Jonathan e o Anjo
Jonathan não era exatamente medroso, mas, por outro lado, não era muito corajoso. Estava profundamente adormecido quando, de repente, pareceu-lhe ouvir uma música. Sentou-se a tempo de ver seu irmão e os outros pastores descendo a montanha apressadamente em direção à pequena cidade de Belém. Por que estavam indo a Belém a essa hora da noite? — E, se ele tinha que ficar sozinho para vigiar as ovelhas, eles não deveriam tê-lo avisado?
Então, Jonathan percebeu que havia muitas luzes no céu e que a música, que ele pensava ter ouvido em sonho, ainda continuava. Uma música como ele jamais havia ouvido — parecia ser acompanhada de centenas de vozes e era ao mesmo tempo tão doce e suave, que teve vontade de chorar. Mas que tolice! Ele tinha sete anos e certamente não chorava mais.
Entretanto, alguma coisa estava acontecendo que ele não podia entender. Sabia que era noite, mas o que eram todas aquelas luzes vibrando em todos os lugares, principalmente bem em cima de Belém? E de onde vinha aquela música?
As ovelhas não estavam agitadas, mas elas também estavam acordadas. Elas estavam deitadas, de olhos abertos e pareciam escutar a música. Elas, entretanto, não ficariam em silêncio por muito tempo, não com todas aquelas coisas estranhas acontecendo. E quando começassem a perambular, o que ele faria? Por que, oh, por que ele tinha importunado tanto seu irmão para que o trouxesse para as montanhas com os outros pastores? Ele era muito novo para ser pastor. Seus pais haviam dito isso e eles tinham razão. Agora, seu irmão e os outros tinham ido embora para, provavelmente, dar-lhe uma lição.
De repente, Jonathan sentiu seu coração quase parar de bater. Bem na sua frente, surgindo do nada, estava…estava um Anjo! Ele nunca tinha visto um Anjo antes, mas sabia que aquilo era um Anjo. Era alto, vestido todo de branco, com uma linda luz cor de pêssego reluzindo ao seu redor. Seu rosto era sério, mas tão bondoso que imediatamente Jonathan teve vontade de contar-lhe seus problemas.
Então, o Anjo sorriu e pronunciou umas palavras com voz tão profunda e suave, que parecia estar cantando e não falando:
— Seu irmão e seus amigos foram a Belém para ver algo muito bonito. Você gostaria de ir também, Jonathan?
— Sim – sussurrou Jonathan – mas e as ovelhas — ele começou a falar.
— As ovelhas estarão seguras. Venha, meu filho.
E o Anjo desceu o atalho que levava até a vila. Jonathan correu atrás dele e o alcançou, e ficou olhando para Seu rosto. O Anjo não disse nada, mas sorriu para o menino carinhosamente, com tanta beleza e amor, que Jonathan sentiu como se quase pudesse voar, de tão feliz que estava.
Juntos, eles desceram a montanha e atravessaram as estreitas e curvas ruas da vila, passando pelas lojas dos tecelões, pelos lugares onde se vendiam ervas cheirosas, pelo lugar onde se guardavam os camelos, pela loja do homem que fazia tendas e pela árvore sob a qual o velho Malaxai, o escriba, sentava-se todos os dias lendo e escrevendo cartas para as pessoas da vila.
Finalmente, eles chegaram ao outro lado da vila e a luz que tremulava pareceu-lhes ainda mais brilhante. Ali existia uma gruta onde os estrangeiros que ficavam na hospedaria guardavam seus animais. A gruta estava iluminada como se o Sol estivesse brilhando dentro dela. Parecia haver algumas pessoas, mas estava muito silenciosa. Nada podia ser ouvido, exceto a música que não cessava.
Jonathan viu seu irmão e os outros pastores ajoelhados e silenciosos. Viu também pessoas desconhecidas ajoelhadas. E viu que havia algumas vacas, ovelhas e um enorme cachorro que pertencia ao dono da hospedaria. Os animais estavam deitados e eles também estavam muito quietos.
Então, Jonathan viu um homem em pé no meio da gruta. Ele era alto e distinto, tinha cabelos pretos e barba longa. Não era um homem grande, mas parecia muito forte. Tinha na mão um bastão, que geralmente as pessoas que costumavam andar muito, usavam, mas não parecia apoiar-se no bastão.
Perto dele estava sentada a senhora mais bonita que Jonathan já havia visto. Seu rosto era jovem e radiante, seus olhos brilhantes e ternos e a luz brilhava fortemente à sua volta.
Na frente deles, no chão, havia uma manjedoura onde usualmente a comida do gado era posta. Nessa manjedoura, num berço de palha, estava deitada uma criança. E, de repente, Jonathan percebeu que era por causa dessa criança que as luzes estavam brilhando, que a música estava tocando e o Anjo o havia levado lá.
O bebê estava acordado, deitado quietinho, com seus olhos abertos, sorrindo para sua mãe — pois aquela linda senhora certamente era sua mãe — estendendo sua mãozinha para ela que lhe deu o dedo para segurar.
Sem saber exatamente por quê, Jonathan ajoelhou-se no chão na frente da manjedoura. O Anjo veio, parou a seu lado e disse baixinho numa voz terna:
— Este é o Menino Jesus. Maria e José são seus pais. Um dia, quando o pequeno Jesus crescer e for adulto, o grande Espírito Cristo vindo do Sol descerá, entrará nele e ele se tornará o Salvador do Mundo.
