Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Por um Estudante – Fraternidade Rosacruz

porFraternidade Rosacruz de Campinas

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Por um Estudante – Fraternidade Rosacruz

Aqui temos uma história oculta sobre o relacionamento entre pessoas provocado justamente pelo destino e que as fazem aprenderem lições conjuntas que enriquecem a vida aqui e ajudam a evoluir espiritualmente nessa vida.

1. Para fazer download ou imprimir:

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo II – CONEXÕES DO DESTINO

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo III – PENSAMENTOS-FORMAS DISTORCIDOS

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo IV – SUPORTAR AS PROVAÇÕES COM NOBREZA CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO DA ALMA

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo V – A FILOSOFIA ROSACRUZ EXPLICA TODOS ESSES PROBLEMAS DA VIDA DE FORMA MUITO CLARA E SATISFATÓRIA

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo VI – COLOCANDO A PERSONALIDADE EM UM PEDESTAL INSTÁVEL

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo VII – HÁ MUITOS RETARDATÁRIOS

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo VIII – O FASCÍNIO DO FEITIÇO QUE AS FORÇAS DO MUNDO DO DESEJO TECEM

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo IX – MENTE TÃO DOMINANTE QUE NÃO DÁ AO CORAÇÃO A CHANCE DE FALAR

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo X – AJUDAR SOMENTE QUEM QUER SER AJUDADO

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo XI – É PRECISO UMA TEMPESTADE OU UMA CRISE PARA DESPERTAR UMA NATUREZA APÁTICA

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta – Capítulo XII – É NO PROFUNDO SILÊNCIO DA ALMA QUE A MENTE DIVINA FALA

2. Para estudar no próprio site:

Relações Provocadas pelo Destino entre Pessoas: Uma História Oculta

Por um Estudante

Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil

Avenida Francisco Glicério, 1326 – conj. 82

Centro – 13012-100 – Campinas – SP – Brasil

Traduzido, Compilado e Revisado de acordo com:

Links of Destiny

1ª Edição em Inglês, 1916 a 1917, in The Rays from The Rose Cross – The Rosicrucian Fellowship

pelos Irmãos e pelas Irmãs da Fraternidade Rosacruz – Centro Rosacruz de Campinas – SP – Brasil

www.fraternidaderosacruz.com

contato@fraternidaderosacruz.com

fraternidade@fraternidaderosacruz.com

CAPÍTULO I – ESCOLA DE TIJOLOS VERMELHOS

Os tons amarelados de um pôr do sol dourado iluminavam o céu do oeste e banhavam, em um esplendor momentâneo, a modesta rua da vila. As pequenas e humildes moradias resplandeciam na glória da transformação, enquanto o suave brilho âmbar repousava sobre elas. Ao passar, lançou um raio trêmulo de luz sobre as janelas da velha escola de tijolos vermelhos, na estrada principal — e então desapareceu lentamente sobre as colinas cobertas de faias e bordos que coroavam o horizonte.

O desgastado estrado de madeira captou o último lampejo de esplendor, e Ralph Remington, sentado à sua mesa, ergueu os olhos cansados para encontrar o brilho dourado. Um halo de luz repousava sobre sua cabeça, trazendo certa paz ao seu espírito solitário. Ao ouvir a música crepuscular da natureza, em seu fim pianíssimo [muito suave], ele quase se esqueceu dos fardos que carregava e que, poucos momentos antes, pareciam tão pesados.

O bálsamo aromático dos pinheiros entrava pelas janelas abertas, misturando-se suavemente ao perfume da rosa silvestre e da roseira-brava. Com o murmúrio do riacho límpido, que corria sobre as pedras brancas e lisas, vinham aromas deliciosos do vale dos fetos, onde a Natureza revelava alguns de seus segredos maravilhosos a quem quisesse ouvir.

O mestre-escola inspirou longas e profundas respirações do ar perfumado e sentiu-se momentaneamente revigorado. Então voltou-se novamente para os papéis sobre sua mesa e concentrou a consciência nos problemas de seus alunos. Continuou trabalhando, indiferente ao que o cercava, enquanto o longo dia de verão chegava ao fim. As aves deixaram de esvoaçar e o laborioso zumbido das abelhas se dissolveu num indistinto e sonolento murmúrio.

As inúmeras formas de vida trêmula da floresta cessaram instintivamente sua agitação inquieta. A paz pairava sobre a paisagem: o dia chegara ao fim. Formas estranhas e fantásticas surgiam gradualmente do crepúsculo que se adensava, acumulando-se nos cantos e entre os rudes bancos de madeira.

Mesmo assim, Ralph Remington permanecia sentado à sua mesa, de cabeça baixa, aparentemente alheio à escuridão que se adensava. Em retrospecção, revivia os anos passados — exteriormente sereno, discreto, convencional, mas, por dentro, movendo-se entre tempestades e conflitos até o desfecho. Suas provações começavam a assumir forma concreta e uma crise parecia aproximar-se.

De repente, a sombra de uma figura apareceu na porta e uma voz metálica enviou vibrações discordantes através da quietude da noite.

— Ainda aqui, é? Fui até a Villa para te ver! Sonhando, Ralph? Bem, sonhos não levam ninguém a lugar algum! Uh — este é um lugar fantasmagórico!

Repentinamente despertado do seu devaneio, Ralph Remington levantou-se e aproximou-se do intruso com a mão estendida: “Boa noite, Horace!”.

Por um momento, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Então, Horace Rathburn perguntou, com um tom que irritava os ouvidos do homem de coração gentil à sua frente: “Então, você já considerou a minha proposta?”.

— Isso teria sido um gasto desnecessário de força mental, Horace! Minha resposta para você naquela noite foi definitiva.

— Posso então inferir que você não usará sequer a influência que possui para garantir o objetivo proposto? É um pedido pequeno — e mesmo assim traria resultados altamente benéficos para todas as partes!

— Isso não é algo para nós decidirmos. Os principais envolvidos no caso são os únicos que têm interesse.

— Uma posição tola para assumir, Ralph Remington! Você influencia sua filha em tudo e a natureza dela é uma réplica da sua: você é seu modelo, em resumo; mas quando chega o momento mais importante da vida dela, também da sua, você se afasta e a deixa à deriva, entregue a um simples capricho, um devaneio! É melhor você reconsiderar o assunto!

— O tempo em que os pais decidiam os destinos dos filhos já passou. Marozia possui, de maneira incomum, as finas e aguçadas intuições femininas. O julgamento dela será a voz decisiva neste assunto, assim como em outras questões que a envolvem!

Havia uma firmeza silenciosa na voz de Ralph Remington que Horace Rathburn compreendia bem. No entanto, a persistência era sua característica mais marcante.

— Marque bem isto, Ralph! Não estou com disposição para continuar sendo enganado! A felicidade do meu filho está em jogo e agora será guerra até a morte, a menos que você ceda! Ralph Remington permaneceu em silêncio.

O estalar da brita sob seus pés, enquanto caminhavam entre pinheiros e cicutas, o canto dos grilos e o coaxar dos sapos no pântano distante eram os únicos sons que quebravam a quietude da noite. Horace Rathburn não suportava o silêncio. Era um homem de ação, e algo precisava ser dito ou feito a cada momento de vigília, não importando a natureza do que fosse dito ou feito. Sonhos, como ele chamava os silêncios da alma — eram totalmente supérfluos.

— Você ouviu, Ralph? Guerra até a morte! A menos que você ceda.

— Você já me viu ceder quando um princípio estava em jogo?

Horace Rathburn lembrou-se imediatamente de várias ocasiões no passado em que a vontade inflexível de Ralph Remington, empregada em favor do que era certo, havia frustrado seus planos perversos — e a lembrança não era nada agradável. Ele se contraiu e se remexeu levemente sob o olhar direto e penetrante que lhe era lançado na penumbra. Então, mudou seu método de ataque.

— Um belo subterfúgio esse: mandar sua filha para a escola em Utica, tendo uma escola preparatória aqui em Unadilla, da qual o meu ilustre colega, Ralph Remington, é o… ah… hm… diretor!

— Poupe seu sarcasmo, Horace Rathburn! A ocasião não justifica seu esforço.

— Mais uma vez, então, você recusa o meu pedido? Tem coragem de recusá-lo, sabendo o que isso significa para sua filha em termos de um futuro brilhante?

— Eu me recuso a interferir, de qualquer forma, nos direitos e prerrogativas da minha filha. Além disso, não quero que ela seja incomodada, sequer minimamente, por quaisquer sugestões ao retornar para casa. Esse é um assunto sagrado demais para ser invadido de forma tão impiedosa, especialmente depois do tom mercenário que você acabou de adotar.

— Então, entendo que você está dizendo que permitirá que ela faça o que quiser, mesmo que isso leve à miséria?

— Sua linguagem é exagerada, Horace. Pessoas de inteligência e instrução raramente se tornam miseráveis! Elas podem ganhar o próprio sustento.

— Então modifique, se quiser. O que pensará, quando ver a bela Marozia Remington trabalhando para ganhar o próprio sustento?

Uma súbita e bela luz irradiou do expressivo rosto de Ralph Remington, enquanto ele erguia a mão no gesto solene e forense que o caracterizava quando sua alma estava na arena, lutando pelo certo contra forças visíveis ou invisíveis.

— Isso não seria o pior dos males! Mil vezes melhor que ela fosse até mesmo uma miserável do que uma noiva infeliz. Nenhum jugo é tão opressor quanto o jugo matrimonial, quando une duas pessoas que vivem em planos diferentes. Seu filho é materialista, minha filha é idealista. Seria apenas mais um caso de união malformada e é sempre o idealista quem sofre. Claude não perceberia a disparidade, mas isso destruiria Marozia. Somente a verdadeira união de almas pode trazer felicidade a um casamento assim.

— Humm! Um sentimento um tanto esfarrapado e gasto, parece-me! Muito mais adequado à era da cavalaria do que a esta! Eu lhe digo, Ralph — seu tom mudou rapidamente para o de um promotor quase solícito, cuja simpatia se expande de forma diretamente proporcional ao desinteresse crescente da vítima em potencial — você e eu já estamos na ladeira descendente da colina e para nós isso não importa tanto, mas eu posso ver as marcas de dedo na parede!

— Deixe-me dizer algo como um velho amigo. O dinheiro será o poder dominante. Em menos de uma década, você verá que ele será o deus supremo. Inteligência não terá mérito; na verdade, será um obstáculo! Cultura, educação, linhagem: tudo estará em desvalorização. O amor será confirmado como aquilo que todas as pessoas sensatas já consideram, mera loucura ou tolice sentimental, adequada apenas para jovens imaturos e garotas tolas. Marozia é sensata demais para desperdiçar todas as suas chances de progresso em troca de um sentimento tolo como o que você expressou. Eu conheço algo do seu calibre mental e ambição de se destacar por meio de esforços intelectuais. Você sabe que isso não pode ser feito sem dinheiro… ou o seu equivalente, a influência!

— Horace, eu me recuso a continuar discutindo sobre esse nobre sentimento e não vejo razão para prolongar esta conversa.

— Bem, pode ser que haja uma ou duas razões do meu lado!

Tirou de um bolso interno um embrulho. O caminho de cascalho sob as cicutas fundia-se, naquele ponto, à rua da aldeia e, na penumbra, Ralph Remington viu o brilho malévolo nos olhos que estavam fixos nele. Um sapo preencheu a pausa com seu coaxar gutural. Ralph estremeceu ao erguer o olhar para a beleza serena dos céus. A voz metálica soou áspera em seus ouvidos sensíveis. As palavras seguintes ecoaram com a precisão cortante de quem está seguro de sua posição.

— Com base nos dados que tenho, sei que o estado de suas finanças está longe de ser satisfatório, para dizer o mínimo. Eu lhe ofereci a oportunidade de recuperar sua fortuna arruinada e colocar sua filha em uma posição condizente com seu caráter e conquistas. Você desprezou minhas propostas. Está vendo estas notas? Estão vencidas!

À luz que se projetava do correio da aldeia, Horace Rathburn pôde ver o efeito desse último golpe. Sua vítima pareceu atordoada por um momento. Ele não imaginara que as coisas tivessem chegado a tal crise.

— O que significa isso, Horace?

— Ah, eu as comprei, simplesmente.

— Isso é um jogo de extorsão… ou o quê?

— Dê o nome que você quiser. Tenho certeza da minha posição legal nesse assunto. Além disso, não me importo sequer um pouco. Agora você vai aceitar minhas condições!

Seu modo havia se tornado, de repente, intolerável. Havia nele uma insolência fria e arrogante que representava um insulto imensurável para o homem de grande alma que caminhava ao seu lado. Um apito estridente lhes feriu os ouvidos, quando o trem da noite contornou uma curva das colinas.

— Vou dar um tempo razoável para você pensar, mas você sabe qual é a alternativa. Boa noite.

CAPÍTULO II – CONEXÕES DO DESTINO

A velha carruagem, que levara Marozia Remington da sua casa até Utica, fora agora substituída pela ferrovia. A aldeia primitiva, colocada assim em comunicação direta com a cidade de Nova York, recebera da grande metrópole certas importações não totalmente condizentes com seu caráter rural. Seu antigo encanto residia em sua simplicidade rústica. Habitantes cansados da cidade fugiam para lá durante os quentes meses de verão a fim de descansar e recuperar as forças entre as colinas azuladas. Desde que a ferrovia estendera seus ramais da linha principal para todos os ricos assentamentos agrícolas e povoados vizinhos, chalés e vilas começaram a brotar às margens dos lagos límpidos de águas azuis. Ricos nova-iorquinos haviam previsto as vantagens desse local como estância de veraneio. Ainda estava em sua fase embrionária. Até então, era pouco mais do que um sonho na Mente de Horace Rathburn e de um ou dois outros empreendedores e capitalistas. Esses homens olhavam para o futuro e viam possibilidades nesse lugar.

Nessa fase de transição, a aldeia começava a crescer desajeitada, como uma camponesa que se enfeita com bugigangas e joias de vidro e finge sofisticação. Havia perdido o antigo encanto e ainda não adquirira o mais refinado, o da verdadeira cultura. Para Marozia, que estava repleta do entusiasmo infantil de uma viajante que retorna, a vulgaridade meio oculta ainda não se tornara aparente. Ela prendeu a respiração com um arrepio de deleite quando o trem, que a levava de volta para casa, contornou uma curva e visões cintilantes de azul e verde desfilaram diante dos seus olhos. Ora margeava um lago azul, ora atravessava uma muralha de rocha — então, outra abertura na cadeia de bosques ondulantes revelava sua aldeia natal, em sua pitoresca simplicidade, aos pés das colinas. No crepúsculo que se adensava, ela pôde distinguir ao longe a Farmington Villa, erguida no cume de uma das colinas de Beachwood, e estremeceu de emoção diante daquela visão. Enfim, ela estava em casa — e ali estava seu pai, na estação, à sua espera. Com a ansiedade de uma criança ela se lançou para encontrá-lo, mas recuou de súbito quando viu o seu rosto.

— Oh, por que eu o deixei, pai? — ela exclamou com algo na voz que parecia um soluço contido. — Por que eu o deixei?

Ele sorriu ternamente ao pousar a mão sobre os cabelos dela com seu antigo toque carinhoso.

— Isso não lhe fez mal, querida? — disse ele, em tom de pergunta e afirmação, enquanto seus olhos gentis repousavam sobre o rosto dela.

— Não, mas você… você, pai! Você sofreu e eu posso ver isso. Emagreceu muito também! Oh, pai, por que eu fui embora?

— Por que você não deveria ter ido? — ele perguntou com um sorriso terno, meio curioso.

— Porque você precisava de mim aqui.

— De fato, querida, não sou um tirano ridículo o suficiente para mantê-la em casa, afastada da escola, apenas para atender às minhas necessidades imaginárias.

Ela percebeu que ele tremia, como de fraqueza, quando ela segurou seu braço. Ela procurou a carruagem e o velho cavalo da família. Ele leu em seu olhar a pergunta silenciosa e disse em tom mais baixo.

— Vendi o cavalo e a carruagem no mês passado. Você se sente capaz de caminhar, minha filha?

Ele virou o rosto para que ela não percebesse a emoção estampada ali.

— Você sabe que costumávamos caminhar muitas vezes, você e eu, minha menina, e será como nos velhos tempos outra vez. Mas tem certeza de que não está cansada demais? — acrescentou ele, com profunda solicitude na voz.

— Só estou cansada de ficar sentada. Estou ansiosa para caminhar!

Mesmo assim, ela se perguntava por que motivo ele vendeu o velho cavalo da família.

Uma multidão curiosa os observava enquanto se afastavam e passavam pela agência dos correios da vila. “Agência dos correios” era o nome que ostentava, mas como muitos exemplares da espécie humana, exibia uma aparência que não conseguia sustentar. Uma vez lá dentro, suas limitações eram dolorosamente aparentes. Ocupava apenas um pequeno canto de uma loja, que ostentava uma placa que dizia “Mercearia e Miudezas Yankee” em grandes letras pretas na frente outrora imaculada. Agora, cinza com as tempestades de muitos anos.

A multidão heterogênea de desocupados naquela hora utilizava barris de melaço e açúcar, além de caixas de sabão, como assentos, enquanto se sentava para entalhar pedaços de madeira e se entregava às costumeiras fofocas da aldeia. Diferia apenas, em relação àquelas espalhadas durante os chás dos círculos de costura das mulheres, nos adjetivos e nas exclamações.

O respeito pela nossa frequentemente mutilada língua inglesa e pelas leis do esteticismo impedem um relato literal da discussão que surgiu naquela noite sobre o retorno de Marozia Remington de Utica. O consenso geral parecia ser de que a educação para as mulheres fosse inteiramente supérflua e, nesse caso, pouco menos do que criminosa, considerando a arruinada situação financeira dos Remingtons. Rube Slater parecia ser o presidente do conclave de desocupados e seu discurso de abertura à assembleia começou da seguinte forma.

— Bem, eu acho que a Marozia Remington carrega a cabeça um tiquinho alto demais, considerando as coisas!

Enquanto falava, dois filetes amarronzados escorriam pelos cantos de sua boca grande, seguiam caminho tortuoso pelo queixo enrugado e, por fim, perdiam-se entre a barba rala e avermelhada que o adornava.

Zeke Ketchum tinha de fonte bastante confiável que “ela” havia retornado justamente nesse momento para entrar em competição com as irmãs Watson e outras moças do condado a fim de conquistar o prêmio matrimonial da temporada — Claude Rathburn, filho do promotor e capitalista.

Havia uma ligeira diferença na formulação entre os membros do “conselho da aldeia”, mas todos concordavam em um ponto, a saber: que os Remingtons eram excessivamente aristocráticos e precisavam ser rebaixados alguns “graus”.

Marozia e seu pai, completamente inconsciente aos comentários que despertavam, subiram pela longa rua da aldeia e desapareceram de vista. A antiga “casa de reuniões” erguia-se diante de seu semicírculo de abrigos para carroças, rígida, cinzenta e sóbria — em marcado contraste com a pequena igreja gótica do outro lado do caminho.

Mais adiante, passaram pela antiga escola vermelha, aninhada entre os abetos e pinheiros, depois pelo moinho semiarruinado com sua enorme roda d’água que se erguia negra e espectral na luz que se desvanecia. Seguiram pela “estrada da colina”. Marozia notou que tudo lhe parecesse ainda mais primitivo do que antes, depois do seu ano de vida na cidade — e, no entanto, amava mais. O amor tem o dom de idealizar todos os defeitos.

Houve um tempo em que ela sentia apenas um desprezo intolerável por seu ambiente na aldeia. Agora, idealizava sua simplicidade arcadiana. Sentia-se feliz ao caminhar de braço dado com o pai pela estrada pedregosa. O mesmo e velho sapo que havia tomado posse do seu tronco no pântano anunciou sua presença. Sua voz era patriarcal e ele praticamente bramia. Marozia soltou uma risadinha divertida e lançou um olhar furtivo ao pai. A expressão em seu rosto a surpreendeu. Suas próximas palavras foram ditas em tom menor.

— Essas criaturas não têm a menor noção de que seus esforços de expressão soam como uma nota dissonante na música do Universo. Eu me pergunto se a nossa música afeta do mesmo jeito as Inteligências superiores de outros mundos! Os sapos têm seus noturnos e nós, nossas sinfonias; lá em cima, nos mundos tonais, toda a nossa música pode parecer rudimentar! Nossa própria vida, com todas as suas elevadas aspirações, pode ser uma dissonância na harmonia universal.

O sapo respondeu em seu baixo profundo e ambos sorriram.

— Que angustiante! — ele disse, e ela instintivamente soube que seu pai estivesse sofrendo.

Sua simpatia intuitiva nunca precisou de detalhes verbais.

