Pergunta: Qual a razão do grande crescimento populacional de nosso Planeta nos últimos 100 anos? Suponho que um certo número de Espíritos Virginais entrou neste plano de evolução durante o Período de Saturno, percorrendo a sua senda evolutiva através dos Períodos Solar e Lunar até os dias de hoje. Tem-se a impressão que um aumento populacional não é tão necessário assim no presente momento. Muitos recém-nascidos aumentam a carga das responsabilidades para famílias de baixo nível socioeconômico, pois não poderão receber uma educação adequada. Na índia, por exemplo, a tônica constante é de quase inanição. Tenta-se corrigir a situação mediante o uso de contraceptivos e abortos, dois meios errados, na minha opinião. Qual seria então o ponto de vista Rosacruz?
Resposta: Respondendo à primeira parte de sua pergunta, devemos apontar, de conformidade com O Conceito Rosacruz do Cosmos, que “a questão populacional não é regida inteiramente por pessoas, ou leis promulgadas por seres humanos. As Hierarquias Divinas que governam a nossa evolução planejam esse setor para o maior bem comum dos seres evolutivos. Assim sendo, o número das populações está mais a critério das Hierarquias do que da humanidade” (Livro: “Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas”, Vol. 2). Esse livro nos informa que “há cerca de 60 bilhões de espíritos em nossa onda de vida, passando pelo ciclo de vidas e mortes, vivendo, dessa forma, uma parte do tempo no Mundo visível e outra parte no Mundo invisível. No ano em que o livro acima citado estava sendo escrito (1918), existiam “somente quinze centenas de milhões de espíritos encarnados na Terra. É o ponto mais baixo do diagrama populacional e isso acontece, geralmente nos fins de ciclo”.
A revista Rays de julho de 1916, p. 78, informa que “a onda de vida humana agora em evolução na Terra corresponde a mais ou menos 6 bilhões de espíritos”.
“No presente momento, estão encarnados na Terra aproximadamente 15 centenas de milhões, pelo que podemos concluir que três quartos da onda de vida humana se encontram nos Mundos invisíveis”. Em certos períodos de nosso desenvolvimento, uma percentagem de até cinquenta por cento vivem encarnados, na Terra.
Devemos lembrar que existem, além desses Espíritos Virginais (que pertencem ao raio evolutivo da Terra exclusivamente), outras ondas de vida evoluindo em Marte, Mercúrio, Vênus e nos outros Planetas. Porém, toda a grande onda de Espíritos Virginais que está evoluindo agora, no quadro de nosso Sistema Solar, iniciou a sua evolução no Período de Saturno ao mesmo tempo, tendo então um estado de consciência similar ao mineral de hoje. Logo apareceram diferenças, sendo que alguns eram de natureza mais adaptável, tendo assim maiores facilidades evolutivas, cujas qualidades lhes permitiram um progresso mais rápido do que o dos seus irmãos que ficaram para trás”.
O prezado consulente sabe, certamente, conforme os Ensinamentos de Sabedoria Ocidental, que a experiência “é o objetivo principal da vida, juntamente com o desenvolvimento da Vontade”. Assim sendo, quanto mais vezes renascemos na Terra, mais experiências ganhamos e mais oportunidades recebemos para lograr o nosso progresso. Poderemos concluir assim que, realmente, não é uma questão de quantos Egos são “necessários”. A meta principal é providenciar experiências na Terra ao maior número de Egos permitido pelas circunstâncias.
Tudo isso é dirigido por aqueles grandes Seres, os Anjos do Destino.
Você também tem razão em pensar que os contraceptivos e os abortos não representam a solução adequada ao problema populacional. A resposta adequada e final se encontra no desenvolvimento do espírito humano até ao ponto de poder controlar os desejos inferiores. Temos mais literatura a respeito e à sua disposição.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 1/75)
Autorregeneração: o cuidado com nossos pensamentos num círculo espiritual
Há um momento, na vida espiritual do estudante Rosacruz, em que ele se dá conta do extraordinário poder que poderá ter o pensamento na conquista de seus anelos, especialmente quando bem assessorado por um desejo forte. Neste momento, entretanto, poderá correr o risco de se deixar ofuscar, empregando levianamente a vontade a serviço desse poder. Pode acontecer, por exemplo, que sentindo necessidade de alguma coisa material e não dispondo de meios para adquiri-la, e percebendo que bastará pensar com toda a sua força em como seria bom obtê-la para que cedo ou tarde veja realizado o seu desejo; mas, como nada vem de graça às nossas mãos, acabará percebendo também que sempre haverá um preço a pagar por tudo o que recebemos. Já o fato de sentirmos necessidade de coisas materiais, por mais válidos que sejam os nossos desejos, traz consigo várias implicações que podem desvirtuar o sentido natural de um simples desejo e transformá-lo numa espada de dois gumes.
Se o estudante for mesmo sincero e honesto em seu propósito superior, acabará concluindo que de nada servirá para a sua escalada a um nível superior o fato de empregar a vontade de maneira tão limitada. Se for mesmo, aprendendo a pensar com justeza, acabará desejando somente coisas justas. E, à medida que aumentar o seu entendimento para o certo, e para o seu desprendimento, a vontade vai se transmutando em força de realização, e notará que as coisas materiais, de que tenha real necessidade, acabarão vindo-lhe às mãos naturalmente, sem que precise preocupar-se com elas.
Na verdade, o ser humano que se eleva não necessita pedir nem desejar. Seu próprio esforço para melhorar intimamente vai torná-lo digno de merecimentos cada vez maiores e mais evidentes. Tendo aprendido a transformar a vontade em força de autorregeneração, essa própria vontade irá também ampliando o seu campo de possibilidades e de aquisições tanto materiais, como espirituais, dependendo a que direção tenha encaminhado a sua vida.
Seria bom não esquecermos, também, que o pensamento não é válido apenas para adquirirmos algo para nós mesmos, em função apenas de nosso próprio benefício. Qualquer que seja a nossa atitude na vida, o modo como dirigimos nossos pensamentos, tem sempre grande influência junto ao grupo de que fazemos parte, à sociedade a que pertencemos. Especialmente se participamos de alguma entidade espiritual, nossa atitude diante do mundo, nossas disposições para com os indivíduos e mesmo para com as massas vão repercutir sistematicamente em nosso trabalho e em nosso convívio com os nossos irmãos. Nossos pensamentos têm uma tremenda influência sobre nós mesmos, nossa conduta, nossas disposições, nossa vida, enfim; tanto que nossos rasgos de sinceridade ou nossas capitulações mais íntimas, por mínimos que forem, vão ressoar favorável ou desfavoravelmente, não apenas sobre nós mesmos, mas também no ambiente de que fazemos parte, tanto ativa como passivamente.
