A Pureza e Força Criadora
A pureza e um dos caminhos conducentes a Deus. Relacionada com o uso da força criadora pode tornar-se um problema capaz de afligir o aspirante. Isso ocorre quando o estudo e compreensão superficiais dos ensinamentos da Sabedoria Ocidental geram um conflito entre uma convicção moral interna e a realidade do cotidiano.
Meditando sobre vários temas do Conceito alusivos à natureza da força criadora chega-se à conclusão de que esse conhecimento implica em grande responsabilidade. Responsabilidade inquestionável, porquanto essa força não diz respeito exclusivamente ao ser humano. Pertence à toda a humanidade. Uma parte é utilizada na perpetuação da espécie, e sua fonte, em última análise, é o próprio Deus, por tratar-se; essencialmente da mesma energia usada no processo da Criação. É, portanto, espiritual e sagrada.
Através do sexo, no propósito da procriação, a força criadora encontra um canal de expressão. Mas, infelizmente o sentido dessa atividade foi distorcido e o seu emprego na gratificação dos sentidos generalizou-se para desgraça do gênero humano.
Devemos manter uma atitude objetiva em relação ao sexo, livres de temor, puritanismo ou autocondenação. Mas não basta apenas ser objetiva. Há que ser objetiva e espiritual porque assim teremos condições de dirigir, controlar e transmutar essa energia em algo superior. Quando agirmos dessa forma, notaremos um crescimento admirável de nossa energia, vigor e criatividade, bem como desenvolveremos uma mais elevada consciência de Deus.
É necessário transmutar, e disso não temos dúvida. Mesmo querendo tornarmos a decisão consciente de transformar a energia, seremos atormentados pelos impulsos inconscientes que são parte de nossa formação não regenerada. Essa energia pode ser redirigida, mas isso demanda tempo e esforço sistemático.
Uma das formas que se nos apresentam de realizar essa transmutação consiste em canalizarmos ativamente nossos interesses, aspirações e entusiasmo e alguma atividade criativa, tal como pintura, dança, escultura, literatura, artesanato, etc. A princípio teremos de aprender a criar em nosso campo de atividade sem atentar para a qualidade final do produto. Com o tempo nos surpreenderemos com o fato de que poderemos criar e criar bem.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 06/86)
Caráter é destino. Nunca será demais repetir essa verdade. Afinal, ela diz respeito aos nossos interesses mais íntimos.
Todo ser humano alimenta o desejo de construir para si um destino harmonioso e equilibrado. Não vamos falar em “destino feliz”, porque o conceito de felicidade é muito relativo, variando até, sem exagero nenhum, de pessoa para pessoa. Cremos, portanto, na harmonia e no equilíbrio como o binômio ideal na constituição de um destino.
Esse binômio é atingível? Afirmamos que sim, embora poucos o tenham conseguido.
Todo ser humano anseia por um porvir agradável, sem, contudo, imaginar que ele se condiciona a um caráter bem formado. Ora, somente pelo manejamento adequado das causas, pode-se alterar os efeitos. Todo destino é, em última análise, uma gama de efeitos. Daí ser fácil concluir-se: se almejamos um futuro equilibrado, cuidemos, antes de mais nada, do nosso caráter.
Mas como fazê-lo? Em primeiro lugar, analisando-o.
E como analisá-lo? Max Heindel indica-nos um meio seguro de fazê-lo: o exercício noturno de Retrospecção. É uma forma prática de autoconhecimento.
Conhecidos nossos traços de caráter, em suas profundezas, é bom ressaltar, cabe-nos o segundo e mais importante passo: a reforma.
Não se julgue, todavia, que a correção requer luta tenaz contra o mal. Nada disso.
Resistindo-se-lhe só lograremos, para nosso desespero, reforçá-lo ainda mais. É um erro lamentável julgar que todo malefício provém do exterior. Se não há mal em nosso interior, não atrairemos males de fora.
Tudo, portanto, encontra-se em nosso mundo interno: o bem ou o mal. E o que se pode fazer no sentido de vencer o mal interno, sem luta?
A Filosofia Rosacruz enseja-nos a resposta: através do Corpo Vital, o veículo dos hábitos. Estes se formam pela repetição. O hábito reclama, insistentemente, a repetição.
Ela é o seu alimento, a chave para a gestação de um destino harmonioso ou perturbador.
Eis porque a reforma interna é de suma importância.
Muitos podem objetar essa argumentação alegando ser essa tarefa muito difícil, quase impossível.
Concordamos em que não seja fácil levá-la adiante. Mas não a reputamos impossível, não a configuramos como utópica. É uma questão de esforço e de vontade.
Ocorre que nosso caráter constitui na mescla de tendências antigas e influências novas desta existência. E como o ser humano não se dispõe com facilidade a mudanças radicais em sua vida, qualquer reforma interna encontra muitos obstáculos à sua frente.
A transmutação do “homem velho em homem novo” requer muita dedicação e coragem. Não se deve objetivar outra meta a não ser a realização do BEM. A única recompensa digna é a paz nascida do dever cumprido. O desinteresse deve revelar-se como uma norma fundamental. Fazer concessões ao interesse próprio é compactuar com as antigas e retardatárias mazelas.
Em Atenas, prometiam-se belas estátuas de mármore branco de Paros. Em Roma, belas coroas de oliveira. Maomé oferecia doces carícias de fadas amorosas. Odin, os encantos das louras Valquírias.