O Anjo afastou-se, mas Jonathan continuou ajoelhado. Não estava certo de ter entendido exatamente o que o Anjo quis dizer. Mas entendeu que Deus havia enviado aquela criança como um presente para ele, para seu irmão, para as pessoas da vila — enfim, para todas as pessoas do mundo. E que, por causa daquela criança, o mundo seria um lugar melhor e mais feliz para todos morarem nele.
Então, o bebê virou a cabecinha olhou para Jonathan e sorriu. Jonathan também sorriu, estendeu a mão e tocou de leve a madeira da manjedoura. Em seguida, um pouco assustado com o que tinha feito, tirou rapidamente a mão e ficou em pé, olhando para a mãe da criança.
— Estou contente por você ter vindo – ela disse com amor, exatamente com a mesma expressão de ternura que sua mãe o olhava sempre.
— E eu estou contente por ser um pastor essa noite e ter visto o bebê – disse Jonathan.
Ele se virou e foi saindo lentamente da gruta. Quando ele voltou para a vila, o Anjo apareceu de repente a seu lado:
— Voltarei para a montanha com você. Assim poderá dormir em paz quando chegar lá. Nada acontecerá às ovelhas nessa noite.
Eles andaram silenciosamente pelas ruas de Belém e Jonathan começou a perceber que, ao passar pela casa de pessoas conhecidas, pensava nelas com amor. Ele amava de fato todas as pessoas da vila e não se importava mais por Levi ter-lhe jogado uma pedra no outro dia, nem por seu irmão, às vezes, puxar o seu cabelo ou xingá-lo. Essas coisas não eram importantes. O importante era que todos aprendessem a amar-se uns aos outros e assim não haveria mais sofrimento no mundo. E Aquela Criança tinha vindo para dizer isso a todos.
Quando alcançaram o topo da montanha, Jonathan estava com muito sono. Sabia que devia dizer algo gentil ao Anjo e agradecer-Lhe por tê-lo levado para ver a criança, mas antes que pudesse falar alguma coisa, o Anjo disse:
— Agora, deite-se e durma Jonathan. Pela manhã, haverá um lindo nascer do Sol.
Jonathan deitou e cobriu-se com o cobertor. Logo adormeceu, mas, durante toda a noite, ouviu a música divina e viu a luz abençoada brilhando sobre Belém. Ele e suas ovelhinhas estavam seguros na companhia dos Anjos.
(Do Livro Histórias da Era Aquariana para Crianças – Vol. IV – Compiladas por um Estudante – Fraternidade Rosacruz)
A Guerra Mundial e a Fraternidade Universal
Em quase todas as correspondências, nós recebemos cartas comentando sobre a guerra[1], e com raras exceções, não encontramos nelas expressão de partidarismo, mostrando que os autores têm um ponto de vista mais elevado do que o inculcado pelos vários Espíritos de Raça e que, normalmente, recebem o nome de “patriotismo”. Essa é a única atitude coerente com os princípios da Fraternidade Rosacruz. Nós estamos todos unidos numa associação internacional; estamos todos procurando pelo Reino que deve substituir todas as já superadas nações, e o fato de termos nascido em diferentes partes do mundo e nos expressarmos em línguas diferentes, não revoga o mandamento de Cristo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, nem nos escusa por desempenharmos o papel de “ladrão”, e não de “samaritano”. Cabe a cada um de nós, na Fraternidade Rosacruz, se elevar acima das barreiras da nacionalidade e aprender a dizer o mesmo que Thomas Paine[2]: “O mundo é a minha pátria e fazer o bem é a minha religião”. Devemos deixar de ser meramente nacionalistas e nos esforçarmos para nos tornarmos universais em nossas percepções, compreensões e reações aos sofrimentos dos outros.
Contudo, há uma guerra que vale a pena lutar, uma guerra na qual podemos, legitimamente, empregar toda a nossa energia, uma guerra que devemos persistir com zelo implacável, e um dos Estudantes coloca isso tão bem que o melhor que podemos fazer é transcrever sua carta:
“Ao refletir sobre a guerra, surge esse pensamento: quando os seres humanos se cansarem da desagradável e chocante luta entre as diferentes nações vizinhas e semelhantes, largarem suas armas e a paz predominar, então a partir desse continente, sobrecarregado com o pó dos amigos e adversários, com seus rios correndo avermelhados com o melhor sangue dos impérios, surgirá uma nova Europa e uma civilização superior substituirá a destruída.
E um grande número de mortos desconhecidos, moribundos, revelará um poder muitíssimo maior para a paz mundial do que o vivido anteriormente. Assim, das paixões desenfreadas dos seres humanos, a Deidade, justa e amorosa, traz o bem final.
Se os homens e as mulheres tivessem também uma décima parte da vontade para travar uma guerra contra o seu verdadeiro inimigo, que está dentro do seu coração, ao invés de pegar em armas contra um suposto inimigo de um lado da fronteira imaginária inexistente na boa face do mundo de Deus, então o Príncipe da Paz poderia reinar. Todas as armas mortíferas seriam jogadas no limbo e a promessa gloriosa se realizaria: “Paz na Terra e Boa Vontade entre os Homens”.
E assim, por mim mesmo, resolvi não cessar com meus esforços até que o último vestígio de maldade, erro e ódio sejam eliminados, e a sublime Trindade de “Bondade, Verdade e Amor reinem sem contestação interior”. Nessa luta real, me considero um pobre soldado e, geralmente, a curso da batalha se coloca na direção errada, contudo, não importa se eu falhe dez mil vezes, a lição deve ser aprendida e será aprendida. Algum dia, com um coração robusto, uma vontade indomável e uma persistência infalível, a vitória será conquistada e a paz reinará – a paz que ultrapassa toda a compreensão.
