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A Busca do Infinito: exemplos de Goethe, Dostoievski e Michelangelo

A Busca do Infinito: exemplos de Goethe, Dostoievski e Michelangelo

A perfeição é conquistada por intermédio de muitas pequenas imperfeições.

Goethe é um bom exemplo ocidental de equilíbrio. No entanto, ele nunca deixou de se queixar da dificuldade que lhe advinha em sua vida de criador. Escreve ele no Diário, em 1779: “Luto com o anjo desconhecido, até à exaustão; homem algum pode imaginar os combates que tenho que travar para produzir o pouco que peço. Que falta de ordem e de continuidade na minha ação, nas minhas ideias, na minha criação poética! Que raros foram os dias que me renderam! Meu Deus, continua a dar-me o teu auxílio; continua a dar-me a luz necessária para que eu não seja um obstáculo para o meu próprio caminho”.

Muita gente pode pensar que assim ele disse porque era jovem ainda. Contudo, que pensar do que Goethe disse 45 anos depois, no fim de uma vida plena de glória e recheada de obras-primas? Eis as suas palavras: “Sempre me invejaram por ter sido singularmente favorecido pela sorte. Também sinto que não me posso queixar e não serei eu a invectivar o meu destino. No entanto, no fundo, a minha vida foi só sofrimento e trabalho. Posso garantir que, ao longo de setenta e cinco anos, não tive quatro semanas de verdadeira satisfação. Foi sempre o mesmo rolar duma pedra, como a de Sísifo, que era preciso a cada momento voltar a levantar”.

A mulher de Dostoievski relata que seu marido sempre foi muito severo consigo próprio e que raramente os seus escritos lhe mereciam aprovação. Às vezes apaixonava-se pelas ideias dos seus romances, que trazia na cabeça durante muito tempo, mas quase nunca ficava satisfeito ao vê-las expressas. Apesar de nunca ele haver tido ideia poética mais rica do que “O Idiota”, Dostoievski dizia que não tinha chegado a dizer nele a décima parte do que queria. Para ele, não era mais do que a sombra do que vislumbrava no íntimo.

Michelangelo, após anos de trabalho, contempla pela primeira vez o teto da Capela Sistina e chora, porque não encontra nele o sonho que o inspirara. Podem vir os críticos, os professores de arte, com seu talento, a comentar e a explicar, descortinando intenções, descrevendo simetrias. Miguel Ângelo os ouve com um secreto espanto porque sabe que a realidade interna é infinitamente mais complicada e infinitamente mais simples. Podem os homens falar; ele sempre buscou o impossível até o fim de seus dias, num anseio incontido de perfeição.

Por isso, todo grande buscador, em qualquer campo, foi profundamente silencioso. Eles tinham a consciência da impossibilidade de comunicar facilmente tudo o que recebiam de dentro e do íntimo. É um silêncio de defesa e de pequenez ante o Infinito.

A experiência do grande buscador é a experiência da verdade e a impossibilidade de falar de sua experiência da verdade. Fala pouco e depois se recolhe para lá do silêncio.

No entanto, só quando chega a esse ponto pode começar a falar devidamente, POR AMOR e na medida daqueles que o ouvem, buscando dar-lhes a pouco e pouco o que alcançou.

E nesse dar descobre a chave da maior elevação que o conduz mais depressa aos altiplanos da espiritualidade, do que uma intensa busca isolada da verdade.

O anseio de perfeição, o impulso de evolução, vem-nos de dentro, do próprio Espírito, em maior ou menor grau, segundo o nível de consciência.

Na medida em que nos vamos libertando da influência da personalidade dominante e nos vamos submetendo à vontade do Eu verdadeiro e superior, é claro que esse anseio cresce, porque Ele busca a realização da verdade.

Espantamo-nos quando Max Heindel nos ensina que um Irmão Maior, está, em sua evolução de consciência, à frente de um santo, assim como um santo está à frente de um selvagem adorador de totem. Todavia, imaginem os passos dos seres evoluídos, comparados com nossos passos.

Em que proporção e intensidade influímos nós na elevação da sociedade? Pensem bem e vejam que é pequena ainda — o que não nos deve desanimar, senão estimular a evoluir mais depressa, porque, quanto mais evoluirmos, tanto mais largos serão nossos passos em direção à meta.

A ação dos seres altamente evoluídos é realmente digna de admiração e de exemplo. Com seus largos passos — quais pequenos astros — eles vão deixando um rastro luminoso à sua passagem, para iluminar e nortear os que ainda se encontram nas trevas das limitações pessoais. E damos razão ao pensador escocês Carlyle:

“A História Universal é a História dos Grandes Homens, que foram os condutores da humanidade, os modeladores, os tipos e, num sentido lato, os criadores de tudo o que as massas humanas em geral se esforçam por fazer ou alcançar. Todas as obras que vemos no mundo são, em verdade, o resultado material exterior, a realização prática e a encarnação dos pensamentos que habitam nos grandes homens enviados a este mundo. Assim, a alma da História do mundo é a história deles”.

Aparentemente, Carlyle anula a contribuição menor de todos que, com sua Epigênese, estão enriquecendo o patrimônio histórico, às gerações porvindouras. Porém, na mesma obra, ele considera como herói todo aquele que se vence diariamente ao conscientizar e deixar seus defeitos, atuando gradativamente melhor em sua vida pública, quer como padre ou profeta, quer como homem público, poeta, escritor ou artista ou artífice. Carlyle arremata: “Sempre saímos ganhando ao conhecer as obras ou dialogarmos com um deles”.

Há um eterno convite de perfeição a todo ser humano. Se ela não nos fosse possível, o Cristo não o teria dito: “Sede vós perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. O Mestre podia vislumbrar claramente o que significa sermos “à Imagem e semelhança de Deus”; de “sermos herdeiros d’Ele”. Há um tesouro potencial em nosso íntimo, passível de enriquecer nossa consciência, quando conquistarmos nossa natureza e o desenterramos de nosso íntimo. A própria natureza de Deus está individualizada como eu ou como tu, à espera da desvelação.

Assim como a semente plantada se desmancha e se transforma, ao devido tempo, numa árvore igual àquela da qual proveio — assim também somos sementes de Deus e devemos renunciar ao que pensamos ser, para nos converter em algo maior, à semelhança e estatura d’Aquele que nos criou.

Somos gratos aos Irmãos Maiores que nos indicam o caminho mais seguro e curto. Ao mesmo tempo devemos assumir nossa própria Epigênese e percorrê-la à nossa maneira, na formação de algo diferente, individual, que seja uma contribuição a mais, no tesouro de Deus.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de maio/1976)

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“E a Verdade vos Libertará”: como utilizar esse Ensinamento no seu dia a dia

“E a Verdade vos Libertará”: como utilizar esse Ensinamento no seu dia a dia

Algum tempo atrás tive o privilégio de discutir com você sobre o tema “A Nota Chave do Cristianismo” e, no decorrer dessa conversa, evocamos diante de nossa Mente o encontro de Pilatos com Cristo, onde a grande e importante pergunta foi feita: “O que é a verdade?”. Vamos olhar para esse quadro de novo.

Lá está Pilatos, o representante de César, e em virtude desse fato, uma personificação do mais alto poder temporal, um governante de todo o Mundo com poder sobre a vida e a morte, um homem diante de quem todos tremem. E perante ele está o Cristo, manso e humilde, porém muito maior, pois enquanto este homem, Pilatos, tem poder sobre o Mundo atual, que é evanescente e temporal, ele próprio está sujeito à morte. Mas Cristo é o Senhor da Vida, o Príncipe de um reino espiritual que não passa. Ele não responde à pergunta de Pilatos, “O que é a verdade?”, mas em outra ocasião ele disse “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” e “A Verdade vos libertará”.

Não se pode negar que estejamos agora sob a lei do pecado e sujeitos à morte. A grande questão é, portanto, como encontrar a verdade que real e verdadeiramente nos libertará; com o objetivo de encontrar o caminho vamos dar uma olhada no início dos tempos, quando a humanidade infantil veio à Terra pela primeira vez. De acordo com a Bíblia, uma névoa subiu da Terra quando a crosta do planeta esfriou; ao olharmos para esta época, como retratada na memória da natureza, encontramos um maravilhoso crescimento tropical de tamanho gigantesco cobrindo a bacia da Terra, onde agora está o Oceano Atlântico. Na verdade, era um verdadeiro jardim, porém a névoa era tão densa que a luz do Sol nunca poderia penetrá-la e a humanidade infantil vivia neste paraíso como os filhos do Grande Pai.

Eles tinham corpos nessa época como temos agora, mas não estavam cientes deles, embora fossem capazes de usá-los, assim como usamos nosso aparelho digestivo sem estar conscientes disso. E embora não pudessem ver fisicamente, a visão espiritual era uma faculdade ainda possuída por todos. Assim, eles viam uns aos outros, alma a alma; não havia dolo nem hipocrisia e a verdade estava com todos.

Gradualmente, no entanto, a névoa se dissipou e acumulou em uma enorme nuvem ao redor da Terra. Simultaneamente, esses filhos da névoa começaram a se ver, vagamente; eles se tornaram cada vez mais incrustados em seus densos corpos físicos e perceberam finalmente que esse veículo seria uma parte do ser humano. Mas, ao mesmo tempo em que gradualmente perderam contato com o mundo espiritual, eles já não viam a alma claramente como até então, e mesmo a voz dos hierarcas espirituais, que até aquele momento os haviam guiado, como um pai guia seus filhos, tornou-se fraca e sombria.

Com o passar do tempo, a nuvem que pairava sobre este vale havia se condensado suficientemente na atmosfera de resfriamento, de modo que estourou e lançou sobre a Terra uma inundação que levou essas crianças da névoa até as terras altas, onde, na atmosfera clara, sob a curvatura do arco-íris, eles se viram pela primeira vez.

Gradativamente, a grande ilusão de que “nós somos corpos” tomou posse de todos, a alma não era mais vista nem puderam ouvir a voz do Grande Pai que cuidara deles durante a infância, em seu Estado paradisíaco. A humanidade ficou órfã, à deriva no deserto do mundo. A vida tornou-se uma luta contra a Morte.

