Determinismo e Livre Arbítrio
Hoje vou lhes expor as grandes linhas de Ensinamentos Rosacruzes, pois a ciência espiritual é uma ciência muito vasta e não é em alguns dias, em alguns meses, e nem mesmo em alguns anos, que nós podemos apresentar o conjunto destes ensinamentos. A procura pela Verdade é eterna: ela se modifica, entretanto, na medida em que nós evoluímos, porque nós fazemos recuar sem cessar as fronteiras do conhecimento adquirido; também a Verdade não pode ser definida de uma vez por todas. Uma das primeiras perguntas que nós podemos fazer no começo de um estudo semelhante é esta do livre arbítrio e do determinismo; em quais proporções cada um destes elementos entra no destino do ser humano?
A fé determina os graus de influência desses fatores do destino. A definição mais simples é dada pelas religiões que admitem que Deus criou uma alma virginal à cada nascimento; a partir do momento em que ela é criada, esta alma é livre para escolher entre o bem e o mau; essa escolha determina a vida da alma por toda a eternidade.
Aquele que raciocina constata, imediatamente, que os seres humanos não são iguais desde o nascimento; o meio onde a criança nasceu age profundamente sobre o destino da mesma. Como consequência, todas as crianças não partem do mesmo ponto; a fortuna dos pais, o ambiente no qual aquela criança cresceu, e outras considerações ainda fazem com que o meio tenha uma influência considerável; a luta pela vida não é a mesma para todos; alguns parecem favorecidos e outros parecem sacrificados.
Nós estimamos que haja uma causa para tal diferença, dado que a ciência materialista admite que isso esteja ligado à evolução da vida nas formas, que é um efeito biológico dado ao acaso.
O sexto princípio da Filosofia Hermética, o Princípio da Causa e Efeito, indica que a sorte (logo, o acaso) não é nada além de um nome dado à uma lei pouco conhecida. O acaso não pode existir devido a apenas uma causa. Além disso, nós nos perguntamos como alguns estudiosos, como Jean Rostand, por exemplo, ainda admitem o acaso.
Assim que nós observamos o ciclo regular dos Astros, quando sabemos que podemos predizer com precisão um eclipse, como nós podemos ainda pensar no acaso? É evidente que se deve admitir a existência de uma inteligência superior por trás do movimento dos Astros. Fora isso, Lecomte du Noüy declara abertamente que nós devemos substituir a palavra “acaso” por aquela dita “Deus”.
Certos estudiosos, há mais de um século, acreditam no fenômeno da cristalização; eles se baseiam nas verdades parciais, como, como se eles tivessem viseiras, ao invés de procurarem ir além do que descobriram. Eles se tornam atrasados na evolução em geral, pois os espíritos científicos avançados admitem a possibilidade de um determinismo nos fenômenos da natureza. O ensinamento Rosacruz admite a noção de determinismo no nascimento das crianças. Com relação às Religiões que não atingiram certa cristalização, há uma evolução da vida por meio de diversas formas, numerosas e cada vez mais evoluídas e isso ao longo de existências sucessivas; é o caso das Religiões da Índia.
Para as Religiões limitadas, como o Islamismo, tudo é escrito; é um fatalismo absoluto. Para uma religião mais evoluída, como a Religião Católica, é a Providência Divina que nos dirige, é dela que devemos esperar tudo. Mas o que é essa Providência se não os Anjos do Destino presentes na Filosofia Rosacruz?
A Lei de Causa e Efeito é absoluta; ela é aplicada em tudo. É necessário refletir frequentemente, meditá-la por bastante tempo e admiti-la completamente. Nada escapa a essa Lei. Aplicando o princípio de tal Lei, nós consideramos o nascimento como um Efeito; nós concluímos que deve haver uma Causa pré-existente e que o acaso – inexistente por si só – não pode ser levado em conta.
Os estudiosos mais avançados declaram que, em outra galáxia, existe um centro de vida formado por átomos de hidrogênio: “um gigantesco núcleo giratório de hidrogênio foi descoberto no coração da Via Láctea”, acaba de anunciar o Dr Woort, do observatório de Leiden, na Holanda. Estes átomos de hidrogênio são a fonte de toda vida. A galáxia seria formada por acaso? O Sistema Solar seria obra do acaso? Os Astros e seus movimentos regulares seriam uma fantasia do acaso? As outras formas de vida seriam originadas ao acaso? Se nós estudamos as leis que regem os Astros e seus movimentos e se nós sigamos o processo de evolução dos seres, nós somos obrigados a constatar que tal acaso não faz muito sentido.
Da mesma maneira, é uma forma de orgulho crer que, isolada, a Terra é habitada e que é por acaso que o ser humano foi originado, para ser o rei e o mestre do universo! Não apenas no nosso Sistema Solar, mas devem existir formas de vida relativamente semelhante à nossa, ainda mais na galáxia da qual nós fazemos parte, e muito mais em outras galáxias, existem seres que possuem sua evolução, não apenas neste plano físico, mas também em outros planos; devemos admitir que estes possíveis seres tenham atingido um nível evolutivo que pode ser superior ao nosso, enquanto que outros ainda não atingiram nossa espiral de evolução.
As emoções que nós sentimos nos permitem supor que há um Mundo feito de emoções; assim sendo, os pensamentos que venham se refletir em nosso intelecto clamam pela existência de um Mundo feito de pensamentos; nesses Mundos vivem entidades que possuem certa emotividade correspondente ao modo de vida dessas regiões; logo, nós devemos admitir que nos Mundos superiores (Mundo do Espírito de Vida, Mundo do Espírito Divino, Mundos do Espíritos Virginais e Mundo de Deus) há também formas de vida em vias de evolução, mas nós podemos dificilmente visualizar e compreender tais Seres superiores.
A criança que começa a ir à escola aprende as lições que lhe são dadas para estudar, sem que ela pergunte se elas são exatas; isso cabe a seu mestre. Então, de sala em sala, de escola em escola, ela aumenta seus conhecimentos e começa a raciocinar sobre o ensino que recebe. Mais tarde, ela poderá verificar a veracidade de tal ensino e poderá colocar em prática as noções recebidas. O mesmo se passa com o ser humano que quer seguir o Caminho da Iniciação. É necessário ainda que ele tenha, no início, fé em seu instrutor, que ele se deixe ser guiado por ele, que ele escute seus conselhos e seus avisos contra os erros e eventuais perigos, pois a partir do momento em que não há mais a base de um dogma ou de um regulamento, há de fato perigos a temer. Da mesma maneira que a energia guardada dentro da célula pode, se se tornar dinâmica, servir muito bem às obras de paz e às obras de guerra e de destruição, assim também aquele que começa a descobrir o oculto pode se dirigir para uma via perigosa. Frequentemente se não controlamos mais as energias que liberamos, perdemos o controle sobre nós mesmos, nos deixamos exercitar práticas nocivas; assim sendo, ademais, o “aprendiz de feiticeiro” que começou a exercitar a cadeia de reações nucleares não pode parar o movimento iniciado. Os mesmos perigos existem nestes dois planos de conhecimento científico experimental e de conhecimento espiritual.
É necessário que se admita, desde o início, o plano geral do Cosmos e a noção dos 7 Planos Cósmicos diferentes. Precisamos saber que nós pertencemos ao sétimo Plano, o mais baixo, e que esse é igualmente formado por 7 Mundos diferentes. Nós temos um Corpo Físico pertencente ao Mundo Físico; o animal também possui um Corpo Físico, mas ele não se dá conta disso, ele não conhece nem a si mesmo e não sabe quem ele é. Nós possuímos emoções, sentimentos; eles pertencem ao Mundo do Desejo ou mundo das emoções, desejos e sentimentos; nós temos uma consciência relativa desse Mundo no sonho que representa as imagens pertencentes a ele.
Nós pensamos; o pensamento é transmitido de um ser a outro graças aos veículos feitos de pensamento-forma. Logo, há um Mundo do Pensamento que é, ele mesmo, dividido em duas partes. Estes 3 Mundos inferiores são facilmente concebidos; mas nós precisamos admitir também a existência do Mundo do Espírito de Vida, o Mundo do Espírito Divino, o Mundo dos Espíritos Virginais e o Mundo de Deus. É somente por meio do aprendizado e graças a numerosas meditações que nós podemos compreender a existência destes Mundos superiores; nós pensaremos na escala de Jacó, verdadeiro símbolo dessa Hierarquia de Planos e de Entidades.