Ela tentou, em meio a uma brincadeira meiga e bem-humorada, dissipar a melancolia, mas depois insistiria em sua determinação de conhecer a causa.

Sua Mente analítica jamais descansava e obedecia ao indício do sexto sentido adivinhatório para compreender a causa subjacente dos eventos.

Agora, era necessário mudar o curso dos pensamentos dele com o seu brilho mágico.

— Não foi meu pai quem falou. Ele teria falado da seguinte forma: se nossos sentidos fossem suficientemente aguçados, poderíamos perceber a harmonia subjacente até mesmo no coaxar de um sapo!

Sua alma emergiu de repente das trevas. O sorriso terno dela e o leve tremor em sua voz revelaram sua simpatia abrangente. As palavras eram apenas uma brincadeira. Um sorriso sereno, luminoso como a luz, pairava sobre as marcas do cansaço.

— Ah, perdoe o meu pequeno deslize filosófico, Marozia, minha filha! Na verdade, nossa vida é grandiosa e bela, mesmo com seu canto fúnebre de dor. Todos os tons são necessários, até mesmo aquilo que chamamos de dissonâncias, para compor a música das esferas. É apenas uma questão de ajuste, combinação. Mesmo assim, a nossa Terra, com sua multiplicidade de tons, toca apenas um acorde na poderosa harmonia do Universo.

— Falou como meu querido pai! — exclamou a jovem com terna paixão. — Ele podia ver o brilho delicado de seu sorriso na penumbra, que lutava por atravessar a densa folhagem.

— Não existe lado sombrio quando vemos de forma abrangente, com clareza suficiente; ainda assim… — Ele se interrompeu de repente e a velha sombra voltou a se insinuar em seu rosto. — É o agora e o aqui que mais nos afeta, apesar de toda a nossa bela filosofia. Por uma pequena nota falsa, ou um gesto em falso, todo o ritmo se desfaz: ao menos nesta vida. É preciso haver unidade de objetivo e propósito, harmonia: uma união verdadeira!

Uma alma menos intuitiva que a de Marozia teria questionado, ou em silêncio se espantado com a transição abrupta. Ela compreendia o hábito de seu pai de devanear em tom rítmico. Sabia que sua Mente tivesse mudado rapidamente de opinião e estivesse contemplando outra fase do seu problema. Sabia que ele tivesse problemas a resolver e que, com sua ampla e abrangente simpatia, pudesse compreender muitas coisas que não lhe haviam ocorrido de fato pela via da experiência. Seus devaneios continuaram…

— Podemos teorizar sobre a beleza abstrata, mas são as simples experiências humanas do dia a dia que determinam a ventura ou a desventura. A felicidade ou a miséria doméstica talvez não dependam tanto de condições ideais, mas sim do enlace. Viver em planos diferentes, ter interesses muito distantes é uma tortura inconcebível para aquele que aspira mais alto — e se torna ainda mais intolerável com o passar dos anos! — Ainda assim, ela permaneceu em silêncio.

— Marozia! — Sua voz estava tão vibrante de profunda tristeza que ela se voltou e olhou para ele.

Não podia distinguir-lhe os traços, pois a luz que se filtrava pela mata já era demasiado tênue para revelar mais do que contornos indistintos. — Marozia!

— Sim, querido pai. — Um arrepio percorreu o seu coração.

Ele hesitou. Através da multiplicidade de emoções conflitantes e do esforço multidimensional que o consumia, não conseguia trazer à tona para ela o tema que desejava abordar. Só pôde vacilar fracamente, percebendo, ao pronunciá-las, a fútil inadequação das palavras.

— Espero que, quando chegar o momento, minha filha escolha o verdadeiro companheiro.

— Mas por que preciso escolher, pai? Só preciso de você!

Seu olhar era tão claro e direto quanto o de uma criança.

Ele leu seu coração e soube que ainda estivesse intacto.

Chegaram à Villa e a Sra. Remington estava na varanda para cumprimentar Marozia. Sua cordialidade era tão forçada que se aproximava da efusividade artificial. O semblante do Sr. Remington se carregou de nuvens e ele entendeu o rosto fascinante e sombrio que sorriu por cima do ombro da esposa; Claude Rathburn avançou com graça despreocupada para cumprimentar Marozia.

CAPÍTULO III – PENSAMENTOS-FORMAS DISTORCIDOS

Claude Rathburn era inegavelmente divertido quando se esforçava para agradar. Muitas moças ingênuas, incapazes de enxergar além da máscara exterior, haviam se deixado fascinar pelo sorriso dele. Aos olhos da Sra. Remington, seu principal atrativo residia na posição interessante de herdeiro da fortuna dos Rathburn. Marozia estava irritada com ambos naquela noite, e a alegria inicial de seu retorno ao lar acabou sendo ofuscada. Ela queria passar a noite com o pai e — bem, tentava não ser desrespeitosa com a mãe, nem mesmo em pensamento, mas não havia qualquer laço de afinidade entre elas. Viviam em planos diferentes — muito distantes um do outro. O pai a compreendia; conhecia cada mudança de humor e antecipava cada pensamento dela.

“Por que você o trouxe aqui esta noite?”, perguntou ela à mãe enquanto tirava o chapéu. “É perfeitamente natural que ele queira cumprimentá-la ao chegar em casa. Você sabe que ele é muito apegado a você e eu gostaria que você o tratasse com o respeito que ele merece.”

“Teria sido suficiente, mamãe, que ele tivesse me recebido na estação e me acompanhado até a carruagem ou acenado em despedida enquanto papai e eu fazíamos nosso pequeno passeio pela estrada da colina!”

“Pois brinque com a situação, se quiser, mas logo descobrirá o que significa ficar sem carruagem ou qualquer meio de transporte. Pode parecer divertido agora, mas espere só! Logo perceberá o que as atenções de Claude Rathburn significam para você!”

“Mamãe, elas não têm absolutamente nenhum significado para mim. Eu lhe disse, no ano passado, que não o encorajaria, pois ele não é o tipo de homem que admiro. Papai é o meu ideal e, quando eu encontrar um homem de alma nobre como ele — cuja natureza se harmoniza com a minha, cujos objetivos e propósitos se fundem aos meus —, talvez eu seja capaz de amar. Até lá, quero ser deixada em paz.”

“Imagino que você tenha lido alguns romances tolos, nos quais o amor é apresentado como o fim e o objetivo da existência.”

“Quando você se deparar com a vida real, descobrirá quão pouco isso conta.”

Marozia voltou seu olhar límpido para o rosto da mãe por um instante, e uma profunda tristeza surgiu em seus olhos. “Mamãe, nunca concordaremos nesse ponto; por favor, encerre o assunto.” Em seguida, virou-se para entrar na sala de visitas.

Apesar de seu desapontamento e desagrado, a Sra. Remington sentia um orgulho secreto da graça e da compostura de Marozia. Seu jeito era encantador em sua simplicidade despretensiosa, e sua voz, grave, doce e bem modulada. Não havia nela aquele arrastado afetado que a pseudoaristocracia do vilarejo considerava um sinal de distinção de classe.

“Agora ela vai superar as garotas Watson!”, pensou ela, com um frêmito de euforia. Elas haviam sido o seu padrão de comparação no passado — para grande desgosto de Marozia, que detestava as suas afetações esnobes. Ela enxergava além das poses e fingimentos delas, mas sua mãe via tudo apenas através da névoa de seus próprios pensamentos-formas distorcidos.

Marozia não irradiava aquele brilho nem demonstrava o entusiasmo habitual quando conversava. Tampouco se esforçava minimamente para agradar. A Sra. Remington, contudo, compensava essa postura. Ela estava sempre atenta, pronta para direcionar seu ardor radiante à reserva de Marozia e para neutralizar qualquer sátira sutil a que a jovem pudesse recorrer em um momento crítico. “Nunca se sabe o que Marozia fará ou dirá a seguir”, pensava ela, enquanto circulava Claude Rathburn, zelando pelos interesses imaginários dele com vigilância ciumenta. Seus esforços despertavam o desprezo de Marozia.

“Que ridículas a Mamãe e eu estamos parecendo”, pensou ela, com um desdém crescente. Sabia que a mãe estava ficando irritada com os lampejos esverdeados que lhe faiscavam nos olhos. Mas Marozia já não se importava; nunca se importava quando as pessoas ultrapassavam certo limite. A cada instante, ela se tornava mais provocante em seu desdém insolente — seu desdém por aquelas gentilezas excessivas. Enquanto a mãe sorria radiante, ela se fechou em uma postura gélida e, quando finalmente Claude Rathburn se despediu, seu estado de espírito não era nada promissor para as pretensões dele. Ela sabia o que esperar quando a mãe a seguiu até o quarto.

“Bem, devo dizer, nunca vi uma garota como você!”

Marozia detestava discussões acaloradas. Considerava-as totalmente ineficazes. Ela respondeu calmamente:

“Provavelmente não.”

“Você se vangloria da sua teimosia? Age como se tivesse orgulho do seu jeito peculiar.”

“Não posso dizer que sinto qualquer emoção a respeito disso.”

“Bem, você tratou o Claude com muita grosseria esta noite. Seus comentários sarcásticos foram horríveis: depois de ele ter sido tão paciente com suas ações contrárias. Poucos homens teriam esperado um ano inteiro para uma garota se decidir como ele fez, especialmente quando ele poderia escolher entre elas. Ora, todas estão loucas por ele!”

“Bem, eu desejo de todo o meu coração que ele se desfaça de um pouco dessa bondade angelical e leve todas elas para Salt Lake City e se case com todas! Então eu poderia ter permissão para viver em paz em casa.”

“Marozia Remington!”

“Perdoe-me, mamãe, mas vamos deixar de lado esse assunto angustiante! Prefiro falar do tempo — ou dos bebês da Sra. Peter — de qualquer coisa, na verdade, exceto de Claude Rathburn e de suas ‘vantagens’!”. A última palavra foi dita com uma careta de escárnio.

“Ora, não consigo entender uma moça como você!”

“Concordamos que não existe outra como eu neste planeta, então não é de se admirar que a senhora não me compreenda. Na verdade, nem eu mesma me entendo.”

A Sra. Remington virou-se com raiva e deixou a filha sem um carinho de boa-noite. Marozia compreendeu, então, aquilo que sentira vagamente na infância. Viu a disparidade irremediável entre elas e reconheceu que as separava um abismo de eras. Sabia que a mãe não conseguia enxergar a verdade com um olhar límpido; a visão seria sempre distorcida, turva e confusa pelas aberrações cromáticas e esféricas de sua visão imperfeita. Não se tratava de pontos de vista diferentes ou de paralaxe alterada, mas de lentes distorcidas da alma.

Apesar da pouca idade, Marozia sabia que a harmonia — uma verdadeira harmonia de fundo — seria impossível. Ela percebia que sempre fora um espinho na vida de sua mãe, uma mulher mundana. A primeira vez que se deu conta disso foi em sua infância solitária, num dia triste em que seu cabelo se recusava a formar belos cachos como os de Viola Watson, insistindo, em sua obstinação rebelde, em voltar ao seu estado natural: liso e brilhante como cetim, rente à cabeça. Num acesso de irritação, sua mãe disse que ela bem poderia ser uma indígena, ficar em casa e viver na floresta. Naquele dia, ela foi deixada para trás — uma criança desamparada e solitária —, enquanto a mãe partia sozinha para a viagem que tanto despertara o desejo daquele coração infantil.

Naquele dia, despertou a primeira hostilidade vaga e sombria. Ela subiu em uma cadeira, postou-se diante do espelho sobre uma cômoda alta e encarou sua imagem refletida com um ódio ardente. Bateu com as mãozinhas no cabelo liso e brilhante, num gesto de desprezo desafiador.

“Fique liso, então — não me importo mais — nunca mais vou me importar! Eu odeio você de qualquer jeito, Marozia Remington! Quem dera você não tivesse nascido, juro!”.

Então, ela fugiu para o bosque — lugar ao qual, segundo sua mãe, ela pertencia — e, a sós com as árvores que sussurravam, chorou convulsivamente, extravasando toda a sua revolta apaixonada. Esse foi o início da ruptura. O ponto crítico ocorreu quando ela se recusou a corresponder às atenções ardentes de Claude Rathburn. Entre esses dois extremos de comportamento rebelde, passaram-se anos de convivência tensa, durante os quais nenhuma das duas conseguia se adaptar à mentalidade da outra.

A atitude de Marozia em relação a Claude Rathburn foi mais do que uma decepção para a Sra. Remington. Ela desejava ardentemente que o jovem fosse bem-sucedido em sua corte à filha. Sua ambição voltava-se inteiramente para as aparências grandiosas, os triunfos sociais e a prosperidade material. Em sua cidade natal, New Haven, ela fora uma jovem muito admirada e disputada, e nunca se conformou com o destino que a levara àquele vilarejo primitivo. É verdade que ela era a “senhora da Villa” — a mais bela propriedade rural daquela região do estado — e que, até a maré da fortuna virar contra ele, seu marido, Ralph Remington, fora a figura de maior destaque do condado.

Agora, devido a uma série de reveses, ele não passava de um professor da escola local, e o círculo social dela havia encolhido drasticamente em importância e influência. Para ela, não importava que as dificuldades financeiras decorressem da alma nobre e generosa de seu marido, incapaz de negar ajuda a quem passasse necessidade ou enfrentasse dificuldades.

Ele via a si mesmo como um administrador que guardava, em benefício de outros, a riqueza que lhe chegava às mãos; assinava inúmeras notas promissórias que acabava tendo de pagar e financiava diversos projetos para ajudar o próximo a alcançar seus objetivos. Sua fortuna foi se esvaindo aos poucos, mas ele, com sua paciência serena, sempre acreditou que ela seria restaurada, caso fosse justo que ele a possuísse e utilizasse.

Ele vivia tão imerso em seu belo mundo interior que a prosperidade material não passava de um mero detalhe na jornada da alma. Para a Sra. Remington, porém, ela representava a vida inteira.

Quando Claude Rathburn, filho do empreendedor e capitalista, surgiu no vilarejo, ela saudou sua chegada com alegria secreta, assim como muitas mães ambiciosas que tinham filhas em idade de se casar. Quando ele escolheu Marozia como alvo de suas atenções extremamente lisonjeiras, a Sra. Remington mal conseguiu conter a alegria. Sua Mente fervilhava de planos ambiciosos quando Marozia, com frieza, desferiu o golpe de misericórdia em suas esperanças ao decidir atender ao desejo do pai e passar o ano estudando em Utica.

Seguiu-se uma cena tempestuosa. A Sra. Remington sabia que havia outras moças atraentes entre as conhecidas de Claude e, por isso, tentava manter sua influência sobre ele. Ele era convidado para a Villa sempre que os negócios do pai o traziam à região, e alimentavam-se grandes expectativas quanto ao seu sucesso futuro. Naquela noite, porém, muito do trabalho parecia ter sido arruinado pela atitude de Marozia em relação a ele. Portanto, Marozia precisava ser disciplinada.

CAPÍTULO IV – SUPORTAR AS PROVAÇÕES COM NOBREZA CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO DA ALMA

Marozia afastou cuidadosamente qualquer vestígio de agitação e desceu silenciosamente até a biblioteca. O pai estava sentado na poltrona dele, junto à escrivaninha, e o banquinho dela estava posicionado ao lado dele, como de costume. Ela sabia que ele esperava sua visita antes de dormir; aquele costumava ser o momento que passavam juntos. Ela acomodou-se naturalmente em seu lugar de sempre e encostou o rosto no braço dele.

“Ah, é tão bom estar aqui novamente com o senhor!” Com aquele antigo gesto de carícia — meio solene, mas carregado de uma ternura e de uma melancolia subjacentes —, ele pousou a mão alva e fina sobre a testa dela e enrolou as pequenas mechas rebeldes em seus dedos. O amor que ele nutria por ela continha mais melancolia do que alegria. Seu olhar sempre transcendia as sombras, vendo o rosto dela junto ao rosto de seu ideal, envolto em um mistério doloroso. Ao fitar os olhos profundos dele, a alma dela pressentiu uma tristeza; ela estremeceu levemente enquanto segurava a mão dele e a beijava com ternura. Então, com todo o anseio de seu coração concentrado no olhar expressivo, ela perguntou:

– “Pai, o que foi? O senhor precisa me contar.”

Ele passou a mão pela testa e sorriu — um sorriso sereno e paciente. “Contar o quê, minha filhinha?”

– “Você está sofrendo. Há algum problema e eu preciso saber, pai, pois não suporto a expectativa!”

– “Não pense mais nas minhas pequenas preocupações, querida — especialmente esta noite, a noite do seu retorno. Já é uma grande felicidade tê-la aqui. Não quero estragar tudo trazendo sombras.”

Mesmo assim, ela não estava satisfeita. O fato de haver sombras perturbava sua paz. Com o velho sorriso luminoso e transformador, ele falou de outras coisas. Ela o questionou sobre a Sra. Morton, a esposa do reitor, e ele se tornou eloquente enquanto falava.

– “Pai, ela é tão querida! Estou ansiosa para vê-la novamente!”

– “Ela é a mulher mais nobre que já conheci”, respondeu ele calmamente. Finalmente, disse: “As coisas se ajustarão, Marozia, minha filha. Nossa parte é trabalhar com a Vontade Divina. O que significará para nós, daqui a séculos, as provações que suportamos? Importará mais como as suportamos.”

– “Sim, porque suportá-las com nobreza contribui para o crescimento da alma. Além disso, nenhuma experiência nos chega sem que haja alguma lição para aprendermos — ou que não seja o efeito de alguma causa passada.”. Seu pai expressou surpresa.

– “Aprendi muitas coisas no ano passado, meu querido Pai. Conheci um homem maravilhoso em Utica — o Sr. Arlington — e assisti a algumas de suas aulas. Ele ensina uma filosofia de vida que é convincente em seu apelo tanto ao intelecto quanto ao coração. Chama-se Filosofia Rosacruz. Ela corrobora o que o senhor sempre me ensinou, Pai; apenas correlaciona e sintetiza aquilo que, até então, era fragmentário e desconexo.”

– “Seria Teosofia, minha querida?”

– “É a mesma verdade em que se baseia a Teosofia, mas vai além dela. O Sr. Arlington diz que esse ensinamento é para o povo do ocidente. Ele coloca o Cristo acima de tudo, e esses ensinamentos, chamados de Ensinamentos Rosacruzes, são aceitos como os mais elevados já transmitidos ao nós. É o Cristianismo Esotérico.”

– “Sempre me pareceu que essas verdades elevadas deveriam ser formuladas num sistema que pudesse ser compreendido, elaborado e aplicado como qualquer outro currículo.”

– “É, pai. Há um livro que cobre todo o problema da vida e do destino humano. Trouxe um exemplar para casa comigo e estou ansioso para que você o leia.”

– “Ficarei feliz em fazê-lo, querida. Há muito tempo sinto a necessidade de um livro exatamente como o que você descreve. Em todas as filosofias que estudei, parece haver uma lacuna. Algo estava faltando e no silêncio da minha alma tentei preenchê-lo. Muitas verdades profundas me vieram assim e venho tentando elaborar no livro que estou escrevendo”.

– “Como está indo seu trabalho em psicologia, pai? Estou ansiosa para saber.”

– “Está bem encaminhado, Marozia. Espero que possa ser útil para os estudantes da ciência.”

– Certamente será, querido pai. O que me surpreende é que todos esses ensinamentos maravilhosos que ouvi no último ano parecem encontrar um eco dentro de mim. Eles se alinham com todos os seus ensinamentos e os explicam. O Sr. Arlington me disse que isso acontece porque eu recebi as mesmas verdades em uma vida anterior — ou melhor, nós as recebemos — e o conhecimento delas agora é como uma memória revivida.”

– “Isso parece muito lógico, querida.”

Houve um breve silêncio, durante o qual ambos estavam absortos em pensamentos. Mais tarde, ele acrescentou, como desfecho da conversa:

– “Acima de tudo, mantenhamos imaculada a alma em nosso interior, digna de se reunir à Chama Divina. O pensamento de que estamos construindo um futuro glorioso e de que viveremos eras adiante — éons em algumas daquelas estrelas distantes, brilhando nós mesmos com luz radiante — deve nos dar força para enfrentar qualquer provação, qualquer decepção; sim, qualquer sofrimento, por mais avassalador que seja.”

O orador tomou conta da situação, tornando-se eloquente sob o efeito daquela simpatia calorosa e profunda que ela demonstrava. Ela se iluminou com uma emoção correspondente, à medida que a alma dele triunfava sobre a fraqueza e a dor humanas. Um fogo espiritual brilhava nas profundezas de seu olhar.

