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Duas formas de Caridade

Duas formas de Caridade

Duas são as formas de exercer a caridade: anímica e material. Esta que podemos chamar beneficência consiste em distribuir por certo número de nossos semelhantes o pão material, dar-lhes o nosso apoio, socorrê-los nas suas necessidades. Aquela, porém, que abrange a totalidade da humanidade deve abraçar a todos as que participam de nossa existência neste mundo. Não mais consiste em esmolas, porém numa benevolência que deve envolver todos os ser humanos, desde o melhor dotado em virtudes até ao mais criminoso.

A verdadeira caridade é paciente e indulgente. Não ofende e nem desdenha pessoa alguma; é tolerante e mesmo procurando orientar a outrem, o faz sempre com doçura, humildade, sem maltratar e sem atacar ideias enraizadas. Esta caridade, porém, é rara.

Certo fundo de egoísmo nos leva, muitas vezes, a observar, a criticar os defeitos do próximo sem primeiro reparar nossos próprios defeitos. Existindo em nós tantas imperfeições, empregamos ainda a astúcia em fazer sobressair às qualidades ruins dos nossos semelhantes. Por isso, não há verdadeira superioridade moral ou anímica sem caridade e modéstia. Não temos o direito de condenar nos outros as faltas que nós mesmos estamos expostos a cometer, contudo, devemos lembrar-nos que houve tempo em que nos debatíamos contra a paixão e o vício.

Conhece-se o ser humano caridoso, não tanto pelos seus atos públicos; mas, e principalmente, pelas suas obras e atos exercitados as ocultas, longe das vistas do mundo.

Devemos sempre preferir, aos aplausos dos seres humanos o assentimento da nossa consciência, que é a manifestação sensível da aprovação dessa lei moral, escrita no nosso ser espiritual.

Mesmo o Cristo já se tinha pronunciado a este respeito aos seus discípulos: “guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis a recompensa da mão de vosso Pai que está nos céus. Mas, quando derdes a esmola que vossa mão esquerda não saiba o que faz a direita”.

Difícil é, para o frágil ser humano deste mundo, tão baldo de virtudes, a prática dessa caridade aconselhada por Cristo Jesus, porque ela exige de quem a pratica uma grande soma de desprendimento, coragem e intrepidez. A caridade, essa que brota, que nasce do amor e tem suas raízes no ser moral, na alma, impõe a imolação de todos os maus e baixos sentimentos que tanto degradam o ser humano.

A caridade na sua mais ampla expressão, na sua mais alta cultura abrange o universo, a totalidade das criaturas, estende-se a todos os seres. Não tem pátria, não é sectária, não conhece bandeiras, marco divisório e nem fronteiras; porque todo o universo é sua pátria, toda a humanidade sua família. Ela é a irmã caridosa de todas as criaturas e a elas une-se em doce e amorosíssimo consórcio acompanhando-as, seguindo-as através das vicissitudes da existência; ora guiando-as as devesas sorridentes da esperança e da fé; ora auxiliando-as, ajudando-as, qual corajoso cireneu a carregar a cruz pesadíssima das provações; ora a desviá-las dos abismos cavados a seus pés pelas injunções dos maus e os estímulos da carne.

Livrai-nos de fazer sofrer a quem quer que seja, mesmo por uma palavra insignificante ou por um simples olhar, pois que o sublime da caridade está, muitas vezes, naquilo que passa despercebido às vistas dos seres humanos. Lembrai-vos que nem sempre a soma grandiosa da dádiva traduz a verdadeira caridade, mas que ela transparece e se afirma no insignificante óbolo feito com sacrifício e desprendimento. E, a este respeito, ouçamos as judiciosas palavras de Cristo Jesus, com referência à pobre viúva que, no templo de Jerusalém, após as largas espórtulas deitadas no gasofilácio pelos ricos deitou por sua vez uma diminuta moeda de cobre: “Na verdade vos digo que mais deitou esta pobre viúva do que todos os outros, porque todos deitaram no seu supérfluo, porém esta deitou da sua mesma indigência tudo o que tinha e tudo o que lhe restava para seu sustento”.

Fazei sempre acompanhar a vossa esmola de doce e carinhoso olhar, que traduz fielmente à emoção de vossas almas. E mais edificante seria ainda, como diz um escritor, que aos prestardes um benefício, o fizésseis de tal modo que se julgasse que fostes vós o beneficiado. Continua ele: “Dai sempre, sem muito indagar se o que recebe é digno da vossa esmola; dai primeiro, indagai depois: lembrai-vos que os frutos da caridade são muitas vezes tardios, que a verdadeira dedicação não conta com os frutos quando planta a semente ou quando enxerta o arbusto. Generalizei e engrandecei, pois, o sentimento de que vos falo, derramando-o sobre todos”.

 

(Revista Serviço Rosacruz – 11/68)