Unamo-nos todos ao nosso irmão nessa nobre luta, recordando as palavras de Goethe:
“De todo poder que mantém o mundo agrilhoado,
o homem se liberta quando o autocontrole há conquistado”.
(Por Max Heindel – livro: Cartas aos Estudantes – nr. 48)
[1] N.T.: a Primeira Grande Guerra Mundial.
[2] N.T.: Thomas Paine (1737-1809) foi um político britânico, além de panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América.
A Única Salvação é o Conhecimento Aplicado
A preocupação dominante nas grandes metrópoles é encontrar meios de humanizá-las. Nos vastos centros urbanos emergem as mais contraditórias paisagens, os mais chocantes contrastes, os mais intrincados e aparentemente insolúveis problemas. Por suposto, seus reflexos fazem-se sentir nas pessoas, traumatizando-as, neurotizando-as, gerando toda sorte de enfermidades.
Deverá ser eternamente assim? Não haverá uma saída? Vejamos. Se a vida nas palpitantes urbes apresenta uma série de inconvenientes, em contrapartida oferece uma gama valiosíssima de experiências, impossíveis de serem encontradas em outros lugares. À experiência traz consigo um conhecimento real, comprovado, não haurido livrescamente. A fonte maior dessas experiências é o relacionamento humano. Através do relacionamento promove-se um importante e rico intercâmbio de valores culturais, morais e espirituais.
Só assim tomamos conhecimento e sentimos mais intimamente os problemas dos outros. O contato com os seres humanos faz-nos recordar sempre a humanidade existente dentro de nós mesmos. Não podemos prescindir disto, a menos que sejamos frios e duros blocos de concreto, como os que compõem a paisagem cinzenta das megalópoles.
No Livro: “O Conceito Rosacruz do Cosmos” Max Heindel assinala que “a única salvação é o conhecimento aplicado”. Se a cidade grande enseja multivariadas experiências — e decorrente conhecimento — por que não aproveitamos as mesmas para humanizá-la, tornando-a um lugar aprazível, mais habitável? Podemos e devemos fazê-lo.
O ser humano isolado é uma impossibilidade. Não podemos fugir à interdependência no relacionamento diário. Este enfatiza a necessidade de amar ao próximo, mormente porque o próximo dos outros somos nós mesmos. À competição desenfreada, o temor de ser passado para trás, a pressa em fazer alguma coisa ou chegar a algum lugar, tão característicos dos grandes centros, produzem angústia devoradora. Afinal, o ser humano é uma vítima da cidade, ou de si mesmo?
O ser humano descarrega sua insatisfação acusando uma cidade de ser desumana, quando, realmente, ele é que a torna assim pela sua vivência egoísta. Nós a envolvemos com nossos sentimentos e pensamentos, e estes, em sentido coletivo, imprimem-lhe características básicas, gerando inclusive seu destino. A cidade em que vivemos, é, de certo modo, uma soma do que somos. A menos que, pensemos e ajamos sempre visando o bem comum, continuaremos a fazer parte da “indesejável” paisagem do lugar em que vivemos.
Uma comunidade urbana é, em essência, algo maravilhoso. É o campo de evolução onde os seres humanos coexistem em torno de necessidades, de ideias e ideais. As experiências que ensejam devem, antes de mais nada, apurar a sensibilidade de seus habitantes em relação às suas belezas e aos anseios do próximo. A experiência deve conduzir o ser humano à maturidade. Mas é mister identificar este termo no seu sentido mais profundo. “Alcançar a maturidade”, como definiu Weissman, “não significa envelhecer. É passar da arrogância, cavadora de abismos, para a humildade unificadora; da indiferença para o amor: da inveja para a gratidão; da insegurança para a tranquilidade. É aumentar em si os impulsos construtivos, livrando-se dos sentimentos destrutivos”.
Assim, a maturidade há de acompanhar a purificação do sentimento, tornando-nos verdadeiramente cristãos na vida comunitária. Amemos nossas cidades, amando e servindo seus habitantes.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de maio/1976)
Pergunta: É possível ser Iniciado em outro plano sem passar antes por uma Iniciação correspondente no plano físico? Nesse caso, a lembrança da Iniciação, no primeiro despertar, seria uma indicação que esta se realizou, ou isso não passaria de um sonho?
Resposta: A humanidade, como um todo, está progredindo através de um processo que chamamos de evolução da impotência para a onipotência. Durante essa peregrinação, nós, que fomos outrora totalmente espirituais, cristalizamo-nos gradualmente nos vários veículos que possuímos hoje. Naqueles dias do passado éramos inteiramente conscientes no plano espiritual, e embora no tempo devido nos tenhamos envolvido num corpo físico, não o sabíamos. No entanto, gradualmente, alguns tornaram-se conscientes do corpo físico. Como diz a Bíblia: “Eles olharam-se, seus olhos foram abertos e viram que estavam nus”. Esses pioneiros, que haviam sido assim Iniciados no mistério do corpo físico, começaram a dizer aos outros: “Nós temos um corpo”. No início, é natural que muito poucos acreditassem neles, mas, gradualmente, um maior número se tornou Iniciado no mistério do corpo. Eles receberam sua visão física, e viram algo que não era tão patente aos seus irmãos. Finalmente, toda a humanidade desenvolveu os sentidos físicos e tornou-se capaz de perceber o mundo material no qual vivemos hoje.
