Resposta: Diz-se que “a lei e os profetas vigoraram até Cristo”[3], e existem quatro etapas pelas quais o ser humano se eleva a Deus. Inicialmente, ao despertar para a consciência no Mundo Físico e se encontrar em um estado selvagem, o ser humano se vê cercado por outros seres humanos que, pela própria pressão das circunstâncias, são forçados a lutar pela sobrevivência — seres humanos para os quais “a força é o direito”. Nesse estágio, ele aprende a confiar em sua própria força para se proteger dos ataques de animais selvagens e de outros seres humanos. Contudo, ele percebe ao seu redor as Forças da Natureza e as teme, pois reconhece a capacidade que elas possuem de matar, bem como sua própria impotência diante delas. Ele, portanto, começa a adorar, buscando aplacar — por meio de sacrifícios sangrentos — o Deus a quem teme.
Depois, chega o momento em que ele passa a ver Deus como o provedor, Aquele que o recompensará, aqui e agora, pela obediência à Sua lei, e que o punirá instantaneamente pela desobediência. Um aliado poderoso contra seus inimigos, mas também um inimigo formidável — e, por isso, alguém a ser muito temido. Assim, ele adora e sacrifica animais, movido pelo medo e pela ganância.
Segue-se, então, a fase em que ele é instruído a adorar um Deus de Amor e a sacrificar a si mesmo, dia após dia, ao longo de toda a sua vida, em troca de uma recompensa em um estado futuro — algo em que ele deve crer pela fé, embora tal estado nem sequer esteja claramente definido.
Por fim, o ser humano alcançará um estágio em que reconhecerá sua própria divindade e agirá corretamente apenas porque é o certo a fazer, sem qualquer pensamento de medo ou expectativa de recompensa.
Os judeus haviam chegado ao segundo desses estágios e estavam sob a Lei[4]. A Religião Cristã atravessa, gradualmente, o terceiro estágio, embora ainda não se tenha libertado totalmente do segundo. Todos nós ainda estamos sujeitos a Leis — estabelecidas por Deus e pelos seres humanos — que visam refrear nossos Corpos de Desejos por meio do medo; contudo, para progredirmos espiritualmente a partir de agora, precisamos sensibilizar nosso Corpo Vital, que é receptivo ao amor, mas que desconhece por completo a Lei que rege a natureza dos desejos.
A fim de preparar esse estado futuro, os sacerdotes — que estavam em um estágio mais avançado do que o povo em geral — se mantinham separados e distintos dele. No oriente, por exemplo, apenas uma casta específica, a dos brâmanes, tinha permissão para entrar nos Templos e realizar os rituais ali praticados. Entre os judeus, somente os levitas podiam se aproximar do lugar sagrado; o mesmo ocorria em outras nações. Os sacerdotes constituíam, invariavelmente, uma classe à parte, sendo-lhes vedado contrair matrimônio com pessoas fora de seu grupo. Eram, em todos os aspectos, um segmento separado e distinto.
Isso ocorria porque os líderes responsáveis pela evolução da Humanidade precisavam utilizar linhagens nas quais houvesse uma certa flexibilidade — uma espécie de frouxidão — na conexão entre o Corpo Vital e o Corpo Denso. Assim, eles selecionavam esses sacerdotes e os reuniam em torno dos Templos, regulamentando todos os aspectos de suas vidas, inclusive no que tange à sexualidade. Contudo, no momento em que o Cristo foi libertado do Corpo de Jesus e difundiu Seu Ser por toda a Terra, o véu se rasgou — simbolizando que a necessidade de condições especiais havia chegado ao fim. Desde então, o Éter na Terra tem passado por transformações. Uma taxa vibratória cada vez mais elevada permite a manifestação de qualidades altruístas. Foi o início daquela vibração imensa que, segundo relatos, teria provocado a escuridão durante a crucificação[5]. Na verdade, não se tratava de escuridão, mas de uma luz tão intensa que cegou temporariamente as pessoas, até que as vibrações diminuíssem de intensidade ao serem absorvidas pela densidade do plano físico terrestre. Algumas horas mais tarde, o radiante Espírito de Cristo já havia se integrado à Terra o suficiente para restabelecer as condições normais. Gradualmente, porém, esse poder interior vem ganhando força; as vibrações etéricas estão sendo aceleradas, promovendo um aumento do altruísmo e do crescimento espiritual. Assim, as condições atuais são tais que já não há necessidade de uma classe especial ou privilegiada; cada indivíduo, sem exceção, pode aspirar a ingressar no caminho da Iniciação.
As condições antigas, contudo, são difíceis de superar; sob o regime de Jeová, o Espírito da Lua, a Humanidade havia sido dividida em nações. Para guiá-la, era necessário que Ele, por vezes, utilizasse uma nação para punir outra, visto que, naquela época, a Humanidade não era suscetível ao amor — ela só obedecia sob o açoite do medo. Antes que a grande Fraternidade Universal do Amor possa ser estabelecida, é preciso desfazer essas nações, seguindo o mesmo princípio que se aplica a um conjunto de construções feitas de tijolos: se desejamos transformá-las em uma única e grandiosa estrutura, primeiro precisamos reduzi-las a pedaços, de modo que os tijolos individuais fiquem disponíveis para serem usados na nova e maior construção. Por isso, Cristo disse: “Não vim trazer a paz, mas a espada”.
Devemos superar o patriotismo e aprender a dizer, como aquela grande alma, Thomas Paine[6]: “O mundo é minha pátria, e fazer o bem é a minha Religião”. Até que chegue esse momento, as guerras continuarão — e quanto mais, melhor —, pois, assim, o horror se tornará suficientemente chocante para forçar a paz.
Na Noite Santa em que o menino Jesus nasceu, os Anjos entoaram um cântico: “Paz na Terra e boa vontade entre os homens”[7]. Mais tarde, o “Menino” cresceu e disse: “Não vim trazer a paz, mas a espada”; e a Religião Cristã se tornou a mais sangrenta de todas as Religiões da Humanidade. Por onde passou, ela semeou a desolação e a dor; contudo, após todo esse sofrimento, chegará o dia em que o Cântico dos Anjos se tornará realidade, e as palavras proferidas por Cristo em outras ocasiões — sobre o amor ao próximo — serão, de fato, vivenciadas. Quando a “espada” tiver cumprido sua missão, ela será transformada em “relha de arado”[8]; não haverá mais guerras, pois não existirão mais nações.
(Pergunta nº 91 do Livro: Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. I – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz)
[1] N.T.: Jo 3:16
[2] N.T.: Mt 10:34
[3] N.T.: Lc 6:16
[4] N.T.: Aqui se refere às Leis Jeovísticas, as da Religião de Raça.
[5] N.T.: Mt 27:45, Mc 15:33, Lc 23:44-45
[6] N.T.: Thomas Paine (1737 – 1809) foi um político britânico, além de panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América. Thomas Paine foi, a um só tempo, ator, intérprete e testemunha não apenas das Revoluções Americana e Francesa, mas também dos movimentos revolucionários ingleses em fins do século XVIII e, em menor medida, do movimento revolucionário nos Países Baixos e na Irlanda, onde ele era continuamente citado e admirado.
[7] N.T.: Lc 2:14
[8] N.T.: Is 2:14
Sobre o Autor