“Por que será”, perguntou meu amigo, “que todos os anos, nesta época — começando desde setembro todo ano —, sinto um desejo de voltar minha Mente para as coisas espirituais? Leio um capítulo da minha Bíblia todos os dias e realmente me empenho de alma em praticar os ensinamentos belos e simples de Cristo. Sinto grande prazer em fazer coisas que acredito ajudarão os outros a viver segundo os ensinamentos d’Ele. À medida que o Natal se aproxima, esse sentimento se intensifica em mim. Não sei explicar bem, mas acho que devo sentir em relação ao meu próximo algo semelhante ao que Cristo sentiu quando estava diante de Jerusalém e disse: ‘Quantas vezes eu quis reunir vocês, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas’[1]. Quero compartilhar as tristezas e as aflições do meu próximo. Mas, quando passa esse tempo, com seus dias amenos e as chuvas de abril; quando as árvores começam a brotar e as cotovias cantam nos campos, sinto uma grande perda. É como se eu tivesse sofrido uma grande decepção: tanto havia sido prometido e tão pouco se concretizou. Algo me diz que devo voltar minhas energias para o lado material da vida; que agora preciso cuidar das necessidades físicas. Não me desagrada isso, pois sou uma pessoa prática, mas por que aquele sentimento altruísta me abandonou?”.
“Sua pergunta”, respondi, “é explicada de forma muito lógica nos Ensinamentos Rosacruzes. Como são profundamente Cristãos, seus esclarecimentos são particularmente úteis aos seguidores de Cristo e estão em perfeita harmonia com os ideais Cristãos. Eles ensinam que Cristo é o Espírito Planetário da Terra. Quando Ele foi crucificado, a Bíblia diz: ‘Uma grande escuridão cobriu a terra’[2]. Mas não era escuridão; era uma grande luz que cegou as pessoas, e essa luz era o Espírito de Cristo entrando na Terra. Antes da época de Cristo, Jeová era o Espírito Planetário da Terra; porém, Jeová influenciava a Terra e a nós a partir do exterior, pois Ele era o Legislador. Cristo disse: ‘Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros’[3]. O amor tende a nos elevar acima da Lei Jeovística e provém do interior. Assim, a influência de Cristo sobre nós e sobre a Terra vem de dentro. Durante a última parte de setembro, quando o Sol entra em Libra — que é o Signo de exaltação de Saturno, cuja influência é de destruição e obstrução —, percebemos que o aspecto material da vida entra em declínio. Contudo, a noite do corpo é o dia da alma. Enquanto as atividades materiais diminuem, as atividades espirituais se intensificam. Diz-se que, nessa época, se tivéssemos visão espiritual, poderíamos ver uma grande onda de luz dourada descendo do Sol em nossa direção. É Cristo — que esteve com o Pai durante os meses de junho, julho e agosto — retornando para dar Sua vida, Seu amor e Sua luz por nós. Na época do Natal Sua influência elevadora e purificadora é mais intensa. À medida que o Sol inicia sua jornada para o norte, Ele se retira da Terra e, na Páscoa, ascende novamente ao Pai. Ele diz: ‘Saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai’[4]. Ele passou Seu ano conosco.”
“Se Ele não nos fizesse Sua visita anual durante esse tempo do ano, não haveria mais aquele sentimento festivo na época do Natal do que existe em um dia de pleno verão. E você, meu amigo — por tentar harmonizar sua vida com a d’Ele —, sentiu Sua ajuda e Sua presença durante esse tempo; e, quando Ele se retirou, você percebeu Sua ausência.
Mantemos o equilíbrio concentrando nossas energias, durante parte do ano, em deveres físicos e, na outra parte, em verdades espirituais. Ganhamos força e aprendemos a caminhar com as próprias pernas, pois isso nos dá a oportunidade de pôr em prática os princípios sobre os quais teorizamos durante esse tempo de setembro a dezembro. E, como somos Cristos em formação, surge para nós, a cada ano nesta época, uma grande oportunidade de trabalhar com Ele e nos tornarmos semelhantes a Ele.”
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de dezembro de 1917 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)
[1] N.T.: Mt 23:37
[2] N.T.: Lc 23:44
[3] N.T.: Jo 13:34
[4] N.T.: Jo 16:28
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