– “Nosso pequeno ciclo humano é tão pequeno, tão minúsculo em comparação com o grande destino cósmico que nos espera! Pense, minha filha, a luz de alguns desses sistemas estelares nas profundezas do universo nunca alcançará nosso Planeta enquanto estivermos aqui. A imensidão do espaço, a infinidade da vida, a vastidão dos ciclos astronômicos – o simples pensamento de tudo isso nos dá inspiração para viver nossa pequena vida conturbada! Acalma a turbulência selvagem das nossas tristezas e das nossas paixões humanas. Você se lembra do poema requintado com o anel marcial trovejando em sua doçura lírica que tanto amávamos antigamente, o “Sic itur ad astra”, ou seja: “assim se vai aos astros” ou “é assim que se sobe aos céus”?”.

– “Sim, Pai. Ele nos convoca a nos prepararmos para a batalha. Creio que transmite o ideal de força e coragem.”

– “E força é o de que mais precisamos, minha filha — força e fortaleza. Este poema nos mostra o Caminho e as provações ao longo da jornada. Não nos ilude com falsas esperanças. Se adormecemos, entorpecidos pelas folhas de lótus do prazer egoísta, ele nos desperta, colocando diante de nós a alternativa de integrar a grandiosa procissão de heróis em sua marcha ascendente ou… perder as estrelas.”

Marozia repetiu esse poema em voz baixa, com uma ternura nostálgica em sua voz doce, na qual vibrava uma nova nota de poder:

Sic itur ad astra! Que glória

Contemplar a cúpula luminosa da Terra,

E pensar que, triunfantes sobre a dor,

Encontraremos um lar entre os Planetas!

Voar pelo azul do empíreo

Num voo radiante e arrebatador,

Entoando um hino de júbilo

Sobre tudo o que é alegre e brilhante.

Alto — bem alto acima de cada esfera de ilusão,

Longe — bem longe das guerras rancorosas da vida,

Onde a contenda não chega, nem a confusão;

Oh, como iremos até as estrelas?

Por jardins esmaltados de flores,

Acolhidos entre as árvores mais belas;

Onde a fragrância dos bosques de asfódelos

Espalha perfume em cada brisa.

Por campos de alegria perene,

Onde floresce a felicidade imorredoura,

Onde nenhum fantasma de perigo ou tristeza

Ameaça numa proximidade aterradora.

Onde a preocupação não chega, e nenhuma queixa

Perturba a sensação de serenidade:

Oh, não penses que é assim que viajamos —

Não é assim que vamos às estrelas!

Por bosques cujos recessos labirínticos

Nenhum raio de sol alegre consegue penetrar;

Por desertos cuja solidão pesa

Com silenciosa angústia sobre o coração.

Por vales desconcertantes e sombrios,

Sobre montanhas desoladas, áridas e íngremes,

Onde viajantes de pés doloridos e exaustos

Cumprem uma peregrinação desoladora.

Entre cenas de comoção aterradora,

Como o marinheiro que se agarra aos mastros

Em meio ao caos furioso do oceano!

Assim — é assim que vamos às estrelas!

Sentavam-se em silêncio, tensos pela elevação de pensamentos sublimes e vibrantes com as ondas rítmicas de um arrebatamento poético. Na cadência final, uma nota de triunfo ressoou em sua voz grave e rica, como se ela também, na juventude, visse o Caminho solitário — o Caminho das Dores — e, contudo, olhasse além, com anseio ardente, para a vasta e ilimitada extensão da alma liberta.

Já avançada a noite, Ralph Remington estava sentado à sua escrivaninha, escrevendo como alguém impelido por uma necessidade irresistível. Sua postura denunciava um profundo cansaço. Uma das mãos apoiava-lhe a testa, ocasionalmente passando pelos cabelos — já mesclados de fios grisalhos — que se aglomeravam ao redor dela. Seus dedos abriam-se e fechavam-se em pequenos movimentos nervosos, enquanto o pensamento vibrava em ondas rápidas e cintilantes. Seu rosto era o de um erudito — de um pensador. Contudo, algo mais — algo superior à grandeza intelectual — estava impresso naquela fronte.

O Fogo divino ardia naqueles olhos expressivos e cintilava, como relâmpagos de verão, sobre o rosto móvel e sensível. Era um rosto como aqueles que os pintores adoram estudar e os poetas veem em seus sonhos. Seus pensamentos pareciam inquietos, ao passo que suspiros ocasionais — lentos e profundos, como que vindos das profundezas de uma alma em sofrimento — vibravam no silêncio da tarde. O antigo fogo ardia em seus olhos e lhe corava as faces, mas logo ele parava e pousava a pena, enquanto uma expressão de angústia afastava a luz transfiguradora da inspiração.

Certa vez, ele murmurou:

“Ah, ela nem imagina o pleno alcance disso! Horace Rathburn, seu objetivo, desde aquele dia fatídico, anos atrás, tem sido a minha ruína — e você quase conseguiu. Durma tranquila esta noite, minha filha — e por quantas noites mais for possível… Que Deus a ajude, Marozia, minha pequena Marozia, pois temo que você tenha nascido para sofrer!”

Com um longo suspiro trêmulo, ele voltou ao seu trabalho.

Quando finalmente se levantou da escrivaninha, sentiu-se subitamente fraco e afundou em um sofá. Tudo ficou escuro por um momento, então sua Mente pareceu despertar, ávida em sua rápida investida em direção a realidades invisíveis. Girando pelo espaço com a rapidez do pensamento, parecia ultrapassar Planetas e sóis — incontáveis ​​sóis — permeados por uma única e grande sensação de liberdade infinita, repouso infinito.

Quando o pequeno fragmento do verdadeiro “Eu”, que pode se manifestar através do cérebro físico, retornou a Ralph Remington, a Lua havia surgido e um longo raio de luz espectral pairava sobre o rosto magro e ansioso. Mas uma mudança ocorreu a ele. Havia uma nova memória – uma memória despertada. Ele trouxe de volta à consciência desperta as experiências daquele voo maravilhoso para Mundos superiores.

Então, ele soube que a imortalidade era um fato. Ao abrir os olhos, uma figura estava sentada ao seu lado. Ele esforçou a vista para enxergar o rosto. Era sereno, benevolente, doce, porém forte. Enquanto se perguntava se a forma diante dele era real ou parte de sua visão, uma voz proferiu estas palavras e a figura desvaneceu-se:

– “Não tenha medo de atravessar o fogo! Este é o caminho para a libertação!”

Marozia, em seu quarto no andar de cima, ajoelhou-se junto à janela aberta e olhou para as estrelas, sussurrando com os lábios trêmulos:

– “Pai, querido Pai, se eu pudesse sofrer por você! Eu mergulharia em um mundo inteiro de miséria e sorriria acima da dor, se eu pudesse, se eu pudesse!”.

CAPÍTULO V – A FILOSOFIA ROSACRUZ EXPLICA TODOS ESSES PROBLEMAS DA VIDA DE FORMA MUITO CLARA E SATISFATÓRIA

Na manhã seguinte ao retorno de Marozia para casa, ela e a Sra. Morton estavam sentadas na biblioteca da Villa, conversando intimamente. Havia uma terna solicitude na maneira como a Sra. Morton tratava a jovem. Ela sabia que nuvens sombrias se acumulavam ao redor dela, mas não podia alertá-la. Ralph Remington, com ou sem sabedoria, desejava que sua filha permanecesse alheia a qualquer problema que os ameaçasse, acreditando — com um otimismo comovente — que a situação ainda poderia ser evitada, mesmo no último instante. “Assim, será uma dor a menos para ela”, raciocinava ele. “Não me importo com as cicatrizes da batalha, mas elas não combinam com o rosto belo da minha filha.”

A Sra. Morton, que via em Ralph Remington apenas virtudes e grandeza, não concordava com ele nesse ponto. Ela conhecia o poder benéfico do sofrimento. Conhecia a beleza que ele confere — mesmo aos jovens — quando suportado com nobreza. Conhecia a têmpera da alma de Marozia. Perita em ler a natureza humana, ela sabia que qualquer sofrimento que tocasse a vida de sua amiga jamais degeneraria em algo egoísta; o primeiro pensamento dela seria sempre para com os outros. Ciente do valor de tais experiências de belo altruísmo, ela não ousava impedir uma alma de alcançar sua elevada herança apenas para poupá-la de algumas dores em sua ascensão. Após abordarem diversos assuntos, a Sra. Morton perguntou:

– “A propósito, querida, você se lembra da Sarah Thomas, que veio morar aqui vinda de Cherry Valley pouco antes de você partir?”

– “Sim, lembro-me muito bem de como ela agiu na primeira vez que nos encontramos. Foi no último dia de aula; demos de cara uma com a outra, inesperadamente, na trilha do prado, perto daquela pedra grande. Eu estava perdida em um dos meus ‘devaneios’ quando ela passou caminhando devagar. Ela murmurava algo para si mesma e, quando me levantei da pedra e ficamos frente a frente, ela parecia assustada e com um ar meio selvagem. Imagino que ela tenha me confundido com o fantasma de uma irmã (ela realmente tinha esse ar), mas não me recebeu nada bem.”

– “O que ela fez?”

– “Caiu de cabeça na grama do prado em seus esforços frenéticos para escapar. Eu sorri. Não consegui evitar, Sra. Morton, ela parecia tão perfeitamente ridícula. Sim, ela viu o sorriso quando lançou um olhar rápido para trás depois de se levantar e colocar de volta seu chapéu de sol esfarrapado na cabeça. Ela não disse nada, mas parecia indescritível.”

Um sorriso de pena divertida pairava nos lábios doces da Sra. Morton.

– “Ela é tímida, coitada, e sua posição desajeitada aumentava sua sensibilidade.”

– “Sim, eu realmente senti pena dela e tentei me redimir depois, quando nos encontramos no mesmo lugar, mas ela rejeitou todas as minhas tentativas e me deixou lá, um penitente solitário e abatido. Ela nunca me perdoou pelo sorriso infeliz.”

– “Não”.

– “O caso dela é triste, minha cara. O pai, um homem preguiçoso e desleixado, da pior espécie, insistiu em colocá-la para trabalhar na lavoura. Ela ansiava por instrução, coitada, para poder lecionar, mas a ignorância brutal mostrou-se intransigente. No dia seguinte, ela foi trabalhar na fazenda da Sra. Gregory”.

– “Sinto muito por ela, mas vejo esses casos sob uma perspectiva completamente diferente desde que estudei a Filosofia Rosacruz. Ela explica todos esses problemas da vida de forma muito clara e satisfatória. Deve ter havido uma causa antecedente em alguma vida passada de Sarah para produzir resultados tão angustiantes.”

– “Sim, minha querida, concordo plenamente com você. Há muito tempo acredito que somente a doutrina da reencarnação poderia explicar nossos destinos intrincados.”

A expressão de Marozia revelava sua surpresa.

— Sim, minha querida; e talvez a surpreenda ainda mais saber que o Reitor também acredita nisso e o ensina indiretamente. Ele diz que, se a Igreja compreendesse sua verdadeira herança, valorizaria a obra de Cristo como nunca antes. Diz também que essa ideia começa a ser amplamente aceita pelo clero, especialmente no Ocidente. Era a antiga doutrina esotérica da Igreja que, durante vários séculos, deixou de fazer parte do ensino público.

— “E sabe por que, Sra. Morton? Havia uma razão para isso, que o Sr. Arlington explicou em suas aulas. Era necessário que a Humanidade conquistasse o Mundo material e, também, se individualizasse plenamente e desenvolvesse a autoconsciência. O ser humano não teria o incentivo para aproveitar ao máximo cada vida se tivesse conservado a memória do renascimento. Teria se tornado indolente e sonhador — como alguns dos povos orientais que ainda preservam esse conhecimento. Eles também serão obrigados a descer mais profundamente na materialidade, visto que estão atrás de nós na evolução. Ele diz que eles renascerão no mundo ocidental e, assim, aprenderão as lições que lhes restam. Chegamos ao limite da separatividade e precisamos cultivar o altruísmo e despertar os poderes espirituais, ou então nos cristalizaremos. A nova Raça está se formando — ou, pelo menos, é o alvorecer de sua formação — e chegou o momento de difundir publicamente o antigo ensinamento esotérico.”

— “Isso é muito interessante, querida, e estou ansiosa para aprofundar meu conhecimento nessa Filosofia Rosacruz.”

— “Ela nunca a decepcionará, Sra. Morton. Quanto mais se estuda, mais se percebe sua profundidade e vastidão. Sua lógica é tão convincente que atrai mentes eruditas, e ainda assim é tão simples que uma criança consegue compreender seus princípios fundamentais.”

— “Sempre uma marca da verdade, Marozia.”

— “Voltando a falar de Sarah Thomas… Um pequeno incidente ocorreu logo depois, quando passei por ela na estrada da colina. Ela estava parada junto ao portão da Sra. Gregory, resmungando e agitando a mão erguida em tom de desafio — aparentemente contra mim. Ouvi quando ela disse, olhando para mim com uma expressão de intensa amargura: ‘A sua vez vai chegar’.”

— “Coitada, sem dúvida ela estava com vontade de brigar com o mundo naquele dia!”

— “Sim, agora eu entendo, pois meu pai dizia que ela era uma aluna brilhante. Ser privada da educação daquela maneira cruel é, certamente, algo comovente. Seu rosto apático e sem vida, bem como sua aparência desajeitada, despertavam, sem dúvida, compaixão.”

— “Senti muita pena dela em nosso primeiro encontro, depois que meu senso tolo de ridículo passou.”

— “Ela mudou muito de aparência desde aquele dia.”

— “Espero que seja para melhor. Certamente, havia espaço para isso!” A Sra. Morton olhou para o rosto de Marozia e falou com sinceridade direta:

— “Acredito que ela precisa da influência do seu caráter e personalidade em sua pobre vida distorcida, minha querida!”

— “Ah, mas ela congelou minha simpatia na segunda vez que nos encontramos. O olhar que ela me lançou ao se virar e sair apressadamente era uma mistura complexa de absinto e fel.”

A Sra. Morton surpreendeu-se com o tom e as palavras de Marozia. Parecia haver uma leve dissonância, interna ou externa — talvez entre os dois extremos de sua polaridade.

A bela luminosidade de outrora, que irradiava dos olhos e do rosto para outros corações, estava agora sob uma leve sombra. Percebia-se maior autoconfiança e independência em sua franqueza direta e aberta, mas havia também um matiz de sátira refinada — sinal, em alguém de seu temperamento, de inquietação ou de ideais não realizados.

O que ela teria adquirido ao longo do último ano? Que influências estariam atuando em sua vida interior? A Sra. Morton não tinha conhecimento de outras experiências capazes de provocar tal mudança.

Ela compreendia a falta de harmonia entre mãe e filha, mas isso apenas realçava ainda mais a força e a doçura do caráter de Marozia. Não conseguia, contudo, compreender plenamente a nova nuance de sua natureza versátil.

A Sra. Morton possuía a intuição aguçada e a sensibilidade refinada que são características marcantes de mulheres de natureza elevada. Ela compreendeu a Personalidade de Marozia logo no primeiro encontro, dois anos antes, quando seu marido assumiu o cargo de reitor da pequena igreja gótica. Viu nela um contraste revigorante em relação às moças comuns. Sua Mente era tão equilibrada e lúcida, tão brilhante e original, que ela adorava sua companhia. A diferença de idade perdia a importância, pois a Sra. Morton conservava o coração e o semblante de uma eterna juventude.

Sabia que a Mente de Marozia estava totalmente livre de quaisquer tendências mórbidas; contudo, percebia que a própria inclinação de idealizar tudo o que tocava sua vida poderia acarretar inúmeras decepções no futuro. Esse é, invariavelmente, o destino do idealista, pois até as pessoas e coisas mais banais são transfiguradas no alambique de sua imaginação rica e vívida. Segue-se, então, o despertar, quando belos vínculos perdem o encanto e parecem vulgares e superficiais à luz da realidade cotidiana. Nada pode evitar a dor e o sofrimento do idealista, mas a alma pode sobreviver às suas ilusões e transformá-las em força e fibra — se assim o desejar.

A Sra. Morton sentia que Marozia sempre faria de suas adversidades “degraus”. Contudo, apesar de todo o seu belo altruísmo — que constantemente se voltava para ajudar e elevar o próximo —, ela estava ciente das cruéis disparidades da vida. Sabia como, às vezes, as almas submergem nas águas sombrias e — aqui — jamais voltam à tona.

Além do encanto que ela reconhecia na Personalidade de Marozia, havia um outro, misterioso, que a ligava a tempos passados. Ela conhecera Ralph Remington na juventude, quando ele era estudante em Yale. Ao vê-lo novamente, após o transcurso de muitos anos, seu rosto pálido e doce tornou-se um pouco mais pálido. A memória trazia de volta aqueles dias dourados, como um sonho.

Conhecer Ralph Remington fora, por si só, algo que elevava o espírito. Depois que a primeira onda avassaladora de sua mágoa secreta passou, deixou em seu rosto sereno uma doçura e uma calma benfazejas. Agora, ela via a marca do caráter nobre de Ralph Remington no rosto de Marozia e a amava com uma ternura ainda mais profunda.

Suas palavras seguintes foram ditas com certa hesitação:

— “Sarah Thomas tornou-se uma moça muito bonita, mas… eu realmente não sei o que pensar a respeito. Às vezes, sinto que agimos mal ao não manter um contato mais próximo com ela. Acho que ela deveria ter ido com a mãe!” Então, a voz doce da Sra. Morton tornou-se suplicante.

— “Você acha que conseguiria vê-la e conhecê-la?”

— “Suponho que eu conseguiria…, mas de que adiantaria, querida Sra. Morton?”

— “Pode ser de grande valia para uma natureza profunda e rica estender a mão através do silêncio que separa as almas — tocar, com calor humano, uma vida solitária e reprimida”.

O rosto de Marozia iluminou-se à medida que a artista em seu interior reagia às palavras e à Personalidade radiantes da Sra. Morton. Contudo, ela não cederia — pelo menos não ainda. Respondeu com um tom de indagação:

— “Ainda assim, admitindo-se as mais elevadas intenções, será sensato tentar estabelecer um ponto de encontro entre almas que não gravitam naturalmente uma em direção à outra?”

— “Quer dizer que, mesmo que estejam no mesmo plano, se houver uma incompatibilidade química, haverá repulsão e desarmonia — e que, se estiverem em planos diferentes, aquele que se encontra em um estágio inferior jamais poderia compreender ou assimilar, restando à natureza mais elevada a humilhação da derrota? Sei, meu bem, que propósitos altruístas são facilmente mal interpretados e retornam distorcidos para ferir o coração sensível. Ainda assim, devemos seguir o caminho ascendente, não importam os espinhos e as sarças que possamos encontrar.”

Marozia sorriu, um sorriso pequeno e peculiar, meio engraçado, meio patético.

— “Ainda estou cética quanto a essa questão. Na verdade, me importo cada vez menos em ‘conhecer’ as pessoas. Quem realmente conhece alguém, a menos que suas almas estejam unidas? Não achei as pessoas que conheci até agora muito amáveis ​​ou que valessem a pena conhecer, e sem dúvida elas têm a mesma impressão de mim. Prefiro o Pai e a solidão.”

— “Mas as outras pessoas – aquelas que não sabem usar nem mesmo a solidão – precisam de ajuda, minha querida!”

— “Não acho que elas queiram ser ajudadas. Geralmente, elas se ressentem de qualquer esforço benéfico.”

— “Nem todos; e devemos prosseguir com nossos esforços, ou nossas próprias almas se degenerarão. Ninguém está tão morto quanto aqueles que são egocêntricos; que veem a vida sob uma ótica limitada; que interpretam mal as motivações alheias ao analisá-las a partir do centro distorcido de sua própria consciência ignóbil. Enganamo-nos tão facilmente. Nossas motivações devem elevar-se a um patamar superior àquele sugerido pela minha alternativa egoísta. Não devemos ajudar apenas para promover o crescimento de nossa própria alma, mas porque amamos e não podemos deixar de empreender esse esforço. Em última análise, apenas o altruísmo mais puro é o que conta.”

Houve um silêncio momentâneo; então, o rosto de Marozia iluminou-se, e sua alma viva e fervorosa transpareceu através de um humor levemente zombeteiro.

— “Tive um novo pensamento ontem à noite – e sobrevivi à experiência. Papai foi o responsável por implantá-lo em minhas células cerebrais.” A Sra. Morton sorriu ansiosamente.

— “Um novo pensamento?”

— “Bem, pelo menos para mim foi novo – embora quem possa dizer quantas vezes ele já se manifestou?”

— “Conte-me! Estou ansiosa por algo novo!”

— “Não, pois consigo detectar o sorriso por trás das palavras.”

