Categoria Estudos Bíblicos Rosacruzes: Novo Testamento

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A Fé cega e a Razão Santa?

A Fé cega e a Razão Santa?

O tempo da fé cega já passou, chegamos à época da fé inteligente e da fé razoável. Não acreditamos somente em Deus, senão que O vemos em Suas obras, que são as formas exteriores de Seu Ente. Eis o grande problema de nossa época: traçar, completar e fechar o círculo dos conhecimentos humanos; depois, pela convergência dos raios, achar um centro: Deus! Achar uma escala de proporção entre os efeitos, as vontades e as causas, para subir daí à causa e à vontade primeira. Constituir a ciência das analogias entre as ideias e a sua fonte primitiva.

Tornar qualquer verdade religiosa tão certa e tão claramente demonstrada como solução de um problema de geometria.

Crede e compreendereis — disse Jesus-Cristo. Procuremos e acharemos; estudemos e haveremos de crer. Crer é saber por palavra. Ora, essa palavra divina, que antecipava e supria por um tempo a ciência cristã, devia ser compreendida mais tarde, conforme a promessa do Mestre. Eis, pois, o acordo da ciência e da fé provada pela própria fé.

A Religião é razoável. Pode-se prová-lo radicalmente, por meio da ciência.

A Razão é santa. Cristo-Jesus, encarnando a humanidade regenerada, a divindade feita ser humano, tinha por missão estabelecer o equilíbrio dessa dualidade e conduzir a humanidade à condição divina. O Verbo feito carne permitiu à carne fazer-se Verbo. Isso que os doutores da Igreja não compreenderam a princípio: seu misticismo quis absorver a humanidade na divindade. Negaram o direito divino. Acreditaram que a fé deveria aniquilar a razão, sem lembrar-se desta palavra profunda do maior dos Hierofantes dos mistérios cristãos: “Todo espírito que divide o Cristo é um espírito de Anticristo”.

A unidade do Mestre um dia triunfará em nós.

(Publicado na revista ‘Serviço Rosacruz’ – 05/70)

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Fé: a confiança n’Ele

Fé: a confiança n’Ele

Não é estranho que poucos seres humanos possuam uma fé real e viva em Deus? Mesmo entre os cristãos professos, há relativamente poucos que realmente confiem no Pai Celestial. Fé não significa simplesmente a crença na existência de Deus; Fé significa confiança — é nos colocar em Suas mãos.

A fé, como todas as outras qualidades e virtudes, só cresce por meio do exercício. Aprenda a confiar no Pai em tudo, tanto nas menores coisas da vida quanto nas maiores. Isso significa libertação dos cuidados, medos e preocupações dos quais o mundo está tão cheio: Mente e Coração abertos para receber a verdade de qualquer fonte que venha, acreditando que o bom Deus nos tenha em Sua guarda. Pois quando depositamos nossa confiança em Deus, fazemos uso de uma Lei Divina que nos apoia em todas as provações e problemas da vida. É como se tivéssemos agarrado a Mão Todo-Poderosa, que é capaz de fazer tudo e superar todas as coisas por nós. Estabelece a conexão entre nossa fraqueza e Sua força, que é maior que tudo.

A fé é fraca no início e às vezes é necessário estarmos em estado extremo, antes de podermos pedir ajuda a Deus; porém até mesmo a menor medida de fé fará com que o Pai Celestial venha em nosso auxílio. “A fraqueza do homem é a oportunidade de Deus.”. Ele é O sempre fiel. Lembre-se do que Ele disse: “Nunca te deixarei nem te desampararei”.

A simplicidade desse caminho o faz parecer fácil demais para a maioria dos homens. É que eles procuram grandes dificuldades para superar, no caminho do estabelecimento de uma fé que os conecte ao Pai Celestial. Isso, no entanto, requer alguma simplicidade de caráter, uma Mente semelhante à infantil. Você lembra que o Cristo disse que devamos nos tornar criancinhas? Trata-se, em grande parte, de relaxar, de deixar ir, de afastar da Mente e do coração qualquer fardo ou problema que surgir, olhando simplesmente para Ele e aceitando da Sua Mão o que vier. E não podemos fazer algo mais agradável a Ele ou mais útil a nós mesmos do que exercer essa confiança em todas as condições. E nossa capacidade de fé cresce com esse exercício. Quanto mais o praticarmos, mais fé teremos. Então chegará um momento em nosso crescimento onde não temeremos qualquer coisa — seja neste mundo ou em qualquer outro. Atingiremos o equilíbrio, a paz de espírito e a serenidade de alma, uma tranquilidade de coração que deva ser a antecipação da bem-aventurança Celestial. Perceberemos a suprema sabedoria de permitir que todas as coisas sejam ordenadas pela perfeita Sabedoria e pelo Amor perfeito; perceberemos que nossa própria vontade, devido ao nosso entendimento imperfeito, seja propensa a contrariar Sua Vontade, que sempre objetiva nossa perfeição e felicidade.