Atualmente acontece o contrário. A humanidade tornou-se tão apegada ao mundo material, que a grande maioria não se conscientiza da existência de seus veículos superiores e do fato de existir um mundo espiritual, que pode ser percebido através de um sexto sentido que já foi desenvolvido por poucos, mas que está latente na maioria das pessoas. Estes pioneiros que, por meio do desenvolvimento de um sexto sentido, se tornaram Iniciados no mistério da alma, estão agora ocupados em difundir para os outros as boas notícias, isto é, que temos uma alma e um sentido latente para percebê-la.
Esta explicação deveria tornar claro que a Iniciação consiste, até certo ponto, em ajudar alguém que não tenha sido previamente capaz de perceber o mundo espiritual, a mudar a sua consciência a fim de poder focalizá-la à vontade na parte invisível do ser humano que denominamos alma, e manter perfeita consciência de tudo que vê.
Isso é verdade, pelo menos no que diz respeito ao processo espiritual de Iniciação. Naquela longínqua Época Lemúrica, quando os primeiros pioneiros descobriram que tinham um corpo, não podiam ajudar ninguém que não estivesse preparado a participar de uma cerimônia por mais elaborada que ela fosse; a elevação a ser obtida pela Iniciação consistia na abertura dos olhos e na percepção do corpo físico no mundo físico. Da mesma forma, não adiantará passar por cerimônias desde manhã até à noite, ou estudar o livro deste ou o método daquele homem. O objetivo é desenvolver o sexto sentido, por meio do qual o mundo invisível e os veículos invisíveis do homem possam ser percebidos. Este é um lento processo de crescimento, e exige que a pessoa se transforme em algo que não é no momento.
O melhor método de despertar este sentido latente, apropriado para o Mundo Ocidental, está indicado no “Conceito Rosacruz do Cosmos” sob o título: Método para Adquirir o Conhecimento Direto, como também no artigo intitulado Visão e Percepção Espiritual, Seu Cultivo, Controle e Uso Correto. Quando a vida física de uma pessoa a tornou apta para a Iniciação, o Mestre sempre aparece no seu caminho enquanto ela está completamente desperta e em plena consciência física. O candidato é informado que desenvolveu um veículo necessário para atuar no mundo invisível, é-lhe oferecida ajuda para efetuar a primeira ou transição “inicial” com segurança.
Esta é uma oferta que poderá ser recusada se o candidato assim o desejar, e nenhum dos Irmãos Brancos o pressionaria contra a sua vontade, se ele não quiser ir. Certos preparativos físicos são necessários e, durante todo o processo, desde o momento em que abandona o corpo até o retorno, o candidato permanece plenamente consciente e tem uma lembrança ininterrupta de tudo o que ocorre. Portanto, é impossível a alguém que tenha realmente passado por um processo da Iniciação, duvidar dele ou pensar que tenha sido um sonho.
(Perg. 67 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. II – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz SP)
Acredite…se quiser
Há pouco tempo, aguardando o ônibus para São Paulo na rodoviária de Campinas, detive-me a folhear um livro numa banca de jornais. Chamou-me a atenção uma frase de Edgard Mitchell: “A tripulação da espaçonave Terra amotinou-se contra a Ordem do Universo.”
Entrei no ônibus e ocupei minha poltrona. Em seguida, sentou-se ao meu lado uma figura estranhíssima. Um homem totalmente calvo, orelhas muito pequenas, arredondadas, e a pele de um tom arroxeado. Nunca tinha visto algo semelhante. Fiquei na minha.
Quando o veículo começou a movimentar-se, ele me dirigiu a palavra, com uma voz singularmente rouca:
— Senhor João, não vai usar o cinto de segurança?
Agradeci-lhe a observação e travei o cinto. Curioso, perguntei-lhe como sabia meu nome, pois não me lembrava de antes tê-lo visto ou conhecido.
Ele respondeu: — Eu sei. Sei de coisas de sua vida e de muitos habitantes deste Planeta.
— Como é possível? — Redargui.
— Eu sou aquilo que vocês terráqueos chamam de alienígena. Vim de uma estrela localizada em uma longínqua galáxia. Na Terra existem outros como eu, encarnados e vivendo entre vocês, sem que nos reconheçam. Não estamos aqui para simplesmente bisbilhotá-los, mas apenas tentando entender o que se passa em suas Mentes, a ponto de provocarem tantos desequilíbrios.
Achei o estranho muito pretensioso, e um pouco irritado perguntei-lhe o nome. Ele me respondeu que em sua estrela as pessoas se conhecem e se identificam pelas vibrações que emitem. Não precisam de nome.
— Quer dizer então que vocês constituem uma civilização mais avançada que a terrestre? – perguntei-lhe.
— Modestamente, posso dizer que sim, porém, isso não nos torna arrogantes. Estamos preocupados com a maneira como vocês vivem e agem.
— Posso então entender que vocês, alienígenas, convivem conosco disfarçados de humanos para cumprir uma missão, – afirmei com uma pitadinha de ironia.
— Se o senhor quer entender assim, tudo bem. A verdade é que pensam e agem como se este planeta fosse o centro do Universo, imaginando que somente aqui há vida inteligente. Não têm a mínima ideia de que no Universo cósmico visível e em sua contraparte invisível tudo se encontra interconectado. Os seus atos, pensamentos, sentimentos e palavras repercutem, para bem ou para mal, em todos os pontos do Cosmos. Isso já se tornou motivo de preocupação, porque as vibrações que partem daqui são desarmoniosas e afetam os outros mundos.
