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Perguntas e Respostas

Consideram que os mitos antigos têm valor real ou são, em grande parte, fantasias geradas pela imaginação?

Pergunta: Consideram que os mitos antigos têm valor real ou são, em grande parte, fantasias geradas pela imaginação?

Resposta: Os mitos encerram profundas verdades ocultas. O antagonismo entre a luz e as trevas é descrito em inúmeros mitos como sendo bastante semelhantes em suas principais características, embora as circunstâncias variem de acordo com o estágio evolucionário dos povos onde são encontrados. Eles geralmente parecem fantásticos à mente normal, porque a imagem traçada é altamente simbólica e, por conseguinte, fora de sintonia em relação às realidades concretas do mundo material. Incorporadas nestas lendas estão grandes verdades que aparecem quando são despojadas de sua camada de materialismo.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que o antagonismo entre a luz e as trevas, existentes aqui no mundo físico, é apenas a manifestação de uma luta similar travada também nos reinos moral, mental e espiritual. Esta é uma verdade fundamental, e todo aquele que conhece a verdade deve saber que o mundo concreto, com todas as coisas que julgamos serem reais, sólidas e duradouras, é apenas uma evanescente manifestação criada pelo pensamento divino, e que reverterá ao pó dentro de alguns milhões de anos antes que outros mundos, que supomos serem tão irreais e inatingíveis, também se dissolvam, então, mais uma vez, retornaremos ao seio do Pai para repousar até a aurora de um outro e maior Dia Cósmico.

É particularmente por ocasião do Natal, quando a luz é mais fraca e as noites mais longas (Hemisfério Norte), que a humanidade volta a sua atenção para o Sol Meridional, e aguarda numa atitude de expectativa pelo momento em que Ele recomeçará sua jornada em direção ao norte, trazendo de volta a luz e a vida para o nosso hemisfério gelado. Vemos na Bíblia, como Sansão, o Sol, tornava-se cada vez mais forte à medida que seus raios se tornavam mais longos; como os poderes das trevas, os Filisteus, descobriram o segredo da sua força e lhe cortaram os cabelos, ou raios, privando-o de sua força; como privaram-no de sua luz lhe vazando os olhos e, finalmente, como o mataram no templo, no Solstício de Dezembro.

Os anglo-saxões falam da vitória do Rei George sobre o dragão; os Teutões recordam como Beowolf matou o dragão que expele o fogo pela boca e como Siegfried venceu o dragão Fafner. Entre os gregos encontramos Apolo vitorioso sobre a serpente Piton e Hércules sobre o dragão das Hespérides. A maioria dos mitos conta apenas a vitória do Sol recém-nascido, mas há outros que, como na história de Sansão acima citada e de Hiram Abiff da lenda Maçônica, contam também como o Sol do ano velho era vencido após ter completado seu círculo, estando preparado para dar nascimento a um novo Sol, que surge das cinzas da antiga Fênix para ser o portador de Luz de um novo ano.

É em tal mito que aprendemos a origem do visco, uma narrativa contada na Escandinávia e na Islândia, particularmente em Yuletide, onde o azevinho vermelho mescla-se num efeito maravilhoso com o visco branco - um símbolo vivo do sangue manchado de escarlate pelo pecado, mas que se torna branco como a neve. A história é a seguinte:

Nos dias longínquos, quando os Deuses do Olimpo reinavam sobre a Região Meridional, Wotan e sua companhia de Deuses tinham domínio sobre o Valhal, onde os sincelos, os pingentes de gelo, refletiam o Sol de inverno em todas as cores do arco-íris, e o belo manto de neve fazia reluzir a noite mais escura, mesmo sem o auxílio da flamejante Aurora Boreal. Formavam um grupo notável: Tyr, o Deus da Guerra, ainda vive em nossa memória, pois deu nome a terça-feira em inglês (Tuesday). Wotan, o mais sábio dentre eles, é lembrado na quarta-feira (Wednesday). Thor continua conosco como o Deus da quinta-feira (Thursday). Era ele que brandia o martelo. Quando o lançou contra os gigantes, os inimigos de Deus e do ser humano, deu origem ao trovão e ao relâmpago pela força tremenda com que seu martelo batia nas nuvens. A suave Freya, a Deusa da beleza, de cujo nome derivou a sexta-feira (Friday), e o traiçoeiro Loke, cujo nome ainda vive no sábado escandinavo, são tantos outros fragmentos atuais de uma fé esquecida.

