Categoria Filosofia

porFraternidade Rosacruz de Campinas

A Paciência e o que ela tem a haver com a Sabedoria

A Paciência e o que ela tem a haver com a Sabedoria

Há muitos e muitos anos vivia em uma cidade, cujo nome não me lembro, um jovem que, apesar de sua grande instrução, não estava satisfeito com os conhecimentos que possuía e queria aumentá-los ainda mais.

Um dia, falando com um viajante que chegara de outras terras, este lhe dizia que em uma aldeia muito longe vivia um sábio que era a pessoa mais virtuosa do mundo e que, apesar da fama que possuía, trabalhava humildemente como ferreiro, ofício que também havia sido o do pai e o do avô.

Ahmed, assim se chamava o jovem, quis logo colocar-se sob a proteção daquele homem virtuoso, imitá-lo, escutar-lhe os conselhos. Num belo dia, tomou as sandálias, o alforje, o bordão e se encaminhou para o país, rapidamente, ansioso por adquirir a sabedoria do humilde ferreiro que, segundo o viajante, era o assombro das gentes, que o consideravam como a um ser superior devido às virtudes que possuía.

Depois de andar muitos dias, chegou, enfim, à cidade e perguntou onde ficava a casa do sábio ferreiro. Indicaram-na e lá se foi Ahmed.

Chegando à presença do ancião, beijou-lhe a fímbria do manto, como prova de respeito.

— “Que desejais, filho meu?” — Perguntou, com afabilidade o ferreiro.

— “Aprender, mestre…” respondeu o jovem, inclinando-se novamente. “Disseram-me que sois sábio e quero que me guies”.

O ferreiro, como resposta, fez o rapaz entrar na ferraria, pôs-lhe a corda da forja nas mãos e lhe disse que a pusesse em função.

Ahmed, obediente e sem protestar, pôs mãos à obra. Nela persistiu dias, semanas, meses sem que o mestre ferreiro e seus discípulos — que também desempenhavam rudes tarefas — se queixassem delas e, o que é mais estranho, sem que ninguém lhe dirigisse a palavra, como se o ignorassem inteiramente.

Assim transcorreram cinco anos. Ahmed ia todos os dias à ferraria e, terminadas as horas de trabalho, se recolhia ao albergue, sem ter nenhuma distração.

Uma tarde, por fim, encorajou-se a falar:

— “Mestre! ”

O ferreiro, suspendeu o trabalho e seus discípulos, ansiosos o imitaram.

– “Que queres? ” – Perguntou o sábio.

— “Ciência! ” — Pediu Ahmed.

“Continua puxando a corda da forja” — retrucou o ferreiro, voltando à tarefa.

Assim transcorreram outros cinco anos, durante os quais, da manhã à noite e sem que nada falasse, Ahmed continuou puxando a corda grossa da forja, sem queixar-se, com a maior resignação. Dava exemplo de laboriosidade incansável e de interesse por aquele trabalho monótono que a outro aborreceria.

Um dia, finalmente, o velho ferreiro, que durante todo aquele tempo parecia não notar sua presença, acercou-se dele e tocou-lhe o ombro.

— O jovem sentindo uma agradável emoção, soltou a corda e o Mestre lhe disse:

— “Filho meu, já podes voltar à tua Pátria com a certeza de levar em teu cérebro e em teu coração a ciência do mundo e da vida”.

— “Oh Mestre! ” — Retrucou Ahmed, cheio de assombro. “Será possível que eu possua a ciência da vida? Não posso crer, não posso ser a pessoa de admiração que me inspiram vossas sábias palavras!”

— “Sim, filho meu, não duvides nem te admires” — insistiu o sábio ferreiro – “Conseguiste toda a ciência do mundo e da vida ao adquirir a virtude da paciência”.

E, dando-lhe um beijo na testa, como em um filho, o despediu atenciosamente.

E Ahmed voltou para seu país levando em sua alma uma grande serenidade, uma paz incomparável e viveu feliz, pensando que o velho ferreiro tinha razão, pois a paciência é a suprema sabedoria.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz em junho/1967)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Vigilante Cuidado do Pai

O Vigilante Cuidado do Pai

Luisinha vivia nos longínquos tempos em que se fundavam muitas cidades novas pelo interior. Naqueles sítios ermos, não era raro ouvir-se, então, o miar selvagem da onça.

Certa manhã, depois de terem matado a maior onça encontrada naquelas paragens, a mãe de Luisinha pediu-lhe que fosse a um dos vizinhos, um quilômetro distante, a fim de buscar um balde de leite. Luisinha era uma menina destemida; nem sequer sonhava que alguma coisa lhe pudesse fazer mal. Assim, concordou imediatamente de ir, embora tivesse de passar por alguns caminhos em que não faltavam animais selvagens.

Pôs o chapéu de sol cor-de-rosa e partiu, balançando o balde vazio. Chegando ao lugar em que mataram a onça, penetrou na mata, sem se importar com a outra fera viva que fora vista nas proximidades.  Afinal, encontrou o animal morto sob uma grande árvore, exatamente como o irmão o tinha descrito. Olhando-o tristemente, afastou-se e prosseguiu o caminho com semblante muito grave, pois tinha pena do pobre gatinho selvagem das matas.

Chegou sã e salva à casa do vizinho, que lhe deu o balde de leite, embora não tencionasse deixá-la regressar sozinha.

Mas quem, pensam vocês, a seguira por todo o caminho? — Seu pai, sem ser visto por ela, lhe tinha vigiado cada passo.

Só depois de moça, soube Luisinha que não fizera sozinha aquela arriscada viagem.

Isso bem pode ilustrar o cuidado do Pai celestial por nós. Às vezes precisa mandar-nos trabalhar por Ele em lugares perigosos; e, noutras, nós mesmos enfrentamos ousadamente o perigo.

Através de Seu Filho, nosso Salvador, a muitos tem sido dispensado, de maneira admirável, o amoroso cuidado divino que os preservou de grandes males e perigos, até mesmo quando não reconheciam Sua excelsa bondade.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1966)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

A Missão Rosacruz na época moderna

A Missão Rosacruz na época moderna

Há pouco tempo, pela primeira vez, tivemos a oportunidade de ler um exemplar do informativo “Echoes” de Mount Ecclesia, publicado pela Fraternidade Rosacruz, Oceanside, Califórnia, EUA. O que nos despertou mais a atenção, afora o noticiário sobre os trabalhos e atividades, foi a seção onde são publicadas as cartas enviadas à Sede Mundial por estudantes Rosacruzes de todas as partes do mundo. Lendo e analisando profundamente aquelas palavras repletas de gratidão e entusiasmo, pudemos verdadeiramente aquilatar quão imensos são os benefícios físicos e espirituais auferidos por aqueles que se interessam e se dedicam aos ensinamentos Rosacruzes. Em cada frase notamos um sentimento de alívio, de otimismo, de renascimento de esperanças, e o que é assaz importante, um sentimento de libertação.

Se a liberdade física é um sagrado e inalienável direito do ser humano, quanto mais a liberdade do espírito, o qual constitui o ser real. Mas, grande parte da humanidade ainda permanece agrilhoada a preconceitos obsoletos, a ideias estacionárias e os problemas sócio-espirituais tornam-se cada vez mais complexos e intrincados.

Justamente nesse aspecto é que realçamos a missão da Fraternidade Rosacruz, num mundo onde cada indivíduo procura desesperadamente, além de si, aquilo que em si mesmo possui, isto é, a força espiritual capaz de despertá-lo desse sono mortal, de torná-lo consciente de que é uma parcela viva do macrocosmo, e como tal, transpor os obstáculos que os erros humanos procuram erguer.