— “Mesmo assim, conte-me, Marozia. O sorriso desapareceu completamente, deixando apenas um desejo sincero de conhecer seus belos pensamentos.”

— “O prefácio é mais importante do que o pensamento, pois o prefácio era do Papai. Vou lhe contar essa parte.”

Havia um toque da antiga vivacidade no jeito de Marozia. O rosto da Sra. Morton iluminou-se com um belo resplendor.

— “Conte-nos o prefácio, sem dúvida”, ela pediu.

— “Bem, meu pai disse algo que soou um tanto pouco ortodoxo do ponto de vista literário. Eu vinha insistindo para que ele deixasse seu gênio se afirmar, e ele declarou que o esforço e a afirmação banalizam as verdadeiras glórias. Perguntei-lhe para que fim fora dado o Fogo divino, e ele respondeu: ‘O Fogo divino não permite a afirmação. Ele realiza sua obra — sua obra de silenciosa iluminação — e consome o eu insignificante. Há uma tentativa excessiva de expressão nesta época. É grosseiro tagarelar. Mesmo a vívida pintura com palavras de Ruskin não produziu efeito maior — se é que se buscava algum efeito — do que a descrição que Tom Gregory fez de sua horta de batatas. Tanto as glórias venezianas quanto a horta de batatas eram, em igual medida, completas — cada uma à sua maneira — sem a poesia ou a prosa rudimentar da descrição’.”

— “Mas outros olhos e Mentes podem não ver”, objetei.

— “Ah, agora você toca na verdadeira questão, no cerne do assunto”, respondeu ele. “Quando me afirmo por mim mesmo, torno-me um egoísta superficial – um mero tagarela, tão desprezível no papel mais importante como no mais humilde. É o fazer pelos outros que nos salva”.

A respiração da Sra. Morton ficou rápida. “E seu pensamento complementar, meu caro?”

— “Apenas isto. Perguntei-me se os nossos esforços no sentido de uma revelação mútua não acabam, na verdade, por menosprezar as nossas próprias experiências e as dos outros. Podemos até sentir certo prazer na troca de ideias, mas será que, graças a esse esforço, passamos realmente a conhecer-nos melhor? E — se o conseguíssemos — o que isso significaria? O Ego nunca se revela nem se expressa. Ele está aprisionado em recônditos mais profundos do que os claustros da alma — uma entidade muda e imóvel, repleta de Fogo vivo; ele próprio um Fogo vivo —, ao passo que o Impostor se veste com as suas roupagens, ocupa o trono e faz-se ouvir pelos outros. É o “eu” fictício que encontra outros “eus” fictícios. Como um fantasma a encontrar fantasmas!”

O pensamento de Marozia revelava os perigos e as glórias que aguardavam uma mente profundamente analítica e uma natureza emocional rica. Revelava à Sra. Morton capacidades que podiam alcançar qualquer altura ou de lançar a alma nas profundezas do desespero. Tanto as alturas quanto as profundezas significariam muito mais para tal espírito do que para os outros.

— Suponho que você me lembraria da máxima do papai: “quando me afirmo em prol de mim mesma, eu me degrado” e “é o agir em favor dos outros que nos salva” — continuou Marozia, como se lesse o pensamento não verbalizado da Sra. Morton. — Ainda assim, será sensato sacrificar a verdade e ultrajar o “Eu” verdadeiro, mesmo que seja para sustentar uma teoria nobre e elevada?

— “Mas, minha querida, embora a ideia seja boa e verdadeira, não seria prudente colocá-la em prática!”

— “Por que não, se é verdade?”, perguntou Marozia com uma franqueza surpreendente.

— “Porque a verdade pode ser elevada demais e sublime demais para este Planeta em seu atual estágio de desenvolvimento.”

Havia um brilho profundo nos olhos da Sra. Morton. Marozia acrescentou rapidamente:

— “Imagino que você perguntaria o que seria de amizades como a nossa, mas não creio que elas possam ser incluídas. O pensamento simplesmente responde ao pensamento, e nenhuma ofensa é feita ao “Eu” verdadeiro. Na verdade, é o “Eu” verdadeiro que fala quando estamos juntos. A nossa é uma amizade em seu estado ideal — uma amizade que perdura desde eras passadas.”. Um sorriso radiante surgiu entre elas.

— “Compreendo perfeitamente, querida; no entanto, não devemos nos fechar em nosso mundo ideal e permitir que os outros “eus” ao nosso redor se sintam solitários. Nem mesmo os superficiais, egoístas e vulgares. Devemos ajudá-los a ver o lado mais elevado da vida. Quanto mais baixo o nível em que se encontram, maior a necessidade de estendermos a mão. E esse gesto deve ser de fato um ‘estender a mão’, sem jamais transparecer qualquer atitude de quem se inclina ‘de cima para baixo’. A Luz interior é a mesma em todos, e devemos procurar ajudá-la a brilhar.”

— “Sim, eu sei que a Luz é a mesma em todos. Os acréscimos externos pertencem à Personalidade, que é transitória. Podemos não ser capazes de admirá-la, mas é com ela que entramos em contato nos outros!”

— “Eu sei, minha querida, mas precisamos ser capazes de alcançar o “Eu” verdadeiro através disso – precisamos aprender a fazer isso.”

— “Mas como fazer isso? Ah, essa é a parte difícil!”.

— “Tente expandir sua consciência, querida Marozia! Tente ver a Vida Divina por trás da outra Personalidade — por trás daquilo que a repele. Tente imaginar essa Vida Única circulando por todo o Universo, expressando-se através das mais variadas máscaras: ora através da sua, ora através da minha, e também através daquela que você não admira nem um pouco, nem pela qual se sente atraída. A máscara não tem grande importância. O que conta é o Espírito.”

— “Mas e se o Espírito for sufocado por um desejo elemental? Devemos amar isso?”

— “Devemos conduzir todas as coisas à bondade por meio do amor. Esse é, contudo, um caso extremo, resultante de um mal persistente e de desejos egoístas. Nesses casos, o Espírito pode ser forçado a abandonar seu veículo, mas é raro encontrar uma Personalidade desprovida de qualquer vestígio da Vida Única em seu interior. Esse vestígio pode permanecer temporariamente submerso sob a massa de detritos acumulada pelo desejo egoísta. Devemos tentar resgatá-lo — redescobrir o tesouro perdido.”

— “Mas, deixando de lado os casos extremos — será sensato, nesta fase de nossa evolução, desnudarmos nossas almas uns aos outros? Sei que, um dia, estaremos alma com alma — e anseio de todo o coração por esse dia feliz —, mas agora, enquanto a Personalidade é tão dominante em quase todos nós… será sensato?”

— “Algumas de nossas concepções de verdade podem pertencer ao “eu” pessoal e, se tentássemos vivenciá-las, nos tornaríamos auto-reprimidos e egocêntricos. Devemos sempre discernir.”

Marozia sorriu – o antigo sorriso irônico e brilhante.

— “Ah, os velhos enigmas desconcertantes que costumavam atormentar minha infância! Verdade em vislumbres parciais – em doses homeopáticas! Discrepâncias entre o real e o ideal! Vemos uma verdade – parece bela, mas quando tentamos vivenciá-la, pronto! – Ela se torna egoísmo mascarado sob o disfarce da verdade!”

— “Engrenagens dentro de engrenagens!” — respondeu a Sra. Morton, com uma compreensão luminosa e cheia de empatia.

Ela sabia a que alturas a jovem havia chegado para nutrir tais pensamentos, mas vislumbrava alturas ainda maiores — horizontes distantes, radiantes de luz em vez de sombras púrpuras — e ansiava por revelá-los àquela alma elevada que tinha diante de si. A Sra. Morton percebia a verdade por trás da verdade — a alma da alma —, um conhecimento que só advém da profundidade e da amplitude de visão, do desabrochar interior. Ao levantar-se para partir, tomou as mãos de Marozia nas suas e disse, com profunda sinceridade:

— “Marozia, minha querida, existe uma meia-verdade que parece absolutamente encantadora, mas, logo além dela, aguarda outra — completa, abrangente e inclusiva —, que preenche o círculo do universo. Você contemplou a meia-verdade. Não se detenha aí! Há alturas além de outras alturas. Meias-verdades jamais podem ser conciliadas. A verdade perfeita não reserva decepções nem admite discrepâncias. A Mente da filha de Ralph Remington é nobre e elevada demais para se contentar com horizontes limitados!”

CAPÍTULO VI – COLOCANDO A PERSONALIDADE EM UM PEDESTAL INSTÁVEL

Depois que a Sra. Morton saiu, a Sra. Remington mandou chamar Marozia e retomou as hostilidades. Ela discutiu e fez escândalo, como algumas mulheres aflitas costumam fazer.

Então, tentou a diplomacia. Com a astúcia ancestral derivada da Atlântida perdida, insinuou a saúde debilitada do marido e suas dificuldades financeiras. Em seguida, acrescentou:

– “Você deve saber que custa muito dinheiro mandá-la para Utica estudar por um ano. E que coisa tola de se fazer, nessas circunstâncias!”

– “Tentarei reembolsá-la, mamãe.”

– “Bem, não sei como você conseguirá, a menos que recupere o juízo e se case com Claude Rathburn! Além de lhe dar uma posição social invejável, isso pode salvar a vida do seu pai se você aceitar Claude!”. Ela examinou o rosto da filha atentamente para observar o efeito daquela alfinetada.

Em voz baixa e tensa, com os olhos dilatados por um temor inexplicável, Marozia perguntou:

– “Papai me deixa fazer esse sacrifício?”. Seu pai sempre lhe parecera a personificação de todos os ideais elevados e ela aguardava ansiosamente a resposta da mãe! A Sra. Remington era uma estrategista, e a franqueza de Marozia sempre a confundia.

– “Você sabe que seu pai raramente vê as coisas sob a perspectiva correta — especialmente assuntos mundanos!”.

Os olhos de Marozia brilharam com a luz reveladora que sempre detectava as sofisticações de sua mãe. Ela perguntou baixinho:

– “Casamento é um assunto mundano?”

– “Não sei o que mais poderia ser!”

– “Ó, mãe… mãe!”

– “Bem, você sabe o que eu quero dizer! Seu pai tem suas próprias ideias sobre as coisas. Ele está sempre no mundo da Lua e nunca analisa as coisas com bom senso! Outro dia mesmo eu o ouvi dizer que todos os seres humanos deveriam ser como irmãos e se preocupar mais com os interesses dos outros do que com os seus próprios! Imagine só! Estamos aqui para cuidar de nós mesmos!”.

– “Papai tem razão!”, respondeu Marozia em voz baixa.

– “Bem, se você está tão envolvida com ele, por que não tenta facilitar as coisas para ele?”. Marozia ficou em silêncio.

A Sra. Remington prosseguiu com seu argumento, concluindo com estas palavras:

– “Além disso, Claude é um homem muito atraente, independentemente do dinheiro!”.

– “Não acho que eu o separaria do dinheiro dele! Eles naturalmente combinam e contribuem para as vantagens!”.

– “Você não precisa ser tão sarcástica! Você deveria ter vergonha!”.

– “Eu tenho vergonha — vergonha de estar discutindo um assunto como esse!”. Ora, mãe, você está tão deslumbrada com a aparência externa que não consegue enxergar o quão vulgar isso é! É pior do que folheado em móveis! Eu prefiro pessoas genuínas — mesmo sem as vantagens!”.

Terminou em afastamento entre elas. Marozia fugiu pela trilha verdejante e através da alta grama do prado até a grande rocha plana, cinzenta de líquen, que tinha vista para o riacho e as colinas além. Esse era seu refúgio favorito quando seu “temperamento” entrava em conflito com os planos mundanos de sua mãe.

Até mesmo as ideias mais simples e sensatas de sua mãe a perturbavam com seu pequeno mundo interior. Nos dias de sua infância melancólica e sonhadora, quando se sentava na pedra no prado inclinado e olhava através das ondulações intermináveis ​​para os contornos distantes e nebulosos das colinas, ela se perguntava o que havia além delas. Sabia que um ramal da grande ferrovia havia chegado perto do outro lado da pequena crista, trazendo a um povoado vizinho, que ela tanto apreciava, um sopro do mundo exterior. Esse sopro, porém, já havia perdido seu frescor inicial; quando a velha diligência o transportou pelas colinas até o pequeno povoado isolado. Conforme crescia e se tornava uma jovem garota, sua alma começou a se rebelar contra a estreiteza de tudo aquilo.

Ela se cansava insuportavelmente das colinas azuis que a cercavam. Em seus momentos de paixão, quando seu espírito se agitava por dentro, ela quase odiava as curvas baixas e monótonas que se estendiam contra o céu e nunca sugeriam nada de grandioso. A estreita paisagem pitoresca, que nunca se abria para horizontes, a sufocava. Tudo em seu ambiente rural parecia típico de sua vida reprimida. Até mesmo o riacho, que enfim encontrava seu caminho penoso até o Susquehanna, era atormentado por suas represas, suas margens estreitas e intermináveis ​​desvios e distrações, quando ansiava por correr em direção ao mar. E as pessoas – pareciam tão rudes, tão grosseiras, tão cheias de pequenos preconceitos e opiniões mesquinhas, pronunciadas em suas bocas rudes.

Mesmo quando criança, ela as pesava e analisava a todos, atribuindo a cada um seu devido lugar. Ela imitava, rindo, seus provincianismos, mas não havia malícia em seu humor. Era amplo, espontâneo e gentil, sempre. Surgia da intuição de sua alma. Ela não suportava limitações, pretensões ou ignorância, que não demoravam a ser esclarecidas. Em seu ambiente restrito, ela sempre ansiava pela vida mais ampla e rica que pulsava pelos grandes centros arteriais do mundo e fluía em correntes cada vez maiores além das colinas do horizonte de sua aldeia — além do grande rio Susquehanna.

Naqueles tempos de infância, o rio Susquehanna parecera imenso à sua imaginação fértil. Ela imaginava, como muitos antes e depois dela, que a satisfação residia na busca por conhecimento, na altitude ou numa vida rica e vibrante. A inspiração talvez surgisse ali, mas não a satisfação. Vibrações dos pulsos pulsantes do mundo por vezes alcançavam a pequena Arcádia, mesmo naqueles tempos distantes — ecos tênues da batalha mundial que irrompia de leste a oeste, da metrópole à planície. Ela ansiava por estar ali, por fazer parte daquilo.

Como ela se emocionou quando finalmente teve a oportunidade de ir um pouco além das colinas! Sua primeira viagem começou com a velha carroça puxada por um cavalo da família até a diligência, e depois, atravessando as colinas sucessivas, chegou à ferrovia secundária. O mais maravilhoso para sua visão atônita foi o longo trem, que chegou estrondosamente assim que ela desceu do vagão apertado e abafado, usado pela ferrovia secundária para transportar seus passageiros ocasionais de e para a grande estação central de Nova York. Uma vez a bordo e girando em direção ao destino, algo dentro dela se agitou e respondeu com pulsações aceleradas à sensação de velocidade, clamando incessantemente por mais. Ela se sentiu inclinando-se para a frente, ansiosa e excitada com a rápida aproximação de “algum lugar”. Logo avistou lagos azuis, cidades, campos e florestas enquanto era levada pela correnteza e pelo rugido em seus ouvidos e pela emoção em seu coração. Ela sorriu na noite passada ao relembrar o passado. Tinha sido um ano maravilhoso para ela e marcado uma época em sua vida. Mesmo assim, ela estava feliz por estar de volta em casa. Hoje, ela estava tão cansada das tolas pretensões, dos afetos ridículos e da sordidez mesquinha de seu pequeno mundo que ansiava por escapar novamente.

As duas inteligências luminosas, que eram como estrelas em seu mundo, eram seu pai e a Sra. Morton. Com eles, a verdadeira Marozia despertava. Agora, ela estava repleta de inquietação ao perceber que poderia ter oportunidades ilimitadas no cumprimento do dever filial, se assim o desejasse. Sentada diante de suas emoções tumultuosas, a antiga ânsia por expansão, por horizontes mais amplos, não apenas físicos, mas mentais – e não apenas mentais, mas espirituais – a dominou.

Enquanto observava a grama do prado ondulando graciosamente como ondas do mar, uma visão surgiu das sombras onde ela sentira a estreiteza e o anseio selvagem por expansão. Sussurrava, com fascinante sutileza, sobre a vida brilhante além de seu horizonte limitado. Atraía e chamava sua alma ávida. Sua mãe havia insinuado outra limitação – a limitação da pobreza – que ela logo experimentaria, se recusasse essa oportunidade de escapar. Seus pensamentos vagavam pelos campos que sua ambição exploraria.

Ela ansiava por escrever, por ensinar. Estava ainda mais ansiosa para fazer isso desde que aprendera algo sobre a maravilhosa Filosofia da Escola de Mistérios Ocidental, a Filosofia Rosacruz.

Ela precisava revelar suas verdades a outros corações, mas como poderia fazê-lo se a previsão de sua mãe se concretizasse? Pobreza – ela nunca a conhecera, mas a palavra lhe parecia horrível. Sempre a associava às pessoas que viviam no “Vale”. Eram desleixadas e sujas, e usavam uma linguagem terrível. Seus sentidos exigentes se revoltavam só de pensar em qualquer tipo de associação com pessoas assim – e, no entanto, a pobreza poderia chegar até ela! Ela se perguntava se um dia se tornaria menos refinada, menos uma verdadeira “dama”, menos meticulosa, limpa e delicada. Estremeceu de horror ao imaginar essa cena.

– “Eu poderia suportar os barracos — talvez — mas não suportaria o que viria junto com eles! A sujeira e a miséria me matariam! Assim como a convivência com gente desse tipo! Mesmo assim, minha mãe dizia que a pobreza nos encarava de frente se eu não desse atenção a Claude Rathburn. E se eu desse!”.

Então, a visão de um futuro glorioso voltou a acenar. Ela se viu cercada por tudo o que o mundo preza. Honra, riqueza, fama, amor, tudo poderia ser seu! Honra – a estima dos homens – aquilo que a mera opinião alheia traz! E essa opinião – qual o seu valor? Ela não toca o “Eu verdadeiro” – lida com o “eu fictício”, o “eu irreal”.

Coloca a Personalidade em um pedestal instável e se curva em homenagem servil. É tão provável que se transforme em difamação e maldição no instante seguinte, se a inveja, o ciúme ou o interesse próprio se insinuarem. É como a adoração do bezerro de ouro – não há nada de grandioso por trás disso. Um sopro pode destruí-lo. Uma pequena ofensa pode ser sentida, a vaidade pode ser ferida e, eis que a homenagem se transforma em calúnia! Perante o tribunal interior, a honra – a honra que os outros prestam – é proclamada uma sombra sem valor do real.

A riqueza compareceu perante o juiz silencioso. Riqueza — mera fantasia, uma bolha para a alma que vive! Parece potente apenas para o materialista, e Marozia não era materialista. Assim, a riqueza desfilou diante do tribunal como um poder a ser considerado, se a alma se apresentasse como a mercadoria que ela compraria. Fama — ah, como a honra, surge de um vapor de presunção humana! Não tem nenhuma qualidade permanente, nenhuma qualidade duradoura. Uma palavra, uma crítica, um ciúme poderiam varrê-la. Também era irreal — não tocava as verdades eternas. Amor? Ah, ali ela hesitou.

Ela não amava Claude Rathburn — tinha certeza de que nunca poderia. Amava seu pai e a Sra. Morton. Tentou amar sua mãe, mas isso lhe causava discórdia perpétua e ela sabia que, em última análise, não passava de um movimento forçado de um desejo altruísta — não emoção. Não conseguia sentir nenhum poder forte de atração que puxasse sua alma para a alma de sua mãe. Seria assim se ela se permitisse casar-se com Claude Rathburn. Por mais que procurasse, não conseguia encontrar em seu coração ou em sua alma qualquer sentimento em relação a ele, exceto uma mistura de medo e repulsa.

A visão brilhante se dissipou em algo banal e sem graça, algo pelo qual ela supostamente deveria estar se interessando. No instante seguinte, sentiu um recuo diante daquilo que, junto com suas brilhantes oportunidades, era obrigado a aceitar. Uma onda nauseante se abateu sobre suas esperanças infladas, submergindo-as. Sua alma reconheceu a farsa e recuou com um arrepio.

– “Não. Eu não poderia amá-lo, e um casamento sem amor seria intolerável para mim!”, murmurou ela ao levantar-se para descer a estrada da colina e encontrar o pai. Ao ver o rosto dela — pálido, agitado, porém decidido —, ele compreendeu que ela atravessava um momento crítico e que, sob a tensão da batalha, a mulher que havia nela despertara.