Logo, a maioria da humanidade pareceu esquecer que houvesse um Estado tão feliz, embora a história vivesse em canções, lendas e habitasse em cada seio humano um profundo reconhecimento inerente a essa verdade, a memória de algo que foi perdido, algo mais precioso do que qualquer coisa que o mundo possa dar. E, portanto, existe em todo peito humano um profundo anseio por aquela companhia espiritual que perdemos quando nos identificamos com a nossa natureza inferior. Encontramos uma personificação desse desejo no Tannhauser, que entrou no Monte de Vênus para satisfazer sua vontade inferior. Depois de um tempo, ele anseia pelo mundo que deixou e pede a Vênus que lhe permita partir para que possa gozar novamente do sofrimento, das torturas de um amor não-correspondido, porque se cansou daquilo que ela lhe havia dado livremente. Como ele diz:

Um Deus pode amar sem cessar;

Mas sob as leis do alternar,

Nós mortais precisamos mudar de medida

Nossa parcela de dor, bem como de prazer.

Esse foi o propósito, quando a Humanidade foi levada da Atlântida para a atual era do arco-íris: foi-nos dada a lei da alternância para que possamos colher assim como semearmos, que a tristeza e a alegria possam mudar à medida que as estações se sucedam de forma ininterrupta. Assim, isso deve continuar até que o sofrimento gerado por nossas ofensas tenha demolido a crisálida que agora mantém a alma presa, enquanto a natureza inferior se alimenta das cascas da materialidade.

A princípio, a humanidade se deleitava com o poder sobre o mundo e o orgulho da vida nasceu; a luxúria dos olhos era grande, mas embora “os moinhos dos Deuses moam devagar, moem extremamente bem”, e ainda que possamos conseguir o poder e a saúde e prosperidade possam ser, hoje, nossos servos, chegará um dia no qual, como Fausto, sentiremos que a vida não seja valiosa. Então começará a luta mencionada por Fausto a seu amigo Wagner, nas seguintes palavras:

Tu por um único impulso estás possuído,

Inconsciente do outro que ainda permanece,

Duas almas infelizmente estão lutando no meu peito

E lutam lá pelo reino indiviso,

Uma para a terra com desejo apaixonado

E à roupa agarrada rigorosamente ainda adere,

Acima da névoa, o outro aspira

Com ardor sagrado até esferas mais puras.

São Paulo também descobre que exista dentro dele uma natureza inferior, “os desejos da carne”, que luta contra os desejos e ânsias do espírito, mas Goethe, com a maravilhosa penetração do Místico, resolve o grande problema para nós. “O que devemos fazer para alcançar a libertação”, ele diz:

De todo poder que mantém a alma acorrentada,

Nós nos libertamos quando ganhamos o autocontrole.

Podemos, como Pilatos, ter autoridade, talvez uma autoridade não tão grande. Contudo, mesmo supondo que fosse possível que alguém se tornasse um “governante do mundo” e exercesse autoridade sobre a vida e a morte de toda a humanidade, em que isso lhe beneficiaria, se não fosse capaz de conquistar a si mesmo e controlar? Por meio de agressão física, César, o mestre de Pilatos (quando ele representa), conquistou o mundo, todos lhe pagavam tributos e mesmo assim o seu reinado durou apenas alguns anos. Depois, o espectro sombrio da morte veio para terminar sua vida e seu governo no Mundo Físico.

Observe o outro, o Cristo, que ficou ali, manso e humilde, mas capaz de dizer “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e todo aquele que crê em Mim não perecerá, mas terá a vida eterna”. O regulador do mundo, apesar de todo o seu aparente poder e pompa atuais, ainda está sujeito à morte; no entanto, Aquele que aprendeu a ter poder sobre si mesmo, Aquele que conquistou sua natureza inferior, o corpo da morte, assim se fez o Senhor da Vida, com um reino que é eterno nos céus. E é dever de todos nós seguirmos os Seus passos, pois Ele disse: “Estas coisas que eu faço, também vós fareis e maiores”. Cada um de nós é um Cristo em formação, um conquistador no sinal da cruz.

E quando será isso? Quando o sentimento do Egoísmo aprisionou o espírito no corpo, perdemos a visão da alma e a morte se tornou nossa porção. Assim que superarmos esse sentimento de Egoísmo através do Altruísmo, assim que abandonarmos e esquecermos o eu e formos iluminados pelo Espírito Universal, teremos conquistado o grande inimigo. Então estaremos prontos para montar na cruz e subir, dali, para as esferas mais altas com aquele clamor glorioso de triunfo, Consummatum est, foi concretizado.

O Caminho é pelo Serviço. A Verdade é que, pelo Serviço, servimos a nós mesmos, porque somos todos um em Cristo. A Vida é a Vida do Pai, em Quem vivemos, nos movemos e temos o ser, e em Quem, portanto, não pode haver morte.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross 08/1915 – traduzido pela Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)

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Vida, Vida, Vida…não existe a morte!

Vida, Vida, Vida…não existe a morte!

Mês de novembro. Aqueles que professam o Cristianismo popular reverenciam pungentemente seus mortos. Nós, Estudantes da Filosofia Rosacruz, tributamos nosso respeito a essa atitude; porém não a imitamos. Compreendemos o significado da chamada “morte”. Sabemos que seja um processo natural dentro do fluxo evolutivo.

Sob o ponto de vista oculto, somos, antes de mais nada, Espíritos, partes integrantes de Deus, células divinas. Sendo assim, encontramo-nos dotados, em forma latente, de todos os atributos divinos. Assim como uma gigantesca árvore encontra-se potencialmente numa minúscula semente, da mesma forma Deus está em nós e nós, NELE. Possuímos, entretanto, essa energia ainda em fase estática. Cumpre-nos dinamizá-la para emergirmos da impotência para a onipotência.

Um axioma científico assevera que a função cria o órgão. Os atributos inerentes ao Espírito necessitam ser despertados e exercitados. Além disso, todo crescimento anímico é promovido através da experiência. Eis porque, como Espíritos, procuramos meios para expressar e desenvolver nossas divinas faculdades. Os meios aludidos são os nossos veículos e dentre eles aquele que presentemente nos é mais útil é o Corpo Denso, formado de matéria química.

A “morte”, dentro do conceito popular, diz respeito ao fenômeno da paralisia total e definitiva do Corpo Denso e sua posterior decomposição, após o sepultamento.

Esse fato, encarado com horror pela maior parte da humanidade, é um processo natural. O veículo denso, como meio de expressão do Espírito na Região Química do Mundo Físico, presta relevantes serviços à causa evolutiva; porém, com o decorrer dos anos ele paulatinamente se cristaliza, até chegar a um estado em que se torna praticamente inútil, deixando de proporcionar as experiências requeridas pelo ser em evolução. A Chispa Divina é obrigada a abandoná-lo, adentrando então nos Planos internos da natureza (imperceptíveis aos sentidos físicos), onde durante muito tempo assimilará o valor educativo da última encarnação. O corpo, despojado das forças que o animavam, dissolve-se, retornando à economia da natureza. Esse retorno periódico da matéria à substância primordial habilita o ser a evoluir. Se o processo de cristalização prosseguisse indefinidamente, ofereceria um terrível obstáculo à evolução do Espírito. Quando a matéria se cristaliza a ponto de tornar-se demasiada pesada e dura, o ser espiritual, não podendo manejá-la livremente, retira-se para recuperar a energia exaurida. No entanto, retornará futuramente acrescido de novos conhecimentos e experiências, ocupando novas formas, recomeçando seu período de aprendizado no Plano terrenal.

A frase “quanto mais amiúde morremos, tanto melhor viveremos” considera-se um axioma. Goethe, o poeta Iniciado, disse: “Quem não experimenta morrer e nascer para a vida, sem interrupção, sempre será um hóspede triste sobre esta terra infeliz.”. São Paulo afirmou: “Eu morro todos os dias”.

Neste mês em que se pranteia os chamados “mortos”, lembremo-nos mais uma vez: a morte não existe.

No universo de Deus só há uma realidade absoluta: VIDA, VIDA, VIDA…

(De Pereira dos Santos, publicado na Revista Serviço Rosacruz de novembro de 1970)

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Coragem: “aquele que der um começo, já terá feito a metade da coisa”

Coragem: “aquele que der um começo, já terá feito a metade da coisa”

São necessárias cordas durante a descida de algum trecho pequeno, porém escorregadio e rochoso, de superfície escarpada, numa última etapa de um exercício de escalada de montanha.

“Admiro a sua coragem”, observou um espectador ardentemente, quando um dos alpinistas se sentou na relva, descansando um pouco, antes de regressar à sua casa.

O alpinista olhou o seu admirador de forma perturbada e, em seguida, disse-lhe de modo um tanto embaraçado: “Não há de que”. Não conhecia muito bem o seu admirador e mesmo que o conhecesse, seria o caso de lhe dizer que não foi necessário ter coragem alguma para fazer a escalada e a descida? Seria o momento de dizer que isso lhe deu a coragem de adentrar grutas ou qualquer outro espaço reduzido, escuro e fazer a sugestão de que talvez o seu admirador pudesse desempenhar essa exploração de modo igualmente fácil? Muita discussão por um comentário tão simples! Melhor não dizer coisa alguma — pelo menos, nesse instante.

Contudo, chega um momento em que o assunto coragem deve ser explorado muito cuidadosamente pelo aspirante a uma vida superior, caso se considere totalmente zeloso e sincero. Por quê? Mas por que é tão importante a uma vida baseada na Filosofia Rosacruz? Talvez possamos melhor responder a essa indagação após considerarmos a coragem um pouco mais profundamente.

A maioria de nós reconhece de modo vago que o que exige um esforço varia de pessoa a pessoa; mas possivelmente muitos não se detiveram para perceber que a maior parte das pessoas “normais”, existentes atualmente no mundo, realizou, em certa época, esforços enormes. Por exemplo, diz-se que o desejo de locomoção surge antes da capacidade de se movimentar. E as tremendas batalhas que devam ter ocorrido à medida que o ser humano, em sua formação, aprendeu a conduzir os seus veículos de um lugar a outro são vistas de modo telescópico nas primeiras tentativas fracas e desajeitadas de um bebê procurando locomover-se. Do mesmo modo que cada um de nós apresenta melhores rendimentos em certa matéria do que outros, em assuntos escolares, cada qual aprendeu suas lições quanto ao funcionamento nas várias atividades deste mundo de um modo melhor em algumas matérias do que em outras; porém todas as nossas atividades presentes exigiram esforço em certa época — e alguma coragem, quando procurávamos algo novo.

E, se pensarmos um pouco mais, a maioria de nós se apercebe de que uma ação que quase não levamos em consideração em certo momento de nossa vida, ação que até mesmo poderíamos exercer alegremente, poderá, em outros instantes, constituir um supremo ensaio de vontade. Poderá surgir um momento na vida de todos nós em que até mesmo o despertar em uma manhã ou o início de um novo dia poderá exigir muita resistência moral, quando significar a necessidade de encarar novamente problemas ou dores que pareçam difíceis de enfrentar.