Se, por exemplo, alguém falhar em uma só disposição interna, ou se alimentar alguma dúvida, mesmo que não as exteriorize, aquele lapso irá, cedo ou tarde, retumbar no conjunto, como uma pequena nota discordante, que, se não for sanada a tempo, acabará nos arrojando – de um jeito ou de outro – fora do contexto. Daí a necessidade de mantermos bem claros os nossos pensamentos e as nossas intenções, procurando ser muito fiéis às nossas certezas, para que qualquer indecisão ou desleixo possa ser cortado de início, não arriscando afetar ou comprometer o equilíbrio de um conjunto.
Segundo dizem, a caridade começa em casa. E o fato de sermos autênticos, antes de mais nada, não deixa de ser uma forma de caridade, porque só tendo segurança de pensamentos, de ideias, de ideais, daquilo que realmente se quer, é que realmente se poderá influir positivamente na segurança e no progresso de um todo, para que esse todo possa expressar-se, forte e positivo, na difícil arena do mundo. E, neste particular, não nos basta afirmações ou aparências de santidade, exposição gratuita e valores íntimos, tampouco a defesa de um ponto de vista religioso, se tudo isto não estiver fortemente escudado na força de uma verdade interna positiva. Por isso, é mister esforçar-nos por saber o que realmente queremos, para que não haja dúvida alguma em nossas escolhas. A dúvida enfraquece qualquer disposição, retardando ou modificando o bom resultado que todos podem estar esperando de nós, como um compromisso sagrado.
Se, em nosso lar ou sociedade devemos ter este cuidado com nossos pensamentos, principalmente no que se refere ao sentido moral das coisas, num círculo espiritual, com muito mais razão esta verdade se impõe. Porque o sentido espiritual é muito mais amplo, abarca não só o ideal que abraçamos como escopo de vida, como também nosso relacionamento com o indivíduo, e, num estágio mais elevado, com a humanidade inteira, com a vida, com o Cosmos. E esta, como veem, é a nossa grande responsabilidade.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 1/75)
A Transição
Um sábio vivia num país distante, amado por todos que o conheciam. Durante muitos anos, o povo o procurava, pedindo conselhos, ou simplesmente desejando ouvi-lo falar.
Falou das sabedorias dos antigos e, embora muitas vezes não entendessem completamente o significado das suas palavras, eram aconselhados e confortados pela abundância de amor e simpatia que dele emanavam. O sábio tinha uma filha, a quem ele amava; e que a seu tempo seria capaz de adquirir a graça e sabedoria do pai.
Um dia, quando ele sentiu que o tempo da sua transição estava perto, falou com ela. “Minha criança” disse, quando ela sentou numa almofada à sua frente, deitando a cabeça no seu joelho,”o tempo da minha transição está chegando, vou logo partir para os reinos mais altos, e eu estou contente. Desenvolvi aqui e embora meu corpo tenha me servindo fielmente e bem; será um alívio me desprender do seu peso”.
Ela sorria para ele: “Eu sei pai, também senti que você vai nos deixar. Sentiremos falta, mas você realizará maiores trabalhos no mundo superior, onde viverá. Estou certa de que isto acontecerá”.
Seu pai a olhou fixamente com afeição, acariciando seus cabelos vendo-os brilhar à luz do Sol. Desde quando era uma menininha, seus momentos mais preciosos eram aqueles; quando ela deitava sua cabeça dourada no seu joelho e conversavam juntos com o maior entendimento e confiança. De tudo que ele mais amou na terra, e do que mais sentiria falta, era sua filha. Mas, sabia também, que apesar da vastidão do mundo, nunca estaria longe dela.”Uma coisa me perturba filha? disse ele. Sei que você não vai prantear a minha partida, com lágrimas e lamentos e por isso sou grato. Mas, eu me preocupo com os outros, – aqueles que vierem a mim buscar conforto e consolo – aqueles lamentarão minha passagem e se afligirão grandemente. Não por mim deploro isso, mas por eles mesmos. Sofrimento deste tipo, só pode ser destrutivo, como você já sabe.
“Sim, eu sei pai”, respondeu; “mas acredito que será mais fácil a mim proteger-me da aflição, do que para os outros. Estou contente por você porque sei como será livre e verdadeiramente vivo na sua nova condição.
Além disso, sou afortunada por lembrar-me das experiências que tive durante o sono, eu vi, como os outros que já partiram são mais felizes. Muitas pessoas que vivem na terra, não é tão afortunada como eu. Para eles, perdendo alguém que ama, o mundo toma-se vazio, porque eles não podem ver que aqueles que já partiram estão vivos no outro lado”.
O sábio continuou: “Esta é a razão porque pergunto se você ajudará aos outros quando eu já tiver partido. Lembre-se de que eu estarei ocupado com um trabalho novo e embora fique frequentemente com eles, isso não será óbvio nas suas horas de vigília. Urge a eles, da melhor maneira que possam; transmutar suas lágrimas em ação positiva.
Exorte-os a intensificar seus trabalhos aqui na terra, porque nada poderá superar melhor o luto e a dor”.
“Eu farei pai, eu o farei “ela assegurou. Por longo tempo sentaram juntos, falando pouco, mas, unidos em harmonia e profundo amor.
Na manhã seguinte, quando os adeptos se juntaram embaixo do grande carvalho, onde sempre se encontravam, foram surpreendidos ao ver a filha vir ter com eles. Frequentemente acompanhava o pai a estas reuniões, mas nunca antes viera sozinha. Estava vestida com um longo e flutuante vestido branco, seus cabelos estavam amarrados com um laço dourado.
Sorria gentilmente para os adeptos, que esperavam por uma explicação. Um ou outro teve o pressentimento súbito do que ela iria falar, suspiraram e olharam para longe.
“Queridos amigos” começou ela, “hoje de manhã meu pai passou, para os mundos superiores. Seu tempo na terra se esgotou, e consideravam-no com mérito para um trabalho maior. Ele se regozija por estar livre das dores terrenas, e ansioso por começar seus novos deveres. A ajuda na sua transição, foi confiada a um dos Iluminados Seres e partiu com muita paz”. A jovem parou de falar e olhou para os adeptos. Alguns choravam abertamente, outros a olharam como se não pudessem acreditar no que ouviam, outros -os mais velhos – balançavam a cabeça com inveja. “Sim; sim”, disse um deles suavemente, “era seu tempo”. “Mas o que nós vamos fazer?” gritavam alguns. “Sem ele não podemos viver, que faremos sem ele?”
“Nós devemos trabalho, todos temos trabalho a fazer, um vasto trabalho”, falou a jovem com a voz desapaixonada.