Em toda parte e em todos os tempos, se ofereceram recompensas a quem praticasse ou vivesse no Bem. Entretanto, uma cidade nada oferecia aos seus heróis. Era Esparta. Os defensores das Termópilas receberam apenas uma simples inscrição:
“Cumpriram o seu dever”.
O espiritualista sincero conscientiza-se de que promovendo a reforma de seu caráter está apenas cumprindo um dever. Nada reivindica para si mesmo.
Certamente terá de enfrentar momentos difíceis. Em algumas circunstâncias poderá até amargar a tentação de desistir. Fará, no entanto, da coragem a sua bandeira, não se deixando envolver pelos reclamos da personalidade. Esses heróis da alma serão as pilastras da Casa do Pai.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 11/1978)
A Autossuficiência: aprender a cultivar é imprescindível
A autossuficiência é a virtude cardinal que o aspirante da Escola Esotérica Ocidental deve aprender a cultivar. Logo de início, encorajam-se os estudantes a dependerem de si próprios e a desenvolverem o raciocínio e o sentido correto do discernimento, com o auxílio da meditação e da oração, pois esses são indispensáveis ao seu avanço e evolução espirituais.
No Livro ”Mistérios das Grandes Óperas”, Max Heindel resume nessas palavras a importância que tem a AUTOSSUFICIÊNCIA para o Espírito inquiridor que adere à Fraternidade Rosacruz: “Não se permite que ninguém se apoie em Mestres ou que siga líderes, cegamente. A ambição dos Irmãos Maiores da Rosacruz é emancipar as almas que se lhes dirigem; é educá-las, dar-lhes força e torná-las seus colaboradores (. . .) Os Instrutores não podem, de forma nenhuma, fazer por nós as obras positivas em que se baseia o crescimento da alma, nem assimilá-la por nós, ou dar-nos o poder anímico consequente e utilizável – da mesma maneira que não comem o nosso alimento para nos dar forças físicas”.
No nível presente da nossa evolução, só podemos avançar se formos autossuficientes. Já deixamos para trás os dias em que éramos guiados por grandes Seres que determinavam cada um dos nossos atos. Agora, quanto mais dependermos da consciência, do raciocínio, do juízo, da sabedoria, ou da força de vontade de outra pessoa – seja ela um Instrutor espiritual ou um ser humano – mais tempo será necessário para atingirmos o grau de responsabilidade que nos emancipará completamente de influências exteriores. Só agiremos totalmente, segundo os preceitos fundamentais da evolução da alma, quando formos completamente livres!
A autossuficiência é indispensável, tanto nas mínimas coisas como nas de maior importância. É efetivamente com as pequeninas coisas rotineiras que temos de começar; se não formos capazes de tomar decisões aparentemente insignificantes, como podemos esperar tomá-las em coisas de maior valor? Há estudantes principiantes, e até membros há muito ligados à Fraternidade Rosacruz, que escrevem para a Sede a pedir conselhos referentes a problemas pessoais ou domésticos, dos mais diminutos aos mais graves. Há tendência para considerar a Sede uma fonte donde brota facilmente auxílio em momentos de crise. “A lição que temos de aprender é a de trabalhar para um objetivo comum; sem líderes, cada um igualmente inspirado, interiormente, pelo Espírito do Amor, lutando para elevar o mundo inteiro, física, moral e espiritualmente à estatura e grandeza de Cristo” (do Livro Cartas aos Estudantes nº 20 – Max Heindel).
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 02/86)
A Gratidão onde, muitas vezes, esquecemos
Durante o mês de novembro do segundo ano da grande Guerra de Secessão, renhida entre os estados do sul e os do norte dos Estados Unidos, com vistas à abolição da escravatura, encontrava-se certo jovem médico afeto a um hospital de sangue próximo da capital do país, Washington. Certa manhã chuvosa, ao dirigir-se à cama de um ferido, aproximou-se dele uma ordenança e o deteve.
– O senhor é o Dr. Jason Wilkins? – Perguntou-lhe.
– Sim, senhor.
– Lamento, doutor, mas tenho que prendê-lo e levá-lo a Washington.
Jason olhou para a ordenança com ar de desprezo, e lhe disse:
– O senhor está equivocado, amigo.
O soldado puxou do bolso de sua farda um envelope pesado e o entregou a Jason. Este o abriu com certo temor, e leu:
“Mostre isto ao médico Jason Wilkins do regimento N.º… . Prenda-o, e o traga a minha presença imediatamente – A. Lincoln.”
Jason empalideceu.
– Que está acontecendo? – Perguntou ao ordenança.
– Não perguntei ao presidente, respondeu o soldado secamente. Sigamos imediatamente, por favor, doutor.
Assustado, Jason seguiu para Washington. Recapitulou todas as pequeninas contravenções que havia cometido.
Ao chegar ao destino, foi encerrado numa pensão por uma noite.
No dia seguinte, às doze horas, a ordenança o levou à Casa Branca.
Depois de uma hora de espera, apareceu um homem por uma das portas da audiência do presidente, e chamou:
– Dr. Jason Wilkins!
– Presente, respondeu Wilkins.
– Por aqui!
E Wilkins, após segui-lo, encontrou-se em uma sala cuja porta se fechou atrás dele. Não havia na sala senão um homem: era Lincoln.
Sentado diante de sua escrivaninha, fixou os escuros olhos no rosto de Wilkins – um rosto belo e jovem, apesar do tremor dos joelhos.
– É você Jason Wilkins?
– Sim, Excelência, respondeu o jovem médico.
– De onde é você?
– De High Hill, Estado de Ohio.
