“Mas ai de vós que agora rides, porque haveis de lamentar-vos e chorar” (Lc 6:21-25)
Vejamos, primeiramente, o sentido esotérico de CHORAR e RIR. Logicamente o Mestre não se referia aos choros superficiais e astutos, como o “choro chantagem”, o “choro-moleza”, o “choro masoquista” e outros choros bem conhecidos, com seu fundo vicioso. Chorar por chorar não conduz a nada. Se o chorar valesse, os que choram para não enfrentar um desafio necessário; os que choram para atrair atenção e consolo; os que choram para diluir resistências; os que choram por males imaginários; etc. seriam os mais aquinhoados por Deus e os mais perfeitos dentre os humanos.
Nada disso. Este passo refere-se ao choro redentor, ao choro transformador, marcado pela consciência que reconhece e aceita seus erros; aquele que dissolve a crosta da relutância egoísta e abre a alma para nova e melhor etapa. São as lágrimas que extravasam dos olhos ao coração, amolecendo a carapaça do egoísmo para que a semente do amor possa germinar e produzir a cento por um.
E o RIR? Será o rir sem motivo; a alegria solta dos instintos? A euforia suscitada pelo álcool? O riso malicioso e turvo provocado por uma piada indecente? Será o sorriso hipócrita? O bom humor daquele que se sente mui seguro com seus recursos materiais? Será a alegria superficial, efêmera, das diversões mundanas? Esse rir é o condenado pelo versículo 25 de São Lucas.
Mas há um riso legítimo, uma alegria sã, natural, desejável, citada por Cristo: “Dou-vos a minha paz para que minha alegria esteja em vós e seja perfeita a vossa alegria e ninguém mais tire de vós a vossa alegria”! Chama-se alegria perfeita a esta alegria interna, pura, saudável, para destacar da outra alegria imperfeita que brota da natureza inferior. Essa alegria do Cristo interno pode ser experimentada por todos; suposto que se sobreponham aos aspectos viciosos do ser. O mundo é um “vale de lágrimas”, porque é uma escola de experiências. Mas é também um monte ensolarado de alegrias. Tristeza de constatar a resistência dos condicionamentos viciosos; alegria pelos lampejos de natureza real. Tudo o que passar desses naturais e compreensíveis estados, de tristeza e alegria conscientes, é manifestação do vício, dos instintos, da malícia. Sócrates observou sabiamente: “As expressões ruidosas de alegria são outra forma de violência”. Ora, tudo o que seja vicioso há de ser corrigido no decorrer da evolução humana. Infelizmente, como os maus hábitos são, regra geral, muito velhos e profundamente enraizados, resistem à correção. Não que estejamos recomendando a violência com eles. Seria desastroso: violência gera violência. O Cristo recomendou: “Não resistir ao maligno” (em nós). Quer dizer: não lutar contra os vícios de nossa natureza inferior; apenas tomar consciência deles para saber que eles existem em nós; para reconhecer que são indesejáveis e retardantes da evolução, e não permitirmos que nos prejudiquem. Por outro lado, buscar, paciente, diária e persistentemente, cultivar novos e melhores hábitos.
Disse o Mestre: “Lançai o machado à raiz da árvore” (que não dá frutos: as vivências que não edificam). Se cortarmos apenas os galhos, tornam a crescer. A natureza inferior é muito astuta e, como a Hidra de Lerna derrotada por Hércules, tem muitas cabeças falsas e apenas uma verdadeira. Às vezes pensamos haver superado um mau hábito e, na verdade, apenas fomos induzidos a substituí-lo por outro igualmente vicioso: cortamos uma cabeça falsa e nasce outra. O egoísmo é assim: a única real cabeça da Hidra; com essas camuflagens e trocas provisórias nos ilude. E continuamos a sofrer.
“O único pecado é a ignorância; a única salvação é o conhecimento aplicado”. A verdade nos liberta quando a cultivamos na espiritualidade autêntica pelo estudo, meditações, observação de si. Só assim podemos dissolver, aos poucos, nossas limitações (cegueira, surdez da persona às realidades espirituais), abrindo-nos à intuição, à Verdade que nos iluminará de dentro.
Para o ser de nível comum (nos quais incluímos os espiritualistas teóricos) só a dor, o sofrimento, são os meios frequentes de despertar. Não que Deus castigue; não que Deus imponha o sofrimento; senão que há leis universais mantenedoras da Harmonia e, onde quer que haja uma quebra dessa Harmonia, tais Leis buscam restaurá-la. A isso chamamos dor, sofrimento, mal, porque pretendemos que nosso egoísmo prevaleça sobre a Ordem Universal.
Ninguém pode alegar ignorância das leis: quer do ponto de vista humano, jurídico, quer do espiritual. Mas, como a liberdade é um sagrado direito através dela exercemos nossa ação e vamos aprendendo a fazer parte do Macrocosmo divino. Deus não nos quer títeres ou fantoches, senão seres conscientes que se convertam em Filhos destinados a tomar posse, (quando maduros internamente) da herança que Ele nos destina. Ora, nessa liberdade de ação só podemos nos certificar de nossa correção pelas consequências que atraímos à nossa experiência. A consequência é da mesma natureza da causa. Não há consequência sem causa. As leis divinas, atuando fielmente pelas árvores, fazem-nas produzir os frutos conforme as sementes. Não há o caso de plantarmos limão e colhermos abacaxi.
Assim, relacionando os efeitos às causas, podemos compreender que, se nossa vida anda mal, o motivo está nas causas, nos atos passados. E o único modo de melhorá-la é corrigir as falhas.
Para darmos uma ideia global da humanidade ante as Leis divinas, consideremo-la em três grupos:
1. O ser humano comum, que pratica superficialmente a religião na esperança de agradar a Deus e merecer uma vida isenta de aflições.
2. O consagrado, sinceramente devotado à reforma do próprio caráter, que busca agir com retidão fazendo o bem pelo bem; que trabalha conscientemente pela evolução, segundo as Leis divinas. É o que já sente lampejos da Essência interna, a Quem procura amar honrar e obedecer. Neste grupo incluímos alguns pseudo-ateus (assim se consideram porque não concordam com os padrões hipócritas da maioria “religiosa” e não acreditam no Deus do vulgo. Estão próximos da verdade).
3. Finalmente, os que já se acham às portas da Iniciação, ou seja, os que estão prestes a estabelecer uma comunhão permanente com o Eu real para serem cidadãos dos dois mundos, em mais amplo serviço.
Em relação a cada um desses graus de consciência, há um CHORAR e um RIR de naturezas diferentes.
O ser comum é triste porque não goza de harmonia interior. Não conhece a meditação. Evita o isolamento e silêncio porque, neles, afloram nitidamente as desarmonias – as preocupações, as ansiedades, as frustrações, galopando em sombrios pensamentos. Por isso, busca as alegrias externas, as distrações ruidosas, as músicas estimulantes, o sensacionalismo, programas movimentados de rádio e TV – em grande maioria tola e vazia – numa fuga constante de si mesmo. Em fase mais aguda, recorre a tratamentos condicionadores com psicanalistas ou a um vício.
Atualmente, a sede de sensação conduz aos entorpecentes, de efeitos ruinosos sobre as glândulas, a psique e a vontade; termina em suicídio, ponto extremo da capitulação e da fuga. Outras vezes acabam numa instituição de moléstias mentais.
Paul Carton, o sábio francês, em sua magnifica obra “Bem-Aventurados os que sofrem”, mostra à saciedade o valor pedagógico da dor, como sábia advertência e prevenção dos abusos humanos. De fato, que seria do corpo se a dor não fizesse tirar a mão que inadvertidamente pusemos numa chapa quente? Que seria da saúde se os órgãos não acusassem pelas cólicas e incômodos nossos abusos? Sem essa amorosa advertência pereceríamos pelas transgressões convertidas em males sorrateiros. Isso se aplica aos males físicos, morais e mentais. A dor, a adversidade, é sempre um convite e um desafio para descobrirmos a causa viciosa e eliminarmos seu efeito.
Mas a maioria das pessoas é teimosa e fraca. Apegam-se desarrazoadamente aos vícios e condicionamentos, malgrado os conselhos dos outros e as consequências da própria vida. Estão sempre enfermando por causa dos abusos ou negligências. A sabedoria de sua natureza instintiva luta, mas acaba fracassando e “entregando os pontos”. Aí, que fazem? Vão fazer um acurado estudo das causas de sua enfermidade? Vão programar um esforço de regeneração? Longe disso! Vão à farmácia e pedem algo que ponha termo à dor, ao incomodo, à fraqueza.
Querem um paliativo de efeito rápido. A questão é simplesmente esta: “não quero sofrer; não quero dores” – como se a dor fosse um inimigo e não uma conselheira extraordinária. Aí amordaçam a dor e VOLTAM AS MESMAS CAUSAS ERRÔNEAS, que fatalmente provocarão os mesmos efeitos dolorosos – ainda mais agravados, até que sejam mutilados numa operação ou “obrigados a perder tempo” num hospital.
O certo é que, em proporção à teimosia, serão a sua dor e prejuízos, até que despertem para uma vida equilibrada.
Felizes dos que ouvem de início as advertências da dor! São poucos. Outros ouvem um pouco tarde e salvam-se estropiados, contentando-se em viver com suas deficiências para o resto da vida. Outros, enfim, acabam com o corpo – uma maneira lenta de suicídio. Não obstante, todos eles são bem-aventurados, até mesmo os últimos, porque a infalível lei do renascimento fá-los-á renascer de “gens” doentios, para continuarem a lição da regeneração, num corpo cheio de problemas, em circunstâncias morais e mentais limitadoras – até finalmente retornarem ao ajustamento consciente com o Cosmos de que fazem parte.
Os consagrados, do segundo grau de consciência, geralmente passaram pelo primeiro grau e subiram mercê da dor. Poucos, como dissemos, não precisam de extremas advertências – enveredando pela via mais curta e mais racional do entendimento. Como diz o ditado: “viram as barbas do vizinho arder e puseram as suas de molho”.
Estes, vendo os benefícios de sua conduta, buscam orientar os demais à mesma desejável condição. É o que fazem as Escolas espirituais, mostrando que não há necessidade de sofrer se aprendemos a exercitar nosso livre arbítrio dentro das leis divinas, das quais ninguém pode fugir.
Todavia, como o erro é natural no curso da ação humana; como os condicionamentos viciosos são muito fortes – a dor é quase sempre inevitável e nos açoita com frequentes advertências, até que alcancemos a perfeição. Por isso, as pessoas do 2º e 3º graus também sofrem, uma vez que se encontram em pleno processo de regeneração. Sem serem masoquistas, eles compreendem e aceitam a função da dor, como um termômetro para avaliar as deficiências pessoais.