É nobre e de grande responsabilidade a obra encetada por Max Heindel, mormente na época atual, em que o ser humano, escravo das próprias imperfeições, procura solver seus problemas utilizando meios inadequados, tristes paliativos para uma triste situação. É necessário sacudi-lo, para que ele inicie verdadeiramente a espiral da evolução, consciente da realidade espiritual, de que a morte do corpo físico não exprime a realidade, de que o aquém e o além não existem: existe o todo. É mister que ele venha a compreender e integrar-se nas leis da criação, pois somente assim seu espírito viverá na luz da verdade, admitindo ser uma célula atuante no corpo maravilhoso que é a comunidade universal.

E a Fraternidade Rosacruz deve ser vanguardeira nessa luta, usando como armas, o próprio lema, a própria tônica e os maravilhosos ensinamentos Rosacruzes, essas joias de inestimável valor que Max Heindel nos legou.

A Fraternidade Rosacruz deve tornar-se a precursora de uma nova era, e, para tanto, é necessário que cada estudante contribua com algo de si mesmo para o êxito dessa dignificante missão. Cada qual pode colaborar de múltiplas maneiras, pois o essencial é o sentimento que dinamiza essa cooperação. Um esforço sincero e impessoal, por menor que seja, sempre terá o seu valor.

Paralelo ao esforço conjunto, deve prosseguir o crescimento individual, por meio do estudo, da meditação, do aprimoramento da razão e da compreensão das leis que regem o universo, pois, quanto mais belas forem as pérolas, tanto mais belo será o colar.

Todos os Estudantes da Filosofia Rosacruz, cônscios do papel a desempenhar nesse movimento de regeneração espiritual, devem empregar o máximo de suas energias e faculdades a fim de que o objetivo em mira seja alcançado, pois assim, irmanados pelo desejo de servir a humanidade, um dia poderão ver todos os seres humanos empunhando a taça da harmonia.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz de novembro/1966)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Pergunta: Você poderá comunicar-se com o meu Ego e me fornecer as seguintes informações: quem é meu Ego e o que ele pretende fazer com esta vida terrena, e também como poderia ter consciência dele, diária e ininterruptamente?

Pergunta: Gostaria de saber se o Sr. Heindel pode funcionar no plano do Ego. Em caso afirmativo, ele poderá comunicar-se com meu Ego e fornecer-me as seguintes informações: Desejo saber quem é meu Ego e o que ele pretende fazer com esta vida terrena, e também como poderia ter consciência dele, diária e ininterruptamente?

Resposta: Nesta vida terrena, quando estamos despertos, o Ego funciona no Mundo visível como um Espírito interior, mas durante as horas do sono, o Ego fica no Mundo do Desejo, onde também permanecerá por algum tempo após a morte. Os estágios posteriores da existência “post-mortem” serão vividos na Região do Pensamento Concreto, que é o Segundo Céu. Acima desse está a Região do Pensamento Abstrato, também chamada Terceiro Céu, o lar do Ego, que excursiona pela Terra com o fim de ganhar experiência e crescimento anímico.

Enquanto vivemos na Terra são formadas certas ligações com outros que, de acordo com a Lei de Causa e Efeito, produzirão mais cedo ou mais tarde seus efeitos. Isso aparece como sorte ou destino. Devido a transgressões, voluntárias ou ignorantes, da lei da vida em épocas passadas, nós acumulamos uma dívida de más ações que devem ser liquidadas em algum tempo. Devemos colher o que semeamos, antes que nos tornemos puros e livres em espírito. Ao chegar o momento de saldar parte da dívida, o conhecimento desse destino iminente iria paralisar-nos, e a visão total da dura realidade, provavelmente, esmagaria o espírito mais forte, a menos que já estivesse parcialmente iluminado e apto a conformar-se e aceitar as leis da natureza. Quando essa grande luz brilhar dentro do coração de um ser humano e ele sentir-se como um Espírito pródigo, apartado de seu Pai do céu, quando ele exclamar no íntimo de seu coração: “Eu irei para meu Pai”, e que esse desejo esteja sempre ante sua visão espiritual, então, pela primeira vez, ele enfrentará a incorporação de seu destino, chamada pelos ocultistas, “O Guardião do Umbral”.

O aspirante encontra essa entidade na porta entre os Mundos visíveis e invisíveis. Quando ele tenta entrar nesse mundo que conhecera anteriormente por meio da visão espiritual, ele se defronta com esse “Guardião do Umbral”, e não pode passar antes de ser admitido. Todo neófito deve enfrentar esse espectro horrendo, tal como Glyndon o fez na novela “Zanoni”, da autoria de Bulwer Lytton. Esse espectro não se manifesta à humanidade comum, mesmo nos períodos entre a morte e o renascimento, porém, o neófito, como já foi explicado, deve não só encará-lo, reconhecê-lo, mas ter a coragem de passar por ele. Deve proferir um voto solene de fazer tudo o que for possível e necessário para liquidar a dívida que está representada nessa incorporação, e também um voto de silêncio sobre todas as coisas ali ocorridas.

Quando o consulente pergunta quem é seu Ego, pede justamente a informação que o “Guardião do Umbral” dos mundos invisíveis esconde sob a benéfica lei da natureza, que ninguém tem o privilégio de quebrar. Até que tenha atingido a força espiritual para ultrapassá-lo e aprender por si próprio, isso deve permanecer oculto de si. Mesmo então, não haverá um intercâmbio ininterrupto e consciente entre o Eu superior e a personalidade. Isso pertence a um estágio evolutivo muito posterior, quando já tivermos inteiramente espiritualizado nossos veículos em essência anímica. Há somente um caminho a ser seguido: é aplicar-se diligentemente ao problema.

Se continuar a buscar encontrará, mas, lembre-se, não há meios fáceis de chegar a esse conhecimento. Ninguém pode fornecê-lo ou vendê-lo pronto a ser usado. Quanto a nós, que estamos mais avançados, tudo o que podemos fazer pelos outros é indicar-lhes o caminho, encorajando-os a encetá-lo até o fim, a despeito de todos os revezes e obstáculos, confiantes de que o que um ser humano faz, qualquer outro pode fazer. Cada um de nós tem o mesmo poder divino e está habilitado a ser bem-sucedido em tudo o que fizer.

(Livro: Perguntas e Respostas – Vol. II – pergunta 53 – Max Heindel)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Somos Espíritos!

Somos Espíritos!

Amigo leitor: somos espíritos, partes integrantes de Deus, que é Espírito também, Fonte de todo o Amor e de todo o Bem. N’Ele não existe um só vestígio de mal. Por essa razão, não podemos atribuir-Lhe nossos sofrimentos, como tantas pessoas o fazem.

Desde que o ser humano completou sua instrumentação com a Mente, com a razão, começou a dirigir-se sozinho. O livre-arbítrio e a experiência passaram a ser os dois fatores de elevação. É bom pensar muito bem nisso. Se existe qualquer dificuldade ou sofrimento em sua vida, não os atribua a Deus. Antes, deve encará-los como desafios à perfeição que um dia deveremos alcançar, segundo o desejo do Pai: “Sede perfeitos como vosso Pai Celestial”. Se o leitor é pai, não deseja que seu (sua) filho (a) se torne maior ainda que você? E para isso não deve ele aprender a fazer as coisas sozinho?

“Mas devemos ter assistência, como a que damos a nossos filhos” – poderá responder.

Sim, recebemos, desde que as desejemos. Quem procura, encontra.

Temos inúmeras provas disso. Um dia encontramos, como por acaso, a Fraternidade Rosacruz, e nela nos ofereceram um manancial de razões que nos transformaram o viver e nos tornaram possível suportar muita coisa que nada tem a ver com Deus, senão com nossas próprias falhas. Desde então as fomos corrigindo. Consideramos essa uma correta orientação, uma perfeita assistência. Dá-nos meios para que nós mesmos nos corrijamos.