Mas jamais houve algum Deus como Baldur. Ele era o segundo filho de Odin e Freya, era o mais nobre e gentil dos Deuses, amado por tudo quanto existia na natureza. Superou a todos os seres, não apenas em bondade como também em prudência e eloquência, e era tão belo e encantador que a luz irradiava dele. Foi-lhe revelado num sonho que sua vida corria perigo, e isto pesou tanto sobre seu Espírito que se afastou da sociedade dos Deuses. Sua mãe, Freya, tendo finalmente conseguido que ele lhe contasse a causa de sua melancolia, convocou um concílio de Deuses, e todos foram acometidos por maus pressentimentos, pois sabiam que a morte de Baldur seria o prenúncio de sua queda - a primeira vitória dos gigantes, ou poderes das trevas.

Por isso, Wotan lançou runas, caracteres mágicos usados para predizer o futuro, mas tudo lhe pareceu sombrio. Não conseguiu obter delas um conteúdo esclarecedor. O “Vaso da Sabedoria”, que poderia servi-los na sua necessidade, estava sob a guarda de uma das Parcas, as Deusas do Destino e, por isso, não podia ajudá-los agora.

Ydun, a Deusa da Saúde, cujas maçãs douradas conservavam os Deuses sempre jovens, tinha sido traída e caíra em poder dos gigantes pelo traiçoeiro Loke, o espírito do mal, mas foi-lhe enviada uma delegação para consultá-la sobre a natureza da doença que ameaçava Baldur, se é que seu caso pudesse ser atribuído a uma doença. No entanto, ela respondeu somente com lágrimas e, finalmente, após um solene concílio realizado por todos os Deuses, decidiu-se que todos os elementos e que tudo quanto existisse na natureza prestariam um juramento de jamais prejudicar o bondoso Deus. Isso ficou estabelecido e todos firmaram a promessa, exceto uma planta insignificante que crescia a oeste do Palácio dos Deuses; ela parecia tão delicada e frágil que os Deuses a julgaram inofensiva.

Não obstante, a mente de Wotan fazia-o suspeitar que nem tudo estava certo. Pareceu-lhe que as Parcas da boa sorte se tinham afastado. Por essa razão, ele decidiu visitar uma famosa profetisa chamada Vala. Ela era o espírito da terra e, por ela, aprenderia o destino reservado aos Deuses, mas não recebeu nenhum consolo dela e voltou ao Valhal mais deprimido que antes.

Loke, o espírito do mal e da traição, na realidade era um dos gigantes ou poderes das trevas, mas vivera durante certo tempo com os Deuses. Era desleal, em quem nenhum dos lados podia confiar, por isso, tanto os Deuses como os gigantes desconfiavam dele e o desprezavam. Um dia, enquanto ele estava sentado lamentando a sua sorte, uma densa nuvem elevou-se do oceano e, pouco depois, a figura sombria do Rei Gigante saiu dela. Loke, aterrorizado, perguntou o que o trouxera àquele lugar. O monarca começou a censurá-lo pelo papel desprezível que ele, um demônio por nascimento, estava desempenhando ao consentir em ser o instrumento dos Deuses em sua luta contra os gigantes, dos quais ele, Loke, devia sua origem. Não tinha sido por afeição que ele fora admitido na sociedade dos Deuses, mas sim porque Wotan bem sabia da desgraça que ele e sua descendência acarretariam sobre eles, os Deuses, e pensou que ao granjear a sua amizade poderia adiar o dia fatal.

Loke, que por meio do seu poder e astúcia poderia ter-se tornado um líder em ambas as partes, era agora menosprezado e rejeitado por todos. O Rei Gigante censurou-o ainda por já ter frequentemente salvo os Deuses da ruína chegando até a fornecer-lhes armas contra os gigantes, e finalizou, apelando ao ódio que se inflamava em seu íntimo contra Wotan e toda a sua raça, que o seu lugar natural era entre os gigantes.