Perguntei-lhe: — Então me esclareça, senhor E.T., o que realmente está acontecendo? O que quer saber a nosso respeito?
Aquela figura tão estranha foi direto em sua resposta:
— Queremos saber qual é o nível de inteligência dos terrestres. Fico analisando os problemas que vocês enfrentam e me pergunto como uma espécie que desenvolveu a razão, capacidade de previsão e prerrogativa de fazer escolhas, pode conduzir-se com tamanha estreiteza de visão. Vocês são tão inteligentes como imaginam?
Continuando, disse-me — Qual é o nível de inteligência de uma espécie capaz de destruir o ecossistema vital à sua própria sobrevivência? Qual é o nível de inteligência de seres que se apoderam de vastas áreas de terras férteis para cobri-las com concreto e asfalto, poluir seu ar, espantar a maioria das outras criaturas vivas, e pagar fortunas para nelas viver? Como podem envenenar os alimentos que ingerem e a terra que os produz?
A conversa seguiu nesse tom, até que o meu interlocutor se fechou no mais absoluto mutismo. Eu também fiquei em silêncio, meditando sobre tudo aquilo que acabara de ouvir.
Talvez eu tenha cochilado um pouco. Despertei com o ônibus chegando no terminal do Tietê. Para minha surpresa aquele ser estranho não se encontrava mais no ônibus. Onde teria desembarcado?
Fiquei pensativo por alguns instantes e me lembrei da frase de Edgard Mitchell. Coincidência?
Por Gilberto A V Silos
Pergunta: Como os registros na Memória da Natureza aparecem à visão espiritual? Como os atos da vida anterior de uma pessoa são representados?
Resposta: Isso depende de onde se leia na Memória da Natureza. No Éter Refletor existem imagens de tudo que aconteceu no mundo, num período de, pelo menos, várias centenas de anos atrás, talvez muito mais em certos casos. Aparecem semelhantes a imagens projetadas numa tela, com a diferença que as cenas se desenrolam em sentido contrário. Portanto, se desejarmos estudar a vida de Lutero ou de Calvino na Memória da Natureza, podemos, por meio da concentração, evocar quaisquer pontos de suas vidas e daí começar mantendo a cena com a qual iniciamos a observação ou outra cena qualquer, pelo tempo que desejarmos pela simples vontade de a contemplar. No entanto, descobriremos que a película se desenrola para trás, assim, se começarmos com a cena em que Lutero, segundo consta, lançou o tinteiro contra a parede a fim de expulsar sua Majestade Satânica, e se quisermos saber o que aconteceu depois disso, nada conseguiremos. Passarão diante de nós todas as cenas ocorridas anteriormente e, para conseguir a informação desejada, deveremos começar a partir de um ponto posterior ao tempo daquele acontecimento. Então as cenas desenrolar-se-ão de frente para trás, numa sequência ordenada, até que cheguemos ao episódio do tinteiro e, em consequência, poderemos mais tarde reconstituir a cena completa da forma progressiva que se obtém diária e habitualmente na vida física.
Contudo, se lermos na Memória da Natureza no reino superior seguinte, onde o registro é guardado, ou seja, na subdivisão mais elevada da Região do Pensamento Concreto, obteremos uma visão consideravelmente diferente. Ao concentrarmos o pensamento em Lutero, evocaremos em nossa Mente, de uma só vez como num lampejo, o registro completo de sua vida. Não haverá começo nem fim, mas experimentaremos imediatamente o aroma ou a essência de toda a sua existência. Esse filme — ou pensamento ou conhecimento — não estará localizado fora de nós como se fôssemos simples espectadores assistindo a vida de Lutero. Na verdade, ele estará dentro de nós, e nós nos sentiremos como se fôssemos realmente Lutero. Esse filme falará à nossa consciência interna e dar-nos-á um entendimento completo da vida e dos objetivos dele, o que não poderia ser adquirido através de uma simples visão externa. Saberemos o que ele sabia durante algum tempo. Sentiremos o que ele sentiu e, embora não haja emissão sonora, obteremos um profundo conhecimento desse homem desde o berço até o túmulo.
Cada pensamento e ato, por mais íntimos e ocultos que tenham sido, chegarão ao nosso conhecimento com todos os seus motivos e tudo que os ocasionou. Isso nos levará a uma compreensão mais ampla da sua vida, um entendimento tão íntimo que, provavelmente, nem ele próprio, durante a sua vida, imaginou a extensão do conhecimento que teríamos dele.
Podemos pensar que, tendo adquirido um conhecimento tão profundo e completo sobre Lutero, Calvino, Napoleão ou qualquer outro ser humano, acontecimento histórico ou até pré-histórico antes da história ser escrita, seríamos capazes de escrever livros que explicariam todas essas coisas de maneira maravilhosa. Os que tentarem ler a Memória da Natureza, conforme ela se apresenta nessa Região elevada, confirmarão a declaração do autor, que foi exatamente isso que sentiram quando deixaram a pesquisa e voltaram para a sua consciência cerebral comum. No entanto, o pensamento deve se manifestar através do cérebro e, para se tornar inteligível para os outros, deve ser traduzido em frases que contenham e desenvolvam consecutivamente as ideias a serem expostas, e ninguém que ainda não tenha sentido esta limitação ao voltar do Mundo Celestial com informações tão valiosas, pode avaliar o desapontamento e o desespero que a pessoa sente ao fazer esse esforço. Nessa subdivisão elevada da Região do Pensamento Concreto, todas as coisas estão incluídas num eterno aqui e agora. Não há tempo nem espaço, começo nem fim, e é quase impossível ajustar ordenadamente as ideias sobre o que lá foi visto, ouvido e sentido. Parece simplesmente que o cérebro se recusa a deixar filtrar essas ideias. Nós, que temos visto e ouvido, sabemos o que vimos e ouvimos, mas somos incapazes de expressá-lo. Não há idioma ou língua humana que possa traduzir essas coisas de maneira adequada e só podemos transmitir aos outros uma fraca impressão, uma sombra atenuada da gloriosa realidade.
