser um dos livros de Deus, pois existem muitos outros escritos sagrados que merecem reconhecimento e não podem ser descartados sumariamente por alguns espertinhos como aqueles que relegaram os chamados livros apócrifos ao esquecimento literário.
Em primeiro lugar, é importante relembrar que o Antigo Testamento foi escrito em hebraico em diferentes épocas e por inúmeros autores, e que nenhuma compilação desses escritos foi feita antes de Esdras. Desses escritos hebraicos, não existe hoje um único fragmento sequer. Já em 280 a.C., o hebraico havia sido abandonado, no que diz respeito à escrita das Escrituras, e a Septuaginta, ou tradução grega, era de uso geral. Essa era a única Bíblia existente na época do nascimento de Cristo. Posteriormente, alguns dos escritos hebraicos foram compilados e cotejados pelos massoretas, uma seita que existiu por volta de 700 d.C. Este é o texto mais completo e preciso.
A tradução inglesa mais utilizada hoje em dia é a Versão do Rei Jaime[1], mas Sua Majestade não estava tão interessada na precisão da tradução quanto na paz, e a lei que autorizou a tradução da Bíblia proibiu os tradutores de traduzir quaisquer passagens de forma que interferissem nas crenças existentes. Isso foi feito para evitar qualquer levante ou dissensão em seu reino, e dos quarenta e sete tradutores, apenas três eram estudiosos de hebraico e dois deles morreram antes que os Salmos fossem traduzidos. Vários livros foram descartados como apócrifos, e palavras foram completamente desvirtuadas de seu significado original para se adequarem à superstição da época. Martinho Lutero[2], na Alemanha, traduziu o texto latino, que por sua vez havia sido traduzido do grego, aumentando assim as chances de transmitir significados errôneos de diversas maneiras. Acrescente-se a isso o fato de que, no hebraico antigo, os sinais vocálicos são omitidos e não há divisão em palavras, de modo que, inserindo-se sinais vocálicos de maneiras diferentes, palavras e frases com significados completamente distintos podem ser obtidas a partir de praticamente qualquer frase. Diante desses fatos, fica evidente que as chances de obtermos uma versão precisa do que foi originalmente escrito eram, de fato, muito pequenas.
Além disso, não era intenção dos autores originais fazer da Bíblia um “Livro de Deus” aberto, como bem se pode ver pela seguinte citação do Zohar[3]: “Ai daquele que vê na Torá[4] (a lei, a Bíblia) apenas recitações simples e palavras comuns, porque se na verdade ela contivesse apenas isso, ainda hoje seríamos capazes de compor uma Torá mais digna de admiração. Mas não é assim; cada palavra na Torá contém um significado elevado e um mistério sublime… As recitações da Torá são as vestes da Torá… Ai daquele que usa esta veste da Torá pela própria Torá… Os simples prestam atenção apenas às vestes e recitações da Torá; eles não conhecem outra coisa, não veem o que está oculto sob a veste; os homens mais instruídos não prestam atenção à veste, mas àquilo que ela envolve”…
Em outras palavras, eles não se atentam à letra, mas apenas ao espírito. E, assim como num campo semeado com batatas não existem apenas os vegetais, mas também o solo onde estão escondidos, na Bíblia as pérolas da verdade oculta estão escondidas em vestes muitas vezes feias ou repugnantes. O Ocultista que se capacitou a possuir essas pérolas recebeu a chave e as vê claramente. Para os outros, elas permanecem obscuras até que também tenham trabalhado para obter essa chave. Assim, embora a história das peregrinações dos filhos de Israel e a relação de um certo Deus com eles sejam parcialmente verdadeiras, há também um significado espiritual muito mais importante do que essa história material. Mesmo que os Evangelhos contenham os principais contornos da vida de um indivíduo chamado Jesus, eles são fórmulas de Iniciação que mostram as experiências pelas quais todos devem passar no caminho para a verdade e a vida.
Esse caminho foi previsto pelas diversas pessoas que escreveram a Bíblia e que, portanto, foram Profetas e Clarividentes, mas apenas na medida em que isso era possível em seu tempo e época. Uma nova era exigirá uma nova Bíblia, uma nova palavra.
(Pergunta nº 78 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: A Bíblia do Rei Jaime (ou Tiago), também conhecida como Versão Autorizada do Rei Jaime, é uma tradução inglesa da Bíblia realizada em benefício da Igreja Anglicana, sob ordens do rei Jaime I no início do século XVII.
[2] N.T.: Martinho Lutero (1483-1546) foi um padre, teólogo, autor, compositor de hinos, professor e ex-frade agostiniano alemão. Lutero foi a figura seminal da Reforma Protestante e suas crenças teológicas formam a base do Luteranismo.