Esse número “7” é um número iniciante que nós encontramos em todas as Religiões; ele se encontra no Antigo e no Novo Testamento, e em especial no Apocalipse. Citemos apenas alguns exemplos dentre muitos: o Candelabro de 7 braços ilumina o neófito penetrando a Câmara Leste do Templo, o Livro dos 7 Selos de São João. O hindu distingue, nele, o seu Eu superior, o seu não-eu e a Personalidade. De fato o “Eu interior” e o “Eu exterior” são diferentes. Um é permanente e segue uma evolução ao longo de existências sucessivas; o outro é transitório.
Para poder tomar consciência de si mesmo, o ser humano deve considerar seu “Eu interior” como uma entidade superior, um tipo de “Deus”; tal comentário remete à afirmação do Cristo:
“Não está escrito na Lei: “Eu disse: ‘Vocês são deuses'”” (Jo 10:34-35 e Sm 82:6).
E tal consideração é concebida se nós nos lembramos que o Espírito Virginal foi emanado em Deus e possui, como consequência, todos os poderes e todas as possibilidades da natureza divina, em potencial.
As células do nosso corpo vibram de uma maneira diferente segundo o degrau de evolução: a taxa de vibração vai acelerando partindo do ser humano primitivo passando pelo ser humano comum e atingindo o sábio e o santo. O progresso adquirido ao longo de uma existência não é perdido: as células – ou pelo menos sua existência e sua taxa de vibração – são retomadas por outra vida mais evoluída; essas células formam o centro de um núcleo de vida em torno do qual se constrói um novo ser. Essa evolução não é limitada à humanidade; as entidades superiores evoluem igualmente, mas em outros planos; acontece que mesmo que apenas uma delas, tenha desenvolvido sua consciência o suficiente e tenha adquirido novos poderes, escolha um ponto no espaço e crie um Sistema Solar. As células que animam o Corpo Físico não têm consciência da vida que há nelas; elas são dirigidas por um Espírito-Grupo que é nós mesmos atualmente. Mas, antigamente nós fomos guiados também do exterior, como por “Espíritos-Grupo”; logo não éramos mestres de nossas causas, éramos semelhantes aos animais atuais. A Mente foi nos dada apenas na metade da Época Atlante; a partir desse momento, nós começamos a adquirir uma certa responsabilidade de nossos atos e nós podíamos criar causas, cujos efeitos nós sentíamos e conhecíamos.
Os animais são todos dirigidos por Espíritos-Grupo, todavia alguns dentre eles, como o cachorro, o gato e o cavalo, estão adquirindo um grau de evolução mais elevado na medida em que eles vivem em nosso ambiente, recebem eflúvios de amor. Eles começam a raciocinar de uma maneira rudimentar, estão no ponto de obter a individualização que os fará adquirir uma Mente que os permita raciocinar de maneira efetiva. Também é importante não confundir memória com inteligência; são duas noções absolutamente diferentes. Assim sendo, antes de o ser humano receber a Mente, ele possuía uma memória muito desenvolvida que o permitira agir instintivamente no seu melhor, usando automaticamente as experiências passadas. É o caso do cachorro comum atual que sabe que ele não deve tocar no fogo com receio de se queimar, não porque ele tem a noção de fogo, mas porque, na sua memória, ele guardou a lembrança de ter tido células destruídas pelo fogo; se ele evita o fogo, não é por algo racional, mas unicamente graças à sua memória. O castor constrói sua casa usando sua memória e aquela do Espírito-Grupo.
O ser humano, dada sua Mente, pode escolher entre o bem e o mau; ele possui, então, um certo livre-arbítrio, ele provou da Árvore do Conhecimento que é o símbolo da Lei do Bem e do Mal. Do resto, o Bem e o Mal possuem um valor relativo; no absoluto, não há nem o bem nem o mal; a natureza de ambos é idêntica, mas há graus diferentes (quarto Princípio hermético, aquele da polaridade). A Árvore do Conhecimento sugere também o Princípio da Causa e Efeito, com a noção de responsabilidade, também aquela de retribuição e de sofrimento. Em Gênesis (Capítulo III), a humanidade é punida e censurada, ela deveria sofrer e penar; é a consequência do privilégio de ter obtido o intelecto, o conhecimento.
O sofrimento faz compreender que há um erro; cada vez que o mesmo erro for cometido, o mesmo sofrimento virá para indicar que a pessoa deve mudar sua vida; é uma lança que tende a nos fazer escolher um outro caminho. Pouco a pouco, a Sabedoria nascerá e, com ela, a felicidade, pois a Sabedoria é o resultado do temor do Senhor (Ecl 21:11) e esse temor é, no fundo, a Consciência do Bem e do Mal e é o desejo de sempre se conformar à Lei santa de Deus. No Livro da Sabedoria 23:11 há um trecho misterioso: “porque o medo não é outra coisa senão o desamparo dos auxílios da reflexão”. O que isso significa é que a Sabedoria ultrapassou o estado no qual ele deve ainda escolher entre o bem e o mal, tendo atingido o nível no qual ele se conforma sempre seguindo o conselho da voz interior, que é o eco da Sabedoria não criada, um dos dons que o Espírito Virginal recebeu se diferenciando em Deus.
Se, antes de recebermos a Mente, nós éramos dirigidos exclusivamente pelo exterior, é bom assinalar que, ainda atualmente, nós sempre tivemos Anjos guardiões que nos incitaram a seguir a via correta; essa ação se deu graças às inspirações sugeridas por tais Anjos guardiões. É um socorro ou resgate que vem ser um paliativo para uma consciência, momentaneamente, em falta; mas, notemos bem que essas inspirações não implicam nada de negativo ao nosso livre-arbítrio, porque nós podemos sempre ou responder de maneira afirmativa à inspiração ou bem repreendê-la e recusá-la. Nós somos todos acorrentados por uma gama de causas que nós acumulamos desde que nossa evolução começou. Tais causas são tamanhas que elas teriam conduzido a humanidade à uma cristalização perigosa. A Missão do Cristo foi justamente a de nos ajudar a nos permitir liquidar uma parte de tais causas, ele também tomou para si uma parte dos débitos da humanidade. Nós podemos se perguntar como acontecem, em um destino, as consequências de tais causas passadas. O funcionamento é automático.
Vejam aqui dois exemplos :
a) Com uma câmera, nós imprimimos as imagens sobre um filme; elas são reproduzidas automaticamente em uma tela com a ajuda de um aparelho de projeção.
b) Atualmente, os sons e as imagens são gravados em bandas. Eles podem ser reproduzidos fielmente e são conservados por tanto tempo quanto quisermos e podem ser emitidos quando quisermos. É o mesmo com nossas ações, nosso sentimentos. Tudo está registrado e conservado integralmente.
Nós possuímos três tipos de memória. Uma Memória Consciente, que é uma memória cerebral, ela registra as imagens e os sons. As células que registram estas sensações restituem aquelas na medida exata em que elas estavam bem registradas e também seguindo mais ou menos a grande sensibilidade destas células.
Possui uma boa memória aquele que sabe se concentrar, que fixa com atenção e que sabe fazer surgir as memórias, no momento desejado; além disso, as associações de imagens e de ideias facilitam o aprendizado. A segunda Memória é inconsciente ou Subconsciente, ela é a consequência do ar que nós respiramos; as partículas de ar inspiradas são impregnadas pelo ambiente do momento, até mesmo as imagens e as impressões que a consciência não se deu conta; tais clichês penetram nos pulmões e no sangue; as imagens são gravadas sobre os átomos negativos do Corpo Vital; elas estarão em seguida sobre o Átomo-semente que nós conservamos a cada encarnação (esta é a Memória Supra Consciente). É interessante notar que aquele que é privado acidentalmente de ar (estrangulamento, afogamento), vê desenrolar rapidamente o filme de sua vida, o que demonstra a existência de tais arquivos.
Depois da morte, nós trazemos este Átomo-semente sobre o qual está gravada tal memória inconsciente ou Subconsciente; é criado um elemento sobre o qual nosso livre-arbítrio não mais age, e isso acontece até o cessar da vibração impregnada no Átomo-semente quando ele assimilou o bem e expurgou o mal. Há assim uma memória inconsciente da Natureza; há uma camada de células de átomos sobre os quais são gravadas as fases evolutivas da Terra e de outros Astros onde são gravados também os clichês de todos os eventos. É o Grande Livro de Deus, o Livro dos Sete Sinais do Apocalipse de São João (Ap 5-1). Nada do que já pensado, sentido, provado, feito não desaparece totalmente; tudo deixa um traço indelével da parte do ser humano, das raças ou da própria Terra. Tudo deve produzir um efeito um dia, porque se criaram também inúmeras causas que não ficarão inativas; um dia ou outro, o efeito surgirá da causa escondida.