Há ainda outro registro da Memória da Natureza no Mundo do Espírito de Vida que, segundo os Irmãos Maiores da Rosacruz, abrange os eventos que remontam aos primórdios da nossa atual manifestação. São tão sublimes, tão maravilhosos que não encontramos palavras que possam descrevê-los. Há muitos mistificadores que se enganam a si mesmos e aos outros, julgando que são capazes de ler esse registro, mas, segundo os Irmãos Maiores, somente eles próprios e outros Hierarcas de outra Escola de Mistérios, juntamente com os Adeptos que se graduaram nessas instituições, são capazes de ler esse registro.
(Perg. 66 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. II – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz SP)
O Eco que Filipe ouviu
Filipe ficou alegre quando seus pais se mudaram para a fazenda. Um belo dia, estando ali brincando no campo, exclamou com toda a força dos pulmões:
“Hurra! Hurra!” Ouviu em seguida, num mato próximo, uma voz exclamando também: “Hurra! Hurra!”.
O menino assustou-se muito. Gritou logo: “Quem é você?” A voz desconhecida replicou: “Quem é você?” Irritado, tornou: “Você é louco!” “Você é louco!”, ressoou o mato.
Então Filipe ficou mais zangado ainda, e com mais força começou a dirigir insultos ao mato, os quais foram todos fielmente repetidos pelo eco.
Afinal o homenzinho foi ao mato à procura do imaginado menino, mas naturalmente a ninguém pôde encontrar.
Enfurecido, Filipe correu para casa, e queixou-se à mamãe do menino malcriado, que se havia escondido no mato, dirigindo-lhe toda sorte de nomes feios, muito feios!
Respondeu-lhe a mãe: “Dessa vez, meu filho, você se enganou muito porque se acusou a si mesmo como menino tão mau. Você não ouviu nada mais que suas próprias palavras. Assim como tem visto muitas vezes o seu rosto refletido na água, também agora ouviu somente o eco de sua voz. Se tivesse falado de maneira agradável, filhinho querido, essas mesmas palavras lhe teriam sido repetidas.”
Filipe sentiu-se muito envergonhado por essas palavras de sua mãe, e saiu correndo de casa, até chegar perto ao mato. Começou logo a proferir palavras amáveis, as quais foram devolvidas fielmente pelo eco, como antes o foram os nomes feios. Convencido da verdade que lhe contara a mãe, o rapazinho pôs-se agora muito satisfeito.
É sempre o mesmo; o que nós pensamos ser mal no comportamento de outras pessoas é muitas vezes só o eco ou a repetição de nossas próprias ações.
Se tratarmos amavelmente a todas as pessoas (e também aos animais), seremos tratados de modo igual; mas se formos rudes e grosseiros, não poderemos esperar coisa melhor em troco, como recompensa de nosso comportamento reprovável.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1967)
Pergunta: No Conceito Rosacruz do Cosmos, Capítulo III — subtítulo O Segundo Céu -, consta que a faculdade de percepção do espaço está ligada ao delicado ajustamento dos três canais semicirculares no ouvido, apontando nas três dimensões do espaço. O pensamento lógico e a capacidade matemática estão em proporção da precisão do seu ajustamento.
Parece que a percepção da quarta dimensão foi alcançada por matemáticos de nível muito superior. Poderiam dizer-me se há alguma mudança na disposição desses canais semicirculares, ou qual é o processo que leva à consciência da quarta dimensão?
Parece também que os espíritos da natureza e os elementais possuem esta consciência da quarta dimensão, o que representa um grau de consciência mais elevado daquele que temos agora, e isso se aplica possivelmente à abelha ou aos cavalos Elberfeld[1]. Poderiam indicar o elo perdido? O que torna o ser humano ou a humanidade superior a esses seres, e qual é a disposição desses canais semicirculares no caso das abelhas e desses cavalos talentosos?
Resposta: Para a maioria da humanidade, os algarismos são excessivamente tediosos, pois estamos acostumados a viver uma vida externa entre outras pessoas e amigos, com os quais expressamos os nossos desejos, sensações e emoções. Quanto mais esses sentimentos são intensos, mais interessantes achamos a vida. Por outro lado, coisas que não causam qualquer emoção são tidas como monótonas e desinteressantes. Por essa razão, a maioria não é atraída pela matemática ou por qualquer outra coisa que aguce a Mente sem que, ao mesmo tempo, desperte a natureza emocional.