[3] N.T.: O Zohar (“esplendor” ou “radiante”) é o trabalho fundamental da literatura cabalista e do misticismo judaico. Trata-se de uma coleção de comentários místicos sobre a Torá (os cinco livros de Moisés), escritos parcialmente em aramaico e hebraico medieval. O Zohar contém uma teosofia cabalista, que trata da natureza de Deus, da cosmogonia, da cosmologia, da alma, do pecado, da redenção, do bem e do mal, do “eu verdadeiro”, da luz de Deus, e da relação entre a energia universal e o ser humano. A sua exegese escriturística é considerada uma forma esotérica de literatura rabínica, conhecida como Midrash, elaborada a partir da Torá. O Zohar é escrito principalmente no que hoje é descrito como sendo um estilo cripto, obscuro, de aramaico. O aramaico, a língua do dia a dia de Israel no período do Segundo Templo, foi a língua original de grandes seções dos livros bíblicos de Daniel e de Esdras: é a principal língua do Talmude.
[4] N.T.: A Torá é o livro sagrado do judaísmo. O Pentateuco, literalmente “cinco partes ou seções”, é composto pelos cinco primeiros livros da Bíblia. Entre os judeus é chamado de Torá, uma palavra da língua hebraica com significado associado ao ensinamento, instrução, ou literalmente Lei, uma referência à primeira secção do Tanakh, os primeiros cinco livros da Bíblia hebraica. O Pentateuco é, para os Cristãos, a totalidade dos cinco primeiros livros da Bíblia. Para os judeus, esses cinco livros constituem a Torá. Eles apresentam a história do povo de Israel desde a criação do mundo até a morte de Moisés.
Resposta: O Credo dos Apóstolos só foi composto séculos depois dos Apóstolos terem falecidos, e então passou a ser interpretado como a expressão daquilo em que eles acreditavam. Nem eles, nem a Bíblia ensinam a ressurreição do Corpo. Essa expressão não se encontra em nenhum lugar na Bíblia. Na versão do Rei Jaime[1], lemos (Jó 19:26), “ainda que os vermes devorem a minha pele, em minha carne verei a Deus”, e essa passagem é o principal argumento dos que se esforçam para estabelecer essa doutrina absurda. No entanto, os tradutores nomeados pelo Rei Jaime eram estudiosos do hebraico com pouca experiência, e a maioria morreu antes da tradução estar completa. Na Versão Revisada[2], encontramos outra interpretação, que diz: “E depois da minha pele, também esse corpo será destruído; então, sem a minha carne verei a Deus“. A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus; portanto, qual seria a utilidade de ter um corpo tal como o que temos agora? Além disso, este corpo precisa ser perpetuado no presente, e aprendemos que na ressurreição não haverá casamentos – outro argumento que demonstra que será usado um veículo diferente do carnal. Ademais, é um fato científico conhecido e já estabelecido que os átomos de nossos Corpos Densos estão constantemente se renovando[3]. Ora, se houver uma ressurreição do Corpo, quais seriam os conjuntos de átomos que apareceriam no corpo ressuscitado? Ou, se cada átomo que já esteve em nosso corpo, desde o nascimento até a morte, estiver presente nesse corpo ressuscitado, não seria uma enorme aglomeração, visto que teríamos então corpos imensos compostos de várias camadas? Seria, de fato, um enigma científico. Ora, como diz S. Paulo, “O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio.” (ICor 15:36-38).
(Do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. II – Pergunta Nº 75 – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: A Bíblia do Rei Jaime (ou Tiago), também conhecida como Versão Autorizada do Rei Jaime (em inglês: Authorized King James Version), é uma tradução inglesa da Bíblia realizada em benefício da Igreja Anglicana, sob ordens do rei Jaime I no início do século XVII. É o livro mais publicado na língua inglesa, sendo considerado um dos livros mais importantes para o desenvolvimento da cultura e língua inglesa.
[2] N.T.: A Versão Revisada (RV) ou Versão Revisada Inglesa (ERV) da Bíblia é uma revisão britânica do final do século XIX da Versão do Rei Jaime. Foi a primeira (e continua sendo a única) revisão oficialmente autorizada e reconhecida da Versão do Rei Jaime na Grã-Bretanha. O trabalho foi confiado a mais de 50 estudiosos de várias denominações na Grã-Bretanha. Estudiosos americanos foram convidados a colaborar por correspondência. Seu Novo Testamento foi publicado em 1881 e seu Antigo Testamento em 1885.
[3] N.T.: Os átomos do Corpo Denso se renovam, pois os átomos que compõem nosso Corpo Denso entram por meio do ar, da comida e da bebida que consumimos e são substituídos constantemente ao longo da vida. Embora algumas células (compostas por átomos), como as do revestimento do estômago, se renovem rapidamente (cerca de 4-5 dias), outras, como as dos ossos, levam cerca de 10 anos para se regenerar por completo. Ou seja: as células envelhecem e morrem, sendo substituídas por novas. Esse processo, conhecido como mitose, divide uma célula-mãe em duas células-filhas.