A Iniciação Vista por Fernando Pessoa
Do grande gênio da poesia, Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888, desprende-se a profundidade infinitamente poética de um homem rosacruciano, cuja obra e ideal se situam num dos mais elevados planos da vida espiritual. Vamos ver como ele descrevia a Iniciação.
Em Pessoa, não podemos separar o pensador do poeta genial: ambos se radicam numa complexa e luminosa unidade, incisiva, constante, onde aparece invariavelmente a questão do “ser”, da autenticidade espiritual, da irremediável separação do “Eu superior”, do Eu-testemunha-silenciosa de todos os atos na Terra; em Pessoa é difícil distinguir os poemas que revelam o seu máximo expoente espiritual, e os que se nos afiguram menos explícitos – e isto porque nesse gênio do pensamento e da beleza poética, tudo é reflexão, tudo é nostalgia de um passado e de uma ausência que todos os seres com preocupações espiritualistas conhecem de perto, mas que só alguns gênios da poesia e da arte de pensar e sentir revelam e decifram na sua integral verdade.
Deixamos, pois, aqui, para o momento de meditação, alguns trechos do poema “No túmulo de Christian Rosenkreuz” (in Obras Completas de Fernando Pessoa, Ática editora, 1973):
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nós a Alma obstrui,
Conheceremos, pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.
Deus é o homem de outro Deus maior;
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,
Foi criado, e a Verdade lhe morreu..
De além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda,
Alguém não há no Mundo, Corpo Seu.
(…) Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim
luzido o Verbo deste Mundo,
humano e ungido
Rosa perfeita, em Deus crucificada. (..)
(…) Ah, mas aqui, onde irreais erramos
Dormimos o que somos, e a verdade.
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la porque em sonho, em falsidade.
(…) Calmo na falsa morte e nós exposto,
O livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosacruz conhece e cala.
(Do Ecos de Mount Ecclesia e publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 01/86)
Protesto da Natureza
O poder da Natureza e sua influência sobre nós, como parte integrante da mesma, é incontestável.
É dele que extraímos o alimento, o ar que respiramos, a água, o benefício que nos proporciona a energia solar e o rico alimento dos mares como se um mundo à parte fosse dentro do nosso próprio mundo e, no entanto, é triste reconhecer o perigo ecológico que ora nos ameaça.
Com um pouco de sensibilidade, alguém ouviu do misterioso silêncio da Natureza o que passo a comentar.
A noite estava silenciosa, longe do vozerio da cidade, pois o fato que originou o presente relato é passado na pureza de um aprazível sitio. E eis a impressão desse alguém que meditava na ingratidão do ser humano para com Deus: o monólogo, para os que pensam que ele estava só, começa quando a criatura, ouvindo estranhos sons, procura classificá-los e acaba concluindo que tudo que se passou tem raízes profundas de verdade.
Na bucólica paisagem reinante, a noite é cálida e as estrelas, prateadas falenas divinas, como se fossem partículas de diamantes espargidos pelo zimbório celeste, oferecem magnífico cenário propício à meditação e essa alma contemplativa e cheia de sensibilidade, depois de ouvir e observar com cuidado o que à sua volta se passa, entretém suave diálogo com uma voz estranha e obtém as respostas que tanto a surpreendem.
– Por que ouço no ar soturno soluçar uma espécie de gemido não muito nítido, mas real? E a resposta não se faz esperar.
– O som que se faz ouvir é meu triste protesto contra os que estão a me poluir de mil maneiras. Sou o vento que soluça entre os ramos das árvores, pois já não sirvo como aragem que refresca nem como o ar que alimenta as criaturas. Quando corro, como as águas dos rios tropeço a cada passo, pois vejo deturpados os meus intentos. Quero, com minhas águas, fertilizar o solo, servir de meio de transporte, alimentar peixes e distribuir as minhas águas como enriquecedora fonte a ser consumida. Quando tratada, mitigo sede de todo ser vivente e para mil coisas estou sempre pronta a ser útil. Sou eu ainda que alimento as usinas de força e, unida ao sol, faço crescerem as plantas.
Sou os peixes e as aves que estão morrendo pela poluição daqueles que não me prezam como os prezo eu. Sou todos os animais que são sacrificados como distração para o ser humano que me destrói apenas por esporte, que me trancafia em zoológicos, tirando-me do meu habitat.
Sou as árvores decepadas sem escrúpulo e sem necessidade e que, dentro em pouco, privarão o mundo do oxigênio que generosamente ofereço.
Sou o obscuro grão de areia que pulsa em suas mãos. Sou, igualmente, a pedra que rola pelos caminhos do mundo como algo sem valor, como o pensam as crianças quando me atiram por diversão ou ainda quando me fazem explodir nas pedreiras os adultos, mas aí é diferente; quando elas se despedaçam, minha alma se divide e se multiplica, pois vou servir para alguma construção e me sinto feliz. Quando me tornam útil, sinto-me respeitada.
Muitas vezes, tenho lançado meus protestos através da boca dos vulcões que ponho em erupção ou nos terremotos e maremotos que provoco com grande alarido, afim de ver se com isso desperto o ser humano para a sua evolução, mas minha voz não é ouvida.
Choro por seres que querem e são impedidos de nascer. Pelas guerras e desigualdades que vejo. Pela fome que assola grande parte da população, pois o egoísmo dominou o mundo. Contudo, ainda assim, estou sempre procurando a tudo suportar, pois se muitos fizerem e entenderem o que você faz agora, dentro em breve voltarei a sorrir como as flores nos jardins, como o canto dos passarinhos, como a cantiga das cascatas, como o vento suave a entoar singela melodia.