Ralph Remington também se deixava levar por reflexões sobre o passado enquanto subia lentamente a colina para encontrar Marozia, que frequentemente o aguardava ali. Ele pensava em sua juventude perdida. Nem sempre é agradável rememorar o passado. Para aquele homem, porém, era uma tortura, dada a disparidade infinita entre seus sonhos e a realidade. Parecia ter passado uma eternidade desde que ele fora um jovem brilhante e cheio de entusiasmo, nutrindo esperanças ardentes e ambições elevadas. No entanto, ele estava apenas na meia-idade. Quanta coisa havia sido comprimida naquele sonho!

Seu pai desprezara sua ambição. Precisavam dele na fazenda — uma propriedade grande —, por isso ele abrira mão do desejo de cursar uma faculdade. Durante anos, alimentou a ideia de que, algum dia, poderia retomar o projeto de sua vida de onde o havia deixado. Com esse objetivo, prosseguiu com suas pesquisas pacientes. Estudava sozinho, à luz da lareira, até altas horas da noite, treinando a Mente para o raciocínio preciso. Concluiu seus estudos em Yale.

Com o falecimento do pai, Ralph Remington ficou responsável pela propriedade que herdara. Sua experiência como proprietário de terras foi marcada pelo insucesso; ele não tinha aptidão nem para as finanças nem para a agricultura. Como sabemos, homens inescrupulosos tiraram proveito de sua honestidade e ingenuidade. Ao longo do tempo, à medida que surgiam emergências, a propriedade foi sendo sucessivamente onerada por hipotecas.

Nesse meio-tempo, ele havia se casado e, como vimos, sua vida doméstica era muito infeliz. A Sra. Remington era a verdadeira personificação do egoísmo, da vaidade e da superficialidade femininos. Incapaz de compreender a grandeza de espírito do marido, ela fingia desprezo por tal grandeza. Seus planos haviam sido bem arquitetados: ela atraíra o jovem herdeiro erudito para sua rede — pois a juventude é pateticamente cega. E tratava-se, de fato, de uma rede que se apertava gradualmente em torno de suas esperanças radiantes. Cada ano naquele ambiente doméstico sufocante havia paralisado algum anseio da alma ou alguma bela esperança humana, a ponto de ele já não lutar contra o seu destino.

Uma Mente rasa e egoísta tem o poder de causar uma ruína indescritível a uma alma nobre e sensível, cujas elevadas aspirações entravam em conflito com os planos sórdidos dessa Mente. Se ela tivesse a grandeza ou a bondade necessárias para compartilhar a vida superior do marido, poderia ter sido o equilíbrio indispensável entre a alma elevada dele e o mundo prático, que ele tão mal compreendia. Suas energias, contudo, eram dedicadas a intrigas egoístas, enquanto ele se tornava mais silencioso, mais retraído e mais sensível às visões da vida interior. Ele passara a temer as forças que poderiam desafiá-lo, caso saísse de seu isolamento. Sua solidão era a vida intensificada, espiritualizada. Sua visão tornava-se mais clara; sua alma, mais pura. Na calma solidão de sua vida mais ampla, ele podia criar. Nos silêncios de sua existência solitária, conseguia ouvir claramente as vozes divinas que lhe falavam incessantemente e traduzi-las para outros Corações e Mentes. Era uma compensação abençoada para ele — essa crescente sensibilidade à vida dentro da vida, esse contato de sua alma com realidades infinitas e invisíveis. Isso limitava sua ambição humana, mas ampliava seu horizonte espiritual.

Hoje ele percebeu, mais do que nunca, que uma crise estava prestes a acontecer. Viu sua sombra no rosto de Marozia quando ela o encontrou.

– “Pai, a pobreza é uma coisa tão terrível assim?”, perguntou ela enquanto caminhava ao seu lado pela estrada rochosa.

– “Acho que não é o pior dos males, minha filha”, respondeu ele suavemente. “Pode acarretar algumas privações materiais, mas isso deixaria a alma mais livre”.

– “Mas isso não nos atrapalharia, Pai, na busca de nossa grande ambição?”.

– “Poderia ser um obstáculo, mas isso provaria nossa força e dignidade! Nada que valha a pena vem fácil. Além disso, minha filha, a ambição pode brotar de uma raiz de desejo egoísta. Se for esse o caso, é melhor que seja consumida pelo fogo!”.

CAPÍTULO VII – NESSA EVOLUÇÃO HÁ MUITOS RETARDATÁRIOS

A Sra. Remington estava oferecendo uma recepção em homenagem a Marozia.

Como ocorre em muitos eventos mais pretensiosos, o orgulho era a motivação dominante. A Sra. Remington não possuía nada daquela hospitalidade calorosa que dá vida às relações sociais. Ela desejava apenas impressionar os Watson e os Weston, além de várias outras figuras de destaque cujo interesse, ultimamente, deixara de se concentrar na Villa como um centro de vida social e formador de opinião. Esse arrefecimento do interesse lhe causava profunda irritação — sobretudo porque poderia ter sido evitado pelos membros de sua própria família, caso tivessem ouvido seus conselhos. Agora, ela saborearia uma pequena e doce vingança, tanto contra Marozia quanto contra seus antigos amigos. Contra a primeira, ao colocá-la o máximo possível na companhia de Claude Rathburn. Depois, sentiria um prazer deliciosamente malicioso ao exibir Marozia diante da elite local, que já começava a tratá-la com uma condescendência que deixava transparecer, de forma inequívoca, a perda do respeito.

— “Quem sabe o que pode acontecer nesta festa?”, refletiu ela enquanto batia o bolo e decorava os quartos com motivos festivos.

— “As meninas são volúveis e facilmente influenciáveis! Vou garantir que Marozia não deixe essa oportunidade escapar! Ela é igualzinha ao pai — com a cabeça nas nuvens —, mas vou mantê-las com os pés no chão — veja se consigo.”

A elite local compareceu em peso na noite da festa. Havia também duas ou três figuras de destaque vindas de Cooperstown, Oneonta e Utica, mas, acima de tudo, Claude Rathburn em traje de gala, exibindo seu sorriso habitual. A felicidade da Sra. Remington transbordava. Pouco lhe importava que a curiosidade tivesse contribuído para atrair grande parte dos convidados; bastava-lhe que estivessem ali, e ela saberia jogar bem as suas cartas enquanto a oportunidade durasse. Naturalmente, no decorrer do último ano, Marozia havia conquistado certo prestígio aos olhos da aristocracia do condado e do vilarejo. Todos queriam ver como ela estava depois de ter passado um tempo estudando fora. O fato de Claude Rathburn ser visto como um possível pretendente aumentava ainda mais o interesse.

— “Realmente, ela tem um ar bem peculiar, não acha?” – Viola Watson disse arrastado, por trás do leque, para o médico da aldeia.

— “Sim, sim, bem descolada!”

— “Não é engraçado, já que ela estava só em Utica? Agora, se ela tivesse passado o ano na Metrópole …, mas… bem, é engraçado de qualquer forma o jeito que ela se comporta!”

— “Sim, sim, muito ‘engraçado’ – absolutamente hilário!”

— “Quero dizer ‘estranho’”, corrigiu ela, corando.

— “Sim, muito estranho. Um incidente verdadeiramente notável!”

— “Vale a pena registrar! Eu diria que isso poderia muito bem ser classificado como um fenômeno!”. Os olhos vivos e perspicazes do velho médico traziam um brilho de humor. Os esnobes eram sua aversão particular, mas sua ironia nunca era cáustica. Ela passava pelo filtro de uma mente repleta de bondade benevolente e absorvia essa qualidade. Viola Watson deu um sorriso afetado e ficou imaginando o que o velho médico queria dizer. Ela jamais se deu conta de que havia cometido uma gafe.

Naquela noite, Marozia era tudo o que a Sra. Remington poderia desejar. Ela mostrava-se serena, imponente e brilhante.

A Sra. Morton observava-a com um aperto de tristeza no coração. “Ela não é mais a mesma!”, observou em pensamento. “Parece ter adquirido força e um charme magnético; mantém-se — assim como mantém os outros — sob pleno controle. Certamente possui um novo poder e uma nova percepção, o que sugere alguma crise vivida entre o sofrimento e a vitória. No entanto, ela não passou por ‘experiências’ marcantes, e sua vida, aos olhos de todos, transcorre de forma docemente simples. Não compreendo bem essa mudança e sinto falta da antiga Marozia, com o encanto de seu humor vivo e peculiar e suas graças espirituosas e fantasiosas.”

A alma de Marozia estava novamente agitada naquela noite, pois o rosto de Claude Rathburn surgia incessantemente diante dela. Parecia impossível escapar dele. Em qualquer multidão de que ela fosse o centro, ele estava ao seu lado. Ao que tudo indicava, ele estava em toda parte naquela noite.

— Ah, Sra. Morton — exclamava Viola Watson —, a senhora não poderia convencer o Sr. Remington a deixar Marozia ir conosco para Nova York na semana que vem? Seria tão divertido tê-la conosco, não acha? — Assim interpelada, a Sra. Morton sorriu ao responder:

— Acho que eu seria uma péssima embaixadora; portanto, por favor, não me atribua tal incumbência! — Marozia retribuiu o sorriso com um lampejo de simpatia. Mas Viola continuou:

— “Seria muito divertido se você viesse conosco à metrópole! Você nunca esteve lá, sabe… além disso, realmente deveríamos nos ver mais; somos amigos de longa data!”. Marozia estava perto do pai, que as irmãs Watson cercavam em vão. Ali por perto, o onipresente Claude exibia um sorriso radiante. Um sorriso irônico surgiu em seus lábios delicados e sensíveis. Então, ela respondeu com um entusiasmo forçado:

— “Srta. Watson, eu, assim como todos os alunos do meu pai, tenho motivos para lembrar que, quando ele diz não, é para valer!”

Ela então se voltou para outros convidados e perdeu-se na multidão.

Ralph Remington nunca apreciava as recepções promovidas pela esposa, embora houvesse momentos preciosos, aqui e ali, em que podia conversar com o bom e velho Dr. Lester, com a Sra. Morton ou com o Professor Bancroft.

Naquela noite, sentia-se exausto e oprimido. Uma premonição de algo funesto pairava sobre ele. Desejava ardentemente refugiar-se na tranquilidade de sua biblioteca. A alternativa mais agradável era uma conversa tranquila com a Sra. Morton; por isso, atravessou o salão para sentar-se ao lado dela em um divã.

— “Tenho pensado em como Marozia se desenvolveu maravilhosamente durante o último ano!”, observou ela em voz baixa.

— “Ela esteve em contato com uma grande alma.”

— “A professora de quem ela falou?”

— “Sim.”

— “Mesmo assim, não é notável ter adquirido tanto em tão pouco tempo?”

— “Seria assim se fosse adquirido como o conhecimento é, mas querida Sra. Morton, é um desenvolvimento interior. Quando uma alma está pronta, o tempo é transcendido. Então, quando uma verdade é apresentada, ela é imediatamente compreendida, pois encontra uma resposta interior”.

— “Você gostaria de me lembrar que é sabedoria em vez de mera aquisição de cultura!”

— “Mesmo assim. Marozia é sábia além de sua idade! Sua alma tem um longo passado durante o qual ela melhorou seu tempo em vez de vadiar. Para ter certeza, como Espíritos, todos nós viemos de Deus ao mesmo tempo, mas alguns – ou melhor, muitos – entre nós são retardatários. Como crianças na escola, perdemos nosso tempo em vez de aprender nossas lições e o resultado é que tais pessoas estão atrás dos outros. Eles não conseguem compreender as verdades mais profundas. Há muitos graus na evolução! Você vê, não consigo deixar de lado as comparações de pedagogo!”, ele acrescentou sorrindo.

— “Não conheço melhor maneira de explicar os problemas dos teólogos, quando eles procuram compreender as diferenças de status mental e moral entre a humanidade. Isso sempre intrigou aqueles cujo senso de justiça é forte.

— “É verdade, meu querido amigo. E em quase todos os cultos modernos – mesmo nas escolas avançadas de pensamento, há discrepâncias – lacunas a serem preenchidas ou transpostas! Não encontrei nada que seja tão satisfatório para a Mente e para o Coração como esta maravilhosa Filosofia de vida que Marozia tem estudado, a Filosofia Rosacruz. É a verdade abstrata que sempre senti intuitivamente, formulada em um sistema. Prometo a mim mesmo de ter a grande satisfação de investigar mais a fundo os seus mistérios profundos”.

Mais tarde, naquela noite, Marozia viu-se subitamente frente a frente com Claude Rathburn em uma sala um tanto reservada, aonde fora em busca de alguns desenhos.

— “Ah, comecei a pensar que jamais teria um momento a sós com você! Com quanta insistência você tem me evitado esta noite!”. Sua voz era baixa e persuasiva, e seus olhos ardiam com um poder intensamente concentrado. Para ela, aquele olhar remetia às artes ocultas inferiores; contudo, um feitiço singular a mantinha imóvel. As palavras que ela proferiu soaram mecânicas e forçadas.

— “Não sei se um tête-à-tête é especialmente necessário ou desejável!”

— “Com você ou comigo?”

— “Com nenhum de nós!”

— “Assim fala a Rainha de outros tempos! No entanto, seu Cavaleiro de outrora ainda lhe prestaria serviços obedientes!”

— “Você fala em enigmas!”

— “A Esfinge deu o exemplo e muitos sábios desde então seguiram o método! Conceda-me o favor de um conhecimento mais próximo e eu desvendarei alguns enigmas muito interessantes para você!”

Ele sorriu para ela, e mais uma vez ela se sentiu incapaz de se mover ou falar. Pareceu-lhe uma eternidade, embora não passasse de um instante.

— “Você quer ter poder? Quer conhecer segredos estranhos? Posso lhe contar muitas coisas — se você me permitir — e amá-la!”

Uma repulsa nauseante tomou conta dela ao ouvir aquelas palavras. Contudo, ele ainda prendia o olhar dela ao seu rosto.

— “Você me pertence”, continuou ele. “Existem laços que vêm de muito tempo atrás!”

Seu eu interior protestava contra as palavras dele — mas aquele feitiço singular a mantinha imóvel. Então, de repente, algo nela foi atraído em direção a ele, e ela tomou viva consciência de uma dualidade em seu íntimo. Uma parte dela recuava horrorizada; a outra estendia-se numa estranha fascinação, compelida pelo poder irresistível do olhar dele.

— “Não, não!”. Seu tom era suplicante, mas ela não sentia forças para se mover.

— “Um dia eu te provarei isso.”

— “Por favor, me deixe em paz!”, ela implorou. Ela ergueu as mãos diante dos olhos e, conforme os passos se aproximavam, ele desviou o olhar de seu rosto. Ela se sentiu fraca e tonta ao se virar e caminhar para a sombra de uma videira em uma varanda lateral. Ele não a seguiu. Ele não tinha mais dúvidas sobre o resultado final – sobre a conquista desejada.

Marozia levou as mãos aos olhos novamente, como se quisesse bloquear algo. Ela respirou fundo e rapidamente e sussurrou, tremendo:

— “Você, Marozia Remington! O que isso significa?”

Ao voltar a conviver com os convidados de sua mãe, ela trazia uma expressão estranha no olhar e aguardava, com o coração acelerado, o fim daquela ocasião enfadonha. Claude não a procurou novamente naquela noite; agora, ele podia esperar o momento certo.

Ao final do evento, quando Marozia foi procurar o pai na biblioteca, ela estava incomumente silenciosa. Ele notou seu ar absorto, mas atribuiu-o ao cansaço. Ela apoiou a cabeça no joelho dele e sentiu um pouco da antiga serenidade invadir sua Mente agitada.

— “Ó Pai, se eu pudesse estar sempre contigo!”, murmurou ela.

— “Esses assuntos não interessam à minha filhinha?”

— “Ah, algumas fases são interessantes, mas…”

— “Mas as exceções… quais são elas?”

— “Claude Rathburn é uma delas.”

— “Ele não te interessa, querida?”

— “Sim e não! Mas eu queria nunca mais vê-lo!

— Por que a mamãe insiste em convidá-lo para vir aqui?”

Uma expressão de profunda tristeza surgiu em seu rosto e ele curvou ainda mais a cabeça.

Ao chegar ao seu quarto, Marozia sentou-se junto à janela aberta até que a beleza estrelada da noite acalmasse a agitação de seu sangue. Então, com um domínio imperioso de sua vontade, ela afastou aquele estranho feitiço e pareceu alguém que despertara subitamente de um delírio.

“O que é isso — o que é isso?”, perguntava ela repetidamente, sem encontrar resposta. “Sou a mesma Marozia Remington… e, no entanto, não sou a mesma. Não cometi mal algum, mas sinto uma estranha inquietação. O que foi que me aconteceu? Ele falou em poderes. Eu sei que existem poderes espirituais, mas era diferente. Quem tem realmente jamais exerce tal influência; jamais se pronuncia sobre os poderes que tem. Seus discursos versam sempre sobre poder espiritual, sobre a formação do caráter, sobre o crescimento da alma. Ah, eu não compreendo isso!”

Ao relembrar os eventos daquela noite, ela sentiu o feitiço retornar e se repreendeu por isso.

— “Nunca mais o verei, se depender de mim – eu o detesto!”

No entanto, subconscientemente, ela sabia que ele havia entrado em sua vida.

CAPÍTULO VIII – O FASCÍNIO DO FEITIÇO QUE AS FORÇAS DO MUNDO DO DESEJO TECEM

Uma voz de barítono clara ressoou num recitativo grosseiro e zombeteiro, acompanhada por suaves sinos de vaca:

– “Calma aí, garoto – calma aí, Sorrel top!

Pois tudo acontece numa vida, minha Polly Ann!

Tão tweedle-dum e tweedle-dee!

Da moça mais bela ao homem mais corajoso—

(Calma aí, garoto—calma aí) Opa, Nancy Jane!

E se você entrar no caminho?

Bem – bem, eu nunca vi vacas tão grandes!”.

A trilha era estreita; a orla de sabugueiros invadia a vereda sinuosa — as vacas andavam de forma errática — e, com o cair do crepúsculo, Tom tentava acelerar o passo lento do rebanho em direção ao curral. Quem sabe as vacas também têm seus humores! O fato é que, naquele dia, elas haviam se afastado e explorado os limites extremos de seu pequeno mundo, e Tom estava atrasado para a ordenha. Mais uma vez, sua voz rica e sem treinamento entoava trechos de canções — ora sentimentais e comoventes, ora misturadas a versos tolos e jargões disparatados —, enquanto seu rosto alegre e queimado de sol se contraía em sorrisos de canto de boca, sempre que ele fazia uma pausa entre os versos para chamar os animais.

– “Sally, você sabe que eu me importo com você mais do que com qualquer outra coisa, e não gosto de ver você rondando aquele sujeito de Nova York do jeito que faz! Você vive se oferecendo, ficando aqui debruçada no portão à espera dele passar — ​​e depois inventa desculpas para sair pela estrada atrás dele! Já vi isso muitas vezes e tentei evitar que a mamãe desconfiasse, pois não queria que você levasse bronca… mas, olha, estou começando a perder a paciência com isso!”.

Sarah Thomas permaneceu junto à passagem da cerca até que ele desaparecesse atrás do celeiro; então, lançando um olhar furtivo na direção da casa do leite, ela passou silenciosamente pelas travessas e desceu rapidamente pela estrada da colina.

– “Não consigo evitar!”, murmurou ela, sentindo um leve arrepio de desafio — uma sensação tão nova para aquele coração faminto e reprimido que foi acolhida sem reservas em seu íntimo. Ao chegar a um ponto onde a curva da colina ocultava a casa, ela desviou o caminho para um prado que margeava a estrada. A grama alta envolvia seus pés e estendia-se em longas faixas atrás dela. Uma pequena serpente cruzou velozmente o seu caminho. Quando chegou ao seu mirante favorito — uma grande pedra plana, encravada no prado, com vista para o riacho e as colinas distantes —, ela se sentou e esperou.

– “Não consigo evitar!”, ela repetiu. “Eu o amo, sim — e odeio Tom Gregory! Marozia Remington, agora chegou a minha vez!”.

Muitas emoções conflitantes agitavam-na — inveja, ciúme, ódio —, mas predominava o fascínio do feitiço que as forças do Mundo do Desejo estavam tecendo. Ela olhou rapidamente ao redor.

– “Por que ele não vem? Eu disse para ele me encontrar aqui!”