“Ele ofereceu conselhos e mostrou o caminho. Ele revelou muito, o que somos afortunados em conhecer. É por isso, por conhecermos a verdade, que somos obrigados a usar dela na nossa vida. Ele fez a sua marca. Então, agora é o tempo de nós fazermos a nossa.”.
A jovem suspirou fundo e indo embora falou suavemente: “Meu pai não queria que o pranteassem. Eu sei disso e no fundo do coração vocês também o sabem. Regozijem-se por ele – regozijem-se com ele – para que ele tenha bom motivo para estar contente. E mesmo que vocês nunca se comuniquem com ele, eu rezo a vocês para que não deixem a tristeza de seus corações pesar em cima dele”.
Outra vez a jovem os olhou gravemente, suplicante. “Seu último pedido foi que eu recomende a vós a submergir na ajuda aos outros. E eu acrescento a este pedido o meu: ponham os seus ensinamentos em prática. Façam com que se tornem parte das suas vidas – do seu próprio ser. Assim ele estará mais com vocês do que quando em seu corpo físico”.
Por longo tempo os adeptos permaneceram juntos, cada um com suas lembranças dos dias passados com o sábio, e meditavam sobre as coisas que sua filha lhes transmitiu.
Então, um levantou-se e falou: “a jovem está certa, convém que façamos o que ela pediu. Embora aquele que nós amamos tenha partido, deixando “seu corpo físico, ele é imortal nos céus como nós também. E podemos nos imortalizar mais na terra, servindo como ele nos ensinou. Vamos amigos, deixem de sofrer e cuidem de seus trabalhos”.
Um ano depois, os adeptos se reuniram outra vez embaixo do velho carvalho. O ano anterior dedicaram à uma escola, onde transmitiam os ensinamentos que aprenderam com o sábio, para aquelas que tinham ouvidos para ouvir.
O apelo do sábio para servir não foi desatendido e aconteceram muitas mudanças na região. Mendigos que antigamente, passivamente, lamentavam queixosos na beira da calçada, foram ensinados a ajudar a si mesmos e a ganhar o seu sustento, trabalhando, produzindo seu próprio alimento. Alguns adeptos trabalhavam sem compensação nos lares ou campos dos pobres, ajudando com trabalhos caseiros cotidianos e cuidando dos doentes. Outros reuniram crianças ao redor deles e infundiram o conhecimento do bem e da dignidade. Alguns fundaram hospitais, onde os doentes e sofredores recebiam conforto.
Neste dia de reunião, os adeptos saudaram uns aos outros, alegremente ansiosos por ouvir o relato de novidades que aconteceram nos doze meses passados. A filha do sábio estava ali, também, era ela a professora da nova escola. Quando passou entre os adeptos, apertando a mão de uns, abraçando outros, eles se maravilharam pela sua maturidade, compostura e beleza intensificada, que irradiava dos seus traços e da sua capacidade.
Evidentemente ela era digna sucessora do pai.
Então a cerimônia da dedicação começou. Orações eram oferecidas; palavras foram ditas, canções eram cantadas e este era o tributo amoroso, cheio de respeito à memória abençoadado sábio, que era o instigador de tudo que era bom.
Quando o último orador voltou ao seu lugar, ouviu-se um inesperado arquejo dos presentes. A figura familiar do sábio, vestido com um simples manto marrom que ele sempre usava, estava em pé visto tenuemente ao lado da multidão. A amada face outrora enrugada pela idade, era agora lisa, com brilho extraterreno, amoroso e entusiasmado. Era realmente o sábio, transmutado pelas características do mundo superior e sem dúvida reconhecido por todos. A figura permanecia sorrindo e abençoando com o olhar caloroso e aprovativo dos seus adeptos. Então, desapareceu.
Por momentos todos permaneceram em silêncio. Então, viraram-se e foram seguir seus caminhos separados.
A cerimônia terminou. Estava bem completa.
(Publicada na Revista ‘Serviço Rosacruz” – 01/86 – SP)
A Alma de Billy
Desde quando podia se lembrar, a corcunda sempre estivera ali. Uma vez, ele perguntou à sua mãe sobre isso,mas ela apenas o pegou nos braços e disse:
– Filhinho, Filhinho, a mamãe te ama do mesmo modo.
Naturalmente Billy estava contente porque sua mãe o amava, mas queria encontrar alguém que lhe dissesse alguma coisa sobre a sua corcunda. Havia tantas, tantas perguntas que gostaria de fazer!
– Talvez, ele sussurrou para o seu cachorrinho, talvez os Anjos me deixaram cair quando me trouxeram para cá. O que você acha disso, Bob?
Mas o pequeno Bob apenas abanou seu rabinho e piscou seus olhos preguiçosamente, como que dizendo:
– É realmente uma pergunta muito grande para serrespondida por um cachorro tão pequeno como eu e então Billy viu que não podia obter qualquer informação.
Um dia, quando estava sentado no jardim em sua pequena cadeira de rodas, ele notou uma rosa particularmente bela. Quando ele se inclinou e a acariciou com seus dedinhos finos, murmurou sonhadoramente:
– Desejaria saber se as flores têm alma, como as pessoas.
– Naturalmente que temos.
Ele ficou atônito ao ouvir essa voz e, apesar de olhar para todos os lados, não viu uma única pessoa.
– Estou aqui, disse a voz alegremente.
Desta vez Billy olhou direto para a rosa e ficou surpreso ao ver uma fadinha muito delicada espiando de uma de suas pétalas.
– Quem é você?, perguntou Billy com seus olhos muito arregalados.
– Sou a alma desta rosa, respondeu a fada com um ar gracioso.
– E todas as flores têm alma, também? Perguntou Billy, um tanto surpreso.
– Naturalmente, disse a fada prontamente. Eu pensei que todos soubessem disso.
De repente, Billy lembrou-se da corcunda e rodando sua cadeira para aproximar-se mais da fada disse ansiosamente:
– Oh, você acha que poderia me falar sobre esta aqui o garotinho engoliu em seco, essa corcunda? Porque eu a tenho?
Por um momento, houve um silêncio no jardim, então, a fada disse muito vagarosamente e com firmeza:
– Tudo tem um propósito, você sabe.
– Mas eu não a quero, persistiu Billy. Parece inútil tê-la já que não tem a menor utilidade, ele continuou numa vozinha lamentosa e, além do mais, não posso brincar e me divertir como os outros meninos.
– Não sei se poderei fazer algo por você ou não, disse a fada. Entretanto, convocarei uma reunião de outras fadas para hoje à noite e decidiremos sobre isso.
-E você lhes dirá que quero ficar reto e forte como os outros meninos? disse Billy em tom tenso.
A fada meneou sua cabeça e disse:
– Esteja aqui amanhã à tarde e eu lhe darei a resposta.