Como toda a humanidade, possuo o meu lado alegre e o triste. Vou lhe revelar agora quem sou. Eu sou a alma de tudo que o rodeia. Sou a Alma da Natureza, que tudo vê e observa. Sou sua melhor amiga e quero estar sempre sendo sentida pela humanidade.
Alma irmã da minha alma, já se faz alta a noite e os Anjos a convidam para um sono feliz. Caminha para casa e vê se sonha comigo e divulga esse sonho quando despertar. Sou a Alma da Natureza a dialogar com a alma humana.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 02/86)
Sabemos que a força designada sob o termo ALTRUÍSMO existe. Vemo-la manifestando-se de diversas maneiras em muitas partes do mundo. Observamos que ela está menos pronunciada nos povos menos civilizados do que naqueles de maior desenvolvimento. Nas raças atrasadas, é quase inexistente. A conclusão lógica dessa observação é que, há muito tempo, quando a humanidade passava pelos mais primitivos estágios, o altruísmo estava completamente nulo. E dessa conclusão surge naturalmente a pergunta: que foi que o induziu em nós? A personalidade material certamente não foi. Na verdade, esse aspecto do ser humano estaria muito melhor sem ele.
Ao mesmo tempo, não podemos deixar de reconhecer que o altruísmo deve ter estado latente dentro de nós durante todo o tempo, pois do contrário não poderia ter sido despertado. Do nada não pode surgir qualquer coisa. O que uma semente exprime ao germinar, levava-o dentro de si.
Torna-se, pois, evidente que, tudo que eleva o ser humano a melhor padrão de conduta deve brotar-lhe do íntimo, de uma fonte não idêntica ao seu corpo, pois muitas vezes luta contra os interesses mais óbvios deste. Doutro lado, deve ser uma força poderosíssima, bem mais forte que o corpo, uma vez que o compele a fazer sacrifícios, em benefício dos fisicamente mais frágeis.
Tal força existe mesmo, ninguém poderá negar-lhe a existência. No atual estágio de desenvolvimento ela nos leva a considerar na debilidade alheia, não uma oportunidade de presa fácil e da exploração; ao contrário, nessa fragilidade vemos um apelo de proteção. O egoísmo vai sendo, lenta e seguramente dissolvido pelo altruísmo.
Embora lento, o progresso do altruísmo é ordenado certo, realizando naturalmente seus propósitos. No íntimo de cada um de nós ele vai agindo como um fermento, transformando o selvagem num civilizado e, com o tempo, transubstanciando este num Deus.
Uma chispa do Cristo Cósmico, incorporada em nosso Redentor, para seu trabalho de purificação de nosso globo e estabelecimento de um clima favorável ao desabrochar do altruísmo, obteve acesso à Terra por meio do sangue purificado de Jesus, que fluiu no sacrifício do Gólgota. Atualmente essa chispa Crística está operando dentro de nosso globo para atenuar sua constituição física e suprafísica. Um poderoso fluxo espiritual foi sentido, no momento em que Ele se integrou à Terra, e uma luz irradiou-se tão intensa que toldou a visão do povo; este maravilhoso evento marcou o início da ação do princípio altruístico sobre o gênero humano. Isto tem concorrido sobremaneira para a segurança do processo evolutivo, pois dia a dia todos os sentimentos que fortalecem o interesse próprio são gradualmente transmutados em ações visando o bem-estar alheio.
Se o Cristo não tivesse vindo e iniciado tal processo descristalizante, outra Lua teria sido arremessada ao espaço, levando consigo a escória resultante daquele tenebroso estado de coisas. Esse sacrifício do Espírito do Cristo Cósmico não significa a Sua morte como comum e erroneamente é admitido, mas sim um influxo à Terra de uma elevadíssima energia que permite vivermos mais abundantemente em espírito.
Ainda hoje, séculos após o acontecimento do Gólgota, poucos são aqueles que estão aptos a viver tão próximos à verdade, seguindo suas concepções, professando-a e confessando-a perante o mundo por meio do serviço e por um reto viver. Ante tamanha evidência, bem podemos imaginar como deve ter sido nos remotos tempos que antecederam ao advento do Cristo, quando os seres humanos não possuíam dentro de si a elevação do Altruísmo.
Os padrões de moralidade eram muito baixos e o amor à verdade era uma tênue chama, quase inexistente na maioria dos seres humanos, os quais empenhavam-se mais em acumular riquezas, poder ou prestígios, muitas vezes por meios os mais abjetos possíveis. A tendência natural era conservar a inclinação aos interesses próprios, muitas vezes em detrimento de outrem.
Dessa forma, os Arquétipos enfraqueceram-se, as funções orgânicas foram afetadas intensamente, particularmente em relação aos corpos ocidentais que se tornaram mais sensitivos à dor em virtude do crescimento da consciência espiritual.
O Egoísmo não existia no mundo até que a névoa se condensasse e a humanidade saísse da atmosfera aquosa da Atlântida. Quando seus olhos se abriram, de modo que pudesse perceber o Mundo Físico e tudo o que nele existia, quando cada um ou cada uma viu-se separado dos outros, a consciência do “mim e do meu”, do “teu e da tua” formou-se nas mentes recém-surgidas e a ambição e separatividade substituíram o sentimento de companheirismo até então existente sob as águas da Atlântida. Daí em diante o egoísmo tem sido uma atitude muito natural, mesmo em nossa jactanciosa civilização. O Altruísmo permanece como um sonho utópico para as pessoas “práticas”.
