“Sim. Vejo que o medo é um grande fator, mas há muitas outras coisas que nos influenciam em nossos atos. A maturidade faz desabrochar as paixões e os apetites; vejo que as indulgências mais anormais são toleradas pelo mundo. Isso é natural ou antinatural?”
“A maioria delas é anormal. Por exemplo, a conservação da força sexual criadora é absolutamente essencial para uma vida plena e equilibrada. O ser humano não deveria desperdiçar suas energias vitais. Ele tem gastado sua capacidade em uma vida desregrada e isso significa muito mais do que gastar dinheiro. Ele desperdiça a própria substância da qual se formam as condições harmoniosas dentro do Corpo e fora dele, em seu ambiente, e depois se pergunta por que está mergulhado na pobreza.
Não existe desarmonia alguma em qualquer parte pela qual o ser humano não seja responsável. A Alma do indivíduo é muito sutil e delicadamente organizada para habitar harmoniosamente em um Corpo imbuído de vapores de bebida alcoólica, por exemplo. O Corpo Denso é um mecanismo delicado demais para ser preenchido com o lixo que nele é despejado apenas para satisfazer um apetite glutão, o que dá a doença o controle do Corpo, em lugar de ser administrado pelo Espírito, e o que resulta em uma Alma enfraquecida.
Pensa você que o ser humano pode matar e torturar, como bem lhe aprouver, os animais indefesos sem prestar contas por seus atos? Acredita, ainda que por um momento, que a mulher que veste a pele de um animal indefeso que foi torturado em uma armadilha, assassinado e praticamente esfolado antes de morrer, escapa de sentir, em alguma medida, a miséria e o sofrimento do animal cuja vida foi tão impiedosamente tirada? A pessoa que usa um belo adorno de cabelo ou chapéu feito com penas longas e finas, retirado da cabeça de uma ave ainda viva, que é deixada para morrer e cujos filhotes, agora sem mãe, sentem fome em seus ninhos — ela usa essa pluma com prazer e sai ilesa?
Você imagina que aquele que devora um bife retirado do flanco de um animal indefeso, que viajou amontoado em vagões cheios de medo, foi cutucado com varas pontiagudas até os currais de abate e ali teve a cabeça golpeada, a garganta cortada e a pele removida antes mesmo de morrer — você acredita que participar desses medos e agonias não tem efeito algum sobre o ser humano, sequela mental, moral ou física?
“Você me pergunta para explicar qual é o problema: por que a Humanidade sofre tanto? E eu digo que ela está colhendo o que semeia e é negligente em relação à própria semeadura. Está plantando discórdia e esperando uma colheita de harmonia. Quando colhe uma safra de discórdia a partir da semente da discórdia que ela mesma plantou, então ela se queixa de viver em um mundo injusto.”
Há muitos fatores que controlam as condições ou as influenciam na vida: muitas regras e exceções às regras. Quando o ser humano despertar para a compreensão de que a Vida é uma ciência não material e deve ser vivida cientificamente dessa forma para alcançar resultados harmoniosos, ele viverá de tal modo que escapará de grande parte dos problemas que uma vida e um pensamento descuidados podem causar. Isso não significa que o ser humano que vive cientificamente daquela maneira seja menos livre nem que precise carregar consigo uma expressão fingida em ser excessivamente piedosa, moral ou virtuosa ou, ainda, hipócrita.
Quando vivermos cientifica, mas não materialmente, seremos livres e nossa vida será harmoniosa. O “exterior” a nós se tornará igual ao “interior”. Isso implica que o Espírito, a Alma e o Corpo estarão em harmonia (o Espírito consegue trabalhar no Corpo de forma eficaz, gerando a Alma – seu pábulo – também eficazmente); que sua vida familiar será harmoniosa; que suas relações profissionais serão harmoniosas; que suas relações sociais serão o que desejar que sejam. A Nova Era virá quando o ser humano deixar de matar, direta e indiretamente. Por exemplo, os animais seguirão o exemplo dado pelo ser humano e deixarão de devorar uns aos outros; então o leão e o cordeiro realmente se deitarão juntos (Is 11:16).
“Mas como o ser humano aprenderá a viver por meio de uma ciência não material?” Ouça! Se fosse construir uma bela casa para você mesmo, você a planejaria cuidadosamente e cuidaria para que cada pedra, tijolo e madeira que fizesse parte da sua casa fossem cuidadosamente selecionados e colocados firmemente em seus devidos lugares, de acordo com o plano.
No entanto, ao construir nossas vidas, o que fazemos em relação à seleção dos nossos pensamentos, que correspondem às pedras, tijolos, madeira outros materiais? Tomamos nossos pensamentos e os espalhamos descuidadamente, de maneira aleatória, como se não tivessem valor. Aceitamos qualquer “pensamento velho” quando aparece em nosso caminho, permitindo que ele tome posse de nós e se torne parte de nós, em vez de selecionarmos cuidadosamente os pensamentos e rejeitarmos todos aqueles que não sejam de primeira qualidade ou possam prejudicar a beleza ou a simetria da vida perfeita que desejamos construir. Preste bem atenção nisso que conseguirá começar a viver a vida por meio de uma ciência não material.
(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross – novembro/1916, traduzido e atualizado pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas – SP – Brasil)