“O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia, e conhece os que n’Ele confiam.”

“Eu, o Senhor, seguro a tua mão direita, dizendo: não temas; Eu te ajudo.”

“Em todos os teus caminhos, reconheça-O e Ele direcionará teus passos.”

“Quem muito confia no Senhor, feliz é.”

“Embora Ele me mate, eu ainda confio Nele.”

“Tu manterás em perfeita paz aquele cuja Mente esteja firme em Ti, porque ele confia em Ti.”

Há muitas, muitas passagens na Bíblia que nos pedem para confiar n’Ele. Leia o vigésimo terceiro Salmo e o nonagésimo primeiro. O escritor desse texto pode ser muito crédulo, mas acredita que essa confiança seja o remédio soberano para todos os problemas ou perigos, sejam eles ocultos ou não, e que, ao nos apegarmos a Ele, somos mantidos em segurança até o fim.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross de 05/1915 e traduzido pela Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)

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Por que foi necessário que o Cristo entrasse no corpo de Jesus e fosse tentado para sentir compaixão por nós? Um grande Ser como Ele não poderia sentir compaixão sem passar por isso?

Pergunta: Por que foi necessário que o Cristo entrasse no corpo de Jesus e fosse tentado para sentir compaixão por nós? Um grande Ser como Ele não poderia sentir compaixão sem passar por isso?

Resposta: Não, evidentemente. Para que a tentação se torne tentação é preciso que a pessoa tentada veja algo desejável naquilo que a tenta. Faltando essa condição, não pode haver tentação. A carne não é motivo de tentação para esse autor, pois até o pensamento de comê-la lhe causa náuseas. Portanto, não há virtude em abster-se dela. Ele não precisa dominar o desejo pela carne, mas terá de dominar a repugnância para comê-la. O grande Espírito Solar, o Cristo, por Sua própria natureza, não podia sentir-Se tentado em transformar pedra em pão para aplacar a fome. O ato de recusar obediência a um poder que O teria tornado soberano da nossa pequena Terra não seria para Ele um sacrifício; contudo, assim como quando olhamos através de uma lente colorida vemos tudo colorido, assim também quando a consciência do Cristo estava focalizada no corpo de Jesus, Ele percebia as coisas deste mundo através dos olhos de Jesus, um ser humano. Do ponto de vista desse último, o pão era algo extremamente desejável, quando sentia fome. Portanto, isso constituía uma tentação.

O poder é também almejado pela maioria da humanidade. Consequentemente, saber que pelo poder dentro de Si, Ele poderia satisfazer esse desejo constituía uma tentação. Somente pela perspectiva humana de Jesus, o Getsemani poderia parecer terrível o suficiente para que Ele desejasse evitar a provação que se aproximava. Podemos opinar, baseados no adágio “Cada um é que sabe onde os calos lhe apertam”, que o Espírito de Cristo aprendeu, através das limitações corporais de Jesus, a ter compaixão por nossas fraquezas de um modo que não teria sido possível pela simples observação externa. Tendo uma vez usado um corpo e sentido a fraqueza da carne, Ele sabe melhor como nos ajudar e é, portanto, o Supremo Mediador entre Deus e o ser humano.

(Pergunta nº 91 do Livro Filosofia Rosacruz por Perguntas e Respostas vol. II, de Max Heindel)

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“A Ilha de Patmos”

“A Ilha de Patmos”

O último livro da Bíblia nos fala que o Apóstolo São João escreveu o Apocalipse (Revelação) na ilha de Patmos.

Ao dizer, São João, que “se encontrava na ilha de Patmos”, há uma grande significação:

A palavra “Patmos” significa iluminação, e nos tempos anteriores a Cristo, a expressão “Ilha de Patmos” era usada para referir-se à Iniciação. Por meio de seu progresso no caminho iniciático, “o Discípulo Amado” foi capaz de estar em Espírito, em estado de consciência necessária para ver nos reinos superiores, e funcionar ali em seus veículos invisíveis.

Quando estudamos a Revelação, encontramos, como uma de suas características mais notáveis, que está baseada no místico número sete. São João teve sete visões nas quais recebeu mensagens para as sete igrejas; há sete Anjos ante o trono, há sete lâmpadas de fogo e sete trombetas; há sete candelabros, os sete selos do “livro”.

O significado do uso do número sete é explicado pelos ensinamentos da Ciência Oculta, a qual ensina que o ser humano é sétuplo, sendo um Tríplice Espírito que possui um Tríplice Corpo e a Mente.

No corpo do ser humano há sete centros espirituais, os quais, quando são despertados e desenvolvidos, expressam os poderes espirituais do Espírito Interno. Posto que o ser humano é sétuplo, e dado que ele é a unidade deste particular campo de evolução, a quem São João se refere em sua mensagem, logicamente, é de supor-se que a mensagem que foi escrita por São João, e enviada às “‘sete igrejas”, encerra informação referente ao ser humano. Em outras palavras, as sete igrejas são usadas em um sentido simbólico para referir-se aos sete centros espirituais do ser humano, os quais têm que ser desenvolvidos no processo evolutivo espiritual. Cada indivíduo é um Deus em formação e eventualmente logrará seu divino destino.