Porém, entre uma minoria a qual já possui evidente iluminação, ele floresce mais e mais, e dia virá em que todos os seres humanos serão tão bons e indulgentes como o foram os maiores santos.
À medida que os anos passam, os movimentos altruístas vão se multiplicando e ganhando eficiência, eficiência que simboliza um novo modo de beneficiar o próximo. Isso consiste num altruísmo mais autêntico, visto que o trabalho efetuado no sentido de se distribuir esmolas, pura e simplesmente, torna-se um meio caritativo degradante e humilhante àquele que recebe o donativo, pois a natureza do benefício confina-se somente à necessidade material, tornando-se mister que haja uma atitude concomitante visando a elevação do ser.
Essa forma de auxilio mais aperfeiçoada, eleva aqueles a quem nós ajudamos, não só amenizando a situação em que se encontram, mas estimulando-os ao reerguimento por meio das próprios forças. Essa espécie de auxílio inclui o pensamento e o autossacrifício que estão sendo incutidos fortemente pelos nossos Guardiães Invisíveis, os quais são atualmente os irmãos que zelam pelos mais fracos.
Podemos perfeitamente iniciar tal trabalho no lar, sendo amorosos para com todos aqueles com quem estamos em contato imediato, sendo fiéis nas pequenas coisas, pois procedendo assim maiores oportunidades não deixarão de se apresentar.
Devemos nos tornar universais em nossas simpatias, pois o refrão “ame ao vosso vizinho como a ti mesmo” se aplica ao mundo inteiro e não unicamente aos nossos vizinhos imediatos. Podemos amar outras famílias bem como a nossa, outros países sem diminuirmos amor para com o nosso.
Grandes são as dores que estão fazendo nascer o Altruísmo em milhões de corações, porém, por meio do sofrimento ele cresce e torna-se melhor do que antes. À medida que o tempo passar e Cristo, por meio do seu beneficente influxo atrair mais Éter Interplanetário à Terra, esta ficará com o seu Corpo Vital bem mais luminoso.
Assim acontecendo, caminharemos num mar de luz, o que fará com que Ele, sendo a Luz, venha a unir-se com outras luzes.
Para que o ser humano atinja um elevado estágio em sua evolução, é mister que o egoísmo seja absorvido pelo Altruísmo.
Saturno, brandindo o chicote da necessidade sobre o ser humano nos tempos primitivos, o levou à situação presente; assim também Júpiter, o Planeta do Altruísmo, está destinado a ascendê-lo ao estado de “super-homem”, onde permanecerá sob o Raio de Urano que por sua natureza emocional substituirá a paixão pela compaixão.
O Altruísmo, a nota-chave de Urano, oculta um amor envolvente tal como o Salvador sentiu. Urano, como a oitava inferior a Vênus, influenciará a todos aqueles que estão em condições de entrar no Caminho da preparação que os conduzirá à Iniciação. Assim, todos os seres que estão nesse ponto de sua evolução deverão gradualmente aprender a suplantar o Amor Venusino, iniciando dessa forma o cultivo daquele amor Uraniano de Cristo, amor que não requer retribuição, amor que não se amainará em relação aos nossos familiares, porém estes senti-lo-ão com maior intensidade do que aqueles que se encontram mais distantes de nós.
A vida superior (Iniciação) não apresenta seus primeiros indícios até que o trabalho sobre o Corpo Vital seja iniciado. O meio dinamizante dessa atividade é o amor ou melhor, o Altruísmo, embora a palavra amor, hodiernamente, devido às deformações porque passou, não exprima mais com fidelidade aquele sentimento que o Cristo nos legou. Exige-se de nós que cultivemos pelos menos algumas das tendências altruísticas, a fim de que o progresso seja levado a efeito para além do nosso presente estágio.
Como estudantes do Cristianismo Esotérico, devemos nos esforçar no sentido de observar os ensinamentos de Cristo Jesus, procurando expressar e vivificar tenazmente o amor e o Altruísmo. Assim procedendo, estaremos mostrando ao próximo que o amor é a chave que abre todas as portas e a bússola segura e infalível a conduzir-nos à Luz. Se compreendemos que nosso dever é difundir a Filosofia Rosacruz, saibamos também como fazê-lo.
A ação com objetivo de proselitismo ou perturbar as crenças já existentes não se coaduna com o ideal Rosacruz, mas, chegar àqueles que necessitam de verdades mais elevadas, àqueles que não podem encontrar Cristo pela fé somente, àqueles cujos intelectos exigem uma explicação do passado, do presente e do futuro desenvolvimento do mundo e do ser humano, isto sim é procurar dar expansão ao rosacrucianismo por meios seguros e louváveis.
Sumariando, concluímos: assim que o ser humano principia a viver em consonância com a verdade, começa a observar a sociedade, vendo os homens e mulheres como sendo seus irmãos e irmãs. O ódio, a inveja, o ciúme, o egoísmo, a cobiça, a avareza não mais o embotam, porque ele vê a si mesmo como uma parte de todas as vidas.
Sabe perfeitamente que aquilo que é bom para um é bom para todos, que nunca poderá ferir a alguém sem que fira a si próprio e que sua vida é um entrelaçar inexorável com toda a humanidade. Portanto, o seu coração é levado inevitavelmente ao amor impessoal, ao amor para com todos homens e mulheres. Vê a possibilidade da consciência espiritual de cada um sendo desenvolvida; compreende que todos estão trilhando o mesmo caminho, embora ele esteja um pouco mais além, que nenhuma vida poderá ser deixada para trás quando os benéficos propósitos de Deus se completam.