Uma causa única existe para nossos males: é o desvio às leis naturais, mantenedoras da harmonia do Universo. Muita gente, presa de sofrimento e dificuldades por esse mundo afora, já ouviu falar nisso, porém, de uma forma insatisfatória. Suas dúvidas continuaram e as perguntas surgem naturalmente: se somos partes de Deus, que é o Supremo Amor e Bem, em Quem não há sequer o menor vestígio de mal, por que sofremos, então? Por que tantas dificuldades em nossa vida? Que Pai é esse que se compraz com nossos sofrimentos?

Quando alguém procura a causa de seus sofrimentos já é um importante passo para encontrar sua solução.

No íntimo de seu ser reconhece que deve haver uma causa. E há mesmo. Eu poderia desfiar agora mesmo uma série delas, as mais importantes e prováveis ao seu caso. Mas cada indivíduo é um mundo à parte. Suas condições internas são singulares. O modo como recebe as coisas, também. Por isso me permito sugerir-lhe: vá conhecer a Fraternidade Rosacruz e a maravilhosa filosofia de viver que ela oferece.

Tudo ali se faz no sincero intuito de elevar a humanidade, por meios cristãos e seguros e sem objetivos comerciais.

Não lhe exigirão nada, nem compromissos. Não há esforço de proselitismo na Fraternidade. Mas tudo lhe oferecem para que você mesmo encontre a felicidade de seu viver: entrevistas, cursos, revistas, livros, palestras públicas, folhetos informativos, etc. Há até cursos por correspondência ou por e-mail, para os que dispõem de pouco tempo, baseados em sua obra mestra “O Conceito Rosacruz do Cosmos”, onde você encontrará respostas a todas as perguntas que lhe suscite o íntimo, sejam de ordem material ou espiritual.

Nela você encontrará tudo o que deseja saber a respeito de Deus, da criação e de sua própria evolução.

Reafirmamos que não desejamos convencer ninguém. Apenas, como disse São Paulo Apóstolo: “se sua vida carece ainda de esclarecimento, procure-o”. Nós lho oferecemos. E para isso não precisará sair de sua crença. Como alguém que entra para estudar numa Faculdade qualquer, sem que essa lhe afete a crença religiosa, a Fraternidade Rosacruz também não aconselha a ninguém que abandone o lugar em que está.

Nem é necessário. Seja homem ou mulher, a Filosofia Rosacruz lhe ensina que Deus está em todo lugar e principalmente no coração de quem esteja sinceramente pondo em prática os princípios cristãos.

E conforme esses princípios mesmos é que nos dirigimos ao Amigo, oferecendo-lhe de graça o que de graça recebemos. Somos Irmãos, porque filhos de um Pai comum – Deus, em Quem “vivemos, nos movemos e temos nossa existência”. É um simples dever que um Irmão faça pelo outro o que lhe estiver ao alcance. Em nosso caso, fazemo-lo com amor.

Em nome do Senhor aqui me despeço, até próxima oportunidade.

 (De David Dias dos Santos – Publicado na revista Serviço Rosacruz –10/66)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Significado Esotérico de Fausto

O Significado Esotérico de Fausto

Comecemos pelo autor: em 28 de agosto de 1749, nasce em Frankfurt, Alemanha, aquele que é considerado universalmente um dos maiores vultos da literatura de todos os tempos: JOHANN WOLFGANG VON GOETHE. Seu pai era um advogado bem-sucedido e sua mãe filha do prefeito de Frankfurt. Após uma infância e adolescência dedicada ao estudo de Bíblia, dos clássicos, de italiano, hebraico, inglês e música, Goethe, em 1765, passou a estudar Direito na Universidade de Leipzig, tendo completado o curso em 1771, em Estrasburgo. Nessa época começou a sua brilhante carreira, escrevendo peças teatrais, sendo que Werther foi seu primeiro grande sucesso.

Em 1775, já bastante conhecido, transferiu-se para a corte de Weimar, onde permaneceria até o fim de seus dias. Lá teve a oportunidade de elaborar trabalhos maravilhosos tais como Ifigênia em Táurida, Torquato Tasso, Egmont, etc. Mas, a obra máxima de sua vida foi Fausto, iniciada em 1774, tendo sua primeira parte sido publicada em 1808. Em 1824 Goethe voltou a trabalhar na segunda parte de Fausto, cuja íntegra completou-se em 1832.

Goethe era um classicista na mais lídima expressão da palavra. Dedicou-se às letras, ao teatro e à investigação científica. Sua magnífica obra literária inspirou dois grandes movimentos estéticos em sua terra natal e em vários países da Europa. Tanto Werther como Gotz inauguraram um movimento literário conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Tensão).

Em suas obras encontramos uma grande preocupação em transmitir aos leitores o otimismo, a esperança, a fé, a crença na vida e que o esforço humano tem um significado. Sua literatura é eminentemente universalista, ultrapassando os problemas nacionais e pessoais. As obras de Goethe não dizem respeito a um povo ou época em particular, mas, representam os anseios do ser humano de um modo geral.

Não só no mundo das letras viveu Goethe. Seu interesse abrangeu também a ciência, particularmente à anatomia. Em 1784 descobriu a existência, no ser humano, de um osso intermaxilar, em forma rudimentar, contribuindo, dessa forma, para o desenvolvimento das teorias evolucionistas. Fez também estudos interessantes no campo da Botânica e da Ótica.

A figura de Goethe aproxima-se, mais do que qualquer outro ser humano, daquele ideal clássico de perfeição, por identificar-se com a razão, a lógica, com a luz, e não com os instintos, com os arrebatamentos irracionais, com as contradições e os extremos. Foi um exemplo vivo de equilíbrio, lucidez, cultura, amor ao próximo. Os ensinamentos esotéricos referem-se a Goethe como um iniciado. Veio a desencarnar em 1832, pouco depois de completar Fausto.

Fausto é uma obra de conteúdo profundamente humano, onde de tudo se encontra um pouco. Nela sobressai desde o raciocínio filosófico mais profundo até o sentimento mais delicado que possa fazer vibrar a alma. Fausto surgiu de uma longa meditação, muitas vezes interrompida e reencetada. Foram quase sessenta anos com novas ideias se sucedendo no retratar multivariado de psicologias, tipos, ambientes, através da magia do verso.

Em Fausto não só despontam os conflitos entre os personagens como ponto principal do enredo, mas também uma comovente preocupação com a natureza, um desejo incontido de devassá-la. Assim, Goethe descreve montanhas, vales, penhascos, o céu e a terra indevassáveis aos seres humanos.

A influência de Goethe na Alemanha de seu tempo foi imensa e acabou se alastrando para outros países principalmente devido à excelência de Fausto. O povo alemão amava as obras desse grande poeta. Diz-se que “os jovens as declamavam e aos domingos desciam das montanhas com as canções de Goethe nos lábios e o amor de Margarida no coração”.

Castilho e Ornelas são os autores das traduções de Fausto mais conhecidas na língua portuguesa e embora nem sempre se mantenham coerentes com o texto original no idioma alemão.

Há centenas de edições de Fausto em todas as línguas. O poema vem empolgando a humanidade desde a sua primeira aparição. Goethe iniciou O primeiro Fausto em 1774 e só o terminou em 1806. O segundo Fausto é obra da idade madura, terminado em 1832. A figura lendária do Dr. Fausto perde-se no tempo e foi objeto de outras obras de menor expressão. Essa obra tem um conteúdo profundamente humano, como já afirmamos no início, mas o que lhe confere dignidade e grandeza é justamente sua natureza mística.

Segundo alguns comentaristas, Goethe, na elaboração da obra, modificou profundamente o teor das lendas que envolvem a figura do doutor Fausto, mago astrólogo e quiromante do século XVI.