– Tem parentes?
– Somente a minha mãe é viva.
– Sim, somente sua mãe! Bem, jovem, como está sua mãe?
– Bem. .. bem. .. Não sei – balbuciou Wilkins.
– Não sabe! – Repetiu Lincoln – E por que não sabe? Está morta ou viva?
– Não sei, disse o médico. Para dizer a verdade, faz tempo que não lhe escrevo, e creio que ela não saiba onde estou.
O Sr. Lincoln esmurrou com seus grandes punhos a escrivaninha e seus olhos dardejaram sobre Jason Wilkins.
– Recebi uma carta dela. Supõe que você já morreu, e me pede que faça investigação quanto a sua sepultura. Ela não presta? É de má origem? Responda-me cavalheiro!
O médico endireitou-se um pouco e disse.
– É a melhor mulher que já viveu até agora, Excelência.
– Não obstante, você não tem motivos para gratidão! Como conseguiu você estudar para médico? Quem lhe pagou as despesas? Seu pai?
– Não, Excelência, respondeu Wilkins enrubescido; meu pai era pregador metodista pobre. Minha mãe conseguiu o dinheiro, embora eu trabalhasse para pagar quase todas as minhas despesas com pensão.
– Bem, e como conseguiu ela o dinheiro?
Os lábios de Wilkins se enrijeceram.
– Vendendo seus objetos, Excelência.
– Que objetos?
– Principalmente coisas antigas; sem valor a não ser para os museus.
– Pobre louco! – Disse Lincoln – Os tesouros de seu lar… vendidos um após outro… para você.
De repente, o presidente levantou-se e apontando com o grande indicador para a escrivaninha, disse:
– Venha cá; sente-se e escreva uma carta a sua mãe.
Wilkins aproximou-se em obediência e sentou-se na cadeira do presidente. Tomou de uma pena e escreveu uma pequena carta a sua mãe.
– Coloque-lhe endereço e me dê, disse-lhe o presidente; e acrescentou, levantando um pouco a voz: – E agora Wilkins, enquanto estiver no exército, escreva a sua mãe uma vez por semana. Se tiver que o repreender novamente por causa deste assunto, fá-lo-ei comparecer perante uma corte marcial.
Wilkins levantou-se, entregou a carta ao presidente e ficou aguardando ordens, Finalmente Lincoln se voltou para ele.
– Meu filho – disse-lhe amavelmente – não há no mundo qualidade melhor do que a gratidão. Não pode um homem encerrar em seu coração nada mais desagradável e degradante do que a ingratidão. Mesmo o cão aprecia a bondade, e nunca esquece a palavra amável ou o osso que se lhe atira.
Lincoln fez novamente uma pausa e, em seguida, disse:
– Pode ir embora, meu filho.
É desnecessário dizer que o médico reconheceu a justiça das severas palavras do presidente e em seguida começou a corrigir, para com sua mãe, o aparente esquecimento em que a tivera antes.
(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/1967)
A Encarnação do Verbo: para isso não dissimule a sua deidade
Deus, o Grande Mestre, nos ensina de muitos modos e com pedagogia inigualável. Um deles é a encarnação do Espírito numa forma, forma como a que estou usando ou as que vocês estão usando, pelas quais nos vemos e nos reconhecemos. As formas fazem parecer que somos “eu” separados. As crianças e os jovens se apaixonam e se apegam à forma. Contudo, o Espírito “adulto” vê além da forma e descobre uma natureza em comum em todas as formas. Em todos os contatos e diálogos há uma referência tácita, como que a uma terceira pessoa, a uma natureza impessoal, que é Deus em todos, irmanando-nos essencialmente.
Essa essência é que dá sentido de unidade a um grupo de pessoas que se empenham na busca da verdade (como fazemos aqui na Fraternidade Rosacruz). Essa essência é que comunica a todos o pensamento e sentimento do orador e de cada presente, permitindo a todos, na proporção em que se lhes afina, assenhorear-se à verdade e internamente crescer. Independentemente da cultura, tal essência confere sabedoria a todos. Infelizmente, a educação tradicional, materializada, busca silenciar e obstruir a expressão nessa sabedoria, considerando como mais importante as experiências sensoriais. Mas, quem aspira à verdade, atrai-a de sua fonte espiritual ou da conjugação de forças espirituais (numa reunião como a nossa), e dela se apropria sem preocupação de a rotular com AUTORIAS. A verdade é eterna e a todos pertence. Uns são melhores canais dessa fonte que a todos deseja abrir-se, mas sem compromisso de pertencer-lhes, porque é universal. Assim, aprendemos pelas circunstâncias, pelas experiências próprias e alheias. Muito se aprende de pessoas simples e intuitivas.
Na sociedade, no trabalho, na família, muitas vezes descemos da nobre condição de seres espirituais para a de seres comuns, quando dissimulamos nossa deidade e nos misturamos aos hábitos comuns que acabam por delongar nossa ascenção. Tal se dá pela falta de convicção: medo de expressar o que essencialmente somos, conveniência de tirarmos proveito econômico, agradando aos demais, o tremendo impacto das opiniões contrárias, etc. Mais sábia é a discrição convicta de quem “vive no mundo e não lhe pertence” e diz as cousas quando, como e a quem seu íntimo o revela, sem trair sua identidade espiritual.