O que o ser humano chama de pecado, ele transmuta em termos de ignorância e de egoísmo. Sua compreensão já não lhe permite desprezar ou condenar a alguém, mas sim, expressar compaixão, simpatia e ajuda. O ser humano espiritual não somente compreende a sua união com Deus, como jamais olvida a sua unidade com todo o gênero humano. Isso é o Altruísmo no seu mais elevado sentido.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 03/1967)
A Gratidão onde, muitas vezes, esquecemos
Durante o mês de novembro do segundo ano da grande Guerra de Secessão, renhida entre os estados do sul e os do norte dos Estados Unidos, com vistas à abolição da escravatura, encontrava-se certo jovem médico afeto a um hospital de sangue próximo da capital do país, Washington. Certa manhã chuvosa, ao dirigir-se à cama de um ferido, aproximou-se dele uma ordenança e o deteve.
– O senhor é o Dr. Jason Wilkins? – Perguntou-lhe.
– Sim, senhor.
– Lamento, doutor, mas tenho que prendê-lo e levá-lo a Washington.
Jason olhou para a ordenança com ar de desprezo, e lhe disse:
– O senhor está equivocado, amigo.
O soldado puxou do bolso de sua farda um envelope pesado e o entregou a Jason. Este o abriu com certo temor, e leu:
“Mostre isto ao médico Jason Wilkins do regimento N.º… . Prenda-o, e o traga a minha presença imediatamente – A. Lincoln.”
Jason empalideceu.
– Que está acontecendo? – Perguntou ao ordenança.
– Não perguntei ao presidente, respondeu o soldado secamente. Sigamos imediatamente, por favor, doutor.
Assustado, Jason seguiu para Washington. Recapitulou todas as pequeninas contravenções que havia cometido.
Ao chegar ao destino, foi encerrado numa pensão por uma noite.
No dia seguinte, às doze horas, a ordenança o levou à Casa Branca.
Depois de uma hora de espera, apareceu um homem por uma das portas da audiência do presidente, e chamou:
– Dr. Jason Wilkins!
– Presente, respondeu Wilkins.
– Por aqui!
E Wilkins, após segui-lo, encontrou-se em uma sala cuja porta se fechou atrás dele. Não havia na sala senão um homem: era Lincoln.
Sentado diante de sua escrivaninha, fixou os escuros olhos no rosto de Wilkins – um rosto belo e jovem, apesar do tremor dos joelhos.
– É você Jason Wilkins?
– Sim, Excelência, respondeu o jovem médico.
– De onde é você?
– De High Hill, Estado de Ohio.
– Tem parentes?
– Somente a minha mãe é viva.
– Sim, somente sua mãe! Bem, jovem, como está sua mãe?
– Bem. .. bem. .. Não sei – balbuciou Wilkins.
– Não sabe! – Repetiu Lincoln – E por que não sabe? Está morta ou viva?
– Não sei, disse o médico. Para dizer a verdade, faz tempo que não lhe escrevo, e creio que ela não saiba onde estou.
O Sr. Lincoln esmurrou com seus grandes punhos a escrivaninha e seus olhos dardejaram sobre Jason Wilkins.
– Recebi uma carta dela. Supõe que você já morreu, e me pede que faça investigação quanto a sua sepultura. Ela não presta? É de má origem? Responda-me cavalheiro!
O médico endireitou-se um pouco e disse.
– É a melhor mulher que já viveu até agora, Excelência.
– Não obstante, você não tem motivos para gratidão! Como conseguiu você estudar para médico? Quem lhe pagou as despesas? Seu pai?
– Não, Excelência, respondeu Wilkins enrubescido; meu pai era pregador metodista pobre. Minha mãe conseguiu o dinheiro, embora eu trabalhasse para pagar quase todas as minhas despesas com pensão.
– Bem, e como conseguiu ela o dinheiro?
Os lábios de Wilkins se enrijeceram.
– Vendendo seus objetos, Excelência.
– Que objetos?
– Principalmente coisas antigas; sem valor a não ser para os museus.
– Pobre louco! – Disse Lincoln – Os tesouros de seu lar… vendidos um após outro… para você.
De repente, o presidente levantou-se e apontando com o grande indicador para a escrivaninha, disse:
– Venha cá; sente-se e escreva uma carta a sua mãe.
Wilkins aproximou-se em obediência e sentou-se na cadeira do presidente. Tomou de uma pena e escreveu uma pequena carta a sua mãe.
– Coloque-lhe endereço e me dê, disse-lhe o presidente; e acrescentou, levantando um pouco a voz: – E agora Wilkins, enquanto estiver no exército, escreva a sua mãe uma vez por semana. Se tiver que o repreender novamente por causa deste assunto, fá-lo-ei comparecer perante uma corte marcial.
Wilkins levantou-se, entregou a carta ao presidente e ficou aguardando ordens, Finalmente Lincoln se voltou para ele.
– Meu filho – disse-lhe amavelmente – não há no mundo qualidade melhor do que a gratidão. Não pode um homem encerrar em seu coração nada mais desagradável e degradante do que a ingratidão. Mesmo o cão aprecia a bondade, e nunca esquece a palavra amável ou o osso que se lhe atira.
Lincoln fez novamente uma pausa e, em seguida, disse:
– Pode ir embora, meu filho.
É desnecessário dizer que o médico reconheceu a justiça das severas palavras do presidente e em seguida começou a corrigir, para com sua mãe, o aparente esquecimento em que a tivera antes.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/1967)
1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, 2perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no céu surgir e viemos homenageá-lo”.