(Revista ‘Serviço Rosacruz’ – Contribuição da Fraternidade Rosacruz de Santo André – set/out 88)

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“E a Verdade vos Libertará”: como utilizar esse Ensinamento no seu dia a dia

“E a Verdade vos Libertará”: como utilizar esse Ensinamento no seu dia a dia

Algum tempo atrás tive o privilégio de discutir com você sobre o tema “A Nota Chave do Cristianismo” e, no decorrer dessa conversa, evocamos diante de nossa Mente o encontro de Pilatos com Cristo, onde a grande e importante pergunta foi feita: “O que é a verdade?”. Vamos olhar para esse quadro de novo.

Lá está Pilatos, o representante de César, e em virtude desse fato, uma personificação do mais alto poder temporal, um governante de todo o Mundo com poder sobre a vida e a morte, um homem diante de quem todos tremem. E perante ele está o Cristo, manso e humilde, porém muito maior, pois enquanto este homem, Pilatos, tem poder sobre o Mundo atual, que é evanescente e temporal, ele próprio está sujeito à morte. Mas Cristo é o Senhor da Vida, o Príncipe de um reino espiritual que não passa. Ele não responde à pergunta de Pilatos, “O que é a verdade?”, mas em outra ocasião ele disse “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” e “A Verdade vos libertará”.

Não se pode negar que estejamos agora sob a lei do pecado e sujeitos à morte. A grande questão é, portanto, como encontrar a verdade que real e verdadeiramente nos libertará; com o objetivo de encontrar o caminho vamos dar uma olhada no início dos tempos, quando a humanidade infantil veio à Terra pela primeira vez. De acordo com a Bíblia, uma névoa subiu da Terra quando a crosta do planeta esfriou; ao olharmos para esta época, como retratada na memória da natureza, encontramos um maravilhoso crescimento tropical de tamanho gigantesco cobrindo a bacia da Terra, onde agora está o Oceano Atlântico. Na verdade, era um verdadeiro jardim, porém a névoa era tão densa que a luz do Sol nunca poderia penetrá-la e a humanidade infantil vivia neste paraíso como os filhos do Grande Pai.

Eles tinham corpos nessa época como temos agora, mas não estavam cientes deles, embora fossem capazes de usá-los, assim como usamos nosso aparelho digestivo sem estar conscientes disso. E embora não pudessem ver fisicamente, a visão espiritual era uma faculdade ainda possuída por todos. Assim, eles viam uns aos outros, alma a alma; não havia dolo nem hipocrisia e a verdade estava com todos.

Gradualmente, no entanto, a névoa se dissipou e acumulou em uma enorme nuvem ao redor da Terra. Simultaneamente, esses filhos da névoa começaram a se ver, vagamente; eles se tornaram cada vez mais incrustados em seus densos corpos físicos e perceberam finalmente que esse veículo seria uma parte do ser humano. Mas, ao mesmo tempo em que gradualmente perderam contato com o mundo espiritual, eles já não viam a alma claramente como até então, e mesmo a voz dos hierarcas espirituais, que até aquele momento os haviam guiado, como um pai guia seus filhos, tornou-se fraca e sombria.

Com o passar do tempo, a nuvem que pairava sobre este vale havia se condensado suficientemente na atmosfera de resfriamento, de modo que estourou e lançou sobre a Terra uma inundação que levou essas crianças da névoa até as terras altas, onde, na atmosfera clara, sob a curvatura do arco-íris, eles se viram pela primeira vez.

Gradativamente, a grande ilusão de que “nós somos corpos” tomou posse de todos, a alma não era mais vista nem puderam ouvir a voz do Grande Pai que cuidara deles durante a infância, em seu Estado paradisíaco. A humanidade ficou órfã, à deriva no deserto do mundo. A vida tornou-se uma luta contra a Morte.

Logo, a maioria da humanidade pareceu esquecer que houvesse um Estado tão feliz, embora a história vivesse em canções, lendas e habitasse em cada seio humano um profundo reconhecimento inerente a essa verdade, a memória de algo que foi perdido, algo mais precioso do que qualquer coisa que o mundo possa dar. E, portanto, existe em todo peito humano um profundo anseio por aquela companhia espiritual que perdemos quando nos identificamos com a nossa natureza inferior. Encontramos uma personificação desse desejo no Tannhauser, que entrou no Monte de Vênus para satisfazer sua vontade inferior. Depois de um tempo, ele anseia pelo mundo que deixou e pede a Vênus que lhe permita partir para que possa gozar novamente do sofrimento, das torturas de um amor não-correspondido, porque se cansou daquilo que ela lhe havia dado livremente. Como ele diz:

Um Deus pode amar sem cessar;

Mas sob as leis do alternar,

Nós mortais precisamos mudar de medida

Nossa parcela de dor, bem como de prazer.