No entanto, após reconhecermos que os atos de coragem significam diferentes coisas a pessoas diferentes, ou coisas diversas em tempos diversos para a mesma pessoa, eventualmente encobriremos a verdade de que haja certas lições básicas e gerais quanto à coragem, lições que todos nós deveremos aprender, se formos aspirantes sinceros a uma vida superior, da mesma forma que houve certos atributos físicos que tivemos de desenvolver para podermos viver a nossa atual vida física. Aqui estão algumas dessas lições básicas, sendo que o leitor provavelmente desejará acrescentar outras mais.

1 — A coragem de reconhecer e aceitar os próprios traços indesejáveis e em seguida fazer o máximo para transmutá-los. Cada um de nós tem pelo menos uma tendência indesejável ativa ou abrandada e a mantemos, provocando embaraços de modo sabidamente errado ou, pelo menos, em desarmonia com nossa capacidade mais elevada e, lutando contra essas tendências retrógradas, pode obter fortaleza. Por exemplo, há necessidade de muita coragem para nos dizermos honestamente, algumas vezes, que o que gostamos de apreciar como sendo exteriorização é, na realidade, um mau temperamento e, parcialmente, um ressentimento sepultado. Poderá também ocorrer que haja alguma falta ou área congestionada em nosso caráter que não possamos honestamente perceber. É aqui onde um amigo de confiança, que seja um astrólogo competente, poderá ser muito valioso: mesmo se nós próprios conhecermos a astrologia, poderá ser muito fácil passar por cima de algumas indicações negativas de nossos horóscopos.

Mas após termos erguido as nossas faces, banhadas de lágrimas, dessas questões soluçantes, talvez nos perguntemos qual seria o melhor modo de combater todos os pontos negativos que tenhamos acumulado. A resposta dada por Max Heindel é que não devamos fazer isso diretamente. Em harmonia com o sentimento da velha canção que nos exorta a acentuarmos o positivo, ele nos diz para praticarmos a virtude oposta à falta que desejarmos eliminar. Trata-se de outra aplicação daquilo que aprendemos a respeito do Mundo do Desejo: a atenção de toda espécie, agradável ou desagradável, causa uma grande atividade no sujeito e na coisa agradável ou desagradável. Porém a indiferença mata, de modo que devamos ignorar a falta e procurarmos aumentar a virtude oposta, amando-a e praticando-a. Assim, se percebermos que estejamos inclinados à tristeza, não devemos nos recriminar por não sermos eufóricos, porque assim ficaremos rapidamente muito mais ansiosos e angustiados. Ao contrário, se praticarmos a jovialidade, ela se tornará eventualmente uma parte de nós próprios e sentiremos realmente o otimismo, suas vantagens e os benefícios de nos empenhar duramente nesse método na tradução original, “duramente para encontrar nossas vizinhanças”. Até mesmo nos males físicos esse princípio opera a nosso favor: em uma certa espécie de artrite, um dos melhores medicamentos é a movimentação deliberada das partes enrijecidas e doloridas. Certamente que isso exige esforço! Mas é disso que estamos tratando.

2 — A coragem de apreciar a morte como um princípio. Atualmente não temos a caça às feiticeiras, que culminava na queima dos corpos em praça pública; nem mais se crucifica uma pessoa como nos tempos bíblicos, em virtude de ofensas triviais das quais se pudesse ser acusado, como hoje em dia — falsamente. Não há igreja que nos jogue na prisão para definhar e torturar, pelo menos não neste país. Como então essa espécie de coragem seria, na atualidade, algo que não fosse mais do que mero interesse acadêmico?

Neste século tem havido oportunidades aos que vivem em certos lugares para exercitar este tipo de coragem, manifestando-se contra as injustiças e procurando corrigi-las. A Alemanha nazista constituiu um lugar onde alguém poderia correr risco de vida pela defesa de um princípio; hoje em dia, Espanha e Portugal são outros.

Porém, as Forças Superiores sempre encontram meios de provar os estudantes em certo momento de suas vidas, nesse aspecto de coragem e talvez o meio mais comum em nosso país, atualmente, seja através da enfermidade.

Você talvez tenha estado doente durante longo tempo, acamado na maior parte desse tempo, de modo que se encontre bastante enfraquecido. Os médicos meneiam suas cabeças e mostram suficientemente, pelos seus comportamentos, que acreditem terem feito tudo o que pudessem; os amigos forçam conversações prazenteiras através de semblantes sombrios. Você mesmo está quase resignado quanto à desesperança de seu caso. Então, começa a sugestão. Trata-se de fazer algo que há muito decidiu ser nocivo a seu corpo e sua alma. Mas após tudo isso, dizem seus amigos, experimentou-se tudo mais e imaginam o quanto de bem poderão fazer após conseguirem a cura! O choque mais cruel de todos surge quando até mesmo seus melhores amigos, ligados à Filosofia Rosacruz, induzem-lhe a esse curso de ação errado para salvar a sua vida, conforme dizem.

No entanto, silenciosamente, você diz a si próprio: “Sei que me encontro agora próximo da morte. Todavia, não desejo ir, porque há muita coisa que gostaria de fazer. Porém, se tomar essa atitude que eu saiba ser errada e recuperar a saúde, haverá sempre aquele senso atormentador que assim agi fazendo algo errado e nunca mais estarei em condições de trabalhar, segundo o mais expressivo e o melhor de minhas capacidades, em virtude daquele espectro que fica observando por trás de meus ombros. Tentei tudo o que sabia estar em harmonia com meus princípios. Se tiver de morrer agora, morrerei de qualquer modo, não importa o que eu faça”.

Dessa forma, você se certifica de que os seus negócios se encontrem em ordem e repousa em seus travesseiros para exalar o último alento exausto, porém contente…

Contudo, algo acontece. Alguém chega, pousa as mãos em você e, no dia seguinte, você já se ergue e sai, após ter estado na cama durante meses. Ou você simplesmente melhora gradualmente, embora não faça algo diferente. Mas, em primeiro lugar, você terá de mostrar aquilo que realmente deliberou durante a noite tempestuosa em que tomou a decisão há longo tempo, em um pacífico dia ensolarado.

3 — Coragem para desafiar qualquer elemento físico, quando necessário.

O que você teme neste Mundo Físico? O fogo? As alturas? Inundações? As crianças? As pessoas idosas? A eletricidade? Serpentes? Se houver neste mundo algo que desperte em nós o desejo de nos afastar, eis um problema que deva ser encarado completamente, agora, uma vez que, quanto mais o medo for encoberto, tanto mais se inflama, desenvolve e suas raízes se aprofundam muito mais, no decorrer do tempo.

Familiarize-se, por meio da leitura, com os aspectos da constituição e da estética de tudo aquilo que você teme é adequado, de forma que passe a dispor de uma riqueza de informações alusivas ao assunto, porque muitas vezes tememos mais o que nos é estranho, desconhecido e inominado. Em seguida, familiarize-se de primeira mão. Se você teme a água e não sabe nadar, tome lições de um instrutor competente. Se você teme as alturas, faça caminhadas pelas colinas e depois pelas montanhas. Primeiramente, aprecie a vista da parte baixa de um penhasco. Gradualmente, faça-o cada vez mais próximo do topo. Tire em seguida o seu bacharelado, encabeçando algumas escaladas.

4 — A coragem de arriscar cometer algum engano, quando for necessária alguma ação. Quantas vezes desistimos de realizar até ações mais simples, com receio de dizer ou fazer coisas erradas ou pelo medo de parecer enlouquecidos? E quantas vezes nos mantivemos na retaguarda por não termos feito algo e, assim, perdido uma possível oportunidade de experimentar aquela sensação extraordinária de crescimento e expansão?

“Mas o erro que poderíamos cometer seria monumental”, você poderia dizer. “Poderia”, sim; porém você não tem a certeza disso. E mesmo se você tivesse feito algo radicalmente impróprio, sabemos que as Hierarquias criadoras, bem acima de nós em matéria de evolução, também cometem erros: os cometas são o resultado de uma tentativa de criação no cosmos que, por alguma razão, não “se gelificou” e atingiu a órbita adequada, de forma que eles vêm e vão, malogros divinos perdidos na face da profundidade.

Desse modo, devemos provar a nossa fé através de obras: obras significam experiência concreta e a experiência deve envolver alguns erros.

Max Heindel nos diz que o mundo necessita de seres humanos que façam e não que sonhem ou leiam. Em suma, será feito na terra de nossos corpos o que acontece no Céu de nossos Espíritos.

5 — A coragem de estar só. Nós a temos na mais alta autoridade, a do Próprio Cristo; em certa época de sua carreira esotérica, o estudante de ocultismo sincero deve estar completamente só, fisicamente, para enfrentar sua sorte e seus problemas. Os parentes estão disseminados e não compreenderiam. Os amigos também parecem estar muito longe, física, mental e espiritualmente. Não parece possível receber ajuda de ser vivente algum. Cristo, que é o Precursor em um sentido muito literal, sentiu essa desolação no Jardim do Getsemani, quando perguntou amargamente se nenhum de Seus discípulos adormecidos poderia velar com Ele.

Porém, quando nós bravamente tomarmos a nossa cruz, seja ela pequena ou grande, existirão amigos em ambos os lados do véu prontos para auxiliar-nos a carregá-la. Descobriremos que a solidão, como tudo mais que seja apenas desta vida, foi somente temporária. Goethe, o poeta Iniciado, escreveu:

“Aquele que nunca come o seu pão na amargura

 e jamais passa por horas tenebrosas,

pranteando e aguardando o amanhecer,

não conhece os Poderes Celestiais”.