Aceitam e carregam a cruz de suas deficiências, mas aspiram e procuram a glória da ressurreição que um dia lhes virá. Com vistas ao amanhecer, suportam estoicamente as longas trevas da noite. Daí não se revoltarem, como os do primeiro grau, que não sabem ou teimam em não saber por que sofrem, queixando-se de que Deus não lhes deu um corpo de ferro, nervos de aço e um coração de pedra, para poderem gozar impunemente as delícias da vida mundana. Ainda bem que as divinas Leis lhes impedem o retrocesso e a perdição. Os consagrados (segundo grau) aprendem a fazer o exame retrospectivo noturno de seus atos, para conscientizarem as intenções; as causas das falhas e dos êxitos do dia – entregando os despojos da luta diária a seu Melquisedeque – o Cristo interno. Pela manhã concentram-se e meditam sobre assuntos elevados – predispondo-se a servir de canais conscientes à orientação divina interna – como fazem os membros do probatório Rosacruz.
Mantém-se em vigilância e oração. Após cada fracasso, sofrimento ou discórdia, acalmam-se e buscam a Essência, para intuírem a causa da falha, que deve ser removida. Reconhecem-na humildemente, sem justificações e, no sincero propósito de emenda, alcançam a graça de dissolver o erro e retornar à paz.
Eles sabem que a Lei conduz à Graça. Estão alertas contra o perigo do orgulho da personalidade, que reclama razões e procura atribuir as falhas a outrem. Eles sabem que o simples fato de termos experiências negativas com alguém já revela que nos sintonizamos com ele, através de algo parecido e inferior; o semelhante atrai o semelhante. Eles sabem que, se se mantivessem harmoniosos e prudentes, suscitariam algo semelhante nos outros e promoveriam neles a paz.
Se alguém retrucar que o Cristo e santos foram perseguidos e judiados, lembraremos que isso pertence à etapa superior, em que ainda não estamos. Trataremos deste ponto mais adiante.
As pessoas do terceiro grau estão quase aptas para a união com o Eu real. Estão plenamente convictas da Verdade Espiritual. Cultivaram o discernimento para separar o joio do trigo; as motivações egoístas da persona e os reclamos superiores do espírito. É o fio da navalha, a nítida distinção do que lhes convém ou não. Este contraste lhes produz sofrimento. Desejam ardentemente alcançar a libertação dos condicionamentos viciosos, sabendo que “lá onde habita o Espírito, lá é que existe liberdade”. Mas sentem os esforços de sobrevivência da personalidade viciosa e astuta. Aí choram! Choram sentidamente, pedindo a Graça do Alto e do íntimo. Pedem-na com toda a alma, esforçando-se para que seus atos diários sejam uma reiterada confirmação desse anseio. Seus pequenos desvios são, proporcionalmente à sua consciência, grandemente dolorosos. E choram a hemorragia branca, na crucifixão da personalidade. Paulo, Apóstolo, nos deu uma amostra eloquente desse estado. Depois de iluminado às portas de Damasco e de haver recebido “uma nova visão da realidade”, experimentou os ataques de sua antiga natureza, do “velho homem”, e exclamou cheio de angustia: “Não compreendo o meu modo de agir; pois não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que detesto. Ora, se faço o que não quero, dou razão à lei. Mas neste caso, já não sou eu quem age; age o pecado que em mim habita. Pois sei que em mim – isto é, em minha carne – não habita o que seja bom. Está em mim o querer, mas não o executar. Com efeito, não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem age, mas, sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, esta lei; quando quero fazer o bem me sinto mais inclinado ao mal. Conforme o homem interior acha satisfação na lei de Deus; mas percebo nos meus membros outra lei, que se opõe à lei do meu espírito e me traz cativo sob a lei do pecado, que reina nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará desta natureza mortífera? Graças a Deus, há de ser por Jesus Cristo, nosso Senhor”! (Rm 7:15-25).
Quanto tempo durou isto? Sabemos que Paulo esteve três anos num mosteiro Essênio da Arábia e, depois, sete anos em Tarso, sua cidade natal. Dois números cabalísticos: 3 (relativo aos três corpos e sua regeneração) e 7 (natureza integral), mostrando um período variável, segundo o empenho de cada Aspirante para, como Arjuna, recuperar o “reino perdido” e nele reinar com o Divino, como atestou Paulo desta vez aos Gálatas (2:19-20): “Se torno a edificar o que arrasei, constituo-me prevaricador. Pela lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. JÁ NÃO SOU EU QUEM VIVE – CRISTO É QUE VIVE EM MIM!”.
Tal é o CHORAR consciente, seguido do RIR triunfante. A Chama divina que nos anima reclama o despertar e nos move irresistivelmente ao Destino evolutivo, como a Prometeu encadeado, que ansiava voar e finalmente foi libertado por Hércules.
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Sétimo Mandamento
7º Mandamento
“Não adulterarás”
Adulterar significa “misturar”, desvirtuar alguma coisa pela mistura com outra que lhe compromete a pureza original. Este é o sentido esotérico na Bíblia: o mesmo que prostituir, prejudicar a autenticidade. Como já vimos anteriormente, adulteramos a realidade das coisas, ou por ignorância ou por maldade. Como disse Sócrates: “O homem pratica o mal porque não sabe o que é o Bem”.
Todos nós, segundo o nível evolutivo e correspondente abertura de consciência, temos restrições compreensíveis e verdades relativas, não podendo, por isso, abranger a verdade total. Por isso erramos.
Isto é inevitável. Daí que o 7º Mandamento não considere esse aspecto. Seria exigir demais.
Mas há uma parte viciosa, há uma natureza condicionada, há preconceitos arraigados que podem e devem ser corrigidos no processo de espiritualização do ser.
Em primeiro lugar, aproveitemos as verdades espirituais que nos foram reveladas por Aqueles que atingiram os altiplanos da espiritualidade e descortinaram realidades imensas a respeito de nossa natureza e relação com Deus. Nossa razão e lógica sancionam essas verdades porque já temos algo interno, um “saber interior” que nos leva a reconhecer, aceitar e apreciar o que é genuíno.
Em segundo lugar: sabemos por esses mesmos ensinamentos comprovados na experiência de nossa vida diária, que a personalidade viciosa é a prostituta, a adúltera, que nos magnetiza com seu “canto de sereia” em seu ciclo de prazeres desvirtuados. Sabemos que ela nos empana a razão, tirando-nos a visão de justa proporção das coisas; condicionando-nos os pareceres com as crenças errôneas preconcebidas.
Isto não nos prejudica apenas espiritualmente, senão também materialmente, porque nos impede ter uma visão real das coisas e fatos que nos cercam.
Num computador eletrônico é fácil substituir dados falsos por verdadeiros, mas na complexa natureza humana é uma tarefa difícil, porque nos envolvemos nas vivências viciosas e, considerando-as como a nossa própria e real natureza, defendemo-las, por instinto de conservação, que é o mais forte em nós. O trabalho de transformação e depuramento do ser exigem, pois, um cuidadoso preparo.
Como vimos, adulteramos não só a realidade divina de Deus e do ser humano, como a visão real das coisas que nos cercam. O que vemos vai sempre mesclado de nossas próprias impressões, que falseiam a imagem da coisa, tal como ela é.
Vejamos como isto se dá internamente.
A ideia pura do espírito, a respeito de qualquer assunto, vem-nos da Mente Abstrata à Mente Concreta (intelecto). Aí, essa ideia mercê de vontade espiritual que a anima, procura revestir-se de matéria mental concreta e converter-se num pensamento-forma ou imagem mental. Mas nesse revestimento, o espírito já sofre a primeira traição: o intelecto condicionado e preconcebido, acrescenta, por sua conta, numa associação indevida, coisas que seu passado lhe dita, às vezes gratuitas, como, por exemplo: ver uma pessoa cujos traços lembram outra que nos prejudicou e imediatamente adulterar a imagem com esta correlação negativa.
Da Mente Concreta, a ideia transformada em pensamento-forma vai ao Corpo de Desejos (emocional) e aí a vontade espiritual que anima o pensamento busca envolver-se de matéria emocional que lhe dá impulsos para chegar à ação. Então, sofre a segunda adulteração, juntando a matéria emocional de atração ou repulsão, segundo as correlações preconcebidas. E, quando chega à ação está longe de ser a pura impressão que o espírito ditou ao intelecto.
A mensagem esotérica deste mandamento é: tornemos nossa personalidade passiva e fiel ao Eu real, para que não lhe traia os desígnios; não preterir o Cristo interno às conveniências e solicitações da natureza inferior; não conferirmos às coisas e realidades mundanas os méritos e virtudes que pertencem ao Divino.
“O único pecado é a ignorância e a única salvação, o conhecimento aplicado”. Enquanto não temos possibilidades internas para limpar os canais de expressão do Divino, estaremos prostituindo a verdade. Na ignorância não há pecado, mas há dor, gerada pela consequência que nos procura acordar. Nós, porém, que estamos alargando a consciência da verdade, assumimos responsabilidade maior porque “a quem muito é dado, mais lhe será exigido”. Não devemos fugir à transformação que a consciência nos exige. O método Rosacruz objetiva precisamente isso, de modo inteligente e gradual, através da espiritualização do Corpo Etérico, que pressupõe reeducação nos vários aspectos.
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Sexto Mandamento
6º Mandamento
“Não Matarás”
Houve esforço para desvirtuar o sentido genérico deste mandamento, refundindo-o para: “Não cometerás homicídio”. Mas o sentido é claro e genérico: “Não matarás”!
O primeiro sentido que salta a nossa mente é o literal. Aí surgem as polemicas sobre a “pena de morte”; a “eutanásia”; o “aborto”; o “carnivorismo”, etc. Mas há também o sentido mais profundo e espiritual.
A Filosofia Rosacruz desaprova a “pena de morte” e fornece a razão esotérica: ela destrói o corpo, mas liberta o criminoso no Mundo do Desejo. Como a morte não transforma ninguém, lá ele continua odiando a sociedade e, com a velocidade do pensamento pode locomover-se à vontade, impune, influenciando caracteres afins, maus para que através deles vingar-se dos seres humanos. Desse modo aumentam os crimes sobre a Terra. Logo, é mais conveniente para a segurança humana manter os criminosos presos, apesar dos gastos e cuidados. A solução é o aprimoramento do sistema penitenciário e a laborterapia para recuperação dos primários e dar tempo de arrependimento aos pertinazes. A estória do “homem de Alcatraz” é um impressionante exemplo de que não há indivíduo inteiramente mau; que todos têm a essência divina, que torna o ser possível de recuperação. Mas não pela violência.
Não se justifica a eutanásia, do ponto de vista esotérico. Vemos o ser humano como um ser complexo, constituído de três corpos que o Espírito procura manipular por intermédio da mente. Quando vemos um demente ou um ser deformado, sabemos que o Espírito o anima ainda que não se possa expressar (no caso do louco). O espírito não é demente. A forma é que não lhe permite expressar-se, por alguma anomalia que ele mesmo assume, por causa gerada em vida pregressa. Mas há sempre uma razão para o Espírito suportar aquelas condições. Lá dentro do corpo está assimilando sua lição, apesar das aparências. Não temos o direito de impedi-lo. Com esta compreensão, cumpriremos melhor nosso dever para com eles.