Loke reconheceu a veracidade de tudo e prontificou-se a ajudar os seus irmãos por todos os meios ao seu alcance. Então, o Rei Gigante disse-lhe que o momento era propício para selar o destino dos Deuses; que se Baldur fosse morto, seguir-se-ia, mais cedo ou mais tarde, a destruição dos demais, e a vida do bondoso Deus estava naquele momento ameaçada por algum perigo ainda desconhecido. Loke replicou que a ansiedade dos Deuses já tinha chegado ao fim, pois Freya tinha obrigado a tudo quanto existia na natureza a prestar juramento no sentido de não prejudicar o seu filho. O monarca negro disse que uma só coisa havia sido omitida. No entanto, ninguém sabia o que se ocultava no coração da Deusa. Então, o Rei Gigante voltou a mergulhar no seu abismo escuro e deixou Loke entregue aos seus pensamentos ainda mais sombrios.

Depois disso, Loke, tendo assumido a aparência de uma mulher idosa, apareceu diante de Freya e, graças a sua astúcia, arrancou dela o segredo fatal, isto é, que julgando ser o visco uma planta de natureza tão insignificante, ela deixara de obter da humilde florzinha a promessa que todos os demais tinham feito. Loke, sem perder tempo, dirigiu-se ao lugar onde o visco crescia e, arrancando-o pelas raízes, entregou-o aos anões, que eram hábeis ferreiros, para que o transformassem numa lança.

Fórmulas mágicas foram usadas na confecção dessa arma, e quando a lança ficou pronta, exigiu-se sangue para temperá-la. Uma criança, totalmente pura, foi trazida e um dos anões mergulhou a lança em seu peito e cantou:

Escutai o estertor da morte,

Ho! Ho! Já terminou

Temperai logo a espada

No sangue puro do infante.

Usai a ponta afiada

Para fazer-se a sangria.

Tal façanha consumada

Temperar o aço até podia.

Nesse ínterim, os Deuses e os bravos mortos que estavam reunidos a eles para um torneio a fim de convencer Baldur de quão infundadas eram as suas apreensões, agora que julgavam estar sua vida protegida por um sortilégio, fizeram dele o alvo de todas as suas armas e o alvejaram.

Loke também se encaminhou para lá levando a lança fatal e vendo Hoedur, Deus cego e forte, apartado dos demais perguntou-lhe por que não honrava o seu irmão Baldur alvejando-o também. Hoedur justificou-se alegando a sua cegueira e a falta de uma arma. Loke colocou, então, em suas mãos a lança encantada, e Hoedur, sem suspeitar da intenção criminosa, trespassou o peito de Baldur com a lança feita do visco, e este tombou sem vida para grande pesar de todas as criaturas.

Baldur é o Sol do verão, amado por tudo quanto existe na natureza, e no Deus cego, Hoedur, que o mata com a lança, reconhecemos facilmente o signo de Sagitário, pois quando o Sol entra naquele signo em dezembro (Hemisfério Norte), emite uma luz muito fraca e, por essa razão, dizemos que ele é morto pelo Deus cego, Hoedur. O arco de Sagitário, como representado no zodíaco do sul, apresenta simbolicamente a mesma ideia que a lança na história dos Eddas.

A lenda da morte de Baldur ensina-nos a mesma Verdade cósmica em todos os outros mitos de natureza análoga, isto é, que o Espírito Solar deve morrer para as glórias do Universo quando, a exemplo de Cristo, entra na Terra para trazer-lhe vida renovada, sem a qual todas as manifestações físicas cessariam no nosso planeta. Da mesma forma que a morte aqui precede um nascimento nos reinos espirituais, também ali há uma morte no plano espiritual da existência antes que ocorra um nascimento em um corpo físico. Como Osíris no Egito é morto por Tífon, antes que Horus, o Sol do Novo Ano possa nascer, Cristo também deve morrer para o mundo superior antes que Ele nasça na Terra, trazendo-nos o necessário impulso espiritual anual. Mas, a nossa Sagrada Estação não comemora nenhuma manifestação maior de Amor do que aquela simbolizada pelo Visco. Sendo fisicamente de uma extrema fragilidade, ele adere ao carvalho, que é o símbolo da força. É a própria fraqueza do mais fraco dos seres que trespassa o coração do mais nobre e bondoso dos Deuses, para que, compelido pelo seu amor aos humildes, ele desça em direção à escuridão do submundo, como Cristo que, por amor a nós, morre anualmente para o mundo espiritual e nasce em nosso planeta impregnando-o novamente com Sua Vida e Energia radiantes.

(Pergunta 165 do Livro Filosofia Rosacruz por Perguntas e Respostas vol. II, de Max Heindel)