Esse foi o propósito, quando a Humanidade foi levada da Atlântida para a atual era do arco-íris: foi-nos dada a lei da alternância para que possamos colher assim como semearmos, que a tristeza e a alegria possam mudar à medida que as estações se sucedam de forma ininterrupta. Assim, isso deve continuar até que o sofrimento gerado por nossas ofensas tenha demolido a crisálida que agora mantém a alma presa, enquanto a natureza inferior se alimenta das cascas da materialidade.

A princípio, a humanidade se deleitava com o poder sobre o mundo e o orgulho da vida nasceu; a luxúria dos olhos era grande, mas embora “os moinhos dos Deuses moam devagar, moem extremamente bem”, e ainda que possamos conseguir o poder e a saúde e prosperidade possam ser, hoje, nossos servos, chegará um dia no qual, como Fausto, sentiremos que a vida não seja valiosa. Então começará a luta mencionada por Fausto a seu amigo Wagner, nas seguintes palavras:

Tu por um único impulso estás possuído,

Inconsciente do outro que ainda permanece,

Duas almas infelizmente estão lutando no meu peito

E lutam lá pelo reino indiviso,

Uma para a terra com desejo apaixonado

E à roupa agarrada rigorosamente ainda adere,

Acima da névoa, o outro aspira

Com ardor sagrado até esferas mais puras.

São Paulo também descobre que exista dentro dele uma natureza inferior, “os desejos da carne”, que luta contra os desejos e ânsias do espírito, mas Goethe, com a maravilhosa penetração do Místico, resolve o grande problema para nós. “O que devemos fazer para alcançar a libertação”, ele diz:

De todo poder que mantém a alma acorrentada,

Nós nos libertamos quando ganhamos o autocontrole.

Podemos, como Pilatos, ter autoridade, talvez uma autoridade não tão grande. Contudo, mesmo supondo que fosse possível que alguém se tornasse um “governante do mundo” e exercesse autoridade sobre a vida e a morte de toda a humanidade, em que isso lhe beneficiaria, se não fosse capaz de conquistar a si mesmo e controlar? Por meio de agressão física, César, o mestre de Pilatos (quando ele representa), conquistou o mundo, todos lhe pagavam tributos e mesmo assim o seu reinado durou apenas alguns anos. Depois, o espectro sombrio da morte veio para terminar sua vida e seu governo no Mundo Físico.

Observe o outro, o Cristo, que ficou ali, manso e humilde, mas capaz de dizer “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e todo aquele que crê em Mim não perecerá, mas terá a vida eterna”. O regulador do mundo, apesar de todo o seu aparente poder e pompa atuais, ainda está sujeito à morte; no entanto, Aquele que aprendeu a ter poder sobre si mesmo, Aquele que conquistou sua natureza inferior, o corpo da morte, assim se fez o Senhor da Vida, com um reino que é eterno nos céus. E é dever de todos nós seguirmos os Seus passos, pois Ele disse: “Estas coisas que eu faço, também vós fareis e maiores”. Cada um de nós é um Cristo em formação, um conquistador no sinal da cruz.

E quando será isso? Quando o sentimento do Egoísmo aprisionou o espírito no corpo, perdemos a visão da alma e a morte se tornou nossa porção. Assim que superarmos esse sentimento de Egoísmo através do Altruísmo, assim que abandonarmos e esquecermos o eu e formos iluminados pelo Espírito Universal, teremos conquistado o grande inimigo. Então estaremos prontos para montar na cruz e subir, dali, para as esferas mais altas com aquele clamor glorioso de triunfo, Consummatum est, foi concretizado.

O Caminho é pelo Serviço. A Verdade é que, pelo Serviço, servimos a nós mesmos, porque somos todos um em Cristo. A Vida é a Vida do Pai, em Quem vivemos, nos movemos e temos o ser, e em Quem, portanto, não pode haver morte.

(Publicado na Revista Rays from the Rose Cross 08/1915 – traduzido pela Fraternidade Rosacruz – Campinas – SP – Brasil)

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O Poder Que Flui Através de Nós

O Poder Que Flui Através de Nós

Quando ligamos o ferro elétrico e ele não funciona, examinamos a resistência, o fio ou os fusíveis. Não desesperamos diante do ferro, exclamando: Ó eletricidade, por favor, desça ao meu ferro e faça-o funcionar.

Sabemos muito bem que embora o mundo todo esteja cheio daquela força misteriosa a que chamamos de eletricidade, somente aquela porção que flui ao encontro da resistência do ferro é que o faz funcionar.

O mesmo princípio se aplica à energia criativa de Deus. Todo o universo está cheio dela, mas apenas a porção que flui através de nosso ser realmente nos beneficia.