É o Espírito quem percebe e revela-nos a verdade. Ele está presente em todos e em todas as idades. Em minhas relações com meu filho, erijo o Espírito como árbitro entre nós: nos seus olhos jovens assoma o mesmo Espírito como árbitro entre nós: nos seus olhos jovens assoma a mesma essência que ele e eu amamos e reverenciamos, acima de tudo! O entendimento não existe independentemente do Espírito: a característica da inteligência é a de discernir entre o certo e o errado, através do Espírito. Somos muito mais sábios do que supomos.
Se não interferíssemos na ação do pensamento e o deixássemos fluir integramente, então poderíamos aprender muito mais de nosso íntimo, vendo o pensamento e a ação do Espírito sem entraves, em todas as pessoas como em nós mesmos. A comunicação que o Espírito faz da verdade ao coração é o mais sublime acontecimento da natureza, pois a verdade não apenas dá de si, senão que se dá inteira e se converte no próprio indivíduo a quem ilumina. Esse o mecanismo da intuição, o verbo que faz carne, na ação humana, quando o entendimento não o desvirtua ou intercepta.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro/1971)
Como se deve orar
Como se deve orar? Aprendemos a técnica da oração com os místicos cristãos, desde São Paulo até São Bento, e até essa multidão de apóstolos anônimos que durante vinte séculos iniciaram os povos do Ocidente na vida religiosa. O Deus de Platão era inaccessível na sua grandeza; o de Epíteto confundia-se com a alma das coisas e Jeová era um déspota oriental que inspirava terror e não amor. O cristianismo, pelo contrário, colocou Deus ao alcance do ser humano. Deu-lhe uma face; fê-lo nosso Pai, nosso Irmão e nosso Salvador. Para atingir Deus, já não há, necessidade de um cerimonial complexo nem de sacrifícios sangrentos. A oração tornou-se assim fácil, e sua técnica simples.
Para orar, basta somente o esforço de nos elevarmos até Deus; tal esforço, porém, deve ser efetivo e não intelectual. Uma meditação sobre a grandeza de Deus, por exemplo, não é uma oração, a não ser que seja, ao mesmo tempo, uma expressão de amor e fé. E assim a oração, segundo o processo de La Salle, parte de uma consideração intelectual para logo tornar-se efetiva. Seja curta ou longa, seja vocal ou apenas mental, a prece deve ser semelhante à conversa que a criança tem com o seu pai. “Cada um apresenta-se conforme é”, dizia um dia uma pobre irmã de caridade que há trinta anos queimava a sua vida ao serviço dos pobres. Em suma: ora-se como se ama todo o nosso ser.
Quanto à forma, a oração varia desde a curta elevação a Deus até à contemplação; desde as simples palavras pronunciadas pela camponesa que se ajoelha perante a cruz na encruzilhada dos caminhos até a magnificência do canto gregoriano sob as abóbadas de uma catedral.
A solenidade, a grandeza e a beleza, não são necessárias para a eficácia da oração. Poucos homens têm sabido orar como São João da Cruz ou como São Bernardo de Clairvaux, não havendo necessidade de ser-se eloquente para ser atendido; quando se aprecia o valor da oração por seus resultados, nossas mais humildes palavras de súplica e de louvor são tão aceitáveis ao Senhor de todos os seres como as mais belas invocações. Fórmulas, recitadas maquinalmente são, também, de qualquer forma, uma oração. Sucede o mesmo que acontece com a chama de um círio. Basta, para isso, que essas fórmulas inertes e essa chama material simbolizem arroubo de um ser humano para Deus. E também se ora por meio da ação, pois já S. Luís Gonzaga dizia que o cumprimento do dever é equivalente à oração. A melhor maneira de comunicar-se com Deus é, incontestavelmente, cumprir integralmente a Sua vontade.
“Pai Nosso, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como nos céus”. Fazer a vontade de Deus consiste, evidentemente, em obedecer às leis da vida, tais como elas se encontram gravadas nos nossos tecidos, no nosso sangue e no nosso espírito.
As orações que se elevam como “uma pesada nuvem da superfície da Terra” diferem tanto umas das ou outras como diferem as personalidades daqueles que rezam; contudo, consistem em variações sobre estes dois mesmos temas – amargura e amor. É inteiramente justo implorar o auxílio de Deus para obter-se aquilo de que temos necessidade; no entanto, seria absurdo pedir a realização de um capricho ou solicitar aquilo que devemos procurar por nosso esforço.
O pedido importuno, obstinado e agressivo é bem-sucedido. Um cego, sentado à beira do caminho, lançava as suas súplicas cada vez mais alto, apesar das pessoas que o queriam mandar calar. “A sua fé curou-te”, disse Jesus que passava. Na sua forma mais elevada, a oração deixa de ser uma petição. O homem declara ao Senhor de todas as coisas que O ama, que Lhe agradece as dádivas e está pronto a realizar a Sua vontade, seja ela qual for.
A oração torna-se contemplação. Um velho camponês estava sentado sozinho no último banco da igreja vazia, “Que esperais?”, perguntaram-lhe. “Olho para Ele”, respondeu o homem, “e Ele olha para mim”. O valor de uma técnica avalia-se por seus resultados. Toda a técnica da oração é boa, quando põe o ser humano em contato com Deus.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de abril/1971)
A Impaciência diante dos Grandes Alvos
Escreveu Max Heindel: “Um dos maiores erros de nossa época é a impaciência contra as restrições”. “Herói verdadeiro não é o que num impulso denodado pratica um ato incomum, senão o que, paciente e perseverantemente vai buscando, dentro de suas possibilidades, dia após dia, alcançar o alvo”.