6 — A coragem de continuar tentando. De acordo com T. S. Eliot, somos “unicamente derrotados porque tentamos”. Isso poderá ser um pequeno consolo para alguém que tenha um pertinaz problema de saúde, que há muito esteja suportando um pesado encargo familiar ou talvez venha tentando há muitos anos romper um mau hábito, como modificar um traço inadequado da personalidade ou do caráter. Mas a Filosofia Rosacruz nos diz que, se persistirmos no rumo certo, mesmo que não possamos ver os resultados, eles ali estarão. Isso porque as imagens de nossas circunvizinhanças incluem as condições que estejam dentro de nossa própria aura. Se tivermos criado em nossas mentes a imagem de uma coisa que desejemos obter e tivermos revestido essas imagens mentais com um intenso desejo de ser bem-sucedido, a mente modificada e o desejo impulsor ativo eventualmente tornarão o Corpo Vital muito mais fixo e resistente, o qual, por sua vez, acarretará quaisquer modificações necessárias no veículo mais sólido a ser modificado, o Corpo Denso. Assim, mesmo se intimamente trabalharmos durante toda uma existência em um problema sem resultados tangíveis no mundo físico, teremos a promessa de que esses resultados se mostrarão na próxima vida, uma vez que os corpos mais elevados desta vida determinam a qualidade dos mais baixos, na outra. E, quem sabe? Poderemos não ter de trabalhar durante toda uma existência nesse problema. Ajuda-nos também a lembrança de que a hora mais obscura é comumente anterior à alvorada.

Existem pelo menos duas coisas que devamos manter em mente, relacionadas com todas as espécies de coragem que mencionamos. A primeira é uma advertência. A coragem sem previsão e discriminação não é coragem, mas, sim, temeridade, insensatez e um trágico desperdício de energia valiosa. Devemos nos lembrar de que as forças negativas estejam sempre prontas para tentar e enredar, particularmente o estudante sincero. Trata-se de um fio de navalha sobre o qual devemos andar. O segundo ponto importante a refletir constitui uma ajuda ao nosso desenvolvimento em matéria de coragem. Trata-se daquilo que João nos diz em sua primeira epístola: “o perfeito amor afasta o temor”. Isto não significa necessariamente que devamos aprender a amar o que tememos, porque o que tememos pode ser verdadeiramente mau. Porém o amor por alguém ou por um princípio e os atos desempenhados a favor desse amor poderão dissolver completamente todos os nossos temores precedentes.

Agora que falamos de algumas das modalidades de coragem que nós, como estudantes de ocultismo, precisaremos desenvolver em alguma época de nossas carreiras, talvez estejamos em posição melhor para compreender por que nós as necessitamos e por que necessitamos de qualquer espécie de coragem, pelo menos. Se não nos esforçarmos e tentarmos transmutar as características indesejáveis em nós próprios, então estaremos simplesmente colocando-nos por detrás do caminho evolutivo lento e laborioso daqueles que aprenderão apenas pela experiência e não estaremos realmente entre os que conquistarão o Céu por assalto. Se não estivermos prontos a lutar por um princípio, então o mesmo não nos terá qualquer significado e não poderemos esperar ser os depositários de verdades e poderes maiores; dessa forma,  até mostrarmos o aspecto de coragem física, faríamos melhor se o desenvolvêssemos, até porque nas expressas palavras de Max Heindel, quando explanava sobre o Tannhauser, o estudante sincero deve “perceber que deva possuir as mesmas virtudes requeridas de um cavalheiro, uma vez que sobre a senda espiritual também existam perigos e lugares onde é necessária a coragem física”. Se não tivermos a coragem de agir quando devemos, mesmo se a ação signifique um possível erro, então não estaremos agarrando as oportunidades de progresso e estaremos provavelmente nos chocando contra as ondas. Se não pudermos, em momento algum, sentirmo-nos plenamente sós, então não estaremos desejosos de partilhar de modo algum da vida do Cristo. Se não tivermos a coragem de continuar tentando, então mostraremos que realmente não temos fé na verdadeira filosofia em que dizemos acreditar, filosofia que explica por que um esforço nunca é desperdiçado. Finalmente, uma coisa muito importante: necessitamos de coragem de todas as espécies a fim de sobrepujarmos o Guardião do Umbral. Se formos estudantes sinceros, deveremos certamente nos encontrar com essa entidade algum dia.

Shakespeare disse em Rei Lear que “a coragem emerge com a ocasião”. Esperemos que assim seja, porque há muitas ocasiões nesse período de nossa história. As condições internas são espelhadas extrinsecamente pelo microcosmo e macrocosmo: o mundo e sua aura estão em agonias de batalhas monumentais, envolvendo todas as espécies de forças. Se você não se sentir necessitado de modo algum, fechará os seus olhos e ouvidos.

De forma que, coragem, caro coração! E relembre-se, com o poeta Horácio, de que aquele que der um começo, já terá feito a metade da coisa.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz de fevereiro/1970)

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Carta de Max Heindel: A Guerra Mundial e a Fraternidade Universal

A Guerra Mundial e a Fraternidade Universal

Em quase todas as correspondências, nós recebemos cartas comentando sobre a guerra[1], e com raras exceções, não encontramos nelas expressão de partidarismo, mostrando que os autores têm um ponto de vista mais elevado do que o inculcado pelos vários Espíritos de Raça e que, normalmente, recebem o nome de “patriotismo”. Essa é a única atitude coerente com os princípios da Fraternidade Rosacruz. Nós estamos todos unidos numa associação internacional; estamos todos procurando pelo Reino que deve substituir todas as já superadas nações, e o fato de termos nascido em diferentes partes do mundo e nos expressarmos em línguas diferentes, não revoga o mandamento de Cristo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, nem nos escusa por desempenharmos o papel de “ladrão”, e não de “samaritano”. Cabe a cada um de nós, na Fraternidade Rosacruz, se elevar acima das barreiras da nacionalidade e aprender a dizer o mesmo que Thomas Paine[2]: “O mundo é a minha pátria e fazer o bem é a minha religião”. Devemos deixar de ser meramente nacionalistas e nos esforçarmos para nos tornarmos universais em nossas percepções, compreensões e reações aos sofrimentos dos outros.

Contudo, há uma guerra que vale a pena lutar, uma guerra na qual podemos, legitimamente, empregar toda a nossa energia, uma guerra que devemos persistir com zelo implacável, e um dos Estudantes coloca isso tão bem que o melhor que podemos fazer é transcrever sua carta:

“Ao refletir sobre a guerra, surge esse pensamento: quando os seres humanos se cansarem da desagradável e chocante luta entre as diferentes nações vizinhas e semelhantes, largarem suas armas e a paz predominar, então a partir desse continente, sobrecarregado com o pó dos amigos e adversários, com seus rios correndo avermelhados com o melhor sangue dos impérios, surgirá uma nova Europa e uma civilização superior substituirá a destruída.

E um grande número de mortos desconhecidos, moribundos, revelará um poder muitíssimo maior para a paz mundial do que o vivido anteriormente. Assim, das paixões desenfreadas dos seres humanos, a Deidade, justa e amorosa, traz o bem final.

Se os homens e as mulheres tivessem também uma décima parte da vontade para travar uma guerra contra o seu verdadeiro inimigo, que está dentro do seu coração, ao invés de pegar em armas contra um suposto inimigo de um lado da fronteira imaginária inexistente na boa face do mundo de Deus, então o Príncipe da Paz poderia reinar. Todas as armas mortíferas seriam jogadas no limbo e a promessa gloriosa se realizaria: “Paz na Terra e Boa Vontade entre os Homens”.

E assim, por mim mesmo, resolvi não cessar com meus esforços até que o último vestígio de maldade, erro e ódio sejam eliminados, e a sublime Trindade de “Bondade, Verdade e Amor reinem sem contestação interior”. Nessa luta real, me considero um pobre soldado e, geralmente, a curso da batalha se coloca na direção errada, contudo, não importa se eu falhe dez mil vezes, a lição deve ser aprendida e será aprendida. Algum dia, com um coração robusto, uma vontade indomável e uma persistência infalível, a vitória será conquistada e a paz reinará – a paz que ultrapassa toda a compreensão.

Unamo-nos todos ao nosso irmão nessa nobre luta, recordando as palavras de Goethe:

“De todo poder que mantém o mundo agrilhoado,

o homem se liberta quando o autocontrole há conquistado”.

(Por Max Heindel – livro: Cartas aos Estudantes – nr. 48)

[1] N.T.: a Primeira Grande Guerra Mundial.

[2] N.T.: Thomas Paine (1737-1809) foi um político britânico, além de panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América.

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O Significado Esotérico de Fausto

O Significado Esotérico de Fausto

Comecemos pelo autor: em 28 de agosto de 1749, nasce em Frankfurt, Alemanha, aquele que é considerado universalmente um dos maiores vultos da literatura de todos os tempos: JOHANN WOLFGANG VON GOETHE. Seu pai era um advogado bem-sucedido e sua mãe filha do prefeito de Frankfurt. Após uma infância e adolescência dedicada ao estudo de Bíblia, dos clássicos, de italiano, hebraico, inglês e música, Goethe, em 1765, passou a estudar Direito na Universidade de Leipzig, tendo completado o curso em 1771, em Estrasburgo. Nessa época começou a sua brilhante carreira, escrevendo peças teatrais, sendo que Werther foi seu primeiro grande sucesso.

Em 1775, já bastante conhecido, transferiu-se para a corte de Weimar, onde permaneceria até o fim de seus dias. Lá teve a oportunidade de elaborar trabalhos maravilhosos tais como Ifigênia em Táurida, Torquato Tasso, Egmont, etc. Mas, a obra máxima de sua vida foi Fausto, iniciada em 1774, tendo sua primeira parte sido publicada em 1808. Em 1824 Goethe voltou a trabalhar na segunda parte de Fausto, cuja íntegra completou-se em 1832.

Goethe era um classicista na mais lídima expressão da palavra. Dedicou-se às letras, ao teatro e à investigação científica. Sua magnífica obra literária inspirou dois grandes movimentos estéticos em sua terra natal e em vários países da Europa. Tanto Werther como Gotz inauguraram um movimento literário conhecido como Sturm und Drang (Tempestade e Tensão).

Em suas obras encontramos uma grande preocupação em transmitir aos leitores o otimismo, a esperança, a fé, a crença na vida e que o esforço humano tem um significado. Sua literatura é eminentemente universalista, ultrapassando os problemas nacionais e pessoais. As obras de Goethe não dizem respeito a um povo ou época em particular, mas, representam os anseios do ser humano de um modo geral.

Não só no mundo das letras viveu Goethe. Seu interesse abrangeu também a ciência, particularmente à anatomia. Em 1784 descobriu a existência, no ser humano, de um osso intermaxilar, em forma rudimentar, contribuindo, dessa forma, para o desenvolvimento das teorias evolucionistas. Fez também estudos interessantes no campo da Botânica e da Ótica.

A figura de Goethe aproxima-se, mais do que qualquer outro ser humano, daquele ideal clássico de perfeição, por identificar-se com a razão, a lógica, com a luz, e não com os instintos, com os arrebatamentos irracionais, com as contradições e os extremos. Foi um exemplo vivo de equilíbrio, lucidez, cultura, amor ao próximo. Os ensinamentos esotéricos referem-se a Goethe como um iniciado. Veio a desencarnar em 1832, pouco depois de completar Fausto.