Então, as pétalas da rosa se fecharam e a pequena criatura perdeu-se de vista.
Nesse momento, alguns visitantes chegaram ao jardim e, ao ver Billy, uma bela menina murmurou:
– Que horror!
Ela não queria que Billy ouvisse as suas palavras, mas ele as ouviu e, mais tarde, quando sua mãe foi buscá-lo, ele era apenas um ser frágil de sentimentos feridos.
– Meu Deus, filho! ela exclamou. Você não deve chorar tanto. Veja – isso me torna infeliz.
– Mas…, mas… ela olhou para mim horrorizada, mamãe, e, soluçando em seus braços, contou-lhe o caso como se passou.
– Veja, filho, disse sua mãe calmamente. Seu corpo é somente a casa onde você mora. É sua alma que está dentro dele, o que tem realmente valor.
Então, a face de Billy iluminou-se porque lembrou-se da fada e, durante o trajeto para casa, permaneceu murmurando:
– Amanhã eu saberei – amanhã eu saberei.
Quando sua mãe o colocou na cama aquela noite, ela se admirou ao ver o rosto feliz e em paz de Billy.Quando se inclinou para beijá-lo, disse ternamente:
– O que fez meu garotinho tão feliz esta noite?
E Billy murmurou sonolento:
– É um segredo, mãezinha querida – talvez amanhã, e sua voz arrastou-se e ele entrou na terra dos sonhos.
*****
No dia seguinte, ele estava completamente excitado. Mal podia esperar chegar a tarde de tão ansioso que estava para rever a fada. Quando sua enfermeira o colocou na cadeira de rodas, notou suas faces avermelhadas e disse, muito solene:
– Realmente espero, Billy, que você não vá pegar alguma doença.
– Oh, estou bem, enfermeira, respondeu Billy, seus olhos brilhando. Mas gostaria que você se apressasse.
Então, indicou a ela onde gostaria que colocasse suacadeira.
Assim que a enfermeira desapareceu dentro da casa, Billy exclamou suavemente:
– Estou aqui, fada-rosa e, no instante seguinte, a face da fada apareceu espiando através das pétalas.
– O que elas disseram? começou Billy ansiosamente.
– S…- sh, murmurou a fada. A Rainha decidiu fazer uma reunião aqui no jardim e aqui está ela agora.
Olhando para cima, Billy viu uma fada descendo pelo jardim. Estava vestida com uma roupa brilhante que resplandecia quando ela andava. Parou em frente a cadeira de Billy e disse:
– É você o garotinho que quer se tornar saudável e forte?
Billy aquiesceu, muito emocionado para falar.
A Rainha, então, sacudiu sua varinha sobre o jardim e imediatamente pequeninas faces surgiram de todas as flores.
– Ouçam, fadas, comandou a Rainha. Aqui está um garotinho que quer ser reto e forte.Quando as fadas começaram a falar, ela levantou sua varinha e disse:
– Esperem! Deixem que ele fale por si mesmo.
Billy sentiu-se um tanto tímido de ser o centro de tantas atenções, mas sabia que elas estavam esperando e começou:
Eu – eu quero ser como os outros meninos, de maneira que possa jogar os seus jogos. Além do mais, se eu não tiver uma corcunda, as pessoas não olharão para mim e dirão, ‘Que horror!’ Por favor, fadas, chorou Billy suplicando, tirem-me a corcunda!
As fadas falaram entre si por algum tempo e, apesar de Billy ouvir com atenção, não conseguiu entender uma única palavra do que elas diziam.
Por fim, houve um silêncio e então a Rainha disse:
– Billy, temo que não conseguiremos tirar-lhe a corcunda, mas nós o ajudaremos a construir uma alma tão bela que as pessoas o amarão em qualquer lugar que for – por você mesmo, e esquecerão completamente sua corcunda.
Naturalmente, Billy estava desapontado – amargamente desapontado. Ele escondeu seu rosto por algum tempo, pois sabia que estava banhado de lágrimas e sentia-se um pouco envergonhado de deixar que as fadas vissem que tinha chorado.
A fada Rainha continuou:
– E nós lhe daremos uma imaginação tão maravilhosa, que você será capaz de fazer jogos que outros garotos nem podem imaginar. E, toda vez que quiser, poderá entrar na “Terra do Faz-de-Conta” e ter as maiores aventuras lá.
Veja, essa terra é feita para meninos como você. A porta está fechada para crianças fortes e saudáveis.
De repente, Billy sentiu uma maravilhosa paz descer sobre ele e sentiu-se muito, muito feliz. Quando ergueu sua cabeça, descobriu que a Rainha e todas as fadas tinham desaparecido e que sua enfermeira estava chegando.
– Meu Deus, Billy – ela exclamou atônito, você parece tão diferente!
– Eu pareço diferente e estou diferente, querida enfermeira, respondeu Billy docemente enquanto se inclinava em sua cadeira. De hoje em diante, eu serei o menino mais feliz na face da Terra.
No seu rosto resplandecia uma expressão doce, estranha, que só possuem os que já sentiram a realidade das coisas sagradas.
(Do Livro Histórias da Era Aquariana para Crianças – Vol. II – Compiladas por um Estudante – Fraternidade Rosacruz)
Sublimação – Falemos sobre o conceito esotérico: Harmonia
Todos nós já passamos pela experiência de adentrar um recinto onde tudo aparentava a mais perfeita paz. Sentíamos, porém, que as coisas não eram exatamente como pareciam: o ambiente estava realmente carregado de tensões encobertas. Se há desacordo ou ressentimento no coração das pessoas, o disfarce de pequenas frases amáveis não pode ser qualificado de harmonia. A harmonia não é ausência de qualquer coisa; é, sim, a presença do amor.
Ao examinarmos a vida de Cristo-Jesus, vivenciaremos um exemplo de harmonia. Ao procurarmos as fontes dessa harmonia, encontramos uma constante atmosfera, um contato permanente com o Pai, o que Lhe permitia afirmar: “Eu e o Pai somos Um”. São Paulo apóstolo também nos recomendou a orar sem cessar. Começamos a compreender a necessidade de uma disciplina e integração internas, uma incessante abertura do canal espiritual que somos para a Grande Influência Superior.
Na literatura Rosacruz há constantes citações da chamada “harmonia das esferas”. E quando logramos uma pálida noção do mundo em que vivemos, concordamos em que qualquer falta de harmonia em nosso Universo seria, humanamente falando, desastrosa.
Tal harmonia deve ser produzida por uma Fonte Perfeita, porque aqui, mesmo aqui, podemos aplicar o axioma hermético “assim como é no macrocosmos é também no microcosmos”, válido para os nossos corpos finitos que são universos em miniatura.