Isto se aplica a tudo: quer aos assuntos materiais, quer aos espirituais. Mas damos ênfase ao lado espiritual porque muitos estudantes supõem que a meta iniciática seja coisa fácil. E, após um ou vários anos de estudos e esforços comuns, acabam desanimando, porque os resultados não correspondem à sua expectativa. Como esclarece Heindel: “ora, se para chegar a se diplomar médico, leva-se quase vinte anos de estudos, e assim mesmo sem prática, requerendo muito tempo chegar à proficiência, como podemos pretender grandes progressos espirituais após alguns meses ou anos de estudo, se os assuntos da alma são muito mais delicados e complexos”?
Em seu livro “Nossos Conflitos Interiores”, a Dra. Karen Herney salienta que o mais potente fator de frustração e desânimo reside na tentativa de querermos viver a altura de uma imagem irreal visionária de nós mesmos. Cada dia, psiquiatras e conselheiros deparam com milhares de homens e mulheres, cujos problemas emocionais provêm de lacunas intransponíveis, entre sua condição real e a que pretendem ser.
Como disse Shakespeare, o iluminado: “antes de tudo, sejamos honestos conosco mesmos”. Sejamos honestos sim, enfrentando nossa imagem real, com suas virtudes e limitações e buscando alcançar os alvos, dentro das reais possibilidades.
Alguém pode objetar que a insatisfação e a base do progresso humano, e que isto será uma pregação de conformismo. Mas não é o caso. Desejamos fazer entender que, na ascensão do homem velho para o homem novo, todos os dias, devemos escalar os degraus intermediários dos alvos menores, até atingir o alvo maior.
Todos sabem que seria pretensão qualquer novato querer atingir, de início, as marcas de um atleta já treinado: isso requer exercício diário. A mesma regra se aplica a qualquer assunto ou atividade.
Não faz muito tempo, dois médicos de Nova Iorque mencionaram os resultados de seus estudos referentes a jovens empregados de uma indústria, onde constataram futuros distúrbios cardíacos em dois moços que atravessavam tensões emocionais, em razão de trabalhos além de suas possibilidades, para alcançar a curto prazo aspirações muito altas. Há uns quarenta anos, o psicanalista Dr. Alfredo Adler descreveu acuradamente a situação dessas pessoas, dizendo: “esforçar-se para atingir um alvo além dos limites realistas das possibilidades pessoais, resulta em inferioridade e desajustamento”.
Muitos de nós, sem o perceber, vitimamo-nos com idênticos conflitos, olvidando que os alvos da vida se compõem de outros menores. Não nos tornamos virtuosos nem profissionais competentes, de um dia para o outro.
Se alguém nasceu com aptidões invulgares e sobe adiante de nós, não o invejemos: é certo que ele trabalhou em vidas anteriores para conquistar essas capacidades. Sem olhar para os demais, façamos AQUI e AGORA o que nos compete, na medida de nossas forças. O imediatismo e impaciência ante os grandes alvos, prejudicam a segura ascensão pelos degraus que eles conduzem, exaurindo-nos desnecessariamente as energias morais e físicas e produzindo-nos a pior das fadigas: a psicológica, acompanhada de insatisfação, depressão, frustração, desânimo.
A melhor receita é “fazer todas as coisas como se fossem para Deus (dentro de nós), desapegando-nos dos resultados”. Se, nesse espirito, diligenciamos no cumprimento das tarefas ou das etapas de um Ideal QUE PODEM SER REALIZADAS AQUI E AGORA, com o esforço normal, com o equilíbrio e eficiência normais, então obteremos a satisfação que advém de um trabalho DEVIDAMENTE CONCLUÍDO.
“A aceitação de si mesmo – escreveu a psicanalista Antônia Wenkert – abre caminho para o espírito de iniciativa e criatividade”. Pena é que essa aceitação não se verifica facilmente neste século XX de competição e materialismo, no qual, o símbolo peculiar de coragem e. êxito é o anseio de grandes realizações, conquistadas ainda que a expensas da saúde e de princípios cristãos.
Não nos deixemos iludir por falsos conceitos. Um dos segredos da felicidade humana reside na aptidão de dar flexibilidade à imagem que fazemos de nós mesmos, realizando TODOS OS DIAS, DA MELHOR FORMA QUE PUDERMOS, NOSSO TRABALHO DE ADMINISTRAÇÃO DOS TALENTOS DE DEUS, sem olhar para os resultados nem para a apreciação que os outros possam de nós fazer.
Então verificaremos, surpresos, que esse desapego aos resultados e méritos, essa dedicação ao Eu superior, vão nos tornando, gradativamente, em canais de inspiração e direção divinas, capazes de realizar, naturalmente, tarefas que humanamente nos seriam impossíveis. E diremos humildemente: «não sou eu quem faz as obras (a natureza humana, com sua mente, emoções e capacidades físicas), senão o Pai em mim (o Infinito tornado finito em nós, o Cristo interior). E quando menos esperamos, surge o alvorecer.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 11/1971)
Autorregeneração: o cuidado com nossos pensamentos num círculo espiritual
Há um momento, na vida espiritual do estudante Rosacruz, em que ele se dá conta do extraordinário poder que poderá ter o pensamento na conquista de seus anelos, especialmente quando bem assessorado por um desejo forte. Neste momento, entretanto, poderá correr o risco de se deixar ofuscar, empregando levianamente a vontade a serviço desse poder. Pode acontecer, por exemplo, que sentindo necessidade de alguma coisa material e não dispondo de meios para adquiri-la, e percebendo que bastará pensar com toda a sua força em como seria bom obtê-la para que cedo ou tarde veja realizado o seu desejo; mas, como nada vem de graça às nossas mãos, acabará percebendo também que sempre haverá um preço a pagar por tudo o que recebemos. Já o fato de sentirmos necessidade de coisas materiais, por mais válidos que sejam os nossos desejos, traz consigo várias implicações que podem desvirtuar o sentido natural de um simples desejo e transformá-lo numa espada de dois gumes.