(…) 7Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. 8E, enviando-os a Belém, disse-lhes: “Ide e procurai obter informações exatas a respeito do menino e, ao encontrá-lo, avisai-me, para que também eu vá homenageá-lo”. 9A essas palavras do rei, eles partiram.
E eis que a estrela que tinham visto no céu surgir ia à frente deles até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino. 10Eles, revendo a estrela, alegraram- se imensamente. 11Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. (Mt 2:1-2; 7-11)
O Evangelho de Mateus é denominado com muita propriedade de “Evangelho da Dedicação”, porque contém a relato da vinda dos três homens sábios desde o oriente.
Antigo comentário a respeito de Mateus diz que a Estrela na sua primeira aparição tinha a forma radiante de uma criança levando a cruz.
Os três Iniciados ou Homens Sábios, contemplando a Estrela, levantaram-se e jubilosos iniciaram a longa e perigosa jornada através do deserto, rumo a Jerusalém. Ao chegarem, indagaram ansiosamente: “Onde está Aquele que nasceu Rei dos Judeus?”.
Essa pergunta interessou a Herodes e a toda comunidade judaica. Perguntaram ao Superior dos Sacerdotes: “Onde está o jovem Rei que acaba de nascer?”. Os sacerdotes responderam: “Em Belém da Judeia”.
Primeiramente, seguindo a direção da Estrela, os três Homens Sábios atingiram a pequena cidade de Belém e lá encontraram não um principezinho real nascido num palácio, rodeado por um corpo de servidores, mas apenas uma graciosa criança, deitada na humilde manjedoura, onde o gado e outros animais se alimentavam.
A humildade, a fé e a reverência foram proclamadas realmente pelos Sábios Homens, os quais se prostraram diante da bela Criança, dedicando-se a si mesmos ao novo Rei do Mundo.
Os três Homens Sábios representam a dedicação integral do Espírito (ouro), da Alma (mirra) e do Corpo (incenso). Depois de o Cristo ter nascido internamente, o passo seguinte no processo de desenvolvimento espiritual deverá ser essa dedicação ao Mestre e ao Seu trabalho, para que o Cristo recém-nato deva crescer à estatura do adulto.
O Espírito é simbolizado pelo ouro, que é portador do mais elevado poder vibratório entre todos os metais.
O Corpo, representado pelo incenso, é um símbolo bem adequado ao menos duradouro veículo do Espírito.
A Alma, representada pela mirra (planta natural da Arábia, difícil de ser encontrada, apresentando um gosto extremamente amargo, possuindo porém uma fragrância primorosa e incomum) simboliza o extrato anímico das experiências que o Espírito entesoura no corpo, e que constitui o propósito integral da vida no plano físico, sendo na verdade o sinônimo do caminho do discipulado, porque de fato o Corpo-Alma de um santo emite uma fragrância delicada que tem dado origem a belíssimas lendas da Igreja.
A tradição afirma que Gaspar era muito idoso, usava uma barba branca, era rei de Tarsus, a terra dos mercadores e sua dádiva à Criança foi ouro. Melchior, de meia idade, rei da Arábia, deu incenso; ao passo que Baltazar, o rei negro e o mais moço, nascido em Seba ou Sheba, a terra das especiarias e da rezina, apresentou como dádiva a mirra.
O Caminho da Transmutação do neófito algumas vezes é chamado de Transfiguração, e ocorre sempre na jornada dos Homens Sábios, pois por esse processo todos se tornam Homens Sábios.
Na catedral de Colônia existe um altar onde estão três crânios com os nomes dos três Homens Sábios, nomes esses formados por rubis. O rubi designa-se como a pedra do Cristianismo, porque simboliza a purificação da natureza de desejos e a espiritualização da mente, o trabalho primordial da Dispensação Cristã.
Segundo a lenda, Maria entregou as faixas de linho que envolviam o puro corpo da sublime Criança aos Homens Sábios, os quais agradeceram com humildade e alegria, colocando a preciosa dádiva entre os seus maiores tesouros. Após regressarem às suas pátrias, imitaram a pobreza e humildade d’Aquele que reverenciaram em Belém, distribuindo seus bens entre os necessitados e pregando o novo ideal recém-inaugurado.
A lenda ainda nos diz que os Homens Sábios, quando morreram, receberam a coroa da vida imortal, em troca dos bens terrenos que renunciaram. Seus despojos foram encontrados muito tempo depois pela Imperatriz Helena, mãe de Constantino, que os trasladou para Constantinopla, donde posteriormente foram levados para Milão e ulteriormente depositados na catedral de Colônia.
Retribuindo as dádivas que Lhes foram ofertadas, o Mestre outorgou-Lhes posses de valor transcendental a qualquer bem material: pela taça de ouro deu a caridade e os bens espirituais; pelo incenso, a fé perfeita; e pela mirra, a verdade e a brandura, qualidades que representam as virtudes indispensáveis para aqueles que aspiram à iniciação. Ele também poderá nos conceder essas dádivas, desde que nos dediquemos de Corpo, de Alma e de Espírito à missão de preparar a vinda futura de Seu Reino sobre a Terra.
Analisando-se profundamente os fatos mencionados, relatados através de várias lendas, evidencia-se que os Magos eram Iniciados. A palavra Mago significa aquele que se dedica à Magia, que possui a consciência da vida noturna ou de sonho. Foi durante esse período noturno que os Homens Sábios receberam esclarecimentos referentes à vinda do Salvador. O Santo Nascimento foi saudado em muitos lugares com profundo regozijo, porquanto os Homens Sábios de todas as nações já vinham sendo preparados há muito tempo para esse extraordinário acontecimento, o que por sua vez incitou a animosidade de Herodes, advindo então o decreto alusivo à matança dos inocentes.
