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PorFraternidade Rosacruz de Campinas

Um Caso de Possessão

Em vários artigos recentemente publicados sobre possessão, mencionei duas classes: a demoníaca e a elemental. Essa última é uma possessão ou a posse das faculdades do paciente, em maior ou menor grau, por uma entidade invisível (espiritual). Pode haver ou não intervalos lúcidos, mas no caso registrado abaixo eles foram numerosos. No ocultismo, não pretendo ser alguém que se aproxime da mestria, mas há muitas coisas sobre as quais posso dar conhecimento em primeira mão.

Não é da competência deste breve artigo descrever os motivos e a origem de entidades como elementais e Espíritos da Natureza, nem entraremos em algum dos planos superiores para descrever a forma ou constituição química dos elementais. O elemental é a mais simples de todas as influências externas que possuem e é a primeira influência externa, viva e real, ou ser real, com o qual o diagnosticador astromédico entrará em contato.

A verdadeira composição material do elemental é um elemento, daí o seu nome. É bom para o leitor lembrar que estamos falando aqui das vibrações que são mais elevadas do que as do plano físico e cotidiano, e que uma descrição completa do elemental nos levaria a uma dissertação prolongada sobre as forças que atuam ao longo da parte negativa e positiva dos polos ou os quatro Éteres. Basta dizer aqui que o elemental tem forma real e possui vida, principalmente a que é obtida da sua pobre vítima humana. O casuísta pode exigir prova dessa afirmação antes de prosseguir. Eu respondo que é auto demonstrável e que o caminho para a verdade e o aprendizado está aberto a qualquer um que esteja disposto a pagar o preço. Esse preço, no entanto, não é dinheiro e se o pesquisador for absolutamente materialista, ele fará bem em ler o Caibalion[1] ou literatura semelhante, antes de fazer mais pesquisas médicas.

É bom lembrar que o que há de mais fundamental, por exemplo, em uma planta é invisível aos olhos físicos. O conhecimento suprassensível é acessível a todos aqueles que buscam com diligência e persistência.

Ao relatar este caso, vamos nos ater tanto ao lado físico quanto for compatível com o assunto e descreveremos este como um caso típico e real de possessão elementar. Visite qualquer instituição para pessoas com alguma debilidade mental na Terra e muitos casos semelhantes poderão ser encontrados. Você pode argumentar como quiser e zombar o quanto quiser, mas a verdade não será mudada para se adequar a uma de nossas opiniões preconcebidas.

Sra. H., 26 anos, esposa de um mecânico honesto; mãe de três filhos; loira com algumas características marcantes de beleza feminina; tamanho médio, razoavelmente bem constituída; veio de uma família em que muitos são inteligentes, mas também neuróticos; seu pai morreu em uma instituição para débeis mentais; pulmões e coração em bom estado, sem história específica de problemas. Ela era organizada, trabalhadora e naturalmente de temperamento alegre. Durante o último parto, o trabalho de parto foi concluído em menos de uma hora sob a competente gestão do Dr. Muir, que a atendeu muitas vezes durante as sete semanas seguintes.

Na primeira semana do período de internação, ela foi esplêndida. Aproximadamente depois do nono dia, ela começou a ter peculiares ataques nervosos de vaga apreensão de perigo para seu bem-estar. Não houve febre em momento algum. O Dr. Muir, de maneira sutil, encaminhou o caso para mim no início da oitava semana. Fui chamado pela primeira vez em 19 de janeiro, às cinco horas da tarde, e a encontrei sentada na cama segurando uma bolsa de água quente sobre o seio esquerdo; seus cabelos estavam desgrenhados e o rosto exibia uma expressão maníaca; nenhum piscar de olhos; olhos afundados em suas órbitas; pupilas dilatadas; mãos e pés frios, mostrando circulação perturbada, embora o quarto estivesse confortavelmente quente; os batimentos cardíacos eram lentos e fracos, mas regulares. Ambas as pupilas estavam dilatadas e se recusavam persistentemente a contrair mesmo sob a influência de luz, hiosciamina, estricnina ou brometos.