Fausto é uma obra de conteúdo profundamente humano, onde de tudo se encontra um pouco. Nela sobressai desde o raciocínio filosófico mais profundo até o sentimento mais delicado que possa fazer vibrar a alma. Fausto surgiu de uma longa meditação, muitas vezes interrompida e reencetada. Foram quase sessenta anos com novas ideias se sucedendo no retratar multivariado de psicologias, tipos, ambientes, através da magia do verso.

Em Fausto não só despontam os conflitos entre os personagens como ponto principal do enredo, mas também uma comovente preocupação com a natureza, um desejo incontido de devassá-la. Assim, Goethe descreve montanhas, vales, penhascos, o céu e a terra indevassáveis aos seres humanos.

A influência de Goethe na Alemanha de seu tempo foi imensa e acabou se alastrando para outros países principalmente devido à excelência de Fausto. O povo alemão amava as obras desse grande poeta. Diz-se que “os jovens as declamavam e aos domingos desciam das montanhas com as canções de Goethe nos lábios e o amor de Margarida no coração”.

Castilho e Ornelas são os autores das traduções de Fausto mais conhecidas na língua portuguesa e embora nem sempre se mantenham coerentes com o texto original no idioma alemão.

Há centenas de edições de Fausto em todas as línguas. O poema vem empolgando a humanidade desde a sua primeira aparição. Goethe iniciou O primeiro Fausto em 1774 e só o terminou em 1806. O segundo Fausto é obra da idade madura, terminado em 1832. A figura lendária do Dr. Fausto perde-se no tempo e foi objeto de outras obras de menor expressão. Essa obra tem um conteúdo profundamente humano, como já afirmamos no início, mas o que lhe confere dignidade e grandeza é justamente sua natureza mística.

Segundo alguns comentaristas, Goethe, na elaboração da obra, modificou profundamente o teor das lendas que envolvem a figura do doutor Fausto, mago astrólogo e quiromante do século XVI.

Muita gente conhece Fausto através da ópera de Gounod. Porém, nessa peça musical, a estória de Fausto parece ter um enredo muito folhetinesco e maniqueísta, próprio para filmes ou telenovelas. Um homem sensual atraiçoa uma donzela ingênua e à abandona posteriormente deixando-a à mercê das funestas consequências do seu excesso de confiança. A magia e bruxaria de algumas cenas conferem mais intensa emotividade ao drama. Quando Fausto é conduzido aos infernos por Mefistófeles, e Margarida ascende aos céus nas asas angelicais, para muitos essa é a moral mais conveniente para concluir dignamente a obra. Isso, é correto para aqueles poucos afeitos ao significado esotérico do poema. Entretanto, para quem estuda a obra em sua verdadeira essência, é inegável que o significado é bem diferente: Fausto é um mito tão antigo como a humanidade e aborda a luta entre a Maçonaria e o Catolicismo.

Como já dissemos, Fausto é um mito, e, como tal, contém uma gama de símbolos velados de importantes verdades cósmicas. O mito de Fausto descreve a evolução da humanidade na época presente, ensinando como os filhos de Caim e os filhos de Seth desempenham seu trabalho na obra do mundo.

Quando Pitágoras menciona a “Música das Esferas” não alude simplesmente a uma fantasia. Trata-se de uma realidade. O cosmos mantém-se graças a essa harmonia universal. Mas, a harmonia constante é desagradável, tornando a música monótona e desprovida de encanto. Isso realmente ocorreria se a intervalos não houvesse uma dissonância. Com a “Harmonia das Esferas” sucede o mesmo.

A chamada “Queda do Homem” foi uma nota dissonante ocorrida em nosso esquema de evolução, um desvio da linha de progresso prevista originalmente. Os Lucíferos, os Anjos caídos, provocaram a Queda e todos os sofrimentos consequentes, mas dê uma certa forma tornaram-se, também, responsáveis pela nossa evolução. Nunca chegaríamos à individualidade sem a discórdia divina. No livro de Jó, Satã é designado como um dos filhos de Deus. Lúcifer foi o emissor da nota dissonante. As experiências são muito mais significativas que os ensinamentos meramente teóricos. É necessário a escuridão para percebermos a existência da luz. A guerra com toda a sua carga de sofrimentos é que nos ensina o valor da paz. Deus também cresce. Nele nos movemos, vivemos e temos o nosso ser, a nota dissonante emitida por Lúcifer, Ele também ressoa.

Fausto representa a alma que procura o significado da vida e da evolução seguindo o caminho positivo do conhecimento e da ação. É um verdadeiro filho de Caim, decidido e voluntarioso. Margarida, ao contrário, é uma filha da água, discípula dos filhos de Seth quando trilha o caminho da fé e da devoção.

Fausto era um homem essencialmente bom. Idealista, pesquisador, aspirava atingir os píncaros da espiritualidade, mas faltava-lhe vivência. Desejava ardorosamente o crescimento anímico, porém, nessa busca cometeu o equívoco de começar de cima. Pretendia chegar à iniciação apenas pela aquisição de conhecimento, fazendo uso daquilo que apenas superficialmente logrou obter.

Nessa ânsia Incontida, começou por abordar o Ser Supremo, o Macrocosmos. Fracassou. Depois invocou o Espírito da Terra, sendo pelo mesmo repelido. Ainda não estava preparado além do que deveria começar de baixo principiando pelo degrau inferior. É um árduo trabalho cujo êxito depende de muita paciência e perseverança, Fausto não se encontrava no caminho natural da iniciação, razão porque não conseguiu conquistar a admiração dos Mestres Espirituais.

Toda uma vida dedicada ao estudo não pôde proporcionar a Fausto nenhum conhecimento verdadeiro. As fontes de sabedoria convencionais são insuficientes para conduzir o indivíduo à realização espiritual. Como afirma Max Heindel, “o homem de ciência quanto mais investigar a matéria tanto mais deparará com mistérios em seu caminho. Por fim ver-se-á forçado a renunciar às suas investigações ou a crer em Deus como um Espírito, cuja Vida penetra cada átomo da matéria”. Fausto chegou a este ponto. Afirmou não trabalhar por riquezas ou honrarias mundanas. Lutou por amor da investigação, chegando a ponto de perceber que o mundo espiritual rodeia a todos. Por meio deste mundo, pela magia, aspira agora à um conhecimento superior àquele contido nos livros.

Para adquirirmos conhecimentos elevados primeiramente é necessário assimilarmos aqueles mais rudimentares. Na escala da evolução sobe-se degrau por degrau. Fausto erroneamente começou pelo degrau mais alto, invocando o Espírito da Terra. E, ao lhe pronunciar o nome abriu sua consciência à essa presença que tudo interpenetra.  Acabou saindo repelido porque sua atitude revelava uma incrível impaciência além do que aquela porta não era para lhe ser aberta, pelo menos naquele estágio de seu desenvolvimento.

Essa frustração terrível esmagou Fausto a ponto de conduzi-lo ao desespero. Ante a perspectiva de uma existência material comum decide recorrer ao suicídio. Era a manhã de Páscoa e os sinos repicam anunciando a Ressurreição. Fausto, sensibilizado, desiste de seu propósito.

Apesar de toda sua erudição, Fausto ainda era carente de amadurecimento. Em seu interior travava-se uma encarniçada luta entre as naturezas superior e inferior, com os equívocos se sucedendo. Só mesmo as duras experiências podariam abrir-lhe as luzes de um novo caminho. É assim mesmo. Enquanto damos um caráter mundano às nossas vidas vivemos em paz. Mas, quando sentimos o chamamento do Espírito a paz desaparece. Fausto, equivocadamente, crê que alguns espíritos podem lhe conceder o poder da alma, sem imaginar que isso representa uma conquista individual. Nesse afã de recorrer a outrem está fadado ao desengano. À autoconfiança é uma das chaves do desenvolvimento, pois a ninguém que alimente esse objetivo, é lícito apoiar-se em mestres.

Fausto tão ansioso estava que acabou atraindo um espírito indesejável: Lúcifer. Há uma diferença capital entre as pessoas que casualmente entram em contato com os habitantes dos mundos suprafísicos e aqueles que investigam diligentemente, e vivem a vida até chegarem a uma consciente iniciação nos segredos da natureza. Os primeiros não sabem como empregar inteligentemente esse poder, transformando-se em joguetes de qualquer um. Os últimos, pelo contrário, dominam sempre as forças que manejam.

Fausto atrai Mefistófeles, um espírito luciférico. Este descreve quadros maravilhosos da vida, excitando a imaginação de seu interlocutor. Fausto decide celebrar um pacto com ele. Aqui na terra Mefistófeles servi-lo-á, satisfazendo-lhe os desejos. Mas, quando sentir-se realizado alcançando a plenitude as coisas se inverterão, isto é, quando se encontrarem no além, Fausto será o servo.

Mefistófeles exige de Fausto a assinatura do pacto com sangue. Esse quadro contém um profundo ensinamento oculto. Fausto quer saber qual a razão dessa exigência e Mefistófeles responde astutamente: “O sangue é a mais peculiar das essências”.

O ferro é um metal regido por Marte. A combinação desse elemento com o sangue torna possível à oxidação. O espírito só consegue manter-se no corpo através do sangue a uma determinada temperatura. Nos estados febris muito intensos a pessoa acaba delirando porquanto a temperatura do sangue eleva-se em demasia perturbando a ação do espírito. O sangue é um elemento muito utilizado nas operações de magia. Quem domina essa essência de uma pessoa, possui um forte laço de união com a mesma. Lúcifer exigiu a assinatura com sangue para manter Fausto cativo e impossibilitado de fugir ao compromisso.

Em toda sua ansiedade de adquirir poder rápida e facilmente, Fausto recorre a forças externas, chegando deste modo, a um ponto crítico. O poder da alma é uma conquista individual e interna através de uma paciente persistência em fazer o bem. Fausto não entende assim, recorrendo, equivocadamente, a falsos mestres. Estes, não vacilam em barganhar com suas vítimas, satisfazendo-lhes os desejos mais inferiores. Logicamente, acabam por cobrar de alguma forma essa “ajuda”. Lúcifer também se oferece a servir Fausto, mas estabelece uma terrível condição.

Com o auxílio de Lúcifer, Fausto conhece os extremos da paixão humana. A dor e o prazer, a alegria e a tristeza, o amor e o ódio, ensinam-lhe tudo o que os livros e as longas meditações não puderam oferecer-lhe durante muitos anos. Vivendo a vida intensamente logrou passar por uma infinidade de experiências que lhe excitaram e fustigaram a alma.