– “Ele não disse que o faria, mas imagino que vá, quando perceber o quanto o amo!”. Ela esperou até que o tempo que havia tomado para si chegasse ao fim e, então, caminhou lentamente de volta para a estrada, tomada por uma sensação angustiante de vergonha e decepção. Acelerou o passo ao ouvir, de repente, o som de cascos de cavalo se aproximando e avistar uma figura contornando uma curva da estrada. Uma voz despreocupada chamou:

– “Ah, Sarah, que ar abatido! Aconteceu alguma coisa com o Tom?”. Nenhuma zombaria poderia ter caído de forma mais devastadora sobre um coração; ainda assim, ela tinha uma vaga consciência de que a merecia. Por mais simples que fosse, seu orgulho inato veio em seu socorro.

– “Boa noite, Sr. Rathburn!”, disse ela com a voz tensa, pronta para seguir caminho. Ele imaginou que aquilo lhe proporcionaria um pouco de diversão para os dias de tédio que teria de passar naquele pequeno vilarejo. Por isso, parou e mudou de postura, adotando um ar de interesse fingido.

– “Com pressa, Sarah? Um compromisso com o Tom ou com a mãe dele?”

– “Meu compromisso era com o senhor — mas parece que se esqueceu dele, Sr. Rathburn!”. Ela não tinha sofisticação suficiente para guardar rancor ou deixar o orgulho falar mais alto por muito tempo.

– “É verdade… ah, perdoe minha negligência, minha camponesa rústica!”

Havia zombaria em seu tom, mas ela não percebeu.

– “Imagino que estivesse na casa dos Remington; então, naturalmente, acabou esquecendo!”. Uma pontada de ódio e ciúme acompanhou as palavras. Ele sorriu, intrigado.

– “E se eu estivesse?”

– “Ora, é claro que o senhor tem o direito de ir aonde quiser, mas…”

–  “Mas o quê?”

Ela ficou confusa. Não estava acostumada àquela troca de estocadas e defesas. As sutilezas sociais daquele jogo de esgrima verbal lhe eram totalmente estranhas e, como de costume em tais situações, seus pensamentos transpareciam com clareza. Como o típico homem mundano, ele aproveitou a oportunidade para se divertir um pouco mais.

– A propósito, Sarah, você está evoluindo rapidamente! Na verdade, está ficando muito bonita! Você tem trabalhado muito ultimamente?

– Sim.

– O que acha de morar numa casa agradável, onde não precisaria trabalhar pesado — apenas ajudar nas tarefas mais leves? Vou comprar uma casa em breve e colocar a Sra. Reed como governanta. Gostaria de ser assistente dela?

Os olhos da moça brilharam de alegria.

– “Ah, como eu gostaria!”

– “Você perguntou se eu estive na Villa. Acabei de voltar de lá — tive negócios com o Sr. Remington. Parece que ele não vai durar muito! A sorte está contra ele em todos os sentidos!”

Duas pequenas entidades clamavam por acesso ao cérebro de Sarah. Uma era um duende malicioso que sorriu diabolicamente por trás dos olhos dela quando conseguiu entrar. Ele a incitava a se alegrar com a possível queda de um inimigo imaginário.

Apontou Marozia Remington como a “inimiga”. O lampejo momentâneo de triunfo exultante revelou sua presença a Claude Rathburn. Isso traiu o lado feio da, até então, “simples empregada rústica”. Agiu como um paliativo para uma consciência acusadora – como um paliativo agiria, pois, sua consciência nunca o perturbou. Ele havia sido colocado para dormir há muito tempo. Ele estava começando a sentir um desprezo enojado misturado com diversão quando a outra entidade prevaleceu momentaneamente. Este despertou uma emoção melhor – de pena – não para Marozia, mas para seu pai. Ela exclamou com sentimento:

– “Coitado do professor! Eu gostava tanto dele! E que professor ele era — nunca vi outro igual! Ele me ajudou naquela época terrível em que meu pai me tirou da escola para me pôr na fazenda! Faltava só um ano, e eu queria muito terminar para poder dar aulas. O Sr. Remington me ajudava com geometria e latim fora do horário de aula… mas não adiantou nada! Meu pai dizia que estudar estragava as mulheres — então fui mandada para a casa da Sra. Gregory!”

– “Bem, você não precisa ficar lá muito tempo!”

Seu tom era de indiferença. Por um momento, tentou sentir aquele interesse divertido de antes, mas em vão. Ele havia percebido nela um traço de vulgaridade que transformava o que poderia ter sido apenas um passatempo passageiro em uma megera vulgar em potencial. A expressão de triunfo em seu rosto logo deu lugar a um ar de pavor e desconcerto ao ouvir o assobio de Tom ao longe.

– “Ah, preciso correr de volta para a leitaria, senão a Sra. Gregory vai dar pela minha falta e aí…”

– “Aí ela mandaria o Tom atrás de você, imagino!”

– “Ah, pior do que isso… ela mesma poderia vir!”

Um sorriso divertido surgiu em seu rosto.

– “Consigo até imaginá-la — óculos, chapéu de sol, nariz e todos os outros acessórios — vindo estrada abaixo atrás de você!”.

– “Pois é… não teria graça nenhuma, pode acreditar! Mas… quando posso voltar, Sr. Rathburn?”.

– “Ah, não se preocupe com isso, Sarah! Você sabe que sou um homem bastante ocupado hoje em dia… tenho vários projetos em andamento, na verdade!”

Percebendo o olhar de decepção dela, acrescentou rapidamente:

– “Venha quando tiver vontade e, se eu estiver por aqui, ótimo! Se não… o Tom pode servir.”

– “Queria que o senhor não dissesse essas coisas, Sr. Rathburn! O senhor sabe que eu odeio o Tom Gregory!”

– “Está tudo bem, Sarah… eu estava apenas brincando com você!”

O sorriso que acompanhava as palavras trouxe de volta a luz do sol ao seu coração simples. Enquanto corria pela estrada, sentiu-se subitamente elevada acima de sua existência miseravelmente banal. Um toque de romance havia entrado em sua vida de labuta sórdida. Toda a natureza parecia compartilhar de sua alegria, e o capim alto à beira da estrada, ao roçar em seu vestido, oscilava como se em êxtase.

Tom estava junto à porteira e sorriu de forma significativa quando ela passou. Havia sofrimento e uma nota de pesar naquele sorriso.

– Escuta aqui, Sally… a Mamãe está lá na leiteria esperando por você! É melhor se apressar!

Ela sentiu um súbito desafio ao destino, uma espécie de ousadia desenfreada que a fez desprezar as consequências. Como um animal ferido, Tom virou as costas e subiu, arrastando-se, para o seu sótão no celeiro.

Claude Rathburn cavalgava com desdém pela estrada poeirenta em direção ao vilarejo e resmungava, contrariado:

– Droga… como eu odeio este lugarzinho pacato e tudo o que há nele, exceto… Bem, suponho que terei de suportar tudo isso em nome dos… resultados!

CAPÍTULO IX – MENTE TÃO DOMINANTE QUE NÃO DÁ AO CORAÇÃO A CHANCE DE FALAR

Marozia viveu um estranho estado de espírito nos dias que se seguiram. Seus problemas pareciam, de repente, insolúveis por qualquer meio que ela tivesse ao seu alcance. A estranha influência daquela noite de festa persistia nela, por mais que tentasse afastá-la. O feitiço, tecido de forma tão sutil, refletia-se em seu íntimo, atormentando-a duplamente. Ela não conseguia apagar da memória aquele instante em que sentiu sobre si o olhar de basilisco. Por vezes, sentia apenas profunda aversão e desprezo pelo homem que adquirira aquela influência inexplicável sobre ela. Mas, num relance, as espirais irresistíveis voltavam a envolver seus sentidos. Ela ficava muda, tomada pelo horror e pelo mistério de tudo aquilo.

Passou-se um mês repleto de eventos sociais nos quais Claude Rathburn figurava com destaque. Ele era a sombra de Marozia; por mais que ela tentasse, não conseguia escapar dele. Então, de repente, a popularidade dela começou a declinar. Ela fora a alma de todas as reuniões sociais — sua vivacidade e originalidade, seu espírito cativante e humor peculiar lhe haviam conquistado admiração e um certo séquito de seguidores. Ela possuía um grande charme magnético e, aliada à sua força e postura, havia uma doçura e uma graça de alma irresistíveis. Claude Rathburn estava agora perdidamente apaixonado por ela e decidido a não deixar que nada impedisse seus esforços para conquistá-la como esposa. Mas a popularidade é tão efêmera quanto a fama e a honra. Depende de tantas contingências. Ela não mudou, mas os caprichos de seus conhecidos, sim. Na opinião dela, eram apenas conhecidos — não amigos. Amizade é um nome sagrado demais para ser aplicado àquelas excrescências que brotam num dia e murcham com a mesma rapidez. O ciúme era a causa subjacente do recente declínio de sua popularidade. Decidiu-se, naqueles encontros regados a chá, que as outras moças não teriam a menor chance enquanto Marozia estivesse tão em evidência; portanto, ela precisava ser deixada de lado. A família Watson tomou a iniciativa ao organizar uma excursão ao Lago Otsego e excluí-la do grupo. Foi uma atitude ousada para aquela pequena comunidade, mas eles não pensavam a longo prazo — eram incapazes de tal dispêndio de energia mental.

Elas se parabenizaram pela jogada de mestre e planejaram um golpe no qual a riqueza e a ostentação de trajes luxuosos desempenhariam um papel de destaque — sendo Claude Rathburn o prêmio.

Na manhã do dia decisivo, do qual as “candidatas” tanto esperavam, Marozia estava sentada sozinha sobre sua rocha no prado, em profunda meditação. Como vinha acontecendo ultimamente, sua Mente estava voltada para as suas múltiplas dificuldades. “O que devo fazer?”, exclamou ela em voz alta, depois de analisar a situação sob todos os ângulos. Uma voz ao seu lado respondeu:

– “Eu lhe direi, se você quiser ouvir! Posso lhe dar a ‘Pedra de Roseta’ que lhe permitirá decifrar os estranhos hieróglifos da vida! Caso contrário, você tateará no escuro em vão!”.

Tomada por um espanto imenso, ela olhou na direção da voz e viu Claude Rathburn. Levantando-se rapidamente, exclamou, consternada:

– “Pensei que você tivesse ido com o grupo!”

– “Você acha que eu iria sem você? Quando, no último instante, soube que você não faria parte do grupo, simplesmente desapareci!”. Ela ergueu as mãos para se proteger daqueles olhos terríveis, mas ele as segurou.

– “Marozia, você sabe que a amo acima de tudo!”

– Por que você procura me evitar? Não vai adiantar nada… você deve ser minha esposa!

– “Nunca, nunca!”. Ele a obrigou a olhar para ele e, ao fixar os olhos no rosto dela, ela vacilou novamente.

– “Marozia?” – O nome foi sussurrado em um sussurro baixo e sibilante.

– “Marozia?”, ele repetiu. Mesmo assim ela não respondeu, mas o feitiço estava tomando conta dela novamente e enquanto ela desejava escapar, sentiu-se impotente para se mover.

– “Você será minha esposa?” – O tom era mais uma ordem do que uma súplica.

– “Não, mil vezes não!” – Ainda assim, os olhos dele estavam fixos nos dela e ela desmaiou.

– “Perdoe-me! Mal sei o que estou dizendo, mas…

– “Sim, entendo! Você está animado, mas sei o que seu coração diria! Você me ama, só que sua Mente é tão dominante que não dará ao Coração a chance de falar!

– Deixe falar agora e você não se arrependerá!”. Com um esforço violento, ela soltou as mãos e desviou os olhos. “Eu não te amo, eu te abomino! Deixe-me imediatamente!”

Ela ergueu novamente os olhos para o rosto dele e sentiu o controle sobre a própria vontade vacilar. Então, uma dúvida sobre si mesma a dominou. Estaria o intelecto em conflito com o coração e os direitos deste? Seria ela intelectual demais para amar? Sua Mente dominante a estaria impedindo de alcançar uma possível felicidade? Novamente, a voz dele suplicou:

– “Só o amor satisfaz! O Coração, e não a Mente, deve ser a voz decisiva! Sua mentalidade é imperiosa demais para se curvar ao seu legítimo soberano!”

Ela sentiu-se ceder novamente ao feitiço — aquele estranho feitiço que se apoderava dela aos poucos.

– “Marozia, você quer ser minha esposa?” — ouviu-o suplicar em um tom baixo e magnético. Seus olhos brilhavam com uma espécie de triunfo sutil. Ele tentou puxá-la para perto, mas ela se desvencilhou bruscamente mais uma vez. Pressionando as mãos sobre os olhos, ela recuperou a compostura.

– “Não — não — mil vezes não!”, repetiu ela, como antes.

O esforço de vontade rompeu o feitiço, e cada palavra serviu de estímulo à sua determinação. Uma expressão estranha cruzou-lhe o rosto; um observador atento poderia ter discernido nela uma mistura de fúria impotente e vexame. Ela não ousou olhar novamente para o rosto dele. Enquanto se apressava pelo caminho verdejante, sentia-se como uma rosa após uma criatura viscosa ter rastejado sobre o seu doce coração branco. Ansiava por escapar, por apagar a mancha deixada em sua consciência imaculada. Sabia — ela, que era ao mesmo tempo menina e mulher — que o amor não deixaria tal mácula; que uma natureza elevada e pura não imprimiria tal marca na sua. Ouviu-o chamar por ela:

– “Marozia!”. Sua voz estava próxima.

– “Se você imagina que eu abandono um propósito tão friamente assim, está enganada sobre a minha natureza! Eu nunca vou desistir de você!”

– “Por favor, me deixe”, ela implorou, “Eu só quero esquecer!”

– “Suas palavras são uma confissão! Elas implicam que há algo a ser esquecido!”. Uma onda de vergonha ruborizou o rosto dela.

– “Não! Eu não poderia te amar e não me casaria a menos que pudesse te amar com todo o meu coração e alma!”

– “Por todos os poderes existentes, você vai me amar assim!”, ele exclamou com uma veemência surpreendente.

– “Eu não vou! Eu não faria isso mesmo se pudesse. Isso me mataria!”

Mesmo enquanto falava, temia que o feitiço retornasse.

– “Então você brincou comigo, Marozia Remington, e pagará por isso!”.

 De repente, a doce frescura da manhã havia desaparecido de sua vida.

– “Foi assim que Eva se sentiu depois que a serpente a deixou?”, perguntou.

– “Mas o que eu fiz para merecer esse sentimento de culpa? Nada conscientemente, mas tudo parece ter mudado!”

Mais tarde, ela soube o porquê. Quando compreendeu melhor os Ensinamentos Rosacruzes, soube que existiam vários tipos de vampiros. Hoje, ela não sabia como os Éteres do Corpo Vital podiam ser usados ​​para servir a algum fim vil e egoísta, e o mistério da experiência a aterrorizava.

Dia após dia, suas perplexidades se aprofundavam, e seu pai tornava-se mais silencioso e preocupado. Ele não havia ficado ocioso, mas seus esforços foram inúteis; as probabilidades jogavam fortemente contra ele. A única coisa que lhe trazia algum consolo era a atitude de Marozia em relação a Claude Rathburn. Isso estava em harmonia com sua própria percepção íntima. Ele sentia intuitivamente que tal união não poderia resultar em felicidade para Marozia. Sabia que ela precisava de muito mais lealdade amorosa e verdade do que a jovem comum, pois ela mesma oferecia muito mais. Com sua Mente brilhante e perspicaz, sua natureza profundamente analítica e seu temperamento artístico, ela era rica em potencialidades. Poucos homens estariam à altura de seus padrões elevados, mas feliz seria aquele que pudesse ser o seu cavalheiro!

Seus padrões não eram impostos arbitrariamente de fora — como as convenções sociais —, mas eram inerentes à sua própria natureza sublime. Eles nasciam de suas convicções íntimas e eram formados pela substância do plano em que sua consciência estava centrada. Suas convicções eram parte integrante de seu ser. Cálculos materialistas e mercenários sempre lhe causavam profunda repulsa; no entanto, esse era justamente o aspecto que tingia todo o pensamento de Claude Rathburn. Ele se cercava de uma aura através da qual pensamentos elevados e nobres jamais conseguiam penetrar.

Nessa fase, ela não havia racionalizado a questão, mas sentia instintivamente a falta de harmonia entre eles. Contudo, exercia-se pressão de todas as esferas para unir a vida dela à dele.

Enquanto Ralph Remington observava com aprovação a atitude de sua filha em relação a Claude Rathburn, ele aguardava o momento crítico de seus negócios.

CAPÍTULO X – AJUDAR SOMENTE QUEM QUER SER AJUDADO

Durante as conversas diárias de Marozia com a Sra. Morton, ela percebeu a necessidade não apenas de impulsos altruístas, mas de impulsos altruístas concretizados — se quisesse alcançar seus horizontes distantes. Num rápido lampejo de lucidez, ela vislumbrou — com sua aguda percepção mental — uma imagem de si mesma nada admirável. Viu-se como alguém que apenas fingia diante da verdade — diante do tribunal interior —, mas que não estava disposta a fazer o sacrifício necessário para vivenciá-la de fato.

Sob aquela luz reveladora, sua autossuficiência mostrou-se não passar de autocomplacência. A percepção que tinha da unidade subjacente parecia servir apenas como um campo mais amplo para nutrir e incentivar o crescimento de uma separação ainda mais intensa.

Seu ideal exigia dela uma perfeição interior e inata, e essa perfeição residia apenas na direção do belo altruísmo que sua filosofia lhe impunha. Contudo, um sentimento de revolta e repulsa em relação às Personalidades humanas ao seu redor a impedia de alcançar esse propósito altruísta. Ela teorizava sobre a beleza e a verdade abstratas; adorava sentar-se no isolamento refinado da biblioteca de seu pai, cercada pelos clássicos da antiguidade, lendo Platão, Bacon e Emerson. Gostava de traçar o Esquema de Evolução à luz dos Ensinamentos Rosacruzes. Por entre todas as complexidades e meandros da Evolução, sua Mente insistia em retornar ao silêncio onde ela, o Ego que é, podia comungar com o Infinito. Repousando em Deus — a grande Fonte da vida —, ela podia observar e acompanhar o primeiro movimento do Verbo através da substância primordial: o polo negativo do ser. Depois, a manifestação em inúmeras formas, o nascimento de Mundos, as diversas Ondas de Vida iniciando sua longa Involução – a parte do Esquema de Evolução para frente e para baixo, rumo a densidades maiores dos Mundos e Regiões –, sua descida a uma matéria cada vez mais densa. Quando o ponto mais baixo da materialidade era atingido – o Nadir da Materialidade –, começava então a ascensão pela longa trilha de volta ao Infinito (a parte Evolução do Esquema de Evolução: para frente e para cima), munida de todos os poderes adquiridos através de provações e tempestades, de sofrimento e dor. Tudo isso — essa contemplação elevada — era fascinante para ela; mas vivenciá-la em meio a todas aquelas Personalidades repugnantes… ah, essa era a parte difícil! No entanto, era isso que ela precisava fazer para alcançar a meta! Ela se sentia com uma Personalidade dual. Uma parte travava uma batalha perpétua contra a outra. Às vezes, vislumbrava claramente a vida altruísta de amor Crístico, do serviço e da compaixão. Em outros momentos, porém, o sentimento de separação a dominava, e ela se via delimitada, como que por uma linha definida, em relação aos outros seres. Sua Individualidade era dominante e completa. Havia chegado ao ponto além do qual não poderia se manifestar sem perigo.

Uma alma que realmente deseja conhecer e viver a verdade descobrirá que todos os seus caminhos convergem para aquele único ponto focal e, desafiando todas as forças contrárias, será guiada ao seu objetivo. Sua autoconsciência fundir-se-á com o autoexame. O pensamento examinará seus próprios movimentos com interesse crítico — não para fins de pesquisa psicológica comparativa, mas com um propósito benéfico. Sob essa perspectiva, o autoexame jamais degenerará em amor-próprio ou autopiedade.

Quando impulsionado por um propósito altruísta, o crescimento da alma é favorecido. Nessa fase de sua experiência, a imagem de Sarah Thomas surgia constantemente em sua Mente. A conversa que tivera com a Sra. Morton, na primeira manhã após seu retorno para casa, voltava-lhe sempre à memória. Em sua nova dedicação a servir à Humanidade, ela sabia que precisava começar pelo lar, pelo círculo mais próximo, e ajudar aquelas pessoas de todas as maneiras possíveis. A condição comovente de Sarah despertava-lhe a compaixão, mas sua Personalidade causava-lhe profunda repulsa. Era uma Personalidade tão desafiadora, insolente e de uma audácia tão grosseira que, até aquele momento, não surgira qualquer oportunidade de oferecer ajuda. Ainda assim, ao lembrar-se do desejo de Sarah de obter instrução, de seus esforços heroicos nesse sentido e dos obstáculos intransponíveis que lhe eram impostos, a compaixão crescia, a despeito da atitude repulsiva da moça. Certo dia, ela foi procurá-la com o desejo sincero de transpor o abismo que as separava, a fim de influenciar a vida de Sarah de maneira edificante. Dirigiu-se à casa da fazenda da Sra. Gregory. Era dia de bater a manteiga, e sua chegada foi inesperada e inoportuna. A atitude da Sra. Gregory foi hostil; ela considerava a visita de Marozia à sua “ajudante” uma intromissão indevida. A “ajuda” dela era vista apenas como algo destinado a bens e objetos materiais — eles não tinham almas que pudessem ser ajudadas ou esmagadas.

