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Cartas de Max Heindel: A Luta da Alma Aspirante

A Luta da Alma Aspirante

Chegam algumas vezes a esta sede, cartas desalentadoras procedentes de indivíduos acusados por sua consciência de não se sentirem capazes de viver conforme seus elevados ideais. Creem ser mais decente abandonar a Filosofia e viver como os que não fizeram profissão de fé alguma. Asseveram que, enquanto leem, estudam ou ouvem no templo passagens que os exortam a amar seus inimigos, a abençoá-los a despeito de suas maldições, ou a rogar por aqueles que abusam impiedosamente de si mesmos, estão de acordo, em alma e coração, com tais sentimentos, e dispostos a seguir e cumprir alegremente estes preceitos. Contudo, ao deparar com tais condições no mundo, não conseguem amoldar-se ao mandamento bíblico, considerando-se, por conseguinte, hipócritas.

Se o ser humano fosse um todo homogêneo, se o espírito, a alma e o corpo fossem UM, indivisível, tais indivíduos certamente seriam hipócritas. Mas o espírito, a alma e o corpo não formam um todo monolítico e isto nós descobrimos no primeiro dia em que pretendemos pisar o caminho superior. Neste fato encontra-se a solução do problema. Existem duas naturezas distintas em cada um de nós. Nos dias em que não alimentamos aspirações superiores, a natureza espiritual permanece adormecida e o eu pessoal mundano é o senhor indiscutível de nossas ações. A paz e a serenidade encontram-se, então, conosco. Tao logo, porém, desperta a natureza espiritual, a guerra começa. À medida que ganhamos em espiritualidade, a batalha se intensifica, até que com o tempo a personalidade sucumbe. Então, obtém-se uma paz que sobre passa todo o imaginável.

 

Sofremos, entretanto, por viver na condição de que se queixam alguns estudantes (a exemplo de São Paulo, Fausto, e todas as demais almas aspirantes): é fácil querer, mas não fazemos o bem que queremos e fazemos o mal que não deveríamos praticar. Este que escreve tem experimentado, e sente mais agudamente cada dia de sua vida, esta discrepância entre seus ensinamentos e suas próprias ações. Uma parte de seu ser aspira com um ardor quase doloroso em sua intensidade, a todas as coisas mais nobres e elevadas. Por outro lado, uma forte personalidade, excessivamente difícil de dominar, lhe constitui um manancial de constante pesar. Mas crê, que não pretendendo passar por "santo", admitindo seus defeitos com toda honestidade, sofrendo por causa deles e usando a palavra "nós" em todas as suas exortações, nada tem defraudado e não é um hipócrita. Tudo quanta digo, aplico a mim mesmo, primeiramente, e de modo particular. E ainda que sem êxito, esforço-me em seguir os ensinamentos rosacruzes. Acreditamos, pois, que este esclarecimento satisfará a cada um de nós, que se sinta perturbado à semelhança dos amigos que inspiraram esta carta.

Além disso, que mais podemos fazer a não ser prosseguir adiante?

Uma vez despertada a natureza superior, não se pode silencia-la permanentemente sem correr o risco de sofrer a dor provocada pelo remorso, se o esforço é abandonado. Mais de uma vez temos observado e chamado a atenção sobre a maneira como um marinheiro conduz seu navio através da imensidão do oceano, guiando-se por uma estrela, nunca chegando a alcançá-la, mas não obstante, ela o conduz com segurança ao porto desejado.

Analogamente, se é certo que nossos ideais são tão elevados, a ponto de parecer-nos impossível alcançá-los nesta vida, lembremo-nos que dispomos de tempo ilimitado. E o que não pudermos realizar hoje, fá-lo-emos amanhã. Sigamos o exemplo de São Paulo, por uma paciente persistência em fazer o bem, continuemos perseguindo a glória espiritual, a honra e a imortalidade.

(Publicado na Revista Serviço Rosacruz em 07/76)