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A Sobriedade quanto a Gula: o Flagelo do Corpo Denso

A Sobriedade quanto a Gula: o Flagelo do Corpo Denso

A gula é o flagelo do corpo. Tudo o que agrade demasiado ao paladar e que excita as reações nervosas em demasia, prejudica o jogo da razão, incita à cólera e impele à luxúria. A intemperança produz a doença, a loucura ou o crime. A superalimentação envenena o sangue, esgota as vísceras e destrói a saúde. A gordura embota o corpo e embrutece o espírito. A imensa maioria das doenças humanas é criada pelos erros e excessos de alimentação. A saúde duradora não é o apanágio, senão daqueles que põem em prática certos renunciamentos alimentares (leia-se "Cuisine Simple" de Paul Carton, tradução portuguesa por Fernando Sá, Alcobaça - 1938).

Assim convém não só renunciarmos ao abuso de alimentação, mas abstermo-nos de produtos vulnerantes (álcool, fumo, pimentas, vinagre, molhos picantes, cafeína em excesso, etc.). Por outro lado, se queremos nos libertar do sofrimento, não devemos viver do sofrimento e do assassínio infligidos a outros seres animais, nem incorporarmos em nós as impurezas e os baixos instintos de que estão cheios os seus tecidos cadavéricos. A anatomia comparada ensina-nos que o ser humano possui a estrutura orgânica de um frugívoro. A experiência diária estabelece que os doentes se curem bem melhor abstendo-se de alimentos impuros e, que muitas pessoas vivem perfeitamente sem consumir carne. É, pois, evidente que, pelo menos, a grande restrição da carne é medida salutar.

Não é mau lembrar, a tal propósito, que o maior número dos religiosos e dos santos praticaram a abstinência de carne animal e que, em nossos dias, numerosas são as ordens religiosas que seguem as mesmas regras de saúde e de santidade, não permitindo ao corpo, senão o que é puro e necessário. Não fazem mais do que conformar-se com a lei, inscrita no Gênesis, que regula com uma admiravelmente instrutiva o gênero de alimentação destinada à humanidade pelo Criador: "E disse Deus: 'Eis que tenho dado toda a erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto de árvore, que dá semente; ser-vos-á para alimento'" (Gn 1; 29).

Quanto à força e a sabedoria que se obtém seguindo a abstinência de carne animal (inclusive peixe) e álcool, as Escrituras traçaram-nos o seguinte quadro: "Depois, o rei ordenou a Asfenez, chefe dos seus eunucos, que escolhesse dentre os filhos de Israel alguns moços, quer de sangue real, quer de famílias nobres, nos quais não devia haver defeito algum: deviam ter boa aparência, ser instruídos em toda sabedoria, conhecedores da ciência e subtis no entendimento, tendo também o vigor físico necessário para servirem no palácio do rei. Asfenez lhes ensinaria a escrita e a língua dos caldeus.

O rei lhes destinava uma parte diária das iguarias reais e do vinho de sua mesa. Eles seriam educados durante três anos, depois dos quais deveriam tomar lugar no serviço do rei. Entre eles encontravam-se Daniel, Ananias, Misael e Azarias, que eram judeus. O chefe dos eunucos deu-lhes outros nomes: Daniel se chamaria Baltassar; Ananias, Sidrac; Misael, Misac; e Azarias, Abdênago. Ora, Daniel havia resolvido em seu coração não se contaminar com as iguarias do rei nem com o vinho de sua mesa. Por isso pediu ao chefe dos eunucos para deles se abster.

E Deus permitiu que Daniel alcançasse a benevolência e a simpatia do chefe dos eunucos. Este, porém, disse a Daniel: "Eu temo o rei, meu senhor, que determinou vossa comida e vossa bebida. Se ele vier a notar vossas fisionomias mais abatidas que as dos outros jovens de vossa idade, poreis em perigo minha cabeça diante do rei". Então Daniel disse ao despenseiro a quem o chefe dos eunucos havia confiado Daniel, Ananias, Misael e Azarias: "Por favor, põe os teus servos à prova durante dez dias: sejam-nos dados apenas legumes para comermos e água para bebermos. Comparem-se depois, na tua presença, o nosso aspecto e o dos jovens que comem das iguarias do rei: conforme o que notares, assim procederás com os teus servos". Ele atendeu-os nesse pedido e os submeteu à prova durante dez dias.

Depois dos dez dias, o aspecto deles parecia melhor e eles se apresentavam mais bem nutridos que todos os jovens que se alimentavam das iguarias do rei. Desde então, o despenseiro passou a retirar os alimentos e o vinho que lhes eram destinados, fornecendo-lhes só legumes a esses quatro jovens Deus concedeu a ciência e a instrução nos domínios da literatura e da sabedoria.

Além disso, Daniel era capaz de interpretar qualquer sonho ou visão. Passado o tempo fixado pelo rei para a sua apresentação, o chefe dos eunucos os introduziu à presença de Nabucodonosor, o qual se entreteve com eles. Entre todos os jovens não houve outros que se comparassem a Daniel, Ananias, Misael e Azarias. Estes, pois, entraram para o serviço do rei. Ora, em todas as questões de sabedoria e discernimento sobre as quais os consultava, o rei os achava dez vezes superiores a todos os magos e adivinhos do seu reino inteiro" (Dn 1; 3-20).
No que diz respeito ao uso do álcool que depressa degenera em perigo, é bom lembrar estes conselhos da Bíblia: "Para quem os ais? Para quem os lamentos? Para quem as disputas? Para quem as queixas? Para quem os golpes sem motivo? Para quem os olhos turvados? Para aqueles que entardecem sobre o vinho e vão à procura de bebidas misturadas. Não olhes o vinho: como é vermelho, como brilha no copo, como escorre suave! No fim ele morde como a cobra e fere como a víbora" (Pb 23; 29-32).

Por outro lado, as virtudes purificadoras, preservadoras e curadoras do jejum são bem conhecidas em medicina. Quando aos poderes espirituais que ele pode conferir, o próprio Cristo os ensinou a seus apóstolos, depois do revés que eles tiveram com um possesso do demônio: "Ao entrar em casa, perguntaram-lhe os seus discípulos, a sós: 'Por que não pudemos expulsá-lo? ' Ele respondeu: 'Essa espécie não pode sair a não ser com oração'" (Mc 9; 28-29).

Como os seres humanos encontrariam, pois, grandes benefícios corporais e melhor desenvolvimento espiritual, se quisessem renunciar aos alimentos impuros e superexcitantes e se aplicassem, com clarividência, às regras de sobriedade e de abstinência que preconiza a doutrina médica do verdadeiro naturismo hipocrático!

Está ainda escrito no Evangelho: "Cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida, e não se abata repentinamente sobre vós aquele Dia, como um laço; pois ele sobrevirá a todos os habitantes da face de toda a terra. Ficai acordados, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem" (Lc 21; 34-36).

E lê-se nas Epístolas: "Sede sóbrios e vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda ao redor de vós, como um leão que ruge, buscando à quem possa tragar" (IPd 5; 8).

(Revista Serviço Rosacruz – 03/65 – Fraternidade Rosacruz – SP)