Desvinculados do emaranhado de nossas mesquinhas “preocupações” do mundo, podemos mergulhar realmente no Grande Desconhecido de que fazemos parte: o “habitat da harmonia”. Examinando o movimento dos astros em suas órbitas, convencer-nos-emos de que tão somente uma total e absoluta harmonia poderia ter produzido as galáxias, onde tudo se movimenta a velocidades incríveis, numa perfeita sincronização. Não necessitamos de grande imaginação para vislumbrar o caos total se houvesse ausência de harmonia na “sinfonia das esferas”.
A Palavra Criadora é uma palavra harmoniosa. E como a Terra deve considerar-se afortunada pelo fato de nossas palavras ainda não terem adquirido essa magnitude de poder. Podemos nos impacientar com a lentidão do nosso progresso espiritual, porém, entendemos porque o Amor Cósmico nos está protegendo de nós mesmos, até aprendermos a manter uma harmonia interna, como aparentamos exteriormente.
(Traduzido de Rays From The Rose Cross e publicado na Revista Serviço Rosacruz de 8/77)
A Almejada Resposta: cultivar a parte espiritual e cuidar dos negócios desse mundo
A humanidade passa atualmente por momentos de grande tensão. Vivemos numa época em que a insegurança aparenta ser o denominador comum da vida. As manchetes dos jornais e as notícias veiculadas pelo rádio e televisão, dão conta de crises em quase todos os quadrantes da terra. Crises monetárias, políticas, religiosas, morais. Crises e mais crises. Crise é a palavra que define todas as anormalidades e inseguranças.
Mas afinal, o que acontece com o mundo? Em uma época de racionalismo, de progresso tecnológico assombroso, de definições mais amplas, por que o estranho paradoxo dos desencontros? Por que dubiedades e incertezas se o logismo fundamenta as análises e o estabelecimento de teorias? O ser humano já vai à Lua, em empreendimentos orçados em milhões de dólares, e por incrível que pareça seus empreendedores ainda alimentam dúvidas quanto aos benefícios que a humanidade possa auferir. Se a automatização promove o conforto, por outro lado, ameaça o ser humano, substituindo-o, escravizando-o e desempregando-o.
Vivemos uma realidade de aparentes contrastes ou paradoxos. Nos países mais desenvolvidos do globo, onde o racionalismo e a automatização ditam normas, localizam-se os problemas mais complexos. Não é estranho?
Algumas das chamadas superpotências ou sociedades superorganizadas, a despeito de seu alto nível social e cultural, enfrentam males crônicos traduzidos em dissolução da família, suicídio em grande escala, enfartes, uso indiscriminado de drogas alucinógenas, erotismo etc., caracterizando uma agressão ou fuga aos deveres impostos pelo meio social. Acontece, porém, que quase todas estas sociedades «modernas» foram plasmadas no materialismo em suas variadas formas (competição, pragmatismo, utilitarismo, etc.), impondo o seu próprio ritmo à vida humana. Dispondo dos recursos oferecidos por uma sociedade organizada e abastada, vivendo dentro de um padrão de vida invejável, que elemento pode induzir um ser humano a pôr termo à própria existência, a ser derrubado por um enfarte ou a consumir-se pelo uso de entorpecentes? As nações desenvolvidas estão empregando verbas fabulosas em estudos e pesquisas visando encontrar a resposta.
A Filosofia Rosacruz proporciona-nos a resposta completa, subentendendo causa e solução. Em um versículo dos Evangelhos o Cristo também responde a essa indagação: “EU NÃO SOU DESTE MUNDO, COMO VÓS DESTE MUNDO NÃO SOIS”. O ser humano é em realidade e essência, um ser divino, um Espírito, célula indestrutível do grande corpo de Deus. Não é meramente uma forma mortal que pulsa, respira e anda. Manifesta-se no plano da matéria mais densa através de um corpo formado de elementos químicos. Este corpo, por sua vez, é vitalizado e sensibilizado por uma vestidura mais refinada, composta de Éter. Seus desejos, emoções, sentimentos e incentivo para ação, têm origem em um corpo mais sutil ainda, denominado Corpo de Desejos pela Filosofia Rosacruz. E para coordenar essa cadeia de veículos, o Espírito utiliza a Mente.
Sendo o Espírito potencialmente divino, sua imortalidade é um fato indiscutível, porém, encontra-se temporariamente sujeito a renascer várias vezes no plano material, onde se exercita e adquire experiências pelo uso de seus veículos, extraindo-lhes uma alma. Essa alma é o seu, alimento primordial, promovendo o desabrochar de suas faculdades latentes, tornando-o cada vez mais senhor de seus poderes, ampliando-se a consciência. À medida que for aprendendo as lições pertinentes a cada veículo e ao mundo correspondente, renascerá em mundos sucessivamente superiores. Logo, todas circunstâncias próprias do mundo físico são transitórias, porém indispensáveis à nossa evolução. Atualmente ele constitui nossa grande escola, mas temos de almejar escolas superiores. Muitos não lhe dão o devido valor, e outros o superestimam. Algumas religiões orientais apresentam o plano da matéria como sendo degradante, preconizando dedicação completa ao mundo do Espírito. É um lamentável desperdício de oportunidades de progresso e tal falha deverá ser corrigida futuramente. Em contraposição, muitos ocidentais apagaram-se de tal modo ao materialismo, a ponto de identificarem-se com ele. Não reconhecem outra realidade a não ser a das formas que os rodeiam. É outro equívoco a exigir reparação. É mister encontrar-se um ponto equilibrante. Se é verdade que NEM SÓ DE PÃO VIVE O SER HUMANO, não é menos verdade QUE DEVEMOS DAR A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR. Isto trocado em miúdos quer dizer que devemos cultivar as faculdades do Espírito (através da oração, da devoção, do estudo de filosofias espiritualistas, do aprimoramento do caráter, do serviço amoroso e desinteressado aos demais, etc.) e paralelamente cuidar dos negócios deste mundo (cumprindo nossos deveres sociais, familiares, profissionais, procurando ser atuantes em nosso meio ambiente, estimulando o progresso em todos os sentidos). Assim, equilibradamente, contribuiremos para tornar o mundo melhor, material e espiritualmente, divulgando pelo exemplo, a necessidade de procurar um ideal superior, utilizando os impactos do mundo físico como meios de crescimento anímico. Quando houver conscientização desse fato, o mundo deixará de ser um turbilhão de conflitos e então, caminharemos a passos largos rumo à Fraternidade Universal.
(de Gilberto A.V. Silos – Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 11/71)
A Princesa e a Cozinha
Era uma vez uma jovem e linda princesa que vivia em um enorme castelo bem no alto de uma montanha.