O aborto é igualmente injustificável, salvo nos casos de gravidez nas trompas e outros que perigam a vida da mãe. O aborto, como outros problemas humanos, tem sua solução no começo; se os casais fossem mais equilibrados em seus impulsos; se os conjugues fossem mais cônscios e respeitadores um do outro, evitariam o choque de consciência que decorre desta violência contra alguém que não se pode defender. A literatura esotérica ilustra muitas consequências observadas nos Mundos Invisíveis, de abusos neste campo, incluindo as parteiras e médicos que se prestaram a esse fim, quase sempre para enriquecimento fácil.
Os Rosacrucianos são vegetarianos. Muita gente nos pergunta: “por quê?”. Respondemos suscintamente aqui: não comemos carne para não sacrificar vidas e interromper um programa evolutivo. Nisto se inclui o sentimento de fraternidade em relação a nossos irmãos menores, os animais. A planta tem vida, mas não sofre, porque não tem Corpo de Desejos. Além disso, os vegetais foram designados na Bíblia para alimento natural do ser humano. Não há perigo de que os animais, uma vez poupados, aumentem demais, comprometendo o alimento e segurança do ser humano. Está provado de que Deus sabe conservar o equilíbrio do mundo e não precisa do ser humano para isso. O que temos feito, com nossa ignorância, é quebrar a harmonia do conjunto, como bem prova a moderna ciência de ecologia.
A carne animal é carregada de toxinas e compromete, com os instintos inferiores, nossa evolução emocional.
Quanto ao leite e aos ovos, sabemos que os bezerros estão sendo compensados cientificamente na alimentação, não obstante receberem uma cota racional de leite.
Os ovos não são galados. Poderíamos aduzir outras razões. Não o fazemos para não nos alongarmos e nem fugirmos do tema central. Já os conhecemos pela filosofia Rosacruz.
Abordemos a seguir o aspecto mais profundo deste mandamento.
As chamadas pessoas e coisas más não justificam destruição. Cada coisa tem seu papel no conjunto do Universo.
No futuro recuperaremos a harmonia perdida, quando exercermos a “não resistência”, a “não violência” interior, que impedirá qualquer reação exterior. Mas esta “não resistência”, esta “não violência” deve ser isenta de temores, baseada num claro assentamento à verdade espiritual que anima todas as criaturas. A estória de Daniel na cova dos leões, a estória de Francisco de Assis e de outros iluminados comprovam esta verdade.
Ora se Deus é onipresente; se há um fio oculto unindo todos os reinos e este elo é a Consciência Universal, quando matamos, quando destruímos algo (aparentemente externo) estamos em realidade agredindo uma parte de Deus e, em última análise, agredindo a nós mesmos, porque n’Ele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”.
Embora por enquanto, não tenhamos consciência disto, aprendamos e busquemos intuir este princípio dos Mestres; nossa consciência está ligada à Consciência Universal e, através d’Ela, a todos os seres. Só mesmo a personalidade separatista, nesta fase de materialismo é que nos faz crer na inevitabilidade de defesa e de ataque, de preservação e destruição. Desse modo se justificam as leis da persona, que são as leis dos seres humanos – leis de violência que geram violências, numa cadeia inevitável de causas e efeitos.
Agora vejamos o aspecto interno, psicológico; podemos (e constantemente o fazemos) matar mentalmente, emocionalmente com palavras. Matamos até mesmo quando não esboçamos a menor reação externa. Do ponto de vista esotérico – do espírito da Lei – isso é matar.
Matamos também pela mentira. Que é a mentira? É tudo que esteja contrário a verdade Universal.
Inconscientemente, somos todos mentirosos porque não conhecemos a Verdade total e, inevitavelmente desfiguramos algum aspecto da verdadeira imagem das coisas. Mas referimo-nos as mentiras propositais, conscientes.
Elas produzem um efeito nocivo e especial no Corpo de Desejos: matam alguma coisa em nós e ao mesmo tempo se suicidam nesse embate. Max Heindel o explica bem: ao dar uma versão falsa de um acontecimento, esta falsa versão é atraída (pela lei de atração de semelhantes) à versão verdadeira, mas como suas vibrações divergem na parte desvirtuada, entram em choque e mutuamente se destroem. Não apenas nos livramos da mentira (cuja tendência nos fica), mas perdemos uma verdade que ela destruiu. Perdemos nesse embate, além de nos remanescer uma desagradável sensação psíquica – da Essência que sofre – quando temos sensibilidade e correção de caráter.
Esta nova compreensão nos leva a compreender como o mandamento, em seu aspecto esotérico, está presente nos mínimos atos de nossa vida e o como é importante sermos verazes. Não nos referimos à sinceridade idiota, grosseira, mas à sinceridade inteligente e amorosa. Se não podemos usá-la, é melhor calar.
Este problema da mentira surgirá sob novo aspecto no 9º Mandamento, quando tratarmos do falso testemunho.
Para finalizar este Mandamento, queremos dizer que existe uma destruição legítima, do ponto de vista espiritual: é a destruição dos falsos conceitos que se evidenciam à medida de nossa abertura de consciência. Este é o sentido do Armagedom. Não que lutemos contra a ignorância, mas que não mais a alimentemos, detendo-nos, tão somente, na verdade atual que apreendemos; é como tirar as escórias do diamante bruto para que se revele em luz, o brilhante do puro ser espiritual.
Primeira Bem-Aventurança: “Felizes os mendigos de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”
Mateus, 5:3 – “Felizes os mendigos de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
Lucas, 6:20 – “Felizes os pobres, porque vosso é o Reino de Deus”.
Lucas, 6:24 – “Mas ai de vós que sois ricos, porque já recebestes vossa recompensa”.
Jerônimo fez constar na “Vulgata”: “pobres PELO espírito” ou “pobres SEGUNDO o espírito”. Talvez desejasse evitar a palavra “mendigos”, mas com isso induziu a um afastamento maior do sentido real, pois as versões atuais ao português registram: “Bem-aventurados os pobres DE espírito”.
Na linguagem corrente, “pobre de espírito” é um indivíduo tolo. Ninguém poderá supor que seja esse o sentido.
Todavia, na melhor das hipóteses, nas mãos de pessoas simples, a leitura dessa bem-aventurança poderá sugerir que a pobreza é uma virtude e a riqueza um pecado. Não é de admirar que, ante essas traduções, os comunistas acusem os cristãos de estarem disseminando o conformismo à miséria, para servirem aos poderosos.
Nada mais errado. A tradução exata do texto original grego do primeiro século é: “mendigos de espírito” (ptôchoi tôi pnêumati), como fizemos constar acima. “Ptôchoi” quer dizer: “aquele que caminha a mendigar”. É o mesmo que dizer: “O indivíduo internamente aberto para receber de seu Espírito interno o de que necessita para sua evolução diária”. O Cristo não se refere, pois, a pobrezas ou riquezas materiais, senão, à necessidade de a pessoa se abrir à Fonte interna para dela receber mais amplos e justos recursos. Se Ele ensinou isto é porque NOS fechamos.
Vejamos como e porque acontece isto, a fim de tomarmos consciência e buscarmos a solução indicada nesta bem-aventurança.
O ser humano é uma Centelha Divina em evolução, ou, como disse São Paulo, um “Cristo em formação”. O Gênesis ensina que “fomos feitos a Imagem e Semelhança de Deus” – o que levou os esoteristas a compreenderem que o ser humano é um microcosmo, tendo em si, em potencial, tudo o que tem o Macrocosmo. A evolução consiste em dinamizar ou transformar em consciência, as faculdades que se acham adormecidas no íntimo. Todos receberam igual herança divina, inesgotável, infinita. Mas a quantidade maior ou menor que cada um de nós dinamiza em seu íntimo, dessas faculdades divinas, é o que determina o grau de evolução. Ainda mais: cada qual desperta e utiliza esses talentos de um modo próprio, original. A isto os Rosacruzes chamam individualidade, consequência da Epigênese.
Acontece que o ser humano foi induzido a transgredir as leis da Natureza. Influenciado pela “falsa luz”, se tornou egoísta e pretensioso. Caiu (vibracionalmente) e perdeu contato com sua Essência. Assim viciado, uniu a Mente Concreta ao Corpo de Desejos e formou uma espécie de “alma animal”, uma personalidade que, embora dependendo do Espírito para viver e atuar neste plano tem a ilusão de ser Algo à parte, separada e independente do Espírito.
Nesta ilusão condicionadora, toma os recursos evolutivos já dinamizados (Alma) como seus (da persona) e os usa segundo seus interesses deturpados.
Fá-lo por ignorância – o único pecado. Simplesmente não percebe que o Espírito é a CAUSA e os seus veículos (a Mente, o Corpo de Desejos, o Corpo Vital e o Corpo Denso) são MEIOS de expressão. Julga-se a persona (a máscara) e se arroga o DONO, com o direito de conceder ou negar, de dar ou reter, de reclamar honrarias e retribuições. Sua consciência comprometida, instintivamente, teme a morte. Ouve falar de um céu e procura fazer caridades que, ao mesmo tempo, promovam sua “fama de bom”. A estas pessoas – uma grande maioria, infelizmente – são bem oportunos e atuais os símbolos evangélicos: “tendes olhos e não vedes” (cegos que não veem as realidades suprafísicas circundantes); “tendes ouvidos e não ouvis” (surdos que não ouvem as verdades a respeito de seu próprio ser). Daí que sejam também “coxos” (vacilantes), “paralíticos” (que não caminham pela reta senda), “leprosos” (moralmente impuros), obsessionados (condicionados pelos vícios) etc.
Ora, se todos têm uma Alma – que é a soma das faculdades despertadas, do “tesouro desenterrado”, que convertemos em consciência, para uso do Espírito – todos podemos e devemos SERVIR. SERVIR é verter os recursos internos, para edificação dos outros e, em última análise, para nossa evolução.
É verdade que estamos em níveis evolutivos diferentes e variados; é verdade que, os que mais têm deveriam dar mais, como foi dito: “Ao que mais é dado (o que mais evoluiu) mais lhe será exigido” (tem maior responsabilidade no uso de seus talentos). Mas não temos nada com a vida dos outros; cada qual responde por seus atos e não pelos dos outros. Em vez de estarmos de mãos vergonhosamente estendidas, sempre a pedir aos mais aquinhoados, sempre a depender de sua proteção e ajuda, façamos nossa parte e recebamos por nossos esforços o que nos é devido, pois “digno é o trabalhador de seu salário”.
Se nos colocamos na consciência da verdadeira identidade, isto é, UM ESPÍRITO, AGINDO COMO UMA PESSOA – e não uma pessoa a depender de seu espírito (muito menos uma pessoa a depender de outras pessoas), NÃO PRECISAMOS DESTA BEM-AVENTURANÇA. Cristo endereçou este ensino àqueles que se situam na persona, que pensam ser uma pessoa a depender de um Divino separado e distante, para mostrar-lhes que eles SÃO UM COM O DIVINO, QUE AGE COMO OU SENDO ELES. Portanto, é apenas questão de romper a ilusão da separatividade. Este esforço, para a religação exige persistência, anelo, ardente aspiração, esforço metódico. A isto é que se chama MENDIGAR O ESPÍRITO, expressão forte para esclarecer que nessa busca devemos ter consciência de que, como pessoa, não somos nada e que dependemos inteiramente d’Ele, que não é Ele, mas é EU, verdadeiro e superior, único.
