A Língua: tenha cuidado com ela

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A Língua: tenha cuidado com ela

A Língua: tenha cuidado com ela

Lendo a tua monumental Epístola, de São Tiago, desejei muito ver-te de perto, conhecer-te pessoalmente, abraçar-te, dar-te meus parabéns por tão grandioso quão útil trabalho que tens realizado neste mundo, mediante a tua magnificente Carta. Certo de que nosso encontro ainda demora muito, peço-te permissão para escrever alguma coisa sobre a língua, baseado no teu ensino.

— A língua “é um pequeno membro”, não é, São Tiago? É sim, eu o sei. Pois bem; sobre ela muito já disseram grandes pensadores, escreveram eminentes escritores e poderão falar e escrever os que, sabendo manejar bem a pena, arranhem também o seu idioma.

Desejando escrever algumas linhas sobre esse “pequeno membro”, não lhe desconhecendo o poder de inflamar (“COM O FOGO DAS PAIXÕES”) “a roda do nosso viver”, faço-o à proteção dos bombeiros sagrados, entre os quais estás, na certeza de que não serei, afinal, consumido pelas chamas. Que achas?

— Muito bem. — Vou começar. Faze de conta que sou teu aluno e vou fazer uma prova. Corrige os erros.

  1. A LÍNGUA É VAIDOSA. Lede, amigos, o que diz o Apóstolo prático: “Assim também a língua é um pequeno membro, mas GLORIA-SE de grandes coisas” (Tg 3:5). É.… a língua não é simplesmente vaidosa: é vaidade. O grifo é meu.

Balanceando a vida da língua, estou em perigo de ser açoitado por ela mais uma vez, não o ignoro. Portanto, para continuar este pesado trabalho busco, uma vez que a língua é fogo dos grandes vultos, a luz que sobre a tela da sabedoria projetam, a fim de, aquecido por ela, poder neutralizar a sua ação ígnea e dizer sem medo de errar: João Crisóstomo — escreve Manuel Bernardes — “assenta que não tem o demônio órgão ou instrumento mais à feição e propósito do seu ofício que a nossa língua”. Todo cuidado com a língua é pouco.

  1. A LÍNGUA “É UM FOGO”. A ação do fogo é tremenda, é destruidora; quem a poderá suportar? É assim a língua. Ela também consome, destrói…

“Nada menos convém ao homem que trata de servir a Deus e caminha para a perfeição”, — sentencia Lourenço Justiniano — “como a língua desenfreada e solta das ataduras da moderação, porque ela lhe destrói e mata o recolhimento e união de espírito”.

  1. A LÍNGUA É INÍQUA. E não se diga que é exagerada esta declaração. São Tiago vai mais adiante. Para ele, a língua não é apenas uma [coisa] iníqua, senão “um mundo de iniquidade”. Haverá nesta sentença de São Tiago uma hipérbole? Contudo, tirando-se a hipérbole talvez ainda fique, pelo menos, um quarto de mundo de iniquidade! É pouco?
  2. A LÍNGUA É CONTAGIOSA. Enquanto eu estiver imprimindo esta fotografia da língua, permite-me, São Tiago, [que] continue sempre atrás de ti; tenho muito medo de língua. Acabei de escrever que a língua seja contagiosa. Se, por este motivo, perseguirem-me, direi que aprendi contigo, pois tu disseras que ela “contamina todo o corpo”. E vai nisto notável diferença. Uma coisa é ser contagiosa, outra bem diferente é contaminar.

Se me perguntardes, caros leitores, como é que a língua “contamina todo o corpo”, dir-vos-ei: levando-o a pecar. Sobre o mesmo assunto, vede o que diz o filho de Mônica — Agostinho —, o bispo de Hipona: “Deve vigiar-se o homem de duas partezinhas que na sua carne nunca envelhecem e todas as mais levam consigo a rastros PARA O PECADO. São esses o coração e a LÍNGUA. O coração é incansável engenheiro de novos pensamentos: e a LÍNGUA, o oficial expedito para copiar as invenções do coração”. São meus os grifos.

  1. A LÍNGUA É UMA FERA INDOMÁVEL. — Sei que não estou poupando o couro da língua, irmão Tiago. As línguas vão dizer que as minhas palavras são muito duras. Para defender-me, se for necessário, posso citar IPSIS LITERIS os versículos 7 e 8 do capítulo terceiro da tua Epístola, que tenho em mãos? — Pode, sim. — Pois bem. Vou continuar.

De que a língua é realmente o que acabo de escrever ninguém pode duvidar. São Tiago é muito claro sobre o assunto. Lede aqui suas palavras: “Porque todas as espécies de alimárias, de aves, de répteis e de outros animais se domam; têm sido domados pela natureza humana; porém a língua, nenhum homem a pode domar…” (3:7 e 8, primeira parte).

Para que não digais que eu e o irmão Tiago somos demasiadamente ríspidos no que escrevemos sobre a língua, deixo-vos aqui algumas palavras de Pedro Damião, que deveis considerar: “Note-se de caminho que, se a língua é mais indomável que as aves, feras e serpentes, é porque em si contém essencialmente, das aves, a ligeireza; das feras, a braveza e das serpentes, a peçonha e malícia”.

“Como são despolidas estas palavras de Pedro Damião! Como são duras… BRAVEZA das feras, PEÇONHA e MALÍCIA das serpentes…”, dirá alguém, sem dúvida, caros leitores. O nosso Damião escreveu a pura verdade; a verdade é dura, mas VERITAS SUPER OMNIA [A verdade está acima de tudo]. Antes que escrevesse Pedro Damião, escrevera São Tiago: “… a língua… (ESTÁ) cheia de veneno mortífero” (3:8). Que diferença há entre “peçonha de serpente” e “veneno mortífero”? Tanto faz dizer que a língua tem PEÇONHA de serpente como dizer que está cheia de “veneno mortífero”. Já se vê logo que nenhum dos dois escritores foi desabrido.

De que a língua merece, com justiça, o que se tem dito dela não resta dúvida. Deve ter-se, portanto, todo cuidado com ela.

Para os grandes males da língua, diletos amigos, deixo-vos aqui uma cópia da receita do grande proverbialista dos tempos antigos: “É ao homem que pertence preparar a sua alma e ao Senhor, o governar-lhe a língua” (Pb 16:1). Se alguém, pois, tem a língua desenfreada, peça a Deus que a governe e não se esqueça de fazer a sua parte, segundo o ensino de São Pedro: “Porque o que quer amar a vida e ver dias felizes, refreie sua língua do mal e os seus lábios não profiram enganos” (IPe 3:10).

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de fevereiro/1969)

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