Se o estudante for mesmo sincero e honesto em seu propósito superior, acabará concluindo que de nada servirá para a sua escalada a um nível superior o fato de empregar a vontade de maneira tão limitada. Se for mesmo, aprendendo a pensar com justeza, acabará desejando somente coisas justas. E, à medida que aumentar o seu entendimento para o certo, e para o seu desprendimento, a vontade vai se transmutando em força de realização, e notará que as coisas materiais, de que tenha real necessidade, acabarão vindo-lhe às mãos naturalmente, sem que precise preocupar-se com elas.
Na verdade, o ser humano que se eleva não necessita pedir nem desejar. Seu próprio esforço para melhorar intimamente vai torná-lo digno de merecimentos cada vez maiores e mais evidentes. Tendo aprendido a transformar a vontade em força de autorregeneração, essa própria vontade irá também ampliando o seu campo de possibilidades e de aquisições tanto materiais, como espirituais, dependendo a que direção tenha encaminhado a sua vida.
Seria bom não esquecermos, também, que o pensamento não é válido apenas para adquirirmos algo para nós mesmos, em função apenas de nosso próprio benefício. Qualquer que seja a nossa atitude na vida, o modo como dirigimos nossos pensamentos, tem sempre grande influência junto ao grupo de que fazemos parte, à sociedade a que pertencemos. Especialmente se participamos de alguma entidade espiritual, nossa atitude diante do mundo, nossas disposições para com os indivíduos e mesmo para com as massas vão repercutir sistematicamente em nosso trabalho e em nosso convívio com os nossos irmãos. Nossos pensamentos têm uma tremenda influência sobre nós mesmos, nossa conduta, nossas disposições, nossa vida, enfim; tanto que nossos rasgos de sinceridade ou nossas capitulações mais íntimas, por mínimos que forem, vão ressoar favorável ou desfavoravelmente, não apenas sobre nós mesmos, mas também no ambiente de que fazemos parte, tanto ativa como passivamente.
Se, por exemplo, alguém falhar em uma só disposição interna, ou se alimentar alguma dúvida, mesmo que não as exteriorize, aquele lapso irá, cedo ou tarde, retumbar no conjunto, como uma pequena nota discordante, que, se não for sanada a tempo, acabará nos arrojando – de um jeito ou de outro – fora do contexto. Daí a necessidade de mantermos bem claros os nossos pensamentos e as nossas intenções, procurando ser muito fiéis às nossas certezas, para que qualquer indecisão ou desleixo possa ser cortado de início, não arriscando afetar ou comprometer o equilíbrio de um conjunto.
Segundo dizem, a caridade começa em casa. E o fato de sermos autênticos, antes de mais nada, não deixa de ser uma forma de caridade, porque só tendo segurança de pensamentos, de ideias, de ideais, daquilo que realmente se quer, é que realmente se poderá influir positivamente na segurança e no progresso de um todo, para que esse todo possa expressar-se, forte e positivo, na difícil arena do mundo. E, neste particular, não nos basta afirmações ou aparências de santidade, exposição gratuita e valores íntimos, tampouco a defesa de um ponto de vista religioso, se tudo isto não estiver fortemente escudado na força de uma verdade interna positiva. Por isso, é mister esforçar-nos por saber o que realmente queremos, para que não haja dúvida alguma em nossas escolhas. A dúvida enfraquece qualquer disposição, retardando ou modificando o bom resultado que todos podem estar esperando de nós, como um compromisso sagrado.
Se, em nosso lar ou sociedade devemos ter este cuidado com nossos pensamentos, principalmente no que se refere ao sentido moral das coisas, num círculo espiritual, com muito mais razão esta verdade se impõe. Porque o sentido espiritual é muito mais amplo, abarca não só o ideal que abraçamos como escopo de vida, como também nosso relacionamento com o indivíduo, e, num estágio mais elevado, com a humanidade inteira, com a vida, com o Cosmos. E esta, como veem, é a nossa grande responsabilidade.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 1/75)
Empenhe-se em uma Só Direção
Vagávamos, todos nós, durante longo tempo, juntamente com a humanidade comum, pelo deserto do mundo, como que perdidos, ansiando, graças a certa maturidade interna, espiritual, por algo mais elevado do que tudo aquilo que existia até então; até que, em um belo dia, tivemos a ventura de encontrar a Escola Iniciática Rosacruz, portadora de sublimes ensinamentos dados pelos Irmãos Maiores da Ordem desse nome, para eterno benefício da humanidade. Esses ensinamentos foram-nos transmitidos por seu fiel mensageiro, o iluminado mestre Max Heindel, a quem muito devemos. Esse nosso encontro com a Rosacruz foi de suma importância e ficamos maravilhados mesmo. Portanto, encontrado o caminho certo, com justa razão nos matriculamos nesta Escola, cujo curriculum consta de 7 etapas ou Cursos, que são: Preliminar, Regular, Probacionista, Discípulo, Irmão Leigo (a), Adepto e Irmão Maior, com o firme propósito de seguirmos fielmente e com toda diligência os preciosos ensinamentos por ela ministrados. Estes nos incitam, como um dos pontos FUNDAMENTAIS, A CONCENTRAR OS NOSSOS ESFORÇOS NUMA SÓ DIREÇÃO, E JAMAIS FICARMOS ZIGUEZAGUEANDO DE UM CAMINHO PARA OUTRO. Temos esses ensinamentos, já na obra básica, isto é, no “Conceito Rosacruz do Cosmos”, com o título A FRATERNIDADE ROSACRUZ, que, entre outras coisas, nos diz, expressamente, o seguinte:
“Depois de completar o Curso Preliminar, o estudante é automaticamente matriculado como Estudante Regular durante dois anos. Findos esses, caso tenha-se compenetrado da verdade dos ensinamentos Rosacruzes e preparado para cortar toda relação com qualquer outra ordem oculta ou religiosa excetuando-se as Igrejas Cristãs e ordens fraternais – pode assumir a Obrigação que o admite no grau de Probacionista. Não pretendemos insinuar, na cláusula anterior, que as demais escolas de ocultismo não servem. Longe disso; muitos caminhos conduzem a Roma, mas chegaremos com menos esforços seguindo por um deles do que ziguezagueando de um caminho para outro. Nosso tempo e energias são limitados e, além disso, reduzidos por deveres de família e sociais que não devemos descuidar para atender ao próprio desenvolvimento. A fim de evitar, no máximo, o desperdício das energias de que legitimamente dispomos e evitar a perda dos poucos momentos ao nosso dispor, os Guias insistem no corte de relações com as demais ordens”.