A propósito, lembramos que há muito espiritualista sincero que tropeçando nesta e noutras bem-aventuranças, como o mancebo rico, cumprem a Lei, mas não querem deixar suas riquezas. Estão ricos de verdades espirituais, de idealismo, de boa vontade e até de desprendimento material; mas, por falta de um paralelo cultivo interno caíram na vaidade intelectual e outras manhas da personalidade. O Cristo os ama, porque realizam bom serviço; mas lamenta que se afastem, com seus muitos bens, da verdadeira realização.
Este ponto nos lembra de um formoso relato Rosacruz: um ser realizado, iluminado, chegou ao cimo da montanha e bateu à porta do “Castelo”, o “Guardião” apareceu, levou-o para dentro, mostrou-lhe as acomodações vazias.
– Vai ficar?
– Não. Quero voltar para encaminhar os que veem atrás.
– Compreendo Irmão. Quando se alcança a realização, não se quer usufruí-la. Esta renúncia é superior à renúncia do sentido humano.
É preciso meditar nisto todos os dias, até que uma nova consciência nos torne administradores fiéis, isto é, sabendo que todos têm, podem e devem DAR: amor altruísta, experiência, conhecimento, dons, habilidades várias e até recursos materiais, de modo JUSTO, AMOROSO, DESPRENDIDO, DISCRETO – reservando para nossa manutenção o que as justas necessidades reclamam. Entendamos bem: isto não é indiferença para as coisas do mundo nem omissão nas atividades. Ao contrário, é trabalhar como um ambicioso, mas estar desapegado dos resultados; administrar seriamente, de modo competente e equilibrado, corrigindo falhas, aprimorando normas, sem nos considerarmos DONOS, mas simplesmente administradores, com responsabilidade proporcional ao que recebemos, de fazer fluir os recursos na edificação de todos.
Já imaginaram um mundo assim? Já viram pessoas agirem assim? Houve e há muitos servos e amorosos; firmes e serviçais; justos e nobres. São pobres porque se sentem desapegados, isentos do sentido de POSSE. Não buscam glorificação por meio das realizações e se a fama os distingue, não se deixam corromper por ela. Fazem o melhor que podem e se o poder os bafeja, não o usam para beneficio próprio ou de seus apadrinhados. Ao contrário, usam a fama e o poder para promover o progresso coletivo, sofrendo coações dos que se sentem prejudicados por sua atuação honesta. Estes “acumulam tesouros no céu” (Alma), mas “não entesouram na Terra (personalidade), que o ladrão rouba, a ferrugem corrói e a traça destrói”. Eles têm a serena convicção de que, o que é plantado na persona, com ela morre e nada acrescenta a sua evolução. Não se apoiam no externo, mas permanecem internamente abertos ao fluxo interno da única Fonte. Isto é ser autossuficiente, apoiado em SI (no Eu real e não na persona). Se algumas coisas recebem de fora, é aparente: receberam realmente de dentro, indiretamente, como resposta de sua atuação correta: “O que dá, recebe”.
Guardemos bem: não há virtude na pobreza nem pecado na riqueza. Os valores materiais, morais, mentais, etc., em si mesmos não são bons nem maus; são apenas MEIOS evolutivos: dependem do USO que deles se faça. O dinheiro pode ser maldito ou abençoado; a inteligência pode ser maquiavélica ou serviçal. A pobreza pode ser sinônimo de preguiça, de um mal entendido desapego, de indiferença, de omissão de responsabilidade ou omissão de esforço ante as inúmeras possibilidades do mundo moderno. As restrições mentais, morais e físicas são meros efeitos de abusos anteriores e reclamam ainda mais um esforço de recuperação. Neste sentido é que devemos ajudar os carentes: a não precisarem dos outros; a servirem, em vez de serem servidos; a carregarem, em vez de serem carregados. Se desvirtuarmos o uso de nossos recursos diversos, eles se tornam um entrave e um prejuízo para nós e, às vezes, para os outros também, a quem eventualmente prejudicarmos. Se omitirmos a aplicação de nossos talentos, deixamos de evoluir, cristalizamo-nos e cortamo-nos da “videira” interna: deixamos de receber-lhe a seiva renovadora do progresso.
Um rico pode ser muito virtuoso, quando vence a tentação da POSSE egoísta e bem emprega o que o Divino lhe deu para administrar. Neste caso será um rico na Terra e um rico no céu. Inversamente, um pobre pode ser mesquinho e mau, invejoso e desonesto, avaro e egoísta. Em tal hipótese, será um pobre na Terra e um pobre no céu.
Grande é a tentação dos quatro gigantes do mundo: o Poder, a Fama, o Dinheiro e o Amor.
Daí que o Cristo tenha dito: “Quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no Reino de Deus”. Ele se referia genericamente ao sentido de apego e de posse (minhas ideias, meu prestígio, minha inteligência, meus bens, etc.) em relação ao que o Espírito põe como meios evolutivos. Não quis dizer que devamos fugir a essas tentações. Isto seria covardia, omissão comodista. É preferível cair em tentação a omitir-se. A omissão não faz evoluir; ao contrário, anestesia e cristaliza. O erro ensina profundamente, pela dor. Marca mais a consciência do que os êxitos. No entanto, o normal é evoluir sem dor. E há mais mérito no que tem e usa bem.
De toda maneira, independentemente das riquezas morais, mentais e materiais que estejamos a gerenciar (por mérito, é lógico, mas não da persona), é importante compreendermos que TUDO nos vem do Divino interno, que somos NÓS, num correto sentido. Se agirmos como Espíritos, SOMOS POBRES (referidos por São Lucas). Mas se humanamente nos apegamos e nos arrogamos os possuidores, somos ricos, sofrendo (“ai de vós .. ,”) as consequências de seu uso egoísta e prejudicial. O dinamismo, a confiança em si, deve estar firmemente alicerçado nesta compreensão.
A virtude não está só no fazer grandes bens; o crime não está só no praticar grandes males. Além do fator quantidade, pesa muito a intenção. Os Evangelhos ensinam que o óbolo da viúva foi mais valioso do que as vultosas ofertas dos ricos, porque estes, além de darem do que sobrava, fizeram-no com ostentação; já a viúva deu com amor o pouco que tinha e lhe fazia falta. O dar de si, com sacrifício e amor, valoriza os pequenos atos. O bom observador, pelas pequenas coisas conhece as pessoas. A sabedoria popular o comprova: “ladrão de tostão; ladrão de milhão”. Não que “a ocasião faça o ladrão”, mas, sim, que a oportunidade enseja os pendores (bons e maus).
Há pessoas que trazem grandes conquistas espirituais de outras vidas ou já alcançaram o contato com o Eu real ou falta pouco. Com pequeno esforço o conseguem. Outras, que se empenharam menos no cultivo interno, têm maior caminho a percorrer se bem que isto dependa, também, da proporção do empenho, na intensidade da busca, até que se torne, no dizer de São Francisco de Assis: “um instrumento do Espírito”.
A parábola do fariseu e do publicano ilustra bem que o reconhecimento dos erros, o sincero propósito de emenda, a conscientização dos limites e funções da persona, face ao Espírito, ajudam a alcançar o contato e o influxo do Divino. O fariseu, de pé no templo, proclamava suas condições de bom religioso e a contrastava com o publicano, que considerava indigno. O publicano se ajoelhou e rogou misericórdia reconhecendo suas faltas. Com a pretensão e a crítica o fariseu se fechou internamente à graça. Pela humildade e sincero reconhecimento, o publicano esvaziou sua personalidade, formando um vácuo de aspiração que o Divino preencheu de luz. A genuflexão é interna: não importa o lugar nem a postura o essencial é que a personalidade se torne passiva, fiel, obediente, amorosa para reconhecer e honrar o “Único”.
Somos sementes divinas. Trazemos no íntimo as potencialidades divinas, cujo despertar far-nos-á “perfeitos como o nosso Pai celestial”, conforme o convite evangélico. Assim como a semente tem em si a árvore mãe em potencial, mas precisa mergulhar na terra e nela transformar-se, para converter-se, no devido tempo, numa árvore igual, assim também somos nós em relação ao Criador. Devemos igualmente deixar-nos transformar pelo Divino interno para alcançar essa gloriosa meta evolutiva. Identificar-se com a personalidade; julgar-se algo à parte e separado de Deus; condescender com a personalidade nos abusos, vícios e auto endeusamento é negar-se a transformação e retardar a evolução. Corresponde ao fato da semente permanecer na superfície; procurando ser ela, para não ser árvore, acaba se ressecando e nada produzindo. Felizmente, a dor nos protege da própria ignorância e seus prejuízos. A vida se incumbe de nos fazer evoluir contra vontade, embora lentamente. Felizes os que SE AJUDAM pela compreensão, ou melhor: “felizes os que mendigam o espírito”.
Se vocês meditarem seriamente sobre “Os dez mandamentos” e o magnífico resumo que deles fez o Cristo em Mt 22:37-40, poderão tomar consciência de como ainda vivemos a incensar nossa persona, julgando-nos bons e virtuosos; arrepiando-nos com os elogios, em verdade estamos morrendo em idolatria, adorando um falso deus e pondo-o acima de nosso Eu verdadeiro e superior.
Observemos como vive o mundo e quais as consequências: conflitos, doenças, preocupações, ansiedades, dores, etc.
Não nos deixemos condicionar pelos métodos comuns de vida. Os erros dos outros não justificam o nosso.
Tenhamos a coragem de ser autênticos; de viver em coerência e harmonia com o Cristo Interno.
Certa vez uma pessoa me disse: “há muita gente que goza a vida toda, explora, prejudica os outros e depois morre feliz”. Engano! São Paulo diz claramente na Epístola aos Gálatas 6:7: “Não se deixem enganar; de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá”. Em algum tempo, em algum lugar, colheremos os frutos de nossas ações, boas e más. Se não nesta vida, nas vindouras. A morte não cancela dívidas. Isso explica porque nascem crianças com restrições físicas, morais ou mentais. Deus não castiga. Se for verdade que a ciência explica as anomalias e tendências buscando suas razões nos “gens”, a ciência oculta acrescenta: MAS NÃO POR ACASO…
Ninguém pode fugir de seu próprio bem. Ninguém pode escapar a Deus, pois “n’Ele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”. É mais fácil conhecermos a natureza e buscarmos trabalhar em harmonia com ela, para que ela trabalhe a nosso favor, do que a desafiarmos. Ninguém jamais levou qualquer vantagem nisso. É teimosia estúpida.