Até aí nada de especial, porque naturalmente todos já sabemos que “era uma vez” havia lindas princesas que viviam em enormes castelos nos altos das maiores montanhas…
O particularmente especial aqui é que esta princesa gostava de cozinhar. Todas as outras princesas dispunham de cozinheiras. E os cozinheiros faziam bolos de aniversário com coberturas de glacê açucarado, pudins, e dedos-de-moças que se derretiam na boca das princesas. E faziam saladas de frutas com laranjas, mamões, uvas, peras, e abacaxis e gelo, que ao final mais pareciam sorvete do que propriamente salada.
Mas esta princesa – cujo nome era Ariadne – não tinha cozinheiro.
Muitos mestres-cucas já haviam batido aos portões do castelo na esperança de conseguir emprego. Traziam amostras dos seus mais exóticos e variados pratos em grandes travessas para a princesa provar. Mas a resposta dela era sempre: “Não, muito obrigado. Eu cozinho melhor do que qualquer um”. E lá se iam embora os candidatos, tristonhos, com suas travessas de exóticos pratos e sem emprego.
Ariadne aplicava a maior parte do seu tempo na cozinha do castelo. Misturava e combinava espumantes molhos em grandes garrafões ou botijas escuras; fatiava batatas e cenouras; cortava pepinos e nabos, usando sempre uma afiada faca de trinchar. E tanto o mordomo que servia a mesa quanto a criada que lavava os pratos receavam que ela um dia cortasse os seus reais dedinhos.
Mas isso nunca aconteceu. Ela quebrava nozes e descascava bananas; descaroçava tâmaras e espremia laranjas; recheava tomates, batia ovos e salgava beterrabas. E chorava quando cortava as robustas cebolas da hortaliça do castelo.
Enquanto fazia patê para o café matinal, Ariadne já pensava sobre o suflê de queijo que precisava fazer para o almoço. Enquanto fazia o suflê de queijo, ela já planejava sobre o que haveria de acrescentar a sopa de legumes do jantar. E enquanto preparava a sopa do jantar, já pensava no que seria melhor para o café do dia seguinte: se a papa de aveia ou a omelete.
De vez em quando um príncipe de um reinado longínquo, ouvindo falar da rara beleza de Ariadne, decidira visitá-la. Nessas ocasiões o lacaio descia os altos degraus que davam a cozinha, e avisava Ariadne da chegada de mais um príncipe.
Ariadne então invariavelmente dizia: “Oh! Meu Deus. Não tenho tempo para pôr minha coroa e recebê-lo na sala do trono. Traga-o aqui mesmo”.
E o lacaio, franzindo o sobrolho porque discordava totalmente dessa atitude de Sua Altezinha, não tinha outra escolha senão pedir ao Visitante que o acompanhasse escada abaixo até a enfumaçada cozinha.
“Bom dia, meu bom príncipe”, cumprimentava Ariadne polidamente, dando as boas-vindas ao recém-chegado, e apenas levantando os olhos da massa de pão que preparava, “Muita gentileza de sua parte vir de tão longe a visitar-me”.
Os príncipes, que por certo haviam visitado muitas outras princesas, mas nunca nas cozinhas, nem quaisquer delas fazendo massa de pão, lembravam-se somente de se curvarem para Ariadne e de dizer-lhe: “Bom dia, Alteza Real.
É muita bondade de sua parte receber-me”.
Depois disso, contudo quaisquer dos príncipes visitantes pareciam não saber mais o que dizer. Regra geral, quando eles visitavam uma princesa, ela sentava-se em seu trono e eles sobre uma almofada de sedã aos pés, e conversavam então sobre torneios e cavalos; sobre caçadas e bailes; sobre valentes cavaleiros e elegantes damas.
Às vezes, conversavam e liam manuscritos na biblioteca do pai dela, o Rei.
Quando um príncipe visitava Ariadne, porém, tudo era diferente.
A princesa oferecia-lhe de início um rústico e duro banco, sem se interromper no seu trabalho culinário. Era comum então dizer inesperadamente:
“Quebre-me isto, por favor”, passando ao príncipe alguns ovos e uma tigela. Se o príncipe – a quem geralmente jamais haviam pedido antes para partir um ovo sequer –tivesse sorte, a maior parte dos ovos partiam-se dentro da- tigela. Mas via de regra, por um desastrado manuseio, os ovos rolavam pela mesa e caiam ao chão, onde se espatifavam.
Algumas vezes Ariadne dizia:
“Você se importaria em amassar isto para mim?” Então, o príncipe – que poderia enfrentar o mais pesado javali na mais desigual batalha sentia-se perdido. Ele simplesmente não sabia como segurar o rolo; ou não podia evitar que o mesmo grudasse; ou ignorava como “puxar” a massa para deixá-la delgada. E geralmente acabava com massa grudada no rosto, nas mãos e por toda a roupa – o garboso uniforme. Aí então o príncipe sentia-se envergonhado. E como os príncipes não gostam de se sentir envergonhados, eles todos guardavam uma triste recordação de sua infeliz visita a Ariadne. E nunca mais voltavam a visitá-la.
Ariadne, que se aborrecia com príncipes (ainda que não o demonstrasse), de fato pouco se importava que eles não mais voltassem. Não. Se nem um daquele lote de príncipes que a tinham visitado pôde falar sequer sobre creme de espinafre, de bolo de abóbora, de milho torrado ou mesmo de purê de batatas! Nem um deles sabia a mínima coisa a respeito de fazer pipocas, ou assar uma torta, ou colher um melão maduro!
A maioria falava tão pouco sobre culinária que mais parecia nada saber sobre a arte. Os poucos que falavam tagarelavam apenas sobre torneios, cavalos, caças, bailes, valentes cavaleiros e elegantes damas. Ariadne vivia sempre tão ocupada na cozinha que não dispunha de tempo para torneios, cavalos e caças e bailes e jogos e cavaleiros valentes e damas elegantes. E certamente pouco desejava ouvir sobre os assuntos.
“Oh! ” _ exclamava Ariadne tão logo o príncipe saia – “Alegro-me por vê-lo ir-se. Acredita você” – dizia, dirigindo-se ao mordomo – “que ele nem ao menos sabia quanta baunilha leva um sorvete de baunilha?”
“Isso parece surpreendente, não é Alteza?” – Respondia o mordomo, que intimamente estava convencido de que nada havia de surpreendente naquilo.
Um dia estava Ariadne medindo uma porção de farinha quando o lacaio anunciou a visita de outro príncipe.
“Chiii!” – Resmungou Ariadne, que estava experimentando uma nova receita e não queria ser perturbada.
“Mas se não o receber meu pai se zangará comigo. Muito bem. Traga-o aqui”.
Poucos minutos depois a porta abriu-se e uma voz alegre exclamou:
“Ah! Real Alteza! Que agradável lugar para tão bela dona de casa! E que aroma delicioso! Alecrim, penso”.