Sua conversa era não racional e ela estava apreensiva, com medo de morrer imediatamente e fazia repetidamente a mesma pergunta aos atendentes sobre sua morte próxima. Independentemente das garantias em contrário, ela perguntava cem vezes ou mais por dia se seu coração iria parar ou se algum dia ela se recuperaria. Ela estava rapidamente ficando acamada e qualquer tribunal de insanidade teria julgado sem hesitação que ela fosse um caso adequado para uma instituição do Estado para pessoas insanas. Seu coração reagiu a uma injeção hipodérmica de estricnina; mas, as pupilas, as janelas da alma (do Ego), não se contraiam por meio de estimulante algum que eu aplicasse.

Havia várias sensações nervosas e metastáticas, simulando um tipo travesso de histeria. O atendente médico pode sentir uma sensação ou atmosfera mais calorosa quando está na presença do caso comum de histeria, seja na variedade travessa ou simiesca.

Seus intervalos lúcidos eram levemente perceptíveis. Os pentabrometos produziram um sono razoavelmente bom, embora um pouco perturbado por sonhos importantes para qualquer psicanalista.

Além de uma administração hipodérmica e da dosagem noturna de pentabrometos, prescrevi um tônico amargo para ser tomado após as refeições. Resolvi fazer tudo o que estava ao meu alcance como médico para salvá-la de ser internada em uma instituição para débeis mentais; mas, quanto mais eu fazia, mais graves se tornavam os sintomas, até o terceiro dia, quando decidi que o diagnóstico poderia ser modificado de prostração nervosa para um caso simples de possessão elementar que tinha seus sintomas psiconeuróticos produzidos por um fator além do ambiente físico e visível. As pupilas e a atitude eram patognemônicas.

Nesse extremo, iniciou-se um tratamento suprafísico para despojá-la da entidade obsessora. Não é conveniente informar o público sobre essa parte do tratamento neste momento. Quase imediatamente a pupila começou a alterar de tamanho, por assim dizer, a reagir em pontos, os intervalos lúcidos tornaram-se mais longos e, em dez dias, toda a pupila assumiu um aspecto normal. Dentro de 36 horas do início do tratamento modificado, uma confissão veio da paciente. Ela afirmou que desde os cinco anos de idade praticou a masturbação e continuou essa perversão sexual em intervalos ao longo da vida; também havia praticado duas vezes desde o último parto.

Os sintomas eram a manifestação direta desse elemental que atuava no plano etérico. Como um vampiro invisível, ele cresceu muito e estava roubando dessa bela mãe o seu próprio princípio de vida. Sem ajuda, ela era impotente para se livrar desse elemental.

Não há necessidade de falar sobre o tratamento, se houver viés no julgamento diagnóstico do leitor. Ao fazer um diagnóstico, é bom agir com calma em todos os casos neuróticos, pois devemos primeiro nos certificar de que os sintomas não têm origem física; além disso, não pode haver obsessão sem dilatação pupilar. É fácil perceber que não cometer erros no diagnóstico nesses casos é de muita importância para a reputação do diagnosticador e de grande importância para o pobre paciente. Na realidade, os nomes “histeria”, “neurastenia” e “psiconeurose” são vãos subterfúgios usados para acobertar as multidões da nossa ignorância.

Em poucas palavras, a paciente tinha uma predisposição neurótica, um ambiente hostil, o estresse da maternidade e uma prática maligna enfraqueceu ainda mais a sua autonomia física e mental, proporcionando, assim, uma condição ideal, um convite à influência externa. Muito cedo o elemental obteve dela uma área de consciência; como seus atos eram uma rendição de vida ao elemental, ele cresceu muito, alimentando-se do Éter de Vida e foi capaz de obter posse de mais áreas da sua consciência. Pouco a pouco o elemental se tornou a maior coisa dentro do templo, destronando o Ego humano do seu trono de razão.

Observação. — Embora a paciente possa realizar os seus afazeres domésticos, continua sob observação médica.

(Por um médico Probacionista, publicado na Revista Rays from the Rose Cross de novembro de 1915 e traduzido pelos irmãos e pelas irmãs da Fraternidade Rosacruz em Campinas-SP-Brasil)


[1] N.T.: O Caibalion (Kybalion), publicado em 1908 pela Yogi Publication Society sob o pseudônimo de “os Três Iniciados”, afirma conter a essência dos ensinamentos de Hermes Trismegisto, tal como ensinado nas escolas herméticas do Antigo Egito e da Antiga Grécia. Seu material tornou-se um dos pilares do Movimento Novo Pensamento da década de 1910. Muitas das ideias apresentadas nesse livro anteciparam conceitos popularizados no século XXI, como por exemplo, a Lei da Atração.

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