Isso tudo, porém, trouxe benefícios. É importante lembrar que à intervenção dos Lucíferos no esquema de evolução da nossa onda de vida, se por um lado causou todos os pesares e sofrimentos do mundo, por outro despertou à individualidade humana. O ser humano, dessa maneira, libertou-se da tutela dos Anjos, procurando, apesar de todos os percalços, trilhar o seu próprio caminho. Fausto, igualmente, com a ajuda de Lúcifer é levado a percorrer caminhos não-convencionais e deste modo se individualiza.

Fausto é um “filho do fogo”, guiado pela mente e pela ação. No pacto que celebra com Lúcifer encontramos uma réplica da lenda maçônica, onde os protagonistas são os “filhos de Caim” — pupilos e descendentes de Lúcifer — e os “filhos de Seth” ou “filhos de água” — a casta sacerdotal — representados por Margarida. Chega, pois, o tempo em que o confronto entre esses dois tipos de humanidade, ali representados por Fausto e Margarida, se tornaria inevitável.

Fausto observa Margarida na rua e, de imediato, vê-se tomado de intensa paixão por aquela meiga donzela, Lúcifer conduz Fausto ao laboratório de magia onde beberá do elixir da juventude, para que, rejuvenescido, seja desejável aos olhos de Margarida.

Algum dia a alma aspirante terá de entrar no laboratório de magia a exemplo da Fausto. Então, ficará só para encontrar-se com Margarida no jardim, para tentar e ser tentado, para escolher entre a pureza e a paixão, para fraquejar como Fausto ou tornar-se campeão da pureza como Parsifal, na famosa lenda musicada por Wagner.

Fausto insiste com Mefistófeles para que este facilite seu acesso aos aposentos de Margarida. Para conquistar seu afeto uma rica joia é introduzida sorrateiramente naquele local. O irmão de Margarida está ausente, combatendo pela pátria. A mãe de Margarida leva à joia à igreja para que o sacerdote a aconselhe que destino lhe dar. Este é daqueles que apreciam mais as riquezas do que as almas confiadas aos seus cuidados.

Para chegar até aos aposentos de Margarida, Fausto a induz a oferecer uma poção sonífera à sua mãe. Acontece que a poção causa sua morte. Margarida é responsabilizada pelo crime e condenada à morte.

Os Lucíferos — os Anjos caídos necessitam de sensações e emoções intensas para evoluir. Para tanto, excitam ao máximo as paixões humanas mais baixas, impelindo os seres humanos ao derramamento de sangue, aos conflitos. São, aparentemente, verdadeiros demônios. Na realidade constituem decisivos fatores da evolução humana pelas experiências que ensejam.  Sob a ação luciférica a pura e delicada Margarida veio a conhecer o pecado. A consequência dessa transgressão foi funesta, mas a inocência deu lugar à virtude. Virtude de quem sabendo pela experiência distinguir o bem do mal, optou pelo bem.

Margarida é um exemplo de como os filhos de Seth têm um caráter negativo, sofrendo as consequências de seus erros. “O salário do pecado é a morte”. Margarida foi recolhida à prisão por crime de matricídio, pois a Lei, inexorável tem que ser cumprida.

A meiga donzela encontra-se privada de toda a ajuda terrena. Mas, por essa mesma razão nunca esteve tão próxima de Deus. Entretanto, apesar de sua devoção e contínuas preces a tentação ainda a ronda. Fausto e Lúcifer tentam tirá-la do cárcere e conduzi-la a uma vida desonrosa. Margarida, porém, mantém-se firme, preferindo a morte a viver uma vida pecaminosa em companhia daqueles dois. Agindo dessa forma conseguiu vencer a prova fazendo por merecer o Reino de Deus.

Fausto usa os poderes que lhe foram conferidos e cria uma terra ideal onde os seres humanos poderiam viver em paz e realizar suas mais nobres aspirações. Sente-se realizado por fazer o bem e essa plenitude marca o fim da servidão de Lúcifer.

Pelas condições do pacto celebrado as forças do inferno libertam-se do seu domínio e subjugam-no, pelo menos aparentemente. As forças angelicais travam violenta batalha contra as hostes luciféricas. Quando Mefistófeles tenta arrebatar a alma de Fausto as milícias angelicais salvam-no, conduzindo-o para o Reino de Cristo.

O Fausto do mito difere do Fausto da ópera. O drama que principia no céu quando Lúcifer recebe permissão para tentar Fausto, assim como ocorreu com Jó na narrativa do Velho Testamento, termina também no céu quando a tentação foi vencida e a alma volta ao Pai. Esse mito encerra um significado semelhante ao da parábola do Filho Pródigo.

Fausto entre tantos simbolismos, simboliza principalmente o anseio humano de transcender seus limites físicos e espirituais. É da essência do ser humano o eterno impulso para ir além de si mesmo. É, também, o símbolo do abismo a que o ser humano se expõe nessa eterna busca.

(Publicado na revista Serviço Rosacruz –  09/86)

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O Mito de Fausto e a Lenda Maçônica

O Mito de Fausto e a Lenda Maçônica

Na lição do mês passado terminamos a nossa consideração final do Mito de Fausto[1]; e analisando-a como um todo, notamos que transmite a mesma ideia da Lenda Maçônica. De um lado, temos Fausto e Lúcifer; do outro, Margarida e os sacerdotes. Margarida mostra a fé na igreja, mesmo nas horas mais sombrias. Essa fé é o seu conforto e a sua segurança e, definitivamente, ela a faz alcançar o objetivo do espírito. Ela alcança seu lar celestial pela fé. Seus pecados de omissão e comissão são devidos à ignorância; mas quando ela vê o poder maligno incorporado ao caráter de Lúcifer que lhe oferece a liberdade da prisão e da morte, então, ela se recusa a fugir em sua companhia; e assim se redime, o suficiente, para merecer um lugar no Reino celestial. Da mesma forma, uma ala da igreja, os Filhos de Seth, são dependentes, atualmente, do perdão dos pecados, ao invés dos seus próprios méritos. Estão procurando a salvação por meio da fé, já que seus poderes para demonstrar por obras são pequenos.

Em Lúcifer e Fausto encontramos a réplica dos Filhos de Caim, que são construtores, fortes e ativos no trabalho do mundo. O mesmo espírito que infundiu em Caim o desejo de fazer com que “duas folhas de erva crescessem onde antigamente crescia apenas uma” – o instinto criativo, independente e divino que fez com que os Filhos de Caim em todas as épocas liderassem o trabalho no mundo – também é visto em Fausto; e a prática gloriosa com a qual ele empregou nos poderes do mal, isto é, fazendo-as construir uma nova terra, livre, onde um povo feliz e livre pudesse morar em paz e alegria, dá-nos uma visão do que o futuro nos reserva.

Pelo nosso próprio esforço, empregando os poderes do mal para fazer o bem, nos libertaremos das limitações tanto das igrejas como do estado, que agora nos mantêm em servidão. Ainda que as convenções sociais e as leis terrenas sejam agora necessárias para nos impedir de violar os direitos dos outros, dia virá em que o espírito nos animará e nos purificará, da mesma maneira que o amor de Fausto por Helena purificou-o e incentivou-o a empregar as forças de Lúcifer da maneira correta. Quando sentirmos o desejo de trabalhar por nossa própria vontade, quando nos gratificarmos pelo serviço que prestamos aos outros, como estava Fausto quando, com sua visão agonizante, ele pode contemplar a terra que se elevava do mar, então não necessitaremos mais em encarar as características restritivas das leis e convenções, pois teremos nos elevados acima deles pelo cumprimento de todas as suas exigências. Somente dessa maneira poderemos nos tornar realmente livres. É muito fácil dizer aos outros o que deve ser feito ou não, mas é muito difícil impor-nos o cumprimento da obediência, ainda que, intelectualmente, possamos aceitar os ditames do convencionalismo. Como diz Goethe:

“De todo o poder que mantém o mundo agrilhoado,

O ser humano se libera quando o autocontrole há conquistado”.

O mito de Fausto nos diz que há um estado utópico reservado para nós, quando nós tenhamos trabalhado pela nossa salvação usando as forças titânicas internas para nos tornar realmente livres. Que todos nós possamos nos esforçar nas nossas ações diárias para acelerar a chegada desse dia.

(Por Max Heindel – livro: Cartas aos Estudantes – nr. 35)

[1] N.T.: Fausto (em alemão Faust) é um poema trágico do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, dividido em duas partes. Está redigido como uma peça de teatro com diálogos rimados, pensado mais para ser lido que para ser encenado. É considerado uma das grandes obras-primas da literatura alemã. A criação da obra ocupou toda a vida de Goethe, ainda que não de maneira contínua. A primeira versão foi composta em 1775, mas era apenas um esboço conhecido como Urfaust (Proto-Fausto). Outro esboço foi feito em 1791, intitulado Faust, ein Fragment (Fausto, um fragmento), e também não chegou a ser publicado. A versão definitiva só seria escrita e publicada por Goethe no ano de 1808, sob o título Faust, eine Tragödie (Fausto, uma tragédia). A problemática humana expressada no Fausto foi retomada a partir de 1826, quando ele começou a escrever uma segunda parte. Esta foi publicada postumamente sob o título de Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten (Fausto. Segunda parte da tragédia, em cinco atos) em 1832.

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Aprendizagem Esotérica: você sabe o que dissipa a falácia dos métodos inconscientes e de pretensa liberdade

Aprendizagem Esotérica: você sabe o que dissipa a falácia dos métodos inconscientes e de pretensa liberdade

Ensinou Sócrates[1]: “O ser humano não procura o que sabe, porque já o sabe e, portanto, não tem nenhuma necessidade de o procurar. Também não procura o que não sabe, pois, se não sabe, ignora o que deve procurar”.

Essa afirmação parece desencorajar qualquer esforço de aprendizado. Mas no sentido profundo ela quer significar a necessidade de passar adiante do que já se sabe, predispondo-se a novas condições, desconhecidas, que a evolução colocará em nosso caminho. Ora, se por nós mesmos, como personas, não temos a possibilidade de saber o que nos convém, o Espírito em nós o sabe e nos leva fatalmente para aquilo que nossa necessidade interna reclama.

Foi assim que, sem o saber, encontrei a Fraternidade Rosacruz. No contato com ela, descobri em mim uma identidade nova e ignorada. Isso me levou a desejar atingir algo mais que na verdade sempre desejei.

