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O Jardim na Primavera

O JARDIM NA PRIMAVERA

O jardim estava agradável, naquela ensolarada manhã de primavera quando Florence, mal terminado o café, correu a ver as sementes que plantava. Precisava saber se tinham brotado durante a noite. As sementes de ervilha que foram plantadas quando a neve ainda cobria o chão, essas já haviam brotado, erguendo já seus ramos a boa altura. Os brotos de amor-perfeito também já deviam estar despontando por esse tempo.

Florence procurou-as com ansiedade. Sim, lá estavam! Cada tenra haste projetava duas pequenas folhas, e algumas apenas se divisavam surgindo à superfície.

Quão maravilhoso era tudo aquilo! Florence dava qualquer coisa para poder ver o que se passava debaixo da terra, pois muitos milagres deviam acontecer ali para que essas sementes se transformassem em trepadeiras, arbustos e flores. Debaixo do solo, continua e silenciosamente, as duras sementes tornavam-se macias e se abriam, permitindo nos pequeninos filamentos vicejantes projetarem-se para a luz.

Tudo no jardim estava repleto de vida, uma formosa vida que se mostrava a si mesma na mais variada vegetação que brotava da terra. A grama era verde-amarelada, e as árvores, arbustos, plantinhas e trepadeiras projetavam milhares de delicados apêndices da mesma cor. Olhando mais próximo, Florence podia ver que tudo estava sendo preparado para o maravilhoso florescer que se aproximava naquela mesma primavera. As cerejeiras carregadas de botões, parte rosa, parte brancos, aguardavam o momento para abrir suas flores e, a seguir, exibir seus frutos. As macieiras também já mostravam seus botões. E os pés de morangos, de groselhas e de framboesas igualmente se preparavam para a bela estação das flores, e para a colheita de frutos que se seguiria.

Diariamente Florence pensava sobre as maravilhas da primavera, e ansiava pelos dias em que esses preparativos da Natureza alcançavam seu ponto culminante. Muitas vezes ela voltava a olhar as plantas, a ver se haviam crescido mais um pouco, e de todas as vezes não conseguia notar grandes mudanças.

"Mesmo assim suponho que elas crescem o tempo todo" disse de si para si - "e até pela noite a dentro. Vê-las-ei novamente amanhã de manhã, e talvez descubra que elas tenham crescido um pouco".

Florence adormeceu naquela noite com esses pensamentos. Despertou a certa altura vendo claridade da lua infiltrando-se pela janela.

"Está tão claro" – pensou. “Acho que é bom ir até ao jardim ver se já cresceram um pouquinho". Enfiou-se, pois num roupão de banho e calcou os chinelos de feltro. Nunca antes havia saído ao jardim a estas horas, mas agora, de algum modo, ela se sentia diferente. Sentia-se tão cheia de vida que desejava fazer algo.

O jardim estava lindo, com a Lua ao poente e uma tênue luminosidade ao nascente, sugerindo à Florence que a aurora despontava. Primeiro de tudo ela correu a ver os brotos de amor-perfeito. À luz do luar mal podia distinguir aqueles dos outros que havia examinado na tarde anterior; mas percebeu que haviam crescido um pouquinho durante à noite.

Ao se erguer para regressar, porém, a menina ouviu uma vozinha ao seu lado. Olhou, e então percebeu ali uma estranha criaturinha cor verde-claro, usando um pequenino capuz verde que mais parecia uma pétala sobre os seus olhinhos oblíquos e orelhinhas pontudas. Tinha um narizinho arrebitado, e seus lábios sorriam em afável cumprimento. Seu corpo era pequeno, mas maciço e seus braços e pernas muito miúdos eram cobertos por uma película verde muito colante, que mais parecia pétalas de flores.

"Oh" – exclamou Florence. “Você deve ser um elfo! Sempre quis ver um. Tenho visto desenhos de você e de seus amigos em meus livros”.

"Sim" – gargalhou o elfo. “As pessoas nos desenham e escrevem estórias e versos sobre nós, mas na realidade essas pessoas não acreditam que existamos. Para elas somos apenas fantasias”.

"Eu acredito em você!” – afirmou a menina - "Sempre acreditei em sua existência e sempre esperei vê-lo um dia".

"Creio no que diz" – respondeu o elfo - "Está é a razão porque me tornei visível a você".

"Agradeço-lhe por isso".