Muitas vezes tentamos fazer esse poder criador operar em nós por meio de preces e pedidos a Deus para que faça isto ou aquilo. E como Ele não faz nem uma coisa e nem outra, nós concluímos que não há valor na oração, uma vez que Deus age como entende, sem consultar aos nossos desejos. Em outras palavras, duvidamos da disposição ou da habilidade divina em realmente produzir em nossas vidas os resultados que desejamos. Não duvidamos de nossa própria habilidade em chegarmos à Sua Presença e enchermo-nos d’Ela, mas sim de Sua Disposição em chegar-se a nós e encher-nos d’Ele.

Deus está tanto dentro de nós como em nosso redor. Ele é a Fonte de toda a vida, o Criador do Universo com as inimagináveis profundidades interastrais. Mas Ele é também a vida que habita em nosso pequeno Ego. E, assim como todo o mundo cheio de eletricidade não iluminará uma casa a menos que a casa esteja preparada para receber eletricidade, assim a vida infinita e eterna de Deus não nos pode ajudar, a menos que estejamos preparados para receber aquela vida em nós mesmos. Somente a quantidade de Deus que pode caber em nós, a nosso proveito, operará.

“O Reino de Deus está dentro de vós”, disse Cristo Jesus. E a Luz Interna que em nós habita, o lugar secreto da Consciência do Altíssimo em nossos corações é que constituem o Reino de Deus em sua manifestação terrena. Aprender a viver no Reino dos Céus é aprender a acender a luz de dentro de nós.

Devemos aprender que Deus não é um soberano irracional e impulsivo, que quebra suas leis à vontade. Logo que aprendemos que Deus faz coisas por nosso intermédio e não para nós, o assunto se torna tão simples e impressivo como o nascer do Sol.

“Mas Deus é onipotente!”, dizem alguns. “Ele pode fazer o que quer!” Certamente, mas Ele criou um mundo que se rege por leis e Ele não gosta de quebrar essas leis.

Poucos de nós, no hemisfério setentrional, pediriam a Deus a produção de rosas viçosas no ar livre de janeiro. Mas Ele pode fazer isso mesmo se adaptarmos as nossas estufas às condições necessárias para o crescimento da rosa. Também Ele pode produzir viçosas respostas à oração, se nós adaptarmos os tabernáculos terrestres de nossa habitação às Suas Leis de Amor e Fé, de forma que se estabeleçam os pré-requisitos da oração respondida.

Algum dia o mundo virá a entender esse fato da mesma forma que hoje entende o milagre das ondas sonoras, pois, os milagres de uma geração são os lugares comuns da geração seguinte.

Algum dia nós entenderemos os princípios científicos que subjazem aos poderes milagrosos de Deus, e aceitaremos Sua intervenção com tanta naturalidade como aceitamos o rádio.

O Dr. Alexis Carrell, médico e cientista, declara que já viu um câncer desaparecer diante do comando da fé. Isso não foi quebra das leis da Natureza. Foi a superimposição duma lei mais alta da vida sobre outra mais baixa. Foi, portanto, o cumprimento das leis da Natureza. Se se pensa sobre o milagre não como a quebra das leis de Deus, mas como o uso que Ele mesma faz de Suas leis, então o mundo está cheio de milagres.

Já vi pneumonias destruídas em quinze minutos, enquanto a temperatura do paciente caía de 103 ºF ao normal e a respiração exsudava de seu corpo encharcando os lençóis. Isso era quase tão grande milagre como o milagre da geada a desenhar cambiante.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de janeiro/1970)

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Uma Delineação do Caminho Iniciático: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida – ninguém vem ao Pai senão por Mim”

Uma Delineação do Caminho Iniciático: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida – ninguém vem ao Pai senão por Mim”

Essa frase de Cristo, encontrada no 14º Capítulo do Evangelho de São João, é algo transcendentalmente profundo e significativo a ponto de merecer zelosos estudos e reverente meditação por parte do estudante esotérico. É uma delineação do caminho Iniciático.

Em virtude de São João ter conhecimentos atinentes ao Período Júpiter e pelo fato de ter sido o “discípulo amado” de Cristo, podemos imaginar a grandiosidade de seus ensinamentos. A interpretação dos ensinamentos de Cristo, tais como os apresentados por São João, à luz do ocultismo, distancia-se muito do significado pretendido pelos cristãos populares. Após essa ligeira apreciação, vamos considerar essa frase pelo seu revestimento eminentemente transcendental.

Surge imediatamente dentro da unidade da frase uma trindade. A unidade é o “EU SOU”, desdobrando-se na trindade “O Caminho, a Verdade e a Vida”. Sabemos que o “EU SOU” é o Cristo. Os três aspectos acham-se na trindade.

O que é o “Caminho”? Sem dúvida é o “EU SOU”, o Espírito Perfeito e Absoluto em quem não há trevas, como afirma São João na Primeira Epístola, ao expressar a verdade de que DEUS É LUZ. Também encontramos referência análoga nos primeiros versículos do Evangelho já mencionado, onde lemos algo a respeito do Verbo (O LOGOS), de quem foi feito tudo o que existe. O “EU SOU” é o Espírito Absoluto pelo qual o aspirante deve encontrar o caminho. Por meio do nosso Espírito caminhamos no Espírito de Cristo.