Cumpre-nos, pois, conhecer a verdade a respeito de nosso ser, nossa relação com Deus e empreender decididamente a regeneração. Feliz de quem chegou a esse ponto, como diz este passo: “Bem-aventurados os mendigos de espírito!” Não que precisamos mendigar ao Eu superior a religação consciente conosco.
Ao contrário: ele a deseja ardentemente. A personalidade é que, ignorantemente, se esquiva, vencida pelos condicionamentos; ela é que SE nega à religação. Por isso que o encontro se protela. Ele respeita nosso livre arbítrio. Como no famoso quadro de Sulivan: “Ele está sempre à porta de nossa consciência e bate. SE… ouvirmos; SE… abrir-lhe-emos a porta, Ele entra e se une conosco (vislumbres) e até pode ficar morando conosco (contato permanente)”. A relutância é nossa. Por fraqueza, Lhe fazemos ouvidos moucos. Só quando as coisas apertam é que nos lembramos dele. Então, supondo que esteja fora de nós olhamos para cima e rezamos, fazendo pedidos egoístas. E os Evangelhos explicam: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal”. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus…”. “Ele está dentro de vós”. Ora existe algo que o Divino interno não esteja fazendo, aqui e agora mesmo?
Se não faz mais é porque não Lho permitimos, com nossa resistência, com nossos bloqueios, com nossos desvirtuamentos e egoísmos! Basta desejar Deus e buscá-Lo dentro de nós, pelo prazer de sentir-Lhe a Presença.
Existe Algo maior que possamos desejar?
Tudo depende da regeneração e aspiração do encontro. O Cristo jamais falha. Ele está buscando sempre a manifestação em e através de nós, ou melhor, COMO ou SENDO realmente nós, UNO. O galho e a videira são um, a menos que o galho se negue e se feche ao fluxo da seiva: então seca e é cortado. Mas o galho que se abre internamente recebe na proporção de sua abertura. Recebe amor para compreender e aceitar tudo como é, sem mágoas nem ressentimentos; amor para fazer sua parte independentemente da conduta dos demais; intuição para agir cada vez mais corretamente, segundo a circunstância; desapego para não atribuir a personalidade a que pertence ao Divino em cada um; etc. Por isso é que foi dito: “Ele sabe o que melhor lhe convém, antes mesmo de pedir-lhe”.
Busquemos equilíbrio de ação, sem cair nos extremos de omissão e de comissão viciosa; façamos fluir os recursos de nossa ação como um rio que se une a outros, para dessedentar, fertilizar, produzir, no curso que nos leva ao grande mar. Saibamos: tudo o que oferecemos aos demais e deles recebemos é mútua edificação e trabalho do Divino. É sempre o Divino quem dá e quem recebe, no intercâmbio de recursos individuais, para que se cumpra a divina lei de DAR e RECEBER. É claro que devemos ser gratos à pessoa que serviu de Canal ao divino suprimento. A gratidão se torna virtude quando o Divino em nós rende reconhecimento ao Divino de nosso irmão. Não se trata de enaltecer a personalidade de quem ajudou, mas ao Divino que dá e que recebe em cada um, realizando a ética do DAR.
Finalizando: a mensagem desta bem-aventurança define o conceito de SER e de TER, reiteradamente debatido pelo professor Rohden: aquele que julga TER situa-se na personalidade transitória e separatista; atrai para a persona todo o mérito e nada mais tem a receber como acréscimo d’alma. Mas aquele que sabe SER identifica-se como Eu espiritual. Sua persona é canal, serva obediente e humilde que se abre aos propósitos e intuição internos, agindo impessoalmente, como ensinou Cristo: “Eu, de mim mesmo, nada posso; mas tudo posso n’Aquele que me fortalece; não sou eu quem faz as obras, mas o Pai que habita em mim”.
O que julga TER é o que deseja “ser visto pelos homens”. Mas o que sabe SER é mendigo de espírito; anseia LUZ, almeja e busca o influxo da Graça. O que TEM sacia-se no que acumulou e se fecha ao Cristo interno vindo a sofrer insatisfação, que lhe advém da mais atroz das fomes: a fome d’alma. Mas o que é, deixa de sê-lo humanamente, sendo e tendo para o seu Senhor.
Termino contando uma pergunta que um garoto de oito anos me fez há alguns anos:
– De quem são as casas e terras desta cidade?
– São da Prefeitura, dos moradores da cidade.
– E daqui a mil anos, de quem serão?
Lembrei-me de um passo bíblico: “A Terra é do Senhor e sua plenitude também”.
E respondi-lhe:
– Tudo, sempre, é do Pai do céu.
Esperamos que até lá as pessoas já tenham entendimento para tudo atribuir ao Divino.
Felicidade é SER.
Ser o que?
Ser o que essencialmente somos, mas sem condicionamentos da persona; uma Centelha Divina sem deturpações da natureza inferior.
Quando conseguirmos SER, nossa evolução decorrerá sem dores e muito mais rapidamente.
No entanto, estamos fascinados pelo materialismo; condicionados pelos conceitos falsos de que somos uma personalidade à parte e separada de Deus, dependentes de nossos recursos pessoais e externos.
Isso nos vem desviando e retardando a evolução. Urgente se faz retornar ao próprio íntimo, e lá encontrar e desenterrar o “tesouro escondido”, que dissolverá o sentido humano e nos devolverá a verdadeira identidade, na unidade do Espírito.
Mas há um caminho a percorrer; há uma verdade a realizar acerca de nós mesmos, como já enunciada naquela antiga frase (a um tempo convite e desafio), inscrita na fachada do templo de Delfos: “Homem, conhece-te a ti mesmo”.
Os enganos e a astúcia estão no labirinto da personalidade falsa. O “fio de Ariadne” que nos orientara nesse labirinto, para descobrirmos a ilusão e retornar à liberdade é o “Sermão da Montanha”, notadamente as “bem-aventuranças”, que são como “setas nas encruzilhadas” do Peregrino, em busca do próprio SER.
Neste amoroso desejo de SERVIR, o CRISTIANISMO ESOTÉRICO, exposto pela Fraternidade Rosacruz, fundada por Max Heindel, lhe oferece este trabalho.
Nota: não leia de um fôlego só. Medite uma por uma das exposições e acrescente sua própria experiência e sentir, valorizando-as com seu dom epigenético; pois, são temas inesgotáveis.
Oração do Estudante Rosacruz
Aumenta o meu amor por Ti, Senhor,
Para que eu possa servir-Te melhor
A cada dia que passa!
Faze que as palavras de meus lábios
E as meditações de meu coração
Sejam agradáveis a Teus olhos,
O Senhor, minha Força e meu Redentor!
INTRODUÇÃO
O “Sermão da Montanha” é um dos mais importantes trechos da mensagem cristã; um código universal de conduta, cabível a qualquer religião ou credo.
Mahatma Gandhi o considerou “o documento máximo da espiritualidade”. Outros seres humanos ilustres são de opinião que ele unirá, futuramente, todas as religiões e filosofias, concretizando o ideal do Cristo: “Um só rebanho e um só Pastor”. Disseram mais: se se perdessem todos os documentos do mundo e apenas se salvasse o “Sermão da Montanha”, a humanidade não ficaria prejudicada, porque ele constitui, por si só, um completo método de orientação espiritual.
De fato: qual a solução para a paz mundial? Qual o modo de restabelecer a harmonia entre os seres humanos? Só mesmo levando cada indivíduo a conhecer-se, reconduzindo-o ao próprio íntimo, para retomar contato com sua Divina Essência, e entrar na posse de sua herança de Filho de Deus. Mas isto pressupõe – como sugerem as bem-aventuranças – que sejamos:
– desprendidos e servidores;
– puros de coração;
– coerentes na reta justiça, apesar de perseguições;
– mansos, pacificadores e misericordiosos;
– amorosos com os que nos odeiam sem razão; e
– retribuidores de bem, mesmo aos que nos fazem mal.
Segundo as normas atuais de conduta, isto parece impossível de ser praticado. Pedimos que o leitor conserve a mente livre e caminhe conosco através desta análise. Depois, meditando, certamente concordará conosco, dispondo-se a praticar também, com nova compreensão, estes maravilhosos princípios.
Notem que, ao contrário das diversas religiões e correntes espiritualistas, Cristo não dá instruções pormenorizadas acerca do que devemos ou não fazer. Ele foi antiritualístico e antidogmático. Rebatia severamente os fariseus, esclarecendo que as normas externas de nada valem. Sua mensagem se constitui de princípios gerais, para educar nosso estado mental. Ele mostrou que a causa da ação humana está na Mente: se o pensamento (a causa) é puro, logicamente os atos (os efeitos) serão corretos e edificantes.
Cabe a cada um de nós, segundo o nível de compreensão, extrair desses princípios gerais as consequências práticas.
Dos quatro Evangelistas que recolheram material para instituir seus métodos de Iniciação, foi São Mateus quem nos deu a versão mais completa do “Sermão da Montanha”, iniciando pelas bem-aventuranças.
Segundo São Mateus, as bem-aventuranças se constituem de nove passos. Nove é um número cabalístico, representativo do gênero humano, do que se deduz tratar-se de uma síntese para a libertação humana. Por seu profundo sentido, é compreensível que a maioria não a possa penetrar inteiramente. É um desafio, mesmo aos mais preparados internamente, porque sua prática prevê o despojamento do sentido humano vicioso.
As bem-aventuranças são uma síntese do espírito cristão e não meramente da letra. É uma sinopse espiritual e não literária. Uma súmula geral, semelhante àquelas que, na velha maneira oriental, sintetizavam os ensinamentos religiosos e filosóficos, tais como: os oito caminhos de Buda; os dez mandamentos de Moisés, etc.
Em comparação a São Mateus, São Lucas omite a 3ª, 5ª, 6ª e 7ª bem-aventuranças. Só apresenta as demais, com as respectivas condenações: “ai de vós…”.
Salmo da Segurança pela União com o Cristo Interno
Aquele que habita no esconderijo secreto do Altíssimo,
à sombra do Onipotente descansará.
Direi ao meu Senhor: És o meu Deus, meu refúgio,
minha fortaleza; em ti confiarei!
Tu me livras do laço do passarinheiro
e da peste perniciosa.
Tu me cobrirás com tuas penas!
Debaixo de tuas asas estarei seguro:
tua verdade é escudo e broquel!
Não temerei espanto noturno,
nem seta que voe de dia;
nem peste que ande na escuridão;
nem mortandade que assole ao meio-dia.
Mil cairão ao meu lado
e dez mil à minha direita,
mas nunca serei atingido!
Somente com meus olhos olharei,
e verei a consequência dos ímpios.
Porque Tu, ó meu Deus, és meu refúgio
E o Altíssimo é Tua habitação.
Nenhum mal me sucederá,
nem praga alguma chegará à minha tenda.
Porque aos Anjos darás ordem a meu respeito,
para me guardarem em todos os meus caminhos.
Eles me sustentarão nas suas mãos,
para que eu não tropece em pedra alguma.
Pisarei o leão e o áspide;
calçarei aos pés o filho do leão e a serpente.