Ariadne fitou o jovem, e esqueceu todas as graciosas coisas que se supõe uma princesa deva dizer a um príncipe. Nenhum dos anteriores havia distinguido alecrim de ruibarbo. E ainda que muitos a tenham achado bela, nenhum falara assim de sua cozinha.
“Farinha, açúcar mascavo, tâmaras em fatia, soda, casca de laranja, nozes, caqui” – continuou o príncipe, examinando os ingredientes sobre a mesa, “Você vai fazer um bolo de caqui, não é isso?”.
“Como sabe?” –Perguntou Ariadne surpresa.
“Eu mesmo fiz um, outro dia”, respondeu o príncipe sorrindo – “e ficou muito bom. Posso ajudá-la neste?”.
Ariadne, que parecia ter perdido a voz, apenas pôde assentir com a cabeça, e já o príncipe misturava e batia todos os ingredientes juntos sem nem ao menos olhar para a receita, pondo ao final tudo na forma.
“Agora deixe assar por uma hora, Alteza” – disse ele. “Posso agora sugerir um passeio aos jardins do castelo, enquanto esperamos?”.
De ordinário Ariadne teria dito:
“Não, obrigada, tenho mais alguma coisa a preparar aqui”.
Mas este não era um príncipe comum, e antes que ela se desse conta do que estava acontecendo ele lhe havia tomado a mão e guiava-a ao longo do escuro túnel que conduzia ao jardim.
As flores esparziam doce aroma, e suave brisa soprava de qualquer parte. Ariadne aspirou fundo o perfume das flores, suspirou, e disse suavemente:
“Hummm. . . Que delícia! “Você deve vir aqui mais vezes”, sugeriu o príncipe.
“Não, não tenho tempo” – admitiu Ariadne. “Vivo demasiado ocupada na cozinha”.
“Você não faz outra coisa senão cozinhar? ” – Tornou ele. “Não vai a torneios, a jogos, a excursões em cavalos ou a visitar amigos?”.
“Não” – disse ela – “Não tenho tempo para essas coisas”.
“Você deve gostar muitíssimo de cozinhar”.
Oh! Sim – concordou Ariadne. É tão divertido juntar toda sorte de ingredientes e ver a transformação da miscelânea em forma diferente e em aroma e sabor deliciosos!
Mas, você não gostaria de fazer algo mais para variar? –Indagou o príncipe – Nunca desejou, por exemplo, ir a algum outro lugar, ver outras pessoas ou simplesmente sentar-se ao jardim?
Bem-disse a princesa lentamente, como se fosse difícil para ela admitir tal coisa – Tenho me perguntado às vezes de como seria minha vida se eu fizesse isso, ou procedesse dessa outra maneira. Mas desde que não disponho de tempo, só me resta evitar pensar nisso.
Mas só você. deve fazer comida? Há muita gente a alimentar neste castelo. Estou certo de que existem muitos cozinheiros que gostariam de trabalhar aqui.
Existem – confirmou Ariadne – mas prefiro os pratos que eu mesmo preparo.
Mesmo que isso signifique gastar todo o seu tempo na cozinha? Você deveria cozinhar apenas uma vez ou outra, deste modo poderia aprender mais coisas fora da cozinha.
Ninguém, exceto seu pai, o Rei, jamais havia dito a Ariadne o que ela devia ou não devia fazer. Não era o tipo de coisa que alguém pudesse dizer a uma princesa. Assim, Ariadne sentiu ímpetos de censurar o príncipe por sua audácia. Mas ele não lhe deu a chance.
Eu também costumava fazer apenas uma coisa – confessou ele. Costumava montar cavalos o tempo todo. Montava do nascer ao pôr-do-sol. Quando um cavalo cansava, trocava-o por outro. Não me pegavam em casa nem às refeições, pois eu ordenava aos criados que me levassem lanches aonde quer que eu estivesse. Até que eu recebi uma ordem de não montar mais do que duas horas por dia, e começasse a aprender a fazer outras coisas também.
Mas, você é um príncipe – protestou Ariadne – Ninguém lhe pode ordenar coisa alguma.
Meu pai é rei – disse o príncipe rindo – Ele pode.
Oh! Compreendo. Assim – continuou o príncipe comecei a fazer diferentes coisas todos os dias. Eu lia, plantava jardins e ajudava a cavar fossos em volta do castelo. Um dia demos um banquete, e a sobremesa esteve tão deliciosa que pedi ao cozinheiro que me ensinasse a fazê-la.
E ele o ensinou?
De início não queria. Dizia que cozinhar não era coisa para príncipes. Perguntei-lhe por quê, e ele não soube responder. Portanto, teve de me ensinar.
Cozinha bastante? –Inquiriu Ariadne.
Uma vez ou outra, mas não tento fazer tudo, ou todos os pratos, para todos os que vivem no castelo.
Às vezes tomo conta da cozinha, permitindo ao cozinheiro um dia inteiro de folga. Porém, não gastaria mais todo o meu tempo preparando pratos ou quitutes, ou mesmo montando cavalos.
Mas, você se diverte mais fazendo todas essas coisas do que montando cavalos o dia inteiro?
Muito mais – respondeu o príncipe – E você também se divertirá. Quer ver? Um dos meus amigos dará um baile esta noite. Gostaria de me acompanhar a esse baile?
Ou porque aquele não era um príncipe comum, ou porque Ariadne estava tão surpresa que não sabia mais o que dizer, _ o certo é que respondeu: “Sim”.
Ariadne e o príncipe voltaram, pois, para examinar o bolo de caqui, que já assava há bastante tempo. E constataram satisfeitos que tanto seu aspecto quanto seu cheiro eram excelentes. E o sabor excedia o aroma.
Enquanto Ariadne se vestia para o baile, o príncipe fez uma visita a seu pai, o Rei. E disse ao monarca que estava quase certo de que Ariadne não mais se dedicaria inteiramente à cozinha do castelo, dali para adiante, terminando pela sugestão de que o Rei empregasse o primeiro cozinheiro que ali fosse à procura de trabalho.
Santo Deus! – Exclamou o Rei. Ela passou a se interessar por outras coisas?
E o velho não cabia em si de contente. Chamou na mesma hora o lacaio e ordenou-lhe que lhe levasse a sala de audiências do palácio o primeiro cozinheiro que ali fosse à procura de emprego.
Ariadne e o príncipe foram ao baile e ali dançaram a noite toda. E ela sentiu que jamais se divertira tanto. No dia seguinte leram juntos alguns manuscritos na biblioteca do castelo, e passearam nos jardins, e galoparam seus cavalos através das campinas próximas. Paravam aqui e ali para conversar com outras pessoas e tomar limonadas. E ela sentiu mais uma vez que nunca antes se divertira tanto.