Os Guias, a que “O Conceito” se refere, são os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz. É lógico e coerente que devemos seguir essa segura e sábia orientação, e, se assim fizermos tornará patente estarmos com o pé na realidade, aliás sublime, portanto, libertos de imperfeições maiores, particularmente de confusão dentro de nós, como se ainda fôssemos seres indefinidos (pois a árvore se conhece por seus frutos – é um ensinamento dos Evangelhos).
Para ilustrar, ainda, o importante assunto aqui tratado, lembramos a todos que, se nos matricularmos numa Faculdade de Direito e quisermos alcançar bons resultados, temos que seguir com diligência o curriculum dela, a sua orientação, pois, se ficássemos correndo de uma faculdade a outra finalmente, não nos formaríamos em nenhuma delas. No campo espiritual a coisa é mais séria ainda. Atentemos.
Nos centros e grupos Rosacruzes, devemos transmitir os formosos ensinamentos que recebemos dos queridos Irmãos Maiores, de maneira fiel e diligente, pois, de certo modo estamos funcionando como guias de outros que estão começando, portanto, necessitam muita definição e firmeza; ademais, não temos o direito de deturpar nada, de ninguém, principalmente dos Irmãos Maiores, aos quais devemos o máximo respeito e admiração!
Neste artigo, que não passa de lembrete de pontos fundamentais da Filosofia Rosacruz, aparece o nome de quem o escreve, unicamente com a finalidade de resguardar a Fraternidade Rosacruz de qualquer falha que por ventura exista. Encerra ele, tão-somente, o pouco que o autor pôde alcançar dos ensinamentos Rosacruzes.
(De Hélio de Paula Coimbra, Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – 10/77)
Como na Pedagogia: Objeto, Meio e Fim e a Órbita de Influência de Aquário
Como na pedagogia, a Escola Rosacruz, em seu trabalho, leva em conta três elementos:
1. O ser humano – objeto do aprendizado e regeneração;
2. A Filosofia – o meio; e,
3. Regeneração do ser humano e sua religação a Deus – o fim.
Embora todos os seres humanos tenham tido a mesma origem, como espíritos virginais diferenciados em Deus para a peregrinação na matéria e potencialização dos atributos divinos herdados, é sempre inevitável que cada espírito passe, ao longo de seu caminho evolutivo, por experiências diferentes. Desse modo foi formando um todo diferente, um microcosmo original, uma chispa divina que essencialmente é igual a seu Pai e seus Irmãos, porém dinamizou e modelou as qualidades divinas a seu modo. Daí ser ele um indivíduo, algo indivisível, distinto, um mundo próprio. E precisamente essa heterogeneidade do ser em evolução, pelo uso da Epigênese, ou seja, pela capacidade de criar coisas novas e originais, é que vai formando, no macrocósmico corpo de Deus, algo sempre novo. Desse modo, à medida que evoluímos, Deus também evolui porque “nele Vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”. Isso exposto, justificamos porque a Escola Rosacruz, ensinando o Renascimento, a Lei de Consequência e a Epigênese, tem no indivíduo a base de sua mensagem. Cada indivíduo é um mundo à parte. O conceito de individualidade, na Escola Rosacruz, atinge muito mais profundamente a realidade universal do ser humano, porque a isenta de culpa dos condicionamentos hereditários e outras dependências passageiras, inerentes ao seu presente estado evolutivo.
De fato, o ser humano real, o indivíduo, está destinado a converter-se num “super-ser humano”, livre dos laços de sangue, de nacionalidade, de raça, de credo e todas as demais restrições até agora justificadas pela necessidade.