Assim, por exemplo, o fato do ser humano comer carne remete à evolução dos animais; nós devemos pagar um dia tal débito de uma maneira ou de outra; sendo seus guias, como os Anjos são nossos guias atualmente. O cavalo nos ajuda desde que ele foi domesticado e que ele carrega cargas: ele nos serve. Nós pagaremos tal dívida a ele um dia, é necessário e inelutável. O pai e a mãe pagam uma dívida às crianças que eles criam e tal criança, numa existência futura, pagará ela mesma sua dívida de reconhecimento a seus pais. Nada fica impune, nada fica estéril, o que nós semeamos, nós necessariamente colheremos (Gl 6:7).
Atualmente nós nos submetemos a causas muito antigas, mesmo aquelas que remontam ao momento no qual nós recebemos nosso livre-arbítrio pela primeira vez. Nossos diferentes destinos são explicados em razão de tal resultante de ações e de reações de nossas vidas. A criança nasce com o peso de seu pecado original, de seus pecados acumulados; ele deve, então, passar pelas provas geradas por seus erros passados tão antigos quanto eles possam o ser, e não o erro ou os erros de Adão e de Eva. É o Destino Maduro, essa resultante de nossas vidas passadas que nos faz nascer em tal ou tal meio, a fim de que possamos obter as oportunidades que nos permitam agir convenientemente e pagar as dívidas de nosso passado, de apagar os erros cometidos anteriormente. Nós estamos, assim, exatamente no lugar onde merecemos estar, as provas que nos afligem são bem aquelas que nos sãos necessárias, não existe acaso, fantasia, favoritismo.
Quando, no Terceiro Céu, o Ego prova do desejo de voltar à Terra, ele tem a sensação de uma “fome” de experiências. Quando assimilamos a comida material necessária à nossa vida física, nós provamos mais uma vez da sensação de fome de desejo de comer; analogamente, quando o Ego assimila as experiências da vida passada, ele experimenta uma fome de novas experiências; é uma fome que o incita a reencarnar.
Mesmo que isso tudo pareça uma ideia muito difícil de ser concebida a uma primeira vista, o esquema da evolução do Cosmos (galáxias, Sistemas Solares, etc.) é traçado por milhões de anos à frente; não nos esqueçamos que para o Deus solar 26.000 anos (ano sideral) são como um dia de nossos dias solares; quanto mais nós atingimos as Hierarquias superiores, mais o espaço aumenta e mais o tempo se retrai, para atingir um tipo de presente eterno. Os Anjos do Destino veem as lições que o Ego deve aprender em sua próxima existência, eles o ajudam a traçar as grandes linhas de seu destino contendo, em particular, a data e o local de seu nascimento, o eventual casamento, os possíveis filhos, a morte, as pessoas encontradas que comporão todas as oportunidades de pagamento das dívidas ou as tentações, para afirmar as resoluções de melhorar seu comportamento.
Assim, a vocação é o chamado de uma voz interior que nos incita a seguir um tal caminho mais do que um outro. Feliz daquele que soube colocar sua vida em harmonia com o arquétipo previsto; ao contrário e infeliz é aquele que não soube responder à sua vocação. O exercício de Retrospecção da noite nos permite, por fim, comparar o que nós fizemos com nossa aspiração interior, a esperança íntima do que gostaríamos de ter realizado; o resultado de tal exame permite criar a partir desta vida um cliché que nós utilizaremos mais tarde, na vida pós-morte, no momento justo de voltar à Terra; é interessante para esta evolução de uma vida que está por vir se criar um cliché bem claro resumindo o fruto de nossas meditações e refletindo com força o que nós sentimos intensamente: o que nós fizemos de mal ou decididamente não dizemos. Frequentemente nós não podemos nessa vida voltar atrás e refazer o que nós não fizemos direito; só podemos, então, mudar a direção em uma existência futura.
Os profetas são seres que “veem” as formas arquetípicas; suas visões não são fruto de sua imaginação, mas sim da revelação de formas reais em vias de realização. Sem entrar em detalhes do processo da reencarnação, o átomo-semente do Ego desce dos diversos planos do Cosmos e atraem até ele as células cuja taxa de vibração correspondente à sua; ele escolhe, assim, seu pai e sua mãe e, dentro de nove meses de gestação, ele faz seu primeiro choro, ele inspira sua primeira bufada de ar e é colocado no caminho que deve obrigatoriamente seguir.
Dado que a mão tem um revólver, o atirador pode direcionador o canhão em uma direção que ele escolhe deliberadamente, mas, depois que ele apertou o gatilho, a bala é disparada e ninguém pode fazer algo para desviar sua trajetória, exceto pela ação de causas exteriores importantes e suficientemente raras como, por exemplo, uma violenta ventania. O mesmo acontece com relação à criança que nasce: sua linha do universo foi traçada, traçada automaticamente, como nós acabamos de ver.
O esquema de tal existência é revelado no tema astrológico, que condensa as oportunidades, as tendências, as provas, os auxílios e os obstáculos. Nós sabemos que o Sol e a Lua agem de uma maneira eficaz sobre nossa existência; sua ação é sobretudo física. O Sol, fonte de vida, é um fator de saúde; a Lua comanda as marés, age sobre o comportamento sexual da mulher, a Lua é o Astro comandante dos nascimentos, pois eles se dão no momento no qual a Lua apresenta uma posição em harmonia com o destino da criança. Os outros Astros, mais distantes e mais fracos que o Sol, não influenciam diretamente o Corpo Físico, mas agem em outros corpos do ser humano; o Corpo de Desejos está sob a influência de Marte e de Vênus, a Mente é influenciada por Mercúrio. Júpiter favorece a expansão, o desabrochar e o crescimento do ser humano, enquanto que Saturno possui uma ação limitante, de restrição e de concentração.
Nós nascemos no momento preciso no qual nosso arquétipo pré-estabelecido necessita de uma influência das configurações astrais indispensáveis. Da mesma maneira que a máquina eletrônica escolhe a ficha perfurada no momento exato no qual o buraco passa na frente do detector determinado por uma operação bem definida, também a criança nasce automaticamente quando é o momento para ele de encontrar as condições necessárias à sua evolução pessoal.
Ao primeiro grito da criança, a taxa de vibrações existente deve ser semelhante à aquela do arquétipo traçado; isto se faz de maneira automática; a hora é determinada considerando-se que no Mundo do Pensamento, 4 minutos correspondem a um ano e que no Mundo do Desejo, 1 dia corresponde a 1 ano.
A medida do tempo não é a mesma em todos os planos e Deus não mede da mesma maneira que nós; o que nos parecem ser impossíveis é possível para os Anjos do Destino, assim como um cálculo impossível de ser resolvido ao longo de uma vida humana pode ser desvendado em alguns segundos pelo computador que possui uma memória excepcional.
A criança obtém, assim, no bem e no mal, as possibilidades que ele mesmo causou em suas vidas passadas. É determinado e é mesmo autodeterminado, pois, é ele que definitivamente é o elaborador de seu destino. Ao longo de sua vida, ele poderá se libertar desta taxa de vibração em função de sua vontade (livre-arbítrio). Sob a Lei Antiga, nós suportamos integral e passivamente os efeitos das causas criadas; não houve vontade para resistir, e também nós havíamos acumulado inúmeras causas que criavam tantas formas-elementais, constituindo o que nós chamamos de o “Guardião do Umbral”. É o simbolismo expresso no Antigo Testamento por Davi saindo da tenda para combater Golias, o Filisteu (1Sm 17).
Uma das missões do Cristo foi justamente a de nos ajudar a resistir às tentações. Por meio da oração, nós nos colocamos em contato com o Cristo; a oração é, por assim dizer, a tomada (elétrica) que nos permite receber as correntes superiores, o fluxo espiritual vivificante. Aquele que sabe se colocar em contato com o Cristo sente essa fome de oração, de prece. O ser humano estando impregnado desta vida superior, pouco a pouco, tem as tentações inferiores desaparecendo e o caminho para o alto iluminado e facilitado. A concentração permitirá por outro lado atingir o mesmo objetivo; mas a concentração efetiva é difícil, ela constitui um esforço individual, enquanto que o caminho da oração permite receber as vibrações espirituais cristãs que aumentam a taxa de vibração.