Muita gente conhece Fausto através da ópera de Gounod. Porém, nessa peça musical, a estória de Fausto parece ter um enredo muito folhetinesco e maniqueísta, próprio para filmes ou telenovelas. Um homem sensual atraiçoa uma donzela ingênua e à abandona posteriormente deixando-a à mercê das funestas consequências do seu excesso de confiança. A magia e bruxaria de algumas cenas conferem mais intensa emotividade ao drama. Quando Fausto é conduzido aos infernos por Mefistófeles, e Margarida ascende aos céus nas asas angelicais, para muitos essa é a moral mais conveniente para concluir dignamente a obra. Isso, é correto para aqueles poucos afeitos ao significado esotérico do poema. Entretanto, para quem estuda a obra em sua verdadeira essência, é inegável que o significado é bem diferente: Fausto é um mito tão antigo como a humanidade e aborda a luta entre a Maçonaria e o Catolicismo.

Como já dissemos, Fausto é um mito, e, como tal, contém uma gama de símbolos velados de importantes verdades cósmicas. O mito de Fausto descreve a evolução da humanidade na época presente, ensinando como os filhos de Caim e os filhos de Seth desempenham seu trabalho na obra do mundo.

Quando Pitágoras menciona a “Música das Esferas” não alude simplesmente a uma fantasia. Trata-se de uma realidade. O cosmos mantém-se graças a essa harmonia universal. Mas, a harmonia constante é desagradável, tornando a música monótona e desprovida de encanto. Isso realmente ocorreria se a intervalos não houvesse uma dissonância. Com a “Harmonia das Esferas” sucede o mesmo.

A chamada “Queda do Homem” foi uma nota dissonante ocorrida em nosso esquema de evolução, um desvio da linha de progresso prevista originalmente. Os Lucíferos, os Anjos caídos, provocaram a Queda e todos os sofrimentos consequentes, mas dê uma certa forma tornaram-se, também, responsáveis pela nossa evolução. Nunca chegaríamos à individualidade sem a discórdia divina. No livro de Jó, Satã é designado como um dos filhos de Deus. Lúcifer foi o emissor da nota dissonante. As experiências são muito mais significativas que os ensinamentos meramente teóricos. É necessário a escuridão para percebermos a existência da luz. A guerra com toda a sua carga de sofrimentos é que nos ensina o valor da paz. Deus também cresce. Nele nos movemos, vivemos e temos o nosso ser, a nota dissonante emitida por Lúcifer, Ele também ressoa.

Fausto representa a alma que procura o significado da vida e da evolução seguindo o caminho positivo do conhecimento e da ação. É um verdadeiro filho de Caim, decidido e voluntarioso. Margarida, ao contrário, é uma filha da água, discípula dos filhos de Seth quando trilha o caminho da fé e da devoção.

Fausto era um homem essencialmente bom. Idealista, pesquisador, aspirava atingir os píncaros da espiritualidade, mas faltava-lhe vivência. Desejava ardorosamente o crescimento anímico, porém, nessa busca cometeu o equívoco de começar de cima. Pretendia chegar à iniciação apenas pela aquisição de conhecimento, fazendo uso daquilo que apenas superficialmente logrou obter.

Nessa ânsia Incontida, começou por abordar o Ser Supremo, o Macrocosmos. Fracassou. Depois invocou o Espírito da Terra, sendo pelo mesmo repelido. Ainda não estava preparado além do que deveria começar de baixo principiando pelo degrau inferior. É um árduo trabalho cujo êxito depende de muita paciência e perseverança, Fausto não se encontrava no caminho natural da iniciação, razão porque não conseguiu conquistar a admiração dos Mestres Espirituais.

Toda uma vida dedicada ao estudo não pôde proporcionar a Fausto nenhum conhecimento verdadeiro. As fontes de sabedoria convencionais são insuficientes para conduzir o indivíduo à realização espiritual. Como afirma Max Heindel, “o homem de ciência quanto mais investigar a matéria tanto mais deparará com mistérios em seu caminho. Por fim ver-se-á forçado a renunciar às suas investigações ou a crer em Deus como um Espírito, cuja Vida penetra cada átomo da matéria”. Fausto chegou a este ponto. Afirmou não trabalhar por riquezas ou honrarias mundanas. Lutou por amor da investigação, chegando a ponto de perceber que o mundo espiritual rodeia a todos. Por meio deste mundo, pela magia, aspira agora à um conhecimento superior àquele contido nos livros.

Para adquirirmos conhecimentos elevados primeiramente é necessário assimilarmos aqueles mais rudimentares. Na escala da evolução sobe-se degrau por degrau. Fausto erroneamente começou pelo degrau mais alto, invocando o Espírito da Terra. E, ao lhe pronunciar o nome abriu sua consciência à essa presença que tudo interpenetra.  Acabou saindo repelido porque sua atitude revelava uma incrível impaciência além do que aquela porta não era para lhe ser aberta, pelo menos naquele estágio de seu desenvolvimento.

Essa frustração terrível esmagou Fausto a ponto de conduzi-lo ao desespero. Ante a perspectiva de uma existência material comum decide recorrer ao suicídio. Era a manhã de Páscoa e os sinos repicam anunciando a Ressurreição. Fausto, sensibilizado, desiste de seu propósito.

Apesar de toda sua erudição, Fausto ainda era carente de amadurecimento. Em seu interior travava-se uma encarniçada luta entre as naturezas superior e inferior, com os equívocos se sucedendo. Só mesmo as duras experiências podariam abrir-lhe as luzes de um novo caminho. É assim mesmo. Enquanto damos um caráter mundano às nossas vidas vivemos em paz. Mas, quando sentimos o chamamento do Espírito a paz desaparece. Fausto, equivocadamente, crê que alguns espíritos podem lhe conceder o poder da alma, sem imaginar que isso representa uma conquista individual. Nesse afã de recorrer a outrem está fadado ao desengano. À autoconfiança é uma das chaves do desenvolvimento, pois a ninguém que alimente esse objetivo, é lícito apoiar-se em mestres.

Fausto tão ansioso estava que acabou atraindo um espírito indesejável: Lúcifer. Há uma diferença capital entre as pessoas que casualmente entram em contato com os habitantes dos mundos suprafísicos e aqueles que investigam diligentemente, e vivem a vida até chegarem a uma consciente iniciação nos segredos da natureza. Os primeiros não sabem como empregar inteligentemente esse poder, transformando-se em joguetes de qualquer um. Os últimos, pelo contrário, dominam sempre as forças que manejam.

Fausto atrai Mefistófeles, um espírito luciférico. Este descreve quadros maravilhosos da vida, excitando a imaginação de seu interlocutor. Fausto decide celebrar um pacto com ele. Aqui na terra Mefistófeles servi-lo-á, satisfazendo-lhe os desejos. Mas, quando sentir-se realizado alcançando a plenitude as coisas se inverterão, isto é, quando se encontrarem no além, Fausto será o servo.

Mefistófeles exige de Fausto a assinatura do pacto com sangue. Esse quadro contém um profundo ensinamento oculto. Fausto quer saber qual a razão dessa exigência e Mefistófeles responde astutamente: “O sangue é a mais peculiar das essências”.

O ferro é um metal regido por Marte. A combinação desse elemento com o sangue torna possível à oxidação. O espírito só consegue manter-se no corpo através do sangue a uma determinada temperatura. Nos estados febris muito intensos a pessoa acaba delirando porquanto a temperatura do sangue eleva-se em demasia perturbando a ação do espírito. O sangue é um elemento muito utilizado nas operações de magia. Quem domina essa essência de uma pessoa, possui um forte laço de união com a mesma. Lúcifer exigiu a assinatura com sangue para manter Fausto cativo e impossibilitado de fugir ao compromisso.