"Olhe, as crianças creem em nós, e isso permite que elas nos vejam" – explicou o elfo - "mas não há necessidade de aparecermos aos adultos que não acreditam em nós, porque, assim, ainda que eles nos vissem, simplesmente não acreditariam em seus olhos, e diriam isso as crianças, e ficaríamos assim impedidos de aparecer a essas mesmas crianças, porque elas nos negariam igualmente”.

"Creio, também, em fadas e duendes". – disse Florence.

"E em gnomos? Já viu algum?"

"Não, nunca" – ela admitiu.

"Gostaria de vê-los?"

"Oh! sim, gostaria imensamente! Por favor, mostre-me ao menos um".

"Os gnomos vivem debaixo da terra, e lá permanecem a maior parte do tempo. Provavelmente esta é a razão porque você ainda não viu nenhum".

"Como os mineradores?"

"Exatamente. Na verdade eles são os mineiros do nosso reino". – esclareceu o elfo. "Eles trabalham com os minerais: o carvão, a terra e as pedras preciosas”.

“Posso levá-la a vê-los, mas primeiro você precisa crer que a terra em que você pisa é, como se fosse, um nevoeiro, ou uma espécie de fumaça transparente. Você está, agora, em seu corpo de sonhos, e pode penetrar na terra tão facilmente como se penetrasse num nevoeiro. Pense apenas que a terra é uma enorme nuvem. Olhe para baixo, além do chão, e aí poderá ver tudo o que está acontecendo. Procure as sementes que você plantou, Onde estão?"

"Aqui!" – gritou Florence entusiasmada, voltando-se para o lado em que uma leira de flores havia sido plantada não fazia muito.

"Olhe bem ali em baixo" disse o eIfo apontando em frente - "e você verá um gnomo ocupado, abrindo sementes para que elas possam brotar, e afofando a terra em volta a fim de que o brotinho espiralado possa sair à superfície. A semente vai desaparecer, mas a plantinha sairá à luz. Tudo isso seria impossível de acontecer sem a colaboração dos gnomos”.

Florence olhava o gnomo atentamente. Ele era, de fato, uma criaturinha extraordinária, mais do que engraçada, parecendo-se com um velhinho de longas barbas brancas. Vestia-se de marrom – marrom cor da terra – e usava um pequeno e pontudo capuz, também marrom. Seus dois olhinhos verdes não paravam em suas órbitas, e seus dedinhos igualmente marrons manuseavam as sementes com grande habilidade, virando-as em diferentes posições.

"Para que isso?" – perguntou Florence.

"A maioria das pessoas não sabe plantar: geralmente se esquece de deixar livre (ou fofa) a terra no lugar onde a plantinha vai brotar" – explicou o elfo. “Os gnomos precisam, então, arrumar as sementes na posição correta, assim como algumas vezes fazemos com os ramos das trepadeiras que tomam a direção errada”.

O gnomo mantinha-se ocupado em seu trabalho. Dentre seus ágeis dedinhos as sementes começavam a se abrir e os brotos a despontar rumo à superfície do solo.

"Olhe aquelas palmas-de-santa-rita" – disse o elfo cruzando o caminho para o outro lado do jardim - "Foram plantadas por você no último outono. Veja-as agora!"

Outros gnomos ocupavam-se naquele lado com outras sementes e plantas, preparando-as para o verão, tratando-lhes os brotos ou lhes desimpedindo a saída.

"As pessoas pensam que fazem tudo quando lançam uma semente ao solo, e que a Mãe Natureza apenas faz "o resto", que creem ser uma pequena parte. Na verdade é a Natureza que faz quase tudo. E como? Servindo-se de milhões de auxiliares. Olhe só embaixo daquela gleba e veja quantos gnomos são necessários para se fazer um pequeno gramado”.

Florence olhou para baixo e viu muitos gnomos: um exército deles, todos trabalhando com a terra e com as raízes. E trabalhavam todos juntos, no mesmo ritmo, como se fossem um só operário.

"E a isso que chamam equipe, no seu mundo" – observou o elfo.

"É como na escola!" – replicou Florence.

"Sim" – confirmou o elfo. “E tem, também, um professor, um chefe gnomo. Vamos agora naquela árvore ali. Mesmo quando uma árvore está crescida os gnomos precisam trabalhá-la constantemente, esticando suas raízes, ou alongando-as mais dentro da terra, a fim de que sugue dali mais e mais vida".