Os Homens Sábios viajavam tanto de dia como à noite sob a Luz da Estrela Misteriosa, guardados pelo glorioso Arcanjo, o Cristo. É dito que durante a jornada, os Homens Sábios observaram as maravilhas da Virgem e da Criança. Isto é, leram o sublime acontecimento na Memória da Natureza, e depois, ao entrarem no estábulo, obtiveram a confirmação material do fato, contemplando a beleza celestial da Divina Mãe e da Criança, rodeados por uma luz deslumbrante, de maneira idêntica aos que haviam observado nos Eternos Registros da Natureza.
(de Corinne Heline – Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/1967)
A Juventude não está perdida
Não, não concordamos de forma alguma com a afirmação de que “a juventude atual está perdida”. É uma afirmação gratuita. A ninguém é lícito opinar assim tão radicalmente sem situar a questão dentro de um contexto.
A humanidade vive uma fase de transição em sua caminhada e isso, obviamente, produz uma desagradável sensação de caos. E ninguém vive mais intensamente as agruras deste momento do que as novas gerações.
Jovens e adolescentes sentem inquietude provocada pelas sucessivas crises que se abatem sobre a sociedade humana. Quando a família se desintegra por incompatibilidade entre os pais, eles, os jovens, são os que mais sofrem. Insegurança, medo, carência de apoio, tornam-nos revoltados e agressivos numa fase de suas vidas em que deveriam receber carinho. É incrível como os pais e educadores de um modo geral não entendem isso.
Essa insegurança gera reações e comportamentos denominados de “contestadores”. Talvez até seja verdade. Mas antes de emitirmos qualquer juízo a respeito, porque não verificamos as causas dessa reação?
Deve ser terrível, por exemplo, para jovens que trabalham incansavelmente durante o dia para custear seus estudos no período noturno constatar quão ausente de perspectivas é o mercado de trabalho para o futuro. E isso ocorre em muitas nações nos dias de hoje.
Os jovens são mais sensíveis e receptivos às vibrações aquarianas. Sentindo interiormente a influência uraniana da nova Idade, deve ser doloroso convier com estruturas sociais e educacionais já ultrapassadas.
Segundo alguns pensadores, a escola, a igreja e a família constituem o trinômio plasmador de consciência.
Consciência? Mas como? Com o imobilismo e falta de criatividade dos nossos sistemas educacionais? Com o dogmatismo opressor das igrejas? Com o despreparo dos pais?
Mesmo enfrentando todas essas adversidades encontramos nossos jovens presentes nos mais atuantes movimentos comunitários. São exemplos dignificantes de disposição para o trabalho em equipe, onde oferecem generosamente suas energias pelo êxito da empreitada.
Associar o consumo de drogas unicamente à juventude é um equívoco inominável. Alguns se tornam presa fácil do vício porque não encontram uma palavra amiga ou suficientemente lúcida para orientá-los.
O envolvimento com drogas atinge uma minoria. A despeito de tudo, a maior parte dos jovens procura imprimir um rumo sério às suas vidas.
Percorramos os restaurantes vegetarianos. Lá encontraremos os jovens, conscientes de que aquela alimentação é a ideal. Eles estarão também nas bibliotecas, nas praças de esportes, nos grêmios estudantis e sindicatos. Ora, isso é assumir uma postura responsável diante da vida!
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 02/86)
Cristo é o Nosso Modelo
Muitos Estudantes, não raramente, são fustigados por dolorosas provações. Essas fases, às vezes, prolongam-se por bom tempo e podem ensejar reações negativas se não forem enfrentadas com calma e firmeza.
Uma provação representa uma ou várias lições pendentes de vidas passadas, cujo aprendizado deve acontecer agora. Qualquer tentativa de procrastinar esse aprendizado redundará numa experiência mais dolorosa ainda, neste ou no próximo renascimento. Portanto, é inútil fugir. Não adianta quedar-se passivo,lamentando a “própria desgraça”.
Antes de mais nada é preciso que se entenda: o propósito da vida é a experiência e não o sofrimento, como alguns imaginam. A atitude mais correta é tentar entender o que está acontecendo e por quê. A meditação, a oração e o estudo servem justamente para esse propósito.
O Estudante, porém, muitas vezes depara com uma situação complexa, intrincada, à primeira vista um beco sem saída. Contudo, não é bem assim. Há sempre uma saída. Talvez não seja a solução ideal no entendimento do Estudante, mas, de qualquer forma é o que mais lhe convém em termos de crescimento anímico.
E como reagir diante de uma situação capaz de causar perplexidade?
Bem, há que haver um parâmetro de comportamento. Esse modelo é Cristo.
Se nos perguntarmos como reagiria o Cristo em uma dada circunstância, logo o saberemos. Ele, em qualquer situação seria compassivo, tolerante, paciente, compreensivo e amoroso. Seu Espírito perdoador de imediato transmutaria todo e qualquer desentendimento em concórdia.
Alguém, entretanto, pode objetar: mas o Cristo é o Cristo. Eu sou um ser humano, cheio de falhas.Cristo é um ideal muito distante para mim. É uma meta inatingível.
É lógico, nenhum ser humano agiria exatamente como o Cristo, porque ninguém o iguala em perfeição e sabedoria. Contudo, pode se reagir amorosamente em um relacionamento conflituoso, sem expressar um amor tão perfeito como o do Cristo. É necessário, entendamos, manifestar as virtudes do Cristo, mesmo que se o faça imperfeitamente. Se houver boa vontade as coisas se resolverão.