Pois tão encarecidamente Te amei
Também Tu me livrarás!
Pôr-me-ás num alto retiro
porque conheci o Teu Nome!
Eu Te invocarei e Tu me responderás.
Estarás comigo na angústia;
livrar-me-ás e glorificar-me-ás;
dar-me-ás abundância de dias
e mostrar-me-ás a Tua salvação!
(Livreto editado pela Fraternidade Rosacruz em São José dos Campos – SP)
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Quinto Mandamento
5º Mandamento
“Honra teu pai e tua mãe”
Os ensinamentos de Cristo parecem contradizer este mandamento. Disse Ele: “Não chameis a ninguém de Pai sobre a Terra, pois um só é vosso Pai, a saber: o vosso Pai Celestial”. E mais: “Aquele que não deixar pai, mãe e irmãos, não pode ser meu Discípulo”.
Em verdade não há contradição. Cristo vem ampliar e definir o real sentido do mandamento. Ele, a personificação do Amor, jamais iria recomendar que descuidássemos, ingratamente, dos nossos deveres filiais. Referia-se aqui como em outros passos evangélicos, ao amor e dever desapegados.
A paternidade e a maternidade são funções divinas: transcendem o humano. A mãe durante o aleitamento é uma pessoa diferente, mais estreitamente ligada ao Divino. Há algo de transcendental na maternidade. Mesmo entre os animais há o chamado “pudor orgânico”, pelo qual a mãe e os filhotes não são atacados nesse período.
O pai e a mãe, meramente como seres humanos nada são, porque não podem manipular a vida. Lembremos que no “Paraíso” comemos da “Árvore do Conhecimento, do bem e do mal”, mas não da “Árvore da Vida”. Por isso não podemos vivificar nada. É função dos Anjos a vida, porque são hábeis manipuladores da força vital.
Que sabe um animalzinho da maravilhosa criaturinha que o gerou? Vemos graciosos gatinhos buscando andar, procurando mamar, manifestando vida e instintos, e isso nos ressalta a manifestação de um Criador que labora através de suas Hierarquias. Mesmo o ser humano, que sabe a mãe da complexidade do ser que gera? Meditem nisso.
Existe apenas um princípio criador, que é o PAI-MÃE – seja para judeus, para gentios, brancos, negros ou índios, feras, animais ou plantas. Max Heindel trata muito bem dessa dual força criadora – os dois polos referidos pelo primeiro versículo do Gênesis. Essa dupla energia manifestada sabiamente por Deus em tudo, é que reverenciamos, sabendo que nada somos de nós mesmos como pessoas, como pais ou mães. O que nos enobrece como canais dessa manifestação criadora é a Vida Divina:
“Eu, de mim mesmo, nada posso; o Pai em Mim é quem faz as obras”.
Portanto, não vamos subestimar nossa mãe e pai carnais, aqueles que amorosamente serviram de canais para o suprimento de material físico em nosso renascimento na Terra. O Esoterismo é claro: “assumimos um dever de gratidão por tudo que recebemos de nossos semelhantes e um dia, nesta ou em outras vidas na Terra, teremos ensejo de lhes retribuir para que se cumpra a lei: dar e receber”.
Mas, a grandiosidade de um pai ou mãe humano está, indubitavelmente, na compreensão de que eles, por si, nada são – predispondo-se a servir ao Divino Universal e ao Divino que deseja renascer – fazendo tudo o que possam no cumprimento de seu trabalho evolutivo.
Para honrar este causal princípio Pai-Mãe, devemos aprender a vê-lo e reverenciá-lo em todas as coisas e pessoas.
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Quarto Mandamento
4º Mandamento
“Guarda o sábado, pois é a Dia do teu Senhor”
Eis outro ponto de muitas controvérsias e discussões. Exceto os sabatistas, os cristãos adotaram a o Domingo para dia de descanso e adoração.
Antes de Cristo, a evolução humana era regida pela Lua. O Calendário e as festas religiosas se baseavam nos movimentos lunares. Os povos árabes ainda conservam símbolos lunares. A Lua está associada à Saturno (ambos regem a Corpo Denso e se caracterizam pela tendência cristalizante), Regente do Sábado (Saturday).
A dispensação cristã, ao contrário, está relacionada com o Sol. Todas as religiões falavam de alguém “que havia de vir,.. do Sol”. O Sol é a morada dos Arcanjos, dos quais o Cristo é o maior Iniciado. Ele é o Leão de Judá, o Cristo Solar, ligado à positiva Luz que veio conquistar a Terra por dentro.
Sábado quer dizer “descanso”; por extensão: “Dia de descanso”. Foi instituído na lei mosaica com finalidade bem definida: obrigar o povo a deixar seus negócios e atividades e, um dia por semana, ir à Sinagoga ouvir as leituras de textos sagrados. Só por obrigatoriedade da Lei a o povo, eminentemente materialista, iria à sinagoga assimilar as verdades adequadas ao seu nível (o nível da pedra, da letra, da Lei).
Domingo significa “Dia do Sol” (Sunday). Etimologicamente, a palavra “Sol” está ligada aos sentidos de “Deus, Júpiter, Luz e Dia”. Perto do fim do primeiro século, a igreja cristã primitiva transferiu para o domingo o dia semanal de descanso e adoração, preceituado no quarto mandamento, por ser o dia da Ressurreição de Cristo Jesus e, por isso, denominado “o Dia do Senhor” (Ap 1:10). Assim como fez Deus no trabalho criador, também nós trabalhamos seis dias e no sétimo devemos descansar no Senhor, aquietando-nos, ouvindo, lendo coisas sagradas, para nutrir e desenvolver o nosso íntimo, pois tudo depende de exercício e de alimento. Tudo se desenvolve em períodos setenários: seis dias criamos e evoluímos na atividade externa, e um dia dedicamos para entregar a essência dessa Obra à Deus em nós, em comunhão, saindo fortalecidos para uma semana ainda melhor que a anterior.
Note-se que Cristo costumava curar nos sábados. Os fariseus, ignorantes do interno sentido do sábado, atacavam-no por isso. Mas disse o Mestre: “Eu sou o Senhor do sábado”; “O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado”. Ele quis que isso significasse que nesse dia o ser humano abdicasse de si mesmo, de sua parte humana, e deixasse que Deus laborasse em e através de si, no restabelecimento de suas forças internas, na definição de sua natureza divina, no entendimento das coisas sagradas. Portanto, nenhum dia seria mais indicado para a Cura. Curar e pregar a boa nova são a mesma coisa, pois, ambas restituem a integralidade do Ser. Sabemos que a palavra “são” quer dizer sadio e santo: ambas são expressões de integralidade, e de harmonia global do ser.
Assim; não importa o dia e lugar, sempre que nos dedicamos às coisas sagradas, estamos realizando essa finalidade (prevista na lei mosaica aos sábados, e pela igreja cristã aos domingos – para disciplina dos rebeldes que não compreendem e nem avaliam a graça dessa comunhão interna).
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Terceiro Mandamento
“Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”
Cristo confirmou no “Pai Nosso” ou “Oração do Senhor” esse mandamento de forma positiva, ao ensinar: “santificado seja o teu Nome”.
Para o povo hebreu, o “nome” (shem) tinha significação mais ampla e profunda do que a que lhe atribuímos hoje para identificar uma pessoa ou coisa. Embora se fale de “bom nome”, referindo-nos à reputação ou ao caráter de uma pessoa, a palavra “shem” dá a entender a natureza, a essência ou a honra do indivíduo.
A locução “em vão” significa, basicamente “de forma inútil” ou “por nada, por vaidade, por falsidade, por leviandade”.
“Tomar” era usado no sentido de “elevar, carregar, proferir ou aceitar”.
Assim, o “proferir ou aceitar o nome ou a natureza de Deus” é, ao mesmo tempo, uma honra e um desafio que não devem ser tomados levianamente.
O uso da palavra era, é e será algo sagrado. Empregada conscientemente e de forma ajustada, a vibração de uma palavra tem poder. Hoje, infelizmente, é deplorável o abuso nesse campo.
Deus é inominado. Quando Moisés recebeu a revelação e a missão na “montanha”, sabendo que tinha de enfrentar pessoas comuns que só conheciam a forma e o nome, perguntou: “Senhor, se me perguntarem quem foi que me enviou que direi?” E o Senhor respondeu-lhe: “Dize que foi o “EU SOU”.
Basta ser. Eis a mais expressiva conjugação: “eu sou, tu és, nós somos . . . espíritos. Simplesmente.
Mas o mundo precisa de identificação. Quem nomeou as coisas foi Adão. É um esforço de isolar o que parece isolado.
Não devemos confundir a realidade espiritual com um conceito mortal. Dizemos: raios de Sol, porque sabemos que eles continuam unidos a sua Fonte, apesar de haverem caminhado 149 milhões e 400 mil quilômetros em 8 minutos, quando chegam à Terra. E nós, não somos também, por acaso, centelhas divinas, uma vez que “em Deus vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”?
Não tomemos, pois, levianamente, os nomes pelas coisas que representam, principalmente em relação à verdadeira identidade de semelhante. Em que ele é semelhante a ti? Senão pelo Espírito?
Ainda mais quando nos referimos a Deus: se a palavra Deus foi tomada para representá-lo (e a palavra “Deus” está ligada a ideia de Luz e Dia: “Deus é Luz” – Jo), usemo-la de forma sagrada, erguendo nossa mente ao Inominado, ao Imanente e Transcendente, ao Onisciente, Onipotente e Onipresente Criador.
A essência desse mandamento nos exorta a não tomar a aparência pela realidade. Ainda que surjam as pessoas, coisas e lugares, por meio do testemunho dos cinco sentidos, saibamos que são expressões provisórias do real e divinamente infinito.
Os dez mandamentos são indicações conducentes à consciência crística – Segundo Mandamento
“Não farás para ti imagem de escultura nem alguma semelhança do que tenho criado. Não te encurvarás a elas nem as servirás”.
Os protestantes acusam ferozmente os católicos de usarem imagens e esculturas em seus templos; algumas, por sinal, maravilhosas, verdadeiras obras-primas concebidas por artistas notáveis como Raphael, Michelangelo, Rubens, etc.
A nosso ver, não reside aí a mensagem principal deste mandamento. A pedagogia e a psicologia educacional afirmam que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Modernamente exploram as ilustrações e com elas enriquecem os planos de aula, a fim de que o aprendizado se torne mais completo: áudio visual.
Nossa Mente ainda está num estágio mineral. Só as pessoas mais elevadas podem conceber ideias abstratas e atingir outra esfera ou cosmos da verdade essencial das coisas. Daí a necessidade dos símbolos, desde que bem escolhidos. O mal não está nos símbolos, mas no tomar os símbolos pela realidade que transmitem. Se conhecemos a essência de uma verdade e, no esforço de transmiti-la buscamos as representações mais fieis estamos prestando uma ajuda a outros menos aquinhoados.