Em toda sua ansiedade de adquirir poder rápida e facilmente, Fausto recorre a forças externas, chegando deste modo, a um ponto crítico. O poder da alma é uma conquista individual e interna através de uma paciente persistência em fazer o bem. Fausto não entende assim, recorrendo, equivocadamente, a falsos mestres. Estes, não vacilam em barganhar com suas vítimas, satisfazendo-lhes os desejos mais inferiores. Logicamente, acabam por cobrar de alguma forma essa “ajuda”. Lúcifer também se oferece a servir Fausto, mas estabelece uma terrível condição.

Com o auxílio de Lúcifer, Fausto conhece os extremos da paixão humana. A dor e o prazer, a alegria e a tristeza, o amor e o ódio, ensinam-lhe tudo o que os livros e as longas meditações não puderam oferecer-lhe durante muitos anos. Vivendo a vida intensamente logrou passar por uma infinidade de experiências que lhe excitaram e fustigaram a alma.

Isso tudo, porém, trouxe benefícios. É importante lembrar que à intervenção dos Lucíferos no esquema de evolução da nossa onda de vida, se por um lado causou todos os pesares e sofrimentos do mundo, por outro despertou à individualidade humana. O ser humano, dessa maneira, libertou-se da tutela dos Anjos, procurando, apesar de todos os percalços, trilhar o seu próprio caminho. Fausto, igualmente, com a ajuda de Lúcifer é levado a percorrer caminhos não-convencionais e deste modo se individualiza.

Fausto é um “filho do fogo”, guiado pela mente e pela ação. No pacto que celebra com Lúcifer encontramos uma réplica da lenda maçônica, onde os protagonistas são os “filhos de Caim” — pupilos e descendentes de Lúcifer — e os “filhos de Seth” ou “filhos de água” — a casta sacerdotal — representados por Margarida. Chega, pois, o tempo em que o confronto entre esses dois tipos de humanidade, ali representados por Fausto e Margarida, se tornaria inevitável.

Fausto observa Margarida na rua e, de imediato, vê-se tomado de intensa paixão por aquela meiga donzela, Lúcifer conduz Fausto ao laboratório de magia onde beberá do elixir da juventude, para que, rejuvenescido, seja desejável aos olhos de Margarida.

Algum dia a alma aspirante terá de entrar no laboratório de magia a exemplo da Fausto. Então, ficará só para encontrar-se com Margarida no jardim, para tentar e ser tentado, para escolher entre a pureza e a paixão, para fraquejar como Fausto ou tornar-se campeão da pureza como Parsifal, na famosa lenda musicada por Wagner.

Fausto insiste com Mefistófeles para que este facilite seu acesso aos aposentos de Margarida. Para conquistar seu afeto uma rica joia é introduzida sorrateiramente naquele local. O irmão de Margarida está ausente, combatendo pela pátria. A mãe de Margarida leva à joia à igreja para que o sacerdote a aconselhe que destino lhe dar. Este é daqueles que apreciam mais as riquezas do que as almas confiadas aos seus cuidados.

Para chegar até aos aposentos de Margarida, Fausto a induz a oferecer uma poção sonífera à sua mãe. Acontece que a poção causa sua morte. Margarida é responsabilizada pelo crime e condenada à morte.

Os Lucíferos — os Anjos caídos necessitam de sensações e emoções intensas para evoluir. Para tanto, excitam ao máximo as paixões humanas mais baixas, impelindo os seres humanos ao derramamento de sangue, aos conflitos. São, aparentemente, verdadeiros demônios. Na realidade constituem decisivos fatores da evolução humana pelas experiências que ensejam.  Sob a ação luciférica a pura e delicada Margarida veio a conhecer o pecado. A consequência dessa transgressão foi funesta, mas a inocência deu lugar à virtude. Virtude de quem sabendo pela experiência distinguir o bem do mal, optou pelo bem.

Margarida é um exemplo de como os filhos de Seth têm um caráter negativo, sofrendo as consequências de seus erros. “O salário do pecado é a morte”. Margarida foi recolhida à prisão por crime de matricídio, pois a Lei, inexorável tem que ser cumprida.

A meiga donzela encontra-se privada de toda a ajuda terrena. Mas, por essa mesma razão nunca esteve tão próxima de Deus. Entretanto, apesar de sua devoção e contínuas preces a tentação ainda a ronda. Fausto e Lúcifer tentam tirá-la do cárcere e conduzi-la a uma vida desonrosa. Margarida, porém, mantém-se firme, preferindo a morte a viver uma vida pecaminosa em companhia daqueles dois. Agindo dessa forma conseguiu vencer a prova fazendo por merecer o Reino de Deus.

Fausto usa os poderes que lhe foram conferidos e cria uma terra ideal onde os seres humanos poderiam viver em paz e realizar suas mais nobres aspirações. Sente-se realizado por fazer o bem e essa plenitude marca o fim da servidão de Lúcifer.

Pelas condições do pacto celebrado as forças do inferno libertam-se do seu domínio e subjugam-no, pelo menos aparentemente. As forças angelicais travam violenta batalha contra as hostes luciféricas. Quando Mefistófeles tenta arrebatar a alma de Fausto as milícias angelicais salvam-no, conduzindo-o para o Reino de Cristo.

O Fausto do mito difere do Fausto da ópera. O drama que principia no céu quando Lúcifer recebe permissão para tentar Fausto, assim como ocorreu com Jó na narrativa do Velho Testamento, termina também no céu quando a tentação foi vencida e a alma volta ao Pai. Esse mito encerra um significado semelhante ao da parábola do Filho Pródigo.

Fausto entre tantos simbolismos, simboliza principalmente o anseio humano de transcender seus limites físicos e espirituais. É da essência do ser humano o eterno impulso para ir além de si mesmo. É, também, o símbolo do abismo a que o ser humano se expõe nessa eterna busca.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz –  09/86)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

A Relação entre Conhecimento e Sabedoria: onde está o ponto de partida

A Relação entre Conhecimento e Sabedoria: onde está o ponto de partida

Como quase todos os problemas humanos são, atualmente, observados e pretensamente solucionados através de uma visão materialista. O Aspirante Rosacruz não duvida de que a prática da devoção é um meio de se restabelecer o equilíbrio na vida da humanidade. Nem sempre as soluções encontradas pelas vias convencionais são adequadas ou definitivas, porque não abordam os problemas pelas suas causas. Em tais circunstâncias a vida devocional oferece valiosas oportunidades de uma análise mais profunda. Se antes de tentarmos equacionar uma questão através de fórmulas convencionais ou materialistas, meditássemos ou orássemos, notaríamos como as respostas seriam encontradas mais facilmente. Na realidade a solução seria intuída. Muitos dos grandes cientistas afirmaram que na fase inicial de suas descobertas receberam como que uma “inspiração ou intuição”. Parece-nos que o resultado final é fruto de amálgama entre a intuição e a formação acadêmica. Ao corolário de todo esse processo podemos chamar de sabedoria.

O conhecimento é tão importante em nossa vida que seria um equívoco não reconhecê-lo como um poderoso fator em relação com a sabedoria. A aquisição do conhecimento em todos os níveis e campos de atividade humana tornou-se um fator de sobrevivência na complexa sociedade em que vivemos. Mas, como Max Heindel afirmou no “Conceito Rosacruz do Cosmos”: “Tão seguramente como o pensamento já existia antes do cérebro e o está aperfeiçoando para sua expressão; tão certo como a Mente vem abrindo horizontes mais amplos a desvendando os segredos da natureza pela força de sua ousadia, com igual fortaleza o coração encontrará um meio de romper os grilhões que o prendem e realizar suas aspirações. Atualmente o cérebro o domina. Algum dia manifestará toda sua força, libertar-se-á de sua prisão, se convertendo em um poder maior que a Mente”. Isso já ocorre com muitas pessoas no Ocidente.