Duas semanas mais tarde o príncipe pediu ao Rei a mão de sua filha em casamento, e Ariadne percebeu definitivamente que jamais fora tão feliz na vida.
Todos os reis e rainhas, príncipes e princesas, cavaleiros e damas, e todos os súditos que serviam no castelo, foram convidados para as festas das núpcias. E houve música coral e música de danças. Houve um mundo de belos e ricos presentes para a noiva, e outros tantos para o noivo.
E também presentes para a criançada com menos de 10 anos e para os velhos com mais de 70 anos.
Após o casamento houve um baile e um banquete. No fim do banquete fez-se ouvir um conjunto de trombetas: apareceu então o mordomo da princesa portando uma tocha, seguido de doze lacaios que carregavam um bolo de casamento com 3 metros de altura, 7 metros de largura e 12 metros de comprimento. É provável que jamais se haja visto um bolo de casamento com tais proporções.
Uma camada era feita de “manjar de anjos”; outra de chocolate; outra de morangos; outra de caramelos; outra de laranja e a última era uma régia cobertura glacê-dourada. No topo fora colocado um maiúsculo lírio branco, totalmente feito de açúcar. Ariadne havia preparado a primeira camada do bolo. As restantes foram feitas por cada um dos cozinheiros que bateram aos portões do castelo, solicitando emprego, depois da memorável visita do príncipe. O lírio branco fora feito justamente pelo último cozinheiro contratado pelo seu pai, o Rei. E o bolo foi cortado em exatamente 1.233 pedaços, o suficiente para todos os convidados.
Ariadne e o príncipe então se despediram do velho monarca e de todos os seus amigos e convidados, tomaram uma bela carruagem e partiram para as distantes terras do príncipe.
E lá viveram felizes para sempre, num castelo situado bem no alto de uma grande montanha.
(Traduzido da Revista Rays from the Rose Cross de 09/1974 – Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 11/1976)
Crise Econômica e Saúde Mental
Os internamentos nos hospitais psiquiátricos e a situação da economia são fatos inter-relacionados.
O dr. Harvey Brenner, da Universidade de Harvard, examinou os registros de todos os hospitais psiquiátricos do Estado de New York, nos últimos 127 anos. Suas pesquisas, como outras efetuadas pelos drs. Louis Kopolow e Frank M. Ochberg, do Instituto Nacional para a Saúde Mental, confirmam esse paralelismo entre a prosperidade ou recessão no campo econômico e o índice de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos.
A faixa mais atingida é a de pessoas do sexo masculino, entre 45 e 60 anos de idade. As profissões mais sensíveis às oscilações da economia são as dos operários semiespecializados e dos trabalhadores em seções de montagem nas indústrias.
Os distúrbios emocionais são, tão somente, parte do problema, pois as mesmas tensões produzem doenças físicas que acompanham os altos e baixos da economia. A medicina psicossomática tem verificado esses efeitos, especialmente no campo dos distúrbios das coronárias e na incidência de úlceras gástricas. A ação recíproca dos fatores emocionais, ambientais e físicos constitui um conhecimento essencial, “pois que a crise econômica, aliada às depressões emocionais e doenças físicas, representa uma ameaça ao ser humano” de Science News, 14 de fevereiro de 1976.
Não reputamos surpreendentes as revelações acima. Como aspirantes a uma vida espiritual, fácil se nos depara verificar a urgência do assentamento de bases espirituais mais sólidas na vida da humanidade. Certamente, a crise econômica representa uma grande provação, especialmente para os pais de família, responsáveis pelo bem-estar de seus dependentes.
Também a monotonia de um trabalho excessivamente rotineiro, como o de uma linha de montagem, pode conduzir a distúrbios emocionais, caso não se adote uma filosofia de vida. Nunca é demais repetir que o reto pensar e o reto viver estimulam evolução do Ego, provendo a harmonia de seus veículos.
Tal atitude ensejará forças durante a provação; e esta será compreendida como uma lição evolutiva – o que realmente ela é – sendo o resultado um aumento de poder anímico.
Não somos obrigados a aceitar as realidades desagradáveis do mundo material. Podemos dar um passo à frente e compreender as lições que ele contém, as oportunidades que oferece e assim manter o nosso equilíbrio físico, mental e emocional.
(Traduzido da Revista Rays from the Rose Cross e publicado na Revista Serviço Rosacruz de 08/1977)
Um Ciclo Vicioso ou Virtuoso
Quanto maior é a candeia, maior também será a quantidade de fluido para abastecê-la. Quanto mais fraca é a terra, maior será a quantidade de fertilizante necessário para que se produza uma boa safra. Quanto melhor é um instrumento, melhor é o som que ele emitirá. Portanto, quanto mais amor tiver um indivíduo, melhores também serão as suas obras, e assim por diante. Essa regra se aplica em tudo.
A responsabilidade de um ser humano está em um determinado nível; vem então o desejo de aprender algo, de ter experiências afins. Alimentando o desejo, o ser humano passa a saber mais, colocando-se um pouco acima daquele que sabe menos. Aumentando o saber, aumenta também sua capacidade assimilativa, e assim por diante, em um ciclo vicioso onde ele tem cada vez mais as suas qualidades aumentadas, e cada vez maior número de oportunidades de aprender mais.
No entanto, o egoísmo leva o ser humano por caminhos tortuosos, longe da sua origem, porque à medida que vai aprendendo erroneamente, vai utilizando a sua inteligência para “acumular tesouros”, quando não, na maioria das vezes, para prejudicar seus semelhantes. Realmente, talvez ele tivesse razão se a vida fosse tão somente um lapso existencial entre o berço e o túmulo. Mas assim não acontece. A vida não para aí; existe muito mais ainda. Ou melhor, nós estamos sempre no meio, pelo menos enquanto não soubermos quando começa ou acaba a aventura do ser humano na matéria. Por isto, à medida que vai aprendendo, mais e mais, libertando-se das condições atuais de sobrevivência e livrando-se dos laços que o prendem à matéria, aumenta também, com isso, sua responsabilidade em relação aos menos favorecidos.
Assim como nos exemplos acima, aquele que se tornou em uma candeia precisa, igualmente, do azeite das obras, que irá alimentar essa candeia (que é o ser humano) e que vai, por outro lado, aumentar ainda mais a sua capacidade e o desejo de aprender, conduzindo-o sempre a uma responsabilidade ainda maior; também em um círculo vicioso onde, quanto mais o ser é livre, mais livre desejará ficar, até um ponto que culminará com o desprendimento total da matéria, tamanha é a força vibratória produzida pelo seu desenvolvimento.
(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 11/1976)