Quando haviam alcançado a enorme árvore, nos limites do jardim, Florence olhou para baixo e pode ver suas longas raízes e uma enorme quantidade de homenzinhos marrons, todos ocupados com as raízes e a terra, enquanto próximo a eles, mas na parte superior, uma multidão de elfos fazia a grama crescer.

"Eu nunca soube antes que as coisas foram feitas para crescer. Só sabia que cresciam". – observou Florence.

"Mas como poderia uma planta crescer – indagou o elfo – se alguém não lhe proporcionasse as condições apropriadas ou não lhe desse o necessário alimento? Os jardineiros não pensam nisso. Daqui a pouco as fadas estarão fazendo seu trabalho nos botões, de modo a desabrocharem dali flores e frutos. Por cores nas flores é um trabalho todo especial, e nesse trabalho as hábeis fadas são ajudadas pelos gnomos, também. Esse trabalho é uma verdadeira obra de arte como, por exemplo, pintar as pétalas dos amores-perfeitos ou das encantadoras linhas das orquídeas".

"Quão maravilhoso é tudo isso!" – exclamou Florence - "e como eu gostaria de poder ajudá-los!”.

"Você pode ajudá-los" – respondeu o elfo. "Todas as vezes que você irrigar as plantas estará ajudando. Você pode ajudá-los, também, amando-os. Não sabia que o amor faz tudo crescer melhor? Sim, tudo: as plantas, os animais e o ser humano. Mas há ainda outra maneira de você ajudá-los. As chuvas da semana passada levaram de enxurrada bastante terra do jardim. Você pode repor essa terra, pois para os pequeninos gnomos é muito difícil transportar material tão pesado".

"Será isso a primeira coisa que farei ao amanhecer" – prometeu Florence.

"Você e uma boa menina" – disse o elfo - "Agora desça comigo à lagoa e lhe mostrarei certos bebês d'água".

Juntos, os dois escorregaram até a lagoa, e ali, ao longo da margem, o elfo mostrou a Florence uma incontável quantidade de pequenos ovos que começavam a se partir. De dentro deles uma multidão de pequeninos seres escuros – que os seres humanos chamam girinos – saía para a luz. Ajudando- os a sair podia se ver algumas criaturinhas muito lindas, cor verde azuladas, que cintilavam na água como peixes, mais parecendo fadas sem asas. Algumas brincavam com as pequenas ondas, enquanto sua roupagem flutuava na corrente. Outros pequenos seres, estes aéreos, sopravam as criaturinhas de cima para baixo, fazendo borrifos e bolhas de ar.

"Que adoráveis!" – exclamou Florence - "Quem são?"

"As que estão na água chamam-se ondinas, e os que estão no ar chamam-se silfos. Estes fazem as brisas que refrescam os dias quentes".

Naquele momento o sol surgiu no horizonte, lançando luz e calor sobre o jardim e iluminando as árvores, os arbustos, as plantas e as trepadeiras. Tudo parecia tão cheio de vida que Florence não se conteve: "Oh! Nunca pensei antes que tudo isto tinha tanta vida! Exatamente como as pessoas!".

"De fato, tudo vive" – concordou o elfo - "Agora você precisa ir-se, mas recorde tudo isto quando voltar para o seu mundo".

"E você me levará outra noite a ver seu mundo outra vez?” – indagou Florence.

"Claro que sim" – respondeu o elfo. "E agora, adeus. Não se esqueça de irrigar o jardim, quando não chover, e de carregar terra para lá depois das enxurradas".

"Lembrarei isso" – prometeu Florence - "e obrigada por me ter mostrado todas essas coisas maravilhosas".

Ainda era cedo quando ela acordou. E pensava sobre a maravilhosa aventura quando sua mãe entrou, trazendo três coelhinhos brancos.

"Olhe só para isto, querida" – disse ela. "Chegaram esta noite".

"Oh! que lindos, mamãe!" exclamou Florence feliz, tomando os coelhinhos um a um e afagando-lhes as orelhas, E, então, revelou:

"Mamãe, um elfozinho levou-me a ver os gnomos, os outros elfos, as ondinas e os silfos todos trabalhando. Mas não me levou a ver uma coelheira. Suponho que ele reservou isso para uma surpresa, para esta surpresa! Que foi uma das melhores deste dia!".

(do Livro Histórias da Era Aquariana para as Crianças – Vol. I – Grace Evelyn Brown – Fraternidade Rosacruz)