Sócrates foi um parteiro de almas porque despertava nas pessoas o que nelas estava adormecido. Assim aconteceu comigo, ao confrontar-me com a sabedoria Rosacruz: o desconhecido se me tornou conhecido e me convidou ao desabrochamento.

Sócrates disse também o seguinte: “Ninguém pode ensinar nada a ninguém e nem aprender nada de ninguém”. Outra afirmação enigmática que se revela profunda à meditação. Ele sabia que o ser humano “é feito à Imagem e Semelhança de Deus”, trazendo em si, em potencial, todas as faculdades, bastando que elas sejam acordadas e cultivadas para que se tornem realidade como conquista anímica do indivíduo. A maioria das pessoas, embora tenha lido a Bíblia, não compreendeu possuir essa riqueza potencial interna. No entanto, a própria experiência da vida nos mostra que ela existe. Cada um de nós pode ser, ao devido tempo, tudo. Mais facilmente atingirá as faculdades que já tenha desenvolvido em parte; e a longo prazo, aquelas que ainda não foram despertadas.

Quem no-lo revelará? Uma orientação externa. Mas… não disse Sócrates que ninguém ensina nada a ninguém? No sentido comum de ensinar, de fato ninguém ensina, porque a verdade já está dentro de nós. O que o mestre grego quis significar é diferente: o orientador não cria nada nem dá nada a ninguém; apenas o ajuda a descobrir-se; apenas revela o que já existe — como ensina a “Oração Rosacruz”. A orientação externa não vai tirar algo do nada, nem pôr algo no nada. Apenas faz descobrir o que já existe, o que está subjacente e que deve vir à tona da consciência, pelo exercitamento adequado.

Tanto isso é verdade que o próprio Sócrates o demonstrou. Ele tomou um jovem escravo sem formação matemática e, traçando na areia algumas figuras, foi interrogando metodicamente o moço, levando-o a definir, sozinho, por dedução, verdades muito próximas do teorema de Pitágoras. Sua habilidade é tal que induz ao moço, de pergunta em resposta, verdades surpreendentes. O jovem escravo tira de dentro de si as conclusões, sem que ninguém as explique a ele diretamente. Daí a conclusão: nada veio de fora para enriquecer aquela inteligência, que descobriu por si mesma — se bem com ajuda indutiva — as relações constitutivas do mundo matemático que já estavam nele. Só aguardavam para se tornarem conscientes, a invocação do orientador.

Não houve ensino, no sentido atual do termo, se bem que a presença e habilidade do orientador, como meio indutivo, é indispensável. Este induz o que sabe, mas o aluno o realiza de modo próprio, pelo dom epigenético contribuindo, não raro, para o orientador descobrir aspectos que não conhecia. Por isso que o ensinar é também um aprendizado.

É claro, pois, que o intercessor é necessário. Ainda mais: ele só pode induzir o outro a relacionar e concluir o que é conhecido dele, orientador. Mas naquele encontro, celebrado pelo amor, porque marcado pelo desejo de ajudar, muitas vezes ocorre a presença de um terceiro fator, de inspiração interna, levando um dos dois a sacar deduções imprevistas.

Do ponto de vista esotérico, a pedagogia se torna uma atividade espiritual das mais expressivas porque pressupõe necessariamente o amor, que se anula sem desejo de mostrar o que se sabe, para desvelar o desconhecido, das potencialidades do aluno. Mostra que a alma não é importada do exterior, se bem que seja suscitada pelo exterior: daí a necessidade do renascimento neste plano que é uma oficina de aprendizagem.

O ensino se torna uma invocação à união de nossa voz indutiva com a voz interna do aluno, para libertar-lhe uma vocação adormecida, tal como o Príncipe encantado a despertar a Bela Adormecida com o apelo de um beijo. A voz que vem de fora, como um som mágico, desperta no íntimo, por ressonância, a verdade pré-existente. Mas cada um despertará de modo singular e próprio, segundo o como e o que já tenha realizado anteriormente.

Cada despertar de uma verdade é um nascimento. Cada nascimento é um mistério encantador e traz a individualidade de sua origem.

Muitas vezes é um livro o intercessor que nos leva a conclusões novas. De toda a forma, embora pareça imenso, na verdade o papel do orientador é limitado ao livre arbítrio e à epigênese do aluno. Ele é um meio e não um modelo e fim. Apesar de todo o seu amor e altruística dedicação, não deve exorbitar a função de um invocador da verdade. Ele não se limita a resolver tudo com afirmações nem dar lições para que o aluno memorize. Ao contrário, ele se torna um discípulo ante o discípulo, instalando-se naquilo que o discípulo compreendeu e na maneira como ele compreendeu. Ele realiza a empatia pedagógica, ao colocar-se no lugar do outro.

Sem esse laço não existe aprendizado. O aluno sente o interesse do Instrutor por sua edificação. Os dois se abrem e se encontram como duas mãos em prece. Só esta compreensão, no aluno, é que avalia e elege o Orientador.

“Não há grande ser humano para o criado de quarto” — diz o ditado. Referindo-se a isso, Goethe[2] esclarece bem: “Não porque o grande ser humano não seja um ‘grande homem’, mas porque o criado de quarto é um criado de quarto”. Isto nos leva a compreender que o aluno não pode amar o que não compreende… Quando ele encontra o Instrutor que busca compreendê-lo e lhe abre o íntimo para um autêntico diálogo, o amor realiza o milagre do despertar.

Mas a demasiada intimidade pode arruinar esse encontro. Daí que haja entre aluno e instrutor uma sutil dosagem de intimidade na distância, e uma distância na intimidade, uma espécie de respeito diferente, mas não menos completo. Cada um tem algo que não revela ao outro e que o outro pressente, como a Sherazade das “Mil e uma noites” a velar algo mais para o dia seguinte.

À medida que a harmonia se estabelece entre o professor e o aluno, quase desaparece o intervalo entre aquele perguntar e este despertar à compreensão, porque o Eu real responde imediatamente à ideia suscitada, com sua verdade própria. Assim vão caminhando os dois na mesma direção: o Orientador humildemente, cônscio de suas limitações ante a verdade inabarcável, na consciência do pouco que tem ante a infinitude divina que o convida. O aluno, inspirado no exemplo do Instrutor, desejoso de continuar-lhe a obra de transmissão a outros.

Hoje há mal-entendido sentido de liberdade e de universalidade, de um lado motivado pela indisciplina e impaciência; doutro lado, por autores, que estão cometendo o grande erro de querer demolir a personalidade sem que ela ainda tenha sido formada: matar o que ainda não nasceu.

A grande maioria é espiritualmente infantil, imatura e deve ser ajudada na própria realização, por um método gradativo e inteligente.

O autodidata, rebelde a toda orientação ou escola — conforme ensinam esses autores — fica girando em torno de si mesmo, num círculo vicioso, limitado às próprias incipientes possibilidades conscientes. Nada aceita de fora, mas não se dá conta das sutis influências externas que o condicionam. Ouve falar, e muito, desses condicionamentos, mas não desenvolve meios de libertar-se deles. Fecha medrosamente a janela do íntimo à “perigosa influência das escolas” e não percebe que, justamente por isso, fecha as possibilidades de receber ajuda na conscientização da verdade. É como fechar a janela ao mal, fechando-se também ao bem.

Outro tipo de autodidata, comum no espiritualismo — igualmente movido por mal-entendido universalismo e independência — é aquele que não assume compromisso com nenhuma escola e põe-se a, gulosamente. ingerir toda a literatura que sua falta de discernimento e preparo escolhe. Sem desenvolver um sentido global, um esquema geral da vida e do ser, vai colecionando retalhos e cosendo-os incoerentemente. Perde-se na literatura variada como uma pessoa entre as árvores da floresta. Isolando-se em sua pretensão, furta-se à riqueza do diálogo e compromete o íntimo, porque vai perdendo aquele estado de equilíbrio e receptividade necessário ao aprendizado imparcial. Preocupado mais com a quantidade do que com a qualidade e coerência do que lê, confunde memorização com formação e acaba sendo esmagado pelo peso desse enorme bloco que engoliu e não digeriu. Refugia-se num tolo orgulho intelectual, subestimando as organizações, para justificar sua desorganização. É um herói sem esperança, pelo menos nesta vida, ao mesmo tempo que está formando cristalizações intelectuais, obstaculizando sua libertação em futuras vidas.

Outra dificuldade insinuante e perigosa — porque atende à conveniência dos preguiçosos — são os métodos de ensino subconsciente. Compreendamos que, se se conseguisse estabelecer um método de aprendizagem que permitisse a cada um decorar sem esforço (por exemplo, durante o sono, como o recurso subliminar), uma matéria qualquer, um tal sistema jamais seria a perfeição educacional. Ao contrário, seria o seu malogro e fim. No desenvolvimento do ser humano, a conquista do sistema nervoso cérebro-espinhal, que nos permitiu o desenvolvimento da consciência, é algo precioso que reclama cultivo constante. O ser humano está destinado a ganhar consciência plena de si. Não há evolução sem consciência. Só o que assimilamos conscientemente podemos converter em alma. Só o que dinamizamos conscientemente de nossa bagagem anímica potencial pode servir-nos como recursos de ação.

Mais do que nunca a humanidade está hoje precisando de uma honesta orientação. O método ocidental, exposto nesta série de artigos, dissipa a falácia dos métodos inconscientes e de pretensa liberdade.

A Universalidade só existe dentro de nós mesmos, conscientemente exercida através de nosso Eu real. A liberdade também, como bem esclareceu São Paulo Apóstolo: “Lá onde habita o Espírito, lá é onde existe liberdade”. Não se trata de fato externo. Ninguém nos pode libertar ou limitar-nos a liberdade.

“Conheci e dou testemunho de que a verdadeira orientação nos liberta de nós mesmos (a única limitação) para o conhecimento de nós mesmos e o sentido de universalidade autêntica”.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de junho/1976)

[1] N.R.: Sócrates foi um filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais abrangente de Sócrates a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje.

[2] N.R.: Johann Wolfgang von Goethe (1749 -1832) foi um autor e estadista alemão do Sacro Império Romano-Germânico que também fez incursões pelo campo da ciência natural. Como escritor, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX.

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O Sangue: você sabe qual a sua real importância?

O Sangue: você sabe qual a sua real importância?

Pergunta: Qual é o meio direto pelo qual o Ego pode agir no Corpo Físico?