Sabemos que Deus geometriza, que todos os processos da natureza estão estruturados sobre cálculos sistemáticos que provam a existência de uma Inteligência Superior. Quando Deus, o grande Arquiteto do Universo, construiu o mundo todo sobre linhas matemáticas, podemos concluir que, consciente ou inconscientemente, o matemático está alcançando uma direção em que finalmente ver-se-á face a face com Deus, e isso, por si mesmo, mostra uma expansão de consciência. Se considerarmos que cada um dos canais semicirculares é realmente um nível supersensível do espírito — ajustado de maneira a indicar à nossa consciência o movimento do nosso corpo através do comprimento, largura ou profundidade do espaço — podemos facilmente entender que o seu presente ajuste é necessário para a percepção do espaço. Se esses canais são bem ajustados, a percepção da pessoa é perfeita e, se ela empreender o estudo da matemática, as suas teorias estarão em concordância com o que ela vê no mundo como fatos reais. Em algumas Mentes elevadas, isso gera um verdadeiro amor pelos algarismos, o que se torna um fator de descanso para essas pessoas, ao invés de serem uma fonte de cansaço como o são para a maioria. O amor pelos algarismos pode despertar nelas as faculdades espirituais latentes, mas não através de qualquer mudança nos canais semicirculares. Esses são estruturas ósseas e não mudam facilmente durante o período de nossa vida. No entanto, não há dúvida que aquele que possuir gosto pela música ou pela matemática irá construir esses canais mais acuradamente no Segundo Céu, no período compreendido entre a morte e um novo nascimento.
Quanto à consciência dos elementais ou dos espíritos da natureza, realmente eles possuem o que pode ser chamado consciência da quarta dimensão. Além da altura, largura e comprimento, que são as dimensões do espaço no mundo físico, há o que denominamos “interpenetração” nos Éteres. Com a visão etérica podemos ver dentro de uma montanha e, se tivermos um Corpo Vital como possuem os espíritos da natureza, podemos atravessar a mais dura rocha de granito. Esse não oferecerá qualquer obstáculo, da mesma forma que o ar não impede a nossa marcha aqui, embora, muitas vezes, sejamos perturbados pelos ventos. Contudo, mesmo entre os espíritos da natureza há diferentes entidades e uma correspondente variação de consciência.
Os corpos dos Gnomos são feitos principalmente do Éter Químico, portanto, são do solo da terra. Ninguém os vê voando como voam as Sílfides. Eles podem ser queimados no fogo e envelhecem de maneira não muito diferente da dos seres humanos.
As Ondinas que vivem na água e as Sílfides no ar são também mortais, mas sendo os seus corpos compostos, respectivamente, dos Éteres de Vida e Luminoso, têm uma longevidade maior. Acredita-se que os Gnomos não vivam mais do que algumas centenas de anos, as Ondinas e as Sílfides milhares de anos, e as salamandras, cujos corpos são feitos principalmente do quarto Éter, viveriam muitos milhares de anos. Contudo, a consciência que constrói e anima esses corpos pertence a várias Hierarquias Divinas que, dessa maneira, adquirem experiência adicional, e as formas, que foram construídas de matéria e depois animadas, atingiram um grau de autoconsciência durante essas longas existências. Eles percebem sua própria existência transitória, e é devido à sua rebeldia contra esse estado de coisas, que a guerra dos elementos, principalmente as do fogo, do ar e da água é travada. Julgando que são mantidos em cativeiro, procuram libertar-se das amarras pela força, mas, não possuindo nenhum estilo de direção, investem furiosamente de uma maneira destrutiva que resulta muitas vezes em grandes catástrofes.
A consciência dos Gnomos é vagarosa demais para tomarem a iniciativa, mas eles tornam-se frequentemente cúmplices dos outros espíritos da natureza ao abrir passagens que favorecem explosões na rocha. No entanto, isso não tem nenhuma ligação com os cavalos Elberfeld ou com outros animais prodígios. Esses são os pupilos dos seus respectivos Espíritos-Grupo, e é provável que seja a última vez que renasçam numa forma animal.
Quando isso acontece, tais Espíritos são relegados ao Caos, onde devem esperar durante a Noite Cósmica por seus irmãos menos dotados até a época em que lhes será possível iniciar a sua evolução humana no Período de Júpiter.
(Perg. 65 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Vol. II – Max Heindel – Fraternidade Rosacruz SP)
[1] N.R.: Os célebres cavalos Muhamed e Zarif deixaram a sociedade parisiense atônita no início do século XX, quando através de um alfabeto convencional conversavam com o seu dono, rico comerciante de Elberfeld, distrito de Wuppertal, na Alemanha; além de executarem difíceis cálculos matemáticos, inclusive raízes quadradas e cúbicas.
Max Heindel e a Grandiosidade da Sua Obra
Toda e qualquer atividade sempre apresenta certos aspectos que se constituem em requisitos fundamentais para que seja executada com perfeição. Assim, para comprovar tal afirmativa vamos apresentar um exemplo ilustrativo. Um homicídio é cometido em um ponto qualquer da cidade. É óbvio que os primeiros movimentos em torno do caso partem das autoridades policiais, as quais após efetuarem as diligências costumeiras, descobrem o autor do crime e o detêm. Logo em seguida entram em ação os repórteres, pois um fato dessa natureza, invariavelmente, será publicado nos jornais, no dia subsequente àquele em que ocorreu. É lógico que o público tomará conhecimento da ocorrência conforme a exatidão, clareza, precisão e fidelidade com que for narrada. Indiscutivelmente, esses fatores pesam de maneira decisiva na elaboração de qualquer reportagem, porém, esta só poderia adquirir algo substancioso ou apresentar um conjunto harmônico, caso viesse a se estruturar na resposta às seguintes perguntas: Quem cometeu o crime? Quando? Onde? Como? Por quê? Este “por quê?” assume uma importância capital na análise da questão, pois, como todo efeito é gerado por uma causa, respondendo-se à tal pergunta, inevitavelmente atinge-se o cerne do acontecimento.