Os Ensinamentos Rosacruzes servem de ajuda àqueles inclinados ao intelecto, podendo conduzi-los, pela via racional, ao desenvolvimento de sua religiosidade. Conhecimento é poder, e, em si mesmo não é bom nem mau. Depende do propósito para o qual é utilizado. Partindo desse princípio não é difícil imaginar a responsabilidade que o envolve.

O conhecimento oculto ou religioso em si mesmo não é sabedoria. Trata-se apenas de um conhecimento mais elevado. São Paulo nos ensinou no capítulo 13 de sua Primeira Epístola aos Coríntios: “Ainda que eu conheça todos os mistérios e toda ciência. . . se não tiver amor, nada serei”.

Não há contradições na natureza: o Coração e a Mente devem ser capazes de unir-se. A Mente, auxiliada pelo intuitivo Coração, podendo aprofundar-se nos mistérios do ser com crescente eficácia, o que não seria possível se agisse isoladamente.

Filosofia significa “amor e sabedoria”. A sabedoria é o segundo aspecto do Deus Trino, o princípio crístico que é a meta da humanidade. Assim, quando nosso conhecimento se amalgamar com o amor, surgirá a SABEDORIA — uma expressão do Espírito de Cristo.

(Publicada na revista “Serviço Rosacruz” – 07-08/87)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Órgão da Percepção da Verdade e que Instrumento temos que ter

O Órgão da Percepção da Verdade e que Instrumento temos que ter

Quando mais órgãos tiver um corpo para a recepção, o desenvolvimento e a propagação de diversas influências, mais certamente sua existência será rica e perfeita, porque terá um maior potencial de vida; mas, muitas forças para as quais não temos órgãos podem estar adormecidas em nós, e, por conseguinte não podem agir. Essas forças latentes podem ser despertadas, isto é, nós mesmos podemos nos organizar, para que elas se tornem ativas em nós.

O órgão é uma forma na qual age uma força; mas toda forma consiste na direção determinada das partes – ligadas à força atuante. O organizar-se para a ação de uma força quer dizer simplesmente: dar às partes uma tal forma ou situação que permita que a força possa agir nelas. É nisso que consiste a organização. Assim como para um ser humano que não tem órgãos, nem olhos para a luz, ela não existe realmente para ele, enquanto todos os outros que têm esse órgão gozem dela, assim também muitos indivíduos podem não gozar de coisas que outros gozam. Eu quero dizer que um ser humano poderá ser organizado de tal maneira que sentirá, escutará, verá e apreciará coisas que um outro não poderá sentir, nem ouvir, nem ver, nem apreciar, porque lhe falta o órgão de percepção.

Assim, neste caso, todas as explicações lhe seriam inúteis, porque ele juntaria sempre as ideias que teria de receber por seu órgão particular às ideias de outrem, não podendo apreciar e compreender senão o que se aproximasse das suas próprias sensações.

Assim como formamos todas as nossas ideias pelos sentidos e todas as operações da nossa razão são abstrações de impressões sensíveis, assim também não podemos fazer nenhuma ideia de muitas coisas, porque ainda não temos um órgão adequado.

Daí parece estar demonstrado que os indivíduos organizados para o desenvolvimento das forças superiores não podem dar aos que não estão organizados para isso nenhuma ideia da verdade superior, a não ser muito vagamente.

Assim, todas as nossas controvérsias e nossos escritos de pouco servem. Os seres humanos devem, primeiramente, se organizar para a percepção da Verdade.

Mesmo que nós explicássemos tudo a respeito da luz, os cegos não a veriam mais claro. É necessário que eles adquiram, primeiramente, o órgão da visão.

Eis a pergunta: em que consiste o órgão da percepção da Verdade? O que dá ao ser humano a capacidade de a perceber?

E eu responderei: “A simplicidade do coração”. Porque a simplicidade coloca o coração numa situação ajustada para receber o raio puro da razão, e esse raio prepara o coração para a percepção da luz. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.

E que instrumento é necessário para isso? E eu responderei: o Corpo-Alma!

 (Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – jan/fev-87)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

O Hipnotismo, um cerceamento e violência à sagrada liberdade individual

O Hipnotismo, um cerceamento e violência à sagrada liberdade individual

Nos ensinamentos que promulga, a Fraternidade Rosacruz leva acima de tudo a liberdade humana. Sua mensagem é, sobretudo, de libertação. Como o hipnotismo representa um cerceamento e violência a essa liberdade, a Fraternidade Rosacruz o desaprova terminantemente. Porque o hipnotismo é um cerceamento e violência à sagrada liberdade individual, explicaremos no decorrer desta exposição.

Muitas pessoas, ao tomar seu primeiro contacto com a Fraternidade e receber as instruções preliminares, estranham que vedemos a inscrição a hipnotizadores, médiuns, videntes, quiromantes e astrólogos profissionais. Explicamos: são práticas que agridem a liberdade do espírito interno, que mercantilizam e prostituem forças divinas. Isso dizemos porque a realidade mesma, observada dos planos internos, nos autoriza a proteger a boa fé e ignorância de muita gente a respeito desses assuntos.

Do ponto de vista da ciência materialista, o ser humano é considerado simplesmente como algo físico, um corpo organizado, não um ser espiritual a manipular uma complexa instrumentação mental, emocional, etérica e química. Esses conceitos materialistas são divulgados tanto nos livros e escolas que, ao atingirmos a fase adulta e começarmos a estudar o ocultismo, surpreendemo-nos muitas vezes com a insidiosa influência dessas ideias, gravadas em nós desde a infância. Sabemos da Bíblia, aprendemos catecismo em pequenos, ouvimos muitas vezes as inúmeras e claríssimas asserções de que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, de que a vontade de Deus é que atinjamos a perfeição, de que as coisas que o Cristo fazia nós as faremos também e maiores obras ainda, além de um sem número de afirmações, segundo as quais vemos que somos seres espirituais, herdeiros das promessas divinas. No entanto, passemos os olhos ao nosso redor. Vejam quanta gente agitada, convulsionada, nervosa, lutando desesperadamente numa competição muitas vezes injusta, anticristã, no afã de quê? Ficar rico? “Gozar” a vida? “Assegurar” o futuro? Onde a fé, onde a confiança em Deus, onde a convicção de que, à morte, tudo deixamos aqui, levando apenas a essência do que tenhamos FEITO de bom ou de mau?

É lógico que ninguém poderá fazer as coisas que o Cristo fez e obras maiores ainda, segundo nos afirmam os Evangelhos, se não for pelo renascimento, que permite o aperfeiçoamento gradativo, pois ninguém pode realizar esse gigantesco intento em uma só existência. É lógico que, se há “céus”, se há um plano imaterial, suprassensível, um mundo invisível aos nossos olhos físicos, esse mundo que é a origem de tudo, o mundo das causas, nenhum assunto poderá ser inteiramente considerado e compreendido, se não for abordado em seus aspectos físico e espiritual, devendo haver entre ambos os aspectos inteira coerência, pois no reino de Deus não existe contradição.

Com esse preâmbulo, voltemos ao tema do hipnotismo.

Que é ele?

Consiste em, por meio de passes à cabeça ou por meio de toques em certos pontos vitais, EXPULSAR o éter da cabeça da vítima, introduzindo ali, em substituição, por meio da vontade, o próprio éter (do hipnotizador). Nessa condição, fica o paciente privado de consciência, do crivo da razão, que o torna ser humano, ser racional, capaz de analisar, rejeitando ou aceitando o que lhe é proposto. No transe hipnótico, temos de obedecer ao que nos for ordenado. Depois a “ordem” ficará gravada através de um pequeno resíduo do Corpo Vital do hipnotizador na medula oblonga da vítima, como elos, como cordéis pelos quais o hipnotizador poderá atuar na vítima enquanto viver. O hipnotismo é perigoso, mormente nas mãos de pessoas inescrupulosas. Difundido como está, infelizmente até por certas escolas ditas espiritualistas, pode ser um instrumento de domínio, de exibição de falsos poderes, com propósitos egoístas, dando geralmente causa à idiotia em vida futura. Muitos Egos, privados numa vida de seu livre arbítrio, vinculados e aprisionados num corpo demente, de cérebro deformado, sem possibilidade de expressão natural, mostram as causas de sua enfermidade nos maus aspectos de Netuno, que rege as faculdades espirituais. Embora não seja uma forma grave de magia negra, traz essa consequência num destino maduro. Contudo, por isso não devemos concluir que todos os casos de idiotia congênita se devem a essas práticas em vidas anteriores, porque existem outras causas.

