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porFraternidade Rosacruz de Campinas

Pergunta: Por favor, me diga o que Jesus quis dizer quando disse à sua mãe Maria: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2:4).

Resposta: Este é mais um caso em que os tradutores da Bíblia traduziram o texto grego de uma forma totalmente injustificável. O comentário foi feito por ocasião das Bodas de Caná, onde Maria, a mãe de Jesus, teria ido até ele dizendo que não havia mais vinho. Jesus então respondeu com as seguintes palavras em grego: “Ti emoi kai soi gunai”. Traduzido literalmente, seria algo como: “Que me importa isso, ó mulher? Ainda não é chegada a minha hora”. Mesmo deixando de lado o significado esotérico dessa observação, essa parece ser uma resposta muito mais gentil do que a grosseira resposta atribuída a Jesus na versão popular da Bíblia do Rei Jaime[1]. Deve-se também lembrar que Cristo não era o filho de Maria no mesmo sentido em que o era Jesus, e que, embora Ele tenha usado o corpo de Jesus, Ele não reconheceu uma relação física com Maria e, portanto, estava perfeitamente justificado em se a ela chamando-a “mulher”.

No entanto, há outro significado, mais profundo, em todo o relato das Bodas de Caná. Ensinou-se na literatura Rosacruz que os Evangelhos não são relatos da vida de um indivíduo chamado Cristo ou Jesus, que foi único entre a Humanidade. Embora o Jesus dos Evangelhos tenha realmente vivido, os próprios Evangelhos são histórias ou fórmulas de Iniciação, e as Bodas de Caná, onde Cristo realizou o Seu primeiro grande milagre, foi algo muito maior do que uma mera cerimônia de casamento entre um homem e uma mulher na vida comum. Tratava-se, na verdade, de um casamento místico do “Eu superior” e o “Eu inferior” sob a nova ordem do Serviço do Templo, então inaugurada por Cristo. Na Época Atlante a água era usada nos templos, mas na Época Ária o “vinho” era essencial.

Diferentes Raças viveram sobre a Terra em várias Épocas, e elas tinham constituições diferentes do que nós temos hoje. A primeira Raça humana é simbolizada na Bíblia pelo nome de Adão. Os seres dessa Raça eram da terra, isto é, terrenos. Ou seja, eles possuíam somente uma massa mineral[2], pois eram formados pela terra mineral. A segunda raça é simbolizada pelo nome de Caim. Os seres dessa Raça possuíam tanto um Corpo Denso mineral quanto um Corpo Vital, formado de Éteres. Portanto, eles eram semelhantes às plantas, e o alimento vegetal lhes foi proporcionado para comer. Por isso, ouvimos dizer que Caim cultivava a terra e plantava grãos. A terceira Raça também desenvolveu um Corpo de Desejos e devido a essa natureza emocional e passional, os seres dessa Raça se tornaram semelhantes a animais. Portanto, receberam como comida carne animal, e lemos na Bíblia que Nimrod era um poderoso caçador. Por fim, a Mente lhes foi adicionada como um elo entre o Tríplice Corpo e o Tríplice Espírito. O Espírito então entrou no Corpo e passou a habitá-lo, tornando-se um Ego.

Para que este Ego pudesse aprender a lição na Terra, ele deveria esquecer, por um tempo, sua origem espiritual celeste. Para esse fim, um novo alimento lhe foi fornecido, e o “vinho”, um espírito fermentado fora do corpo, foi usado pela primeira vez por Noé, o Hierarca Atlante, para amortecer o verdadeiro Espírito que habitava o Corpo. Sob a influência inebriante desse pseudo-espírito, o ser humano gradualmente esqueceu sua origem divina e concentrou toda a sua atenção nas lições a serem aprendidas neste Mundo. Contudo, embora a Humanidade se tenha entregado a esse novo produto de nutrição, o “vinho”, mesmo apesar das orgias realizadas em cerimônias exotéricas, nos santuários de todas as antigas Dispensações só era utilizado água, e os mais elevados e santos sacerdotes jamais permitiam que o vinho tocasse seus lábios. Consequentemente, eles não eram líderes cegos conduzindo outros cegos, mas viam claramente os Mundos invisíveis e conheciam o sagrado mistério da vida.