Mas, “Servir”, de maneira desinteressada, no espírito de caridade, é “o caminho mais curto, mais seguro e mais agradável que nos conduz a Deus”. Servindo nós esquecemos de nós mesmos, é uma maneira de concentração particular; criamos, logo, novas causas que nos permitirão renascer em um outro meio mais favorável à nossa evolução, que nos oferecerá as oportunidades sempre mais belas para atingir, progressivamente, o cume luminoso onde nós poderemos desenvolver nossa consciência, até o ponto de se tornar “Um” com o Cristo Cósmico.
(Traduzido do: Determinisme et libre arbitre, da Association Rosicrucienne Max Heindel, Centre de Paris – Texte inspiré de l’enseignement rosicrucien légué à Max Heindel par les Frères Aînés de la Rose-Croix)
A Espiral da Vida: nunca voltaremos às mesmas situações que já conhecemos
Quantas vezes pensamos que a vida se move com grande monotonia! Parece-nos que os dias, as semanas e os meses se seguem uns aos outros em um círculo monótono, sempre com as mesmas responsabilidades. Quantas vezes deixamos correr o pensamento e nos vemos em viagem imaginária por mares desconhecidos! Vemos as velas brancas de nossa forte nave, inflada pela brisa, segundo esta se desliza suavemente para o maravilhoso país de nossa fantasia. Até chegamos a sentir a suave brisa do trópico acariciar nossas faces. O feitiço sedutor de outras terras nos chama com voz tão insistente que anelamos romper os grilhões que nos atam a obedecer ao impulso, pouco nos importando o preço a pagar. Os distantes prados nos parecem tão verdes! O romance e a aventura nos sorriem desde o horizonte. Imaginamo-nos protagonistas de atos heroicos e nobres ações como parte de uma série de acontecimentos cheios de encantos. Envolvemo-nos na rede prateada do encantamento e, imediatamente despertamos para a realidade da vida, novamente no mesmo lugar anterior, no mundo de sempre.
Então, sentimos como se a beleza de nossa vida houvesse desaparecido, que não há nenhuma correlação entre nossos sonhos e a realidade, senão que parecem ser duas coisas completamente distintas.
Isto ocorre porque estivemos olhando as coisas somente desde o ponto de vista externo. Ao ir de encontro com a felicidade nos passa despercebida a aventura mais sublime e verdadeira: o despertar da alma.
Na vida, as coisas não se repetem; nenhum acontecimento ocorre duas vezes da mesma maneira. A evolução nos leva continuamente para diante, em ascendente espiral. A nota chave do Universo é o progresso eterno, e este, em seu passo majestoso, nos envolve em suas fortes correntes.
A vida nos parecem aborrecida e monótona unicamente até o momento em que descobrimos os tesouros que jazem no Eu interno. No mundo da Mente e do pensamento abundam insondáveis mistérios que ao rebuscá-los e dar com eles, nos produzem os maiores prazeres e delícias. Ao chegar a compreender sua origem divina, a Alma, por tanto tempo atada e prisioneira da ignorância e da dúvida, nos fala de glórias que podemos alcançar e das alturas espirituais as quais podemos voar, com a promessa de encontrar essa perfeita paz que, por tão longo tempo, temos buscado.
Todo o momento da vida contém grandes tesouros; mais do que estamos preparados para receber.
Em nossa trajetória pela espiral da vida nunca voltaremos às mesmas situações que já conhecemos. Muitas vezes nos parecerá que estamos passando por uma situação semelhante a anterior, porém, se nos detivermos a investigar, veremos que o que se passou é que estamos chegando a um ponto imediatamente acima da situação anterior. Ocorre que estivemos caminhando para frente e acima, em espiral ascendente, ficando cada vez a um nível um pouco mais alto, segundo damos a volta na espiral. Esta Lei da vida deveria ocasionar-nos grande prazer, pois, para além das sombras que a morte de nossos entes queridos deixa, brilha a feliz promessa de nos reunirmos com ele em uma radiante “manhã”. Não nos abandonaram, embora se encontrem ausentes fisicamente; a tão temida velhice se despoja de suas vestes de luto e se cobre com um manto branco e brilhante. Percebemos, então, que cada passo que damos para os “setenta anos”, simplesmente representa progresso. Quanto mais depressa entreguemos nosso corpo a terra mais jovens seremos. Os amigos se conhecem e logo partem, e nos parece que houve uma separação; sem dúvida, se em realidade temos os mesmos ideais e propósitos, se temos em comum as mesmas ambições, voltaremos a nos encontrar em vidas futuras. Cada vez que a espiral dá uma volta, aqueles a quem quisemos bem virão a nossas vidas novamente.
Esta Lei de evolução é aplicável tanto às nações como a indivíduos. Cada pessoa é incluída no movimento envolvente de vida da sua nação, assim como no de toda humanidade e no seu próprio círculo de evolução; isso nos explica o porquê podemos tomar parte no trabalho do progresso da criação. Até o ponto em que desenvolvemos e libertemos nossos grandes poderes espirituais e permitamos que a Luz Divina interna nos irradie e reflita em nossos pensamentos e ações, e estivermos capacitados para podermos cooperar na evolução de cada criatura ou coisa existente. O todo deve ser afetado pela ação de cada unidade individual. Segundo as palavras de Cristo: “E Eu, se for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo” (Jo 12:32).
Que bem amado pelo Criador deve ser o ser humano para que tivesse dotado de tão estupendos e divinos poderes!
Não devemos menosprezar nossas responsabilidades, pois estas são também muito grandes.
Este movimento de vida para frente foi descrito como “uma ampla faixa composta das sete cores do arco-íris, cada cor com sua correspondente vibração e sua própria expressão de vida, sem dúvida, envolto todo ao redor do candente coração de uma grande espiral”. Podemos ver que esta ampla faixa se compõe de muitas unidades e de unidades dentro de unidades, ocupando cada uma o seu lugar particular na fuga do tempo através do arco da Eternidade.
A cada volta que a Roda da Vida dá, os Seres Superiores escolhem os seus mensageiros entre aqueles mortais que já tenham dado certos passos para desenvolver seus poderes divinos e que, em consequência, tenham desenvolvido qualidades necessárias para resistir as fortes experiências que terão que passar na última volta de sua espiral. Portanto, não nos desalentemos, e pensemos que não poderemos suportar as provas que chegam.
Talvez tenhamos sido considerados merecedores desta suprema prova, a qual se for passada com êxito, poderá chegar a significar que daí para frente teremos de viver uma vida muito mais ampla e intensa e de maiores oportunidades para servir a humanidade. O verdadeiro e duradouro prazer está em servir e não em receber.
Nos tem sido perguntado muitas vezes: “como saber quando deverei crer nas lições e nas mensagens que recebo?” Para esta pergunta só há uma resposta que é: “Não é necessário que o saibamos”. A própria vida é nossa melhor mestra e não podemos escapar ao efeito das grandes leis, as quais nos trazem as experiências que necessitamos e não nos dão nada que não hajamos merecido. Estas experiências, às vezes, nos parecem cruéis e nos acovardamos ante sua violenta investida, e em meio a nossa agonia também imploramos: “Oh meu Pai, se for possível, afasta de mim esse cálice”. Em momentos de grande prova afastemo-nos de nosso eu externo com todas as suas debilidades mortais e volvamos a vista para o Eu interno, que é a fonte de Serenidade e Força. Como por um milagre sentiremos, então, que nos invade uma grande sensação de Força, que de uma maneira ou de outra nos ajuda a passar a tormenta e nos leva ao porto da Paz.
Recordemos também que estas leis não foram criadas para castigarmos. Deus é Amor e somente o Amor é expressado através de Suas Leis. O que parece ser um castigo é somente um corretivo. Evitaremos muitos sofrimentos desnecessários no futuro se estivéssemos dispostos a aprender as lições à medida que se nos apresentem.
Somos Uno com a grande corrente de Força da Vida divina que constituem a Espiral de toda a Evolução. Demos graças pela grande corrente de compreensão e iluminação que a humanidade esta recebendo. Contribuamos com nossa parte de glória a este benéfico fluxo, esforçando-nos por estabelecer em nossas vidas a ordem e a harmonia. Uma vez realizado isto, não resta a menor sombra de dúvida: nossa vida real e nossos sonhos poderão se correlacionar, porque estaremos vivendo então a bela realidade de nossos sonhos.