O sorriso de Marozia era elétrico e radiante. Ela estendeu a mão cordialmente ao se aproximar de Sarah, que moldava a manteiga em pãezinhos. A recepção que Marozia teve passou longe de ser amigável. Os olhos de Sarah se estreitaram obliquamente ao lançar-lhe um olhar de soslaio — e, em seguida, um ar de desconfiança surgiu neles. Ela continuou seu trabalho e respondeu em monossílabos. As tentativas de aproximação de Marozia foram em vão — não surgiu nenhuma brecha para um interesse amigável, e ela partiu com o coração pesado e o entusiasmo um tanto arrefecido.

— “Afinal, qual é a utilidade disso?”, perguntou-se mentalmente, enquanto descia a colina em direção à escola de tijolos vermelhos para encontrar o pai. — “Será que não temos uma visão distorcida do serviço nesta era de atividade intensa, voltada para manifestações externas? O caminho de Emerson[1] não seria o melhor? Será que realmente ajudamos as pessoas ao nos esforçarmos tanto — ao interferirmos, de alguma forma, em seus destinos? Os teosofistas são regidos pela lei rígida e imutável do carma. Nós vamos para o outro extremo e damos tanta ênfase ao ‘serviço amoroso e desinteressado ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade’ que Mentes pouco criteriosas acabam interferindo no processo evolutivo. Esquecemos que a Epigênese cuida de toda vida em desenvolvimento na forma humana — e faríamos bem em não interferir na evolução alheia, mas sim ajudar sempre e onde o dever claramente apontar o caminho. Sarah evidentemente não deseja minha ajuda — ela se ressente do que considera uma intromissão — e, no fim das contas, ela provavelmente tem razão! Ela tem seu próprio destino a construir — não pediu ajuda, e não tenho justificativa para assumir a prerrogativa de uma instrutora. Pelo menos isso me ensinou uma lição: viver minha vida, irradiar toda a luz que puder e estar sempre pronta para ajudar quem precise de meus serviços e os solicite, mas nunca me impor ao outro. Cada um deve conquistar sua própria salvação — buscar seu próprio desenvolvimento!”.

Assim ela refletia enquanto caminhava pela estrada poeirenta. Sarah, por sua vez, alimentava seu espírito de ódio ciumento e ressentimento surdo contra a jovem cujos dons e graças se destacavam, nitidamente delineados, contra o fundo sombrio de sua própria insuficiência. Ela se sentia tratada com crueldade pelo destino e ansiava por vingança.

— “Aquela convencida… não precisava vir aqui bisbilhotar! Ela se acha melhor do que eu só porque teve vantagens que eu não tive! Pois eu ainda vou me vingar de você, Marozia Remington — porque eu te odeio!”. Então, uma diabinha maliciosa esgueirou-se para trás de seus olhos e espiou para fora. A expressão era tão diabólica e de escárnio que a Sra. Gregory a notou e exclamou, com aprovação:

— “É melhor ela cuidar da própria vida e não aparecer mais por aqui! Ela só vem para ‘espiar o terreno’ — como minha avó costumava dizer!”. Sarah não respondeu; estava ocupada planejando uma vingança.

O tipo de pessoa que Sarah representa é frequentemente encontrado por trabalhadores altruístas; aqueles que têm maior clareza de visão consideram sábio deixá-las trilhar seu próprio destino. Elas têm lições a aprender que só podem assimilar verdadeiramente sozinhas — por meio do sofrimento. Tentar protegê-las disso — tentar suportá-la em seu lugar — é frustrar ou retardar o seu desenvolvimento. Muitas almas compassivas cometem esse erro, apenas para descobrir, mais tarde, que interferir na evolução de outra pessoa — mesmo com as melhores intenções — é um erro e nunca ajuda o indivíduo em questão. É aqui que o Exercício Esotérico Rosacruz de Discernimento deve ser aplicado repetidamente, a cada nova situação.

Marozia travava agora batalhas diárias consigo mesma. Enquanto isso, outras forças moldavam o destino dela e de seu pai.

Ralph Remington recebeu, de repente, a notícia de que seus serviços como professor da escola do vilarejo não seriam mais necessários. Quando o período letivo de outono começou, um pedagogo ianque assumiu o seu lugar. A escola se rebelou, e alguns dos rapazes mais velhos — homens em porte físico — carregaram-no ignominiosamente nos ombros e o depositaram nas águas rasas do riacho. Na vez seguinte em que ele apareceu, uma rolha cravejada de alfinetes serviu de substituto para a almofada da cadeira de sua mesa. Ao ameaçar castigar todos os meninos, começando pelo mais velho para não deixar escapar o verdadeiro culpado, ele acabou recebendo um novo banho no riacho. Atrás da cadeira, no quadro-negro, lia-se a seguinte inscrição em letras grandes de forma: “Consagrado à memória de Ralph Remington, professor”! O pedagogo recém-contratado pediu demissão.

A escola enviou uma petição pedindo a reintegração do antigo professor, mas o Conselho manteve-se irredutível. A influência de Horace Rathburn era poderosa. Por fim, solicitou-se a Ralph Remington que, em nome da lei, da ordem e da educação, conversasse com os alunos rebeldes. Ele deixou de lado suas mágoas e apresentou-se diante de seus antigos alunos com um profundo brilho místico no olhar; defendeu seu sucessor, apelando para a honra e a lealdade deles como futuros cidadãos. Eles ouviram com atenção, de semblantes contritos, depois que a tempestade de aplausos que saudou seu reaparecimento entre eles havia cessado. Ele despertou o que havia de melhor neles e, sem uma palavra de censura, fez com que se sentissem culpados. Rubores de vergonha subiram pelos rostos bronzeados e sardentos, e uma mudança de atitude se operou. Ele retornou à quietude de sua biblioteca e escreveu até altas horas da noite. Dia após dia, crescia nele uma ansiedade febril para terminar seu livro. A necessidade agora o impulsionava.

O professor ianque estava novamente no cargo, e as coisas na escola prosperavam aparentemente. No coração dos alunos, porém, havia uma rebeldia secreta. Ralph Remington fora extremamente consciencioso em seu trabalho como professor. Em cada Mente sob sua orientação — desde o garoto descalço e de rosto sardento que lutava penosamente com a divisão longa até o jovem estudioso cuja Mente ágil resolvia com facilidade problemas de geometria —, ele via um possível “gênio” em embrião.

— “Pois quem pode prever o futuro de qualquer um destes rapazes?”, disse ele, respondendo à sugestão bem-humorada de Marozia de que parte do material humano ali presente não parecia muito promissor. Marozia sempre via o lado divertido das pessoas e das coisas.

— “Imagino que não seria difícil ‘prever uma carreira’ para alguns deles — para Billy Jenkins e Peter Rooney, por exemplo!”, respondeu ela, com seu habitual sorriso espirituoso.

— “Ah, minha querida, devemos lembrar que alguns, cujo início foi extremamente desfavorável, surpreenderam o mundo com suas realizações. Não podemos nos dar ao luxo de deixar que uma única alma perca uma oportunidade de cultura. Nós, que cuidamos deles, devemos trabalhar incansavelmente. Poucos professores compreendem plenamente sua responsabilidade; caso contrário, seu trabalho apresentaria melhores resultados.”

— “Suponho que, para muitos, o ensino seja apenas um ofício”, respondeu Marozia, pousando a mão com carinho sobre a cabeça dele.

— “Deveria ser uma Religião!”, respondeu ele com fervor.

Como todo professor que possui notável habilidade aliada a grande originalidade, ele nutria certas teorias próprias sobre sua profissão — teorias que formulava e aplicava diariamente. Isso, no entanto, deve ser dito no passado, pois seu trabalho como professor na escola do distrito havia chegado ao fim. Outras teorias, patrimônio comum de todos os sábios e eruditos, haviam adquirido um caráter distintivo — um toque de sua Personalidade marcante — à medida que eram desenvolvidas em detalhes por sua Mente ávida e incansável.

Ele atribuía grande parte da atual apatia em relação às coisas mais elevadas e refinadas da vida aos princípios falsos assimilados durante a fase inicial do desenvolvimento mental.

— “Uma vez estabelecido o alicerce adequado, minha filha, a Mente, à medida que progride, naturalmente assimilará os elementos necessários para o seu próprio crescimento.”

— “Mas e quanto à responsabilidade do “Ego” nessa questão, querido pai? Ele não desenvolveria suas capacidades sob quaisquer circunstâncias? O ambiente em que Lincoln cresceu representava um grande obstáculo; ainda assim, ele se desenvolveu e realizou sua obra magistral a despeito disso.”

— “Lincoln era um Ego avançado — forte o suficiente para forjar seu destino contra todas as forças contrárias. Nem todas as almas estão à altura dessa tarefa. Algumas mantêm suas capacidades em estado latente e precisam de auxílio para desabrochá-las e utilizá-las plenamente. Cabe aos educadores da Humanidade proporcionar essa oportunidade.”

— “Sim, compreendo”, assentiu Marozia. “Cabe a eles lançar os alicerces, e o Ego responderá de acordo com seu estágio e desenvolvimento.”

— “E o alicerce deve ser amplo”, concluiu ele. “Amplo o suficiente para permitir que qualquer altura seja alcançada em anos futuros, sem comprometer a simetria.”

Essas ideias eram expressas de tempos em tempos, enquanto ele conversava com Marozia sobre o seu trabalho. Eram sempre proferidas naquele estilo peculiar, sincero e eloquente — quase forense —, que possuía um charme próprio, tão em harmonia com a sua dignidade gentil e o seu caráter elevado. Ele sentia profundamente a humilhação presente, mas a tristeza por ser forçado a abandonar seu amado trabalho era ainda mais intensa.

Forças sutis do mal pareciam agora conspirar contra ele. Esse fato lhe ocorreu pela primeira vez quando rostos desviados e cumprimentos constrangidos o recebiam a cada esquina. Alguns o cumprimentavam com uma aparente cordialidade, mas, através da tênue camada de interesse presumido, revelavam uma suspeita antipatia ou animosidade ciumenta. Essa é a mais desprezível das afrontas a uma natureza nobre. Era sempre transparente para sua inteligência ágil e sensível e evocava, com o silencioso desalento de sua grande alma, um sublime desprezo. Ele desprezava toda a trama desonesta, toda a mesquinhez. Era impossível para ele compreender a repentina retirada de estima e honra. Ele sabia que era tão digno quanto antes. Sua inocência não reconhecia o veneno secretamente destilado. Alguns inimigos nunca agem abertamente.

Eles têm o dom de aparentar amizade enquanto apertam seus laços com mais força ao redor da vítima desavisada. Horace Rathburn dizia com um sorriso que pretendia ser convincente:

— “Ah, sim, coitado do Ralph, ele nunca conseguiu se dar bem. Tudo lhe escapou por entre os dedos, pura má administração e… sonhos! Sinto muito por ele e gostaria de ajudá-lo ainda mais, mas é como jogar dinheiro na rua. Ele nunca consegue resgatar suas notas promissórias e… bem, você conhece o velho ditado: ‘A caridade começa em casa’. Eu o sustentei o máximo que pude!”.

Assim, ele se fazia de amigo bondoso e interessado, enquanto espalhava a impressão, onde causaria mais danos, de que Ralph Remington era pouco menos que um indigente dependente de sua caridade. Após mais um encontro entre Marozia e seu filho Claude, ele redobrou seus esforços para torná-lo um indigente de fato. Ele tinha seu próprio método para fazer isso.

Como Claude gozava de grande prestígio com a Sra. Remington, sua estratégia era esperar o momento certo para o golpe final. Por amor a Claude, ele cederia agora mesmo se Marozia pudesse ser persuadida a ceder sem os métodos inquisitoriais. Começava a parecer sem esperança desde o último tête-à-tête relutante dela com Claude. Enquanto isso, ele gradualmente apertaria os laços em torno de sua vítima inocente. Era fácil para ele atingir seus objetivos, pois era um homem de negócios tanto na aldeia quanto no mundo exterior.

— “Ainda vou forçá-los a agir!”, murmurou ele em sua linguagem de jogador.

Foi bom para a alma orgulhosa e sensível de Ralph Remington que ele desconhecesse a extensão total das calúnias em circulação. Ele não imaginava que era considerado indigente e desonroso. Ele não imaginava que sua nobre e elevada amizade com a Sra. Morton fosse mal interpretada. Algumas dessas calúnias cruéis se originaram da mulher que carregava seu nome.

Seu ciúme, e mais tarde seu rancor pela recusa do marido em coagir Marozia a aceitar Claude Rathburn, foram os motivos subjacentes em suas ações dissimuladas.

Quando uma alma se destaca de seus pares por uma grandeza interior, ela é sitiada pelos poderes do mal. Sua força e fibra são testadas a cada instante. É necessário que as forças das trevas afastem toda inteligência elevada consagrada aos fins mais nobres — se quiserem ter sucesso em seus propósitos diabólicos. Toda alma radiante, forte e nobre é uma barreira para suas ações malignas de arrastar a Humanidade para baixo.

Assim, toda grande alma imbuída de ideais nobres, com um propósito elevado, é um alvo para seu ataque aberto ou uma marca para sua astúcia secreta e mortal. Elas agem de muitas maneiras — às vezes por meio de um trabalho amado realizado a serviço da Humanidade — às vezes por meio de pessoas fracas e negativas que são facilmente influenciadas por forças externas. Uma mulher que se coloca como esposa pode ser a inimiga mais cruel e implacável para um homem de grande alma. Assim foi no caso de Ralph Remington. Enquanto caminhavam distantes, ele com seus ideais elevados, ela com sua Mente vil e sórdida, totalmente voltada para bens materiais, para objetivos e fins egoístas, ela se tornou sua inimiga mais sutil. Ela cooperou com Horace Rathburn à sua maneira astuta, sem perceber as consequências totais de suas ações sobre si mesma e sobre os outros. Como muitas outras Mentes inclinadas à vingança e ao rancor, ela lançou um bumerangue que acabou se voltando contra ela mesma. Almas imaturas desconhecem a Lei de Consequência que opera de forma segura e imutável, a menos que a pessoa seja grande e boa o suficiente para transcendê-la. Para isso, a consciência Crística deve ser despertada.

A Sra. Morton viu e ouviu muitas coisas com o horror indignado que a verdadeira amizade sente por um amigo que está sendo difamado. Ela fez tudo o que pôde para frustrar os planos malignos de Horace Rathburn e sua ingênua, a Sra. Remington, mas o mal é sutil e mortal, enquanto a bondade é aberta e desprevenida.

Ralph Remington gradualmente se afastou de seus semelhantes e passou a viver em comunhão com os grandes de todas as épocas e com seu Deus. Muitas experiências profundas lhe foram vivenciadas enquanto vivia em silêncio. Diariamente, ele comprovava a veracidade de suas convicções íntimas, concretizando o que fora uma intuição de longa data. Sua visão etérica estava se desenvolvendo e ele podia ouvir a música mais maravilhosa ao despertar pela manhã, revigorado após sua imersão nos Mundos internos. Ele sentia, mais do que via, a presença de Inteligências Superiores, e a comunhão silenciosa com elas o inspirava para o trabalho e o sofrimento diários. Agora, trabalhava incessantemente em seu livro, que tratava de problemas psicológicos profundos e que ele concebeu como um auxílio complementar para estudantes dessa Ciência. Ele tinha uma visão tão esclarecida da utilidade daquilo para professores e alunos — especialmente por poder relacioná-la ao ensino maravilhoso que recebera graças à estadia de Marozia em Utica — que se sentia ansioso, quase com um entusiasmo infantil, por concluí-la. Esse envolvimento em um esforço elevado revelava-se benéfico para ele naquele momento, diante da crise iminente.


[1] N.T.: “Caminho de Emerson” refere-se, mais notavelmente, à filosofia individualista e de autossuficiência do ensaísta e transcendentalista americano Ralph Waldo Emerson, centrada na verdade interior e no não conformismo. O termo também pode se referir a “Emerson’s Way”, um romance de mistério da série “Emerson and Snow”.

CAPÍTULO XI – É PRECISO UMA TEMPESTADE OU UMA CRISE PARA DESPERTAR UMA NATUREZA APÁTICA

A fortuna dos Remington havia ruído! A tempestade finalmente havia passado, e uma mudança significativa chegara à vida dos moradores da Villa. Houve um leilão de bens domésticos — uma renúncia forçada aos seus lares e pertences mais caros. Até mesmo o velho sótão fora profanamente invadido e devastado. Todos os seus tesouros de outros tempos sucumbiram, seja sob o martelo implacável do leiloeiro ou diante das línguas vermelhas e devoradoras da fogueira. Os móveis antigos — há muito banhados dos cômodos inferiores, mas ainda ricos em mogno e jacarandá esculpidos à mão — juntaram-se à procissão silenciosa de rocas e teares, cadeirões e berços que seguiam para a coleção do Sr. Watson, um novo-rico e caçador de relíquias sem escrúpulos. Nada escapou no sótão, exceto os baús com o enxoval de noiva — peças de linho tecido em casa, perfumadas com lavanda e amareladas pelo tempo — e os ricos brocados de seda antiga, com suas saias opulentas e corpetes de renda rígida, que haviam servido a mais de uma noiva da família. Esses baús foram arrastados de seus cantos escuros sob o telhado inclinado, despertando uma colônia de aranhas e centopeias. Uma carroça agrícola estacionada na varanda oeste continha o que fora salvo do desastre e transportou os pertences para uma casa de quatro cômodos perto do moinho em ruínas. Dali em diante, aquele seria o “lar” dos “orgulhosos Remington”. A Villa passara para as mãos de Horace Rathburn.

Enquanto a carroça descia lentamente pela estrada da colina, Sarah Thomas — que levara uma jarra de bebida azeda para Tom Gregory — parou e sorriu. Era um sorrisinho malicioso. Tom transportava pedras para construir outra cerca e, enquanto sua carroça de pedras descia pela trilha verdejante, Sarah parou sob uma grande nogueira e observou a carroça carregada de móveis balançando perigosamente, prestes a tombar na estrada íngreme e pedregosa. Sarah talvez sentisse um pouco de pena se não odiasse Marozia Remington com um ódio invejoso. Ela puxou as fitas de seu chapéu de sol, pensativa.

— “É apenas uma forma de equilibrar as coisas!” — exclamou ela em voz baixa. A Sra. Gregory girou o corpo em direção a ela (essa é a única palavra que descreve perfeitamente seu andar peculiar), com as fitas do chapéu voando ao vento. Ela possuía um talento nato para farejar fofocas e jamais deixava escapar nada do que acontecia — especialmente aquelas coisas que deveriam, de preferência, transcorrer com certa discrição. Nenhum veículo passava pela estrada da colina sem que os olhos ou ouvidos atentos da Sra. Gregory o detectassem. Ambos os sentidos eram aguçados, como convinha à sua avidez por notícias da vizinhança.

Sem dúvida, ela devia parte de seu sucesso nessa área à dedicação absoluta à sua “atividade”. Jamais permitia que trivialidades como bater manteiga, varrer ou passar roupa interferissem na coleta de notícias. Essa era a sua verdadeira vocação; todas as tarefas domésticas não passavam de questões secundárias. Com as mãos ainda sujas de massa ou água de lavar louça, ela pegava seu chapéu de sol e, com as mãos na cintura, examinava cada detalhe da cena que se desenrolava diante dela. Nessas ocasiões, sua postura compunha um elemento marcante da decoração do jardim — algo que combinava perfeitamente com o local. Aquele pedaço de verde, a que se dava o nome de jardim, consistia em grama alta e desgrenhada, malvas-reais exuberantes e canteiros de petúnias, calêndulas e cravinas que lutavam timidamente para ganhar destaque em meio ao tanaceto e à erva-de-gato. O cenário era tão grotesco e absurdo quanto a própria Sra. Gregory.