Quando o iniciado atinge o conhecimento direto das realidades espirituais, nos planos supra físicos verifica a dificuldade de transmiti-las. Max Heindel observa, por exemplo: “Quando falo dos mundos em que o Universo se divide e os represento num diagrama, uns acima dos outros, não quero dizer que se achem assim nos planos espirituais. Em verdade eles se compenetram em graus diferentes de densidade e vibração”. E deu o exemplo da esponja, da água e da areia. Depois acrescenta: “Os diagramas podem ser uma ajuda e um entrave ao mesmo tempo, porque involuntariamente podemos induzir uma ideia falsa da realidade”.
Isto nos leva a meditação das palavras. Vivemos num universo de palavras e, neste século de comunicação entendemo-nos através de palavras e de símbolos. Você já pensou que representam as palavras? Já observou como os seres humanos discutem e pelejam em torno de palavras? Às vezes discutem por usarem palavras diferentes para a mesma coisa; outras vezes divergem pela mesma palavra, com a qual pensam em coisas diferentes. Ora as palavras não são as coisas: constituem apenas um esforço de representação e devemos ter muito cuidado com elas, porque podem ser uma ajuda e um entrave na comunicação. Melhor ainda, as palavras são a nossa interpretação das coisas e não as coisas mesmas. Tanto é assim que, à medida que nossa compreensão vai melhorando, nossa representação por palavras também muda. A evolução em tudo, é uma gradativa transformação das definições anteriores.
No futuro Período de Júpiter será diferente. A mentira será impossível, pois teremos a capacidade de materializar a ideia em nossa aura mental, sem necessidade de palavras. Os Mestres espirituais possuem por conquista antecipada, de sua evolução, esta capacidade: projetam com as palavras a imagem do que falam. Essa capacidade é uma das provas de um verdadeiro Mestre.
Já que entramos na meditação sobre as palavras, consideremos outro ponto: a “onda portadora”. Além das palavras que pronunciamos, comunicamos a outra pessoa algo mais: a intenção como uma “onda portadora” que muitas vezes o interlocutor capta. E, como vivemos num mundo hipócrita, é comum que a pessoa diga uma coisa e pense outra. Ouvimos as palavras e sentimos uma indefinível divergência, uma estranha incoerência. Além disso notamos sinais externos confirmadores da hipocrisia, na mudança do tom de voz, no evitar nosso olhar, etc.
Mas, que relação tem tudo isto com o segundo mandamento?
É que este mandamento trata da idolatria, em muitos sentidos. De maneira geral, sabemos que a idolatria consiste em tomar uma forma em lugar da realidade que ela representa; e considerar a letra e não a ideia essencial que ela busca expressar; é tomar o corpo pelo ser humano integral, como fazem os materialistas.
O fato de os nossos sentidos estarem limitados à forma, não justifica nossa ignorância das verdades essenciais, numa época de tão rica literatura a respeito. A evidência lógica tem levado eminentes cientistas a reverenciar o Divino Arquiteto, cuja Presença é indiscutível em toda a Criação. Anteriormente as Sociedades de Pesquisas Psíquicas; agora a Parapsicologia; demonstram à sociedade revelações confirmadas por meios científicos, de realidades além da capacidade sensorial. Na Suécia e na Alemanha, principalmente, se estabelecem ligações com os planos espirituais com auxílio de aparelhos eletrônicos sensíveis. Hoje não é mais uma questão de crença, mas de atualização, o conhecimento dos planos espirituais, causais, que sustentam este plano visível.
Mas; se não temos possibilidades de conhecer a realidade última das coisas, somos todos idólatras? Não, este mandamento não refere ao esforço louvável de buscarmos entender as verdades divinas, embora estejamos sempre aquém delas. Não há como evitá-lo no desenvolvimento da consciência. Tudo evolui assim. A ciência foi deixando os conceitos ultrapassados, com sua verdade relativa, substituindo-os por outros mais corretos e atualizados. Mas foram as verdades relativas que serviram de degraus nesta escala evolutiva de aprimoramento.
Isto se dá em todos os assuntos, se bem que nas questões espirituais temos o testemunho avançado de altos Iniciados que podem ver as realidades supra físicas com muita amplitude. Esse testemunho serve de orientação segura, não excluindo, no entanto, o esforço de cada Aspirante e a liberdade de cada um ir confirmando o que recebeu.
As teologias e doutrinas várias andaram antropomorfizando Deus. Na impossibilidade de subir a Ele, forçaram-no a descer à sua limitada concepção. Isto é idolatria.
Cristo ensinou à mulher samaritana: “Deus é Espírito e Verdade e cumpre adorá-lo em Espírito e Verdade”. O espírito é intangível. E que é a verdade? Cristo respondeu a Pilatos? Não. Porque todos nós estamos limitados a nosso nível de evolução e não podemos admitir a Realidade total e absoluta.
Idolatria é o pecado do materialismo, que toma a manifestação pela Essência que a vivifica. Por isso, o primeiro passo no Ocultismo é o estudo dos Mundos Invisíveis.
Querem um exemplo simples para destacar o corpo do ser humano?
Observem uma pessoa dormindo; ela não pensa, não vê, não age, não ama, não tem consciência de si nem dos outros; apenas as funções vitais, involuntárias estão mantendo o corpo que respira, digerem e fazem circular o sangue ritmicamente, etc. Depois ela acorda, abre os olhos e algo estranho ocorre: toma consciência de si, vê-nos, reconhece-nos, abraça-nos, ama-nos, fala-nos. Que aconteceu? ALGO que não estava no corpo enquanto ela dormia; voltou e o despertou dando-lhe todas as capacidades que antes não manifestava. Esse algo é o ser humano REAL que anima o corpo que construiu. Tanto assim que, ao abandoná-lo definitivamente, o corpo se decompõe.
O Espirito é a causa; a matéria e é a consequência. Primeiramente existiu a luz; depois a luz criou o olho que a pudesse ver. O poder está no Espírito criador e sustentador da forma e não nesta. O galho que se destaca da árvore, seca-se. A matéria é mutável e transitória; mas o Espírito é eterno, manifestando-se gradativamente melhor, à medida do crescimento de consciência (alma) e originalmente, segundo seus pendores epigenéticos.
Assim, não devemos adorar nem temer nem odiar o externo, a forma.
Vemos uma cobra e a associamos com a ideia de perigo, sentimos repulsa e violência e vamos matá-la. Podemos vê-la como ela é, sem preconceitos, com toda a sua beleza e respeitando-lhe o instinto de defesa?
Vemos a figura de Sócrates e a imagem nos suscita, no íntimo, tudo o que dele sabemos. Vêm-nos sentimentos de admiração, de reverência, de gratidão. Podemos vê-lo como ele é, apenas gratos pela mensagem que ele trouxe, e não pela pessoa em si? O mesmo deverá sentir em relação a Jesus; o Buda, a Einstein: não o canal, mas a Essência que através deles fluiu de forma diferente, para alimentar a Humanidade.
É a essência que valoriza a forma e não a forma que valoriza a essência. “A letra mata, mas o Espírito vivifica”. Devemos ir além da forma limitadora e sentir a amplitude da Essência Universal.
A infinitude de Deus está oculta em cada coisa criada, mas nossos sentidos não na percebem. As realidades objetivas se tornam em realidades subjetivas, por causa de nosso conceito finito delas. Estamos condicionados pelos preconceitos e por nosso nível de consciência. A melhor atitude mental é admitir todas as coisas como possíveis. Embora firmados no sentir e saber internos, mantenhamos a humilde atitude de nossa limitação.
O 1º e 2º mandamentos abordam, pois, a única realidade, o único poder essencial. Mas o primeiro mandamento nos adverte a não nos apoiarmos nas realidades evanescentes deste mundo; a não dependermos delas, não as temer nem as odiar: o único valor ou poder que elas têm são os que nós mesmos lhes atribuímos por nossas crenças.
Já o segundo mandamento se refere especificamente as representações e seus perigos para que não nos detenhamos nelas, mas busquemos a essência que desejam comunicar, como diziam os autores do Torah – o livro sagrado: “Ai daquele que toma as vestes do Torah pelo próprio Torah! Os mais simples só notam os ornamentos e versos do Torah, mas os esclarecidos não prestam atenção alguma ao exterior, senão à essência que ele encerra”.
OS TRÊS GRAUS DO DISCIPULADO
Parte 1
Grau Mestre
São Tiago, São João e São Pedro
Os 12 Discípulos foram divididos em 3 agrupamentos, de acordo com sua preparação e desenvolvimento no Discipulado. Estas 3 divisões podem ser listadas como segue:
• Grau Mestre: os 3 pilares: São Tiago Maior, São Pedro (Simão) e São João.
• Grau Fraternidade: Santo André, São Tomé, São Mateus, São Filipe e São Natanael (São Bartolomeu)
• Grau Aprendiz: São Tiago Menor (o Justo), São Judas Tadeu, São Simão e Judas Iscariotes.
Maria Salomé1, irmã da Virgem Maria, casou com Zebedeu de Cafarnaum, um homem abençoado com abundância material e espiritual. Salomé e Zebedeu, junto com seus dois filhos: São Tiago e São João, eram muito queridos no coração de Cristo Jesus. Esta família estava entre os seguidores mais devotos. Zebedeu dispendeu tempo e dinheiro para a causa do novo Cristianismo, enquanto Salomé cuidava das necessidades físicas dos Discípulos. A lenda relata que Salomé acompanhou Maria e José em sua fuga arriscada para o Egito. Ela é também proeminente entre as mulheres Discípulas ao longo da narrativa do Evangelho.
São Tiago, São Pedro e São João compunham o círculo mais interno dos Discípulos, chamado de “pilares”, porque eram avançados o suficiente para receber os ensinamentos esotéricos mais profundos dados por Cristo.
Contundência, poder e força eram as palavras chaves do caráter de São Tiago. Antes de suas transformações em graças espirituais, estes muitos atributos produziram muitas reações não-Cristãs. Por exemplo, ordenou que fogo viesse do Céu para destruir um vilarejo que não queria receber o Mestre; também solicitou seu lugar mais proeminente no Reino.
Tiago
São Tiago aprendeu rapidamente, contudo, a seguir o caminho onde a vingança é suplantada pelo Amor, percebendo que ninguém pode receber qualquer benefício permanente que não seja ganho pelos esforços pessoais. Após sua iluminação ele disse que “seus pensamentos respiraram e suas palavras queimaram”.
O destemor absoluto de São Tiago, conjugado com a dedicação sincera para com as causas do Mestre antecipou o seu Discipulado. Ele ganhou o profundo e permanente amor de Maria, Mãe de Jesus. Por causa de seu fervoroso zelo, São Tiago foi o primeiro Discípulo a viajar por terras estrangeiras levando a gloriosa mensagem de Cristo, e foi o primeiro a seguir o seu Senhor no martírio. Desdenhando todos os perigos físicos ele se estabeleceu na Espanha: a primeira terra estrangeira a receber a mensagem de Cristo.