(Revista Serviço Rosacruz – 05/81 – Fraternidade Rosacruz – SP)
A Importância da Importância: nada muda quando somente os resultados são modificados
O que parece um jogo banal de palavras pode encerrar um significado imenso: nada é mais importante, talvez, do que saber distinguir o que é importante. Não se trata de um calembur (calemburgo – em francês: calembourg – é um jogo de palavras, um trocadilho que, sendo diferentes na significação, são semelhantes no som, dando lugar a equívocos), mas de uma extraordinária realidade que se confirma a cada momento. A maioria das pessoas encontram dificuldades em precisar as questões fundamentais, e na dúvida acaba optando pelo fútil e pelo acessório. Alguns daqueles problemas hoje considerados importantes são, de fato, mera consequência de outros – esses, sim, básicos – que, resolvidos, acabariam por sanar, como resultado, todos os outros. A crise de energia, a distribuição da riqueza, a desumanização do ser humano pela tecnologia e pela competição, a produção de alimentos no mundo, a difícil convivência entre as humanos nos grandes centros urbanos são esses as problemas mais importantes com que o ser humano se defronta?
Essas dificuldades não surgiram sozinhas, mas resultaram de um desenvolvimento complexo, uma espessa malha de causas e efeitos que começou no ser humano, passa por ele e a ele continuará ligadas até um ponto impreciso no futuro. O ser humano, por razões que merecem ser examinadas, tornou incrivelmente complicado a vida comunal. Seus receios, seus desejos e sua necessidade frenética de segurança teceram a malha fantástica que algum dia terá de ser desenredada para que o ser humano reencontre o que, de certo modo, é seu por direito: a tranquilidade, o amor, o trabalho feliz, a justiça. A trama não surgiu sozinha; foi criada por todos e ninguém está alheio a essa responsabilidade. O mundo não se encontra em crise há apenas alguns anos. É verdade que a situação agora está aguda como nunca, mas o problema é antigo. A história do ser humano, pelo menos nos últimos 30 séculos, tem sido uma sucessão de incompreensões, brutalidades e egoísmos de todos as matizes e gêneros. As guerras cruéis, os tratados hipócritas, os crimes hediondos cometidos em nome da felicidade humana e da justiça social desmascaram os melhores propósitos de líderes e estadistas, que se colocam, como todos nós, separados do fulcro da violência e da injustiça, como se não tivessem em seu espírito aquela mesma matéria prima que produz a morte, os ferimentos, a indiferença diante da dor e a ambição de chegar ao poder e de se manter ali.
A crise do petróleo, a distribuição da riqueza, a robotização do ser humano pela tecnologia, a irresponsabilidade na produção e na distribuição de alimentos no mundo, tudo começa, afinal, na maneira como pensamos o mundo, isto é, no modo como nos situamos na vida. Somos um núcleo solidamente instalado, cada um de nós, e em nosso redor o universo gravita. Tudo converge e parte desse centro, comandado pelo que julgamos ser a consciência.
Pela sua peculiar estrutura, o “eu” vive em torno de si mesmo, concentrado nos seus pequenos interesses, que, às vezes, confunde com os interesses do mundo. Esse núcleo tem vagas ideias a respeito de si próprio e, nas células onde vive, arquiva uma bagagem variável de dados e experiências que usa em função dos seus impulsos, invariavelmente egocêntricos. O “eu” é um punhado de condicionamentos, um computador sofisticado que se alimenta a si mesmo conduzido pelo impulso de preservação e pelo desejo de sobrepor-se a tudo mais. Esse centro – que não é a Mente no seu todo – criou o mundo que conhecemos, esse mundo que está, cada dia de modo mais perceptível, em plena crise.
Em todos os problemas que os seres humanos elegeram como prioritários, mas que são decorrentes de outros, fundamentais, há o dualismo típico da Mente conturbada. Na conflagração do petróleo está, de um lado, o consumismo neurótico do Ocidente, e, de outro, o escândalo de uma chantagem mundial feita com pretextos nobres e um a base religiosa pouco convincente. No caso da distribuição das riquezas existe também a alternativa maniqueísta, opondo a insensibilidade dos que muito possuem a exploração política dos que fazem da justiça social uma escada para sua verdadeira meta, o Poder. As dificuldades com a tecnologia que coisifica o ser humano são produto evidente da imaturidade desse mesmo ser humano, que só pensa nos resultados e não levam em consideração os meios. Nos exemplos todos é possível encontrar questões realmente importantes, e elas estão centradas na Mente humana, não nas dificuldades que essa Mente produziu no mundo exterior com seu egoísmo e sua vulgaridade.
Nada é mais importante, então, do que saber distinguir o que é importante. As tentativas de resolução que partem apenas da modificação dos efeitos são inúteis. Nada muda quando somente os resultados são modificados. As crises políticas, econômicas, militares, religiosas, industriais e administrativas são meros efeitos. Decretos, decisões, revoluções, medidas drásticas são igualmente inócuos enquanto cuidarem dessas situações “mortas”, praticamente já acabadas que são os resultados. Seria o mesmo que eliminar a febre sem procurar a causa, ou afastar a fumaça sem apagar o fogo. O noticiário impresso e falado que dá conta do que se passa no mundo todos os dias, e que pode ser um aprendizado diário inestimável, se for visto apenas como a crônica dos grandes problemas que afligem a humanidade, pode parecer vazio e cansativo.
Por trás das imensas questões que fazem tremer o Planeta, hoje mais do que nunca, está o espírito, a Mente do ser humano; também hoje mais do que nunca doente, prisioneira a própria ignorância.
(Revista Rosacruz – 12/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Relação da Sabedoria com o Conhecimento e o Amor
Como fator de relação com a Sabedoria, seria errôneo menosprezar o conhecimento, tal a sua importância em nossa vida, mesmo porque o sistema educacional obriga-nos adquiri-lo.
Dada essa circunstância, Max Heindel aponta para uma complementação, quando diz: “Tão seguramente como o pensamento existiu antes do cérebro e o construiu e ainda está construindo para sua expressão; tão seguramente como a Mente está abrindo caminho, pela força de sua audácia, arrancando segredos da natureza, com a mesma segurança o coração encontrará a forma de romper suas cadeias satisfazendo seus anelos agora impedido pelo cérebro dominante. Porém, algum dia dar-se-á o aumento de sua força e lhe será possível remover as barras de sua prisão, para converter-se em um maior poder do que a Mente”.
Esse será o momento em que os Ensinamentos Rosacruzes virão em auxílio daqueles intelectualmente inclinados, atraídos pelo desenvolvimento do poder cerebral para conduzi-los através do raciocínio ocultista ao desenvolvimento místico cristão do coração.
O conhecimento é poder. O conhecimento em si mesmo não é nem bom nem mau, já que poderá ser usado com um ou outro propósito, o que é demonstrável na ação do gênio, cuja tendência poderá ser boa ou má. O indivíduo de guerra, tal como Napoleão, poderá ser cruel e destruidor, espezinhando sentimentos, porém, um governante sábio é tão bom de coração como poderoso intelectualmente, o que dá margem para realizar uma ação equilibrada permitindo-lhe promover o que é de melhor para seu povo. O conhecimento que se desenvolve ao longo ou em fases ocultas ou religiosas apenas, não é sabedoria, tal como disse São Paulo na 1ª Epístola aos Coríntios – Cap. 13: “Se compreendêssemos todos os mistérios e toda ciência…e não tivéssemos Amor, nada seríamos”.
Como não há contradição na natureza, o Coração e a Mente devem ser capazes de se unir, uma vez que “a Mente auxiliada pela intuição do Coração poderá sondar mais profundamente os mistérios do ser, o que não seria possível se cada um agisse separadamente. O Coração, unindo-se com a Mente, não poderá extraviar-se” – (Livro Conceito Rosacruz do Cosmos). A natureza do Coração – o Amor – sente que há algo mais elevado do que apenas a Mente poderia captar. O Coração pode enveredar-se nas profundas verdades desconhecidas.
Através da nossa literatura sabemos que a Filosofia significa “Amor e Sabedoria”. A Sabedoria é o Segundo Aspecto do Deus Trino – o Principio Crístico – a meta da Humanidade, que será alcançada quando nosso conhecimento tenha se desposado com o amor. Então teremos Sabedoria, uma expressão do Espírito de Cristo.
Max Heindel afirma no livro Ensinamentos de um Iniciado: “Devemos ter muito cuidado em discernir adequadamente este ponto, pois podemos ter discernimento entre o que é conveniente para o desenvolvimento de um determinado fim e o que poderá obstaculizá-lo, já que podemos fazer uma má opção com olhos a uma realização futura, o que não demonstra sabedoria, evidentemente. O conhecimento, a prudência, a discrição e o discernimento nascem na Mente, armadilhas do mal, as quais Cristo na Oração Dominical nos ensinou, como orando, nos livrássemos delas. Somente quando temperadas pela faculdade do Amor que nasce do coração poderão mesclar-se convertendo em Sabedoria”.