A segunda pergunta é esta: o que é a Verdade do “EU SOU”? Ele intentava dizer aos seres humanos que ninguém conhece a Verdade Absoluta. Ele tinha em si a Verdade, pois achou-se no “ABSOLUTO”. Temos então de encontrar o ABSOLUTO que sempre existiu em Cristo desde o princípio das coisas. O ABSOLUTO apresenta-se pela existência da ETERNIDADE. Essa é a Verdade de que Cristo fala, da existência desde a eternidade do passado para a eternidade do futuro. Assim, a Verdade é a eternidade.

Chegamos assim ao terceiro aspecto da frase: eu sou a vida. Coincide novamente com os primeiros versículos do primeiro Capítulo: e a Luz era a vida dos homens. Cristo é a vida, o terceiro aspecto do “EU SOU” no espírito infinito do Poder, Sabedoria e Criação. A Criação coincide com a vitalidade manifesta, objetiva em todas as criações; por isso o Caminho, a Verdade e a Vida manifestam-se objetivamente. O universo é vitalizado por intermédio de Cristo. “NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS E NINGUÉM VEM AO PAI SENÃO POR MIM”.

Resumindo: o “EU SOU” é o “ESPÍRITO ABSOLUTO”. Seu primeiro aspecto é o Caminho, que é o Seu Espírito. Seu segundo aspecto é a Verdade, que é a Eternidade. Seu terceiro aspecto é a Vida, que é a Sua manifestação objetiva.

Como os três aspectos divinos encontram-se na Centelha Divina do ser humano, deduz-se que ao seu devido tempo o candidato reconheça a união dos aspectos em si mesmo, o que o leva à união com o Cristo e, consequentemente, com o Pai.

(de Francisco F. Preuss – Publicado na Revista Serviço Rosacruz de outubro de 1970)

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Milagres?

Milagres?

São Pedro não ressuscitou Dorcas, assim como O Cristo não ressuscitou Lázaro nem ninguém, o que aliás, Ele não pretendeu ter feito. Ele disse: “Lázaro não está morto: dorme”.

Para que essa asserção possa ser bem compreendida devemos explicar o que se passa por ocasião da morte e em que essa difere da letargia, pois as pessoas acima mencionadas estavam nesse estado na ocasião em que os supostos milagres foram executados.

Durante a vigília, enquanto o Ego age conscientemente no Mundo Físico seus diversos veículos estão concêntricos: ocupam o mesmo espaço. Contudo, à noite, durante o sono, ocorre uma separação: o Ego, revestido do Corpo de Desejos e da Mente, desliga-se dos Corpos Denso e Vital que ficam sobre o leito. Os veículos superiores flutuam próximo e acima deles. Estão ligados aos outros dois corpos pelo Cordão Prateado, um fio estreito e brilhante com três segmentos, onde dois deles tem a forma de dois seis invertidos e do qual uma das extremidades está ligada ao Átomo-semente no coração e a outra no Átomo-semente do Corpo de Desejos.

No momento da morte, esse fio desliga-se do coração. As forças do Átomo-semente passam pelo nervo pneumogástrico, pelo terceiro ventrículo do cérebro, através da sutura entre os ossos parietal e occipital, subindo aos veículos superiores que estão fora, por intermédio do Cordão Prateado. O Corpo Vital também se separa do Corpo Denso com essa ruptura (aliás é essa à única ocasião em que se dá essa separação) e junta-se aos veículos superiores que estão flutuando sobre o cadáver. Aí o Corpo Vital permanece cerca de três dias e meio. Depois desse tempo, os veículos superiores se desligam do Corpo Vital que começa a se desintegrar simultaneamente com o Corpo Denso, nos casos comuns.

No momento dessa última separação, o Cordão Prateado rompe-se pelo meio, no lugar da união dos dois seis, e o Ego encontra-se livre de qualquer contato com o mundo material (a Região Química do Mundo Físico).

Durante o sono, o Ego também se retira do Corpo Denso, mas o Corpo Vital continua interpenetrando esse último, e o Cordão Prateado permanece inteiro.

Acontece, às vezes, que o Ego não torna a entrar no corpo pela manhã, para despertá-lo como de hábito, porém fica fora durante algum tempo que varia. Nesse caso, porém, o Cordão Prateado não se rompeu. Quando ocorre essa ruptura, não será possível nenhuma restauração. O Cristo e os Apóstolos eram Clarividentes: sabiam que não tinha havido ruptura nos casos mencionados, e daí a afirmação: “Ele não está morto, dorme”. Eles possuíam o poder de obrigar o Ego a entrar no seu corpo e de restaurar as condições normais.

Assim foram feitos os supostos milagres.

