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A felicidade está onde não a pomos

A felicidade está onde nós a pomos

Parafraseando uma frase de um poema de Vicente de Carvalho: "A felicidade está onde nós a pomos, mas nós nunca a pomos onde nós estamos". Conforme o hábito, os poetas são também sábios. Em verdade, estes dois versos resumem admiravelmente o sentido comum do viver humano. Fazemos da Felicidade uma utopia, colocado distâncias no caminho, esquecidos de que, ao chegarmos ao seu encontro, de novo a empurramos para mais adiante. Com isso, a vida, chegará ao fim, e a Felicidade nunca chegará ao viver da criatura.
É necessária uma alteração em nosso modo de pensar, a luz da Filosofia Rosacruz. A Felicidade não pode ser procurada, tão pouco localizada no espaço ou no tempo. Ela é simplesmente – ou pelo menos deveria ser – o produto do viver momento a momento, segundo nossa voz interna. Não nos é dado penetrar de imediato nos "portais dourados", transpostos os quais nos inundaria o éden incomensurável de paz e ventura. Se "somos deuses em formação", não podemos fugir ao percurso do caminho que conduz a essa perfeição. Enquanto isso, toca a criatura, sobretudo, viver o papel da criatura, afrontando as limitações que a vida terrena naturalmente impõe, dentre os quais, permanentes solicitações da Mente, a chamar o ser humano para uma vida cheia de vazio, para a ilusão dos sete pecados capitais, especialmente a miragem do "acumular tesouros na Terra". De fato, os almejados tesouros nos vêm às mãos. Mas como somos "peregrinos neste mundo" e estas aquisições pertencem ao mundo, acabamos ficando "de mãos vazias".
Ao final de tudo, parece haver falta de compreensão mais profunda da vida, do "por que, afinal, nos achamos aqui". Em termos psicológicos, a afirmação da individualidade é imprescindível à vida da criatura. Cada ser é único na Obra de Criação, e como único deve viver entre os demais, a todos ligado pelo traço do Amor – como bem o conclui Erich Fromm.
Entende-se a afirmação individual como sendo a realização, pela pessoa humana, de seus pendores mais profundos, representados por energias naturais que não podem ser desconhecidas, nem reprimidas. Essas forças não são, em si, nem boas, nem más. O uso que delas fazemos é que lhes imprime esta ou aquela coloração, segundo o caráter do nosso comportamento.
É claro que essa realização pessoal implica a mais ampla liberdade de escolha pelo indivíduo. Do contrário, haveria o risco de "sermos" outrem, diferente de nós mesmos, criando-se um artificialismo pernicioso para a saúde mental. É a partir dessa importante conclusão da Psicologia, que a Pedagogia se encaminha para o revolucionário sistema de Educação, conhecido como "liberdade orientada". A criança cresce "conhecendo-se", através do estudo e de trabalhos práticos adequados ao "despertar" de vocações, de modo que em nada se prejudique o viço da flor natural que deve desabrochar.
O bom uso da energia que a Natureza assim coloca a disposição da criatura faz com que o manancial que a produz se torne cada vez mais abundante, porque "a quem mais tiver, mais ser-lhe-á dado". E o ser humano, assim disposto em uníssono com as vibrações cósmicas, poderá experimentar um estado de íntima satisfação que muito terá de Felicidade, coroada pela certeza de que "quem mais der, mais receberá" e "quem quiser ser o maior, deverá ser o servo de todos".
É princípio da Física que "a inércia não existe". Decorre dai que "não paramos". Ou estamos progredindo, ou regredimos, na caminhada. Conhecendo-se e realizando-se, encaminha-se a criatura para a comprovação das palavras de Cristo, segundo as quais "as obras que eu faço, vós as fareis, e maiores ainda".
A partir da certeza de que, durante uma encarnação, existe para o ser humano necessidade interna de expressão constante, pode-se vislumbrar uma possível causa de os manicômios andarem cada vez mais povoados, bem como de crescer o número de suicídios, especialmente nos países mais adiantados. Parece que o conforto trazido pela Técnica se transforma em ócio para o indivíduo, tirando-lhe a oportunidade de utilizar as energias de que naturalmente dispõe. A serenidade do artesão parece que decorria do prazer de criar com as próprias mãos. Agora a máquina faz quase tudo. Pouco sobra ao ser humano de oportunidade para autoafirmar, especialmente no trabalho. Então, a vida inconformada com a imposta inércia, contraria as leis naturais de tudo quanto é vivo, rompe os diques e foge, ou para o hospício, ou para o suicídio, como saída para a torturante angústia em que se vai transformando o viver.
Evidentemente, a máquina tem seu lugar próprio na vida humana. A criatura é que precisa desenvolver preparo para viver ao lado dela, não se deixando absorver, "matar". O tempo a mais deixado ao ser humano com o advento da máquina no trabalho, ele pode aplicá-lo no cultivo de fatores capazes de preencher esse vazio de ordem psicológica, até que entre a espiritualidade criadora a fazer parte atuante da vida humana do comum das pessoas.
Em resumo, tudo quanto existe e vive, vive porque tem vida na Natureza. Se para todas as coisas existe maravilhosa harmonia, para o ser humano, em especial, também existirá, desde que se prontifique ele a integrar-se na posição cósmica que lhe cabe e viver as leis profundas da própria vida.
Dessa forma, jamais procurará a Felicidade, pois esta lhe virá por acréscimo, nascida da compreensão de que não é mais feliz aquele que não tem preocupações, mas quem, encarando-as como próprias à vida, coloca-as no lugar devido, certo de que depois da tempestade vem a bonança, e que tempestade e bonança são igualmente partes da Criação.
(Revista: Serviço Rosacruz – 10/64 – Fraternidade Rosacruz – SP)