Durante as Épocas primitivas da nossa evolução fomos guiados por mensageiros visíveis das Hierarquias Divinas, a quem reverenciávamos como Deus, e mesmo depois que estes nos deixaram, os profetas e videntes continuaram a aparecer entre os seres humanos, testemunhando a realidade de Deus e dos Mundos invisíveis. As Religiões antigas também ensinavam a doutrina do Renascimento e, assim, o ser humano sabia que progredia por meio da experiência adquirida utilizando uma série de Corpos terrenos de textura cada vez mais aprimorada. É por essa razão que muitos hindus, que acreditam no Renascimento, sentem que não há necessidade de pressa em termos de evolução.[3] No entanto, para que o ser humano do Mundo ocidental, onde habitam os seres humanos pioneiros, pudesse se dedicar de corpo e alma a dominar os segredos da vida terrena, foi planejado que ele fosse completamente privado desse ensinamento. Além disso, o conselheiro espiritual estava temporariamente cego quanto ao conhecimento consciente de Deus e a visão dos Mundos internos, de modo que toda a Humanidade pudesse se sustentar por si mesma durante a Nova Dispensação e, consequentemente, se dedicasse inteiramente à evolução material que lhe estava reservada. O “vinho” teve, desde o início, essa contribuição em termos exotéricos, e o seu uso foi sancionado no Templo pelo primeiro milagre.

Sob a Antiga Dispensação, somente a água era usada no Serviço do Templo, mas com o decorrer do tempo, o “vinho” se tornou um fator na evolução humana. Um “deus do vinho”, Baco, era adorado e as orgias da mais selvagem natureza eram realizadas a fim de abafar as aspirações do Espírito, para que esse pudesse se dedicar a conquistar o Mundo Físico. Sob a Dispensação Mosaica (Antiga Dispensação), os Sacerdotes eram estritamente proibidos de usar “vinho” enquanto oficiavam no Templo, mas Cristo, em Sua primeira aparição pública, transformou a água em “vinho, ratificando seu uso na ordem das coisas então existentes. Note-se, porém, que isto foi feito em público e que foi o Seu primeiro ato de ministério público. Contudo, na última sessão esotérica de Cristo com Seus Discípulos, onde a Nova Aliança foi celebrada, não havia carne de cordeiro (Áries), como exigido pela Lei Mosaica. Não havia “vinho”, mas apenas pão – um produto vegetal – e o cálice do qual falaremos a seguir, depois de termos notado Suas palavras proferidas naquele momento: “Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira até que o beba novamente convosco no Reino dos Céus” (Mc 14:25). O suco de uva recém-extraído não contém um espírito proveniente da fermentação e decomposição, sendo, portanto, um alimento vegetal puro e nutritivo. Assim, os seguidores da doutrina esotérica foram instruídos, por Cristo, a seguirem uma dieta que não incluísse nem a carne animal, nem bebidas alcóolicas.

Geralmente se supõe que o cálice usado por Cristo na Última Ceia continha “vinho”, embora, na verdade, não haja fundamento na Bíblia para essa suposição. Existem três relatos sobre os preparativos para esta Páscoa. Enquanto S. Marcos e S. Lucas afirmam que os mensageiros foram instruídos a ir a uma determinada cidade e procurar um homem que carregava um cântaro de água, nenhum dos Evangelistas menciona que o cálice continha “vinho”. Além disso, pesquisas na Memória da Natureza mostram que a água era a bebida usada, e que, sob o ponto de vista esotérico, o “vinho” já tinha cumprido sua função. Desse esse ato data também a inauguração do movimento da temperança, pois essas mudanças cósmicas envolvem uma longa preparação nos Mundos internos antes de se manifestarem exteriormente na sociedade. Milhares de anos não são nada em tais processos.

O uso da água na Última Ceia também está em harmonia com as exigências astrológicas e éticas. O Sol estava deixando Áries, o Signo do cordeiro, entrando em Peixes, o Signo dos peixes, um Signo de Água[4]. Uma nova nota de aspiração estava prestes a soar, uma nova fase de elevação humana estava prestes a começar durante a Era de Peixes que se aproximava. A autogratificação seria substituída pela abnegação. O pão, alimento básico, feito de grãos imaculadamente cultivados, não alimenta as paixões como a carne animal; tampouco o nosso sangue, quando diluído em água, pulsa com a mesma intensidade que quando bebemos “vinho”. Portanto, o “pão e a água” são alimentos adequados e símbolos de ideais durante a Era Peixes-Virgem. Eles representam a pureza, e a Igreja Católica deu aos seus fiéis a água pisciana colocada à porta do templo e o Pão Virginiano no altar, negando-lhes o cálice de vinho durante a Liturgia. Contudo, mesmo o que foi exposto acima não nos leva ao cerne do mistério culto no “Cálice da Nova Aliança”.

A antiga “taça de vinho” que nos foi dada quando entramos na Época Ária, a terra da geração, estava cheia de destruição, da morte e do veneno, e a palavra que, então, aprendemos a falar está morta e impotente.

A nova “taça de vinho” mencionada como a representação do ideal da Época futura, a Nova Galileia (que não deve ser confundida com a Era de Aquário), é um órgão etérico construído dentro da cabeça e da garganta pela força sexual criadora não gasta, que à visão espiritual se assemelha à haste de uma flor elevando-se da parte inferior do tronco. Este cálice, ou cálice de sementes, é verdadeiramente um órgão criador, capaz de proferir a palavra da vida e do poder.