(Publicado na Revista ‘Serviço Rosacruz’ – jul/ago/88)

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Sabedoria Ocidental: a tomada de juramentos

Sabedoria Ocidental: a tomada de juramentos

 “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor’. Eu vos digo, porém, que de maneira nenhuma jureis: nem pelo Céu, porque é o trono de Deus; nem pela Terra, porque é o escabelo de Seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei; nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes fazer um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o teu falar: ‘Sim, sim. Não, não’. Porque o que passa disso é de procedência maligna”.

Mt 5:33-37

O “tempo antigo ou passado” refere-se ao regime jeovístico, predominante antes de Cristo tornar-se o Regente da Terra. Era a época de Jeová. Os indivíduos viviam debaixo da Lei, debaixo do preceito do “olho por olho, dente por dente”. Era ensinado aos judeus que um juramento não feito em nome de Deus não era válido (vide Mt 23:16- 20).

Qualquer um que fizesse um juramento apelava a Deus como testemunha para julgar a veracidade de suas palavras e, portanto, ficando sob uma obrigação “ante o Senhor”. Fazer isso sem sinceridade era “abjurar” ou tomar o nome do Senhor em vão. Admite-se a ocorrência de tal fato durante a onda de egoísmo que floresceu sob o regime de Jeová, a despeito da injunção contrária. Daí tornar-se meio de fraude e de eivar a nossa linguagem com imprecações.

Cristo-Jesus nos deu um ensinamento superior: “Não jurar”. A palavra do verdadeiro cristão é suficientemente verdadeira para dispensar o uso do juramento. Daí a admoestação: “Seja o teu falar: ‘Sim, sim. Não, não’”. Eis porque algumas seitas cristãs encaram com repulsa a aceitação de juramento.

A interligação de ideias nos leva mais além. O tema em pauta é juramento. Juramento sugere palavra. E, para penetrarmos com maior profundidade no assunto, devemos compreender o significado completo do poder da palavra. À luz da filosofia oculta, a palavra falada pelo ser humano manifesta-se como um microcosmos da palavra macrocósmica (que trouxe à existência o nosso mundo). Daí a natureza sagrada do som articulado. Max Heindel expressou-se da seguinte maneira com respeito à questão: “O uso das palavras para exprimir o pensamento é o mais alto privilégio humano, exercitado somente por uma entidade racional e pensante como o ser humano”. Um dos objetivos a serem colimados pelo estudante ocultista é aprender a falar a “palavra de vida e poder”, o que todos nós concretizaremos em tempos futuros.

A Filosofia Rosacruz nos ensina também que, no Período de Júpiter, um elemento de natureza espiritual será adicionado à linguagem, afastando toda e qualquer possibilidade de equívocos. Quando um indivíduo dos tempos jupiterianos disser “vermelho” ou pronunciar o nome de um objeto, uma reprodução clara e exata da tonalidade particular do vermelho a respeito do qual esteja pensando ou do objeto referido apresentar-se-á à sua visão espiritual interna, tornando-se também visível para aquele que o ouve.

O novo cálice, mencionado como um ideal da época futura, é um órgão etérico construído dentro da cabeça e da laringe pela força sexual não empregada de forma egoísta. Tal órgão, à vista espiritual, aparecerá como o caule de uma flor ascendendo da parte inferior do tronco. Esse cálice ou semente do cálice é realmente o órgão criador capaz de emitir a palavra de vida e poder. Esse órgão, estamos atualmente construindo por meio do serviço amoroso e desinteressado prestado aos demais, conforme preconiza o ritual Rosacruz.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de setembro/1970)

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A Língua: tenha cuidado com ela

A Língua: tenha cuidado com ela

Lendo a tua monumental Epístola, de São Tiago, desejei muito ver-te de perto, conhecer-te pessoalmente, abraçar-te, dar-te meus parabéns por tão grandioso quão útil trabalho que tens realizado neste mundo, mediante a tua magnificente Carta. Certo de que nosso encontro ainda demora muito, peço-te permissão para escrever alguma coisa sobre a língua, baseado no teu ensino.

— A língua “é um pequeno membro”, não é, São Tiago? É sim, eu o sei. Pois bem; sobre ela muito já disseram grandes pensadores, escreveram eminentes escritores e poderão falar e escrever os que, sabendo manejar bem a pena, arranhem também o seu idioma.

Desejando escrever algumas linhas sobre esse “pequeno membro”, não lhe desconhecendo o poder de inflamar (“COM O FOGO DAS PAIXÕES”) “a roda do nosso viver”, faço-o à proteção dos bombeiros sagrados, entre os quais estás, na certeza de que não serei, afinal, consumido pelas chamas. Que achas?

— Muito bem. — Vou começar. Faze de conta que sou teu aluno e vou fazer uma prova. Corrige os erros.

  1. A LÍNGUA É VAIDOSA. Lede, amigos, o que diz o Apóstolo prático: “Assim também a língua é um pequeno membro, mas GLORIA-SE de grandes coisas” (Tg 3:5). É.… a língua não é simplesmente vaidosa: é vaidade. O grifo é meu.