Se substituíssemos a palavra Sabedoria pela palavra Amor na 1ª Epístola aos Coríntios, cap. 13, compreenderíamos que esta grande faculdade é a que deveríamos ardentemente desejar.
(Revista Serviço Rosacruz – 04/81 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Aperfeiçoamento: as tarefas que Deus nos dá cada dia como oportunidade
O aperfeiçoamento do ser humano é algo sagrado que se ressente à profanação da palavra, porque deseja ser realizado no silêncio do próprio coração do indivíduo. O aperfeiçoamento não é algo que se possa receber de graça, e tampouco dar a outrem, pois, é uma realidade própria a cada um de nós. O aperfeiçoamento é um acontecimento íntimo que merece ser guardado na reserva das atividades humanas, como base propulsora de um trabalho cada vez maior. O aperfeiçoamento de cada um de nós tem para cada um, também, o seu jogo particular de ação, a sua forma própria de projeção, a sua atividade característica. Assim, o que um descobre no seu caminho, nem sempre será oportuno para seu irmão. Embora o objetivo seja o mesmo numa escola de aperfeiçoamento, cada um só pode seguir a sua linha de orientação interna e os reclamos de sua própria natureza íntima. Por isso o valor real do progresso de cada pessoa, só a ela se expressa com real intensidade, só a ela se expressa com interesse máximo e com o máximo aproveitamento que deve ter.
“Seleções do Readers Digest” publicou há algum tempo, uma frase, que, apesar do seu aspecto humorístico, encerra uma grande lição: “De nada nos adianta falarmos aos outros a respeito de nossos filhos. Ou eles têm filhos ou não têm”. O mesmo ensinamento se ajusta aos nossos defeitos e virtudes, que são os filhos de nossa alma. Os filhos que recebemos pela carne procuramos educar o melhor possível, sentindo-nos consternados quando erram, e regozijando-nos com as suas vitórias. Todos os pais normais sentem o mesmo pelos seus filhos, de sorte que, as gracinhas dos filhos alheios podem distrair-nos por um momento, porém, jamais hão de ter, para nós, o valor que costumam ter para os pais da criança. O mesmo acontece no que se refere aos outros em relação aos nossos filhos. E isso quando não chega a despertar inveja em pobres corações mesquinhos que, dando-se o direito de analisar, veem na alegria de uma mãe ou de um pai “coruja”, apenas sentimentos de vaidade e de orgulho, o que em parte não deixa de ser verdade; embora as apreciações paternais sejam revestidas de sincero amor, não deixa de ser um amor egoísta. Por isso, encarando o fato com toda a franqueza, observamos que, ao revelar fracassos ou virtudes de nossos filhos, podemos estar dando oportunidade aos invejosos de nos condenarem ou até de se regozijarem com as nossas lutas familiares, ou ainda – o que é mais importante – podemos dar oportunidade a nós mesmos de nos tornarmos cega a nossa própria vaidade. Porque, em geral, ninguém – mesmo os menos favorecidos pela visão certa da verdade – ninguém nos joga, no rosto, coisas que de certa maneira não merecemos. O ditado é bem certo.
“Onde há fumaça, há sempre fogo”. Algo muito parecido com esse processo dá-se com o aperfeiçoamento íntimo. Por isso chegamos à conclusão que viveremos melhor e mais certo se procurarmos viver sempre no meio termo da naturalidade, da objetividade. Assim, poderemos ver também nos defeitos dos outros, exemplos de atitudes que será útil evitarem; encarando com naturalidade o fato humano de existir aquele defeito.
O ser humano objetivo não é frio, é ponderado; não é indiferente, é consciencioso. Ele sabe que a naturalidade é uma força que vem de dentro de si mesmo, resultante de seu próprio equilíbrio de ideias, de pensamentos, de aspirações, de seu desejo ativo de compreender a vida, a humanidade e a si mesmo. Ele sabe que já não há razão para perturbar-se com suas próprias deficiências; não encontra mais razão para julgar-se o último dos seres humanos. Ele sabe que suas vitórias não são suas, mas fazem parte da Criação, da Evolução do Todo. Sente-se tornando parte no mundo, fazendo parte da criação, e respira o ozônio da natureza, cada manhã com real prazer.
Pede perdão a Deus pelo que não pode realizar a contento da Evolução, e agradece as oportunidades que teve de poder ser bom. Respira a energia de Deus toda a manhã, e procura viver em Deus, pisando seguramente a terra firme. Tropeça, cai, levanta, prossegue, sabendo que pode cair outra vez, e procurando sempre estar cada vez mais preparado para as quedas.
Sabe que não existe um fim previsto para o seu aperfeiçoamento de cada dia, não existe uma determinação rigorosa previamente estipulada, pois cada coisa se realiza uma após outra, como um eterno fluir, e que somente dele depende aproveitar as suas oportunidades.
Por isso já não faz planos, não promete nada a si mesmo. Apenas põe a sua vontade, cada manhã, na vontade de Deus, procurando restaurar as energias gastas com oportunidades perdidas, no fluxo da harmonia divina que a tudo interpenetra. Observa que viver é um eterno fluir, e que a vigilância de cada dia, em pouco lhe dará como prêmio a conquista permanente, incorporando-se no seu todo como realização. Ele também sofre, mas sofre não por si mesmo, não pelo que os outros lhe possam fazer em ofensas e traições, mas sofre pelo que aquela ofensa encerra em desarmonia no Todo.
Sofre pelo Todo e não por si mesmo, porque sua maneira objetiva de ver as coisas, já não comporta apreciações subjetivas do sofrimento. E, quando seus olhos já podem observar esse panorama da vida e das criaturas, mais fácil se lhe aparece o caminho, e pode sentir, em tudo, a simplicidade do mundo de Deus, porém, não lhe escapa também a responsabilidade, quase dolorosa, de si mesmo para com os outros. Porque então, ele já não pensa só em si mesmo, nas suas coisas materiais ou espirituais, mas sente também necessidade de pensar nas coisas dos outros, de tornar a vida de cada um que com ele priva, melhor, mais fácil e mais digna. E isso tudo ele realiza sem planejamento, objetivamente, pondo mesmo de lado suas próprias lutas, como acontecimentos naturais da própria Vida. Esse ser humano objetivo já vive realmente em cada um de nós, e se mantivermos uma linha de conduta baseada em elevados ideais, se nos esforçamos numa autodisciplina rigorosa em cada dia que passa, perceberemos que esse ser humano objetivo vai se firmando em cada um dos nossos esforços, ajudando-nos a nos tornarmos cada dia mais fortes, até ajustar-se a nós como uma conquista humanizada. E essa conquista, começamos a notar mais viva quando cada esforço realizado vai deixando de ser esforço, transformando-se em até natural, e a vigilância permanente passe a transmutar-se num fluir de vida, num acionar natural do fluxo divino em nossas realizações e empreendimentos.
Por isso, lutemos pela nossa libertação na objetividade, procurando realizar nossas tarefas subjetivas com veneração à verdade e ao conhecimento, tarefas que Deus nos dá cada dia como oportunidade de realizarmos o Serviço na obra da Evolução.
“Que as Rosas Floresçam em vossa cruz”
(Revista Serviço Rosacruz – 03/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
A vida é inexpressiva e vazia se vivemos somente para nós mesmos: comer, divertir, trabalhar, dormir. A vida perde o seu propósito se vivida introvertidamente: segregar-se, não participar. A vida não tem razão de ser quando usufruída egocêntrica e egoisticamente – eu, meu; só eu, só meu.
Viver para os outros, entretanto, adiciona à existência novo sabor e nova dimensão, dando-lhe, ainda por acréscimo, o mais nobre e sublime significado. Confere-lhe positivamente o seu verdadeiro sentido.
Criar e educar filhos (nossos ou dos outros); alegrar a casa; ajudar os vizinhos; servir a desconhecidos que necessitem de ajuda; colaborar para a harmonia no meio ambiente; revigorar o relacionamento com os amigos; exteriorizar-se, “despejar-se para fora”, ou viver muito mais para os outros do que para si mesmo, este o real significado da existência humana. Por um viver tal o ser humano preenche a sua finalidade na Escola da Vida no que tange a experiências, pois está cumprindo a síntese e essência da Lei dada pelo Grande Espírito Solar: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Por tal viver ele cresce animicamente e progride na senda evolutiva.
