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Peixes: Compaixão

PEIXES: COMPAIXÃO

Os rapazes olharam para Burton, que estava sentado do outro lado da sala olhando distraidamente pela janela.

– Nós temos que perguntar a ele? – perguntou Lance.

Eu tenho pena dele e tudo, mas ele não vai fazer nada além de continuar sentado ali. Ele vai estragar a festa.

– Eu acho que vai ser bom para ele se a gente perguntar.

Ele sempre foi deixado de lado, comentou Frank.

Além disso, como é que ele vai estragar a festa ficando sentado ali? Nós podemos nos divertir do mesmo modo.

Que tal, gente?

Muitas cabeças aprovaram com relutância e Lance disse:

– Muito bem, mas é você que vai perguntar. Eu não quero fazer isso.

Burton, dois anos mais velho do que seus colegas, era retardado mental, mas não havia nenhuma escola especializada nas vizinhanças para onde seus pais pudessem mandá-lo. Eles o tinham matriculado no curso secundário onde ele tinha aulas de comércio, arte e educação física, mas ele lia mal e não conseguia aprender as matérias acadêmicas. Ele era geralmente reservado e não criava problemas, e os outros alunos, embora vagamente aborrecidos pela situação, não tentaram mais atrai-lo para seu círculo depois das primeiras e poucas tentativas, que resultaram sem sucesso.

Frank ficou muito tempo pensando no isolamento de Burton. Na verdade, ele não tinha mais vontade do que Lance e os outros de “arrastar” Burton em seus programas, mas ele tinha pena do rapaz, e sua consciência estava sempre dizendo que eles deviam se esforçar mais para serem bons com ele.

Burton balançou a cabeça indeciso quando Frank o convidou e Frank não estava certo de que ele sequer tivesse entendido. Contudo, quando de tarde ele telefonou para a mãe de Burton, ela disse que ele só falava do convite e disse a Frank que não sabia como agradecer pelo que ele havia feito. Todos tinham que levar um prato para a festinha e a mãe de Burton prometeu bater um bolo.

Quando Frank e Lance chegaram no dia seguinte, Burton saiu de casa todo orgulhoso trazendo o bolo em uma caixa. Ele se esforçou um pouco para conversar com os rapazes, mas levou o bolo cuidadosamente no colo, sorrindo. Na festa, ficou sentado quieto apreciando o movimento. Os convidados se esforçaram, por turnos, para sentar perto dele e conversar e, embora ele ficasse quase sempre calado, seu olhar habitualmente apagado, brilhava interessado e, de vez em quando, ele sorria e acenava para os outros. Ele batia o pé ao ritmo da música barulhenta do aparelho de som e se mostrava menos retraído do que o habitual.

Quando a comida foi posta em uma mesa comprida, Frank sugeriu que talvez Burton gostasse de cortar seu bolo. Relutante a princípio, Burton acabou cedendo a gentil sugestão de Frank e começou a cortá-lo. Ele trabalhava com incrível lentidão, e seu rosto era uma verdadeira máscara de concentração, mas as fatias eram regulares.

Depois de certo tempo, Frank sugeriu que ele comesse e deixasse outra pessoa acabar, mas Burton pareceu tão ofendido que Frank não disse mais nada. Finalmente Burton acabou e com muito sucesso e quando alguns amigos o cumprimentaram pelo seu belo trabalho, ele ficou radiante de alegria.

Na tarde seguinte, a mãe de Burton apareceu de surpresa na casa de Frank.

– Eu só queria dizer o quanto você fez o Burton feliz, ela disse. Tenho certeza que ele não falou muito na festa – ele nunca fala com as pessoas até conhecê-las bem e se sinta seguro com elas – mas ele estava tão entusiasmado em casa. Até chegou a dizer: ‘eu acho que eles gostam de mim’.

A mãe de Burton enxugou os olhos e Frank ficou sem jeito.

– Pedir a ele para cortar o bolo foi uma ideia de mestre, continuou a mãe de Burton. Como é que você pensou nisso? Ele não pode fazer muita coisa, mas você não pode imaginar como ele fica outra pessoa, quando consegue fazer alguma coisa bem feita e é elogiado por isso.

Desde então, a vida de Burton na escola foi diferente. Sabendo agora o motivo de seu silêncio, os colegas falavam com ele, mesmo que ele não respondesse. Pediam para ele fazer coisas para eles, mesmo que fosse só apontar um lápis ou devolver livros para a biblioteca. Ficavam atentos para que sempre houvesse um grupo com ele na mesa do lanche, e Frank e Lance iam buscá-lo em casa cada manhã, assim sua mãe não precisava levá-lo para a escola. Ele era convidado para as atividades de classe e festinhas; algumas vezes ainda ele ficava quieto em um canto, distraído e retraído, mas cada vez mais ele ria e falava com os outros – quase sempre uma conversa infantil, mas animado, e visivelmente feliz.

Uma vez, o professor mandou Burton dar um recado e a mãe dele veio até a sala de aula.

– Eu não sei se vocês realmente entendem o quanto significa para meu filho sua compaixão e compreensão, disse aos alunos. Ele se sente parte do grupo – a primeira vez que ele já sentiu ‘pertencer’ a algum lugar. Eu sei que ele é muito limitado, mas graças a ajuda de vocês, ele está trabalhando inteiramente dentro desses limites, e levando uma vida com algum sentido. Que Deus abençoe a todos.

(Do Livro Histórias da Era Aquariana para Adolescentes – Vol. VI – Compilado por um Estudante – Fraternidade Rosacruz)