Uma das supremas dádivas do Discipulado é saber, verdadeiramente, que não existe tempo ou distância para o espírito. São Tiago teve o privilégio de se aconselhar com a amada Maria, de quem recebeu orientação e direcionamento. Muitas vezes ele teve sua proteção em ocasiões de cansaço extremo e de crise.
Após o seu retorno da Espanha, uma feliz reunião em Éfeso com seu irmão, São João, e a Divina Dama foi abençoada e santificada. Eles estavam cientes de que os dias de companheirismo nesse mundo exterior estavam chegando ao fim, e que o retorno de São Tiago para Jerusalém significava a preparação para o seu martírio.
Maria foi transportada em espírito para a cena de seu martírio. Com uma série de Ministério de Anjos, Maria assistiu e apoiou São Tiago na hora de sua transição. A morte pode não aterrorizar a consciência de um Iniciado, já que este aprende a participar, conscientemente, das águas da Vida Eterna.
Alegremente este nobre espírito colocou de lado seu vestuário de carne. Cercado da glória transcendente dos Anjos, envolto no brilho e na bênção da Virgem, ele também pode entoar o mesmo grito triunfante, de quem tem o conhecimento direto, como assim fez o outro ungido de Deus um pouco mais tarde. “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?”2.
Segundo o Pentecostes, São Tiago tornou-se líder da igreja em Jerusalém. Sua contundência, força e poder, agora transmutadas em qualidades espirituais, floresceram em tal beleza de vida e ação que quando Herodes, irmão de Herodias, que causou a decapitação de São João Batista, desejou suprimir a heresia do Novo Cristianismo, a figura imponente de São Tiago tornou-se o principal alvo de suas hostilidades. Apenas catorze anos após a Crucificação, São Tiago seguiu seu Senhor para libertação da cruz do martírio.
De acordo com os escritos de Clemente de Alexandria, citado por Eusébio, São Tiago transmutou de tal forma seu espírito de vingança em compaixão, que o homem que o entregou para Herodes ficou tão inspirado, pela nobre atitude de São Tiago, que se tornou seguidor e foi recebido pela fraternidade da pequena igreja Cristã. O último ato terreno de São Tiago foi outorgar uma benção sobre este homem; e suas últimas palavras endereçadas para Herodes foi “que a paz esteja em ti”.
João
João foi o idealista entre os Discípulos. Ele foi o mais espiritualmente desenvolvido entre os 12, e seu Evangelho é o mais esotericamente profundo de todos que sobreviveram. Os Capítulos 14 a 17 contém os ensinamentos referentes a mais elevada religião a suceder o Cristianismo – conhecido pelos esoteristas como a “Religião do Pai” – que chamará seus Discípulos para o reino do Espírito Divino. Maria, mãe de Jesus, e João, seu melhor Discípulo amado, foram os únicos avançados suficientemente para entrar em contato com estas elevadas verdades. Um exemplo deste fato aparece na cena aos pés da cruz, quando Jesus apela a Maria para cuidar de João como se fosse seu filho (em Seu lugar), e diz a João para cuidar de Maria como se fosse sua própria mãe; assim, claramente, nomeou João Seu sucessor na Terra.
Pedro foi designado como Apóstolo ou emissário para o Ocidente bárbaro, onde seu caráter rude e simples, sua inteligência assertiva fez dele um líder e professor ideal. João, culto e erudito, falando a língua dos filósofos Helênicos, foi enviado para estabelecer sua escola em Éfeso, com seu conhecimento de civilizações antigas. É dito que Maria peregrinou com ele por um tempo. João é um grande Apóstolo da Gnose. Na Nova Era ele terá seu lugar no Mundo da Cristandade, que Pedro tem ocupado durante a Era de Peixes na Cristandade da Europa.
De “Filho do Trovão”, João se transformou em o mais perfeito exemplo no mundo da encarnação do amor. Sua humanidade foi purgada e saneada em toda chama consumidora do amor. Seu trabalho mais notável, fora de seus escritos, foi fundar a igreja em Éfeso – que foi depois liderada por João Presbítero e que trouxe à cena Policarpo e Inácio, dois dos mais ilustres cristãos primitivos.
Há uma lenda apócrifa que relata que durante o reinado Domiciano3, João foi preso e trazido ante ao imperador que o ordenou tomar o veneno mortal. Domiciano queria aprender se este Mestre, sobre quem João ensinou, protegeria ou não o seu Discípulo. João pegou o copo e disse: “Em teu nome, Oh! Cristo, eu tomo esta poção. O veneno se misturará com o Espírito Santo e se tornará um cálice de vida eterna”. Ele então o bebeu e permaneceu calmo e ileso. Quando um prisioneiro foi trazido e deram-lhe a mesma poção, ele morreu em convulsão, quase que instantaneamente. Por causa desta lenda uma arte sacra foi retratada de João abençoando um pequeno dragão alado, que ergueu sua cabeça de um cálice. Esotericamente, isto nos lembra que o Evangelho de João é correlato à Hierarquia Zodiacal de Escorpião e do mistério da regeneração, por meio do qual o veneno letal no sangue é transmutado em elixir da vida.
A lenda continua ao dizer que o temor supersticioso do Imperador alterou a sentença de morte de João para banimento em Patmos4, ilha onde ocorreu sua grande Iniciação, como descrito no Livro da Revelação5. Em consequência da morte de Domiciano, Trajano, seu sucessor, permitiu que o reverenciado exilado retornasse para Éfeso. A história relata que João, em sua última reunião com seus seguidores, os homens mais jovens carregaram o venerável Apóstolo em seus ombros até o local do encontro, onde todos poderiam reverenciá-lo uma vez mais. Em sua chegada ele estendeu sua mão em benção sobre o grupo reunido, e deu a todos uma ordem de despedida: “Pequenas Crianças amem-se uns aos outros”.
Quando João soube que chegou a hora de seu passamento, ele indicou Policarpo para sucedê-lo, como líder de sua igreja. Então ele ficou olhando o céu e glorificando a Deus. Como os Discípulos falecidos “eles viram-no encerrando-se junto aos demais”.
Essa é uma frase iniciatória que descreve o processo pelo qual o profeta eleva o ritmo vibratório de ambos: consciência e corpo; então ele fica imune à fome, ao frio, à doença e qualquer outro aspecto negativo da existência física. Esta técnica de espiritualização pode continuar até que a substancia física se desintegre ou fique invisível. O “encerramento completo de si para com todos” pertence apenas aos Mistérios Maiores.
Quando os Discípulos retornaram no dia seguinte, João não estava mais lá. Foi encontrado apenas seu manto e suas sandálias. Porém onde ele tinha erguido uma última fonte de água que jorrava, eles recordaram das palavras do Mestre para Pedro: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?” (Jo 21:22)
Este é, talvez, a mais bela descrição de todas as traduções da Terra em espírito puro. O Discípulo aprendeu a superar a morte. Num inquebrantável estado de consciência passou da Terra para o Céu.
João, o mais amado do Senhor Cristo, o mais espiritual de Seus Discípulos, fez esta gloriosa demonstração como supremo ideal a ser realizado eventualmente pela raça humana inteira. Ele foi o primeiro, após Cristo, a manifestar a vida eterna daquelas Águas que o Mestre lhe deu para beber. Ele deixou esta Fonte original com seus próprios Discípulos em Éfeso.
Pedro
É dito que Pedro era alto e robusto, com penetrantes olhos cinzas. Seu pesado cabelo negro circundava sua larga testa em cachos triplos como uma tiara. Ele foi um dos mais importantes e, talvez, o mais pitoresco dos Doze imortais.
O nome Simão significa “ouvinte compassivo”. O novo nome, outorgado sobre ele por Cristo, foi proporcionado com sua espiritualidade em evolução: Cephas ou Pedro, que significa “rocha”.
Maior, impulsivo, inconstante e temeroso são as palavras chaves que descrevem o humano Simão. Valente, destemido, leal, e determinado até a morte: estes são os principais traços do caráter do espiritual Pedro. Entre estes dois extremos estabelece-se um caminho sombreado pela dor, humilhação e fracasso, como poucos têm experimentado. Mas foi o Caminho da Iniciação, onde as deficiências humanas de um homem foram transformadas em atributos espirituais de um super-homem.
As marés inquietas e mutáveis do mar, pelas quais Pedro passou a vida, pareciam pulsar em seu sangue. Simão, o Discípulo prévio, foi verdadeiramente o “homem-água”. Foram pesadas as tempestades e ferozes as marés necessárias para efetuar a metamorfose do “homem-onda” para o “homem-rocha”.
Na Negação é para ser encontrado o primeiro grande incentivo da gradação da envergadura espiritual. Quanto mais escuro a sombra, mais brilhante a luz. Como mencionado antes, Pedro nunca escutou o galo cantar sem verter lágrimas e novamente implorar por perdão. Do começo ao fim de sua vida ele avidamente acolheu toda forma de perseguição como penitência pela traição ao seu Senhor. Após a negação, Pedro retornou ao Getsemani, cena de provação recente de seu Mestre, e o Jardim se tornou, novamente, Local de Agonia. Foi aqui que o verdadeiro Pedro nasceu. Ele veio diante de digna promessa: “tu és Pedro e sobre esta rocha construirei minha igreja”.
Tão prodigiosos eram os poderes do novo Pedro que o doente foi curado, quando sua sombra passou sobre ele e onde a sua presença era respeitada, produzia múltiplas bênçãos. Sua humildade cresceu, ainda mais, com sua grandeza. O Mestre reprovou sua arrogância no Ritual do Lavapés, mas pelo seu profundo arrependimento pela Negação, ele aprendeu bem sua lição de humildade. Em sua Primeira Epístola ele adverte seus Discípulos para se vestirem com humildade. O espírito da humildade predominou até o fim de sua vida. Ele mesmo pediu para ser pregado na cruz do martírio de ponta-cabeça, pois ele era indigno de morrer da mesma forma que o seu Senhor.
Pedro adentrou num grande acontecimento na sua transferência ao circo de Calígula de Roma, onde muitos Cristãos valentes sacrificaram suas vidas em nome da Fé.
[1] N.R.: Salomé foi uma seguidora de Jesus citada brevemente nos evangelhos canônicos e que aparece nos apócrifos do Novo Testamento. Ela é por vezes identificada como sendo a esposa de Zebedeu e mãe de Tiago e João, dois dos apóstolos de Jesus. Em outras tradições, ela é a irmã de Maria e tia de Jesus. É conhecida na tradição católica como Maria Salomé, uma das “Três Marias”. Não confundir com a filha de Herodias, que exigiu a cabeça de João Batista.
[2] N.R. ICor 15:55
[3]N.T.: Tito Flávio Domiciano, habitualmente conhecido como Domiciano, foi imperador romano de 14 de setembro de 81 até a sua morte a 18 de setembro de 96.
[4]N.T.: é uma pequena ilha da Grécia a 55 km da costa SO da Turquia, no mar Egeu.
[5] N.T.: O Apocalipse na Bíblia
(do Livro: New Age Bible Interpretation, Vol VI, Corinne Heline – Traduzido da Revista Rays from the Rose Cross – 11-12-2002)