Resposta: O sangue. Podemos notar que o Ego não pode atuar no Corpo Físico sem que o sangue esteja dentro de uma temperatura apropriada. Por exemplo: um calor acima do normal torna a pessoa sonolenta, tornando-a inconsciente pela expulsão do Ego, se a temperatura continuar a subir.

Pergunta: O frio intenso produzirá o mesmo efeito?

Resposta: O frio excessivo também tende a tornar o Corpo sonolento ou inconsciente. Somente quando o sangue se encontra próximo ou na temperatura normal é que o Ego poderá usá-lo como veículo de consciência.

Pergunta: Como podemos notar a atividade do Ego no sangue?

Resposta: Podemos mencionar vermelhidão produzida pela vergonha ou por outra emoção. É uma evidência da maneira pela qual o sangue é levado à cabeça, assim superaquecendo o cérebro e paralisando o pensamento.

Pergunta: Qual a reação do Ego face ao medo?

Resposta: O medo é um estado em que o Ego é levado a defender-se de algum perigo exterior. Por isso o sangue flui mais internamente. As faces empalidecem porque o sangue deixou a periferia do Corpo.

Pergunta: A qualidade do sangue afeta o trabalho do Ego?

Resposta: Em uma pessoa vigorosa, quando o sangue não atinge uma determinada temperatura, é ativa corporal e mentalmente, ao passo que a pessoa anêmica é sonolenta, o que quer dizer que num caso o Ego tem um melhor domínio e no outro menor.

Pergunta: A crença de que o Ego age no sangue é corroborado pela História?

Resposta: Os artigos Noruegueses e Escoceses admitem que Ego está no sangue, porque nenhum estrangeiro poderá tornar-se seu parente, até que tenha feito a “mistura de sangue” com eles, e dessa forma tornar-se um deles.

Pergunta: Existem outras fontes idôneas que concordam com essa crença?

Resposta: Goethe, um Iniciado, demostra essa verdade em seu Fausto, quando estava para assinar o pacto com Mefistófeles: “Por que não assinar com tinta comum? Por que usar o sangue? “O sangue é uma essência muito peculiar”, respondeu Mefistófeles. Quer dizer que aquele que tem o sangue tem o ser humano. É pelo calor do sangue que o Ego pode expressar-se.

Pergunta: Em que época o sangue atinge a temperatura apropriada?
Resposta: O calor apropriado do sangue para capacitar o Ego a expressar-se plenamente, torna-se uma realidade quando o indivíduo está para atingir os vinte e um anos de idade.

Pergunta: Há aspectos legais em relação a esse fato?

Resposta: A lei reconhece isso ao ser humano.

Pergunta: O sangue tem alguma conexão com a memória?

Resposta: A memória está intimamente conectada com o sangue, o qual é a mais alta expressão do Corpo Vital. E somente por meio dos dois Éteres superiores que o ser humano tem o senso de percepção e memória. Isso se aplica à memória Consciente, como também aos registros que designamos como memória Subconsciente, os quais se realizam por meio do Corpo Vital com o auxílio do sangue.

(Revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/73 – Fraternidade Rosacruz – SP)

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O Décimo Terceiro

O Décimo Terceiro

Dentro do meio ocultista muito se fala sobre a Ordem Rosacruz. Muitas vezes as informações ou os comentários sequer se aproximam da realidade. Em última análise, só mesmo os Iniciados nessa máxima Escola é que podem conhecê-la verdadeiramente, informando corretamente a seu respeito. Este é, justamente, o caso de Max Heindel, cuja elevação interna credenciou-o a ser o Mensageiro dessa majestosa Ordem. Assim, em 1.909, coube-lhe o privilégio de tornar público um conjunto de ensinamentos lógicos e racionais, capazes de projetar luz sobre o mistério da vida.

Com a publicação do Conceito Rosacruz do Cosmos, o ser humano, particularmente o ocidental, teve acesso a uma orientação segura e adequada à sua constituição geral (física, mental e espiritual), traduzida nos sagrados arcanos e no Método Rosacruz de Desenvolvimento, neles baseado.

Posteriormente, surgiram outras obras do Sr. Heindel, reforçando e ampliando o que houvera sido divulgado nos estertores da primeira década deste século. São, no dizer do próprio autor, os ensinamentos mais elementares dos Rosacruzes, mas suficientes para assegurar ao Aspirante, “chaves” valiosas para descobrir os mistérios da natureza.

A Fraternidade Rosacruz é a escola preparatória à iniciação na Ordem do mesmo nome. Seus cursos, livros e conferências são franqueados a todas as pessoas sedentas do “pão da vida”.

O caminho iniciático está aberto a qualquer ser humano? Sim, desde que se proponha a atender certos requisitos básicos e indispensáveis a quem deseja transpor o “Portal do Templo”. Logicamente, isso demanda séria e árdua preparação. Muitos talvez nem logrem essa realização na presente existência. Quando, porém, o discípulo estiver preparado, o Mestre aparecerá. Mas, o que é realmente a Ordem Rosacruz? Apenas e simplesmente uma sociedade secreta como julga a maioria?

Não, não é apenas isso. Segundo os ensinamentos de Max Heindel, ela é, antes e acima de tudo, uma das Escolas de Mistérios Menores, dirigida pelos Irmãos Maiores, os Hierofantes desses mistérios.

Seres elevadíssimos comparados com a humanidade comum, os Irmãos da Rosacruz influenciam a vida do Ocidente muito mais poderosamente do que qualquer governo. Entretanto, é importante ressaltar: nunca interferem a ponto de privar a humanidade de seu livre arbítrio. Apenas procuram resguardar as diretrizes de sua evolução.
A Ordem Rosacruz surgiu no século XIII, na Europa, em plena Idade Média, fundada por um grande Instrutor Espiritual, cujo nome simbólico era Christian Rosenkreuz [Cristão Rosacruz). Seu objetivo maior era e é, iluminar o mal-entendido Cristianismo – principalmente naquela época – e lançar as bases de um sistema científico – religioso, capaz de atender às necessidades evolutivas do ser humano. Até então, as pessoas inclinadas à uma vida superior, tendiam, naturalmente, para o caminho místico. Não haviam outras opções.

Em virtude das bases dos ensinamentos rosacruzes serem eminentemente científicas e racionais, os tempos medievais foram pouco propícios à sua divulgação. Não havia liberdade de pensamento religioso, porquanto a igreja predominante na Europa, estendia seu poder a todos os negócios humanos. As artes, a literatura, a filosofia, a quase inexistente ciência, tudo se encontrava à serviço da religião. Até os monarcas se submetiam ao jugo eclesiástico, estando, em quase todas as nações, o Estado vinculado à igreja.

No século XIII, o mundo cristão achava-se mergulhado em profunda crise. As cruzadas, levadas a efeito contra os muçulmanos, não deram os resultados esperados, a não ser algumas vantagens do ponto de vista comercial. Contudo, o contato com os povos do Oriente promoveu importante intercâmbio de ideias e valores.

A comunidade europeia, no entanto, subjugada despótica e dogmaticamente pela religião, mostrava-se impermeável a qualquer nova linha de pensamento. Seria de pronto repelida e considerada abominável heresia qualquer nova ideia, capaz de colidir com os princípios religiosos estabelecidos. Mesmo assim, houve ousadas tentativas.

Iniciaram-se, então, as perseguições. Quem, ostensiva ou discretamente, se encorajasse a externar novos pontos de vista sobre qualquer assunto, correria o risco de ser tachado de herege.

Criou-se a chamada “Santa Inquisição” ou Tribunais do Santo Ofício, cuja ação tenebrosa levou à morte milhares de pessoas. O Papa Inocêncio III empreendeu uma cruzada contra os albigenses, espalhando o terror pelo Sul da França. Nesse derramamento de sangue, incompatível com os princípios cristãos, nem mulheres e crianças foram poupadas. Este foi apenas um exemplo.

Vê-se, pois, como aquela época não ensejava um campo fértil para a divulgação dos ideais rosacruzes. Não obstante tais dificuldades, Christian Rosenkreuz lançou suas sementes, trabalhando com os alquimistas durante séculos inteiros, preparando, assim, terreno para uma empreitada futura.

Durante todo esse tempo, apenas alguns poucos iluminados tiveram acesso aos ensinamentos da Ordem. Notamos alguns fragmentos dessas verdades transcendentais, nas obras de Shakespeare, Comenius, Goethe e outros.
As profundas transformações ocorridas no mundo ocidental, a partir do início do século passado, principalmente no campo das ideias, criaram condições para que fossem revelados publicamente, os ensinamentos mais elementares da Rosacruz. Assim é que no primeiro decênio do presente século, Max Heindel, após ter sido observado e submetido a várias provas, conquistou o inexcedível mérito de ser o Mensageiro dos Irmãos Maiores.

E a Ordem Rosacruz? Como se compõe?

Preciosas informações contidas no Conceito, nos dão conta de que ela é formada segundo linhas cósmicas. O mesmo ocorre com as demais Escolas de Mistérios.

Se juntarmos várias esferas e tentarmos cobrir e ocultar uma delas, veremos que doze são necessárias para tanto.

O átomo está agrupado assim: doze em torno de um. Doze são os signos que formam o zodíaco, doze Apóstolos reuniram-se em torno do Cristo. Em todos os exemplos, sempre notamos doze em torno de um.

Como não poderia ser diferente, doze Irmãos Maiores mais o décimo terceiro, compõem a Ordem Rosacruz.

Desses doze, sete manifestam-se no mundo cada vez que as circunstâncias o exijam, fortalecendo o bem onde o encontrarem. Dependendo da necessidade, surgem como seres humanos entre a humanidade, ou utilizam seus veículos invisíveis. Os cinco restantes nunca deixam o Templo. Agem somente nos planos internos, embora possam manifestar-se em corpos físicos.

O Cabeça da Ordem é Christian Rosenkreuz, o décimo terceiro, oculto do mundo externo pelos doze Irmãos. Nunca é visto pelos outros membros da Ordem, mas sua presença é percebida quando adentra o Templo. É o sinal para o início dos trabalhos.

Esse grande espírito esteve encarnado no tempo de Cristo, quando seu grau de evolução já era muito elevado.

Sabe-se que em uma de suas últimas encarnações, apareceu como Conde de Saint-Germain. Para aqueles, insensíveis às grandes realidades espirituais, sua existência nunca passou de um mito. As almas mais avançadas, porém, sabem que Christian Rosenkreuz inaugurou uma nova época na vida espiritual do Ocidente.

(Revista ‘Serviço Rosacruz’ – 04/79 – Fraternidade Rosacruz – SP)