Todos nós passamos por fases de duras provações em nossas vidas. Se vivermos cada minuto de nossas existências como sabemos que o Cristo desejaria que o vivêssemos superaremos gloriosamente todas as provas.
Meditemos sobre esta frase: “Se vivermos cada minuto como sabemos que o Cristo desejaria que o vivêssemos“.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 02/86)
A Encarnação do Verbo: para isso não dissimule a sua deidade
Deus, o Grande Mestre, nos ensina de muitos modos e com pedagogia inigualável. Um deles é a encarnação do Espírito numa forma, forma como a que estou usando ou as que vocês estão usando, pelas quais nos vemos e nos reconhecemos. As formas fazem parecer que somos “eu” separados. As crianças e os jovens se apaixonam e se apegam à forma. Contudo, o Espírito “adulto” vê além da forma e descobre uma natureza em comum em todas as formas. Em todos os contatos e diálogos há uma referência tácita, como que a uma terceira pessoa, a uma natureza impessoal, que é Deus em todos, irmanando-nos essencialmente.
Essa essência é que dá sentido de unidade a um grupo de pessoas que se empenham na busca da verdade (como fazemos aqui na Fraternidade Rosacruz). Essa essência é que comunica a todos o pensamento e sentimento do orador e de cada presente, permitindo a todos, na proporção em que se lhes afina, assenhorear-se à verdade e internamente crescer. Independentemente da cultura, tal essência confere sabedoria a todos. Infelizmente, a educação tradicional, materializada, busca silenciar e obstruir a expressão nessa sabedoria, considerando como mais importante as experiências sensoriais. Mas, quem aspira à verdade, atrai-a de sua fonte espiritual ou da conjugação de forças espirituais (numa reunião como a nossa), e dela se apropria sem preocupação de a rotular com AUTORIAS. A verdade é eterna e a todos pertence. Uns são melhores canais dessa fonte que a todos deseja abrir-se, mas sem compromisso de pertencer-lhes, porque é universal. Assim, aprendemos pelas circunstâncias, pelas experiências próprias e alheias. Muito se aprende de pessoas simples e intuitivas.
Na sociedade, no trabalho, na família, muitas vezes descemos da nobre condição de seres espirituais para a de seres comuns, quando dissimulamos nossa deidade e nos misturamos aos hábitos comuns que acabam por delongar nossa ascenção. Tal se dá pela falta de convicção: medo de expressar o que essencialmente somos, conveniência de tirarmos proveito econômico, agradando aos demais, o tremendo impacto das opiniões contrárias, etc. Mais sábia é a discrição convicta de quem “vive no mundo e não lhe pertence” e diz as cousas quando, como e a quem seu íntimo o revela, sem trair sua identidade espiritual.
É o Espírito quem percebe e revela-nos a verdade. Ele está presente em todos e em todas as idades. Em minhas relações com meu filho, erijo o Espírito como árbitro entre nós: nos seus olhos jovens assoma o mesmo Espírito como árbitro entre nós: nos seus olhos jovens assoma a mesma essência que ele e eu amamos e reverenciamos, acima de tudo! O entendimento não existe independentemente do Espírito: a característica da inteligência é a de discernir entre o certo e o errado, através do Espírito. Somos muito mais sábios do que supomos.
Se não interferíssemos na ação do pensamento e o deixássemos fluir integramente, então poderíamos aprender muito mais de nosso íntimo, vendo o pensamento e a ação do Espírito sem entraves, em todas as pessoas como em nós mesmos. A comunicação que o Espírito faz da verdade ao coração é o mais sublime acontecimento da natureza, pois a verdade não apenas dá de si, senão que se dá inteira e se converte no próprio indivíduo a quem ilumina. Esse o mecanismo da intuição, o verbo que faz carne, na ação humana, quando o entendimento não o desvirtua ou intercepta.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1971)
Malefícios da Alimentação Carnívora
Sabemos, os profissionais da Medicina, que há diversas formas de câncer das aves. Além da afecção comum, que se caracteriza pela presença de tumores, existe uma espécie de câncer em que a ave não dá demonstração alguma, entre as demais, de seu estado, se bem que seja portadora da enfermidade.
Só é possível descobrir essa espécie de câncer, fazendo incubar um ovo da galinha que despertou suspeitas, durante 14 dias, ao fim dos quais se esteriliza a superfície dele, parte-se lhe cuidadosamente e se lhe extrai o embrião. Toma-se deste uma porção do fígado, que se injeta no peito de outra ave. Se no local da injeção se formar um tumor canceroso, então, e unicamente então, sabe-se que a galinha que botou o ovo padece dessa enfermidade. Há certa probabilidade de que uma pessoa experta reconheça uma ave enferma, mas não o fará, por certo, a pessoa comum que escolhe um frango para a sua próxima refeição.
Visto estar mais ou menos confirmado que o câncer pode dever-se à presença de um vírus, existe a possibilidade de que ao comer carne de rês, peixe ou ave, uma pessoa se exponha a ingerir micróbios de tumores malignos. O Dr. Wendell Sranley, laureado com o prêmio Nobel em 1957, por suas pesquisas acerca dos vírus, quase convenceu a classe médica de que o câncer, como as demais enfermidades granulomatóides, é causado por germe. Isso mesmo já foi afirmado pela Sra. Ellen G. White, faz mais de um século: “O povo come continuamente carne cheia de germes de tuberculose e câncer. Assim são comunicadas estas e outras moléstias”. A Ciência do Bom Viver, 2a. ed., pag. 314.