Para se ter uma ideia próxima de como se desloca a parte etérica, tomemos o exemplo de um fenômeno comum, como o do adormecimento de um braço ou de uma perna. Uma posição forçada, dificultando a livre circulação do sangue e do fluido vital, provoca o deslocamento do Éter. Em tais casos, vemos o braço ou a perna etéricos flutuando sobre o braço ou a perna material, respectivamente, até que, pela normalização da circulação do sangue, os pontos vitais de novo se introduzem no membro, dando causa, com sua entrada, àquela sensação de “formigamento”. No caso da hipnose, não se dá o formigamento porque a parte vital retirada da cabeça é substituída imediatamente por éter do hipnotizador, durante o transe.

Muitos objetam, embora, sabendo disso, que em certos casos o hipnotismo se justifica, como, por exemplo, na medicina ou em odontologia, para tirar o dente, sem dor, de pessoas que têm alergia por injeções, que têm males de coração, etc. As correntes médicas especializadas no assunto se dividem, pró e contra sua aplicação. A maioria dos psicanalistas já condenou o seu emprego nas sessões, para descobrir a causa dos traumas. Julgam eles, mui acertadamente, que o paciente deve ter consciência da causa e por si mesmo, com orientação do médico ou sem ela, erradicar o trauma.

Do ponto de vista oculto, é evidentemente errado tratar de curar um hábito, como o da bebida alcoólica, pelo hipnotismo. Encarado do ponto de vista de uma só vida (daí a ciência material e as igrejas cristãs populares muitas vezes concordarem com o hipnotismo) o tratamento pela hipnose pareceria justo e eficiente. Senta-se o paciente numa cadeira, faz-se-o dormir e dão-se-lhe certas sugestões. Desperta-se-o e quando se põe de pé, já está curado de seu mau hábito. De alcoólatra que era, converte-se num cidadão respeitável, que cuida bem de sua esposa e filhos e segundo todas as aparências o benefício obtido é inegável.

Mas se contemplamos as coisas do ponto de vista mais profundo, o do ocultista, que vê os dois planos e contempla esta vida como uma dentre muitas, que toma em consideração o efeito causado nos veículos invisíveis dessa pessoa, então o caso é completamente diferente. Quando se submerge uma pessoa no sono hipnótico, na forma já descrita, além de privá-la da livre escolha, impõe-se-lhe uma ordem, não uma simples sugestão e o paciente não tem outro remédio senão obedecer, mormente quando se repetem os transes, porque fica um resíduo do manipulador, para agir dentro do indivíduo. É como que, para usar uma comparação, uma pequena parte do magnetismo infundido num dínamo elétrico, que nele fica sempre e com o qual pode ser posto em movimento. Assim, o resíduo etérico do hipnotizador, dentro da vítima, cresce em proporção e poder, com a repetição dos transes a que for submetido pela mesma pessoa. Concluímos, pois, que a vítima de um hipnotizador não vence um mau hábito por sua própria vontade e força, senão pela imposição da vontade de outra.

Quando regressa à terra, em próximo renascimento, terá as mesmas debilidades que não venceu e terá de novamente lutar consigo mesmo, até vencer-se.

Alguém poderá contestar que uma sugestão não prejudica, pois, a vida inteira passamos a receber sugestões por meio de livros, de cinema, de pessoas, etc. Mas é um caso muito diferente, porque em tais circunstâncias a pessoa está de posse de sua razão, com direito de aceitar ou rejeitar a sugestão. Se se trata de uma pessoa de forte personalidade, diante de outra, de vontade débil, essa sugestão poderá assumir quase o caráter de uma imposição. Mas essa influência a moverá somente quando atender-lhe à natureza. Uma pessoa comum, numa assembleia onde todos estejam vibrando em uníssono numa mesma ideia, ou num comício onde um líder consiga inflamar a maior parte dos ouvintes com suas ideias, ou numa parada patriótica onde se exaltem os sentimentos de patriotismo, poderá afetar-se momentaneamente, deixar-se levar pela força da egrégora. Mas depois, consigo mesmo, voltará à tônica de seu modo de ser. No hipnotismo é diferente: fica uma influência, uma imposição estranha.

Por oportuno, lembremos o que diz Max Heindel em “O Conceito Rosacruz do Cosmo”, obra básica da Filosofia Rosacruz: “O método Rosacruz difere de todos os outros métodos num ponto especial: procura, desde o princípio libertar o aspirante de todas as limitações internas e externas, ajudando-o a conquistar o pleno domínio de si mesmo, pois só em tais circunstâncias poderá “efetivamente ajudar os demais”. Já soubemos de outras organizações com nome de Rosacruz, (não a de Max Heindel, ligada aos Irmãos Maiores da Ordem), que facilitam meios de exercer poder sobre os semelhantes. Do ponto de vista oculto e do Bem, é repreensível, mas os Irmãos Maiores têm isso a seu cuidado, como guardiães e vigilantes de tudo o que é perigoso na evolução humana. Cumprimos nosso dever, esclarecendo quando necessário, deixando o mais a cuidado desses excelsos Seres,  vanguardeiros Guias da Onda humana.

Foram os próprios Irmãos Maiores que, no tempo que julgaram oportuno, anunciaram indiretamente ao mundo a força do pensamento e deixaram entrever o mecanismo do subconsciente, muito antes de Freud. Foram eles que mandaram Mesmer, o qual foi tremendamente ridicularizado pelos postulados que pregava. Só quando os materialistas, trocando o nome da forca descoberta por Mesmer, deram ao mesmerismo o nome de “hipnotismo” é que se tornou “científica”. Em verdade, resta ainda muito a aprender e desaprender aos atuais indivíduos da ciência materialista. Podem eles lutar até o último momento contra o que, zombando, qualificam de “ideias ilusórias” dos ocultistas. É só questão de tempo; terão de aceitar e admitir todas as suas verdades, uma a uma.

“Os pensamentos são coisas”, é uma força atualmente incalculável. À medida que a razão se for desenvolvendo, controlando mais e mais os impulsos do Corpo de Desejos e o altruísmo for assegurando um legítimo emprego a todos os poderes latentes do ser humano, alcançaremos o mérito de utilizar esse poder maravilhoso, mas sempre para o bem e sem imposição a ninguém.

Siegfried, símbolo da alma avançada, na mitologia nórdica, estava armado para a batalha da vida com a espada “nothung” (a coragem do desespero) com a qual combateu e venceu os dois dragões da cobiça e do credo. E tinha outra arma, que nos tempos modernos podemos chamar de poder hipnótico: Tarcap, o capacete da ilusão, que permitia a quem usasse aparecer aos outros na forma que desejasse. E para fazer uso desse poder lhe foi dado também, por Brunhilde, o espírito da verdade, seu cavalo alado, Grane, o discernimento, graças ao qual podemos distinguir o erro da ilusão. Aí está porque nós devemos tornar primeiramente merecedores, por nossa formação moral, de utilizar esses e outros poderes do espírito. Eis, também, porque não podemos aceitar em nosso seio aqueles que propositada e egoisticamente fazem deles uso pervertido.