Quem não vive para os outros está fora dos planos da Criação. Acha-se excluído da harmonia universal. Quem não colabora com o mundo está alienado dele. Quem não ajuda ao seu semelhante encontra-se afastado do sistema de leis suprafísicas, que rege o progresso humano. Para quem o Pai trabalha até hoje – indagamos nós? O Filho também trabalha até hoje – como todo ocultista sabe permanentemente desde o Sol e parte do ano de dentro da Terra. E por quem trabalha o Filho até hoje? O Espírito Santo igualmente trabalha até hoje na geração das espécies a partir das Luas. Para quem Ele trabalha? E para quem trabalham os Senhores da Forma, Senhores da Mente, Arcanjos, Anjos e outras Hierarquias, até hoje?
O Iniciado de Tarso, Paulo da Cilicia, Saulo para os judeus, aos cristãos da Itália, certa vez escreveu: “Sabemos que todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8: 28). Observe o leitor amigo: “todas as coisas colaboram para o bem”. Aquele Irmão disse: Todas…colaboram. Quem tem dúvidas acerca da amorosa mecânica da cooperação universal pela qual se desenrola o progresso em nosso Sistema Solar também? Cremos que poucos nos dias atuais.
Ninguém se iluda, pois; no universo só cresce, só se desenvolve, quem ajuda, quem colabora, quem serve aos demais, consciente ou inconsciente, mas sempre amorosa e desinteressadamente. Porque o universo inteiro é colaboração. É colaboração para o Bem; os Astros ajudam-se mutuamente e cada um de si ajuda o Sol; uma estrela ajuda outra estrela; um sistema planetário auxilia outro sistema planetário; uma galáxia auxilia outra galáxia. Tudo dentro da harmonia universal da Unidade Indivisível como se fora um só corpo inteligente e amoroso. Como o nosso corpo repleto de saúde. Cá por baixo no mundo da forma do globo terrestre uma onda de vida ajuda outra onda de vida; e os mais avançados são sempre os que mais ajudaram os que mais ajudam ainda. Exemplos? Os Irmãos Maiores, na onda de vida humana; os animais domésticos, na onda de vida animal; as árvores frutíferas e plantas medicinais e ornamentais, na onda de vida vegetal; os metais nobres e pedras preciosas, na onda de vida mineral.
Temos as mais fortes razões para concluir, portanto, que em todos os mundos e em todas as esferas, o que mais colabora para o bem estar e progresso dos demais – pertença ou não a sua evolução – sempre se acha um ou mais passos a frente dos seus companheiros de jornada em sua própria onda de vida. Assim, os seres (Arcanjos, Anjos, humanos, etc.), que se encontram na vanguarda da evolução são aqueles que mais deram de si aos outros no passado e mais continuam a dar no presente, consoante a Lei de “Dar e Receber”, que funciona em tudo e a todos atinge. A “Lei da Reciprocidade”. “A Lei do Amor”.
Pensamos finalmente ser esse avanço estímulo bastante a qualquer pessoa para “Entrar na Onda” da colaboração, mas estímulo em especial aos sinceros aspirantes rosacruzes que atualmente se esforçam no Caminho, com a Mente impregnada das inspiradas palavras do iluminado Mensageiro:
“O Serviço amoroso, altruísta e desinteressado é o caminho mais curto, mais alegre e mais agradável que conduz a Deus”.
(Revista Serviço Rosacruz – 04/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
O porquê o Coração Tem Razões que a Própria Razão Desconhece
Segundo o dito popular, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Essa expressão encontra sua origem no fato de algumas pessoas agirem intuitivamente, de maneira até a contrariar as diretrizes do raciocínio lógico. Essa maneira pouco convencional de tomar decisões ou reagir a determinadas circunstâncias, causa perplexidade e estranheza a muitos.
De um modo geral, o ser humano é condicionado, desde tenra idade, a viver consoante regras de um raciocínio linear. Quando alguém foge a esse padrão de conduta, não raro recebe a pecha de excêntrico, quando não de paranormal.
A luz dos ensinamentos rosacruzes encontramos explicações para esse aparente “fenômeno”. Em primeiro lugar é necessário analisar esses chamados “impulsos intuitivos”, verificando qual a sua natureza. Nem tudo é intuição. Muitas vezes trata-se de meros impulsos emocionais ou baixo psiquismo, com resultados até funestos. Porém, todo ato motivado por “intuição pura” raramente deixa de produzir resultados benéficos.
A intuição é uma faculdade latente em todos os seres humanos, entretanto, manifesta em poucos. Sua expressão, em maior escala, será uma das características da Idade Aquariana. Vejamos, agora, qual a relação entre o coração e certas manifestações intuitivas. O sangue, ao passar pelo coração, ciclo após ciclo, durante a vida, grava todas as imagens no Átomo-semente. Elabora um arquivo fidelíssimo, que na existência após a morte se imprimirá indelevelmente na alma. O coração encontra-se em estreito e permanente contato com o Espírito de Vida, o Espírito do Amor, fonte do sentimento de unidade. Dessa forma torna-se o centro do amor altruísta.
Depois das imagens passarem ao Mundo do Espírito de Vida, no qual se encontra a verdadeira Memória da Natureza, não retornam através dos lentos sentidos físicos, mas por meio do quarto éter, o Éter Refletor, contido no oxigênio que respiramos.
O Espírito de Vida percebe muito mais nitidamente no seu Mundo do que nos planos mais densos da natureza. Na elevada região, que lhe é própria, vive em íntima relação com a Sabedoria Cósmica. Isto lhe faculta, em qualquer circunstância, sabendo de imediato o que há de fazer, a enviar mensagens de orientação e iniciativa ao coração. Este logo a retransmite ao cérebro, por meio do nervo pneumogástrico. As chamadas “primeiras impressões” formam-se dessa maneira. Nada mais são que impulsos intuitivos emanados diretamente da fonte da Sabedoria e do Amor Cósmico.
É um processo rapidíssimo. O coração o elabora antes da razão poder considerar a situação. Não sendo assim, predominará o raciocínio lógico, válido até certo ponto, porquanto suas limitações esbarram no transcendente.
Quando a Mente humana esgota seus recursos para resolver determinado problema só restará uma saída: a intuição. E mesmo assim, poucos se tornaram sensíveis ao seu processo.
Embora não se constituindo em regra geral é válido afirmar que nas pessoas mais devotas as mensagens intuitivas se fazem mais presentes. Eis uma das razões porque o Método Rosacruz de Desenvolvimento procura estabelecer um equilíbrio entre o intelecto e o coração.
O que o ser humano pensa em seu coração é certo, porque assim ele é. Não é raro ouvirmos esta expressão: “as pessoas espiritualizadas têm um coração inteligente”. Max Heindel é quem nos diz no Conceito Rosacruz do Cosmos: “Se pudéssemos agir segundo os impulsos do coração, o primeiro pensamento, a Fraternidade Universal, seria realizado agora mesmo”.
(Revista Serviço Rosacruz – 09/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Unicidade: vencendo todo o sentimento de oposição entre o mundo – ou “os outros” – e você próprio
O ser humano não seria um indivíduo se, em determinada altura de sua jornada evolucional, ele não sentisse ser ele próprio, um indivíduo separado dos outros indivíduos. Porém, ele não será um ser humano, no mais alto sentido da palavra, até que aprenda a transformar esta sensação de isolamento numa nova sensação de unicidade com o Universo como um Todo.
Ângelus Silésius, um místico cujos comentários sobre o nascimento de Cristo dentro de nós devem ser familiares a todos os estudantes dos escritos de Max Heindel e sendo um ser dotado de percepção sensorial, ensinou ao longo destas concepções que o ser humano é uma entidade no meio de outras entidades e seus órgãos sensoriais trazem-lhe informações de que existem, no tempo e no espaço, coisas que parecem estar fora dele. Todavia, quando o Espírito fala no ser humano não existem mais “dentro” ou “fora” e “antes” ou “depois”. Espaço, tempo e separatividade dissipam-se na contemplação do que Silésius chamava de “O Todo Espiritual”.
É neste ponto, disse Silésius, que “o mundo não te restringe; tu próprio és o mundo que te limita… tão fortemente em fronteiras de cativeiro. O ser humano não atinge a perfeita bem aventurança até que a Unidade tenha absorvido a diversidade ou o não eu”.