Sabe-se, em nossos dias, que a leucemia aumenta rapidamente no gado, e uma vaca pode ser portadora da enfermidade muito tempo antes de aparecerem os tumores. Em vista disso, ouso afirmar não estar longe o dia em que se promulgarão leis que, para proteger os consumidores de carne e leite, obriguem a analisar o sangue das vacas leiteiras e das reses destinadas ao matadouro.
Certa ocasião, quando pescava nas águas frias do Lago Yellowstone, um senhor me advertiu que não comesse o pescado porque continha vermes.
Examinei vários deles e confirmei a veracidade da informação. Amiúde, saem, serpeando, os vermes. Noutra oportunidade, ao voltarmos de um passeio em Lanora, próximo à península de Flórida, o comandante da embarcação abriu um peixe que acabava de pescar, nos fez olhar, contra a luz, pela parte mais fina do pescado aberto, e vimos vermes incrustados na carne.
A propósito, ainda são da Sra. Ellen G. White as palavras seguintes, escritas há mais de sessenta anos: “Em muitos lugares, os peixes ficam tão contaminados com a sujeira de que se nutrem, que se tornam causa de doença. Isto se verifica especialmente onde o peixe está em contato com os esgotos de grandes cidades. Peixes que se alimentam dessas matérias podem passar a grandes distâncias, sendo apanhados em lugares em que as águas são puras e boas. De modo que ao serem usados como alimento, ocasionam doença e morte naqueles que nada suspeitam do perigo. – Op. Cit., pág. 315.
Tenho perante mim o recorte de um artigo publicado no jornal Times, de Los Angeles, intitulado: “A Enfermidade impede importações de Trutas”. Nele se conta que o Departamento de Caça e Pesca de Califórnia devolveu seis caminhões-tanques cheios de trutas que se projetava por um lago e cursos d’água, por estarem os peixes acometidos de câncer do fígado.
Os coelhos são suscetíveis a enfermidades de várias espécies. Quando eu era criança tinha um amigo que caçava coelhos e os vendia. Amiúde eu o ajudava a limpá-los, e notava que quase todos estavam infestados de tênia. Um dia cacei um e ofereci a um vizinho, que me disse, enquanto me agradecia:
– Não sabes o que perdes.
Respondi-lhe:
– Perco um montão de tênias.
A classe médica descobriu a relação entre o regime alimentar e as enfermidades do coração e de vasos sanguíneos. Agora se nos manda que evitemos o uso de gorduras saturadas, encontradas sobretudo na gordura de origem animal, inclusive as carnes magras.
O Dr. Newburg, da Universidade de Michigan, que atuou como perito de nutrição durante a última grande guerra, disse-me que não aprovava o regime alimentar dos soldados norte-americanos. Afirmou que esse regime era demasiado rico em carne e calorias e concorria para torná-los muito pesados, além de provocar a arteriosclerose.
As autópsias praticadas na Coréia revelaram que 75% dos soldados norte-americanos, apesar de jovens, sofriam de arteriosclerose; mas os soldados coreanos, que seguiam regime com base em hortaliças, cereais e pouca carne, não apresentavam sintomas dessa afecção.
Mas, como pode obter-se a proteína necessária, sem carne? W. C. Rose autoridade em matéria de proteínas, pertencente à Universidade de Illinois, diz que “tudo o que uma pessoa necessita de proteínas, por dia, não atinge vinte e cinco gramas”.
Mesmo que o ser humano não comesse carne alguma nem ovos nem leite, ainda obteria diariamente, em termo médio, oitenta e três gramas de proteínas; e a mulher aproximadamente sessenta e um gramas diárias. Este fato se descobriu na Universidade de Loma Linda, Califórnia, em um trabalho de pesquisa dirigido pelo Dr. Frederico J. Stare, especialista da Universidade de Harvard que goza de reconhecida autoridade no campo da nutrição.
Os Drs. U. D. Register e Hardinge, ambos especialistas em nutrição, disseram-me que as frutas, se consumidas em abundante variedade, proveem todos os elementos necessários para o organismo.
Sem dúvida, o regime alimentar equilibrado é melhor, mas as provas demonstram ser a carne um fator desnecessário no plano alimentar, e pode introduzir substâncias tendentes a incrementar as enfermidades crônicas, degenerativas, agudas e infecciosas.
Temos o exemplo da Dinamarca que, na primeira grande guerra mundial, se viu obrigada a adotar regime nutritivo vegetariano. Bloqueada por mar e terra, teve a nação que enfrentar o racionamento dos alimentos. Para resolver a crise, o rei chamou o Dr. Híndehede, notável autoridade em nutrição, que traçou um plano nacional de alimentação sem carne. Muitos pensaram que seria desastroso: ao contrário, porém, estabeleceu um recorde mundial de diminuição da mortalidade: 34% entre a população masculina; aproximadamente o mesmo entre a feminina, além de notável diminuição das enfermidades. Ao voltar a ingerir carne, no ano seguinte, aumentou a proporção da mortalidade até o nível anterior.
As pessoas, para quem apraz o sabor da carne, podem conseguir alimentos muito saborosos preparados com cereais e nozes. O Dr. Stare escreveu-me dizendo que ao abandonar a carne, é conveniente seguir regime alimentar que inclua cereais hortaliças, legumes e algumas nozes.
Os estudos realizados na Universidade de Loma Linda demonstram que o regime alimentar sem carne é adequado quando inclui pratos preparados com nozes, cereais e hortaliças que substituam a carne.
(1) No Brasil, onde as nozes são caríssimas, podem-se usar castanhas de Pará ou de caju, com 14% aproximadamente de proteínas, ricas em aminoácidos essenciais.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1971)