A palavra atual é gerada por movimentos musculares desajeitados que regulam a laringe, a língua e os lábios, de modo que o ar, proveniente dos pulmões, emita determinados sons, mas o ar é um meio pesado, difícil de mover quando comparado às forças mais sutis da Natureza, como a eletricidade, que se movem no Éter. Quando este novo órgão estiver desenvolvido, terá o poder de proferir a palavra de vida, de infundir vitalidade em substâncias que antes estavam inertes. Este órgão está sendo hoje formado por nós, por meio do serviço amoroso e desinteressado.

Vocês se lembrarão que Cristo não deu o cálice à multidão, mas aos Seus Discípulos, que eram os Seus mensageiros e servos da Cruz. Atualmente, aqueles que bebem da taça do autossacrifício, para que possam usar a sua força sexual criadora ao serviço amoroso e desinteressado aos outros, estão construindo esse órgão, juntamente com o Corpo-Alma, o “Dourado Manto Nupcial”. Eles estão aprendendo a usá-lo, em pequena escala, como Auxiliares Invisíveis, quando estavam fora do Corpo Denso à noite, pois então são ensinados a proferir a palavra de poder que remove a doença e edifica tecidos saudáveis.

Quando a Época Atlante se aproximava do fim e a Humanidade abandonou seu lar ancestral, onde havia estado sob a orientação direta dos Mestres divinos, a Antiga Aliança foi firmada, concedendo-lhes a carne animal e o “vinho”. Estes dois elementos, juntamente com o uso desenfreado da força sexual criadora, transformaram a Época Ária, especialmente nas suas duas primeiras Eras[5], em Eras de morte e destruição. Agora, estamos nos aproximando do fim dessa Era, a de Peixes.

Pois a Era de Peixes, ou o período em que o Sol, pelo movimento de precessão, passa pelo Signo de Peixes, está chegando ao fim. Durante esse período, o Signo oposto a Peixes, Virgem, representou o ideal humano. Ela foi venerada por um sacerdócio celibatário que recomendava aos seus fiéis o consumo de “peixes” como alimento em determinadas épocas da semana e do ano. No Zodíaco ilustrado, o Signo de Virgem tem uma espiga de trigo na mão. Tanto a semente quanto a uva são produtos do Reino vegetal, e a Imaculada Virgem Celestial, portanto, personificava o primeiro princípio da Imaculada Concepção: o sangue (“vinho”) e o corpo (pão) de Cristo. A essas coisas o sacerdócio celibatário, que dirigia o culto, chamou a atenção durante a Era de Peixes, que agora está prestes a terminar e, portanto, o “vinho” está sendo rapidamente abolido nos ofícios do templo e do uso nas missas, com o resultado de que uma correspondente medida de sensibilidade está sendo experimentada. O Espírito Divino, oculto dentro de cada ser humano, despertou do seu sono tóxico induzido pelo “espírito do vinho”, e começa a se recordar de sua origem divina e de sua herança da vida, à qual não tem início nem fim.

Vale a pena notar, a este respeito, que todo o clero dos diversos países do Velho Mundo e, também, os padres católicos das Américas ainda continuam a usar o “vinho” e as bebidas alcoólicas diariamente, e é mais significativo que, quando o Parlamento da Inglaterra, o Rei e os nobres, que representam a classe política, tentaram aprovar leis que proibissem a venda de bebidas alcoólicas no país, a medida fracassou devido à determinada oposição dos mais altos dignitários da Igreja.

Essa atitude do clero europeu não implica, de modo algum, numa degradação por parte deles, nem que devam ser censurados em qualquer aspecto. A Humanidade tem ainda muitas lições para aprender que só podem ser proporcionadas durante a “era do vinho”. Quando a necessidade do espírito falsificado passar, ele cairá em desuso sem que seja necessário recorrer a medidas legislativas, que geralmente não são eficientes, pois é absolutamente impossível legislar a moralidade nas pessoas. Até que uma lei seja aprovada internamente – de dentro para fora –, elas são obrigadas a quebrá-la para garantir a satisfação de seus desejos, independentemente das medidas restritivas.

(Pergunta nº 90 do Livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas – Volume II – Max Heindel-Fraternidade Rosacruz)


[1] N.T.: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. (Jo 2:4)

[2] N.T.: Um Corpo Denso rudimentar

[3] N.T.: Hindus são pessoas que seguem o hinduísmo, uma das Religiões mais antigas e complexas do mundo, originária do subcontinente indiano, caracterizada por diversas crenças, como a crença em múltiplos deuses (Brahma, Vishnu, Shiva) e na reencarnação, além de uma rica tapeçaria de práticas, rituais (como o pujá e yoga) e textos sagrados (Vedas, Ramayana) que moldam a cultura indiana e não possuem um fundador único.

[4] N.T.: Tudo isso devido ao movimento de Precessão dos Equinócios da Terra.

[5] N.T.: Era de Áries e Era de Peixes

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