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O Exercício da Vontade

O Exercício da Vontade

Costuma-se dizer,na experiência popular, que “a virtude reside no meio termo”. É verdade.

Nos dias atuais notamos um lamentável afrouxamento na vontade, na fibra de nossas crianças e jovens. E a causa é evidente,se bem que a maioria dos pais não a enxerguem.

A geraçãopassada se diz sacrificada. Sua educação foi severa. Os pais eram duros, não havia quase diálogo entre eles. Ométodo era o de imposição e obediência. Um extremo, evidentemente falho, do ponto de vista dapsicologiaeducacional.

Por sua vez, aqueles filhos foram para o outro extremo, igualmente falho, de poupar seus filhos, de permitir-lhe intimidades exorbitadas, na presunção de estar corrigindo as falhas de educação pelas quais antes passaram. E aquilo que fazem com amor, com boa intenção, converte-se num entrave para o futuro dos pequenos, porque a educação deve prepará-los para participar positiva e eficientemente da sociedade, encontrando nos desafios da existência motivos de exteriorizar sua iniciativa, recursos internos, valor moral, persistência, discernimento e outras qualidades que um lar bem formado deveincutir na criança, nessa tarefa diária e paciente da educação.

Para acentuar essa falha, temos o concurso da técnica moderna, que veio facilitar a vida do lar. Hoje ninguém mais corta lenha, nem carrega água, nem alimenta animais de carga. Inúmeros afazeres têm utensílios dos mais engenhosos para economizar o tempo e energia, seja nas tarefas domésticas, seja nas industriais e comerciais. Até a técnica depende do uso que dela fazemos.

A lei natural é esta: “o exercício faz o órgão”. Aquilo que não se exercita, atrofia-se. Observe-se como o braço fraturado fica depois que lhe tiram o gesso: amarelo e fino, com apenas 40 dias. A mesma lei rege a inatividade mental e moral. Há muitas maneiras de desenvolvermos a fibra, o hábito da atividade, em nossos filhos. Mas todas elas exigem exemplo. O pai indolente não tem força moral para sequer recomendar ao filho o exercício e atividade. Está provado que a higiene mental não consiste em parar, senão em fazer coisa diferente. Um intelectual deve realizar trabalho manual ou fazer caminhada em horas de folga. É a melhor terapia. Em casa há sempre algo a ser feito, conservado ou reparado.

Desgrudemo-nos da poltrona de televisão e, sem falar nada aos filhos, tomemos uma latinha de tinta e uma trincha para pintar. O filho certamente nos acompanhará, desejoso de imitar, de ajudar. Ai está à oportunidade, então. Em vez de o mandarmos embora com um berro, demos-lhe uma lixa de ferro e encimemos-lhe como remover a ferrugem das partes oxidadas.

Façamos junto com ele. Se ele errar, não gritemos. Isso pode formar um complexo. Ao contrário, digamos que é natural errar, num principiante. Depois ensinemos como passar o zarcão e qual o seu papel conservador. Depois pintemos com ele. A confiança demonstrada, o companheirismo, o fato da criança fazer algo que apreciemos, aumenta-lhe a confiança em si próprio, desenvolve a afeição em nós e possibilita o diálogo, sem perda do respeito e preenchendo integralmente as normas de uma educação correta.

Mil e uma formas do gênero, a vida cotidiana nos oferece: ir à feira com os filhos, mostrar-lhes como comprar, como selecionar a qualidade, como encontrar os melhores preços. Só essa tarefa envolve experiência, exercício físico, gosto de ajudar os pais, etc. Mas não deve ser forçado. Aliás, o normal é a criança desejar fazer as coisas com os pais. Se não deseja é porque houve falhas. Como diz Pestalozzi: “as deficiências dos alunos devem ser atribuídas ao professor”. Ele é que, no dizer de Comenius, deve avaliar que “a medida do aprendizado está no que o aluno aprender e não no que o professor pode ensinar”. Esse respeito às limitações de idade, de compreensão deve ser tomado em conta pelo educador.

Porém, não reside aí às causas mais profundas, a deficiência maior da educação. Ela está é no mau exemplo dos pais, na indiferença afetiva ou no amor mal compreendido. Os pais não têm direito de dar mau exemplo. Uma vez que conscientemente aceitaram a missão de educadores, perderam o direito de fazer o que bem entendem sem levar em conta se estão sendo ou não observados e imitados. E se o fazem, são irresponsáveis ou criminosos. Não tem, em verdade, capacidade moral para casar-se, pois, a finalidade precípua do casamento é a formação da família.

A indiferença afetiva é a criadora do “play boy”. O pai se ocupa com os seus negócios e diletantismos; a mãe por outro lado, dos dela. A obrigação com os filhos – julgam eles – está cumprida com a manutenção dos estudos (verniz intelectual) e uma mesada. O problema já foi explorado e analisado por todos os ângulos. Nem cabem mais comentários.

O amor mal compreendido, já o dissemos, é, principalmente, a
poupança de esforços, a intimidade exagerada, o mínimo, a insinuação de preconceitos.

Todas as falhas se refletem como consequências prejudiciais. A sociedade aí está para análise de todos. Pelos frutos se conhece a árvore. Quem tem olhos veja, mas não critique. Trate isso sim, de buscar os seus defeitos, ler, estudar o assunto, discutir, ouvir as palestras da fraternidade, a fim de capacitar-se a assumir a responsabilidade que lhe cabe como pai e cidadão com a respectiva parcela de erros, no conjunto dos erros da sociedade de que faz parte.

(Revista Serviço Rosacruz – 02/68 – Fraternidade Rosacruz – SP)