O ser humano é nos estados atual e futuro, um Prometeu e um Hércules. Agora nos achamos encadeados, pela transgressão às Leis geradoras da morte, ao mundo material, como Prometeu ao Cáucaso. Havendo trazido o fogo divino, sentimos interno anseio de libertação e nossa dignidade de príncipe nos anima a resistir e lutar; mas a parte humana exige a repetição dos perniciosos hábitos antigos e com isso vemos o abutre (a lei de Consequência) comer-nos todo dia (cada vida) o fígado, (centro do Corpo de Desejos) que se renova (renascimento), até que nos convertamos num Hércules, um “super-ser humano”, que vence os doze trabalhos (libertação da influência adversa de seu zodíaco e sublimação das qualidades de suas doze casas zodiacais). Diz-se que Hércules, quando foi libertar Prometeu, atravessou o grande oceano num pote ou caneco de barro. Aqui está vivamente figurada a resolução do Cristão que navega no frágil barco da carne, do corpo, pelas ondas ou vicissitudes do mundo.
Estamos nessa transição de Prometeu a Hércules. É a condição expressa por Paulo apóstolo quando se sentia exaltar, como espírito, mas reconhecia outra lei em seus membros. É o que disse o iniciado Goethe, quando, pela boca de um de seus personagens, sabia possuir duas almas em conflito: uma que ansiava voar aos céus e outra que se agarrava à Terra com passionais desejos.
Diz a Bíblia que a Lei e os Profetas vieram até João Batista. Depois deste vem a época de Cristo, do Amor. Todavia, como citamos acima, o Novo Testamento reconhece a penosa transição. Começamos um novo dia, mas pouco passamos da meia-noite. Temos de trabalhar, vigiando e orando, até que nos chegue a Alva. O egoísmo e as limitações geradas pelas religiões de raça e pelas leis ainda persistem em nós, em graus diferentes para cada indivíduo. O aspirante Rosacruz procura abreviar a libertação desses obstáculos, não pelo medo ao inferno ou de chamas eternas, não pela recompensa de um céu futuro, embora essas ideias sejam ainda justificáveis para aqueles que estão ao nível do cristianismo popular, mas pelo dever que lhe impõe a condição de Filho de Deus, iluminado pelo discernimento. A Escola Rosacruz é Cristianismo Esotérico, a Religião do Futuro, da Época de Aquário, que se vai iniciar daqui a uns 600 anos e cuja órbita de influência, segundo a precessão dos Equinócios, começou em meados do século passado. Sob o raio de originalidade e racionalidade de Urano, Aquário iniciou o evento da conquista do ar e do éter (rádio, TV, telégrafo, telefone, avião, conquistas espaciais etc.) e a tendência de tudo racionalizar trouxe comprometedora sombra de materialismo. Para atender a essas almas avançadas e orientá-las com uma religião científica, surgiu a Fraternidade Rosacruz. Ela mostra a constituição trina corporal do indivíduo (Corpos Denso, Vital e Desejos), sétupla (os corpos citados, dirigidos, através da Mente, pelo tríplice espírito individual) e decupla (com acréscimo da tríplice alma ou fruto da experiência do espírito sobre os corpos). Sua Antropogênese abrange uma anatomia oculta (os veículos mencionados, centros espirituais, posição, natureza) e fisiologia oculta (como se formaram funções, estado atual e futuro). Disseca o homem como ser humano e espiritual, história sua queda e prescreve os métodos mais racionais e seguros de desenvolvimento, transmutação e reunião final com Deus.
Assim, revela ao ser humano o que ele é (“Nosce te ipsum”), identifica-o com seu Criador, cuja Trindade em Um (Pai, Filho e Espírito Santo) se acha nele expressa em igual natureza e na proporção de seu estado de consciência, como tríplice Espírito, que trabalha através da Mente para dinamizar os atributos latentes de Vontade-Poder, Amor-Sabedoria e Movimento-Atividade.
Mostra-lhe os fins imediatos e mediatos: a regeneração para uma vida mais feliz, baseada no sentimento de verdadeira fraternidade e serviço amoroso e desinteressado; e seu destino de Filho Pródigo que é de tomar a resolução de voltar à Casa Paterna de onde veio, mas agora rico, pela consciência da riqueza herdada, através da experiência. O apóstolo o exprime bem na I epístola aos Coríntios, cap. XV: “passando da fraqueza à fortaleza, da corruptibilidade à incorruptibilidade, da mortalidade material à imortalidade do espírito, porque o primeiro Adão foi feito em alma vivente, mas o último Adão sê-lo-á em espírito vivificante”.
Finalmente, a Fraternidade Rosacruz facilita amorosa e desinteressadamente o MEIO de o ser humano atingir esses fins imediatos e mediatos, por meio do desenvolvimento paralelo e harmonioso da Mente e do Coração, da Razão e do Sentimento. Seus livros são vendidos a preços razoáveis; os cursos orais e epistolares, bem como os folhetos informativos, são gratuitos. Como Escola essencialmente cristã, sustenta-se dos donativos voluntários de seus membros. E os recursos recebidos ela os canaliza para esse relevante serviço da regeneração humana, na qual se funda a verdadeira felicidade.
Se você, leitor, não empreendeu ainda um estudo sério da Filosofia Rosacruz para conhecer a si mesmo (Antropogênese) e o Universo (Cosmogênese), faça-o agora. Se já o está realizando, contagie outras almas afins, que estão buscando também. Espalhemos a mensagem de Aquário a todos os companheiros. Nossa vida, nosso exemplo, farão ecoar o som que vibrará nos corações deles, como um diapasão, tocando, afeta outro afinado no mesmo tom.
Que o Senhor, através do nosso exemplo, se comunique aos outros, como a energia da Usina Central ilumina as casas. Basta apenas a resolução e ato de ligar a “chave” dentro de nós, para que a corrente de Deus se exprima em luz.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz em 11/1975)