Porque aprendemos a fumar e como deixamos tal hábito

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Porque aprendemos a fumar e como deixamos tal hábito

Porque aprendemos a fumar e como deixamos tal hábito

 

Tínhamos dezoito ou dezenove anos, quando começamos a fumar. E por quê? Pelos mesmos motivos que movem todos os adolescentes a adquiri esse hábito: imitação e vaidade.

Fazíamos nessa época o serviço militar e, como voluntários, éramos mais jovens do que os demais soldados, na sua maioria com vinte e um ou mais anos; por isso, sentíamos um certo complexo de inferioridade. Eles eram “mais” homens do que nós. Assim foi que, pega hoje um cigarro deste amigo, pega amanhã outro daquele, começamos a fumar. Fumar não é bem o termo; seria melhor dizer “queimar cigarros”, já que a fumaça não nos passava da boca, pois não tragávamos.

Cumprido o tempo de serviço, tivemos baixa, fomos trabalhar e residir na cidade de Santos, perto do mar. Lá, à vaidade se acrescentou o esnobismo — só fumávamos cigarros americanos e ingleses. Como o salário era pequeno e os cigarros estrangeiros eram, para o ano de 1920, caríssimos, pois custavam $ 2.500, o maço, nós os comprávamos nos botequins das redondezas do porto por $ 1.200. Juntava-se, assim, à vaidade e ao esnobismo, a emoção do perigo. Os cigarros comprados nos botequins entravam no país por contrabando. Marujos americanos e ingleses, na falta de dinheiro, trocavam-nos por cerveja, por preços vis, dando grandes lucros ao dono do botequim. Ser apanhado quando comprávamos nos fazia correr o risco de ser presos. Como isso era emocionante! E como os compradores se sentiam “grandes” com os olhares de admiração dos circunstantes, ao puxarem um maço de Camel ou uma lata de Wild Woobdine para oferecer um cigarro ao amigo ou metê-lo na piteira de bambu que acompanhava os Woobdines.

Dentro de pouco tempo começamos a tragar. As primeiras tragadas nos faziam ver “mosquitos” luminosos e provocavam tosse e náuseas. Mas, pouco a pouco, o organismo reagiu e estabeleceu-se a tolerância. No fumar propriamente não havia prazer. Mas como sentíamos prazer, ao discutir na rodinha de amigos um problema importante como, por exemplo, a resposta que havíamos dado à uma garota! Nós então parávamos e, frente à ansiedade de auditório por saber qual fora a resposta, sacávamos do bolso a caixa de fósforos e um maço de Lucky Strike que batíamos na caixa para, com um gesto de displicência, acender, produzir a baforada, tragá-la e, enfim e só então, dar a resposta em que as sílabas, escondidas, misturavam-se às baforadas azuis. Como aquilo nos tornava importantes! As frases mais vulgares adquiriam, assim, foros de sábios conceitos.

Depois, quando nos aborrecíamos porque o mundo não fora feito de encomenda para nós, segundo a nossa fórmula, acendíamos um cigarro e o aborrecimento se desfazia nas volutas da fumaça. A irritação, causada pela contrariedade, produzia um acúmulo de energia nervosa que desejávamos expandir, arrebentando o nariz de alguém que nos houvesse atrapalhado os planos. O ritual de fumar — tirar o maço do bolso, retirar o cigarro, tirar a caixa de fósforos, bater nela o tubinho de papel recheado de tabaco, riscar o fósforo, fechar as mãos em concha para proteger a chama, aspirar o ar através do cigarro para acendê-lo na labareda do fósforo, soltar a baforada — era feito de movimentos em que aquela energia represada se esvaía, destruindo-se desse modo a angústia.

Naquela época, porém, nada sabíamos disso e dizíamos apenas que o cigarro nos acalmava os nervos.

Então, quando tínhamos por volta de trinta e seis anos, começamos a nos interessar por psicanálise e filosofia. Principiamos a meditar sobre o porquê de nossas ações. Seriam elas inspiradas por algum motivo real e justo ou seriam mera questão de hábito?

Lemos, então, o livro de J. Ralph, Conhece-te pela Psicanálise, em que o autor conta que certos náufragos, na falta de fumo, fumaram, em seus cachimbos, fibras de cânhamo retiradas de cabos para atracação do navio.

Coincidiu essa leitura com a verificação de que, ao fumar no escuro para que ficássemos satisfeitos, era preciso que soprássemos a fumaça na brasa do cigarro a fim de vê-la. O prazer do fumar não vinha, pois, do sabor da fumaça e, sim, do “ritual”. No entanto, o fascínio de um ritual está no mistério. Desfeito o mistério, o encanto se dilui e desaparece. Foi o que nos sucedeu. O estudo da psicanálise, embora superficial, a tentativa do nosce te ipsum (conheça a ti mesmo), conquanto em grande parte infrutífera, puseram-nos em contato com a realidade da vida. Trocamos a lira de Apolo pela lanterna de Diógenes.

Conta-se que esse filósofo grego quebrou a cuia em que bebia água, ao ver uma menina bebê-la na concha das mãos. Desde que se podia beber na concha das mãos, a cuia era uma inútil complicação na vida.

Assim acontece com o fumante que encontrou a realidade, que se convenceu de que as coisas são como são e que de nada vale querermos que sejam como gostaríamos que fossem. Ele se livra da angústia sem precisar da “muleta” do cigarro. O ritual do fumo perde o encanto e a significação: torna-se uma coisa tola, absurda.

Por isso, hoje, quando vemos uma pessoa caminhando pelas ruas de ventre e cabeça erguidos, puxando as fumaças de um imenso charuto que traz, à guisa de chupeta, entalado nos lábios, ficamos penalizados. Pobre ser humano! É o complexo de inferioridade dele que o condiciona a andar pendurado num Havana fabricado na Bahia para estar seguro de sua importância no rol das coisas.

Quem se põe a meditar, diariamente, em como é tolo e ridículo o vício de fumar, está a meio caminho de abandonar o vício. Mas quem diz a si mesmo “no dia que eu quiser, deixarei de fumar”, provavelmente continuará fumando pela vida toda, pois essa afirmação é uma prova de que esteja realmente escravizado pelo vício e tenta se enganar por sentir-se envergonhado de ser escravo de um rolete de tabaco.

É uma desculpa que dá a si próprio para não ter que confessar a incapacidade de abandonar o vício.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de 03/70)

 

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