Para finalizar, damos um meio de empregar legitimamente a força do pensamento, em casos de pessoas que precisam de auxílio extra. Tal auxílio é prestado durante o sono natural, quando o Ego, envolto pela Mente e o Corpo de Desejos sai do corpo físico e geralmente flutua sobre ele ou permanece em sua vizinhança, ligado pelo cordão prateado, enquanto os Corpos Denso e Vital se restauram, no leito. Nessa oportunidade é possível influenciar a pessoa adormecida, inculcando-lhe no cérebro pensamentos e ideias que lhe queremos comunicar. Contudo, não se pode conseguir que ela faça algo ou que acolha qualquer ideia que não esteja de acordo com suas próprias tendências habituais. É impossível ordenar-lhe que faça algo ou obrigá-lo à obediência porque durante o sono natural seu cérebro está interpenetrado por seu próprio Corpo Vital e tem perfeito controle de si mesmo. Não há, aí, desrespeito ao livre arbítrio da pessoa. Já no sono hipnótico, os passes do hipnotizador lançam fora do cérebro o Éter da cabeça, que fica então sobre os ombros da vítima como um colar. Então o cérebro está aberto ao Éter do Corpo Vital do hipnotizador, que toma o lugar do Corpo Vital da vítima. De sorte que no sono hipnótico a vítima não pode escolher nem quanto às ideias, nem quanto aos movimentos de seu corpo, porque é o cérebro que dirige os nervos e músculos voluntários e então, está manipulado por Éter estranho. No sono natural, o Ego é o agente completamente livre. Na realidade, esse método de sugestão durante o sono é sumamente importante para as mães que têm filhos rebeldes e refratários e para as esposas de viciados rebeldes, de vontade fraca. Para tratar dessas pessoas, assenta-se ao lado da pessoa adormecida e (se possível, tomando-lhe uma das mãos) fala-se suave e audivelmente com ela, inculcando-lhe no cérebro as sugestões convenientes. Ao despertar e principalmente com a repetição (há mais facilidade, naturalmente, com as pessoas de sono pesado) verá que muitas dessas ideias lançaram raízes no subconsciente, de uma forma eficaz, porque muitas pessoas detestam conselhos e reprimendas e desse modo se lhes faculta seguir a própria deliberação. Igualmente se pode tratar assim de pessoa enferma, quando carece de otimismo, coragem, fé e outros valores importantes na cura. Sabemos que isso pode ser usado para o mal, mas não mantemos o segredo porque acreditamos que o bem que se pode realizar com esse método sobrepassará em muito o prejuízo que uma ou outra pessoa malvada possa ocasionar. Além do mais, a lei de causa e efeito se incumbe de pôr os irresponsáveis, pela dor, no devido caminho.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz de maio/1966)

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Senso de Valor: veja onde está o seu

Senso de Valor: veja onde está o seu

“Disse o Senhor a Samuel: não atentes para a aparência nem para a altura de sua estatura, pois o tenho rejeitado. O Senhor não vê como vê o homem; o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.” (ISm 16:7)

A passagem citada, do Velho Testamento, foi extraída do trecho em que Jeová manda Samuel escolher seu sucessor entre os 7 filhos de Jessé. Samuel julgava que o eleito seria dos mais fortes e de mais belo parecer. No entanto, foi escolhido David, rapazito ainda, que logo depois prostrou o gigante Golias com uma pedra atirada por uma funda.

Eis um belo tema de meditação. Influenciados, a todo passo, pelas opiniões da sociedade materialista em que vivemos, somos levados a avaliar as coisas segundo suas aparências, quando Deus nos solicita buscar os valores internos.

Na antiga Grécia, o conceito de elite era mais correto. Os realmente mais sábios e virtuosos pontilhavam na vida política, científica, artística e social. Sabemos que Xantipa, esposa de Sócrates, tinha violentas discussões com o sábio, porque ele trazia fama e não dinheiro para casa. Ainda hoje existem pessoas de grande valor, em todos os campos, que mal ganham para suas necessidades. Poucos são os que se guindam na opinião pública, como Einstein e Schweitzer, ainda em vida.

Heróis anônimos, aos milhares, estão por aí, na classe média, participando da elite de Deus, mas não da dos seres humanos.

É muito comum ouvirmos falar: “minha filha casou muito bem. Seu marido é diretor de tal firma e ganha muito bem”. Casou com o conforto, com o dinheiro, que torna lindo o noivo. Todos os dias, vemos falsos destaques serem agraciados por falsas honrarias. E, como dizem os Evangelhos, “quem já recebeu seu galardão dos homens, nada tem a receber de Deus”.

Não podemos negar que o simples fato de um indivíduo se diplomar médico, engenheiro etc., pressupõe esforço e mérito individual, que para chegar a determinado posto deve ter provado o desenvolvimento de qualidades incomuns, a menos que se haja guindado por apadrinhamento.

Mas não basta isso. A conquista de maiores faculdades ou bens sejam quais forem suas naturezas, se de um lado acarreia mérito individual, de outro lado atrai maiores responsabilidades, porque “a quem muito foi dado, muito lhe será exigido”. O uso que fará então, das faculdades ou bens que conquistou é que provará seu verdadeiro valor perante Deus. “De que vale ganhar o mundo e perder sua alma?”

O abuso de autoridade, de faculdades e de propriedade tem trazido muito sofrimento aos seres humanos. Somos apenas despenseiros dos bens que o Senhor põe à nossa disposição. Veja-se na parábola dos Talentos que o Senhor “deu mais ao que multiplicou seus talentos e tirou o único que tinha dado ao que, por medo de perdê-lo, o havia enterrado”.

A Fama, o Poder, o Dinheiro e o Amor são os meios mais usados atualmente, pelos Senhores do Destino, para adiantar a evolução humana. Por um deles somos capazes dos maiores sacrifícios, vidas inteiras. Mas quem é capaz de renunciar a si mesmo e servir os demais com o mesmo entusiasmo?

Sem exigir tanto, quantas pessoas se dedicam diariamente à prática de virtudes cristãs, pelo menos duas horas? Ou quem ora sinceramente meia hora por dia?

— Não tenho tempo! — é o que ouvimos constantemente. E lembramo-nos daquela passagem: “onde está o teu tesouro, ali está o teu coração…”

Sabendo isso e não exigindo mais do que podem dar os seres humanos, os Senhores do Destino lhes apresentam os incentivos da Fama, do Poder, do Dinheiro e do Amor. Em sua conquista tudo fazem e nesse esforço, sem o saberem, vão desenvolvendo qualidades de confiança própria, de persistência, de luta, que mais tarde serão aproveitadas num sentido superior. Quanto ao mau uso que agora fazem disso tudo, sofrerão inevitavelmente as consequências e seu efeito saturnino far-lhes-á crescer a alma, pela dor.

Muito mais, contudo, farão os que com o mesmo empenho constroem o mundo para servir seus semelhantes dos mais variados modos, administrando os bens e faculdades com perfeita renúncia de si mesmos. Esses crescerão muito e depressa, recebendo, com toda certeza, progressivamente mais, para verter no mundo, os recursos de Deus, pela evolução de seus filhos menores.

Cuidemos, pois, de avaliar devidamente as coisas e as pessoas. Muitas vezes o vidro brilha mais do que um diamante bruto… Melhor é não nos iludirmos com as aparências e buscarmos em todos “a divina essência que existe em cada um, pois isso constitui a verdadeira fraternidade”. Melhor dizendo, encaremos cada semelhante como irmão espiritual, com suas virtudes e defeitos. Não sejamos servis com os poderosos e superiores nem déspotas e infraternais com os inferiores na escala social. Tratemos a todos com a mesma lhaneza, amor e prudência, cuidando de merecer, por nossa conduta equânime e coerente, a graça de nos tornarmos dignos de ser “fiéis administradores dos bens do Senhor”.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz de maio/1966)

Idiomas