— “Ora, Sa-ry, o que foi que eu te disse?” — ela ofegava enquanto avançava com todo o seu vulto imponente em direção à pequena figura sob a nogueira. Seu peso lutava heroicamente contra a ladeira e o calor, mas, naquele caso, a recompensa era mais do que satisfatória. Ela estava radiante e, pela primeira vez, a demora de Sarah não rendeu nenhuma bronca. Acomodou-se sob a árvore, de onde se tinha uma boa vista da carroça que descia, e começou:

— “Os Remington acabaram vindo morar aqui embaixo mesmo! Eu te disse no ano passado que eles desceriam! Você não se lembra de eu ter dito, em tom de brincadeira, exatamente estas palavras — pelo menos que eu me lembre, e é claro que ninguém consegue se lembrar de cada palavra dita, mas, como eu ia dizendo… pelo que me recordo, foi exatamente isso que eu te disse, Sa-ry Jane, no dia em que você veio morar aqui comigo: ‘Pode anotar o que eu digo: a Maroshy Remington ainda vai cair do cavalo — quer ver só? Ela nasceu, mas ainda não morreu!’ Você não se lembra de eu ter dito isso? (Não precisa desviar o olhar e fingir que não lembra! Eu sei que o Tom está chegando, mas não importa, escute o que eu digo!). Ouvi umas coisas naquele dia que prometi não contar (e nunca contei para ninguém, exceto para a Sra. Peters, a Sra. Slater e mais uma ou duas pessoas que eu achava que deviam saber!)”. Ela fez uma pausa para se abanar com o avental.

— “Dizem que a Maroshy está de olho num sujeito rico de Nova York! Ele anda rondando a Villa há um bom tempo — imagino que ele achasse que os Remington eram ricos, pelo jeito que eles se exibiam! As meninas Watson também estão atrás dele e, provavelmente, vão ficar com ele agora — afinal, é claro que ele não vai querer nada com uma moça pobre!”. Uma pontada de ciúme, acompanhada de medo, atravessou o coração de Sarah. A Sra. Gregory continuou:

— “Engraçado, não é? Ela ia para Utica estudar, sendo que o pai dela também é professor… Imagino que tenha sido só para se exibir para aquele sujeito de Nova York! Pois é, tem gente que adora bancar a importante! Duvido que eu gastasse todo esse dinheiro só com estudo! Preferia investir em umas boas vacas!”.

A engrenagem na cabeça da Sra. Gregory tinha um mecanismo admirável. Raramente precisava de corda e nunca deixava de funcionar por uma ou duas horas, com apenas breves pausas. Sarah frequentemente sorria com ironia diante daquela confusão irremediável de palavras e valores. Ela já conseguia perceber a ironia das situações, agora que seu espírito havia sido marcado pela amargura. Às vezes, é preciso uma tempestade ou uma crise para despertar uma natureza apática ou revelar toda a força de uma Mente brilhante.

— “Você está com uma cor melhor, Sary, desde que começou a andar pela fazenda! Meninas não precisam de estudo, de jeito nenhum — isso as estraga e as deixa pálidas e com cara de doentes… além de deixá-las orgulhosas e metidas — como a Maroshy Remington! Bem, acho que ela vai baixar a crista agora! Digo, como eu gostaria de dar uma espiada neles agora, lá naquele barraco apertado! Bom… vamos lá, Sary, já ficamos paradas aqui tempo demais — temos que voltar para a nossa batedeira de manteiga! Depressa, leve a bebida azedinha cítrica para o Tom e não deixe que eu te pegue ficando nem um minuto a mais do que o necessário!”. A carroça da fazenda havia desaparecido de vista. Enquanto a Sra. Gregory se afastava com seu andar bamboleante, Sarah deixou transparecer seu desprezo e fez uma careta de nojo, caminhando sem ânimo em direção a Tom com a jarra de água com vinagre e açúcar. Com um sorriso cômico, ele estendeu a mão para pegar a jarra e, ao mesmo tempo, agarrou-a. Ela se livrou do aperto dele e ficou diante dele com os olhos faiscando.

— “Credo, eu não sabia que você conseguia ficar tão brava, Sally! Mas isso  deixa você muito bonita — juro que deixa!”

— “Nunca mais fale comigo, Tom Gregory — eu odeio você!”

— “Ah, não odeia não! Vamos lá, Sally — é assim que você fala com o Sr. Rattlebones? Esse é o nome dele, não é?”. O rosto dela ficou vermelho de vergonha e raiva enquanto ela se virava e o deixava para trás.

— “É isso que eu ganho! Eu mesma me coloco numa situação para ser tratada assim! Quem dera o Sr. Rathburn se casasse comigo e me levasse embora… aí sim eu ia mostrar para eles!”. Lágrimas de raiva brotaram em seus olhos. Tom não cantava mais enquanto trabalhava. Com um baque surdo, as pedras eram empilhadas para o muro.

Uma lembrança repentina fez Sarah parar bruscamente.

— “É exatamente aqui que eu estava no dia em que amaldiçoei Marozia Remington! Isso foi há quase um ano — antes de eu conhecer Claude! Dizem que as maldições, assim como as galinhas, sempre voltam para o poleiro — mas essa não! Ela foi direto para ela — e lá ficou! Ela até perdeu a casa — e o homem por quem tanto lutou! Eu ainda vou tê-lo, nem que isso me mate! Ele simplesmente tem de se casar comigo e me tirar desta vida miserável! Ele não parece muito entusiasmado com a ideia, mas usarei todos os recursos que tenho para conquistá-lo — e depois, não me importo com mais nada!”

Enquanto Sarah caminhava de mau humor, sentia amargura no coração. Ela andava insatisfeita com o trabalho — a rotina exaustiva havia se tornado insuportável.

CAPÍTULO XII – É NO PROFUNDO SILÊNCIO DA ALMA QUE A MENTE DIVINA FALA

Marozia estava desembalando os barris de louça e arrumando as peças nas prateleiras da despensa. Já não havia mais cristaleiras.

— “Não é simplesmente horrível?” — gemeu a Sra. Remington, torcendo as mãos em sinal de impotência e atrapalhando Marozia, que tentava diligentemente acomodar seis polegadas de louça em um espaço de quatro polegadas e, ainda por cima, criar um arranjo artístico.

Ralph Remington, o erudito, lutava heroicamente para ajustar um tapete a ângulos agudos, sendo que antes ele cobria um piso octogonal. Por mais que puxasse, virasse e tentasse soluções, o tapete não encaixava; por fim, ele chamou Marozia, que resolveu o problema com uma lata de tingidor para pisos, uma tesoura e alguns tapetinhos. Ao voltar para a despensa, sua mãe exclamou novamente:

— “Francamente… isso é horrível demais para se acreditar!”.

— “Tudo depende do ponto de vista, mamãe! Acho divertido — como brincar de dona de casa —, só que o papai vai ter de ficar sem a biblioteca… e sem outras coisas!”.

— “É, é sempre ‘papai, papai’! Meus sentimentos nunca contam! Nem sequer mereço consideração! Pois saiba que nunca vou lhe perdoar por isso! A culpa é inteiramente sua! Não tenho paciência para esse falso afeto que se resume a palavras! Você poderia ter evitado isso, mas fala como uma hipócrita sobre o papai ficar sem a biblioteca! Não suporto hipócritas!”.

— “Eu também não!” — respondeu Marozia enquanto subia em uma escada portátil. Aquele velho desafio irônico, que sempre a dominava quando as pessoas insistiam em julgamentos equivocados, faiscou em seus olhos.

— “Por que não se pode ser absolutamente justo — mesmo com um inimigo?” …exclamou ela mentalmente. Ela desprezava a intolerância tacanha que distorce e deturpa, que colore e falsifica a realidade para servir a algum rancor ou ódio ciumento. Uma estranha convicção surgiu-lhe de repente: a de que sua mãe era uma antiga inimiga. Devia ser assim, pensou ela ao recordar o passado. Não conseguia se lembrar de um único momento feliz ou gratificante passado com a mãe; sempre houvera, isso sim, um antagonismo profundo e sutil.

Sua natureza doce e verdadeira ansiava por amor e compreensão solidária, mas buscava isso em vão junto àquela que deveria estar mais pronta a oferecê-lo. Por que haviam sido reunidas nesta vida? Devia ser para nos tornarmos amigas, para aprendermos a amar uma à outra — concluiu. Então, de repente, um desejo intenso de reconciliação total com a mãe tomou conta dela. Precisava idealizar aquela situação angustiante para conseguir suportá-la; caso contrário, seu coração adoeceria com o conflito. Agora, restavam apenas os laços do lar. Poderiam ser felizes, mesmo ali, se houvesse amor no ambiente doméstico! O caráter de seu pai era absolutamente nobre. Se ao menos sua mãe conseguisse olhar além do aspecto material e unir-se a eles na busca por idealizar tudo o que havia de sórdido ou banal em suas vidas, até mesmo aquela experiência poderia tornar-se agradável e proveitosa! Restava-lhes o que era genuíno: caráter, Mente e Alma. Com amor e paz no lar, quatro cômodos pequenos valiam tanto quanto o luxo espaçoso da Villa. Com esses pensamentos, ela desceu a escada e pousou o braço carinhosamente sobre o da mãe, dizendo, enquanto sorria para ela:

— “Não se preocupe, mamãe; podemos ficar muito bem nestes quatro cômodos! (começou a dizer “felizes”, mas uma lembrança a fez hesitar.) O que importa é a vida em família! Podemos ter isso aqui!”.

— “Bem, não sei quais são as suas ideias sobre a vida, sinceramente!” — respondeu a mãe, em tom de queixa. — “Se é preciso ficar confinada numa caixa de madeira como esta, gostaria de saber qual é o valor da vida! Sem vida social, sem prazeres, sem renda — a não ser uma ninharia de vez em quando! Uma situação e tanto, devo dizer!”.

— “Mas, mamãe, a vida não consiste em coisas exteriores! A vida social, o ambiente e o modo de vestir podem ser desejáveis, mas são apenas acessórios. Pode-se prescindir da vida social, se necessário. Temos um pai — e ter a permissão de estabelecer um relacionamento íntimo e amoroso com alguém de tal caráter é felicidade suficiente para qualquer mulher. Não consigo ver como algo poderia acrescentar ou tirar da felicidade da vida quando se está unida a um homem como ele! Acho que as mulheres não dão a mínima importância aos homens nobres! Elas são muito propensas a considerá-los como garantidos.”. Havia uma tristeza melancólica e um anseio desesperado nos olhos de Marozia enquanto ela falava. Uma expressão feia e lasciva surgiu no rosto da Sra. Remington quando ela respondeu com um “Humph!” satírico. Um súbito lampejo de luz revelou a Marozia o verdadeiro caráter de sua mãe. Ela estremeceu de dor. Ela viu a longa decepção de seu pai, sua vida solitária. Havia uma disparidade infinita entre eles. Ele sempre caminhara sozinho, preso a algo grosseiro, vulgar, materialista — algo que o vampirizava.

— “Pobre querido pai!”, ela exclamou mentalmente. Então, o doce rosto da Sra. Morton surgiu diante dela e seu caráter encantador se destacou em nítido contraste.

— “Eu não o culparia nem um pouco por nada que ele fizesse! Mas ele é tão leal, tão bom e verdadeiro! Ninguém sabe — nem mesmo eu — o que ele teve que suportar todos esses longos anos!”. O laço que a prendia à mãe — o laço íntimo — foi rompido. Ah, quando as mulheres vão aprender! A voz angustiante da mãe soou novamente em seus ouvidos, mas desta vez não despertou nenhum sentimento. Caiu abafada, como qualquer som dissonante cairia em um ouvido sensível:

— “Quando você superar a fase da sentimentalidade boba, aprenderá que o amor não vale nada sem outras coisas. Você é tão visionária e sonhadora quanto seu pai! Não vejo por que você não poderia ter puxado um pouco a mim!”.

— “Eu não puxei a ninguém — eu sou eu mesma!”.

— “Bem, pelo menos você pode ser um pouco prática!”.

— “Eu sou — senão eu não estaria arrumando esta despensa agora! Isso nunca fez parte das minhas visões e ‘sonhos’. Você acha que essa porcelana azul ficaria melhor no meu armário improvisado?”.

Em todos esses reveses, há um lado grotesco e ridículo, se for possível separá-lo do patético que o envolve. O aguçado senso de humor de Marozia, aliado à sua capacidade de idealizar, a impediu de se tornar uma mera serva conforme as provações surgiam dia após dia. Ela percebeu que era inútil desperdiçar sentimentos com sua mãe mundana, então voltou-se silenciosamente para suas tarefas e escondeu outra dor em seu coração. Ela estava encontrando agora amplo espaço para todo o seu idealismo altruísta. Seus sofrimentos eram proporcionais ao seu requintado organismo mental e sensibilidade refinada, mas, em prol dos outros, eram tão habilmente ocultados que alguns fofoqueiros comentaram sobre a natureza superficial de Marozia Remington, que não conseguia sentir um golpe quando ele chegava. Seu brilhante idealismo era como uma brisa aromática que pairava sobre a calma sufocante das areias áridas.

Sua mãe só conseguia ver e sentir o desperdício opressivo dos níveis do Mar Morto. Quando a família repentinamente caiu abaixo do padrão aos olhos da futura aldeia aristocrata, ela estava absolutamente paralisada. Ela havia vivido unicamente para o elemento fraco e inconstante que muda de posição com a maré da mudança financeira ou qualquer outra influência igualmente absurda. Consequentemente, ela se viu comparativamente desamparada em sua adversidade. Ela invejava seu marido e sua filha pela serena indiferença deles às circunstâncias externas, mas os odiava por isso.

Um dia, ela se aproximou de Marozia em estado de histeria. Os Watsons a haviam esnobado — sim, a esnobado impiedosamente!

— “Eu nunca vou sobreviver a esse insulto!”. Ela lamentou.

O esnobismo, em qualquer forma, servia para revelar toda a energia e força latentes da natureza de Marozia. Ela considerava a própria quintessência da vulgaridade plebeia valorizar alguém por alguma circunstância externa acidental. Depositar respeito em uma base tão barata quanto o corte mais recente de um vestido ou o tamanho de uma conta bancária, em vez de valor intrínseco, proclamava a ordem extremamente baixa à qual tais árbitros autoproclamados pertenciam.

Seu desprezo por parasitas humanos e esnobes era diretamente proporcional ao poder penetrante de sua Mente. Ela sempre enxergava através das pessoas — por trás de todas as suas máscaras e disfarces. Seus lábios agora se curvaram em desdém ao se lembrar de algumas ocasiões no passado em que os Watsons figuraram, enquanto lutavam freneticamente para abrir caminho nas casas da nobreza do condado. Isso foi durante o período em que sua conta bancária estava começando a ser expressa em milhares em vez de centenas, quando montaram sua própria carruagem e deixaram de viver em uma casa alugada. Moravam na sede do condado naquela época, mas visitavam a mãe dela com frequência.

Enquanto a mãe lamentava agora a perda repentina de popularidade, Marozia recordava mentalmente aqueles outros dias em que consideravam uma honra constar na lista de visitas dos Remington. Um sorriso satírico passou por seu rosto expressivo ao lembrar das discussões profundas sobre as últimas modas e novidades quando estavam “reunidas em convenção” na Villa. Naqueles tempos, sua mãe — cuja Mente não conseguia enxergar além das aparências — franzia a testa e se tornava glacial quando Marozia tentava desesperadamente desviar a conversa de penteados elaborados e modismos para livros e autores, ou para algum tópico interessante da atualidade.

Marozia sentia um certo prazer malicioso ao tentar introduzir algum assunto que realmente valesse a pena discutir. Ela sempre sabia exatamente como terminaria. A Sra. Watson olhava para o vazio com uma expressão condizente, enquanto as moças tentavam parecer sábias, mas sorriam de forma afetada por trás de seus leques (elas sempre carregavam leques para esse fim)! Então, elas “achavam” que estava na hora de ir embora. Seus “achados” sempre surgiam exatamente no momento em que Marozia começava a contra-argumentar. Ela desprezava a atitude bajuladora delas naquela época ainda mais do que a atual postura de condescendência arrogante. Naqueles outros tempos, os Watsons foram responsáveis ​​por muitos desentendimentos entre Marozia e sua mãe. Certa vez, quando a atitude de desprezo da filha se tornou evidente demais, a Sra. Remington exclamou:

— “Você deveria ter vergonha de tratá-las assim; elas são as pessoas mais importantes do condado agora!”,

— “Então vamos cultivar as últimas!” — respondeu Marozia, com os olhos faiscando. Hoje, ela lembrou à mãe quão insignificantes eram elas e toda aquela classe superficial. Seu objetivo era altruísta, não de crítica. Ela esperava que a mãe pudesse enxergar as coisas reais e elevar-se acima do trivial e do lugar-comum, que não passavam de quimeras de uma visão distorcida.

O primeiro toque da pobreza e o desastre que a acompanhou foram como a geada precoce do outono sobre a videira: apenas acrescentaram uma nova cor à vida. O encanto ainda estava lá; a decadência ainda não havia começado. À medida que os dias passavam e o encanto inicial da novidade se dissipava, surgiam pequenas adversidades a serem suportadas — coisas triviais, vistas à distância por uma grande alma, mas que, na proximidade imediata, ganhavam proporções enormes e dominadoras.

Então, ela começou a perceber vagamente uma sensação de desilusão em seu mundo interior — especialmente quando a imagem de Claude Rathburn lhe vinha à memória. Ela tentava, agarrando-se às realidades simples do cotidiano doméstico, sufocar o anseio de seu coração feminino, que sempre desejava o abraço abençoado do amor. Passou, então, a entrar naquele estado mental e psíquico em que se tenta agarrar fios intangíveis e irrealidades emocionais. No fundo, por trás de toda a independência de seu caráter, ela desejava amar e ser amada. A desarmonia entre ela e sua mãe — entre sua vida e o ambiente em que vivia — era uma tortura para sua alma sensível.

— “A natureza certamente nos brinda com mais um de seus caprichos de fina ironia!”, exclamou ela em pensamento ao analisar a situação. Sua Mente ativa começou, então, a elaborar planos. Não era de sua natureza permanecer passiva e inerte diante de uma situação angustiante, nem aceitar com indiferença paciente um destino adverso.

Ela se rebelava contra imposições; não serviria como uma boa escrava do destino. Preferia criar o seu próprio destino. Em todo o processo de agitação e despertar de sua Mente, a verdade se revelava sob diversos ângulos. Até mesmo as virtudes assumiam significados novos e diferentes no fogo da experiência. A paciência, por exemplo, em certas circunstâncias, parecia não passar de paralisia de sentimentos ou ações, de indiferença, de falta de energia; e a mansidão, mera aspiração acorrentada. Ela tinha uma aversão profunda a grilhões. Seu espírito livre ansiava por planar pelos ares sutis, sem algemas. Contudo, a vida aqui, nesta prisão, é sempre vivida sob grilhões, ponderava ela. É apenas uma questão de grau. Mesmo nas condições mais ideais, o Espírito tem plena consciência das paredes de sua prisão.

Então, uma parte dos ensinamentos do Sr. Arlington sobre as dívidas para com a Lei de Consequência lhe veio à Mente.

— “Podemos ser de pouca utilidade para os Grandes Seres enquanto nossas dívidas para com a Lei de Consequência não forem pagas ou anuladas pelo serviço amoroso e desinteressado (portanto, o mais anônimo possível) ao irmão e à irmã ao nosso lado, focando na Divina Essência oculta em cada um de nós, que é a base da Fraternidade”, ele havia dito repetidamente nas aulas durante o ano anterior. Isso lhe ocorreu com um novo significado agora, diante das limitações impostas pela situação angustiante em que se encontrava.

— “Em casos assim, suponho que nada além de paciência e resignação possa ajudar”, concluiu ela, após um profundo exame de consciência.”.

A renda de Ralph Remington tornara-se muito incerta. Provinha exclusivamente da venda de artigos educacionais para várias revistas. Às vezes, a demanda era pequena, e a remuneração, proporcional. Tornou-se uma luta suprir as necessidades diárias. Essa preocupação incessante com questões financeiras retardava o progresso de sua obra maior. É difícil para o Eu Superior imprimir uma mensagem no cérebro quando este está distraído por preocupações. É no profundo silêncio da alma que a Mente Divina fala.

Um plano concreto tomou forma na Mente fértil de Marozia, pelo qual ela poderia aliviar, em termos práticos, parte dos fardos de seu pai. Ela havia decidido dedicar-se ao ensino — essa seria a missão de sua vida — e o primeiro passo foi dado quando, por influência do Reverendo Morton, recebeu uma oferta para lecionar em uma escola de um vilarejo vizinho. Ao aceitá-la, ela sabia que estava seguindo o caminho apontado pelo dever; a orientação era inconfundível. Um dedo luminoso apontava para o alto, e ela sorriu radiantemente enquanto sussurrava: “Sic itur ad astra.”[1]


[1] N.T.: “assim se vai aos astros” ou “é assim que se sobe aos céus”.

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