No campo espiritual a situação se nos depara em circunstâncias mais ou menos análogas, pois somente o conhecimento das causas, e dos efeitos decorrentes delas, é que pode levar o ser humano à solução de diversos problemas e do grande enigma que se resume nestas três indagações: donde viemos? Quem somos? Para onde vamos?
Atualmente a nau da humanidade singra um mar revolto, encapelado pelas ondas do materialismo e de doutrinas que, embora revestidas de belos princípios morais, ainda não demonstraram a seus seguidores que eles possuem dentro de si uma essência divina. Sim, o ser humano é espírito, mas já se convenceu inteiramente disso?
Felizmente, para contrabalançar esse estado de coisas, existem os movimentos impulsionados por comunidades espiritualistas-filosóficas no mais elevado sentido do termo, as quais procuram despertar, emancipar, esclarecer, mostrando ao ser humano o maravilhoso caminho da evolução, sua ascendência em espiral, os diversos veículos através dos quais o Ego se manifesta, os diversos mundos interpenetrando-se, proporcionando um apreciável estudo de Cosmogênese e Antropogênese, analisando os mais intrincados problemas que a humanidade encontra pela frente.
Sem querer expressar qualquer julgamento que se constitua em demérito aos demais movimentos filosóficos, colocamos a Fraternidade Rosacruz na vanguarda do neo-espiritualismo, porque embora as outras organizações lutem por um ideal semelhante, esse será alcançado com mais segurança por meio dos métodos rosacruzes, que diferem dos outros métodos num ponto básico: emancipam espiritualmente o estudante.
Além disso, a Filosofia Rosacruz concilia as exigências da razão com os ditames do coração, por meio de preceitos lógicos, simultaneamente científicos e devocionais.
Num mundo como o de hoje, onde ciência e religião permanecem divorciadas, muitos podem julgar que o ideal Rosacruz constitua mera utopia.
Aos que hesitam em acreditar na veracidade de tão maravilhosos preceitos, recomendamos que leiam a obra básica da filosofia Rosacruz: O Conceito Rosacruz do Cosmos, de Max Heindel.
Mas, quando principiarem a leitura, dispam-se de todo juízo prematuro, abandonem quaisquer rasgos de unilateralismo e, ao penetrarem na essência de cada tópico, poderão constatar realmente que essa obra se fundamenta no conhecimento. Não foi o resultado de vãs divagações ou simples pretensão de se lançar ao mundo mais um ramo filosófico, entre tantos já existentes. Não foi um livro escrito para ser lido como outro qualquer, porque a profundidade encerrada em suas linhas denota um trabalho meticuloso, consciencioso e repleto de amorosidade. Qualquer ser humano, possuidor de pelo menos uma inteligência mediana, logo verificará que o Conceito Rosacruz do Cosmos não é uma obra dogmática, mas respeita a sagrada liberdade que cada um tem de aceitar ou não uma proposição conforme o que decide a consciência.
O autor teve o especial cuidado de, ao iniciar a obra, tecer considerações alusivas às possíveis interpretações dos conceitos emitidos, pois o entendimento errôneo por parte de alguns ou uma distorção maldosa por parte de outros poderiam suscitar uma ideia de infalibilidade na exposição efetuada sobre diversos temas. Porém, Max Heindel ressaltou sobremaneira tal fato, afirmando que, dizer-se que a referida exposição fosse infalível seria o mesmo que lhe atribuir onisciência, quando até os seres mais elevados às vezes se enganam nos juízos que fazem. O Conceito Rosacruz do Cosmos encerra apenas a compreensão do autor sobre os ensinamentos Rosacruzes, sobre o mistério do mundo, revigoradas por suas investigações pessoais nos mundos internos e sobre os estados antenatal e post-mortem do ser humano, concluindo por afirmar que não considera tal obra como sendo o alfa e o ômega, o último conhecimento oculto. Isso é prova fatal de que o autor não possuía nenhum outro interesse a não ser prestar um serviço digno ao gênero humano.
A leitura pausada de cada tópico tratado no O Conceito Rosacruz do Cosmos, acompanhada de profunda meditação, faz-nos concluir que essa notável obra é verdadeiramente um “alimento sólido”. Aqueles que procuram a luz, encontrá-la-ão no O Conceito Rosacruz do Cosmos, pois a necessidade premente de cada ser humano é de olhos para ver o esplendor que realmente existe.
Muitos podem objetar — apesar de todos os prós encontrados a favor de Max Heindel: quem nos pode proporcionar uma garantia definitiva da fidelidade dos relatos contidos no livro e das intenções íntimas do autor?
A esses responderemos aconselhando que estudem a biografia de Max Heindel. Ele nos deixou, como aval de sua magnífica obra, uma vida repleta de lutas, dificuldades, sofrimentos, estudos, pesquisas incessantes, e um coração transbordante de amor, coroando a modéstia que o caracterizava. Somente um homem assim, dotado de extraordinária envergadura espiritual, poderia suportar e vencer provas tão difíceis, que facilmente aniquilariam o indivíduo comum, pois, a vulgar tentativa de se alcançar uma glória perecível ou uma projeção egoísta, fatalmente ocasionaria a inexorável derrota ante os sérios obstáculos impostos pela própria vida. Daí concluirmos que unicamente um ideal impulsionou Max Heindel a encetar essa gigantesca obra: servir a humanidade.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1967)