Balanceando a vida da língua, estou em perigo de ser açoitado por ela mais uma vez, não o ignoro. Portanto, para continuar este pesado trabalho busco, uma vez que a língua é fogo dos grandes vultos, a luz que sobre a tela da sabedoria projetam, a fim de, aquecido por ela, poder neutralizar a sua ação ígnea e dizer sem medo de errar: João Crisóstomo — escreve Manuel Bernardes — “assenta que não tem o demônio órgão ou instrumento mais à feição e propósito do seu ofício que a nossa língua”. Todo cuidado com a língua é pouco.

  1. A LÍNGUA “É UM FOGO”. A ação do fogo é tremenda, é destruidora; quem a poderá suportar? É assim a língua. Ela também consome, destrói…

“Nada menos convém ao homem que trata de servir a Deus e caminha para a perfeição”, — sentencia Lourenço Justiniano — “como a língua desenfreada e solta das ataduras da moderação, porque ela lhe destrói e mata o recolhimento e união de espírito”.

  1. A LÍNGUA É INÍQUA. E não se diga que é exagerada esta declaração. São Tiago vai mais adiante. Para ele, a língua não é apenas uma [coisa] iníqua, senão “um mundo de iniquidade”. Haverá nesta sentença de São Tiago uma hipérbole? Contudo, tirando-se a hipérbole talvez ainda fique, pelo menos, um quarto de mundo de iniquidade! É pouco?
  2. A LÍNGUA É CONTAGIOSA. Enquanto eu estiver imprimindo esta fotografia da língua, permite-me, São Tiago, [que] continue sempre atrás de ti; tenho muito medo de língua. Acabei de escrever que a língua seja contagiosa. Se, por este motivo, perseguirem-me, direi que aprendi contigo, pois tu disseras que ela “contamina todo o corpo”. E vai nisto notável diferença. Uma coisa é ser contagiosa, outra bem diferente é contaminar.

Se me perguntardes, caros leitores, como é que a língua “contamina todo o corpo”, dir-vos-ei: levando-o a pecar. Sobre o mesmo assunto, vede o que diz o filho de Mônica — Agostinho —, o bispo de Hipona: “Deve vigiar-se o homem de duas partezinhas que na sua carne nunca envelhecem e todas as mais levam consigo a rastros PARA O PECADO. São esses o coração e a LÍNGUA. O coração é incansável engenheiro de novos pensamentos: e a LÍNGUA, o oficial expedito para copiar as invenções do coração”. São meus os grifos.

  1. A LÍNGUA É UMA FERA INDOMÁVEL. — Sei que não estou poupando o couro da língua, irmão Tiago. As línguas vão dizer que as minhas palavras são muito duras. Para defender-me, se for necessário, posso citar IPSIS LITERIS os versículos 7 e 8 do capítulo terceiro da tua Epístola, que tenho em mãos? — Pode, sim. — Pois bem. Vou continuar.

De que a língua é realmente o que acabo de escrever ninguém pode duvidar. São Tiago é muito claro sobre o assunto. Lede aqui suas palavras: “Porque todas as espécies de alimárias, de aves, de répteis e de outros animais se domam; têm sido domados pela natureza humana; porém a língua, nenhum homem a pode domar…” (3:7 e 8, primeira parte).

Para que não digais que eu e o irmão Tiago somos demasiadamente ríspidos no que escrevemos sobre a língua, deixo-vos aqui algumas palavras de Pedro Damião, que deveis considerar: “Note-se de caminho que, se a língua é mais indomável que as aves, feras e serpentes, é porque em si contém essencialmente, das aves, a ligeireza; das feras, a braveza e das serpentes, a peçonha e malícia”.

“Como são despolidas estas palavras de Pedro Damião! Como são duras… BRAVEZA das feras, PEÇONHA e MALÍCIA das serpentes…”, dirá alguém, sem dúvida, caros leitores. O nosso Damião escreveu a pura verdade; a verdade é dura, mas VERITAS SUPER OMNIA [A verdade está acima de tudo]. Antes que escrevesse Pedro Damião, escrevera São Tiago: “… a língua… (ESTÁ) cheia de veneno mortífero” (3:8). Que diferença há entre “peçonha de serpente” e “veneno mortífero”? Tanto faz dizer que a língua tem PEÇONHA de serpente como dizer que está cheia de “veneno mortífero”. Já se vê logo que nenhum dos dois escritores foi desabrido.

De que a língua merece, com justiça, o que se tem dito dela não resta dúvida. Deve ter-se, portanto, todo cuidado com ela.

Para os grandes males da língua, diletos amigos, deixo-vos aqui uma cópia da receita do grande proverbialista dos tempos antigos: “É ao homem que pertence preparar a sua alma e ao Senhor, o governar-lhe a língua” (Pb 16:1). Se alguém, pois, tem a língua desenfreada, peça a Deus que a governe e não se esqueça de fazer a sua parte, segundo o ensino de São Pedro: “Porque o que quer amar a vida e ver dias felizes, refreie sua língua do mal e os seus lábios não profiram enganos” (IPe 3:10).

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz de fevereiro/1969)