O pináculo do ser é atingido quando uma pessoa aprende a considerar-se mais do que o seu individual “Eu” e vence todo o sentimento de oposição entre o mundo – ou “os outros” – e ele próprio. Então uma vida superior começa para ele. Ele aniquilou tudo que dentro dele é arbitrário, individualista e que procura o interesse próprio. Ele sente, desde então, a irresistível obrigação de atuar duma forma que seja necessária para o todo. O seu senso de responsabilidade moral cresce muito além do que tinha sido no seu estado de separatividade. O ser humano integral, agora uno com Deus e o Cosmos, faz tudo para o bem do Todo, porque ele sabe que fazer de outro modo, seria retirar a sua contribuição do bem estar universal.
(Revista Serviço Rosacruz – 05/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
Autoconhecimento: a única maneira de compreendemos o mundo que nos rodeia
O princípio do autoconhecimento anuncia a chegada do princípio do auto despertar. Místicos como Meister Eckart (N.R.: frade dominicano, reconhecido por sua obra como teólogo e filósofo e por seu misticismo. Ele é considerado como um dos grandes símbolos do espírito intelectual da idade média) e Angelus Silesius (N.R.: Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667), poeta, Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista Germânico) e filósofos como Platão e Goethe examinaram com todo o cuidado o problema do autoconhecimento. De forma geral concluíram que um aumento de cuidados e autoconhecimento é paralelo com um aumento da compreensão da unicidade da vida e da unidade de tudo. Quanto mais claramente nos conhecemos a nos próprios, mais claramente compreendemos o mundo que nos rodeia e vice- versa.
O mundo exterior existe para nós, na medida em que se comunica com a nossa consciência ou, mais exatamente, na medida em que nossa consciência esteja preparada para compreendê-lo. Exatamente como o acesso a todos os livros do mundo, não será de nenhuma valia, se não soubermos lê-los, assim, também, não poderemos compreender a mensagem de algo externo a nós, a menos que tenhamos desenvolvido dentro de nós a habilidade para compreender a sua “linguagem”.
Uma vez que tenhamos aprendido a “linguagem” de qualquer coisa ou faceta externa que desejamos compreender, estaremos aptos a recebê-la e absorvê-la dentro de nós. Então, se realmente estamos “vigilantes e sensíveis”, ela pode tornar-se, literalmente, uma parte de nós. O conhecimento, então, não provém tanto das coisas observadas, como do observador. As cores existem em tudo que vemos, mas não podem transmitir ao olho nada que nele não exista. Ao contrário, o olho é que deve reconhecer qual a cor observada.
(Revista Serviço Rosacruz 05/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)
No Templo de Apollo em Delfos estão gravadas as seguintes palavras: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.
“Homem, conhece-te a ti mesmo” é um conselho transmitido através das idades para todos os que procuram, seriamente, a iluminação espiritual.
As verdades mais elevadas da iluminação espiritual só serão nossa posse quando nos conhecermos a nos próprios, muito mais profundamente do que possamos imaginar agora. Tal como lemos no Conceito: “Quando o ser humano na sua involução progrediu até ao ponto de precisar dum parceiro para propósitos de geração, ele perdeu o conhecimento de si próprio; por conseguinte a sua consciência tornou-se cada vez mais voltada para as coisas exteriores e ele perdeu sua percepção interna. Isto não poderá ser completamente recuperado até que ele tenha passado ao estágio onde não haverá mais necessidade de um parceiro para propósito de geração e tenha atingido um grau de desenvolvimento em que possa, novamente, utilizar toda a sua força criadora à vontade. Então, ele novamente conhecer-se-á a si próprio como quando estava no estágio idêntico ao reino vegetal que conhecemos, mas com a importante diferença de que usará sua faculdade criadora conscientemente e não será restringido a usá-la para fins de procriação, mas poderá criar tudo que quiser”.
Conhece-te a ti mesmo, então, significa muito mais do que meramente conhecermo-nos em termos de Mundo Físico. Na verdade, até mesmo esta forma de autoconhecimento não é fácil de obter. Quando iniciamos a prática do exercício de Retrospecção e, frequentemente, mesmo depois de estar executando-o por algum tempo, é dolorosamente óbvio quão pouco realmente nos conhecemos, mesmo em termos puramente materiais.
O autoconhecimento completo significa algo mais do que conhecer como vivemos nossa vida terrena e do que mostrar-nos nossas reações no contato com as outras pessoas e no cumprimento de nossos deveres. Significa, também, compreender nossas naturezas espirituais, nossas origens, nosso destino e as potencialidades divinas que a maioria da humanidade nem sonha que estejam latentes dentro de nós.
A familiaridade com os sete princípios herméticos que constituem a base dos ensinamentos da ciência oculta, desde o antigo Egito até aos nossos dias, é uma ajuda inestimável na obtenção do autoconhecimento.
O primeiro princípio hermético define a natureza própria do Universo, assim como de todas as coisas nele contidas; é o princípio do mentalismo: “O Todo (o Absoluto) é Espírito; o Universo é mental”. O Todo pode ser considerado como uma Mente vivente, infinita e universal, e nós, assim como os outros fenômenos do Universo, somos criações mentais do Todo. Assim é verdadeiro que no Todo “nós vivemos e nos movemos e temos o nosso ser”.
O segundo princípio é o da correspondência: “Assim como é em cima é em baixo; assim como é em baixo é em cima”. Sabendo isto, o ser humano pode raciocinar inteligentemente do conhecido para o desconhecido, incluindo, particularmente, as profundidades desconhecidas de si próprio.
O terceiro princípio há o princípio de vibração: “Nada repousa; tudo se move; tudo vibra”. Este princípio pode ser aplicado na obtenção do domínio dos fenômenos naturais de várias maneiras, nas palavras de um antigo escritor: “Aquele que entende o princípio da vibração, empunhou o cetro do poder”.
O quarto princípio, da polaridade, mantém que “Tudo é dual; tudo tem polos; em tudo existe o par de opostos que são idênticos em sua natureza, mas diferentes em grau; nos extremos encontram-se, portanto, todos os paradoxos podem ser reconciliados”. Neste princípio é baseada a faculdade da transmutação; e, o que é mais importante, a transmutação do mal em bem. A compreensão deste princípio tornará, também, a pessoa apta a mudar sua própria polaridade, se para isso quiser devotar tempo e esforço.
O quinto princípio, do ritmo, enuncia que “Tudo flui para fora e para dentro; o movimento pendular manifesta-se em todas as coisas; a medida da oscilação para a direita e a medida da oscilação para a esquerda”.
Todas as pessoas que se elevam a qualquer grau de domínio de si mesmo estão, pelo menos intuitivamente, a par deste princípio. Usando sua força de vontade para, em todas as coisas, ficarem em equilíbrio são capazes de neutralizar os efeitos do princípio do ritmo dentro deles próprios e, desse modo, desenvolver um grau de equilíbrio, essencial para o autocontrole.
O sexto princípio, o de Causa e Efeito, é um com o qual se tornam familiares todos os que fazem o retrospecto de suas atividades diárias.
“Toda a causa tem o seu efeito; todo o efeito tem a sua causa; há muitos planos de causação; nada escapa à Lei”.
A maioria das pessoas são arrastadas de dia para dia, obedecendo aos caprichos das circunstâncias, meio ambiente, desejos, lassidão ou as vontades mais fortes dos outros. Porém, à medida que nós vamos nos conhecendo melhor aprendemos até que grau nos deixamos manobrar por fatores externos. Então, podemos tomar providências para usar os princípios de Causa e Efeito, em nosso benefício, em vez de sermos simples joguetes ou peões no xadrez dos afazeres mundanos.
Finalmente o princípio do gênero enuncia que “Tudo tem seu princípio masculino e princípio feminino; o gênero manifesta-se em todos os níveis de desenvolvimento”. Nenhuma criação física, mental ou espiritual é possível sem este princípio. O princípio feminino encarrega-se do trabalho de gerar novos pensamentos, imaginação e conceitos. O principio masculino faz o trabalho da vontade, que ativa os pensamentos e imaginação. Idealmente, os princípios masculino e feminino agem de forma coordenada e harmoniosa um com o outro. Em muitas pessoas, todavia, a força de vontade é muito débil – ou, pelo contrário, age irrefletidamente, sem a preparação de pensamento apropriado – e a completa cooperação e coordenação entre os dois elementos é ainda uma coisa do futuro. Novamente, devemos recordar-nos que o autoconhecimento total e completo poderá ser atingido somente quando o Ego se desenvolver ao ponto de não mais precisar de parceiro para a geração e possa utilizar a totalidade de suas forças criadoras harmoniosamente coordenadas, segundo sua vontade.
(Revista Serviço Rosacruz – 05/80 – Fraternidade Rosacruz – SP)